terça-feira, 3 de março de 2020

Casa de Passagem para os indígenas


Todos os anos é a mesma coisa. Os povos originários de várias partes do Brasil caminham em direção à praia para vender seus artesanatos. Aproveitam a temporada e o fluxo de turistas. Essa é a forma que eles encontram para melhorar as suas condições de vida, já que muitas vezes estão em terras ruins, com pouca produtividade e sem condições de garantir a existência. Vender sua arte não é a melhor opção, mas acaba sendo um caminho para a sobrevivência.

Em Florianópolis há oito anos que as comunidades lutam para garantir uma Casa de Passagem, ou seja, um lugar onde possam ficar em segurança com suas famílias durante o período das vendas. Afinal, não são poucas as tragédias que acontecem com os indígenas quando estão sozinhos, desabrigados e desamparados nas cidades que lhes são hostis. A saída encontrada pela prefeitura da capital foi oferecer um velho terminal de ônibus desativado, totalmente inadequado. Não há cobertura, banheiros, enfim, condições mínimas, mas é o que as comunidades têm até agora. A cada ano que passa acontecem conversas e negociações. E sempre fica a promessa de que “para o ano” a casa estará pronta. Nunca está. 

A luta dos povos indígenas tem na cidade alguns bons parceiros, como é o caso do mandato do vereador Lino Peres, que tem acompanhado desde há cinco anos essa cansativa batalha. A prefeitura apresentou uma proposta de construção de uma casa ao lado mesmo do terminal onde hoje eles estão abrigados, mas nada saiu do papel. Agora, em 2020, mais uma temporada vai se encerrando e os indígenas seguem tendo de viver de maneira precária no velho terminal. Como sempre, eles realizaram marchas e distribuíram panfletos à população, exigindo um tratamento digno. Nessa missão o apoio tem sido o do Movimento de Luta pela Moradia, que se solidariza concretamente, ajudando na organização, entendendo que a aliança entre indígenas e trabalhadores é fundamental na luta contra o capital.   

Não faltam, é claro, as atitudes violentas e racistas de gente que simplesmente não entende a realidade indígena e que se coloca contra a construção de uma casa de passagem. “Leva pra sua casa”, dizem nas redes sociais, como se a solidariedade que movimentos e pessoas prestam aos indígenas fosse algo ofensivo. É óbvio que “levar para casa” não é o caminho para as famílias originárias que realizam esse interminável êxodo a cada verão. Elas precisam é de respeito aos direitos que têm. Os povos indígenas são os primeiros donos dessa terra, que foi roubada violentamente, com um sistemático processo de extermínio das comunidades. O mínimo que eles exigem é uma casa onde possam dormir e descansar da sua forçada peregrinação, afinal, se suas terras fossem garantidas e seu modo de vida respeitado, eles não precisariam andar por aí vendendo aquilo que é essência de suas existências: a arte e a cultura.

Mais um ano se passa e a luta continua. As famílias irão embora, mas alguns indígenas ficarão, porque entendem que sem a presença e a pressão, aí mesmo é que nada anda. Por isso, eles também reivindicam melhorias no terminal onde estão agora, para que seja mais confortável. Os indígenas não estão pedindo favor algum. É o mínimo que a prefeitura pode fazer por eles enquanto não entrega a casa de passagem. 

E para os racistas de plantão que insistem em dizer que a cidade não tem nada a ver com isso é bom lembrar que os territórios originais dos povos indígenas se estendem por todo o continente, e que eles não reconhecem as fronteiras que foram erguidas pela invasão colonial e depois pela balcanização da América. Nenhum deles gostaria de estar nessa peregrinação, ninguém queria estar vendendo mercadorias, mas, esse é o legado que a colonização deixou e que as repúblicas que vieram depois não tiveram interesse em mudar. Os povos originários estão em luta para sobreviver, seja no território que lhes é direito, seja em qualquer outro lugar.


quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Antes do coronavírus, o quê?




O Brasil segue em vertigem.  Não que fosse muito diferente antes, mas é impossível não ver que desde o primeiro de janeiro de 2019 foi dado uma espécie de sinal verde para a barbárie. Tudo está liberado. Matar índio, matar gay, matar povo da umbanda e do candomblé, seguir caçado e matando jovens negros nas favelas, matar sindicalista, matar político. Está tudo bem. O Ministro da Justiça aparece na televisão e vaticina: está tudo sobre controle. E está mesmo. Sob o controle da mais avassaladora sanidade do capital.

A conjuntura latino-americana já vem mostrando sistematicamente que não há mais espaço para a democracia burguesa no mundo do capital. Aquele arremedo de liberdade, no qual as pessoas se sentiam decidindo alguma coisa através do voto, já  não pode mais ser tolerado. A voracidade do sistema se acirra e é preciso mão-dura em todos os aspectos da vida. É por isso que os golpes se sucedem seja contra governos de esquerda, como nos de direita. É preciso cerrar todas as portas ao povo. Esse alerta foi dado ainda em 2004, com a invasão do Haiti e veio caminhando com o golpe em Honduras, no Paraguai, no Brasil. O professor Nildo Ouriques vem alertando desde há tempos: o que precisa ser visto e combatido não são os governos em si,  mas o sistema. Só que essa é uma verdade difícil de assimilar. E o que se vê são movimentos e partidos tentando humanizar o capital.

Agora, no Brasil, o governo federal escancara as portas para a violência, tanto pessoal quanto corporativa. Tudo está validado. Desde matar a mulher que não que não nos quer  até as comunidades que atrapalham a mineração e a pecuária. Incomodou? Elimina! Como se fosse um inocente Big Brother . O poder aplaude todas as iniciativas que levem a medidas de exceção. É tudo que se quer, criar o caos para que a sociedade mesma peça pelo salvador.

Mais uma jogada nessa direção entra em cena, em pleno carnaval,  quando ministros do governo e até o mandatário nacional chamam o povo às ruas para se manifestar pelo fechamento do Congresso Nacional. Um lance de mestre. O Congresso, que é um consolidado antro de pessoas que não se importam para nada com a maioria da população é, de fato, um espaço indefensável.  Lá, não há qualquer chance para as pautas populares. Tudo é definido no andar de cima, para o bem dos grandes grupos econômicos  nacionais e internacionais.

A queda de braço do governo federal com o Congresso é uma briga de cachorro grande. Não diz respeito à maioria da população e não tem nada a ver com democracia ou liberdade. É um enfrentamento intraclasse dominante para ver quem fica com o bolo todo. O governo – que se ampara nos pilares de parte dos militares e igrejas evangélicas – quer que o Congresso aprove tudo o que encaminha e se há disputa de poder aí, bom, inicia-se a batalha pela hegemonia de poder.  De maneira bastante inteligente, como já  fez o presidente de El Salvador, o executivo convoca o povo às ruas para apoiar medidas de força, forçando a barra com as instituições. O judiciário já está dominando e mesmo que chamar à destituição do Congresso seja inconstitucional, quem vai julgar? Ora, esse é o jogo democrático. Ou as pessoas não sabiam disso?

E assim, com pequenos – mas barulhentos - espetáculos os homens do poder vão tramando o tabuleiro do jogo. Pode ser que nem precise fechar o Congresso, porque na verdade isso não importa. Assim como não importa ter ou não um STF. O que vale é apertar a soga para ver quem desiste primeiro. No fundo, toda essa gente quer a mesma coisa: defender o capital a qualquer custo, ainda que para isso 99% da população tenha que se explodir em miséria, fome, desemprego, doença. E, o mais dramático é saber que entre esses 99% tanta gente há que seria capaz de dar a vida por essa gente, acreditando que tudo o que querem é o seu bem.

Passado o carnaval a vida real começa de verdade no Brasil, então vai ser a hora de inventar novos factoides, tal como espichar a histeria pelo coronavírus ou qualquer outra desgraça, mantendo as pessoas atadas ao medo. O medo é bom para quem governa. O medo é tudo.

Nesse ínterim vamos tentando manter a cabeça fora da merda, esperando que partidos e movimentos coletivos, de esquerda, apontem caminhos para além dos memes. Porque, não se iludam: não há saídas individuais. Ou vamos juntos, ou sucumbimos.



A demência e a noite



Não existe glamour ou beleza na demência senil. É um drama gigantesco que sucumbe com a vida de quem tem e de quem cuida. Isso porque o velho não é criança. Ele ainda tem parte de sua autonomia, de seus quereres. Raramente pode-se impor algo a ele. Emburra, empaca e tudo fica pior. Tudo tem de ser negociado. E isso é um processo de grande estresse, porque é um repetir-se, repetir-se e repetir-se,  à exaustão. 

No geral, a parte da noite é que é mais dura. Durante o dia, com a luz do sol e o movimento da vida, as coisas são mais fáceis de lidar. Até mesmo o mantra do “quero ir embora” a gente vai resolvendo, seja com o canabidiol ou com alguma dose de matreirice. Vamos desenvolvendo estratégias de envolvimento, passeios, conversas, brincadeiras. 

Mas, quando a noite chega e todos desaparecem, é a hora noa do cuidador. Primeiro porque ele já passou o dia inteiro envolvido com o doente. Além disso, no geral, o cuidador ainda trabalha, o que significa que precisa dar conta da vida laboral, com toda a sua complexidade, Por isso não é incomum que a pessoa passe a cometer erros, e a se esgotar fisicamente.  Assim, depois de passar por todo esse processo de trabalho e cuidado durante o dia, o cuidador terá de enfrentar, sozinho, a “mala noche”.

É comum na demência a deambulação, que é o andar sem razão. Isso fica pior no período noturno.  A pessoa anda sem parar e não aceitar deitar. Mesmo quando o sono chega e se percebe que a pessoa está exausta, ela não aceita descansar o corpo. E não há palavras que se possa usar para convencer ao descanso, creio eu que é uma coisa química, que dá no cérebro. É desesperador. A gente prepara tudo, o ambiente, a luz, o cheirinho de lavanda, os chás, mas nada resulta. 

Com o pai já tentei quase todos os remédios que existem para dormir. Cada um deles detona crises horrorosas de delírios, alucinações e quedas. É devastador. Uma impotência tão grande ver o pai da gente naquele nível de sofrimento. Acaba que nem dorme, nem descansa, pelo contrário, fica pior. Já tentei Neozine, Risperidona, Clonazepan, Donaren, e todos apresentaram o mesmo resultado. Nada de sono. Só sofrimento. É ruim porque se a pessoa não dorme, quando chega o dia, fica dormitando e todo o humor fica afetado. Sem sono  a demência piora. E o cuidador, que também não dorme, parece que também vai adquirindo parte da demência. A vida se deteriora. 

É assim que vai se criando também uma espécie de pavor da noite. Quando a barra do dia cai, é como se um grande manto escuro, carregado de dor, começasse a cair sobre nós. As horas vão se arrastar, a pressão vai subir, o desespero vai crescer naquela espera que finalmente venha o dia. 

O mais engraçado nisso tudo são os conselhos das pessoas próximas: Tu precisa dormir, não podes ficar assim, há que encontrar um jeito. Só que não há jeito. Não há com quem dividir a dor e muito menos os cuidados. Estamos sós nessa jornada. E, na medida em que vamos acabando também doentes – do corpo e da alma - mais isoladas ficamos, pois ninguém quer se contaminar com tanta desgraça. 

Sim, é duro. Não há amparo na família, nos amigos, no estado, na medicina. É uma caminhada alucinante, algo que ainda não pude entender. E nisso, vamos definhando, vendo aqueles a quem amamos mergulhados num mundo a parte, nos puxando para dentro dele a cada noite que passa. É um morrer abigarrado – doente e cuidador. Um sofrimento atroz. Há janelas de beleza? Sim, há, mas há que ter muita capacidade de percebê-las no cotidiano avassalador. Coisa que não é para qualquer um. A saída que tenho encontrado é viver o possível, com intensidade, sabendo que é pouco. Lapsos de alegria, uma música, uma cachaça, um filme, um poema. Tudo isso num tempo em que há igualmente uma noite escura na vida política e social. Não é fácil.

Ainda assim, vamos caminhando, desenhando o caminho. Sabe-se lá onde isso tudo vai dar. 



sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

A mídia dos trabalhadores na cidade de Florianópolis

Fotos: Rubens Lopes


Fazer jornalismo em Florianópolis não é coisa fácil. Até bem pouco tempo o oligopólio formado pela empresa gaúcha RBS detinha a hegemonia, abarcando não apenas a capital, mas toda Santa Catarina. Sua ligação visceral com o poder político instituído fazia dela o braço armado comunicacional da oligarquia local. Enfrentar essa massa uniforme de propaganda oficial sempre foi um desafio. Ainda assim, ao logo dos tempos, alguns jornalistas em particular e algumas experiências de comunicação comunitária ou popular conseguiram dar à sociedade outra mirada sobre os fatos, ainda que com dificuldades e com pequeno alcance. Hoje, o controle da empresa gaúcha se esgarçou, mas as propostas hegemônicas seguem o mesmo diapasão, ligadas ao poder político e neopentecostal. A batalha é a mesma. Dura e implacável.

Pensando na história mais contemporânea da mídia popular na cidade podemos nominar a proposta levada a cabo pelo Centro de Apoio e Promoção do Migrante (Caprom), na metade dos anos 1980 que conseguiu viabilizar o Jornal das Comunidades, com o qual abria um canal de comunicação com os florianopolitanos divulgando sobre a intensa jornada de migração vivida na época. Essa leva de gente vinda do interior do estado e de outros estados da federação viabilizou uma série de ocupações urbanas, que acabaram fazendo nascer uma boa parte das comunidades de periferia da capital. O jornal era distribuído gratuitamente e era produzido por jornalistas e estudantes de jornalismo da UFSC. O debate sobre o direito à terra e à moradia se fazia por ali. 

No início dos anos 1990 surgiu no bairro do Campeche o jornal Fala Campeche, que também expressava a luta vivida na comunidade por um Plano Diretor, ampliando ainda mais a temática de interesse das gentes, discutindo terra, moradia, transporte, saúde e educação. O jornal abarcava o bairro, mas também discutia a cidade.

No final daquela década, justamente por conta do crescimento da luta popular, foi a vez da aparição da Rádio Comunitária Campeche, uma proposta de comunicação popular nascida do centro nervoso da luta pelo direito à cidade que vicejava no bairro. A rádio, criada em 1998, despontava como um oásis dentro do controle comunicacional exercido pelo poder dominante, o qual tinha sob seu tacão os principais jornais, as TVs e as emissoras de rádio locais. A Rádio Campeche passou a ser não apenas a voz da comunidade se expressando pelo ar, mas também o espaço para a divulgação das lutas dos trabalhadores e dos movimentos sociais. 

No mesmo ano de 1998, é fundada a TV Floripa, gerida por um grupo de entidades sindicais. A proposta era justamente trazer à luz todo o espectro das lutas sindicais que se faziam fortes na cidade. No início dos anos 2000, já com a consolidação das novas tecnologias, surge a Alquimídia, uma proposta  de comunicação crítica que trazia com ela também a possibilidade de criação de novos veículos, dos próprios movimentos sociais, com hospedagem solidária. Em 2004 nasce a revista de reportagem Pobres e Nojentas, que procurava ser uma referência de jornalismo de classe, focando seu trabalho nas pautas de interesse dos trabalhadores, distribuída gratuitamente nas comunidades. 

Nesse período é também de grande repercussão o trabalho do ativista Hamilton Alexandre, o Mosquito, que com suas Tijoladas, expressas num blog, trazia outros olhares sobre a política da cidade. Com ele também fazia coro o meu blog pessoal, chamado primeiro de Jornalismo Amoroso e de Libertação, transformando-se mais tarde no Palavras Insurgentes, também com o objetivo de mostrar as vísceras da cidade e as lutas dos trabalhadores. Igualmente importante foi a experiência do bairro da Lagoa da Conceição, com a criação da Folha da Lagoa, espaço de jornalismo crítico.

Mais tarde foi a vez da criação do Portal Desacato, gerido por uma cooperativa, trazendo a possibilidade de uma cobertura ampliada não apenas da cidade, mas também do Oeste catarinense. E em seguida, outras novas propostas de jornalismo independente como o do Coletivo Maruim, Catarinas, Estopim, o braço estadual do Jornalistas Livres, o Daqui na Rede e por fim a proposta da Associação das Rádio Comunitárias foram aparecendo, dando mais musculatura para o jornalismo independente que vinha sendo praticado sistematicamente por um grupo pequeno de jornalistas.  

Pois foi toda essa gente que se juntou nesta quinta-feira, dia 20 de fevereiro, para uma sessão de homenagens na Câmara dos Vereadores proposta pelo vereador Lino Peres. Um momento importante de encontro e de reafirmação do compromisso de construção de uma mídia comprometida com os trabalhadores, com os oprimidos, com os explorados da terra. Cada um dos veículos ainda em atividade recebeu um diploma de reconhecimento, e os que já não existem mais foram lembrados como deve ser, porque a luta pela soberania comunicacional é um edifício construído por inúmeras mãos de jornalistas e agentes comunicacionais que decidiram romper com a falácia do jornalismo imparcial. A memória histórica não pode nem deve ser apagada, porque essa luta não começou agora.

No capitalismo vivemos uma guerra de classes e é importante que a sociedade saiba que existe uma mídia que se emparelha com os dominadores e outra que atua irmanada com os trabalhadores. É uma batalha comunicacional travada cotidianamente. Claro que os veículos de comunicação independentes, populares e comunitários têm muito menos alcance e eficácia na relação com os meios de massa, mas eles seguem firmes na resistência até que chegue o dia em que os trabalhadores realizem a revolução e os meios de comunicação sejam controlados pela maioria. 

A sessão promovida pelo vereador Lino Peres, muito mais do que amaciar egos, foi o encontro de parceiros e parceiras que trabalham pela transformação. E, para além disso, a oportunidade da reafirmação pública desse compromisso coletivo, generoso e revolucionário. Na guerra de classe, estamos todos – os que lá compareceram, os que já passaram e os que chegam agora - na trincheira dos trabalhadores e como afirmou a jornalista Paula Guimarães na sua fala, representando todos nós: 

“... é um erro pensar que somos poucos ou poucas, preocupadas com construir uma narrativa anti-hegemônica. A cada dia somos muitas e muitos que, de maneira coletiva e em redes, nos movemos na contramão das fake news e na luta por uma democracia de fato e direito, só possível com a edificação do poder popular. Teorias e práticas atentas a desestabilizar verdades legitimadas sob violências são nossa maior potência. Por isso, governos autoritários não nos querem por perto. E não estaremos mesmo. Nosso lugar é do outro lado da trincheira”.

A mídia da classe trabalhadora está viva e se move, a despeito de tudo. 


sábado, 15 de fevereiro de 2020

A nova fase do pai



O pai, apesar de já entrando nos 88 anos tem uma energia incrível. Ele passa o dia inteiro em função, andando pra lá e pra cá. Quando se aquieta é alerta. Mesmo à noite ele costuma levantar umas três ou quatro vezes. Até então tudo bem. Ele geralmente levanta e vem bater na porta pedindo café. Acha que já é de manhã. Eu levanto, explico pra ele que é de noite e ele volta para o quarto. Há duas semanas esse ritual mudou. 

Naquela noite ele não apareceu. Eu estranhei, mas não pensei em nada de mais. Ele só veio bater na porta por volta das seis horas da manhã. Eu já estava de pé. Abri a porta e dei de cara com uma cena de “Carrie, a estranha”: o pai, com a cara toda ensanguentada. Até hoje não sei de onde tirei calma para não demonstrar pavor e tentar ver o que havia acontecido. Apesar da sangueira ele tinha apenas um corte na testa, grande, mas não profundo. Não soube dizer o que havia acontecido. Quando entrei no quarto encontrei toalha, lençol, travesseiro, tudo sujo de sangue. Provavelmente ele dormiu sentado e deu com a cabeça na mesa. Única possibilidade. 

Observei então que não dava mais para deixá-lo dormir sozinho e embora ele fique brabo com a minha presença, decidi armar uma cadeira de praia ao lado da cama dele e ficar vigiando. Na noite seguinte, lá estava eu, toda torta, meio dormindo, amparando a cada vez que ele levantava para fazer xixi. Ficou furioso a noite toda, mas não arredei pé. Quando foi de manhã, já na hora de me arrumar para o trabalho, ele dormia profundamente. Sai de mansinho e fui tomar banho. Não deu cinco minutos. Quando eu voltei, lá estava ele no chão. Machucou os dois braços, se encheu de hematomas, um perigo total. Cair pode ser fatal para um velho. Que fazer? Como estar atenta o tempo todo? Que coisa difícil. 

Agora as coisas estão assim, uma nova fase, novos aprendizados e muito mais cansaço. Fico com ele a noite toda e, de manhã, quando vou trabalhar, alguém fica com ele. Vigilância total. Não é fácil, porque as noites são muito mal dormidas e logo cedo há que estar alerta e dar conta da vida. Não sei até onde vai ser possível aguentar esse batidão, mas estou indo em frente. Durante o dia, procuro dormir como posso, no ônibus, ou, depois que chego a casa, quando ele também cochila. Mas é um não-dormir, um estado de alerta o tempo todo. 

Agora ele já se acostumou com a minha onipresença durante a noite. Ainda assim, toda vez que ele desperta para ir ao banheiro, quando vê minha cabeça assomando, começa a rir e pergunta: mas o que tu tá fazendo aqui? 

Tô te cuidado, meu velhinho. Tô te cuidando. 

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Atrás do Berbigão vai até quem já morreu



O carnaval de 2020 em Florianópolis terá um grande vazio. Pela primeira vez em 33 anos não estará à frente dos festejos o alegre e querido Ernani Hulk, histórico Rei Momo da corte da alegria, que encantou em setembro do ano passado depois de uma longa luta contra o câncer. Nascido em Blumenau, ele assumiu o amor pela cidade abraçando o carnaval e por mais de três décadas arrastou a multidão pelas ruas, clubes e sambódromo. Quem vive o carnaval sabe o quanto sua figura era estimada e é justamente por isso que ele será o mais novo boneco da corte do Berbigão do Boca.

O Berbigão é o mais popular bloco de carnaval de Florianópolis, nascido em 1993 e que com o passar do tempo se transformou na festa popular mais importante da cidade, carregando pelas ruas, com alegres marchinhas, para lá de 40 mil pessoas na abertura dos festejos de Momo que acontece uma semana antes da festa oficial. 

Florianópolis já teve um dos melhores carnavais de rua do Brasil, num tempo em que tudo acontecia ao redor da Praça XV. Por ali passavam os blocos, as grandes Sociedades com seus carros de mutações (únicos no país) e as escolas de samba. Para a população a alegria era gratuita, pois não tinha que pagar nada para ver as maravilhas que se construíam ao longo do ano para apresentação no Carnaval. Com a inauguração da Passarela do Samba Nego Quiridu em 1989 as escolas foram deslocadas para lá e os desfiles passaram a ser comercializados. A rua esvaziou, mantendo-se apenas os blocos de sujos. 

E foi a nostalgia dos velhos carnavais da Praça XV que levou um grupo de rapazes a criar o Berbigão. Era o carnaval de 1992. Eles curtiam a ressaca, quarta-feira de cinzas, em frente ao mar de Coqueiros, cheios de saudade de um tempo em que a festa era na rua. Queriam também aumentar os dias de folia, agora tão protocolar. Começaram a lembrar do bloco Bacalhau do Batata, de Olinda, que sai depois que tudo acaba. Pois aqui haveria de sair antes. Logo veio à mente o berbigão, fruto do mar típico da ilha, para dar nome ao bloco e como a ideia tinha sido do Boca (Paulo Bastos Abraham), ficou “Berbigão do Boca”. O bloco sairia uma semana antes do carnaval, circulando pelas ruas do centro, sem nenhum custo para a população. 

Quando 1993 chegou lá estava o Berbigão pronto para a festa.  No começo era só um bloco, que já nos primeiros anos ia arrastando muita gente. Mas, quando em 1995 inventou de incorporar grandes bonecos no cortejo, com a construção da figura gigante do primeiro Rei Momo, o Lagartixa, pelas mãos do artista Alan Cardoso, o bloco foi ficando com cara de um Boi-de-Mamão carnavalesco e a cidade foi se apaixonando. Seguir atrás do Berbigão do Boca começou a ser de lei. Ano após ano, outros grandes bonecos foram sendo criados, de figuras importantes da cultura local que já tivessem partido para o outro plano, e hoje já são 40 deles que seguem junto à multidão, imortalizando o povo do carnaval e da cultura.  

É de alegre lembrança a eterna rainha do samba, a Nega Tide, que sempre dizia: “valhamideuzi, eu não quero virar boneco”. Pois ainda assim, virou, pois era figura imprescindível no carnaval. Claro que o que ela não queria era morrer, pois só vira boneco quem parte. E, conforme conta o Alan da Pandorga, o artista dos bonecos, só depois de cinco anos da passagem é que ele começa a confeccionar. Isso porque quando morreu o Aldírio Simões, um nome importante da cultura local, eles decidiram fazer logo o boneco para homenagear o amigo. Só que enquanto construía a figura, o boneco, do nada, se mexeu. Alan decidiu, por isso, esperar o morto esfriar bastante. Mas, esse ano, ele abriu exceção, pois não poderia sair o Berbigão sem o Hulk. E por isso mesmo já está pronto o 40º boneco, lembrando o mais querido Rei Momo da cidade. 

A farra do Berbigão do Boca, no dia 14 de fevereiro, começa ao meio dia no Mercado Público. Tem festival gastronômico, com receitas de berbigão, tem shows de todo tipo de música de carnaval e quando chega às 19 horas, a banda, formada por músicos locais, com muito sopro, sai pelas ruas arrastando o povo. A cidade se enche de alegria e as gentes de todas as idades podem curtir as velhas marchinhas e o carnaval na rua, seguindo o cortejo dos bonecos. É festa pra rachar, é uma coisa louca, todo mundo botando pra quebrar, no Berbigão do Boca, uma festa genuinamente popular.  

A folia do Berbigão do Boca foi declarada em 2008 como uma festa de utilidade pública, e em 2011 definida como Patrimônio Imaterial da cidade. 

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Aprender a lidar com o velho


O pai não andava muito bem e eu levei ele no Posto de Saúde para uma consulta. Cumprimos todas as regras. Ir para a fila de madrugada, pegar a senha e depois marcar a consulta. Claro que não levei ele para a fila. Ele ficou em casa, esperando. Com a consulta garantida o Renato levou ele. No posto é o de praxe, com alguma espera. Até aí tudo bem. Mas, ocorre que há um ar-condicionado no modo polo norte. O pai com problemas respiratórios. Uma coisa complicada. Isso sem falar nos outros doentes, com gripe e tal. Aquilo não é de deus. Mas, tá. 

A médica pediu uma radiografia do pulmão. Beleza, seguimos os trâmites da espera. O pai tomou os antibióticos e era para ver se tinha ficado tudo bem, então a espera de mais de uma semana para fazer o raio-x não complicou. Beleza. 

Hoje fomos fazer a tal da radiografia. E no meu coração assomou a certeza. Poucas pessoas estão habilitadas a cuidar de pessoas velhinhas, com demência. O moço insistia em pedir para pai encostar o queixo e o peito na placa. Ele não entendia. Eu falei: deixa eu ajudar. O moço: não, a senhora não pode entrar. E eu: Mas, moço, ele tem demência, não compreende as coisas, eu preciso mostrar pra ele como fazer, tem que ter paciência. O moço: não. E insistia em dar os comandos. O pai foi ficando nervoso, porque não entendia. Com muito custo eu convenci o moço de ficar com o pai dentro da sala. Ele me colocou uma roupa de chumbo, eu acho. E eu tentando fazer o pai fazer o que era preciso. Mas, ele já estava nervoso e com dor no braço por conta de uma queda, e não obedecia. Um climão. 

Por fim fizemos a chapa de costas, mas tinha uma que era de lado. O pai não conseguia, de jeito nenhum, erguer os braços. Doía. O moço tentou levantar, ele gritou de dor. Eu fiquei braba. - Moço, ele está com o braço luxado, não poder erguer. Quer saber, não vamos fazer essa chapa.  Foda-se. Fica só a de costas. 

O moço ficou meio brabo. Mas, porra, aquilo estava sendo uma tortura e uma confusão. E o pai foi ficando nervoso a ponto de descompensar um pouco. ´Já não ordenava mais a fala, gemia com dor no braço. Um terror. 

Resumindo a ópera. A radiografia ficou pela metade. Não sei muito bem como as coisas deveriam ser, mas creio que poderia ter alguma técnica para ajudar pessoas nessas condições. O pai, no geral, não consegue verbalizar o que está sentindo direito. Tudo tem de ser muito intuitivo. Claro que entendo que o trabalhador do raio-x está ali atendendo dezenas de pessoas por dia, às vezes até em condições ruins. Mas, haveria que ter uma capacitação sobre como lidar com pessoas assim, bem velhinhas e confusas. A nossa população está envelhecendo, isso é uma novidade, e cada vez mais  haverá gente assim. Não creio que eles possam seguir o atendimento padrão. Sei lá, algum jeito tem de ter, afinal saí sem a chapa. 

Fica a dica então para o sistema de saúde. Hoje foi difícil.