terça-feira, 9 de janeiro de 2018

A Voz do Brasil e comunicação no governo Temer



Sempre gostei de ouvir a “Voz do Brasil”, programa obrigatório que é veiculado em todas as rádios, das 19 às 20h, de segunda a sexta. Nessa uma hora ouvimos notícias do governo, do Congresso e do Judiciário. No geral, sempre muito informativo, com um recorrido rápido pelas ações do dia, proposições de leis, decisões judiciais. Um campo muito fértil para pautas, visto que a mídia comercial cobre muito mal os poderes. Claro que é a visão oficial, mas considero necessária para que possamos saber com clareza o que os poderes estão “pensando”. 

Mas, ultimamente, confesso que me está sendo intragável ouvir a querida “Voz do Brasil”. Causa-me espécie aquela voz monocórdia e gosmenta do presidente Temer. Ele sempre fala. Parece com aqueles sindicalistas pelegos que para sair um jornal tem de ter a foto deles. É um saco. Insuportável. Uma voz e uma presença ilegítima, usurpadora, dizendo mentiras à população. 

A Voz do Brasil é um programa produzido pela Empresa Brasil de Comunicação, a EBC, empresa pública que o atual governo vem desmontando silenciosamente. Primeiro foi a extinção do Conselho Curador da empresa através de uma medida provisória, logo depois do golpe. O governo usurpador decidiu eliminar qualquer controle social, extinguindo o caráter público da EBC, golpeando assim a liberdade de expressão e o direito à informação. Porque o Conselho justamente fiscalizava a ação da empresa, evitando assim que os governos de plantão tivessem ingerência na programação e na linha editorial. A função do Conselho era observar se o interesse público era o que direcionava a distribuição da informação. Não foi sem razão que foi extinto. O resultado é o que se ouve na “Voz do Brasil” dos nossos dias. Um jornalismo chapa-branca que chega a dor os ossos.

Não bastasse isso, começou também o corte de verbas. Só em 2017 a EBC recebeu 57,7% a menos do que era previsto no seu orçamento. E tudo isso em função do congelamento dos gastos públicos imposto pelo governo e aprovado pelo Congresso. Agora imaginem o que pode acontecer com um corte dessa magnitude? Tudo. As relações de trabalho se deterioram, a exploração aumenta, cancelam-se contratos e programas, e a qualidade do trabalho vai indo para o saco. Para completar, na última semana a EBC lançou seu plano de demissão voluntária, visando diminuir ainda mais o quadro de trabalhadores. A meta é enxugar até 22%. Ou seja, manter o mínimo.

Essa semana a jornalista Ana Cláudia Mielke, do Intervozes, denunciou que a EBC está a ponto de perder a concessão da Rádio Nacional da Amazônia, que tem um importante papel naquela região, alcançando toda a Amazônia legal. Isso porque a direção da empresa a deixou fora do ar por seis meses depois que um raio causou estrago nos transmissores, com o argumento de que não havia recursos para consertar. Uma região inteira sem informação, sem o sinal que há mais de 40 anos chega à Amazônia através da Rádio Nacional. E um espaço estratégico no qual o rádio ainda tem uma importância crucial. 

Mielke ainda mostra que os programas de inclusão digital estão todos parados e que unidades escolares, serviços de atendimento ao cidadão, postos de saúde e telecentros em todo o país vem sofrendo com o corte de verbas do ministério de Ciência e Tecnologia. A jornalista esclarece que a lógica embutida nessas medidas é a de privilegiar a iniciativa privada. Ou seja, o governo se retira da área da comunicação para entregar todo o processo para o empresariado nacional e multinacional.

O setor da comunicação pode parecer pouco importante para muita gente, mas não é. Manter ativo e com qualidade um sistema de comunicação pública é garantir à população uma informação diferenciada da que é oferecida pelo sistema privado e comercial. A informação dos meios privados está visceralmente vinculada aos interesses da classe dominante. Não há qualquer preocupação com a inclusão de outras vozes. Na TV, rádio, e internet comercial só sai àquilo que os empresários consideram importante para seus lucros. Não há criticidade, não há compromisso com a pluralidade de ideias. 

A proposta do governo encabeçado por Temer é de acabar com qualquer controle público da comunicação no sistema de governo, evitar que outras vozes se expressem e apostar tudo na iniciativa privada. Tanto que se para saúde, educação, segurança e moradia as verbas estão congeladas, para a propaganda governamental, não. Os gastos só crescem. Tanto que só a campanha para mentir ao povo que a Reforma da Previdência é boa consumiu mais da metade do que foi orçado para 2017. Lembrem que propaganda é coisa bem diferente de informação. A propaganda no geral é um douramento de pílula, uma máscara de beleza que se põe nas mercadorias ou nas ideias, que não corresponde à verdade. É usada para mentir e enganar. Já a informação é um direito das pessoas. É a narrativa da realidade, dos fatos, das ideias plurais que convivem no mundo.

Pois a prioridade do governo é a propaganda,  e nos meios privados, que é para enriquecer mais ainda a meia dúzia de famílias que dominam o mercado. O governo as mantém em rédea curta, numa simbiose. Como ganham dinheiro à rodo do governo, procuram manter a população desinformada e enganada, espalhando suas ideias particularistas como se fossem verdades universais. 

A EBC como empresa pública tinha outra linha. Dirigida por um Conselho público, com a expressão de variadas vozes, podia garantir uma informação mais democrática, abrindo debates, dizendo verdades, discutindo criticamente os problemas nacionais. Foi uma longa e dura luta por anos e anos, enfrentando inclusive a miopia dos governos petistas, que nunca deram o devido valor à comunicação. A EBC pública ainda era um campo de batalha, mas estava caminhando a partir da ação de valorosos lutadores sociais, comunicadores e militantes populares. 

Agora, o que se vê é uma comunicação chapa-branca, oficialista, sem criticidade. E, apesar da qualidade dos profissionais que ainda resistem, a tendência é de aprofundar ainda mais essa forma de lidar com a comunicação, destruindo a empresa, mantendo apenas uma espécie de “assessoria de imprensa” governamental. O casamento é com as empresas privadas. E nesse cenário nem mesmo a querida “Voz do Brasil” se salva. Uma tristeza.

É mais um braço da destruição causada pelo golpe. E, apesar do estratégico que é a comunicação, pouco se tem conseguido mobilizar a sociedade para essa batalha. Como cada setor precisa lutar sua luta particular, essas questões ficam obscurecidas. Um erro, porque quem vence a batalha da comunicação já tem meia guerra definida. 



segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

A democracia e o julgamento do Lula



A democracia liberal já mostrou sua verdadeira face na América Latina de várias maneiras. E essa face não é democrática, pelo contrário, é autoritária e absolutamente vinculada aos interesses da classe dominante. Em nome dessa forma de governo o império estadunidense faz guerra, destrói países, promove massacres. Assim, na mídia, o império atuando aparece como liberdade e democracia, e onde a democracia é participativa, real e popular, como em Cuba e na Venezuela, o braço armado midiático do capital aponta como ditadura, totalitarismo, autocracia. Tudo fica de pernas para o ar. E, na cabeça das gentes, a confusão é formada. 

Na Venezuela, em 2002, foi planejado e dado um golpe no governo bolivariano, democrático e popular. Mas, lá, a população agiu em consequência e não permitiu que a coisa seguisse. Não é à toa que desde então, o imperialismo estadunidense tenha tentado de todas as formas destruir o processo iniciado por Chávez. A resistência tem sido grande, ainda que na mídia o governo apareça como mais uma ditadura bananeira. Não é. Lá, o poder está com o povo e isso tem sido reiterado a cada nova eleição. Apesar da guerra econômica, das sanções e da ação criminosa da elite local que tem levado a fome e o desespero para o interior do país, as gentes seguem resistindo.

Mas, ao longo do início do século XXI, a “democracia” alardeada pelo sistema capitalista de produção, concretizada na ação do império, com a participação das elites nacionais, tem servido para provocar o terror. Foi assim no oriente médio com a mal chamada primavera árabe. Foi em 2004 no Haiti, quando um presidente eleito foi deposto, o país ocupado e destruído. Foi em 2009 em Honduras, com um golpe judiciário/parlamentar que tirou o presidente cujo crime foi o de querer fazer um plebiscito para que o povo decidisse sobre as grandes questões nacionais. Foi em 2012, no Paraguai, quando o presidente também foi deposto nesse novo modelo de golpe judiciário/parlamentar, acusado de ser o responsável por um massacre de camponeses, justamente os que ele tentava organizar para a realização da reforma agrária. 

Essa “democracia” acabou chegando ao Brasil em 2016, quando a presidenta foi deposta acusada de um “crime” que sempre foi prática corrente em todos os governos: as pedaladas fiscais. Num julgamento digno do realismo fantástico, um congresso mergulhado em corrupção decidiu pela saída de Dilma, no mesmo modelo de golpe judiciário/parlamentar. Poucos meses depois, o mesmo congresso legalizava as pedaladas fiscais para que o então presidente Michel Temer pudesse pratica-las sem atropelos. Um cinismo sem fim.  

Com Dilma e o PT fora do poder a “democracia” começou a agir. Direitos trabalhistas foram tirados, aplicou-se o arrocho aos trabalhadores e as riquezas do país começaram a ser entregues a preço de banana para empresas multinacionais. Claramente, a democracia de Temer e do grupo que ele representa, é a que defende e amplia os interesses dos ricos. São eles os que têm as dívidas perdoadas e os créditos aumentados, enquanto tudo é tirado dos trabalhadores.

Agora, no dia 24 de janeiro, a turma do golpe pretende dar sua jogada de mestre. Tirar da disputa eleitoral o líder petista Luís Inácio Lula da Silva, que a despeito de toda a campanha de ódio e difamação praticada pela mídia, em conluio com o judiciário, tem se mantido no topo das pesquisas para as eleições presidenciais. Acusado pela operação Lava-Jato, que “misteriosamente” só enxerga as tramoias dos petistas, de ganhar como propina um apartamento tríplex, Lula já foi condenado e nesse 24 deverá ser julgado o seu recurso. Não há qualquer prova de que o apartamento seja dele, mas, mesmo assim, contra a própria lógica do direito liberal de considerar inocente até que se tenham as provas da culpa, o ex-presidente foi condenado. Os próprios juízes fazem declarações e campanhas na internet. Ou seja, o julgamento do recurso será só uma cena a mais nessa grotesca dança das cadeiras do poder, da qual o judiciário tem sido a estrela, comodamente aliado à classe dominante. 

A classe dominante brasileira que, por um tempo, se manteve domesticada no pacto de classe feito com o petismo, decidiu que ela mesma pode comandar a vida por aqui. Não precisa do Lula e muito menos de afagos na classe trabalhadora. Foram apertados todos os garrotes e a massa se manteve quieta. Pelo menos uma grande parte dela. Os que espernearam foram poucos. Todas as maldades liberais foram praticadas, sem levantes ou rebeliões. Tudo está tranquilo. Então, já pode ser sacrificado o líder popular. Ele não é mais necessário. 

O mais terrível nesse conto burlesco é que aqueles que foram golpeados, tanto Dilma, quanto Lula e todo o espectro petista, jamais convocaram a população para a resistência. Todo o processo de impedimento da ex-presidenta, bem como a cruzada judiciária contra Lula, foram tratados dentro da ordem, como se aqui fosse mesmo uma democracia e a população tivesse todos os mecanismos de informação a sua disposição.  Protestos aconteceram, mas foram insuficientes para criar um caldo verdadeiramente rebelde.  Possivelmente porque o próprio petismo já estivesse mesmo bem longe da maioria da população, sem vinculação visceral e orgânica com as massas. 

Agora aí está o dia 24. Um julgamento com seu veredito já conhecido. A cidade de Porto Alegre, onde se dará a cena, já está devidamente preparada para impedir a ação dos partidários de Lula. Uma lei, aprovada pela Câmara de Vereadores, impede a aglomeração de pessoas num enorme raio em torno do local do julgamento e até a Força Nacional foi convocada pelo prefeito. Tudo para criar o clima contra os manifestantes que prometem lotar a capital gaúcha. Policiais se manifestam nas redes sociais dizendo que vão pegar os “petralhas”, é um festival de absurdos para o qual a democracia não é invocada. Ou seja, contra o PT tudo pode. 

E assim, enquanto a mídia prepara o terreno para a retirada de Lula da cena política, os desdobramentos do golpe seguem a passos céleres. É praticamente seguro que quando as eleições chegarem já não haverá mais nada para salvar. O país já terá sido entregue. A cada dia uma ação governamental ou uma nova votação no Congresso são portas escancaradas para os interesses do capital, contra os trabalhadores que são a maioria da população. Já não há mais direitos trabalhistas, o salário mínimo baixou, o custo de vida sobe, os serviços públicos estão com investimentos congelados por 20 anos, as empresas públicas estão sendo vendidas, os setores estratégicos entregues às multinacionais. 

Ao fim e ao cabo o resumo da ópera é bem triste. A vida está girando em torno das eleições, o que mantém completamente livre o caminho para os vende-pátria, que atuam em passo acelerado, fechando os mais absurdos acordos. Há por parte da militância petista uma ilusão de que com Lula no páreo, as eleições resolverão o problema do golpe e tudo voltará ao normal com a vitória do ex-presidente. Como já mostramos, não será assim tão fácil. O trabalho sujo em favor dos mais ricos está sendo feito e seguirá até que o novo presidente assuma, coisa que vai demorar. Nada garante que Lula vencendo desfará tudo o que foi feito. Os acordos que o PT vem amarrando com a mesma classe política que se voltou contra ele são públicos e notórios. Outra vez a lógica de conciliação. E já vimos onde isso deu. 

E, caso Lula seja inviabilizado pelo judiciário no dia 24, há poucas chances de uma chamada geral à rebelião. Possivelmente o PT se manterá dentro da ordem buscando um novo nome para a eleição. De qualquer forma, se o caminho for eleitoral, todo o quadro terá de se reconfigurar. Poucos nomes novos assomam no horizonte. No geral, os possíveis candidatos são os mesmos velhos conhecidos da direita, do centro e da centro-esquerda. Há uma tentativa de fazer crescer o nome de Guilherme Boulos, uma importante liderança do movimento por moradia de São Paulo, mas, ele é muito próximo da política lulo/petista, o que não configura novidade. Tanto que ainda não decidiu se vai entrar no páreo ou não porque está esperando o dia 24. Se Lula for o candidato possivelmente ele o apoiará. 

No espectro da esquerda, o Partido da Causa Operária (PCO) deverá repetir o nome de sempre, assim como o Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados (PSTU). O Partido Comunista Brasileiro ainda não definiu candidatura. O Partido do Socialismo e da Liberdade (PSOL) balança entre seguir com a política mais de centro-esquerda e apostar num discurso mais radical. Tanto que ainda não decidiu a candidatura porque está esperando por Boulos. Enquanto isso, nas suas fileiras o pré-candidato Nildo Ouriques esquenta a chapa apontando para a Revolução Brasileira, exigindo que o PSOL sacuda de vez seus resquícios petistas. Uma queda de braço que deverá durar até março, quando enfim o partido decidirá qual projeto vai disputar o voto dos brasileiros. 

Esse é o cenário atual da vida brasileira no qual a dita democracia segue sendo apenas uma palavra e não uma prática real. Nela está embutida apenas a ideia de eleição, como se isso fosse o centro do sistema. No mundo capitalista nem mesmo a eleição garante a democracia, visto que é o capital quem comanda a ação, comprando votos e definindo as tendências. Democracia de verdade, participativa, é o modo de governo no qual a maioria da população tem nas mãos a decisão sobre a vida nacional. Não só de quatro em quatro anos, votando para presidente, mas a toda hora, coisa que ainda não vivenciamos por aqui. 

O julgamento de Lula acontece dentro do formato da democracia liberal. Um juiz, comprovadamente parcial, um processo, comprovadamente falho e manipulado, uma mídia comprovadamente atuando a favor da fraude. Tudo é uma farsa, grotescamente montada, como se apenas Lula e o PT fossem os demônios pervertidos que se lambuzaram com a corrupção. Eles são parte do sistema, é fato, mas não são só eles, o que para a mídia e para boa parte da população não interessa para nada. Já foram declarados como inimigos públicos. O script é esse e o final já é conhecido. Os bandidos – no caso, os “petralhas” – morrem no final. 

Só que não.

Se a farsa do Lava-Jato excluir Lula da eleição, a corrupção não vai acabar por mágica. Pelo contrário. Sacrificado o cordeiro, tudo seguirá como sempre foi. E o cordeiro, como é parte do sistema, logo encontrará uma forma de renascer. Assim, tudo mudará para que nada mude. 

Esse é o nosso drama. 

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

De gatos e zumbis


Na minha casa opera um estranho costume: tudo vai virando gato. Não sei se é bênção ou maldição. Três cachorros moram comigo e todos eles agem como gatos. Um deles, o mais velho, ainda pula o muro exatamente como faz um gato. Pula alto e agilmente, escalando. Para, olha para a rua, vê como estão as coisas e salta para a liberdade. Nada o segura, tal qual os gatos. Os outros dois não conseguem saltar, mas agem, comem e dormem como gatos. E também rejeitam a comida de cachorro, preferem a dos gatos. É uma briga. E também um tal de “estraga-ração”. Prejuízo.

De mim, nem falo. Sou toda gato. Não gosto de multidões, prefiro a solidão. E me escondo quando tudo fica muito tumultuado. Sou desconfiada e difícil de aceitar carinho. Posso me encantar por dias com pequenas coisinhas e fios coloridos. A luz da TV me eletriza e hipnotiza.  Gosto e caixas e só não entro dentro porque não caibo mesmo. E falo a língua de gatos, perfeitamente.

Pois agora o meu pai, que está morando comigo há quase dois anos, estranhamente começa a virar gato. Quando o sol fica a pino nesses quentes dias de janeiro ele desaparece. E fica o dia todo dormitando no sofá, com os gatos ao redor, também dormindo.  É um sonolento quinteto.

Tudo podia ser muito legal se não fosse o fato de que, tal qual os gatos, quando chega a noite, ele também se acende. Fica cheio de energia e não pega no sono de jeito nenhum. Durante a madrugada fica andando pela casa, querendo tomar café ou conversar.

Nessa brincadeira de ser gato, eu vou ficando zumbi. Como me preocupa saber que ele fica andando pela casa ou pelo jardim, eu acordo e tento fazê-lo voltar para cama. Nisso as horas vão passando, e eu não prego o olho. Quando chega a manhã, estou um caco. E vou me arrastando para o trabalho. Nesses dias de verão chego a agradecer aos empresários do transporte coletivo por serem tão gananciosos e termos o pior sistema de transporte público do mundo, porque é só dentro do ônibus que eu consigo dormir. Faço o interminável e engarrafado trajeto do Centro até o Rio Tavares nos braços de Morfeu, meio gato e meio zumbi.

Aí, quando chego, a história se repete. Os gatos, cachorros e o pai estão dormitando, serenamente. E eu, sigo zumbizando. Valamideuzi... A parada é dura!



Assassinato de Jornalistas


O México - que vive hoje praticamente dominado pelo narcotráfico - foi o país com maior número de assassinatos de jornalistas em 2017, contabilizando bem mais mortes do que países em guerra. A informação é da Federação Internacional de Jornalistas, que contabilizou 81 mortes em todo mundo, sendo que, destas, 13 foram no México. Oito mortes foram de mulheres. Todos os assassinatos foram de jornalistas exercendo sua função.  

No informe anual de assassinatos, a Federação denunciou que os jornalistas perderam a vida em homicídios seletivos, atentados com carros-bomba e no fogo cruzado. Além das mortes, mais de 250 jornalistas foram presos, também no exercício de seu trabalho. Só na Turquia, onde aconteceu o falido golpe de estado, existem 160 presos.

Na lista das mortes, o Afeganistão vem em segundo, com 11 mortes, Iraque também com 11, Síria com 10 e Índia com seis mortos. 


quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

O controle social de frequência na UFSC



A reunião realizada entre a comissão dos trabalhadores técnico-administrativos e a reitoria para discutir o controle de frequência acabou com algumas boas notícias. Temporárias, mas inegavelmente boas. A primeira delas é que o relógio ponto não será instalado esse ano. E a segunda é que a administração concordou em testar a proposta do controle social, defendida pelos TAEs.

A reunião terminou bem, mas não foi fácil. Afinal, a reitoria permanecia com a intenção de instalar os equipamentos de controle biométrico (com a digital), pelo menos dois, para testar e para atender a ordem judicial. A comissão insistiu sobre que não havia a obrigatoriedade de ser o ponto biométrico. A última decisão judicial é bem clara: a universidade pode decidir a modalidade de controle eletrônico que melhor atenda às suas especificidades. Não há imposição de nenhum tipo específico, sob pena, como bem diz a juíza de “ferir a autonomia”.

O fato é que a leitura do processo, de três mil páginas, por parte dos membros da comissão, deixou bastante claro que houve um completo abandono por parte da UFSC, sendo inclusive, perdidos prazos. A gestão Roselane/Lúcia estava imbuída da vontade política de aplicar o controle leonino sobre os técnico-administrativos, aceitando a sugestão do Ministério Público, que apontava não apenas o ponto biométrico, mas também catraca e câmera. Quando a gestão Cancellier/Alacoque assumiu, tampouco foi revisto todo o processo. Seguiu-se aos encaminhamentos já determinados. Foi a insistência dos TAEs no debate sobre o tema que levou a essa pequena vitória, alcançada agora no final do ano.

A gestão do reitor pró-tempore, Ubaldo Balthazar, estava dando sequência à instalação do ponto, acreditando que era mesmo uma exigência da justiça. Não é. Isso ficou claro no processo. E mesmo a compra dos equipamentos, que já foi efetuada, e com dinheiro do Reuni, pode ser revista, visto que o modo de licitação foi o pregão, que permite a não consolidação da compra caso os equipamentos não sejam instalados.

A mobilização dos TAEs e o trabalho da comissão que negociou com a administração foi fundamental para que o ponto – que já estava para ser instalado na BU, no Setic e na Secretaria de Ensino à Distância – fosse suspenso. Nessa quinta-feira, o reitor encaminhou ao Ministério Público e ao judiciário um documento, no qual explica todo o processo de tentativa de implantação do ponto biométrico, alegando que as coisas tardaram em função da falta de orçamento e também pelo drama vivido pela universidade com a prisão e posterior morte do reitor Luiz Carlos Cancellier. Informa também que o controle eletrônico será instalado até o final do ano, em outra modalidade, mas agrega ao documento um cronograma de implantação dos pontos biométricos para o ano que vem.

Isso significa para os TAEs uma meia-vitória, visto que agora eles terão os meses de janeiro e fevereiro para apresentar uma proposta concreta de controle social. Esse é um trabalho que, de certa forma, já está bem adiantado, pois há muito tempo que se discute essa forma de controle de frequência, que deverá seguir os moldes da que hoje é usada para os professores.

O controle social de frequência desloca o foco de poder que, com o ponto biométrico  ficaria na mão do chefe de plantão, para a sociedade. E como é isso? No ponto biométrico, apenas os chefes e os órgãos de controle interno teriam acesso ao sistema. No controle social a sociedade toda pode ter acesso e conhecer as especificidades do trabalho dos técnicos. Hoje, na UFSC, existem mais de 30 profissões sendo exercidas entre os TAEs e, cada uma delas, tem uma peculiaridade. São engenheiros, médicos, enfermeiros, administradores, jornalistas, jardineiros, assistentes de administração, zeladores prediais, psicólogos, assistentes sociais, etc... São atividades muito distintas que não podem ser submetidas a um sistema padrão de controle de frequência. Além disso, existem TAEs que atuam também na pesquisa e na extensão.

Com o controle social não apenas os horários de trabalho, mas também as atribuições dos trabalhadores estarão disponíveis para a sociedade, tornando muito mais transparente o processo de trabalho, impedindo que o controle vire moeda de troca para as artimanhas políticas, ainda muito comuns na universidade.

Os professores, por exemplo, tem um sistema de controle que é o Planejamento das Atividades Docentes, o PAD, efetuado eletronicamente todos os anos. Nele, os docentes precisam relatar os horários de aula, o tempo de pesquisa, os projetos que estão trabalhando, o tempo de extensão e os trabalhos que desenvolvem nessa área. Assim, qualquer pessoa pode saber como as horas daqueles professores estão sendo distribuídas. É bastante transparente. A proposta para os TAEs é bem parecida e deverá ser viabilizada por uma comissão formada pelos TAEs e pela administração.

É fato que as relações coronelistas ainda bem vivas na universidade fazem com que muitos trabalhadores não confiem muito nessa ideia de controle social. Muitos ainda preferem a relação visceral com as chefias, porque permite negociações. O que mostra o quanto esse sistema em que o chefe tem o poder sobre o trabalhador é nefasto e passível de manipulação. Por isso, é fundamental que o sindicato realize uma boa campanha de divulgação sobre o que é o controle social para que os trabalhadores e a sociedade possam perceber o quanto é mais democrático e eficaz. A modernidade e as novas tecnologias de informação já permitem que o tempo dos coronéis fique no passado. É a sociedade que precisa saber e fiscalizar o serviço público. Daí que o controle social é a ferramenta mais adequada.

Com esse respiro de dois meses, os TAEs terão de sacrificar os meses de verão e possíveis férias para realizar esse importante trabalho. Mas, a comissão está animada. Há muito a fazer e as ideias já pipocam. A proposta agora é criar um canal direto de comunicação entre a comissão e os trabalhadores para que todos possam acompanhar o andamento da construção do modelo.

O ano termina e ainda que tenha sido bastante sombrio, com todas as tristezas que se abateram sobre a instituição, os trabalhadores conseguiram realizar um grane trabalho. Mostraram que o controle social é possível e desvelaram todas as inverdades que estavam sendo vendidas como certas. Os trabalhadores entendem que como servidores públicos têm de prestar contas à sociedade sobre seu trabalho, e não apenas aos chefes imediatos. E é nesse caminho que deverão construir o modelo de controle social.

Os representantes dos técnicos na comissão serão Veridiana Oliveira, Gabriel Martins, Luciano Agnes, Ivandro Valdameri, André Ruas, Dilton Rufino e Celso Martins.  

É importante lembrar: o ponto biométrico ainda é uma ameaça. Só a luta concreta muda a vida. Também ficou decidido que os TAEs lutarão para incluir o HU - que já tem ponto biométrico - no sistema de controle social. 


segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

UFSC cumpre 57 anos de vida







Em 1960, a união das faculdades existentes em Florianópolis - Direito, Ciências Econômicas, Odontologia, Farmácia e Bioquímica, Medicina, Filosofia e Serviço Social, deu origem à Universidade Federal de Santa Catarina, cuja lei de criação foi sancionada por Jucelino Kubitschek, em 18 de dezembro. Pouco tempo depois começavam as obras do que viria a ser o campus da UFSC, já na Fazenda Assis Brasil, depois de muita disputa sobre onde deveria ser fincada a universidade, já que a fazenda era considerada muito distante do centro. Mas, apesar disso, venceu a ideia de David Ferreira Lima, e o campus foi crescendo na Trindade, ajudando a dar nova vida ao bairro.

Hoje, dia 18 de dezembro de 2017, a UFSC comemorou seu aniversário de maneira sóbria, ainda vivendo a perplexidade da morte do reitor Luiz Carlos Cancellier, decidida por ele depois de vivenciar profunda humilhação ao ser preso de maneira arbitrária e posteriormente impedido de entrar na UFSC. Acusado de obstruir a justiça numa investigação de desvio de recursos, ele viu seu nome jogado na lama, pela polícia, pelo judiciário, pela mídia e pela opinião pública. Todos julgando e condenando antes de qualquer evidência. Não suportou.

Nesse dia de aniversário a administração decidiu inaugurar o retrato de Cancellier na galeria dos reitores. Foi a maneira de juntar a celebração dos 57 anos com a lembrança, ainda doída, da tragédia vivida no último outubro. A Orquestra de Câmara e o Madrigal da UFSC trouxeram a beleza da música, e o retrato foi descortinado. 

O grupo “Floripa contra o Estado de Exceção” realizou seu protesto, com faixas e cartazes lembrando a forma abusiva com a qual a polícia, o judiciário e a mídia trataram do caso que levou o reitor ao suicídio. “Não vamos permitir o esquecimento”. Faixas com as fotografias daqueles que protagonizaram as denúncias e as prisões circularam pelo saguão da UFSC, cartazes com dizeres diversos lembrando o abuso, em defesa da universidade pública e gratuita também proliferaram. Ao final das homenagens o grito: Justiça! Justiça! Até hoje – desde o dia da prisão, que foi no começo de setembro – não há comprovação sobre qualquer crime que tenha cometido o reitor. 

Do lado de fora da reitoria a manhã corria cinzenta, com uma neblina fininha caindo. Pelo campus, o silêncio. Já não há mais aulas e os estudantes se foram. Em volta da música e da homenagem pelos 57 anos reuniram-se os trabalhadores, poucos. Alguns, mais próximos do reitor Cancellier, enxugavam lágrimas furtivas. Ficou a saudade do professor cumprido, que descia incontáveis vezes para o lado de fora da reitoria, para fumar e conversar com quem passasse. “Parecia que o gabinete era ali embaixo”, lembrou um jardineiro.

Outros, como eu, também se emocionavam com o aniversário em si. Afinal, apesar de saberem que essa que aí está ainda não é a universidade necessária, nutrem por ela um profundo amor. Um amor que está ancorado na potencialidade desse lugar, que tem como missão formar pessoas para o mundo do trabalho, para a criação do novo, da ciência, do conhecimento. Uma universidade que ainda não deu as mãos à maioria do povo, nem conseguiu apresentar soluções para os problemas locais e nacionais, mas que, apesar disso, tem em si a possibilidade. 

E é em busca dessa possibilidade que caminhamos, no cotidiano, fazendo coisas fora da ordem, lutando para que permaneça pública, gratuita, de qualidade e que se faça comprometida com a sociedade, com a maioria da população. 

A UFSC é um lindo lugar, espaço onde travamos nossas batalhas de classe. É abrigo, é casa, é madrasta e mãe. Depende sempre de cada um e do que se espera dela.

Eu, que aqui cheguei, primeiro como aluna, em 1987, depois como trabalhadora em 1994, a tenho como território de potência e de belezas. Gosto de andar por suas veredas, seus lugares lúgubres, suas alamedas verdes, seus corredores silenciosos. Gosto de suas gentes, amo os meses de aula com a balbúrdia dos estudantes, as lutas dos trabalhadores, o latir dos UFSCães, o trinar dos passarinhos, o coloridos dos ipês. Sinto-me em casa. Por isso, não me furto à luta para que ela saia de seu conservadorismo, seu atraso, sua intolerância. Dentro desse pequeno mundo, vamos fazendo o que podemos para tornar a UFSC a universidade sonhada, que ainda não vingou. Mas, vingará. 


Orquestra de Câmara e Madrigal da UFSC





Papai Noel vermelho



Lá vamos nós viver mais um natal, tempo em que o sagrado perde espaço para o consumo. Mais vale ter um presente que um abraço. Mais valem as coisas que as gentes. Mais vale a ideia de um velhinho distribuindo mercadorias do que o menino Jesus, ideia mítica de amor e doçura.

No Brasil, há poucos dias, crianças jogaram pedra num Papai Noel, porque as balas que ele distribuía se acabaram. Ou seja, foda-se o velhinho, queremos os presentes. E, claro, a responsabilidade por isso não é das crianças, ensinadas que são a valorizar mais a mercadoria do que o esforço dos trabalhadores que a tornou possível.

O capitalismo nos rouba muito mais do que a mais-valia. Ele nos tira também a delicadeza do humano. Por isso, há que resistir. A luta para destruir esse sistema de produção é o único “presente” possível. Por isso, meu Papai Noel é esse que enfrenta a polícia, que exige justiça, que batalha pelo mundo novo, solidário e comunista. O Santa Klaus, original, caminhava com os empobrecidos para mudar as coisas, não para mantê-las, tal qual Jesus. E é com esse propósito que também caminhamos. Não para distribuir presentes (coisas, mercadorias). Mas, para garantir um presente digno e um futuro melhor. À luta, pois!!!!