O pai não andava muito bem e eu levei ele no Posto de Saúde para uma consulta. Cumprimos todas as regras. Ir para a fila de madrugada, pegar a senha e depois marcar a consulta. Claro que não levei ele para a fila. Ele ficou em casa, esperando. Com a consulta garantida o Renato levou ele. No posto é o de praxe, com alguma espera. Até aí tudo bem. Mas, ocorre que há um ar-condicionado no modo polo norte. O pai com problemas respiratórios. Uma coisa complicada. Isso sem falar nos outros doentes, com gripe e tal. Aquilo não é de deus. Mas, tá. A médica pediu uma radiografia do pulmão. Beleza, seguimos os trâmites da espera. O pai tomou os antibióticos e era para ver se tinha ficado tudo bem, então a espera de mais de uma semana para fazer o raio-x não complicou. Beleza. Hoje fomos fazer a tal da radiografia. E no meu coração assomou a certeza. Poucas pessoas estão habilitadas a cuidar de pessoas velhinhas, com demência. O moço insistia em pedir para pai encostar o queixo e o peito na placa. Ele não entendia. Eu falei: deixa eu ajudar. O moço: não, a senhora não pode entrar. E eu: Mas, moço, ele tem demência, não compreende as coisas, eu preciso mostrar pra ele como fazer, tem que ter paciência. O moço: não. E insistia em dar os comandos. O pai foi ficando nervoso, porque não entendia. Com muito custo eu convenci o moço de ficar com o pai dentro da sala. Ele me colocou uma roupa de chumbo, eu acho. E eu tentando fazer o pai fazer o que era preciso. Mas, ele já estava nervoso e com dor no braço por conta de uma queda, e não obedecia. Um climão. Por fim fizemos a chapa de costas, mas tinha uma que era de lado. O pai não conseguia, de jeito nenhum, erguer os braços. Doía. O moço tentou levantar, ele gritou de dor. Eu fiquei braba. - Moço, ele está com o braço luxado, não poder erguer. Quer saber, não vamos fazer essa chapa. Foda-se. Fica só a de costas. O moço ficou meio brabo. Mas, porra, aquilo estava sendo uma tortura e uma confusão. E o pai foi ficando nervoso a ponto de descompensar um pouco. ´Já não ordenava mais a fala, gemia com dor no braço. Um terror. Resumindo a ópera. A radiografia ficou pela metade. Não sei muito bem como as coisas deveriam ser, mas creio que poderia ter alguma técnica para ajudar pessoas nessas condições. O pai, no geral, não consegue verbalizar o que está sentindo direito. Tudo tem de ser muito intuitivo. Claro que entendo que o trabalhador do raio-x está ali atendendo dezenas de pessoas por dia, às vezes até em condições ruins. Mas, haveria que ter uma capacitação sobre como lidar com pessoas assim, bem velhinhas e confusas. A nossa população está envelhecendo, isso é uma novidade, e cada vez mais haverá gente assim. Não creio que eles possam seguir o atendimento padrão. Sei lá, algum jeito tem de ter, afinal saí sem a chapa. Fica a dica então para o sistema de saúde. Hoje foi difícil.
Elaine Tavares. Jornalista. Humana, demasiado humana. Filha de Abya Yala, domadora de palavras, construtora de mundos, irmã do vento, da lua, do sol, das flores. Educadora, aprendiz, maga. Esperando o dia em que o condor e a águia voarão juntos,inaugurando o esperado pachakuti. Contato: eteia@gmx.net / tel: (48) 99078877
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Este é o pressuposto teórico básico do jornalismo praticado pela autora deste blog. Seguindo a senda da Filosofia de Libertação, que busca olhar o mundo a partir do olhar da comunidade das vítimas do sistema capitalista, o jornalismo de libertação se compromete em narrar a vida que vive nas estradas secundárias, nas vias marginais. O jornalismo de libertação não é neutro nem imparcial. Ele se compromete com o outro oprimido e trata de, na singularidade do fato, chegar ao universal, oferecendo ao leitor toda a atmosfera que envolve o assunto tratado. (Jornalismo nas Margens. Elaine Tavares. 2004)
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