sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Um dia de janeiro


Ontem fui ao Centro, coisa que me dá prazer. Mas, distraída, não percebi que era janeiro. Depois de um banho refrescante fui para a parada do ônibus, em frente ao castanheira. A idéia era pegar o carro que passa por ali às 16:10. Não passou. Eram 16:25 quando ele assomou. Tudo bem, lá fui eu, ainda distraída. O ônibus desse horário faz a volta por dentro do bairro, levando em média uns 20 minutos. Levou 45. Assim, passava das cinco quando cheguei ao Terminal do Rio Tavares. Ali, a fila para o centro estava quilométrica. Se quisesse ir sentada, só esperando por uns três carros. Fui até o fiscal para perguntar sobre os horários. “Está tudo atrasado”, já foi dizendo quando me viu. “E não há carros extras? É férias, a ilha deve estar com o triplo do número de habitantes...”  Não! Não há carros extras. As empresas mantêm os mesmos horários dos dias normais. Para eles é lucro. Transportam o triplo de gente e não sofrem desgaste. Só lucro.

Eram 17:25 quando consegui entrar no ônibus para o Centro. A ida foi arrastada, mas não havia tanto engarrafamento ainda. Tudo bem. No Centro, a vida fluia sem atropelos, já que a maioria dos turistas estava na praia. As ruas estavam com movimento normal e até o mercado público, onde parei para um chope, estava tranquilo, com várias mesinhas vagas. Ufa... Fiquei ali apreciando essa minha cidade amada, deliciando-me com o por-do-sol e o vai-e-vem das gentes no caminho para o terminal. Fiquei pensando se as pessoas que planejam a cidade são capazes de coisas assim. Observar a vida real, perceber suas belezas e compreender onde estão os problemas para então resolvê-los. Nós, os que vivemos aqui, sabemos muito bem o quê fazer e como fazer.  Vivemos a cidade, andamos de ônibus, caminhamos pelas ruas, pelos bairros, sofremos os serviços públicos. Tudo parece tão simples. Mas, os que mandam estão à serviço de outros interesses. Importam-se com um número bem reduzido de pessoas. Dessas, do tipo das que vêm para o “clubes de praia” passar os verão. As que chegam de helicóptero e não sabem sequer o que seja um ônibus urbano, que não se importam com a cidade onde estão, afinal, sequer a percebem para além dos limites do seu mundo dourado.

Eram 19:30 quando resolvi votar para casa. No terminal a vida fervilhava. Moradores voltando do trabalho, turistas chegando. As filas estavam gigantes, pois os ônibus seguiam com seus horários normais. Além disso, as empresas não se preparam para os engarrafamentos e os ônibus que vêm das praias chegam todos com atraso, por conta da lentidão do trânsito. Mas, não há carros extra. Assim, os horários de saída não são cumpridos. A desculpa: são as filas. Ora, a prefeitura deveria exigir das empresas que mantivessem carros extras para colocar nos horários certos, assim, as pessoas não precisariam amargar horas nas filas. Mas, qual! Nem os fiscais ficam à vista, com medo das cobranças, as quais tampouco são muitas. No geral, as pessoas esperam, olhares tristes, mas mansos. Eu não. Faço salseiros, ainda que inúteis. 

Como as pistas da SC 405 ficam abertas para quem está voltando das praias, a ida até o Rio Tavares se estendeu por mais de uma hora. Calor de matar, ônibus sem ar condicionado, lotado até a boca. Uma antecipação do inferno. Eram 20:40 quando cheguei no terminal do Rio Tavares. Bueno, pegaria o carro das 20:45. Doce ilusão. Havia um atraso de três horários, pois os ônibus estavam parados no engarrafamento da praia. Toca a esperar. Eram 21:05 quando finalmente entrei no ônibus que me levaria para casa. O estresse é tanto que toda a beleza vivida lá no Centro, sentada na beira do mercado vendo o sol se pôr, já havia se esgotado. No coração, só aquele aperto de ver a cidade amada tão mal cuidada, tão entregue à mãos irresponsáveis. Para os turistas, que estão à passeio, tudo é festa. Um atraso, um engarrafamento, nada os tira dos sério. Mas, para a gente que aqui vive e que sabe porquê as coisas são assim, e como poderiam ser diferentes, é impossível não sofrer. 

Às 21:20 enfim desci na minha ruazinha de areia e vim andando pelo caminho com cheiro de arlecrim. E, enquanto as corujas revoavam eu pensava: “quando será que as gentes daqui finalmente elegerão alguém que cuide dessa nossa cidade e dos moradores? Quando será? Será?” 


quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Câmara vota Plano Diretor

A virada do ano




A cada dia o “bicho-do-mato” que mora em mim fica mais forte. Fujo das aglomerações, um pouco levada por aquele máxima de Nietzsche: “onde estão rebanhos, estão as águas barrentas”. Assim, qualquer atividade – fora as de luta, necessariamente coletivas - que reúnem mais de cinco pessoas já começa a me incomodar. 

Mas, desde que vim morar no Campeche virou uma espécie de tradição ir até a beira do mar na virada do ano. Porque, ali, antes que o ano brotasse, a gente podia encontrar os amigos de todo o dia, de todas as batalhas, dos projetos culturais, do cineclube, a turma da luta pelo plano diretor, os vizinhos. Aquela coisa ilhoa de ficar na praia, passeando os olhos pelas ondas, caminhando com a família, jogando conversa fora, distribuindo sorrisos e desejos de um ano bom.

Só que esse ano, a praia estava diferente. Bem antes da meia-noite, já assomava pela Pequeno Príncipe uma multidão. Gente de todos os lados, com enormes caixas de isopor, cheias de cerveja e garrafas de champanhe. Um frisson de criaturas fazendo fotos de si mesmas, muito mais ocupadas com o clic do celular do que com a festa mesma que acontecia na beira do mar. Cumpri meu ritual e fui para a praia. Mas, mesmo andando para lá e para cá, não vi ninguém conhecido. Apenas a turma do Rancho de Canoa se mantinha impávida, no morrinho, sentada nas cadeiras, olhando de cima, o aglomerado sem identidade que se formava na areia. 

Em meio aos fogos e ao barulho de uma música ruim, andei meio perdida, feito um cachorro que caiu da mudança. Perdidos estavam meus vizinhos, meus amigos, meus irmãos de luta. Nenhum sorriso simpático, nenhum abraço conhecido. Só aquela gritaria insana. A praia já não era mais a velha comunidade. Pensei no tremendo crescimento que vivemos no bairro, com tantos condomínios novos e moradores de primeira viagem. Pessoas que aqui vem morar, e não viver. Gente que não se importa em conhecer a história, as tradições, as pessoas. Pessoas que usam o mar, a praia, a paisagem, como se fosse apenas mais uma mercadoria. 

E, entre tantos rostos alegres e sôfregos, o meu acabou vertendo algumas lágrimas. Pensei na votação do Plano Diretor, acontecida um dia antes, nossa derrota, a cidade desfigurada. Bateu a saudade de um Campeche amigo, da comunidade, que, ali, já não estava mais. Na areia, garrafas e latas se acumulando, num consumo desesperado de alegria artificial. Flashes e flashes dos celulares modernos pipocando, buscando tornar a imagem mais bonita que o real. Discrentei.

Foi aí que meu amor me tomou pela mão e fomos andando de volta para casa, afastando da praia, a alma em escombros, tentando encontrar outra vez o céu verdadeiro, sem o brilho feérico dos fogos. Não havia estrelas, nem lua. A luz que escapava da barra do horizonte era a de alguns relâmpagos renitentes. E eu, bicho do mato, enfim sorri. Ali estava meu ano novo se anunciando. Cheio de raios e trovões. Xangô me arrancava da nostalgia. Dei graças! Devagar, como uma filha dileta de Oxalufã, segui na direção do meu destino. Às batalhas, Elaine, às batalhas...

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

2014 - que venha!!



A despeito de tudo, re/brotaremos...

As celebrações de um novo começo na vida das gentes são tão antigas quanto a própria raça. Nas culturas mais remotas o “recomeço” era celebrado sempre no solstício ou equinócio de primavera (dependendo do hemisfério), quando tudo começa outra vez a florir. É que como o conceito de tempo ainda não havia sido aprisionado nos relógios a vida das comunidades se regia pelas estações. Naqueles dias, o povo se reunia em festivais, cantando, dançando e bebendo em honra da terra. As mulheres engravidavam e a vida florescia. Era a completude do ciclo da existência, sempre se repetindo.

De qualquer forma, na medida em que as culturas foram se complexificando, igualmente encontraram formas de medir o tempo. Os maias, por exemplo, lograram construir um intrincado calendário com 364 dias, e mais um outro, chamado de “dia fora do tempo”. Este, celebrado em 25 de julho, marca o início do novo ciclo. Já nas culturas do médio oriente, a festa era no equinócio de março, por conta da estação. A comunidade judaica comemora sua festa de Ano Novo, ou Rosh Hashaná, uma espécie de dia do julgamento, em meados de setembro ou no início de outubro, onde as pessoas fazem um balanço da vida. Os islâmicos celebram em maio, contando o tempo a partir do aniversário da saída do profeta Maomé de Meca para Medina, a Hégira, cujo marco corresponde ao 622 da era cristã.

Na China, o “recomeço” é celebrado em datas nem sempre fixas, mas entre final de janeiro e início de fevereiro. Lá, o calendário está relacionado ao movimento da lua e conta cada mês como o mês de um dos 12 animais que se apresentaram na frente de Buda e o ciclo da vida segue esta dinâmica, sempre começando na primavera.

O mundo ocidental também institui o seu “recomeço” a partir de um deus, que não é o cristão. Foi o imperador Julio César, no ano 46 antes de cristo, que determinou o primeiro de janeiro como o dia do início do ano, em homenagem a Jano, o cuidador dos portões. Depois, mais tarde, com a oficialização do calendário gregoriano, esta data permaneceu. Os franceses deram o toque romântico chamando-o de réveillon, que vem do verbo réveiller, cujo significado é "despertar".

E assim as gentes escolhem seus momentos de despertar, de balanço, de julgamento de suas vidas. Vemos que tudo depende da cultura onde se está inserido embora a ideia seja sempre a mesma: recomeçar, jogar fora o que foi ruim, esquecer, olvidar. Começar de novo, dar-se novas chances. E assim, vai avançando a raça, buscando aquilo que os filósofos gregos insistiram em chamar de “felicidade”. Pois eu, que reverencio a terra, os animais, as forças da natureza, que amo Jesus, Maomé, Khrisna e Buda, também vou comemorar. Que venha mais um ciclo, e que seja bom. Que floresça a vida, o amor e a paz. E que todos os povos possam vibrar na mesma onda cósmica. 

Eu te convido a dançar nesta bela noite de lua clara, com os deuses e deusas, sob as estrelas. Para receber o ano novo, recomeçar... despertar! Ah, quanta bênção em se viver neste grande grande jardim!

2014 será um ano de muita luta. Estaremos juntos!!


segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

O Dia da Maldade. Entre protestos, Câmara de Vereadores de Florianópolis aprova Plano Diretor






Nenhum vereador conhecia o conteúdo do projeto. Votação foi no escuro

30 de dezembro. Calor de 40 graus. Florianópolis. Mais conhecida no jargão turístico como “ilha da magia”. De fato. Só a mágica explica a votação do Plano Diretor no apagar das luzes de 2013, mergulhada num festival de irregularidades e ilegalidades. Com 17 votos a favor, uma abstenção e três votos contra, a Câmara de Vereadores aprovou, sem sequer conhecer, o plano que deverá desenhar a cidade pelas próximas décadas. “Estamos votando em confiança”, disse o presidente. Como assim? Confiança em quem? Pois é, venceu o cimento. Perderam as gentes. Mas não sem luta!

A sessão da câmara começou as duas horas da tarde. Sol a pino. Ainda assim, apesar do frisson nas ruas pela chegada do ano novo e com as liquidações pós-natal, representantes das comunidades, estudantes e população em geral compareceram às galerias para exigir que a votação fosse adiada. É que os vereadores só receberam o documento com as trezentas emendas aprovadas no primeiro turno de votação apenas na sexta-feira à noite. Logo, não tiveram tempo hábil para estudar e ver como estava conformado o projeto. “O documento que nos chegou não é oficial da Câmara, é um rascunho do Ipuf”, denunciou o vereador Lino Peres (PT). Além disso, como o documento foi todo alterado pelas emendas, diz o Estatuto da Cidade que são necessárias novas audiências públicas para que a  comunidade tome conhecimento das mudanças. Nada disso foi levado em conta. Na primeira votação quase 700 emendas foram apresentadas. A maioria sequer tomou conhecimento do conteúdo. Tudo passou de roldão.

Nessa tarde do dia 30 não foi diferente. Na fala de abertura, a qual cada partido tem direito, apenas os representantes do PP, PT e PSOL fizeram uso da palavra para se colocar contra a proposta de votação. Ninguém estava a fim de discutir nada. O vereador Pedrão protestou contra a realização da sessão e denunciou a falta de participação da comunidade no processo. “Faltou transparência”, afirmou.  O vereador Lino denunciou que o texto oficial não foi divulgado pela prefeitura, o que por si só já demandaria a necessidade de mais tempo para os vereadores conhecerem o teor do Plano. O vereador Afrânio falou do absurdo que foi a câmara chamar uma sessão para discutir o Plano Diretor, no meio de outras tantas votações, e denunciou ainda que o projeto não tem a cartografia, o que impede de saber as consequências das alterações, algumas delas, inclusive, ferindo legislação federal. “Podemos cunhar esse dia de hoje como o Dia da Maldade. Florianópolis não podia ser tratada assim”. Pediu ainda a suspensão da votação.

Bastante incomodado com a presença e a gritaria da população nas galerias, o presidente da casa sequer abriu discussão sobre o pedido de Afrânio. Colocou imediatamente em votação. Os que fossem contra a suspensão da votação que ficassem como estavam. E antes que alguém pudesse respirar ele assinalou: recusado! Passou então, imediatamente à discussão do Plano Diretor. De novo, nenhum outro vereador - a não ser os mesmos três: Pedrão, Lino e Afrânio – fez uso da palavra. Os demais conversavam entre si, davam risadinhas, olhavam a internet, sem a menor atenção aos discursos que os colegas faziam na tribuna, apontando falhas e irregularidades no processo. Tudo já estava arranjado. Assim, logo após a fala dos três vereadores, de apenas cinco minutos, sem condições nenhuma de aprofundar nas consequências do plano em tela, o presidente já encaminhava a votação. O vereador Afrânio perguntou ao presidente se a Câmara tinha os documentos sobre a cartografia, ou seja, o desenho da cidade, elemento fundamental para a compreensão do plano. César Faria foi obrigado a dizer que não. Ninguém ali naquela sala sabia o que estava votando e tampouco pareciam se importar.

O vidro que separa os vereadores do público impedia que eles ouvissem a gritaria, as vaias, as palavras de ordem, mas, mesmo que estivessem escutando, não faria diferença. As cartas estavam marcadas. Vez em quando algum deles olhava para trás, como que para se certificar que ali estavam as pessoas, mas era um olhar de indiferença, ou de profundo desprezo. Os interesses que estavam a representar não era o da maioria das gentes. Assim, não adiantou argumentar que o regimento estava sendo quebrado, que leis federais estavam sendo burladas, que o processo era anti-democrático. O presidente César Faria bocejava, enfadado, sem sequer prestar atenção.

Então, depois da fala dos três vereadores que se colocavam contra o plano tal como está e pediam o adiamento da sessão, Faria colocou imediatamente em votação. Foi nominal, mas muito rápida. Um a um os vereadores, ainda que desconhecendo completamente o conteúdo do Plano foram votando pela aprovação. O vereador Tiago, do PDT, que esteve no ato público contra o Plano no sábado e até tirou foto dizendo: eu luto por Florianópolis, decidiu se abster, recebendo uma vaia gigantesca. Pedrão, Lino e Afrânio votaram contra. Em poucos minutos, estava alterado o destino da cidade. Para pior.

Nessa hora, os ânimos de quem estava no plenário se acirraram. Os vereadores comemoravam entre abraços e, alguns, ainda riam, olhando debochadamente para as pessoas atrás do vidro. Um grupo começou a bater no vidro e a guarda municipal apareceu para proteger o patrimônio. “Vendidos, vendidos, vendidos”. “Mercenários, mercenários” eram as palavras de ordem. “Que nojo, que nojo”, bradava uma mocinha, em lágrimas. Entre os jovens, a revolta. Entre os mais velhos, também uma ponta de desesperança. Foram anos de luta para desenhar um plano que tornasse a cidade melhor, e o que passava ali era um plano totalmente alterado, sem a aprovação da comunidade. Prédios altíssimos em bairros como o Estreito e o Saco dos Limões, ocupação do Morro do Lampião, permissão para a construção em cima da restinga, construções em cima de área de preservação, enfim, o circo dos horrores.

As pessoas saíram e ficaram na porta esperando pela saída dos vereadores. Com medo, eles não arredaram pé de dentro da Câmara. Os manifestantes ocuparam a rua em frente e trancaram a garagem do prédio com uma corrente. Era uma queda de braço. O vereador Badeco deu uma de valente e saiu. Ao o reconhecerem, os manifestantes saíram correndo  atrás dele. Badeco conseguiu entrar num carro, mas o mesmo teve o vidro traseiro quebrado. Ele escapuliu. Em pouco tempo a polícia chegou pedindo a desobstrução da rua. E foi todo aquele clima de tensão. Gritos, palavras de ordem, cantorias. “Vem pra luta, vem, contra o cimento!” No outro lado da rua, pessoas se postavam, assistindo, enquanto um pequeno grupo ainda insistia em, pelo menos, jogar um ovo na cara dos vereadores que votaram contra os desejos da maioria das comunidades. Os sacos de lixo da Câmara que descansavam sobre a calçada foram levados para a entrada do plenário, onde estavam os vereadores: “estamos devolvendo o lixo para o lixo”. Ao final, todos – exceto Pedrão, Afrânio e  Lino - tiveram de sair escoltados pela polícia.

Agora, com o plano aprovado, resta ainda uma carta na manga: a Justiça. Como o processo todo está eivado de irregularidades e ilegalidades, os movimentos sociais esperam que ao ser julgado o mérito da ação movida pelo Ministério Público, a votação realizada seja impugnada. Por outro lado, todos sabem que a justiça burguesa, no mais das vezes, não se manifesta favoravelmente à maioria da população. Ela tem classe. E defende os interesses da classe a qual pertence.  Assim, as esperanças são mínimas.

De qualquer sorte, o movimento por uma cidade que seja capaz de se sustentar na energia, na água, na mobilidade, com ambiente equilibrado, não termina com essa votação. As pessoas que construíram o plano diretor participativo – desfigurado pelos vereadores – seguirão na luta diária. É certo que será mais difícil, mas todos sabem que é a luta que faz a lei. O que causa revolta é saber que a destruição andará a galope e, depois de consolidada, muito mais duro será voltar ao que era. Se uma área de preservação for ocupada com prédios, como voltar atrás? Se a restinga desaparecer, como recuperar? São questões que agora ficam a martelar, ainda sem solução. A única coisa certa é mesmo a continuidade da batalha renhida contra aqueles que cotidianamente entregam a cidade para a especulação e para o lucro de alguns.  

O ano acaba, mas a luta segue! 



sábado, 28 de dezembro de 2013

Noites em La Paz



Dona Vivi é uma mulher baixinha, pequena, de olhos apertadinhos que vive em Oruru, Bolívia, com o marido Juan. Naquela noite, em La Paz, no fevereiro de 2003, ela chegou espavorida, agarrada ao braço do velho companheiro, o rosto moreno corado de ansiedade. Tinham ido tomar um café na rodoviária e viram a confusão. Pela rua acima vinha a turba de gente quebrando e queimando tudo. Ela percebeu que algo estava errado porque conhecia bem a turbulência da vida boliviana. Mulher de mineiro e filha de cocaleiro, ela mesma já tinha passado por coisas assim sua vida inteira. Nunca fora fácil ser trabalhador na Bolívia.

Dona Vivi tentou sair em direção ao hotel, mas Juan não estava muito bem. Tinha dificuldade para andar. Fora por isso mesmo que tinham vindo para La Paz. Ele iria fazer alguns exames no Hospital Obrero. Os seguranças da rodoviária fecharam as portas de ferro, ninguém mais podia entrar ou sair. Entre os turistas que esperavam ônibus, o medo era palpável. Os gritos da gente lá fora ecoavam fortes e parecia que um imenso vagalhão iria assomar por sobre o pavilhão.

A confusão começara horas antes em frente ao Palácio Presidencial. Policiais militares, que estavam em greve há dois dias, tinham ido fazer um protesto e foram recebidos a bala pelo exército boliviano. Em poucos minutos a guerrinha particular das forças armadas gerou 13 mortos. Em frente a Praça Morillos os corpos se estendiam diante de uma multidão ainda passiva. Mas, quando o sangue escorreu pela calçada, uma espécie de frêmito tomou conta das gentes. Estudantes secundaristas que tinham ido à praça para protestar começaram a função jogando pedras nas janelas do palácio. Foi o estopim de uma revolta represada. As pessoas, em turbilhão, começaram a entrar nos prédios e a quebrar tudo. De dentro dos edifícios voavam mesas, cadeiras, computadores, papéis. Em pouco tempo o fogo irrompeu. Em volta da praça o clima era de completa balbúrdia.

Sem qualquer policiamento e com o exército alheio a tudo, protegendo apenas o palácio, a multidão foi colocando para fora todos os seus demônios. O que era um protesto político virou desaguadouro de outras mágoas. Uma grande loja de departamentos, identificada como “americana” foi completamente saqueada e destruída. A turba seguia, derrubando, queimando, saqueando, destruindo. E, assim, foi descendo em direção à rodoviária, onde estavam Vivi e Juan. Não pouparam nem as bancas das índias. Tudo era arrasado.

Aquela foi uma tarde de terror. Só no início da noite Vivi conseguiu chegar na hospedaria com seu marido Juan. No dia seguinte teriam a consulta no hospital, mas já anteviam que aquilo iria ter de esperar. Durante a noite, os hóspedes se reuniram na sala principal, todos muito assustados. Seria uma madrugada de tensão e medo. Era um hotelzinho barato e talvez por isso tenha ficado de fora da sanha dos saqueadores que assaltaram a cidade por toda a noite. Acordados, todos, ouviam os tiros, os gritos, e sentiam o cheiro da fumaça do fogo que queimava por toda La Paz.

O segundo dia foi o pior. A polícia continuava amotinada. Os saqueadores tomavam a cidade. Nas estradas, outros tantos bloqueavam ônibus e carros. Bancos queimavam, prédios do governos eram destruídos e o exército havia colocado franco atiradores pelos prédios, os quais atiravam contra a multidão que se dividia entre os que protestavam e os oportunistas que saqueavam. As centrais obreras tinham chamado uma greve geral para aquele dia e o clima era de muito pavor. Ninguém sabia o que poderia acontecer. Todos esperavam um rio de sangue.

As caminhadas de sindicalistas e representantes do movimento popular aconteceram em La Paz e nas principais cidades da Bolívia. Bandeiras brancas pediam paz. Franco atiradores balearam uma médica e mataram uma enfermeira que ajudavam os feridos. A cidade entrou em comoção. Ninguém mais queira sair dos hospitais para ajudar. Foi um dia inteiro de completa confusão. Mortos e mais mortos. No meio disso tudo o governo se mantinha calado. Na televisão, os comentaristas exigiam que o presidente Sanchez de Losada resolvesse o caso da polícia para que esta voltasse às ruas, reestabelecendo a ordem.

Vivi e Juan não se assustaram com toda a violência. Durante aquela manhã haviam saído para tomar café e também saíram na hora do almoço. Não podiam ficar sem se alimentar, dissera ela. “A senhora não tem medo?” - perguntava eu. “Isso é a Bolívia, querida”, respondia, serena. No meio da tarde, enquanto pela porta do hotel passavam as gentes carregando portas, janelas, computadores e outros que tais, ela, serena, anotava receitas de comida brasileira que eu lhe passava. “Adoro cozinhar”.

No início da noite o presidente veio à TV falar com o povo. Havia concedido o aumento aos policiais e estes estariam voltando para as ruas. A Bolívia voltaria a ter paz (?), dizia. Na sala, com os companheiros de hotel, ouvi, aparvalhada, a fala de Goni, o presidente. Falava ele com sotaque inglês. “Mas como???” - perguntava eu, perplexa. Ele parece um estadunidense falando. “Ele é um deles”, diziam os homens, irritados. “Viveu a vida toda lá, representa os interesses deles”. “Mas vocês o elegeram?”... “Somos todos uns burros”, vociferou um mineiro de Cochabamba que esperava o fim dos conflitos para voltar para casa. “Somos todos uns burros”, repetia.

Fiquei mais um dia em La Paz esperando que liberassem os ônibus. Pelas ruas, as pessoas falavam do levante com aquela fleuma que é peculiar a um povo calejado nos horrores e nas rebeliões. A vida voltava ao normal. Na rodoviária, os turistas retomavam o movimento. As velhas índias ocupavam seus lugares pelas escadarias a pedir esmolas e os policiais, de volta às ruas, eram saudados com alegria. Vivi e Juan foram, enfim, ao hospital. “Vou experimentar a feijoada, filha”, despediu-se, sorrindo, a mulher de sangue índio e esperança atávica. A Bolívia ficaria para trás, manchada de sangue e fogo...como se o tempo não houvesse passado desde o passado imemorial...

Eu ainda não sabia, mas aquele era um dos tantos episódios da famosa Guerra do Gás, que colocaria para correr o presidente com sotaque de “americano”. E, desde ali, a Bolívia seguira por outros senderos. 

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Grupo Gente da Terra - uma entrevista

A cultura viva da nossa cidade: Meiembipe (nome original), Desterro (nome dado pelos imigrantes) e Florianópolis (vil nome dado para homenagear um carrasco). De qualquer forma todas essas três faces da cidade saltam nas canções do Grupo Gente da Terra. Um grupo que faz a gente se orgulhar...