domingo, 21 de abril de 2019

A páscoa e Jesus



A semana santa sempre foi um tempo de muitas celebrações na minha casa. Minha mãe era católica praticante e seguia à risca todos os rituais. Então, desde o domingo de ramos que a casa já começava a se preparar para o grande dia, o qual Jesus ressurgiria da tumba, vencendo todo o mal e toda a corrupção. Na sexta-feira santa, dia do assassinato na cruz, o dia era de silêncio. A mãe tampava os espelhos e não se podia ouvir música. O tempo era de consternação e sempre acompanhávamos a procissão do “senhor morto”, que acontecia no centro, saindo da Catedral. A cena daquele homem morto, ensanguentado, me tomava o coração de angústia. Demorei a entender porque tiveram aqueles homens que torturar de maneira tão horrível um cara que só pregava o amor. 

Minha mãe, com sua lucidez cotidiana, resolvia o mistério: “Por isso mesmo, porque o amor é coisa que incomoda demais”. 

E era isso mesmo. Jesus era muito fora da casinha. Comia com as putas, com os ladrões, com os mendigos. Trabalhava no sábado, questionava as leis que oprimiam as gentes, anunciava um reino que não era desse mundo. Andarilho, sonhador, falastrão, amigo, raivoso com os vilões. Capaz de se deixar ficar em frente ao lago observando o movimento das águas e dos peixes. Dizia para as gentes que todos eram iguais, que não havia esse lance de não falar com os estrangeiros, que não havia impureza em comer quando se tinha fome, e que não se devia comercializar a fé. E mais, Jesus repartia. Os bens, a comida, a alegria, a responsabilidade, o medo. 

Era deveras perigoso. Por isso, me encantava quando em criança. 

Houve um tempo, depois que cresci, que duvidei de seu amor. Quando comecei a ler sobre os horrores causados pela cristandade, na África, na América, na Europa com a Inquisição. Mas, foi de novo minha mãe que me chamou à razão. “Não seja boba, Jesus não tem nada a ver com isso. Isso é coisa dos homens”.

Batata. Jesus deve ter derramado lágrimas de sangue nesses tempos de profunda escuridão, quando em nome dele, e carregando sua cruz, alguns homens impuseram o terror. Na sua impotência, lá no céu, ele deve ter sofrido. Até porque, a cruz, esse símbolo abjeto de tortura ao qual eram submetidos os criminosos do império romano, não deveria ser o que o define. A cruz significa que Jesus escolheu o caminho da dor humana, não para eternizá-la, mas para suprimi-la. Logo, ela deve ser símbolo de libertação e não de dor. 

Por isso mesmo tem a Páscoa, essa hora luminosa de ressurgir dos mortos, de sair da tumba, de reviver. O livro sagrado conta que naquele domingo depois do assassinato, quando todos ainda choravam a morte de Jesus, apareceu uma espécie de anjo à Maria Madalena que disse: "por que procurais entre os mortos aquele que vive?" 

E foi ela, Madalena, que compreendeu que a vida é mais que corpo, que o amor é chama que arde sem se ver, que permanece, que subverte, que empurra, que inspira.  Jesus não estava entre os mortos porque vivia em cada um que tinha sido tocado com sua ternura. E tanto que ainda anda por aí, apesar de todas as leituras equivocadas. 

Nesse domingo de Páscoa, de tempinho emburrado, na minha ilha, acordei cedo para matear com Jesus. São os momentos em que recebo, com ele, meus outros mortos bem amados: minha mãe, meu avô Dionísio. Mateamos e conversamos, porque seguimos, afinal, todos vivos. Nessa manhã falamos do que anda passando no Brasil e na nova inquisição que caminha por aqui. Quando em nome de Jesus tantas barbaridades vão sendo cometidas. E ele balança a cabeça, triste. Sabe que lá em cima não pode fazer nada. Mas, tem esperanças na raça. Disse-me que andou por esse mundo, que se aconchegou em braços humanos, que vivenciou a alegria, que sentiu a grandeza de algumas almas, que tomou vinho, que balançou nos barcos cheios de trabalhadores amorosos. E me segredou que seres humanos há que valem uma vida, e uma morte. Nossa tarefa é encontrá-los e com eles caminhar. Disse-me também que a jornada do amor é coletiva, precisa ser feita em comunhão. 

- Sempre há um traidor, Jesus. Sabes bem disso. 
- Sim, mas também há os que sobrevivem e seguem disseminando essa maravilha que é viver nesse imenso jardim.

Jesus é otimista com o humano. Acredita que essa é uma raça que vale a pena. Foi embora por volta das dez horas, quando a casa começou a despertar. 

- O mal é poderoso, mas as pessoas unidas no amor também. Viver é essa batalha. É como a luta de classes, né? – e piscou para mim, sorrindo. 

- Nietzsche diria que o rebanho é fraqueza - rebati.

- Nietzsche estava certo. O rebanho sem cabeça é fraco, precisa de um pastor. As pessoas que pensam, não.

Assenti. É o tal do pensamento crítico. Rimos. E ele se foi, com a mãe e o vô. E a casa despertou, e a vida brotou. É Páscoa!

quinta-feira, 18 de abril de 2019

Curso de Jornalismo e Adelmo



O Curso de Jornalismo da UFSC está completando 40 anos e tem realizado uma série de atividades para celebrar essas quatro décadas de formação. Nessa quarta-feira, uma em particular encheu meu coração de alegria. A inauguração de uma placa que dá o nome de Adelmo Genro Filho a uma das salas de estudo do Curso. Nada poderia ser mais especial. É fato que ao longo desses 40 anos muitos educadores de alta qualidade passaram por ali. Mas, Adelmo, pelo menos para mim, é singular. Ele me ensinou a escrever os textos jornalísticos de tal modo que eles extrapolassem a particularidade redutora. Porque ele foi o criador da “teoria marxista do jornalismo”. Uma teoria que nos ensina ser o fazer jornalístico não apenas o ato de escrever uma notícia, mas uma práxis complexa e poderosa. Escrever não é só responder as seis perguntas básicas do lead. Escrever é pensar o fato desde a sua singularidade, mas sendo capaz de narrar ali, no espaço curto da notícia, a universalidade do acontecimento. Isso é uma revolução, porque nos tira do espaço da ideologia, da manipulação e nos coloca no caminho do conhecimento. O jornalismo é produção de conhecimento.

Não tive a sorte de conhecer Adelmo pessoalmente. Quando cheguei ao curso de jornalismo ele estava fora, em licença, e logo em seguida morreu. Mas, tive um mestre: Sérgio Weigert, que era seu amigo e parceiro de letras. Ele nos apresentou Adelmo. Ele nos fez ler e compreender aquele livro denso e cheio de complexidade, ele nos ajudou a desvendar o segredo da pirâmide, esse enigma que Adelmo torna tão simples. Sérgio nos fez percorrer os caminhos intricados da filosofia, abertos a facão por Adelmo ali, naquele curso. E, na paixão do Sérgio por aquele homem e suas ideias, fomos nos apaixonando também.

Desde 1988 que o livro do Adelmo é meu livro de cabeceira. A ele volto em cada dúvida, em cada momento de perplexidade diante do jornalismo. E ali estão as palavras que me movem na certeza de que o jornalismo é a melhor das estradas.

Ontem, no lançamento da placa, o colega Samuel Lima fez uma breve apresentação do homem Adelmo, e de suas obras. Samuel foi seu aluno e conheceu, além do gênio, o ser. Assim como ele, outros colegas jornalistas, que acorreram à homenagem também fizeram falas emocionadas sobre a figura do Adelmo e sua importância no jornalismo. Gente como a Néri Pedroso, que o conheceu ainda jovenzinho, em Santa Maria, e Gastão Cassel, também de lá, que trouxeram imagens de tempos distantes quando Adelmo era só um rapaz latino-americano iniciando sua caminhada na política e na teoria. Outros que o conheceram como colega de trabalho, como Eduardo Meditsch, e que tem sido um propagador de suas ideias, e um número expressivo de ex-alunos que ainda carregam nas retinas sua figura generosa, paciente e brilhante.

Eu, nunca o vi. Mas, desde que mergulhei, pelas mãos do Sérgio, em seu livro mais importante: O segredo da Pirâmide, compreendi que se nunca o vi, sempre o amei. Por ter nos trazido essa teoria, essa forma de pensar o jornalismo, essa práxis libertadora. Ao ouvir as palavras daqueles que o conheceram fui tomada pela emoção. Adelmo não é um rosto na foto. Não é uma placa de lata, não é o nome de um centro acadêmico. Adelmo é fonte de conhecimento e vive. Hoje e sempre. Porque sua teoria segue sendo ensinada nas salinhas do jornalismo, porque suas palavras seguem queimando pestanas, porque sua maneira de pensar o jornalismo é ainda absolutamente necessária.

Adelmo circula por aqueles corredores, mastigando seu cachimbo. E ontem, enquanto tantos que o amaram estavam ali o reverenciando, ele deve ter sorrido, feliz, por se saber ainda tão vivo.

Parabéns ao Curso de Jornalismo e a todos os professores e professoras que seguem levando essa labareda de conhecimento e de belezas que ajuda a formar bons narradores de vida. O jornalismo, assim como Adelmo, vive.

Agradeço imensamente a Maria José Baldessar, que generosamente me concedeu a honra de descerrar a placa junto com Samuel Lima. Foi uma surpresa e uma emoção inaudita. Porque foi ali, naquele espaço que um dia eu encontrei esse homem que até hoje me carrega às alturas da delícia que é fazer jornalismo como forma de conhecimento. Foi uma das maiores alegrias da minha vida.

Que Adelmo siga caminhando, soberano, por aqueles corredores.

Adelmo, presente.

terça-feira, 16 de abril de 2019

Todos os dias, assassinando a verdade




Sempre foi difícil para as pessoas saber onde se esconde a verdade. Durante muito tempo ela aparecia como revelada por deus. Desde um livro, escrito por sacerdotes de uma igreja, deus falava e estava dito. Poucos eram os que questionavam. E assim, os homens do poder, usando deus como escudo, iam definindo a verdade em seu benefício. Depois, com o teatro mambembe, as companhias de atores que circulavam pelos caminhos apresentavam novas versões dos fatos e a verdade assomava, ainda que em pequenas golfadas, nem sempre assimiladas. Mais tarde veio o jornalismo, como um fazer específico de divulgação de notícias que, por origem, deveria estar comprometido com a verdade dos fatos.  Mas, não tem sido assim. O jornalismo é profissão exercida por pessoas que trabalham para grandes companhias e a estas empresas não interessa a verdade. O que vale é que seja veiculada a versão mais lucrativa para os empresários ou a mentira que sustenta o mundo capitalista, no qual para que um viva outro tenha de morrer. Por isso, tanto o jornal, quanto o rádio, a televisão e a internet não são veículos confiáveis. Porque são controlados por empresas comprometidas com o capital e não com as gentes. 

Pessoas há que praticam o jornalismo, ou seja, esse fazer que tem por princípio desvelar a verdade para que todos possam saber onde estão metidos e o quê, de fato, está acontecendo. Mas, são poucas. O jornalismo independente é difícil de ser praticado, faltam recursos para ir até onde estão os fatos, falta gente comprometida, falta estrutura. Ainda assim, ele resiste aqui e ali. São os respiros por onde a verdade consegue caminhar. 

Mas, nos dias que correm, com o advento das redes sociais, ficou bem mais difícil saber onde anda a verdade. Qualquer pessoa com um celular virou produtor de conteúdo e esse conteúdo não necessariamente expressa a verdade. Pode ser uma mentira deslavada, um engano programado, ou mesmo uma má interpretação sobre os fatos. As chamadas “fake news”, que é a expressão inglesa para notícias falsas, se espalham e provocam toda a sorte de horrores. 

Vivemos há pouco tempo uma eleição presidencial na qual as notícias falsas, as informações falsas, foram divulgadas à exaustão. Mentiras sobre pessoas, mentiras sobre situações, mentiras sobre fatos. Mentiras e mentiras. Sobre isso a justiça jamais se pronunciou. Pelo contrário, alegou que não poderia se meter na chamada “liberdade de expressão”. 

Essa semana, a mesma justiça que fez vistas grossas para os horrores das mentiras em tempo de eleição decide censurar uma reportagem que apresenta informações baseadas em documentação oficial. A alegação do ministro do STF é de que a reportagem é uma “fake news”. Como assim? Mentiras são coisas que não tem comprovação. A denúncia feita pela reportagem tem. Documento. Realidade. Logo, a censura é inconstitucional. Uma inconstitucionalidade promovida por quem deveria ser o guardião da Constituição. Mais uma vez, morre a verdade. 

Semana passada a polícia britânica prendeu Julian Assange, o criador do WikiLeaks, um sítio que se propôs a desvelar as informações que os governantes e os empresários querem ver escondidas. Um sítio de jornalismo, comprometido com a informação veraz. Então, o homem que decidiu destapar a verdade é preso sob a alegação de quê mesmo? De nada. Ele não cometeu crime algum. Ações criminosas como os assassinatos de civis no Iraque, documentos sobre a fabricação de golpes em variados países do mundo, falcatruas empresarias, espionagem industrial e estatal, toda a sorte de crimes e enganos contra a humanidade precisam ser conhecidas pelas gentes. A informação é um direito humano. Mas, não importa isso. Julian está preso e as notícias dizem que ele é um espião, um bandido. Assim como a reportagem da revista Crusoé, divulgada também no sítio O Antagonista foi tirada do ar, censurada por abrir a verdade. 

A verdade é crime no século XXI. A verdade sempre foi crime. Porque a verdade liberta, abre os olhos, faz pensar. A verdade precisa ser assassinada. 

Como jornalista tenho vivido momentos de estupor. Praticamente já não se pode confiar em ninguém. As próprias fontes, no campo da esquerda, por vezes mentem tentando ampliar uma suposta verdade que julgam conhecer. Foi o caso da prisão da professora Camila Marques, nesta segunda-feira (15), em Goiás. De repente, a rede social foi invadida por notícias, de gente confiável, dando conta de que a professora teria sido presa por acusação de doutrinação, dentro da histeria persecutória que tomou conta do Brasil nos últimos meses. Imediatamente a notícia espalhou, provocando medo e indignação. Pouco tempo depois, com a soltura da professora, os fatos vieram à tona. A prisão tinha se dado em outro contexto. Foi igualmente arbitrária, igualmente torpe, mas não foi por “doutrinação”.

Assim que nós mesmos, que vivemos de divulgar notícias, vamos ficando cada vez mais limitados na confiança das fontes. Se todos mentem, o que fazer? Se formos divulgar só aquilo que presenciamos, ficamos reduzidos há muito pouco. As fontes deveriam ser isso mesmo que significam: fontes. Generosas cascatas de informação veraz. Mas, se as fontes nas quais confiamos mentem, como escrever? 

Cada vez mais fortaleço em mim uma velha máxima que aprendi e que tenho ensinado. Na dúvida, não divulgue. Não há problema algum em dar a informação depois de todo mundo. Nossa obrigação é dar a melhor informação, a mais completa, a mais próxima da verdade. Eu mesma já fui pega pela lógica da pressa. Mas, a cada dia vou me controlando. A mentira é mato nos tempos que correm, erva daninha que cresce em qualquer terreno, inclusive nos dos nossos amigos. Há que ter calma, paciência histórica e esperar. Uma mentira uma vez dita não se apaga. Não há direito de resposta que dê jeito. E a verdade fica obscurecida. 

Julian Assange escolheu o caminho da verdade e hoje paga por isso. No mundo das mentiras, ele é o vilão. E é. Para o capital, para as grandes empresas, os governos, Julian é a ameaça mais perigosa. Porque, como já disse, a verdade liberta. É uma decisão difícil ser o Joãozinho ou a Mariazinha do passo errado quando toda a multidão marcha para a direção oposta. Mas, a história também mostra, que são esses joãos e marias os que mudam o mundo. É uma difícil decisão. 

Quanto a mim, prefiro esse duro caminho da verdade. Com todos os riscos. Porque o jornalismo só tem sentido se for para libertar, ainda que essa prática nos aprisione. Julian Assange é o herói do nosso tempo. Enquanto a massa se compraz em divulgar mentiras, ele insiste na verdade. Está pagando por isso. Mas, mesmo que morra, ele vencerá. Nós venceremos. Porque a verdade é como um Saci num redemoinho. Impossível de cercear. Mais dia, menos dia, ela assoma, a despeito de todas as tentativas para encobrir.


segunda-feira, 1 de abril de 2019

A ditadura nos tocou a todos


Na semana que antecedeu o primeiro de abril, quando o presidente do Brasil decidiu celebrar o golpe de 64, instaurador da ditadura no país, vi várias vezes nos meus círculos a seguinte mensagem: “Eu não fui torturado, meus pais não foram torturados, eles estavam ocupados trabalhando”. Sobre isso garrei a matutar, pensando no alto nível de egoísmo e de fechamento em si da pessoa que postou esse slogan criado por militantes do atraso e da mentira. 

Sim, é bem provável que a pessoa não tenha sofrido tortura naqueles anos de chumbo, e tampouco sua família. Mas, e onde está a empatia com quem sofreu? Com as mães que tiveram seus filhos arrancados dos ventres, as pessoas que tiveram seus corpos destroçados pela tortura, os que foram mortos e desaparecidos, as mulheres que foram violadas, os que até hoje sofrem as sequelas do terror. Onde a compaixão? Não há! O que há é apenas o bom e velho egoísmo da raça que sempre é trabalhado com maestria pelos poderes dominantes e que serve para encerrar a pessoa no seu pequeno mundo, legitimando a barbárie.  

“Eram comunistas, mereciam”, dizem, aceitando sem questionar as mentiras que se espalham sobre o que é o comunismo e contra o que lutavam as pessoas que foram mortas e torturadas. Outro horror, visto que mesmo diante dos inimigos há que demonstrar compaixão e a tortura é algo vil, aplicada em quem quer que seja, inclusive em animais. 

Mas, para esses – que não fazem parte do 1% da classe dominante que se deu bem na ditadura - eu tenho uma triste notícia. Mesmo que tenham ficado em casa trabalhando e não tenham sofrido tortura, informo que sofreram, sofrem e seguirão sofrendo por conta daquele governo empresarial/militar que deu início a escalada da dívida, a qual hoje todos seguimos pagando e que levou o governo de Michel Temer a congelar os gastos públicos por 20 anos. Ou seja, tiram dinheiro da atenção à população e entregam aos bancos. 

Pois o sistema da dívida, tal como hoje o conhecemos, de total submissão aos bancos internacionais, deu um salto gigantesco justamente no período da ditadura com o famoso “milagre brasileiro”, com o qual o governo iniciou uma série de obras faraônicas como a transamazônica, que consumiu milhões e desviou outros tantos. Conforme dados oficiais da dívida, em 1964 o Brasil devia três bilhões de dólares e quando a ditadura acabou, registrava-se em 1985 uma dívida de 105 bilhões. Ou seja, cresceu 32 vezes. No quadro do orçamento, o pagamento da dívida tomava 53 % de tudo o que o país arrecadava. Hoje toma 47%.

A auditoria da dívida feita no Equador, que se utilizou das mesmas empresas para redigir os contratos, comprova que a maioria desses contratos é criminosa e de lesa-pátria. O Equador conseguiu reverter 70% da dívida, que foi considerada ilegal e irregular. No Brasil, nunca houve auditoria, mas se houvesse, certamente se comprovaria também a ilegalidade. As empresas são as mesmas e os contratos também. 

“Ah, mas eu não tenho nada a ver com isso”, diriam os que só pensam no seu umbigo. Tem, sim. Por conta da opção pelo pagamento da dívida – ilegal e ilegítima - não há investimento na vida dos brasileiros, incluídos eles. Por conta da dívida, a educação, a saúde, a moradia, a segurança recebem ínfimos recursos e não são oferecidos com qualidade. Por conta da dívida os impostos que são arrecadados não revertem em benefícios para a população. Por conta da dívida os políticos fizeram a reforma trabalhista, que tira direitos, e agora querem fazer a contrarreforma da Previdência que vai acabar com a velhice de todos, jogando para os bancos - sempre os bancos -  a montanha de dinheiro gerada pelo trabalho dos trabalhadores. E os bancos especularão com a grana por mais de 40 anos até que chegue a aposentadoria – se chegar. 

O governo que tivemos entre 1964/1984 não apenas aumentou a dívida, mas, com sua truculência e totalitarismo reforçou de maneira indelével a herança de violência que vem desde os tempos da colônia, e tanto que até hoje ainda não saímos desse labirinto de ódio ao negro, ao índio, ao diferente. E naqueles dias, a ditadura impediu as vozes de se expressar, impediu as pessoas de conhecer outras formas de viver. Impediu a crítica, impediu a contestação, impediu tudo. A ditadura foi o tempo da paz, mas a paz do cemitério. E se havia alguém que nada sabia dos porões, era porque estava proibido falar. Assim, só sabia quem vivia o terror.

Assim como hoje temos 37% dos brasileiros apoiando um governo títere dos interesses internacionais, também naqueles dias dos anos 60/70 tivemos brasileiros acreditando que a aliança para o progresso, feita com os Estados Unidos e às custas da morte de tantos, era para melhorar a nação. Não foi. Foi ruim e se estendeu mesmo depois que os generais tiveram de abandonar o poder por conta da luta dos que nunca desistiram. A partir de Sarney as vozes puderam outra vez se expressar, os partidos voltaram à luz, mas a violência e a tortura seguiram. E se os desafetos políticos já não eram torturados, os bagrinhos das periferias, os ladrões de galinha, os jovens negros delinquentes, sim. Isso não mudou nem quando o PT chegou ao poder, pois apesar de representar um hiato na tradicional linhagem de poder, não tocou nas estruturas das forças de segurança. 

Assim que o que temos hoje é um eterno retorno dos tempos de violência e terror que se abateram sobre Pindorama desde a chegada dos saqueadores em 1500. Houve terror de estado contra os indígenas, depois contra os negros – sequestrados de sua terra e tratados aqui como bichos - depois contra os colonos pobres, e segue sendo assim com os trabalhadores. Com mudanças sutis são as mesmas famílias que seguem dominando. O PT foi um hiato, um brevíssimo hiato na história, que não conseguiu – ou não quis – colocar um fim nisso de maneira radical.

Agora, com os mesmos saqueadores no comando, sustentados pelos capitães do mato, a história segue se repetindo. O pau de arara ainda é usado nos escuros cantões do poder. A tortura é uma constante. Esse foi um aprendizado que não se dissipou. Pelo contrário. A lei da anistia, igualando torturados e torturadores, impedindo o juízo dos responsáveis pela barbárie, colocou o terror embaixo do tapete. E, bastou só levantar uma pontinha que ele reapareceu. Só que com ele vem também a memória, que não se apaga. Não mesmo. Porque ao longo desses anos milhares de pessoas foram recolhendo provas e documentos, concretizando na vida essa verdade.

Assim que pode uma parcela grande da população seguir negando a história, pode seguir acreditando nas mentiras forjadas e distribuídas pelas redes sociais, pode manter-se iludida com respeito aos governos e aos poderosos. Mas, a realidade não pode ser escondida. Ela assoma, quer se queira ou não. E todas as máscaras caem. Mais dia, menos dia. É batata!

Os que amam a tortura seguirão fazendo sua apologia. Cabe a nós seguir também expondo a verdade histórica, desvelando a realidade, desfazendo as mentiras. Um caminho difícil, mas que precisa ser trilhado, a despeito de tudo. Porque a tortura não foi um raio de um tempo passado. Ela segue se fazendo nos cárceres e nos porões. Ela é exercida também quando não tem cama no hospital, quando teu pai morre na fila do SUS, quando tua filha não pode estudar, quando teu filho cai com uma bala perdida, quando teu salário não te mata a fome, quando tu estás desempregado, quando precisas depender de alguém para se manter vivo, quando tua mãe morre sem aposentadoria, quando precisas mendigar um remédio, quando não podes ter uma vida plena porque alguém está usurpando tudo o que é teu direito. 

Então, sim. Tu, que não faz parte do 1% de ricos desse país, vive a tortura sim. Viveu em 64 e vive agora. Ainda que não se dê conta. E certamente, naqueles dias, teus pais, que estavam trabalhando, enquanto os que lutavam contra tudo isso estavam morrendo, igualmente viviam a tortura de viver num país no qual os direitos básicos eram negados. Ainda que não se dessem conta também.  

O governo empresarial/militar foi uma ditadura e os governos que se seguiram são a expressão acabada da ditadura do capital. Temos um longo caminho para vencer e seguiremos, como Dom Quixote, enfrentando o horror. “Não são moinhos, Sancho, são gigantes. E contra eles vamos travar uma longa e feroz batalha”.  

sábado, 30 de março de 2019

O cuidado e o tempo


Saí de casa bem cedo para prover meu sustento. Família pobre, mãe doente, remédios caros. Era preciso “se virar” para dar conta, inclusive dos sonhos que trazia na cabeça: ser jornalista, escrever, contar histórias. Foi uma caminhada de atropelos, sempre difícil. Mas, a vida é difícil mesmo, e temos de aprender a driblar as merdas para vivenciar momentos de alegria e felicidade. Nessa estrada sempre estive contra o tempo. Eu tinha pressa. Pressa em ajudar a mãe, pressa em garantir a comida de cada dia, pressa em dar felicidade para minha vó, pressa em ajudar meu irmão, pressa na busca dos meus desejos, pressa para pagar as contas, pressa para fazer a revolução. Eu era o coelho da Alice, sempre correndo, alucinada, para algum lugar. Trabalho, política, sindicato, passeata, movimento social, luta.

E assim a vida foi passando, nessa corrida desenfreada, sempre enredada em alguma atividade, dessas que nos consome o corpo, a alma, a sanidade, em busca do ainda-não. Parecia sempre que o dia era pequeno, tanto havia para fazer. E, mesmo à noite, em casa, mais textos, mais leituras, mais articulações, mais conversas por telefone, conferências, encontros, grupos de estudo, formação.

Então chegou o pai. A roda do tempo travou. A doença do esquecimento e da demência é coisa que não melhora. Ao contrário: só piora. Então, tudo muda de lugar, a vida se desarranja. Já não há mais militância, nem reunião, nem festa, nem encontros com amigos, nem passeios, nem viagens. O tempo do cuidado é um tempo de entrega e de lentidão. Ajudar a levantar toma uma hora. Tomar banho, de duas a três horas, sair para caminhar no entorno, uma hora, preparar para dormir, umas duas horas, e a hora do mate é só a hora de ficar observando os passarinhos, o pôr-do-sol, ouvindo uma música. O tempo parado. Ações que se praticavam em segundos, agora se estendem, devagar. Até comer ficou lento, porque a falta de dentes obriga o velho a mastigar mais devagar e a gente com ele, para acompanhar.

Com o andar da doença, o tempo da gente vai encurtando ainda mais. Surgem novas demandas, novas tarefas. Já não há mais espaço para planejar a vida. “Amanhã farei isso ou aquilo”. “Ano que vem vou para tal lugar”. Não. O nosso tempo agora se resume em viver o que for possível nas 24 horas. Um dia depois do outro, sem planos. Cada dia é uma surpresa e nossa única tarefa é atravessá-lo, sem desesperar. Quando a noite vem e o corpo encontra descanso, a mente se esvazia. Há que dar calma ao coração. Porque o dia seguinte será novo, totalmente novo. Há que estar bonita, alegre e disposta. Porque tem alguém ali, esperando pelo nosso cuidado.

Tem sido uma experiência e tanto essa de ter perdido a pressa e encontrar, nas 24 horas do dia, a plenitude do viver. Não é bonito, nem sublime. Apenas é assim. E, pelo caminho, com o pai, vou aprendendo...


quinta-feira, 28 de março de 2019

A caderneta e o comunismo


Outro dia alguém das minhas relações publicou um banner no qual estava escrito assim: “Obrigada militares, por nos livrarem do comunismo em 64. Senão, hoje estaríamos nas filas, com uma caderneta na mão, buscando comida”. Fiquei meditando muito sobre isso. E no fundo do meu coração procurei entender como alguém que vive num país como o nosso, no qual pessoas ainda morrem de fome, dormem em barracos imundos, não conseguem dar vida digna aos seus filhos, considera ruim que em um país comunista as pessoas tenham uma caderneta com a qual conseguem comida. Ora, minha gente, isso significa que as pessoas recebem comida. Onde está o horror disso? Horror não seria passar pela periferia de suas cidades e ver tanta miséria. E saber que aquelas pessoas não tem uma caderneta, nem um fila onde ficar para garantir a alimentação? Horror não seria saber que existem crianças cuja única refeição decente que fazem é na merenda da escola, que é fraudada e diminuída a cada dia?  Que pessoas são essas que escrevem essas coisas? Será que não conseguem entender o que estão publicando? Isso sim, me dá horror. 

Mas, tirando isso há que aclarar algumas coisas. Primeiro: não, os militares não nos salvaram do comunismo. Porque o que estava em curso com o governo João Goulart não era comunismo. No máximo um nacionalismo reformista que poderia chegar a um capitalismo de estado, com grande participação popular. Jango era um fazendeiro, apegado a sua classe, ainda que tivesse grande sensibilidade social. O golpe se deu não pelo comunismo que poderia vir, mas pelo que o império sempre considerou o mal maior: o nacionalismo de esquerda. Ou seja, essa ousadia de querer ser autônomo, soberano, de ditar as regras em favor do povo. O Brasil não seria uma Cuba. Infelizmente, não. 

Outra coisa importante: quem inventou o golpe não foram os militares. Eles apenas operacionalizaram aquilo que a elite nacional e o império apavorado queriam, que era acabar com a ameaça nacionalista. Então, se tiver de agradecer a alguém pelo Brasil de fome, de pobreza, de atraso, de subdesenvolvimento, não agradeça só aos militares, mas à elite dominante também. 

Segundo: o comunismo não é um mundo sombrio, cheio de filas e cadernetas. Essa imagem, criada a partir da realidade cubana e agora venezuelana não representa o comunismo. Cuba tem vivido esses anos todos de libertação sob um bloqueio comercial. Ou seja, o país não consegue comprar coisas nos outros países, mesmo que tenha recursos para isso. Os países que negociam com Cuba sofrem pressões dos Estados Unidos. Então, entendam. Não é o comunismo que provoca filas ou cadernetas. É o bloqueio! 

A mesma coisa acontece na Venezuela, que só uma pessoa muito desinformada ou formada pelo uatizapi, pode ver como comunismo. A Venezuela é um país capitalista bem normalzinho, com um governo nacionalista. De novo temos aí o nacionalismo, o verdadeiro temor do império. E o que é o nacionalismo: é pensar no país primeiro. “America First”. Por que todos acham isso bonitinho no discursos de Trump, e no de Chávez, Maduro ou Jango, ou Fidel é um absurdo comunista? 

Terceiro: o comunismo é um modelo de organização da vida no qual as pessoas trabalham e recebem conforme suas necessidades. Então, se uma família tem cinco filhos, receberá para dar dignidade aos cinco filhos. Se tiver um, receberá para um. Os velhos são amparados, as crianças também. O trabalho não é exploração, é construção solidária da riqueza coletiva. É o reino da liberdade. Ninguém precisa passar fome. A economia é planejada em função das pessoas, e não para enriquecer meia dúzia de empresas e famílias. Então, porque as pessoas temem o comunismo? Porque a ideologia inventa coisas como essa, da caderneta, das filas, sem contar a verdade toda. 

Eu fico pensando nos anos 60, quando eu vivia em São Borja e praticamente todas as famílias que eu conhecia compravam coisas na venda com a caderneta. O comerciante anotava e se pagava no final do mês, ou quando se tinha dinheiro. Havia muita tolerância e praticamente nenhum juro. Então, qual é o problema da caderneta? Era como um cartão de crédito. 

Mas, claro, é preciso tornar isso um problema, um terror, para que as pessoas acreditem que o comunismo é coisa ruim. Mas, se pensar bem, vai ver que a caderneta moderna, o cartão de crédito, é muito mais aterrorizante do que a caderneta cubana. Quem aí já não pagou rios de juros ao banco por ter estourado o limite? Quem ganhou e quem perdeu com isso? Pensa aí. 

Pois em Cuba, apesar de um criminoso bloqueio que dura 60 anos, tem caderneta, tem fila, mas tem comida, não tem criança na rua, tem educação para todos, saúde universal, moradia, segurança, arte, cultura. Em Cuba o salário é baixo sim, mas há pouco que precisa ser comprado. Então, há que ver a floresta, não a árvore.

Sei que os que publicaram o banner não lerão isso. Cuspirão, com ódio, no primeiro parágrafo.  Mas, vou insistindo, como a água, tocando, devagar e insistentemente o rochedo. 



quarta-feira, 27 de março de 2019

A violência de todo o dia será discutida em Audiência Pública




Comunidades da periferia e dos morros de Florianópolis, bem como militantes sociais e juventude estão em processo de luta contra a violência policial que vem recrudescendo dia a dia em Florianópolis. É sabido que a repressão aos pobres não é coisa de hoje, mas nos últimos tempos piorou, com ações extremas no centro da cidade, próximo a bares e espaços de convivência de público jovem, adeptos do Hip Hop e LGBT, marcadamente popular. 

Na segunda-feira (25), moradores do Mocotó, no centro da cidade, bloquearam a rua que dá acesso à Avenida Mauro Ramos, denunciando mortes, surras e até a ordem de toque de recolher na comunidade, o que tem assustado as pessoas e inviabilizado a vida. A Polícia diz que está na luta contra o tráfico e age dentro da lei, mas o relato das famílias é de que a ação violenta é indiscriminada. Nem todo mundo que mora no morro é bandido, dizem. E uma pessoa precisa saber o porquê de estar sendo detida ou surrada. Também questionam que esse tipo de ação fique focado apenas nas comunidades pobres quando é sabido que os traficantes mesmo, os graúdos, os que abastecem as bocas, não vivem nos barracos da periferia. E jamais se soube de uma ação policial violenta em áreas nobres da cidade. Mesmo quando prende algum traficante de peso, tudo é feito dentro dos trâmites, com mandato e tudo. Na comunidade, não. 

Ainda na segunda-feira, enquanto a comunidade do Mocotó se mobilizava numa ação desesperada, já que suas demandas não têm visibilidade, foi feita uma visita ao Batalhão Central da Polícia Militar, onde uma comissão do Movimento Popular, que já vem acompanhando esse aumento da violência policial contra pobres e movimentos sociais,  entregou um documento denunciando as ações da PM e convidando o comando da instituição para participar da Audiência Pública que acontece nessa quarta-feira (27), na Assembleia Legislativa, às 18h e 30min, justamente para debater o abuso policial e a violência. Faixas foram colocadas em frente ao quartel, para informar a sociedade sobre a questão. Logo em seguida o grupo foi até o terminal urbano, para conversar com as pessoas e também convidar para a audiência.

Hoje à noite, na Alesc, os movimentos pretendem discutir em profundidade com todas as autoridades locais e espera-se que representantes da PM e da Prefeitura também participem. A luta social não é crime e as comunidades de periferia não são redutos de ladrões e bandidos. Tanto na luta popular como nos espaços de moradia da periferia da cidade estão os trabalhadores buscando viver com dignidade. À violência do crime não pode se contrapor outra violência, é o que argumentam. 

Os movimentos sociais estão chamando concentração para as 18h e 30 min, em frente à Assembleia. A Audiência Pública começa às 19horas. Esse é um tema que diz respeito a todas as pessoas, pois a continuar o processo indiscriminado da violência, ninguém está protegido. Nem os policiais, nem a população. A proposta do debate é encontrar caminhos de proteção e de paz, afinal, a polícia existe é para proteger os cidadãos. Todos e Todas.  

Moradores do Mocotó fazem barricada

Movimentos Sociais no centro da cidade