domingo, 8 de outubro de 2017

Perfecto Romero, o fotógrafo da revolução cubana


Ernesto Guevara, médico argentino e guerrilheiro cubano, é considerado o homem mais importante do século XX. Sua capacidade de amor pela América Latina, seu comprometimento com a luta dos povos oprimidos o levou a lutar na Guatemala, em Cuba, no Congo, em Angola e na Bolívia. À libertação das gentes ele dedicou sua vida. Capturado na Bolívia em 8 de outubro, foi executado na manhã do dia 9, entrando para a história. Sua morte, ao contrário do que pensavam seus algozes, não fez desaparecer suas ideias. Elas voaram e seguem pairando por todos os lugares onde há povo em luta contra a opressão. 

Nesses dias em que lembramos dos 50 anos de sua semeadura apresentamos uma pessoa que foi parte da vida de Ernesto, durante a revolução e no tempo em que ele atuou como ministro na Cuba já libertada: o fotógrafo Perfecto Romero. Ele registrou um número expressivo de imagens do revolucionário cubano, já que partilhou com ele o cotidiano da luta.

Um número muito grande das fotos que hoje conhecemos sobre a revolução e sobre Che são obra de Perfecto. Ele ainda vive em Havana e lembra com respeito o homem que ajudou Fidel e Raul a garantir a liberdade para e com o povo cubano. 

Perfecto foi encontrado pela fotógrafa argentina Laura Lavergne nas ruas de Havana. Ela fazia registros em Cuba quando foi abordada por um senhor, querendo saber o que ela buscava para registrar. Ele conversou com ela sobre fotografia, disse que era fotógrafo também e a convidou para ir até sua casa ver seu trabalho. Deu o telefone, o endereço, como é comum aos cubanos, sempre hospitaleiros. Laura não sabia quem ele era, nem do incrível arquivo que ele possuía. Dias depois ela resolveu ir até a casa do fotógrafo, curiosa que sempre foi com as coisas de Cuba. Seu pai, Néstor Lavergne, havia sido o único argentino que trabalhara com Ernesto Guevara no Ministério da Indústria e Comércio, e Cuba sempre fora sua segunda pátria. Estava ali justamente para isso, levantando imagens e informações sobre o tempo em que seu pai passara ali e o trabalho que fizera. Vai fazer um video documentário sobre esse período da vida de Néstor.

Chegando à casa do homem que encontrara na rua, ele abriu seus arquivos para que ela visse o trabalho feito ao longo de décadas. Pois, ali, na mesa da cozinha, foram estendidas praticamente todas as fotos conhecidas de Che Guevara, Camilo Cienfuegos, Raul Castro e outros. Perfecto Romero tinha sido o fotógrafo que acompanhara as lutas, ele mesmo um combatente, e, depois, a caminhada dos principais líderes da revolução. 

Foi um encontro emocionante, com a memória da revolução, com Che e com Perfecto Romero. 

Ele contou que nasceu em Cabaiguán, no dia 25 de janeiro de 1936 e ali começou sua carreira como fotógrafo em 1955. Filho de uma família de camponeses, bastante numerosa, ele também trabalhou vendendo pão e lustrando sapatos. Ainda bem jovem, durante a ditadura de Batista, começou a participar do Movimento 26 de julho, liderado por Fidel Castro. Quando veio a revolução ele foi para as montanhas do Escambray para atuar como combatente e como correspondente de guerra. Era um soldado da Coluna 8 Ciro Redondo, então comandada por Ernesto Guevara.  

Assim, foi na lida cotidiana da guerra que ele conheceu Che e participou como uma testemunha privilegiada das campanhas de Las Villas e da tomada de Santa Clara. Foi Che Guevara quem lhe pediu pessoalmente para que fosse o fotógrafo oficial dos combates finais que levaram ao triunfo da revolução. 

Naqueles dias ele era um jovem de 20 anos e com Che aprendeu muito mais do que guerrear e fotografar. Ele foi um dos fundadores e o primeiro fotógrafo da revista Verde Olivo, criada em 1959, por iniciativa de Che, Raul e Camilo.

A partir daí foi registrando a vida do país que se erguia com as próprias pernas, tornando-se hoje o guardião de imagens históricas inesquecíveis. Hoje, com 81 anos de idade, segue trabalhando, sendo parte da equipe da revista Palante. Na sua casa, mantém viva a memória da revolução, uma memória colhida por suas próprias retinas, plasmada na fotografia.

O encontro com Perfecto fez com que Laura ampliasse seu foco para além do vídeo que está produzindo sobre seu pai, Néstor Lavergne. Agora ela também está trabalhando no projeto de um livro-ensaio sobre a obra desse incrível fotógrafo cubano, Perfecto Romero, que também será constituído por entrevistas gravadas. O vídeo que apresentamos é uma parte do trabalho e da pesquisa que vem sendo feita junto com Vera Bandeira (fotógrafa brasileira ) e com assessoria do também fotógrafo Pepe Pereira dos Santos. 

O IELA pode participar da finalização do trabalho, com a jornalista Elaine Tavares e o fotógrafo Rubens Lopes ajudando na edição. 

Aqui, disponibilizamos parte desse trabalho de Laura Lavergne  que é também uma homenagem a Che Guevara.

Perfecto Romero tornou-se o fotógrafo que é por conta do incentivo e da confiança que Che depositou nele naqueles duros tempos de guerra. Hoje, passado tanto tempo daqueles dias de profunda alegria na grande revolução que mudou a cara do mundo, o velho fotógrafo, através de sua própria história, mostra mais uma face desse homem incrível que foi Ernesto de la Serna, el Che. 

Com Perfecto, el Che. Perfeito! 


quarta-feira, 4 de outubro de 2017

O cantor


Já faz algum tempo, ele tomou o espaço ao lado do camelódromo. Chega com sua caixa de som e começa a cantar. Já tem até um público cativo. Senhorinhas alegres param e acompanham as canções, batendo palma e cantando. Também param os senhores mais velhos e alguns mais jovens. Ele já conhece muitos dos fãs pelo nome. Faz piadas, oferece música. É uma alegria. O pessoal dos boxes parece gostar muito dele, e as gurias mandam biscoitos, bolos, café e refrigerante. Ele recebe, agradece, manda música. É uma estrela ali naquele pequeno pedaço do centro da cidade. Canta canções antigas, sucessos dos anos 60 e 70, distribui beijos e autógrafos. É um homem bonito, ainda que maltratado. Tem uns olhos claros magníficos e emposta a voz para cantar. 

Sempre que vou ao centro eu fico ali um tempo, junto com as senhorinhas, vendo sua performance e cantando com ele. Gosto das músicas. Vendo-o sou tomada por uma infinita ternura. Pessoas assim são raras. Nada sei da sua vida, das suas dores, mas só de olhar para ele, e acompanhar o brilho intenso dos seus olhos claros a gente percebe o quanto ele faz aquilo com gosto, com amor. O quanto é grato por aquele carinho. Olho para aquelas senhorinhas que cantam e batem palma e sinto vontade de abraçá-las. Elas mesmas buscando ali pedaços de beleza de um passado que as canções evocam. E nessa busca, estendendo amorosamente seus braços ao artista, que se alimenta daquele amor. Pequenos gestos poéticos que esboroam a tristeza ... 


Conversas com El Che


Sempre que vem chegando o nove de outubro eu convoco el Che para uma charla. Ele vem. Chega mansinho e se aboleta no meu alpendre, nas cálidas noites desse mês de primavera. Então, cevando um bom mate, vamos falando sobre as coisas do mundo. Conto tudo o que se passou desde a última conversa, falos dos ataques do império. Ele cospe no chão e pragueja em argentino.

Esse ano cumprirão 50 anos do seu assassinato em La Higuera, Bolívia. A gente sempre fala disso. Da tristeza do nunca mais, da interrupção dos planos e sonhos. Mas, também falamos dos avanços dos trabalhadores e dos revolucionários de todo o mundo. Ele gosta de saber que a Bolívia hoje é um estado plurinacional, e que os indígenas tem constituído um poder capaz de fazer avançar suas demandas. 

Ele lembra bem do dia em que morreu. Executado por um soldado boliviano que sequer sabia muito bem quem era o homem que matava. Lembra do tremor da mão do garoto, dos olhos perplexos, lembra de ter sentido um queimor e, depois, o silêncio.

O corpo do jovem guerrilheiro argentino, que ajudou na vitória cubana e nas lutas africanas por libertação, virou poeira cósmica, energia. Mas suas ideias seguem reverberando tanto tempo depois. Os homens da CIA que decretaram sua morte, cortaram suas mãos e desapareceram com o corpo. Como se isso pudesse fazer desaparecer toda uma proposta de um novo tipo de ser humano, ético e solidário, capaz de se comprometer com cada irmão caído.

Aqui, no alpendre, entre um mate e outro, vamos relembrando tudo o que já se passou no mundo desde que ele se foi. E o quanto sua figura e seu ideário ainda evoca libertação, paixão, amor pela vida. 

Ele olha pra mim e sorri. "Não há silêncio". Sim, comandante. Não há. As gentes empobrecidas e exploradas pelo capital seguem resistindo e clamando por um tempo novo. Novas lutas, novas propostas, novas práticas. 

Nessa semana de lembranças de sua caída, milhares de pessoas no mundo estarão lembrando, estudando, conhecendo, construindo projetos, lutando. "Ainda goteja a fonte do crime", grita Mahmoud Darwish, o poeta palestino.  E acrescenta: "Rebelem-se". É o que seguimos fazendo, até que chegue o grande meio-dia.

No amargo do mate, que ronca uma última vez, a lição mais profunda: "Há que estudar, estudar e estudar. Há que ser perfeito. Há que se mover por grandes sentimentos de amor".

Vamos tentando, comandante. Vamos tentando. 




domingo, 1 de outubro de 2017

A igreja da prosperidade e a mais-valia espiritual



J.A.F tem 32 anos e trabalha como diarista em casas alheias. Ela tem um único sonho, que persegue desde quando era bem pequena: ter a sua própria casa. “Quando era menina eu comecei um cofrinho de moedas. Dizia que era dali que sairia a casa que eu iria comprar para minha mãe e para mim. Hoje ainda tenho o cofrinho, e com ajuda de deus eu vou conseguir”. A mãe já morreu. Tuberculose. E J. embarcou numa profunda depressão. Foi nessa fase da vida que ela encontrou a igreja. “Eu tava passando e o pastor estava na porta. Ele me chamou e disse que ali eu encontraria a paz. Não sei como ele percebeu que eu estava muito mal”. Pois ela entrou e veio a paz. Depois de abraçar a fé ela melhorou da depressão, conseguiu voltar a trabalhar e já tem até um carro. “Eles lá disseram isso bem claro. Se a gente trabalhar bastante, a gente consegue chegar lá”.

Esse “chegar lá” é a ponta de lança da teologia da prosperidade, essa que carregou para o sagrado o que há de mais profano no mundo: o fetiche da mercadoria. Muitas igrejas realizam cultos específicos com o intuito de chamar a riqueza para os fiéis. Não é sem razão que crescem sem parar, arrebanhando cada vez mais gente. Num mundo marcado pela exploração, pelo individualismo e pela solidão, essas igrejas conseguem dar uma centralidade para almas em escombros, típicas do espírito do tempo.

Mas, o crescimento dos cultos pentecostais, geridos pela ideia de prosperidade, nada tem a ver com a religião. Eles estão muito mais ligados ao modo de produção capitalista, mantendo milhares de pessoas justamente na batalha pela prosperidade, girando a roda do capital. O mais importante é observar que, no mais das vezes, as pessoas realmente melhoram de vida, porque estão mais centradas, mais determinadas e incluídas em um grupo que as impele para frente. Nos cultos, quem é exorcizado é o diabo, o demônio, satanás, belzebu, como se fosse essa entidade mágica a responsável pelas dores e pelos fracassos. Então, o verdadeiro culpado pelo drama dos trabalhadores – o capitalismo – segue intocado, esquecido e apagado. Se é o demônio que se apossa da pessoa e a impede de prosperar, basta que a comunidade, em comunhão, garanta a expulsão do malvado, para que a vida comece a melhorar.

É bom que se diga que todas as pessoas que buscam na religião um bálsamo para as dores, lá estão porque realmente creem. Sentem-se acolhidas e não acreditam que muitos pastores ou pastoras, estejam ali para roubar seu dinheiro. Acham que o dízimo, que oferecem de bom grado, servirá para abrir as portas do céu, ainda que seja apenas o céu do líder da igreja. E como, de alguma maneira, a vida melhora mesmo, não se importam de aplicar seu tempo na esperança de conquistar coisas boas.

Marx, ao analisar o modo capitalista de produção fala desse tempo a mais que o trabalhador deixa com o patrão. Na jornada de trabalho, no geral, muito mais da metade é lucro do patrão. A famosa mais-valia, ou mais-valor. Ludovico Silva, um filósofo venezuelano, vai dizer que assim como o patrão surrupia a mais-valia do trabalhador no local de trabalho, o sistema como um todo rouba uma mais-valia ideológica quando o trabalhador está em casa, vendo televisão. Pensando estar se distraindo ou usando seu tempo livre para curtir um bom programa de TV, ele está na verdade sendo consumido pela máquina de vender mercadorias. Ainda que fora do local de trabalho, segue prisioneiro do capital. Pois essas igrejas pentecostais que atuam com a teologia da prosperidade fazem algo bem parecido. A pessoa está lá, pensando estar em sintonia com deus, com o sagrado, mas ao final, não consegue se desvencilhar do desejo de ter coisas, de amealhar mercadorias. Isso significa que ainda está presa no sistema, gerando uma espécie de mais-valia espiritual. Sua própria relação com deus acaba mediada pelo tanto de coisas que pode conseguir.

Não é também sem razão que são os líderes dessas igrejas os que, totalmente tomados pelos interesses seculares, adentram no jogo político garantindo postos de poder nas câmaras de vereadores, assembleias, câmara dos deputados, senado e estado. Geralmente aliados ao grande capital. Raros – se é que há - estão atuando na defesa dos trabalhadores.

Outra maneira de atuar na defesa do capital é a aposta no fanatismo, que leva o fiel a ficar sem discernimento e sem pensamento crítico. Aceitando a palavra do líder como a única verdade, a pessoa torna-se capaz dos atos mais violentos, agindo sempre em nome da salvação da humanidade. Algo assim como o que estamos vivendo hoje no Brasil, com a série de ataques a pessoas ligadas à religião de matriz africana. Não por acaso a violência centra foco nos deuses do povo negro. Bramindo um “deus” específico, que é o único salvador, pessoas atacam outras pessoas, matam e discriminam.

Foram os iluministas franceses, em particular, Voltaire (1694 — 1778), que polemizaram sobre o fanatismo, ligando essa prática a intolerância e à violência, justamente porque a Europa vivera até pouco tempo uma série de guerras envolvendo católicos e religiosos. Mas, naqueles dias, como hoje, o que realmente estava em questão não era a fé ou deus: era o poder. Com o crescimento do protestantismo, o status do papa, que era quem decidia a vida de todo mundo – inclusive dos reis – estava ameaçado. E era a igreja católica a que detinha também muita terra e riqueza. Então, enquanto nas batalhas morriam as gentes comuns, a aristocracia tramava para um ou para outro lado, sempre de olho na riqueza que poderia amealhar.

É por isso que se faz necessário uma boa análise sobre o “fanatismo” que vivemos no Brasil. Observando bem vamos ver que não são apenas ataques esparsos a outras religiões, o que poderia caracterizar uma contenda verdadeiramente religiosa. Não. Os tentáculos dessas lideranças pentecostais – justamente por estarem em cargos de poder  - se estendem para a vida cotidiana. O projeto da Escola sem partido, buscando atuar na educação. A tentativa de barrar o debate sobre gênero e o ataque aos homossexuais, interferindo na vida pessoal, a lei que permite ensino de religião confessional, tentando arrebanhar a criança para a fé, a proposta de obrigatoriedade das músicas religiosas nas rádios e TVs, atuando como mais-valia ideológica e disputando o mercado musical. Tudo isso configura a intervenção e o fortalecimento desse fanatismo, em “nome de Jesus”, em todos os segmentos da sociedade. O objetivo final pode ser justamente submeter, pela violência, toda uma população, sob o pretexto da salvação das almas.

Mas o que move o motor do fanatismo é algo bem mais prosaico do que deus. Trata-se do vil metal, dinheiro, borofa, bufunfa. A aposta é manter o rebanho ocupado na “guerra santa” pela moralidade e os bons costumes, enquanto o capital avança em mais uma onda de acumulação e expropriação. Assim, no Congresso, onde manda a bancada da bíblia, aliada a do boi e da bala, os deputados vão realizando as reformas exigidas pelo capital que manterão ainda mais cativos os trabalhadores. “Trabalhe, não pense”, diz o presidente, que fala como um gentil homem do século 16. E não poderia haver mote melhor para o Brasil desses dias. Enquanto uma legião de pessoas que trabalha e não pensa se digladia com exposições artísticas, homens nus, mães de santo e grita por intervenção militar, o capital segue impávido pelas estradas, quase sem obstáculos.

Sendo assim, talvez fosse hora de olhar com mais cuidado para esse fenômeno, vendo-o como se expressa na luta de classes. Não basta ridicularizar nas redes sociais. As pessoas estão se fanatizando, isso é claro como o sol. São poucos agora, mas podem crescer. E se levarmos em conta de que o que está por trás do fenômeno é o processo de acumulação capitalista, o tema fica ainda mais urgente. A imposição do poder sob a força das armas sempre é uma alternativa possível, mas não podemos esquecer que, para isso, é preciso que seja montada toda uma atmosfera capaz de respaldar as ações violentas. Esse é o cenário que estamos vendo crescer sob nossos olhos. É tempo de ver e começar a agir em consequência.




quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Sobre os novos ricos do campo e sua direitização



Cenas do filme que conta a história de Zezé de Carmargo

Nos últimos meses muitas coisas bizarras têm acontecido. Além de tudo que advém do golpe, temos visto algumas manifestações de figuras públicas que nos fazem pensar.  Há nisso tudo uma espécie de padrão: pessoas famosas, que agora são ricas, mas que foram pobres e de origem rural. E que, paradoxalmente, professam uma ideologia que vai contra tudo o que alguém, que tenha vivido a dura realidade de ser trabalhador rural, poderia defender. Meu amigo Danilo Carneiro, que esteve na guerrilha do Araguaia e que segue estudando a realidade brasileira, diria: “Isso é natural, nega”.  E por quê? Porque as pessoas não conhecem a realidade, não estudam, se informam de maneira superficial sobre as coisas, e o capitalismo, através do seu braço armado – os meios de comunicações – bombardeia ideologia. Então, se ficam ricas, e sem mudar o padrão de conhecimento, tudo o que querem é esquecer o passado de privações, e tentar se pintar com as cores da classe para qual saltaram.

Falo isso por conta da triste postura dos cantores populares sertanejos, alguns dos quais gosto muito, como Chitãozinho e Chororó, Zezé de Camargo e outros tantos que a gente vê aí nas propagadas dos políticos de direita, defendendo a classe dominante e a consequente exploração dos trabalhadores. Muitos deles têm uma história triste, de pobreza e de grandes sacrifícios para conquistarem um “lugar ao sol”. Lugar esse que no geral significa dinheiro e fama. Raros são os que, ao enriquecerem, não renegam a classe de onde vieram. No geral, tornam-se fazendeiros, na ligação com o passado de trabalhador rural, mas possivelmente reproduzem nas suas propriedades as mesmas relações de dominação e exploração que viveram.

Marx, quando fala das classes, burguesia e proletariado, deixa claro que tem uma parcela das gentes que não se enquadra nessa divisão: são os camponeses, sejam eles ricos, remediados ou pequenos. Eles, ao contrário do trabalhador da fábrica, ainda têm o controle dos meios de produção. Tem a terra e podem dela viver.  São um estamento de difícil manejo e, no geral, pendem para a direita. Lukács, durante a revolução húngara, foi um dos que se ocupou com esse tema. Ele acreditava que era necessário um trabalho diferenciado com os camponeses, para trazê-los para o lado da revolução.  Não foi entendido. Insista que era muito difícil incutir nos camponeses – os que tinham propriedade – a consciência de classe trabalhadora. "Os pequenos proprietários agrícolas, como dizia Marx, formam uma enorme massa cujos membros vivem na mesma situação, mas sem entrar em múltiplos contatos uns com os outros. O seu modo de produção os isola uns dos outros, ao invés de criar entre eles um comércio recíproco... É assim que cada família de camponês... retira seus meios de existência mais da troca com a natureza do que com o comércio com a sociedade... Na medida em que milhões de famílias vivem nas condições econômicas de existência que separam seu modo de vida, seus interesses, sua cultura, dos das outras classes e os opõem como inimigos dessas classes, é que elas formam uma classe. E deixam de formá-la à proporção que só existe entre os pequenos proprietários agrícolas um vínculo local no qual a identidade de seus interesses não engendra nenhuma comunidade, nenhuma ligação de plano nacional e nenhuma organização política".

São questões instigantes as que nos propõe Marx e Lukács, e que nos permitem entender porque os ex-camponeses, agora fazendeiros novos ricos, como esses cantores sertanejos, vão se perfilando no bloco da classe dominante. Eles saem da condição de pequenos, dos que vivem de seus próprios meios, e adentram ao universo do “patrão”, tornam-se um deles. Passam a empregar pessoas, compram fazendas que não produzem, que são apenas uma espécie de pastiche – agora melhorado – da vida que tinham antes de enriquecer. Criam cavalos, ou gado, ou arrendam, e usam as mansões – a casa-grande – para o seu bem viver. Não vivem mais do campo, vivem da venda dos discos, dos shows, são escravos da indústria cultural. Estão colocados numa espécie de limbo, ou falso limbo. Porque, afinal, não são verdadeiramente camponeses, nem produtores. São unicamente proprietários de terra, terra que não é útil, mas que serve apenas como valor de troca, como especulação.  Nesse sentido, podem se sentir confortáveis na gaveta de “burguesia” ou “classe dominante”. Fazem parte do bloco restrito daqueles que detém propriedade.  Por isso defendem aqueles que julgam serem os seus iguais. Esquecem para sempre dos antigos parceiros de classe. “Venceram” na vida.

O mais doloroso é que muitos deles, falo dos cantores ou das duplas sertanejas, reproduzem, muitas vezes, na sua arte, as letras caipiras de raiz que justamente falam da dura vida do trabalhador do campo, seus dramas de amor, suas lutas, a necessidade da migração para a cidade, e suas saudades. Canções como “O menino da porteira”, “Cabocla Tereza”, “No rancho fundo”, “A colheita”, “O homem do campo”, “Uma casa de caboclo”, “No dia em que saí de casa”, “Tristeza do Jeca” e tantas outras que tocam o coração da gente justamente por observarem criticamente os dramas do mundo rural.

Assim, envolvidos pelo capital, eles usam as dores e as injustiças do mundo rural para transformá-las em valor de troca, enquanto a gente, que ama o campo e vive em nostalgia, apreende a música como um valor de uso, algo que aparece como vital para nossa existência, enquanto eles enriquecem e se apartam da sua condição de classe. É uma contradição.

Sim, há muitas duplas e cantores rurais que não estão no furacão da indústria cultural, que seguem cantando o campo sem perder o vínculo com sua classe. Mas, de qualquer forma, para a maioria das pessoas, é bastante difícil encontrar essas informações, visto que são bombardeadas pela indústria, que é quem, em última instância decide quem e o que toca no rádio e na televisão.

Então, resta à maioria “suportar” os novos ricos rurais, com suas calças apertadas e músculos cultivados, que entre uma música caipira de verdade, alternam outras composições de amor ou de sacanagem, ficando a música de raiz meio perdida. Mas, apenas meio perdida, porque ela é necessária para acender a memória. Por isso não foge dos repertórios. Os produtores, que vendem produtos musicais, sabem bem disso. Uso instrumental de um sentimento de amor.

Ao fim, tudo isso é pra dizer que a consciência de classe é coisa difícil de lograr, principalmente se o dinheiro entra nas vidas. E também uma tentativa de não demonizar as pessoas que não conseguem transcender, compreendendo-as no seu contexto. Não é fácil escapar dos tentáculos do capital. O fato concreto é que seguirei ouvindo algumas das canções do Zezé, do Leonardo, do Eduardo e outros, assim como leio os poemas de Borges. 


terça-feira, 5 de setembro de 2017

Cursos Livres do IELA: A atualidade de Adelmo Genro Filho no jornalismo



Curso será ministrado pela jornalista Elaine Tavares, nos dias 21 e 28 de setembro, no horário das 9h e30 às 11h e 30min, miniauditório de Economia e Relações Internacionais, CSE/UFSC.

Adelmo escreveu sua teoria marxista do jornalismo em 1987. Seu foco foi o jornalismo informativo, a notícia. Ele mostrou que esse tipo de jornalismo não precisa ser superficial nem manipulador, como era e ainda é. Naqueles dias, a internet estava só engatinhando, as novas tecnologias nem se anunciavam. Entretanto, hoje, nada pode ser mais atual do que a proposta de Adelmo para a construção da notícia, visto que esta se mantém hegemônica no jornalismo. 

Os textos curtos, informativos, são incensados como os únicos que são bem recebidos pelo público. E no oceano da superficialidade desse jornalismo tipo manual de geladeira, Adelmo assoma como uma boia, não para salvar, mas para mostrar aos jornalistas que é possível construir uma notícia que possa escapar de sua imediaticidade, alcançando a totalidade do fato e produzindo conhecimento.

O curso oferecido pela jornalista Elaine Tavares não se propõe a uma exegese do autor. A intenção é mostrar como, nos limites dos anos 80, Adelmo enxergou uma vereda capaz de constituir um jornalismo de qualidade, mesmo no campo do “informativo” e mostrar como se pode construir notícias que fujam da “forma-mercadoria” tão comum nos tempos atuais. O segredo revelado em 1987 hoje é ainda mais sagaz e extremamente útil. Com ele, mesmo o jornalismo informativo pode ser conhecimento da realidade, com contexto, com profundidade e com bossa. 

O curso acontece em duas quintas-feiras no mês de setembro, 21 e 28, das 9h e 30min às 11h e 30 min, no mini-auditório da Economia. Vagas limitadas. Podem participar alunos de cursos de jornalismo, jornalistas e interessados no tema. A condição para a participação é a leitura prévia do livro: O segredo da Pirâmide – para uma teoria marxista do jornalismo, disponível no enlace: http://www.adelmo.com.br/bibt/t196.htm 

Inscrição no email do IELA: iela@contato.ufsc.br

O QUE? Curso Livre do IELA sobre a atualidade de Adelmo Genro Filho no Jornalismo, com a Jornalista do IELA, Elaine Tavares.

ONDE? Miniauditório de Economia e Relações Internacionais - UFSC

QUANDO? Dias 21 e 28 de Setembro, das 09:30 às 11:30


domingo, 3 de setembro de 2017

Das melancolias...



Há mais de dez anos que estudo, de maneira sistemática, os modos de produção das sociedades antigas, originárias, aqui do nosso continente, Abya Yala. E, todo encantamento que se me acomete com a originalidade e a beleza do modo de vida de tantos povos  é tripudiado por companheiros que, de maneira trocista, me acusam de querer voltar a idade da pedra.

Quando me aparecem com esse argumento tão frágil, insisto: não se trata de voltar ao passado, mas de tomar, do passado, as lições que possam fazer do presente e do futuro uma lugar melhor para todos.

É óbvio que esses 300 anos de capitalismo produziram coisas interessantes. O povo trabalhador, ainda que com sua força de trabalho capturada, deu vazão à sua criatividade e fez com que muitas coisas melhorassem a vida deveras. Mas outras não. Outras apenas “aparecem” como boas. Na sua essência, escravizam e alienam as pessoas, mantendo-as presas a roda insaciável do capital.

Dou apenas um exemplo bem prosaico. O celular. Quem pode dizer que o celular não é uma coisa boa? Ele tira foto, vira agenda, filma, manda mensagem, é reservatório de livros, é quase tudo na vida da pessoa e, ainda serve para falar com outro ser humano à distância. Uau! Perfeito. Mas, no sistema capitalista de produção, um objeto assim, tão completo, não pode ser algo que a pessoa compra e o tem para a vida inteira. Se fosse assim, acabava o ciclo e a roda econômica não girava. Então, a indústria criou, para o celular e para praticamente todas as mercadorias produzidas o que se conhece como “obsolescência programada”. 

E o que significa isso? Que a mercadoria tem tempo de vida definido. Ela não tem a durabilidade que muitas coisas tinham no passado. Por exemplo: tu fazias uma mesa e ela durava a tua vida, a vida do teu filho e dos teus netos. Não. Hoje não. Cada mercadoria tem um tempo fixo. Chega a sua hora e ela se desmancha, pifa, estraga. Precisa ser jogada fora, pois eles são construídos de tal maneira que não permitem o conserto.

No caso dos eletrônicos, como o celular, o computador, a máquina fotográfica etc..., a coisa é ainda mais grave, pois o material de que são feito não se degrada facilmente.  Assim, vai sendo criada uma montanha de lixo que o planeta não tem condições de assimilar. Só na Europa, onde esse problema começa a ser discutido, nos próximos três anos serão acumulados 12 milhões de toneladas de resíduos tecnológicos. Imaginem considerando o consumo de todo o planeta.

Hoje, diante do mundo, sinto-me conservadora. Gosto das coisas que ficam, que demoram a se acabar. Amo velhos móveis de madeira, roupas antigas que sobrevivem aos anos, artefatos que podem ser consertados milhares de vezes e que se renovam a cada mexida.  Amo canecas de louça que perdem um ou outro pedacinho, copos de lata e sapatos feitos à mão pelos artesãos de rua. Sim, gosto de algumas comodidades da vida moderna, mas queria que pudesse ser diferente. Sem tanta obsolescência. Fazem-me falta as coisas que perduram... Amores, amizades, olhares, coisas... Que mesmo na permanente mutabilidade da vida, ficam e ficam e ficam...