quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Aos velhos e aos novos - Vamos discutir a UFSC



Na UFSC, uma das grandes batalhas que sempre travamos foi a da autonomia universitária. Garanti-la durante os momentos mais cruciais sempre foi cimento para unificações – no geral complexas  - entre técnicos, professores e estudantes. Autonomia na sala de aula, autonomia administrativa, autonomia política. Claro que sempre alinhada às grandes políticas traçadas pelo estado, afinal a universidade é uma instituição pública.

Nunca foi fácil caminhar por esse caminho de autonomia. Primeiro porque quase sempre tivemos reitores visceralmente atrelados politicamente às políticas conservadoras dos governos de plantão. Ainda assim, quando do interesse dos gestores, a autonomia era chamada. No geral, assim, obedecendo a esse uso instrumental. Quantas batalhas perdemos nós, trabalhadores e estudantes, porque os administradores não quiseram usar do princípio da autonomia, e quantas outras perdemos porque eles arrogaram autonomia? Os que estão na UFSC por mais tempo sabem disso.

É por isso que seguimos lutando pela tal autonomia. Mas entendemos que ela deva ser praticada para servir aos interesses da maioria da população, que é quem usa e sustenta a universidade. Sabemos também que isso só vamos conseguir quanto tivermos uma administração alinhada com as grandes lutas nacionais por transformação. Infelizmente na UFSC temos tido administrações conservadoras, no mais das vezes alinhada com o mercado capitalista.

Durante a gestão de Roselane/Lucia, vivenciamos um momento estranho. Houve um afã desenfreado de processos contra trabalhadores, mais de 500, muitos deles sem qualquer fundamento, sob a alegação de que a UFSC estava sob a fiscalização cerrada de outros órgãos federais. E houve uma questão em particular que acendeu a luz vermelha dessa relação de submissão da instituição ao Ministério Público.  Foi a imposição do ponto para os técnico-administrativos. Segundo a reitora, o MP estava pressionando e a UFSC iria acatar, sem levar em conta a sua autonomia. Na época, sugerimos à reitora que trouxesse os membros do MP à UFSC para explicar como a instituição funcionava, como ela não era uma fábrica de salsichas e como não podia ter as mesmas regras. Sugerimos também uma proposta autônoma e adequada ao papel da universidade sobre como controlar o ponto dos trabalhadores. Não teve jeito. A reitoria assumiu a reprimenda do MP e impôs a folha-ponto.

O que precisa ficar claro para a sociedade é que ninguém aqui está dizendo que a universidade não deve se submeter a controle. Ela tem sim que estar sob controle da sociedade e existem mecanismos para isso. Mecanismos que são usados o tempo todo. Poucas instituições são tão controladas como a universidade. Se estouram alguns escândalos de desvio de verbas, podem apostar que estão sob o comando das fundações, porque essas sim estão livres e não prestam contas com rigor. As fundações são empresas privadas dentro da universidade, configurando uma excrescência que poucos têm a coragem de discutir. Durante o mandato dos TAEs Livres no Conselho Universitário bem que tentamos trazer um mínimo de transparência para as contas. Esbarramos na sempre subserviente relação entre os professores e as fundações. Avançamos pouco. Nossa proposta sempre foi pelo fim das fundações dentro das universidades, mas o próprio presidente Lula as legalizou.

Voltando a autonomia, a universidade poderia sim evocá-la para discutir com qualquer outro órgão federal. Um reitor ou reitora que realmente conhece e defende a instituição não deve ter medo de dialogar e apresentar os argumentos sobre como está fazendo seu trabalho. Enfrenta MP, enfrenta tribunal de Contas, enfrenta Controladora Geral da União. Chama para conhecer, mostra as diferenças, abre as contas, abre todos os “cofres”. Transparência e firmeza. Com isso pode-se ir conversando e encontrando caminhos.

O que não dá é para temer.

Compreendo que o que aconteceu com o Cancellier possa colocar medo nas pessoas. Se ele, sendo um homem do sistema e um conciliador, passou o que passou, o que não poderia passar àquele ou àquela que decide enfrentar com autonomia esses setores que hoje assomam com tanta empáfia, arrogância e intolerância? Não deve ser fácil arriscar ser preso por um jovenzinho pseudo-calvinista por não cumprir uma determinação imposta pelo desconhecimento.

Mas, apesar de toda essa treva que se abate sobre o país, é preciso resistir. Nossa UFSC precisa de uma administração sem medo, capaz de apontar o caminho da resistência. O Cau foi tomado de surpresa. Ele não teve chance. Não sei se ele enfrentaria, mas o fato é que não teve chance. Foi arrancado de casa e impedido de entrar na universidade. Sofreu humilhações e ficou impedido de fazer contato com seus colegas da UFSC.  Nessa hora faltou mesmo liderança. Ninguém do grupo da administração assomou levantando a bandeira da autonomia. Nem seus correligionários. Ficou um estupor. Nossas entidades sindicais internas estão mortas. Não se moveram. Os estudantes tampouco.
Então o reitor se matou. E isso abriu os olhos de alguns.

Começou uma movida, ainda muito burocrática. Denúncia do estado de exceção, pedido de justiça. Mas nenhuma ação massiva da comunidade. A vida segue nos departamentos, nos centros, como se nada fosse com a gente.

Agora, mais essa. A nova reitora em exercício se rende aos órgãos de fora. Desfaz um ato administrativo que buscava esclarecer denúncias sobre o corregedor. Atropelos, titubeios, medo. Não é disso que a UFSC precisa.

Os técnico-administrativos vão realizar um encontro auto-convocado nessa quinta-feira, dia 26 de outubro, às 9h e 30min, no Hall da reitoria. Chamamos todos e todas. Os velhos, que já se aposentaram, os novos que aí estão, atônitos diante de tudo. É tempo de retomarmos o protagonismo que sempre tivemos sobre os grandes temas da UFSC. Os trabalhadores fazem a UFSC. É hora de encontrar caminhos coletivos que fortaleçam nossa universidade e que permitam assomar propostas de autonomia e bom-governo.


Sem medo, avante! TAEs, vamos dizer nossa palavra.  


terça-feira, 24 de outubro de 2017

Do Dia do Saci e das coisas inúteis


Nós estaremos na Felipe, a partir das 15 horas - 31 de outubro - Foto: Rubens Lopes

Dia 31 de outubro se celebra no Brasil, o Dia do Saci Pererê e seus amigos. Uma resposta cultural e uma ação de resistência diante da invasão fetichizada da festa do “raloím”, bastante importante na cultura estadunidense, mas que para nós diz muito pouco.  E, da maneira como é festejada, nada mais é do que outro bom motivo para vender coisas, as mercadorias do mercado capitalista.
Em Florianópolis, no ano de 2003, um pequeno grupo decidiu enfrentar o desafio de resistir a mais essa invasão. O raloím, que até então era festejado só nas escolas de inglês, passou a invadir as escolas públicas e até as creches. Uma coisa de doido, porque aqui quase ninguém sabe o que esse mito representa.  E mito é coisa séria. Diz do humano, do que nos é mais profundo.

Estávamos no Sindicato dos Trabalhadores da UFSC e tínhamos acabado de conhecer a batalha de alguns grupos do interior de São Paulo, que procuravam contrapor o Saci ao mito do raloím. Resolvemos então trazer para Florianópolis a celebração desse adorável mito brasileiro, que é uma mistura das três grandes matrizes da cultura brasileira: o branco, o índio e o negro. Tudo junto e misturado. Nosso mito mais profundo, que simboliza o guardião das florestas, das matas, da vida. Que representa nossa alegria, nossa molecagem, nosso espírito rebelde.

Então, no 31 de outubro, levamos o Saci para as ruas. A resposta foi incrível. As pessoas conhecem e amam o Saci, elas apenas não têm oportunidade de brincar com ele, de conhecê-lo em profundidade. E foi isso que começamos a oferecer. Todo ano, no mesmo dia do raloím, lá vamos nós para a rua, carregando o Saci e contando sua história, que é, na verdade, nossa história profunda. A gente distribui panfletos, conta histórias, dança, pula, se diverte à larga. E junto com a gente, brincam todas as pessoas que passam pelo calçadão da Felipe. Ninguém fica imune. A alegria contagia. E mesmo aqueles  que apontam com a cara fechada, ao verem o Saci e ao perceberem que aquela muvuca é uma festa pindorâmica, ancestral, abrem o riso e passam pulando.

A festa foi sendo realizada todos os anos, já virou uma tradição. Sempre construída com o apoio de sindicatos e movimentos, promovida agora pelo grupo da Pobres e Nojentas. E movimenta tanto a vida da cidade nesse dia de resistência cultural, que o Dia do Saci e seus amigos foi oficializado pela Câmara Municipal de Florianópolis, como um dia de festa no calendário da cidade, assim como é de festa o dia do aniversário, o dia das rendeiras, dos pescadores. Isso é legal porque pode permitir que a municipalidade também atue na resistência cultural. Não tem feito isso, mas pode fazê-lo se quiser.

Pois agora, um vereador do PSB chamado Bruno Souza quer revogar a lei que institui o Dia do Saci e seu amigos, que aqui na ilha inclui também as bruxas do Cascaes e o Boi-de-mamão, mitos e festejos típicos do lugar. Ele diz que isso é uma bobagem e que a lei é inútil. Ele deve crer também que festejar a cultura nacional é inútil. Talvez acredite que o melhor mesmo é comprar uma roupa de esqueleto e sair por aí festejando o raloím.

Esse ano, vamos para a rua de novo, no décimo quarto ano de Dia do Saci e seus amigos. Porque a gente gosta das coisas inúteis. Essas coisas que não se prestam a valor de troca nem de uso. Não são pra vender, nem pra comprar, nem pra usar. São coisas para viver, brincar, amar.  As coisas inúteis são essas que nos conectam com a suprema beleza, com o sagrado profundo, as que provocam uma quentura por dentro e explodem em ondas de felicidade.

Nós vamos para a Esquina Democrática nesse 31 de outubro, com nosso Saci e com o Boi-de-Mamão. Vamos denunciar o golpe que vive nosso país, vamos denunciar o Estado de Exceção que prende, julga e mata sem qualquer processo - como fez com o reitor da UFSC, o Cao Cancelier. Vamos denunciar o capitalismo que destrói tudo que toca. Vamos informar sobre a luta dos povos originários, que ainda precisam batalhar por seus territórios, vamos denunciar as mortes no campo, o extermínio dos jovens negros, a violência contra as mulheres.

Vamos mostrar que estamos vivos e que não desistimos da luta. E que ela pode se expressar também nesses momentos “inúteis”, de pura brincadeira. Em meio a toda dor de um país que vai sendo destruído por poderosas gangues que ocupam hoje os cargos de poder, nós dançaremos nas ruas. Como Jeremias, no centro de sua terra arrasada, nós pularemos com o Saci, acreditando piamente que é da nossa luta, como povo unido, que brotará a primavera.

O Dia do Saci e seus amigos será celebrado, como tem sido ao longo desses 14 anos, no centro de Florianópolis. Haverá brincadeiras, danças, pulos, e distribuição de sacizinhos. Terá o Boi-de-Mamão e terá alegria. Nós te convidamos. Começa às 15 horas e vai até as 16h e 30 min. Passa lá. O Saci também estará lá, com seu cachimbo e suas peraltices.

Venha pular e dançar, porque é preciso. Há uma longa e feroz batalha para travar nesse nosso país acossado pelo golpe. E, nessa caminhada, precisamos da alegria.


Esperamos vocês... 





domingo, 22 de outubro de 2017

Das dores da gente, que são só nossas


Eu saí de casa bem jovem e foi na caminhada que aprendi a segurar “no osso do peito” as dores e os terrores. Não havia com quem dividir. Tinha de enfrentar. Isso vai moldando a gente e criando armaduras de proteção. Passei por grandes apertos, tive de tomar duras decisões, e sempre sozinha. Nenhuma mão para me apoiar. Nenhum ombro para amparar a cabeça. Certo ou errado tive de assumir e seguir.

Sempre entendi que as nossas horas de angústia, nossos momentos mais dolorosos, nós os passamos sozinhos. Ninguém pode ajudar. A “hora noa” (a angústia) é coisa que se vive na solidão. Mesmo que alguém queira ajudar, não adianta. Não pode. Não há conselhos, não há palavras, não há nada que o outro possa fazer. A gente tem de enfrentar o deserto sozinha.

Mas, ao longo da vida também aprendi que se a gente não pode mudar a decisão ou a dor do outro, há uma coisa que a gente pode fazer. Ficar do lado, em silêncio, apertar a mão, abraçar. Isso faz a diferença. É como saber que há um galho no abismo e que se a gente fraquejar, ele estará ali, e nos sustentará.

Esse turbilhão de sentimentos me veio à durante a Sepex, semana passada, na UFSC. Na abertura dessa mostra, que é uma atividade super importante na universidade, quando milhares de alunos de todo o estado vêm visitar a UFSC, ninguém falou do reitor, morto recentemente de maneira trágica. Pensei que haveria alguma homenagem, alguma palavra de afeto por aquele que até ontem dirigia a universidade de um jeito novo. Mas não. Entre seus companheiros, o silêncio. Dias antes, um colega esbravejara no hall da reitoria sobre ninguém se importar com o que acontecera com o Cancellier. Verdade. Ali eu via seu apagamento. E me aparece bizarro que quem o lembre sejam os que nem eram amigos, nem correligionários. Um paradoxo.

A morte dele me tocou profundo. Sei o que é estar sozinho, sem saída, no chão. Não importa se culpado ou inocente, o que aperta é essa profunda solidão na dor, capaz de levar a um ato extremo.  E me toca ainda esse silenciar sobre. Nesse ano em que Cancellier dirigiu a UFSC praticamente nove meses passamos em confronto. Lutávamos para reintegrar um colega, exonerado por vinganças política da administração passada. Foram muitas assembleias, reuniões, conversas, sempre no embate. Exasperava seu jeito conciliador. Mas, ao fim, não conseguia sentir raiva dele.

Ontem soube que a administração finalmente instaurou um processo administrativo contra o corregedor. As denúncias contra ele sobre assédio e destempero já eram bem conhecidas no âmbito dos técnicos. Deveriam ter sido levadas em conta antes. Não foram. Agora aparece quase como uma vingança. De novo a conciliação do Cancellier pretendia resolver sem quebrar os ovos. Não dá. Tem coisa que não concilia.   

O fato é que a Sepex acabou e a vida segue na UFSC. Isso me assombra. Fosse eu sua amiga, ou mesmo sua parceira política, não deixaria assim. Não permitiria o silêncio, nem o esquecimento. Parece que há um medo de que novas informações surjam, de que as acusações sejam verdadeiras e aí, viceja também o medo de se contaminar com o “crime”.  

Lembro-me da última vez que vi o Cancellier. Foi numa assembleia do caso Daniel, como sempre mal conduzida pelo sindicato. Quebrando as regras, agarrei o microfone e fui explicar para o Cau porque aquela era uma demissão política. Eu enfurecida, e ele com aquela cara de paisagem. Levou na maciota até o fim, e pouco tempo depois resolveu a questão de outra forma, encontrando um furo no processo. Era o seu jeito.

Para quem não vive o dia a dia da UFSC pode parecer estranho que os adversários políticos acabem nos sendo simpáticos. É que não dá para viver o cotidiano com sangue nos olhos. A gente convive no mesmo espaço e acaba encontrando as brechas humanas em cada um. Uma doença, uma tragédia pessoal, uma queda, e lá estamos, solidários. Porque somos colegas. Era assim. É assim. Quantas vezes não cruzei com o Amin nos corredores e lhe sorri? Pois é! Colega...

Por isso o triste fim do grandão do CCJ ainda me choca. E me entristeço com o silêncio da instituição sobre ele. Na porta da Sepex, olhando a UFSC plasmada na festa da pesquisa e da extensão, chorei. Porque, como sempre – desde as primeiras grandes dores  - entendi que as coisas que vivemos as vivemos sós. Sejam as belezas ou os terrores. E não haverá ninguém  para nos abraçar dizendo: não temas, eu estou aqui. 

É foda. Mas, é assim! Não temos acolhimento na dor e, depois, é o esquecimento. 

Acho que é por isso que escrevo. Para lembrar... 




quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Vitória dos Amarildos

A comuna Amarildo já dá seus frutos

As vitrines da “ilha da magia” já iluminavam um vindouro natal naquele dia 16 de dezembro de 2013, quando, na madrugada, um grupo de famílias, sem condições de pagar aluguel na grande cidade especulada, decidiu ocupar uma área na região mais nobre da ilha de Santa Catarina: Canasvieiras, a super praia amada pelos turistas. E, bastou que as lonas dos barracos fossem vistas da estrada, para que começasse o furdunço. Num átimo e lá já estava a polícia e um pretenso dono do lugar, até então, um vazio. Quem reivindicou a terra foi uma empresa chamada Florianópolis Golf Club, de propriedade de Artêmio Paludo, que, em tempo recorde, conseguiu a reintegração de posse. O judiciário, sempre ágil para servir aos ricos, já mandou arrancar as famílias e derrubar os barracos.

Mas, as coisas não foram tão simples assim. As 60 famílias que ocuparam o lugar deram a ele o nome de “ocupação Amarildo de Souza”, em homenagem ao trabalhador negro, desaparecido em uma UPP, na Rocinha, e decidiram resistir. Naqueles dias, ninguém sabia, mas essa ocupação iria levantar o véu espesso que cobria a questão da posse das terras em Florianópolis.    

A proposta dos “Amarildo”, como ficaram conhecidas as famílias, era a de constituir ali, naqueles 600 hectares de terra uma comunidade agrícola, onde pudessem plantar e viver. Boa parte das pessoas era migrante e saíra do campo em busca de vida melhor. Na capital, as famílias viviam de bico ou no subemprego, e não conseguiam garantir a moradia. Ocupar foi a solução. Afinal, terra vazia, sem cumprir função social, é passível de expropriação.

A resistência dos Amarildo foi grande. Eles foram tirados do terreno de Canasvieiras, depois foram para outro no Rio Vermelho, onde a população os rechaçou violentamente. Com crianças, velhos e mulheres, eles tiveram de se mover e chegaram a ir para uma terra que era dos indígenas. Mais conflito. Passaram-se meses, de ocupação em ocupação, insistindo junto ao Incra para que garantissem uma terra. Afinal, o que eles queriam era integrar-se ao processo de reforma agrária, conquistando terra e plantando.

Finalmente, depois de muita batalha, eles foram levados para a cidade de Águas Mornas, onde as famílias foram assentadas em pouco mais de 130 hectares. Já não eram mais as 60 da primeira ocupação. A dureza da resistência e a necessidade de ganhar a vida na capital mesmo foram fazendo com que muitos tivessem de desistir. Mas, os que ficaram logo arregaçaram as mangas e começaram a fazer a terra parir. E ela deu frutos. Em pouco tempo já havia uma boa plantação de hortaliças, produção de geleias, criação de galinha, e as famílias já começavam a comercializar.

Ainda assim, as coisas não estavam definidas e a luta pela posse definitiva da terra seguiu. Finalmente essa semana, os Amarildo tiveram uma vitória. O INCRA de Santa Catarina formalizou, através de publicação no Diário Oficial, a criação do Projeto de Assentamento, na modalidade Desenvolvimento Sustentável, para a Comuna Amarildo de Souza. Isso significa que agora eles estão legalizados e poderão, inclusive, garantir recursos para seguir plantando com mais eficácia e qualidade.

Por isso não era sem razão a alegria imensa estampada no rosto de Daltro de Souza, uma das lideranças da área, quando me entregou nessa manhã de quinta-feira, a cópia do documento oficial. Naquele pequeno pedaço de papel estava plasmada toda uma batalha, que durou mais de três anos, travada na escuridão dos barracos de lona e,  depois, na solidão da distância, em Águas Mornas.

Agora, novos caminhos se abrem para os Amarildos e muito trabalho está por vir. As famílias que perseveraram seguirão trabalhando e produzindo a comida que chega à mesa do povo da cidade. E quando a noite chegar, eles poderão descansar a cabeça na sua terra.

Mas, apesar de estarem distante da capital, onde tudo começou com a ocupação do terreno na beira da praia, os Amarildo deixam em Florianópolis a sua marca. Depois da ocupação de 2013, que ousou questionar a posse da terra urbana, muita água rolou. Aquela ferida aberta na região mais nobre da ilha moveu o historiador Gert Shinke a pesquisar sobre quem eram os donos das terras na ilha. E sua escavação nos arquivos acabou descobrindo a gigantesca farsa da “reforma agrária” feita durante o regime militar, na qual os governantes distribuíram terras aos amigos. Um vespeiro que ainda está zunindo e que pode ter consequências.

Lá em Águas Mornas, as famílias da Amarildo agora dormem em paz, enquanto que nas casas-grandes dos surrupiadores de terra a chapa esquenta. Não que se tenha fé no judiciário. Impossível. Mas, pelo menos, o véu está rasgado e alguma incomodação eles vão passar.


Na comuna, mais do que nunca, ecoa o bordão pelo qual eles são conhecidos: “Firmes!” E cada vez mais. Vida longa para a comuna, vida longa Amarildos. 


terça-feira, 17 de outubro de 2017

A morte do outro não importa

Tragédia na Somália: uma a mais no doloroso processo de libertação

O mundo ocidental se move por uma premissa que vem da cultura grega: o ser é, o não-ser não é. E o que significa essa frase tão enigmática? Que só é reconhecido como ser aquele que é igual. O outro, esse não existe. Não-é. Não tem importância. Sendo assim o que é para o mundo ocidental europeu/estadunidense? Aquele que é igual a eles: branco, rico, capitalista, guardião da ordem e da moral. Tudo o que sai desse script não-é. E, não sendo pode ser destruído sem dó. Sobre a morte desse outro que não-é, não se fala, porque não importa.

É por isso que o massacre perpetrado pelos Estados Unidos nos países do Oriente Médio não tem a menor importância para o mundo ocidental. Todos os dias, os “mariners e seals” matam 20, 30, 40 iraquianos na sua já eterna campanha contra o “mal”. E as pessoas seguem vivendo sem se importar. O picoteamento do continente africano em inúmeros países, criados pelos interesses dos povos europeus, sem que fossem levadas em consideração as histórias e tradições dos povos do lugar é outro exemplo. Todos os dias morrem milhares por conta da ocupação colonial e sua herança. Poucos se importam.

Nessa semana, na capital da Somália, Mogadíscio, dois caminhões bomba explodiram causando um massacre, matando cerca de 300 pessoas e ferindo outras tantas. Foi o pior ataque nos últimos anos, em um país que foi completamente destruído por conta dos interesses dos Estados Unidos. Guerras internas, fomentadas na disputa socialismo  x capitalismo destruíram o país no início dos anos 1990, depois de um golpe contra o presidente Siad Barré, alinhado ao socialismo. Desde então, grupos locais se revezam no poder.

E como sempre acontece, por conta dos conflitos internos, e sendo a região estratégica para a navegação, com grandes reservas de minério de ferro, estanho, gipsita (gesso natural), bauxita, urânio, cobre e sal, além da suspeita da existência de reservas de petróleo e gás, o governo dos Estados Unidos decidiu ir para lá, “promover a paz” com seus soldados. Desde então vem promovendo ações para garantir o controle da área. De certa forma, como nos países do Oriente Médio, acaba por incentivar cada vez mais o aparecimento de grupos radicais. Agora, no último mês de março, o presidente Trump autorizou a intensificação dos ataques aos grupos em luta, que eles chamam de “terroristas”, e foi isso que acabou provocando o ataque.

Mas, a Somália é um lugar onde vivem não-seres, gente pobre, negra, muçulmana, que, por um azar do destino, nasceu num ponto estratégico para os “donos do mundo”.  Fica numa região chamada de “corno da África”, ponto mais oriental do continente africano. Então, a morte de centenas e centenas de somalis aparece como apenas uma estatística, exatamente como a dos iraquianos, os afegãos, os paquistaneses, etc...

Então, não adianta clamar nas redes sociais para que coloquem a bandeira da Somália no facebook. Isso não muda em nada o drama que se desenrola naquele despedaçado país. O melhor a se fazer é tentar sair da armadilha filosófica que acaba dominando a realidade na qual o que não é igual é passível de destruição, sem que se sinta remorso ou empatia. E isso é uma pedagogia que está na tele da TV todos os dias, em programas como A Fazenda, Big Brother, e outros afins. Lá, as pessoas que não se encaixam no perfil do público são “eliminadas”, em rede nacional, no grande coliseu eletrônico. E é assim que todos vão aprendendo a eliminar os não-seres, consolidando essa  forma de pensar.

Enrique Dussel, filósofo argentino, construiu outro modelo de pensamento que ele chama de filosofia da libertação. Nele, o pressuposto grego muda radicalmente. Se para o mundo ocidental/burguês o ser é, e o não-ser não-é, para a proposta de libertação, o ser é e o não ser é real. Isso muda tudo. Aquele que é diferente existe, tem nome e sobrenome, precisa da nossa empatia. E é essa atitude que permite que possamos sentir na pele, como dizia el Che, a dor do outro, caído e oprimido. Só assim poderemos caminhar para um mundo de bem viver.

Há um episódio, da famosa série televisiva Black Mirror, que mostra a lógica grega/ocidental na sua forma mais terrível. Nele, soldados estadunidenses aparecem sendo treinados, com manipulação psicológica e física, para ver os inimigos como baratas. Eles então são mandados à guerra e matam sem dó nem piedade tudo o que encontram pela frente. Eles não enxergam pessoas, enxergam baratas gigantes, monstros. Por isso não se apiedam. Essa lavagem cerebral é a que vivemos todos nós. Ao ver um negro, um árabe, um pobre, um gay, um travesti ou qualquer outro ser que não-seja igual ao que temos por “normal”, o que vemos são baratas gigantes, que podem ser amassadas sem que vertamos uma lágrima.

Pessoas há que estão fora da bolha. Que conseguem ver os homens, as mulheres, as crianças, de olhos graúdos e sorriso largo, querendo viver. Esses se importam. Mas, ainda assim, não basta clamar no facebook. É necessário o trabalho político sistemático e organizado para mudar a filosofia e ordem das coisas. Ação concreta na vida, bem aqui, na vida cotidiana, no sindicato, no partido político, no movimento social. Porque se mudamos a forma de pensar e fazemos esse pensamento avançar, a vida dos iraquianos, afegãos, palestinos e somalis também pode mudar.

A tarefa é essa, entender que o não-ser é real, que o opressor é real, que o sistema que nos aniquila é real e sobre isso temos de atuar. Acolhendo o diferente, o caído, o real, e encontrando caminhos para mudar esse modo de organizar a vida, que transforma humanos em coisas para o enriquecimento de uns poucos. Entender que vivemos uma guerra de classes e que a primeira batalha a vencer é justamente a filosófica, embora ela pareça a mais distante.

Seguiremos denunciando as atrocidades cometidas pelo mundo afora pelos “senhores da guerra”, liderados pelos Estados Unidos ou fomentados por eles. Mas, só denunciar não é suficiente, visto que para um grande número de pessoas, “essa gente longínqua” não interessa para nada. E a melhor maneira de ver o outro, diferente, é provocar o conhecimento sobre ele. Os negros somalis que alucinadamente atacam navios no chifre da África, como nos aparecem nos filmes de roliúde (pura ideologia), estão vivendo a fome, a guerra, a miséria, desde os anos 90. Estão fazendo o que podem para sobreviver, enfrentando o maior exército do mundo. Não são loucos, não são baratas e se estão “terroristas” há que se perguntar: por quê?


Entender o mundo, entender as relações sociais, colocar-se no lugar do outro e lutar efetivamente contra o sistema que oprime e destrói. Esse é o caminho para a mudança. 


quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Milanesas




Minha mãe odiava cozinhar. Mas, cozinhava. Nunca trabalhou fora de casa e então, sobrava para ela essa tarefa difícil. Acordava às 10 horas da manhã e já vinha resmungando. Sempre foi assim. Tomava um cafezinho preto e já começava as lides da cozinha. Geralmente mantinha uma horta, com verduras e legumes. Nunca foi capaz de fazer um prato só. Quando dava onze e meia, e o pai chegava do trabalho para almoçar, tudo já estava na mesa. Havia sempre uns três ou quatro tipos de comida diferentes. Todos com um sabor espetacular. Sempre me surpreendeu aquilo, visto o mau humor que tinha ao prepará-los.

Não gostava que metêssemos o bedelho na cozinha, mas ainda assim, fui aprendendo, no olhômetro, os segredos de sua culinária. Saí de casa bem cedo e quando vinha, nas férias, gostava de cozinhar pra ela, aliviando-lhe o fardo, ainda que por poucos dias. Ela deixava, mas ficava na supervisão. Assim que meu jeito de cozinhar tem o jeito dela.

Tal qual ela tampouco gosto de cozinhar. E tive sorte. Saí de casa cedo e desde os 17 anos vivi sozinha, sem preocupações com horários ou almoços. Comer fora virou hábito e nos finais de semana sempre me satisfiz com um sanduba ou um arroz com ovo. Quando resolvi enfrentar uma vida a dois, lá pelo final dos anos 90, também me presenteou a sorte com um companheiro que gosta de comandar a cozinha. E quando meu sobrinho veio morar comigo trouxe sua veia gourmet. Sorte grande em dobro. E eu fora da cozinha.

Agora, há mais de um ano estou cuidando do meu pai. E nisso, vou vivendo um processo de re-cordações. Voltam ao coração às lembranças de um tempo que ele vai esquecendo. É como um jogral maluco. Dentre essas coisas que ele esquece e eu lembro está o gosto da comida da mãe.  E como às vezes eu fico sozinha com ele, sou obrigada a voltar à prática das panelas, afinal, a comida tem de aparecer na mesa.

Hoje, resolvi fazer bife à milanesa. Minha mãe os fazia de um jeito espetacular, ao estilo argentino. Quando ela anunciava esse prato, as bocas salivavam e até os vizinhos passavam pela cozinha para experimentar. Eram famosos os milanesas. Puro primor. Assim, ouvindo sertanejo de raiz e tomando vinho com o pai, fui construindo o edifício do sabor, exatamente como ela fazia. Havia tanto tempo que não me aventurava por esses caminhos e não sabia o que poderia dar.

Mesa posta, milanesas prontos, servi com arroz e purê. A carne era macia e o pai comeu três bifes, com estalos de prazer. Quando já ia terminando o terceiro, vaticinou: “estão iguais aos da Helena”. Era a primeira vez que ele falava da mãe em meses. E saiu assim, naturalmente, como se nada. Eu fiquei quieta e ele seguiu mastigando, tranquilo.

A vida e suas prosaicidades... 


quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Sobre Lula e o espetáculo judiciário



Sempre é bom frisar. Não sou petista, nem lulista. Faço minhas críticas ao governo do PT desde que Lula, no primeiro mandato, fez a reforma da previdência dos trabalhadores públicos. Nunca me abstive de apontar os erros e os equívocos e considero que os quatro mandatos petistas causaram muito mal aos trabalhadores, em vários aspectos. Desde a cooptação de lideranças até a responsabilidade pela domesticação e desarmamento político de sindicatos e movimentos. Isso sem falar na política econômica, na conciliação de classe e muito mais. Mas, também nunca me furtei a aplaudir o que sempre considerei importantes pontos, como a eliminação da fome e a criação de vários programas sociais que ajudaram milhões de famílias a sair da pobreza extrema.

Também já me manifestei várias vezes sobre o que considero um tremendo absurdo: o fato de o judiciário burguês, que é o realmente existente, não cumprir suas próprias regras no trato com os cidadãos e cidadãs. Sejam eles pobres, negros, favelados ou figuras em queda da classe dominante. A lei burguesa, que dizem valer para todos, é clara no quesito presunção de inocência e certas coisas só podem passar a alguém depois que foi julgado e condenado.

Bom, isso nunca foi respeitado no trato com as gentes empobrecidas. Desde minhas primeiras reportagens nas delegacias por onde andei, sempre foi comum delegado mandar filmar cara de “vagabundo”, mesmo que só pairasse sobre o dito cujo a mera suspeita. Fosse pobre ou preto, tudo era permitido. No geral, figuras ilustres ou filhos da classe dominante nunca passavam por esses constrangimentos. Caso fossem presos eram preservados, suas imagens não eram permitidas em nome do direito do cidadão em não querer ser filmado, ainda mais numa situação vexatória.

A queda da presidenta Dilma, a partir de um golpe, tendo como pano de fundo uma histeria anticorrupção por parte da população que, sempre foi muito bem dirigida ao PT em particular, virou essa prática de cabeça para baixo.  Na ânsia de derrubar os políticos petistas naquilo que eles tinham como patrimônio (a ética), todos os holofotes passaram a ser dirigidos a eles, e uma pequena suspeita já era suficiente para espetáculos midiáticos, repetidos à exaustão nos meios de comunicação. Assim, o que era uma prática para os empobrecidos passou a ser usada também com importantes figuras da política. Detenção escandalosa acompanhada pela mídia, algemas, prisões preventivas, raspagem de cabeça, toda a sorte de humilhações, comuns aos comuns, e que agora eram usadas também com os políticos, “essa raça ruim”.

Na malta enfurecida pouco importava que se dissesse que eram ações ilegais, que estavam ao arrepio da lei, que não respeitava a presunção da inocência. Não. Danem-se! A regra era a mesma já tão familiar às famílias de bem, a pedagogia do Big Brother: elimina, elimina, elimina.  E assim foram caindo figuras como José Dirceu, José Genoíno e tantos outros em julgamentos estranhos, nos quais não apareciam provas, mas apenas convicções.

O alvo sempre mirado era Lula. Havia que encarcerá-lo também, fazê-lo passar por toda a humilhação reservada aos párias. E começaram os ataques. De novo, ações espetaculares, atos de mídia, teatro romano, detenção coercitiva, colheita de documentos, intimações, tudo para seguir incentivando a histeria anti-PT. Pelo que se sabe nada de provas contra Lula. Nenhum ilícito. Ainda assim ele já foi condenado pela compra de um apartamento que, como já foi provado, nunca foi efetuada. Um processo digno de Kafka. Uma aberração. E a cada novo documento apresentado, novas convicções: os documentos são falsos, as alegações não são verdadeiras. Tudo baseado no desejo dos juízes. O direito do desejo. Essa é a cruz dos petistas.

Mas, como tudo escapa, a sanha contra os petistas foi tocando outros nichos e outros personagens foram sendo igualmente enredados na rede dos abusos. Corruptos confessos, por conta de delações espetaculosas, iam agregando “provas” (feita do disse-me-disse) e saindo ilesos. Novas prisões de “inimigos menores” como Cabral e Garotinho seguiam a cartilha irresponsável da ação conjunta polícia/mídia. Até o milionário Eike Batista passou pela dolorosa exposição vexatória, de cabeça raspada, adentrando o presídio. E os juízes começaram a ganhar as redes como novos heróis da malta. Como se tudo isso estivesse barrando a corrupção. Não está. pelo contrária, ela avança, e está nas entranhas do poder.

Em Santa Catarina o modelo espetacular da trinca judiciário/polícia/mídia levou um homem à morte. Acusado de tentar obstruir uma investigação sobre corrupção no interior da universidade, o reitor da UFSC foi preso de forma espalhafatosa e submetido ao escracho público. Nenhum documento, nenhuma prova, nada que pudesse transformá-lo em um risco para a sociedade. Ainda assim foi levado ao presídio de segurança máxima. O reitor não suportou ver toda a sua vida escapar das mãos por um ato tão insano. Matou-se. Ainda assim, as gentes que atuam nessas áreas não arrefecem. Lançam notas dizendo que estão certas. E que é assim mesmo, e é porque é.

Essa semana, outra vez o denuncismo anônimo levou a polícia, sempre junto com a mídia, à casa do filho de Lula. Acusação: ele estaria fumando maconha. Opa! Teria dentro da casa a carga do helicóptero encontrado na fazenda de Parrela? Não. Ele estaria fumando. Ah, tá, então é crime grave. Invade! E lá foi a polícia com um mandato fazer revista na casa para achar um baseado. Não achou. A tática é boa. Já que não dá para pegar o Lula, vamos destruindo pelas beiradas. Pega um filho aqui, uma sobrinha ali, uma tia, um primo, um cunhado e tudo isso pode formar um mosaico que diga o quanto Lula é ladrão. E dê-lhe a alimentar a histeria, para que os julgamentos se façam nas redes sociais e nas ruas, e a condenação aconteça sem passar pelos tribunais. Está abolido o direito. Agora é a malta ensandecida que decide e abaixa o polegar como nos espetáculos romanos, exigindo a morte do gladiador.

Tenho gravada na mente a frase do desembargador, amigo do reitor Cancellier, na sessão fúnebre da UFSC: “Eu não conheço esses juízes, esses delegados. Não conheço e não quero conhecê-los. Porque tenho medo deles”. Eis o drama. Quando aqueles que deveriam ser os guardiões do direito nos provocam medo, que fazer? É a treva.

O clássico do cinema “O advogado do diabo” é uma boa reflexão para esses tempos. Quando a vaidade assoma tomando conta de tudo, nada mais pode ser parado. O ovo da serpente choca serpentes. A justiça não é uma ação espetacular. Ela é, ou deveria ser, espaço do cuidado e da dignidade. E os crimes deveriam ser investigados no silêncio das sombras, para não espantar o criminoso, para preservar as provas e tudo mais. Os agentes da lei deviam ser alguma coisa assim como o Batman, necessários às gentes, mas anônimos, para que pudessem atuar melhor, garantindo a justiça e não alimentando o ego. Os holofotes acendem a vaidade e a vaidade é a porta do inferno. Para o vaidoso, e para os que ele ataca. 

Não sei se Lula é ladrão, nada foi provado. E mesmo que fosse. Nem ele, nem o Eike, nem o reitor, nem o Garotinho, nem o Rafael Braga ou a qualquer outra pessoa precisa passar pelo aviltamento de ser julgado antes de ser condenado, antes que tenham sido respeitados todos os ritos da Justiça. 

Isso é o mínimo que podemos querer, apesar de saber que ainda assim pode haver injustiça.

Mas o linchamento público, feito com base na histeria descabeçada, fatalmente leva a tragédia, como a que vivemos agora, aqui em Florianópolis, com a triste decisão do reitor da UFSC. 

Há que estancar esse surto sob penas de perdermos o controle sobre a Caixa de Pandora. Uma vez aberta, ninguém mais consegue controlar.