Saí de casa bem cedo para prover meu sustento. Família pobre, mãe doente, remédios caros. Era preciso “se virar” para dar conta, inclusive dos sonhos que trazia na cabeça: ser jornalista, escrever, contar histórias. Foi uma caminhada de atropelos, sempre difícil. Mas, a vida é difícil mesmo, e temos de aprender a driblar as merdas para vivenciar momentos de alegria e felicidade. Nessa estrada sempre estive contra o tempo. Eu tinha pressa. Pressa em ajudar a mãe, pressa em garantir a comida de cada dia, pressa em dar felicidade para minha vó, pressa em ajudar meu irmão, pressa na busca dos meus desejos, pressa para pagar as contas, pressa para fazer a revolução. Eu era o coelho da Alice, sempre correndo, alucinada, para algum lugar. Trabalho, política, sindicato, passeata, movimento social, luta. E assim a vida foi passando, nessa corrida desenfreada, sempre enredada em alguma atividade, dessas que nos consome o corpo, a alma, a sanidade, em busca do ainda-não. Parecia sempre que o dia era pequeno, tanto havia para fazer. E, mesmo à noite, em casa, mais textos, mais leituras, mais articulações, mais conversas por telefone, conferências, encontros, grupos de estudo, formação. Então chegou o pai. A roda do tempo travou. A doença do esquecimento e da demência é coisa que não melhora. Ao contrário: só piora. Então, tudo muda de lugar, a vida se desarranja. Já não há mais militância, nem reunião, nem festa, nem encontros com amigos, nem passeios, nem viagens. O tempo do cuidado é um tempo de entrega e de lentidão. Ajudar a levantar toma uma hora. Tomar banho, de duas a três horas, sair para caminhar no entorno, uma hora, preparar para dormir, umas duas horas, e a hora do mate é só a hora de ficar observando os passarinhos, o pôr-do-sol, ouvindo uma música. O tempo parado. Ações que se praticavam em segundos, agora se estendem, devagar. Até comer ficou lento, porque a falta de dentes obriga o velho a mastigar mais devagar e a gente com ele, para acompanhar. Com o andar da doença, o tempo da gente vai encurtando ainda mais. Surgem novas demandas, novas tarefas. Já não há mais espaço para planejar a vida. “Amanhã farei isso ou aquilo”. “Ano que vem vou para tal lugar”. Não. O nosso tempo agora se resume em viver o que for possível nas 24 horas. Um dia depois do outro, sem planos. Cada dia é uma surpresa e nossa única tarefa é atravessá-lo, sem desesperar. Quando a noite vem e o corpo encontra descanso, a mente se esvazia. Há que dar calma ao coração. Porque o dia seguinte será novo, totalmente novo. Há que estar bonita, alegre e disposta. Porque tem alguém ali, esperando pelo nosso cuidado. Tem sido uma experiência e tanto essa de ter perdido a pressa e encontrar, nas 24 horas do dia, a plenitude do viver. Não é bonito, nem sublime. Apenas é assim. E, pelo caminho, com o pai, vou aprendendo...
Elaine Tavares. Jornalista. Humana, demasiado humana. Filha de Abya Yala, domadora de palavras, construtora de mundos, irmã do vento, da lua, do sol, das flores. Educadora, aprendiz, maga. Esperando o dia em que o condor e a águia voarão juntos,inaugurando o esperado pachakuti. Contato: eteia@gmx.net / tel: (48) 99078877
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Jornalismo de Libertação
Este é o pressuposto teórico básico do jornalismo praticado pela autora deste blog. Seguindo a senda da Filosofia de Libertação, que busca olhar o mundo a partir do olhar da comunidade das vítimas do sistema capitalista, o jornalismo de libertação se compromete em narrar a vida que vive nas estradas secundárias, nas vias marginais. O jornalismo de libertação não é neutro nem imparcial. Ele se compromete com o outro oprimido e trata de, na singularidade do fato, chegar ao universal, oferecendo ao leitor toda a atmosfera que envolve o assunto tratado. (Jornalismo nas Margens. Elaine Tavares. 2004)
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