quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

A riqueza da Nigéria e os ataques fundamentalistas



Por elaine tavares*

A riqueza que se esconde sob o solo da Nigéria é sua desdita. Ali está uma das maiores reservas de minério fóssil do mundo, cerca de um milhão de quilômetros quadrados de puro petróleo. Há jazidas de outros minérios, mas o principal é o óleo negro, que representa 20% do Produto Interno Bruto do país, 95% das exportações e 80% da receita nacional. Não é sem razão que a guerra esteja corroendo seu território e matando sua gente. A lógica da terra arrasada para melhor dominação ainda segue em vigência naquelas paragens e nesse caldo de guerra à morte pelas riquezas, é a religião que vem sendo usada para “justificar” a barbárie. Em nome de “deus” grupos de várias cores se digladiam para tomar conta do petróleo.

Nos últimos meses o chamado “grupo radical islâmico” Boko Haram tem protagonizado uma série de ataques, de requintado terror com o objetivo de, segundo pregam, estabelecer a Sharia (lei islâmica) nos 36 estados que conformam o país. A Nigéria tem hoje 174 milhões de habitantes, sendo o país mais populoso do continente e o sétimo país mais populoso do mundo. Convivem no seu território mais de 500 grupos étnicos, mas os mais expressivos são os hauçás, os igbos e os iorubás. Do ponto de vista religioso o país é praticamente dividido entre os que professam a fé cristã (mais centrados no sul) e os muçulmanos (ao norte), mas também há os que praticam as religiões tradicionais como as igbo e iorubá.

Apesar de ser um país laico é justamente a religião que vem sendo usada para dar vazão aos desejos de apropriação da riqueza. Nascido no norte, onde predominam os muçulmanos o grupo Boko Haram foi fundado em 2002, na cidade de Maiduguri, no Estado de Borno, por Ustaz Mohammed Yusuf, que o liderou até 2009. Hoje o comando está nas mãos de Abubakar Shekau e a sede foi levada para a cidade de Kanamma, onde fica o que chamam de central operativa "Afghanistan". Desde ali, o grupo vem realizando sequestros e atentados contra as forças policiais nigerianas e contra a população civil. 

Desde o final de 2001 que o norte do país vive em estado de alerta e o governo chegou a declarar estado de emergência em função da sequência de atentados e ações violentas, inclusive contra centros educacionais, já que eles acreditam ser a educação laica um grande mal. Até o ano passado, essa luta era considerada uma questão interna e não havia muita informação sobre o grupo. Mas, no início de 2014, o ataque a uma escola cristã, no qual os integrantes do Boko Haram queimaram vivas 60 crianças, colocou o problema em evidência nos jornais europeus. Pouco depois o grupo invadiria a cidade de Bama, num ataque violento deixando milhares de vítimas e famílias desalojadas.  

O mês de abril trouxe mais uma notícia envolvendo o Boko Haram. Militantes invadiram outra escola, desta vem em Jibik, seguindo com a campanha contra a educação ocidental e sequestraram mais de 200 meninas, as quais o líder prometeu colocar à venda depois de convertê-las ao islã. Relatos de meninas que conseguiram escapar – divulgados nos jornais europeus - dão conta de violações sexuais e outras torturas, além da degola quando se recusavam a conversão. 

Conheça o país

A Nigéria congrega atualmente quase um quarto da população do Oeste Africano. Embora menos de 25% estejam vivendo na zona urbana, existem cerca de 24 cidades com população de mais de 100.000 habitantes. O país tem uma grande taxa de fecundidade e um exponencial crescimento populacional. O Departamento de Recenseamento dos Estados Unidos, que está de olho no país, estima que a população da Nigéria atingirá 356 milhões em 2050 e 602 milhões em 2100, ultrapassando os próprios Estados Unidos como o terceiro país mais populoso do mundo.

A Nigéria está de frente para o oceano atlântico, na parte oeste do continente africano, bem na voltinha que se encaixaria no nordeste brasileiro na mítica Gaia. Faz divisa com Camarões, Benim, Níger e Chade. No seu território está parte do maciço de Adamawa, ou as Montanhas Gotel, com 2419 metros, em Chappal Waddi, o ponto mais elevado do país. Seu tamanho é um pouco maior do que o estado brasileiro do Mato Grosso e língua oficial  é o inglês.

Antes da dominação portuguesa e britânica o território era espaço do império Kanem-Bornu, que dominou a parte norte da Nigéria por mais de 600 anos. Era uma próspera rota de comércio entre os norte-africanos e o povo da floresta. Ao longo de sua história o povo daquele lugar constituiu sistemas de organização política muito bem elaborados, tanto que em 1471 quando os portugueses desceram pelo litoral africano encontraram uma corte próspera com a qual estabeleceram, em princípio, laços comerciais até o fim do século XVI, quando começou com mais intensidade o trafico de escravos.  

Durante os séculos que se seguiram os portugueses e os britânicos dominaram a região estabelecendo entrepostos para a realização do melhor negócio daqueles tempos, que era o tráfico humano. No ano de 1886 foi criada a Companhia Real do Níger, sob o comando da Inglaterra e em 1900 esse país europeu já fincava suas garras no lugar, criando os protetorados. Em 1914 formaram a colônia da Nigéria, cujo nome surgiu da fusão entre as palavras Niger (do rio Níger) e area (palavra inglesa para "área"), e foi dado pela mulher do Barão Lugard, que administrava o território naqueles dias. 

A independência veio no ano de 1960, no rastro de todo o processo de libertação que tomou conta do continente. Mas, de qualquer forma, a ascendência inglesa continuou, pois havia riqueza demais para ser deixada para trás. Internamente o país seguiu em convulsão e em 1966 grupos militares se enfrentam na disputa pelo poder. A etnia mais expressiva, a dos igbos, chegou a declarar independência em 1967, criando, a partir de uma sangrenta guerra civil, a República de Biafra. Mas, ao final foram derrotados. Desde aí o país vem passando por sucessivos golpes e alguns momentos de governo civil. Atualmente, o presidente é Goodluck Jonathan que, sendo vice, assumiu o cargo em função da morte de Umaru Yar´Adua, escolhido em eleições livres na chamada Quarta República iniciada em 1999, quando retomou-se democracia, o que no caso da Nigéria foi a retomada das eleições e o fim do segundo regime militar.  

Nas análises recolhidas dos periódicos europeus – que dão maior cobertura à política dos países africanos – há uma generalizada crença de que o presidente Goodluck tem sido bastante fraco na ação contra o chamado “grupo radical”. E há que se levar em conta também a sistemática intervenção das potências ocidentais na região. Os britânicos seguem por lá. Os Estados Unidos tem uma base militar justamente na fronteira norte do país, a qual rastreia com seus drones. Há quem defenda que o Boko Haram tenha sido – tal qual o Al Kaeda – criado pela inteligência estadunidense para desestabilizar o país tornando-o alvo seguro para uma ocupação. Não nos esqueçamos que ali estão grandes reservas petrolíferas. Além disso, a Nigéria vem se destacando como uma grande potência regional. O seu PIB, em 2013, foi o maior do continente, 500 bilhões de dólares. O pequeno país é uma mina de ouro, enquanto a sua população vive entre a pobreza extrema e a ameaça de extermínio. O país tem os piores índices de qualidade de vida. Uma contradição só explicada pela voracidade da classe dirigente, sempre aliada aos interesses estrangeiros. Hoje, o rentismo petroleiro é prioritário. A economia tradicional, baseada no cultivo do cacau, café, banana e azeite de dendê está entregue às moscas e o país importa alimentos. 

Recrudesce a ação do Boko Haram

Nas últimas semanas as ações do grupo islâmico fundamentalista voltaram a tomar conta das manchetes. Além de seguir com o rapto de crianças, o grupo as utiliza como bombas vivas nos ataques que realiza pelo norte e noroeste do país. Poucos jornais arriscam dizer o número seguro de vítimas provocadas pelo grupo, mas já passam de milhares. As técnicas são justamente o assassínio em massa, as ações suicidas, violações e o uso dos prisioneiros  - maioria meninas  - como escravos. 

Os jornais europeus dão conta de que no último dia de 2014 mais 40 crianças foram raptadas no estado de Borno. E, na semana em que ocorria o atentado na França, o Boko Haram atacou a cidade de Baga, deixando mais de dois mil mortos. Conforme relato de testemunhas ouvidas pelo jornal português “O Público”, eles chegaram atirando a esmo, matando quem encontravam pela frente, e quem se escondeu dentro de casa foi queimado vivo. O Ministério da Defesa nigeriano nega que tenham sido duas mil pessoas mortas, diz que foram “apenas” 150. As Nações Unidas não confirmam o número de mortos, mas diz que existem mais de 150 mil pessoas desalojadas e em êxodo na região norte.

O fato é que os ataques do Boko Haram podem esconder interesses bem mais profanos do que a vontade de implantar o islã. Com o fim do bloco socialista e a impossibilidade de criar o inimigo “comunista”, agora as nações ricas já consolidaram um outro inimigo comum: o “terrorista”, que, inclusive, tem cara e nome árabe. É inegável que os grupos extremistas existem e atuam de maneira ultra violenta. Mas, também é preciso considerar que muitos deles são incentivados e financiados pelos países centrais para criar o caos. Isso já aconteceu no Afeganistão, no Iraque, na Síria. Depois, eles servem de argumento para missões de ocupação estrangeiras e toda a riqueza dos países invadidos escoa para fora. 

A Nigéria está em processo eleitoral, o novo presidente será escolhido agora, em 14 de fevereiro. Assim, as ações, cada dia mais violentas, do Boko Haram estão mergulhadas nesse contexto. Na segunda-feira (12/01), o grupo atacou uma base militar no vizinho país, Camarões, o que o torna ainda mais perigoso. Segundo informações de jornais europeus, a batalha durou cinco horas e 150 pessoas morreram. Também se sabe que a França tem sido um país bastante atuante na Nigéria chegando inclusive a organizar uma conferência com os presidentes da Nigéria, Camarões e Benin para constituir um plano de defesa. Como convidados especiais da reunião compareceram também a Inglaterra e os Estados Unidos. Os argumentos para a presença dessas potências e o interesse da França são de que o Boko Haram teria ligações com a Al Kaeda e poderia ser um perigo para a Europa. 

Então. Tudo está ligado. Há mais coisas aí do que pode sonhar nossa capacidade de conspiração. Enquanto isso, milhares de pessoas estão em fuga. 


*Com informações dos jornais O Público, El País, Euronews

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Governo do Equador recua diante da mobilização indígena



Ministra do Interior diz que vai analisar o recurso da Conaie para permanecer na casa

Enquanto o presidente Rafael Correa falava de sua "revolução cidadã" em Pequim, buscando parcerias econômicas e comerciais com a China, no Equador, o dia era de luta para os indígenas ameaçados de expulsão da sede da CONAIE, a Confederação das Nacionalidades Indígenas do Equador. Extinguia-se nesse seis de janeiro o prazo dado pelo governo para que a histórica entidade, uma das mais importantes do mundo, deixasse o prédio que ocupa em comodato desde há décadas.

Desde domingo várias entidades indígenas, de diversos lugares do país tinham iniciado uma marcha até a capital visando o cerco ao prédio e a resistência, caso a polícia tentasse desalojar a entidade pela força. Quando o dia amanheceu milhares de pessoas já marchavam em direção a sede da CONAI, na Avenida de los Granados,  dispostos a não arredar pé. Já no início da manhã foi instalada uma Assembleia Extraordinária, a qual virou espaço de manifestações. O presidente da entidade, Jorge Herrera, deixou claro a importância da CONAIE: "A partir dessa casa temos discutido e aprofundado as propostas para a construção de uma sociedade mais justa. Por isso decidimos que se pretendem nos tirar daqui, hão de nos tirar mortos, porque essa casa é do povo".

Também fez uso da palavra o presidente da CONFENIAE, Franco Viteri, que igualmente reiterou: "essa casa é território das nacionalidades e dos povos, aqui aprendeu o mesmo presidente Correa, portanto não vamos abandoná-la. Se o presidente pretende nos tirar daqui, estará contradizendo todo o princípio de plurinacionalidade e indo contra seu próprio discurso.  Outra liderança indígena, Carlos Pérez, assinalou que a casa da CONAIE agora se constituía um símbolo da resistência indígena. "Esse edifício é fruto da luta do movimento indígena, do levantamento dos anos 90 e por isso vamos defender a memória histórica de nosso povo".

E assim foram se sucedendo as falas e o compromisso de lideranças populares de tantas organizações equatorianas na defesa da CONAI e do seu direito de permanecer na casa que foi conquistada ao longo de décadas de luta. Não faltaram também as manifestações cerimoniais de proteção da casa e da luta indígena, como a realizada por um grupo de chasquis que caminhou pelo país desde o dia 29 de dezembro. Eles entregaram oferendas ao presidente da CONAIE e desejaram os melhores augúrios ao seu Conselho de Governo. Foi um momento de profunda emoção.

Durante o desenrolar do encontro e das manifestações foi divulgado que a ministra do Interior, Betty Tola, havia suspendido o desalojo e que iria analisar o recurso interposto pela entidade. Segundo ela, nova decisão deverá sair em dois meses.

O informe saído do ministério do interior foi saudado como um importante ganho ocasionado pela intensa mobilização. Ao se encerrar a assembleia, a resolução final foi a decisão de permanecer na sede da entidade e começar a partir daquele momento mais uma processo de fortalecimento das entidades de base, que sustentam esse gigante que é a CONAIE. O objetivo é manter toda a gente em movimento durante esse dois meses nos quais o governo deverá discutir o recurso.

Depois de encerrada a assembleia, em meio a cerimônias e cantorias, os delegados e apoiadores realizaram uma caminhada pelas ruas de Quito até o Palácio da República, mostrando que as nacionalidades indígenas do Equador está de pé, em luta e não desistirão de manter sua sede histórica.  

Foi mais um dia de batalha pela consolidação daquilo que está na Constituição, mas que segue sendo esquecido pelo mandatário equatoriano: a plurinacionalidade e o bem viver. Nos cartazes e nas falas dos indígenas, a consigna que deverá seguir ecoando pelos meses afora que se configurarão em novas lutas: "Por nossa história, por nossa luta, da nossa casa, ninguém nos tira".


Com informações da CONAIE Comunicación.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

A vala de Melilla



É sempre muito comum a alusão à queda do Muro de Berlin, como um episódio chave para a fim do chamado "regime comunista". Sua derrubada foi saudada como um símbolo da liberdade de ir e vir das pessoas, já que os alemães que viviam na parte oriental não podiam atravessá-lo. Mas, se a sua queda abriu caminhos aos alemães orientais outros muros seguiram se erguendo, impedindo o movimento das pessoas, em pleno sistema da "liberdade", como é saudado o capitalismo. A "terra das oportunidades s" tem, igualmente, seus impedimentos aos seres humanos. E quem grita contra isso? Quem se insurge? Poucos. Os velhos ativistas dos direitos humanos. Os que entendem que nem o comunismo, nem o capitalismo podem levantar muros às gentes.

Ainda assim, vimos surgir na Palestina ocupada o aviltante muro que separa famílias, que oprime pessoas, que torna os palestinos prisioneiros em sua própria terra. Quilômetros e quilômetros de barreira, oito metros de alturas, revistas vexatórias, violências. E, na mídia comercial, muito pouco se fala das vidas ceifadas em nome do abjeto "direito" que Israel se deu de impedir as pessoas de circular por seu território.

Também no México, cresceu e se consolidou o muro que separa o país dos Estados Unidos. De lá para o México, os estadunidenses podem passar tranquilos. Já do México para os EUA, nem pensar. E as gentes se arriscam no muro, morrendo como moscas, impedidos de participar do grande banquete do capitalismo da liberdade, alardeado pelos estadunidenses. Uma liberdade que só vale para quem eles querem. Os pobres que ousam também sentar à mesa da fartura capitalista, esses são impedidos com balas e cães. 

Outra barreira pouco conhecida é a chamada "Vala de Melilla", uma cerca gigante que separa Melilla, uma cidade autônoma, mas de domínio espanhol, que fica em território africano, às margens do Mediterrâneo, fronteira com o Marrocos. Passar a linha de fronteira desde ali é estar com o pé na Europa, por isso foram criados os mecanismos para impedir o fluxo de imigrantes. Assim, a vala começou a ser construída em 1998, completamente invisível para as mídias comerciais. Era apenas uma vala que foi se aprofundando até virar um imenso fosso de três metros de altura. No ano de 2005, ficou mais funda, com seis metros e nela ainda foi fincada uma cerca tridimensional, em 2007, com três metros de altura. Tem 12 quilômetros e é vigiada por tropas policiais. Seu singelo objetivo é impedir a entrada de negros na Europa.

Apesar de sua tecnologia apurada - tem malhas metálicas que impedem a escalada, sensores de movimentos e câmaras automáticas - dezenas de pessoas se arriscam todos os dias, enfrentando a morte, a prisão e a mutilação, para vivenciar a passagem até o mundo das "oportunidades". Mas, os negros pobres não têm vez. A eles, o caminho está fechado.

E assim vai seguindo esse planeta, cada dia mais fechado para os que nada têm, enquanto os que vivem na opulência se calam, cheios de medo de serem "assaltados" pelas hordas dos desgraçados. O fato é que de todos aqueles que tentam ultrapassar as barreiras da "liberdade", a maioria morre ou é capturada. Ainda assim, alguns conseguem, em 2014 foram mais de dois mil... E estão por aí, no mundo dos opulentos, tentando encontrar o caminho para a vida digna. 


sábado, 3 de janeiro de 2015

Rafael Correa insiste em despejar indígenas do prédio da CONAIE



Desde que as lideranças da Confederação das Nacionalidades Indígenas do Equador (CONAIE) começaram suas críticas ao governo de Rafael Correa, ainda no primeiro mandato, muitos tem sido os conflitos envolvendo as forças oficiais e os indígenas. Até a metade do processo que definiu a nova Constituição os interesses pareciam semelhantes e o movimento indígena conseguiu aprovar muitas de suas demandas na nova carta. Entre muitas conquistas, ficou famoso o capítulo que reza sobre os direitos da natureza, uma reivindicação que nasceu das entranhas do mundo originário e que, de alguma forma, salvaguarda os recursos naturais. 

Mas, quando se iniciou o trabalho de regulamentação da Constituição, os desencontros começaram. E o primeiro deles se deu por conta da nova lei que regulamentaria a mineração no país. O governo optava por fazer-se cego diante dos direitos da natureza definidos na Constituição e dava garantias a grandes empresas estrangeiras para a exploração de minério, inclusive em terras comunitárias e com técnicas há muito banidas, como o uso do mercúrio. Foi o que bastou para que o movimento indígena se alçasse em rebelião. Correa negava todo o trabalho realizado ao longo do processo constitucional e se rendia à lógica do desenvolvimentismo baseado na exploração mineral. E ainda jogava a população contra o movimento indígena acusando-os de estarem contra o progresso. 

Outro fato que gerou conflitos foi a abertura de licitação para que empresas estrangeiras explorassem mais de 13 campos de petróleo na região amazônica. Com o mesmo discurso de que os índios atrapalhavam o desenvolvimento nacional, Correa vaticinava: “Basta do infantilismo de não ao petróleo e a mineração. Se não exploramos agora, o petróleo acaba em 10 anos”. De novo, a chantagem diante da luta dos povos originários. 

Desde aí, com a decisão irrevogável do governo em manter a proposta extrativista, a despeito das demandas indígenas, os protestos e marchas têm sido constantes. Os partidários de Correa seguem o bombardeio contra os indígenas, alegando, inclusive, que eles são manobrados pela direita. O que não é verdade. É fato que a direita tem se aproveitado dos conflitos, mas muito mais em função da truculência de Correa do que da luta dos povos indígenas. 

No rastro dessa queda de braço entre governo e indígenas, Rafael Correa decidiu, em dezembro de 2013, fechar a Universidade Intercultural das Nacionalidades e Povos Indígenas Amawtay Wasi, alegando que ela não se enquadrava nos novos rumos da educação. O governo insistia que a universidade, toda ela organizada dentro da cosmovisão indígena, se transformasse numa escola igual a todas as outras, de corte europeu. Os professores e alunos travaram longas batalhas de informação, mostrando ao governo e à população que a universidade intercultural tinha o direito de atuar de maneira diferenciada, inclusive para honrar a própria Constituição que garante a proposta de autonomia das comunidades indígenas. Mas, a batalha de Correa era muito mais contra os indígenas “rebeldes” que lhe faziam a crítica do que pela educação homogeneizada. E a universidade foi fechada, apesar de todos os protestos nacionais e internacionais. 

Agora, ao apagar das luzes de 2014, o governo desferiu mais um golpe nos movimentos indígenas organizados, exigindo a desocupação do prédio onde funciona a CONAIE, a Confederação das Nacionalidades Indígenas do Equador. O argumento é de que, como o prédio é do governo, cedido em comodato, ele tem todo o direito de requerê-lo de volta. Segundo as autoridades “surgiu uma necessidade imprevista e urgente”. O uso do prédio pelos indígenas se dá nos anos 80 quando é o organizado o Conselho Nacional de Coordenação das Nacionalidades Indígenas, um processo de levante do povo originário que iria desembocar num grande movimento reivindicatório que tem seu ápice no ano de 1990, com a ocupação de diversas igrejas em Quito.  E é justamente aí que a mobilização dá vida à CONAIE (Confederação das Nacionalidades Indígenas do Equador), então a signatária da carta de comodato. Esta entidade se configura no resultado efetivo deste movimento e se organiza hoje em comunidades, centros, federações e confederações de povos indígenas. 

Desde o Congresso de 1986, os povos originários do Equador tem mantido sua resolução de consolidar suas comunidades como espaço de luta, defesa da terra e do território originário, educação própria e bilíngue, recuperação e fortalecimento da identidade cultural dos povos indígenas, luta contra o colonialismo e a batalha sem quartel pela plurinacionalidade.

Atualmente a CONAIE, aglutina os seguintes povos e nacionalidades: Shuar, Achuar, Siona, Secoya, Cofàn, Waorani, Zapara, Shiwiar, Andoa e Kichuas na região amazônica. Os povos Tsachila, Epera, Chachi, Awa, Manta eWankavilka, na Costa e os de nacionalidade Kichua: Palta, Sarakuru, Kañari, Puruwà, Chibuleo, Tomabela, Salasaca, Kisapincha, Waranka, Kitukara, Kayampi, Otavalo, Karanki, Natabuela e Pastom na serra interandina. Todos estes povos se constituem de maneira autônoma.
Desde o anúncio do despejo, que o governo promete para o próximo dia seis de janeiro, movimentos populares e intelectuais de todo o mundo têm se manifestado junto ao presidente Rafael Correa para que não continue com essa ação de represália contra o movimento indígena, mas nada parece demover o mandatário equatoriano. O despejo está mantido.

Essa semana, o governo de Rafael Correa deu mais um passo no processo de tentativa de destruição da mobilização indígena chamando um encontro com outras organizações indígenas menores visando criar o que chama de Aliança Indígena pela Revolução Cidadã, obviamente submetida a uma razão de estado. E, na oportunidade anunciou, através do Ministério de Inclusão Social que utilizará a sede da CONAIE como um centro de recuperação de jovens drogados. 

O próprio presidente já declarou que não vai mais permitir que a CONAIE faça “uso político” do prédio onde está fincada desde há décadas. O que ele não diz para a nação é que foi a partir daquele prédio que se planejaram estratégias para a sua própria eleição, quando o movimento indígena, acreditando nas suas propostas, o apoiou. Hoje, como os indígenas estão fazendo a crítica ao seu projeto de desenvolvimento, o “uso político” parece não ser mais necessário. 

A próxima semana será de muita luta no Equador. 

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

O tempo não para




E eis que vem um ano novo, embora nada de novo venha... Nos tempos antigos, os povos celebravam a cada estação. Havia o tempo de plantar, de colher, de descansar e de amar. Em cada equinócio e solstício se dançava e festejava, cantando com os deuses, sempre muitos...

Então vieram outras crenças, outros modos de vida, veio a dominação da igreja, um deus único, as festas piedosas... As gentes esqueceram da alegria, a simples e doida alegria de se estar vivo.

Neste primeiro de ano eu desejo que todos possam recuperar essa antiga tradição, de se celebrar em cada momento da vida, de se cantar aos deuses, aos tantos deuses que por aí circulam no coração das gentes. Essas nossas divindades inventadas pelo nosso medo e pela angústia de se saber mortal...

No calendário romano é o deus Jano que abre a fieira de deuses, o deus com duas faces, o guardião dos portões. O deus que é sombra e luz, verdade e mentira, amor e ódio, início e fim, um deus dialético, mesclado de tudo o que é humano.

Aqui na nossa Abya Yala celebra-se com Inti, o deus sol, e com outros tantos das mais variadas culturas. Os que não precisam de deuses também celebram o recomeço de um novo ciclo. Tudo é motivo para  festa e também, como nos tempos antigos, ainda se baila nos equinócios e solstícios. É só uma celebração, uma orgiástica celebração desta vida que temos, para a qual somos chamados a plantar, colher, descansar e amar. Agora é verão, puro verão, tempo de amar...

Vem o novo ano, mas o tempo não para...Em 2015 nada vai mudar se não nos pusermos a caminho, porque a estrada se faz assim, ao andar... Então, eu os convido ao borbulhar da champanhe, ao doce da cana, ao perfume do vinho ou ao simples gosto da água pura. Eu os conclamo para o ritualístico momento do primeiro momento dos restos de nossas vidas, neste primeiro de janeiro e em cada amanhecer de todos os dias.

Que venham as dádivas, os terrores, os risos e as lágrimas. Nós enfrentaremos com riso, prazer e luta.!!

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Pelos natais e anos novos




Sempre gostei de filmes de Jesus, desde pequena. A mim encanta esse homem que partilha, que caminha pelas estradas poeirentas, que ama o próximo e o distante. O que ampara a mulher adúltera, o que come com as prostitutas e os tribunos, o que está no mundo, mas não é do mundo. Gosto da sua violência contra os vendilhões e sempre me emociono demais com a absurda fé que ele tinha nas gentes, a mesma fé que o levou a morte, negado até pelos mais íntimos. Pouco me importa se ele foi real ou apenas uma ladina invenção de Paulo. Gosto da mensagem que se diz que ele deixou. No filme de Zefirelli, sobre ele, a cena final sempre me faz chorar. É quando Jesus volta da morte, e está com os apóstolos. Alguém pergunta: e agora, para onde vais? Então ele olha para a câmera, como a fitar nossos próprios olhos diz: não tenham medo, eu sempre estarei com vocês! Acho isso de uma ternura abissal. Não é uma promessa de poder, é só a promessa de um partilhar, estar junto, de maneira incondicional. Creio que isso é o amor.

Nestes dias que rondam natal e o Ano Novo gosto de rever estes filmes. Até mesmo o de Mel Gibson, sangrento e duro, que escancara a tortura e a dor infligida a quem decidiu questionar a lei vigente. Ali, vejo cada um dos que ao longo dos tempos foram torturados e mortos de maneira vil por lutarem contra a opressão, contra leis injustas, por uma vida digna de ser vivida. Vejo no homem ensanguentado os estudantes normalistas mexicanos, tantos de meus companheiros e a mim mesma.

Penso que, de algum modo, em cada um dos diferentes "Jesus" que o cinema ou os livros nos apresentam, há um pouco da pessoa que gostaríamos de ser. Por isso essa mística que representa esse homem ainda me parece tão bonita. Sua proposta é a da  mais radical doçura, da cura do doente, do amparo das almas em escombros, do amor, mesmo àqueles que não são iguais. Quem que, vivendo assim, não representa uma luz na escuridão da vida? É por isso que o meu natal não tem Papai Noel, esse, vermelho, com sacos de presentes, criado pela Coca-Cola em 1931. Não. Ele é repleto da busca desse Jesus, amoroso e radical, que caminha conosco, chora nossa dor e nos ampara com um olhar de supremo acolhimento.  

Assim que nestas noites de dezembro, confrontada com toda a fragilidade da vida, com a dor, a impotência diante do poder, a solidão existencial, preparo com carinho o dia deste homem, que pode ser cada um de nós. Não espero a meia-noite para comer peru, como fazem todos, num ato ritual. Gosto de viver o dia, o 25, como se fosse mesmo um dia de aniversário. Faço pudim e compartilho. Busco em mim a força para domar o medo e enfrentar os vilões do amor, que estão por aí, todos os dias, nos que matam Amarildos, nos que roubam do povo, que oprimem, que negam a vida digna. Eu busco o deus menino, não no céu, mas entre os vivos, meus irmãos.

Nietzsche dizia que só os fracos precisam de deuses, como muletas. E eu digo que ele tem razão. Nós, humanos, somos fracos. Precisamos criar a cultura, explorar a natureza, esconder-nos de nossos semelhantes, sempre a temer algum ataque. Mas até Nietzsche se rendeu a ideia de que Jesus havia sido o único cristão. Nestes dias de desamparo, sim, quero assumir as muletas. Sou uma mulher que precisa de deuses. E espero Jesus, sem presentes, sem pompa, sem festa. Só com minha louca certeza de que os deuses são nossas redes. Nada podem. Apenas balançam, nos ninam e nos sussurram a frase necessária: Não tema, eu estou aqui!