terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Florianópolis não há mais

Por Glauco Marques

Floripa finalmente chegou onde o poder público, as grandes construtoras e a indústria do turismo local queriam: é a bola da vez. Isto significa, entre outras coisas, que entrou na rota da prostituição de alto padrão, com os playboys filhinhos de papai gastando até 10 mil reais por algumas horas nos paradores de Jurerê Internacional, cercados por piriguetes, doidas pra encontrar jogadores de futebol e atores da Globo.

Esta é uma das principais referências com a qual Floripa vai se consolidando como destino turístico em nível nacional. Parafraseando uma letra de música do Dazaranha que diz "este é o país da putaria", se poderia dizer "esta é a ilha da putaria". Nos últimos 20 anos ocorreram modificações em Florianópolis num ritmo vertiginoso. Os nativos já são minoria entre os habitantes do lugar. Mas a questão central é o fato de que a cidade está perdendo completamente sua identidade .

O modo de falar ilhéu, desde o pescador a galera do surf, vai mudando seu sotaque nas novas gerações. Falar com sotaque daqui é ridicularizado ou tolerado como algo apenas engraçado. O boi de mamão e outras manifestações culturais passam a ser "folklorizados". Ao circular em diversos locais da cidade, a sensação é de que não é Florianópolis. Ocorre uma pasteurização ou homogeinização cultural. As pessoas falam, se comportam e vão adquirindo hábitos que refletem o que a indústria do entretenimento veicula.

Um exemplo disto é uma novela na Globo ambientada no estado vizinho do RS com algumas referências a Florianópolis, onde o fato da trama se desenvolver em determinada cidade ou região serve apenas como paisagem, pois os atores falam e se movimentam como se estas cidades ou estados não tivessem peculiaridades culturais, modo de falar, hábitos, etc... A riqueza e diversidade cultural que caracteriza nosso país, com seus vários sotaques e hábitos, é descaracterizada intencionalmente e comemorada por autoridades e empresários de Florianópolis como símbolo de progresso e desenvolvimento.

A idéia de progresso que vai predominando é aquela que inventa coisas como o "Riozinho", um "point" a beira-mar e ao lado de um rio, rico em coliformes fecais, frequentado por "gente bonita e sarada", tendo como contrapartida a derrubada do Bar do Seu Chico, ponto de encontro dos moradores, de atividades festivas, políticas e culturais daqui. Pois agora.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Uma mulher valente

Conheci Justina na casa de uma amiga. Mulher como poucas. Faz o difícil trabalho de organizar as empregadas domésticas de Blumenau. Vale a pena ver o vídeo até o fim para ouvir da própria Justina toda a sua luta e a garra de defender os trabalhadores numa cidade bem conservadora. Sinto-me profundamente feliz de poder registrar os pensares de seres como a Justina. Gente que vale a pena.


sábado, 7 de janeiro de 2012

Um mico



Dia desses tive uma visita inesperada. Trabalhava, absorvida, quando alguma coisa bem peluda pulou na impressora que fica à minha direita, na mesa. Por um instante não liguei, pensei que pudesse ser um gato. Mas, depois, vi que não estava em casa e sim no segundo andar da UFSC. Não seria um gato. Então, saí da onda do trabalho e olhei. Ali estava, me olhando com olhos curiosos, um pequeno macaco. Não sei porque cargas d´água ele achou de entrar na minha janela. Nunca o havia visto.

Ficamos assim, nos mirando. Eu com medo de assustá-lo, ele talvez com o mesmo sentimento. Talvez por isso tenha permanecido parado, observando qual seria a daquela humana. Comecei a falar com ele em língua de mico, e ele se agitou. Quis tocá-lo, ele reagiu, indignado. Então deixei que ficasse à vontade no beiral da janela. Foi um momento mágico, de deliciosa companhia. Depois de se deixar ficar e algumas macaquices, ele deu um salto para o abismo. Caiu tranquilo na ramagem da árvore e sumiu por entre os galhos.

Na tarde quente desse janeiro doido eu fiquei numa alegria só. Quando toda a UFSC silenciava de seu fazer frenético, eu recebera aquela visita insólita. Só podia ser alguma coisa mágica. Esses são aqueles momentos impagáveis.


sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

O assassino de Victor Jara

No Chile, esse mesmo país cujo governo está propondo retirar dos livros de história a palavra ditadura, há uma gente que não esquece o que aconteceu nos tristes anos de Pinochet. Eles descobrem os assassinos e os torturadores e vão até suas casas ou trabalho denunciar aos vizinhos e colegas as ações praticadas. Esse movimento de gente e denúncia é chamado de 'funa" e está eivado de gente jovem, o que mostra a força de um povo que não aceita que se coloque por baixo do tapete a história de horror que o país viveu. No vídeo abaixo vocês podem ver uma dessas funas dentro do Ministério do Trabalho chileno, onde trabalhava tranquilamente Edwin Dimter Bianchi, apelidado de "o príncipe", o homem que torturou e assassinou o grande cantautor Victor Jara. A morte do artista ocorreu em 15 de setembro de 1973. Segundo os documentos ele foi alvejado com 44 tiros e suas mãos foram decepadas.

Para a barbárie e para os assassinos nunca chegará o esquecimento. Victor Jara, presente!


quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

De Joanesburgo.. a vida popular...

Pata Pata é uma canção da bela Miriam Makeba, cantora, compositora e ativista sul-africana contra o apartheid que, mais tarde acabou ministra de Nelson Mandela. Nesse vídeo ela apresenta a música que é uma tradição em Joanesburgo e que virou uma febre no final dos anos 60. A pata pata é dançada pelas gentes nos caminhos dessa parte da Àfrica. Pura beleza...

Esquadrões da morte: a escola francesa


No documentário produzido por Marie-Monique Robin está explícito como eram as torturas praticadas contra os lutadores latino-americanos durante as ditaduras. No vídeo, militares franceses, estadunidenses e latino-americanos confirmam o uso das técnicas inventadas na Argélia, para dar combate ao “comunismo”. Sem qualquer prurido eles contam como era a escola do extermínio.


Encontrando Cruz e Sousa



























Andando pela cidade no final do ano, assim, distraída, como se fora turista, encontrei, no meio da praça algo que nunca havia reparado. A estátua de Cruz e Sousa. Nosso grande poeta simbolista, que tanta beleza criou.

Negro, pagou o preço de viver numa sociedade racista. Filho de negros alforriados ele recebeu educação formal, como se fosse um filho daquele que era seu antigo "dono". Mesmo assim, apesar de culto, foi recusado para o cargo de promotor na cidade de Laguna, pelo simples fato de ser negro. Lutador, ele não se entregou, atuou em jornais em Santa Catarina, escreveu, combateu o racismo, o preconceito. Viveu intensamente, amou loucamente, sofreu desesperadamente. Viveu no Rio de Janeiro onde trabalhou na Estrada de Ferro.


Enquanto penava por preconceito e também por amor, escreveu seus livros, obras de rara beleza.Amava por demais sua sensível Gavita, que enlouqueceu por ver seus filhos morrerem de tuberculose. Depois da morte dela, também Cruz e Sousa morreu um pouco e, lentamente, foi vencido pela doença, a mesma que matou seus filhos. Definhou num lugarejo do interior de Minas Gerais, para onde tinha ido se tratar. Morto, foi transportado num vagão de cavalos para o Rio de Janeiro. Um triste fim para aquele que, mais tarde, veio a ser considerado o maior poeta simbolista do mundo.Ao vê-lo assim, no meio da praça, me enchi de ternura. Porque é ele quem me ensina todos os dias que é preciso ter ódio, ódio são, contra os vilões do amor.

Seu corpo, casca física, pode ter sido profanado com o descaso e o trato indigno. Mas, sua poesia, essência dessa vida bela, segue viva, pulsante, nos empurrando para frente. Abraçada a ele, no meio da praça cinzenta pela chuva, eu agradeci. Valeu poeta, tu vives, abençoado cavador de infinitos!!!


Cavador de Infinitos

Com a lâmpada do Sonho desce aflito
e sobe aos mundos mais imponderáveis,
vai abafando as queixas implacáveis,
da alma o profundo e soluçado grito.

Ânsias, Desejos, tudo a fogo escrito

sente, em redor, nos astros inefáveis.
Cava nas fundas eras insondáveis
o cavador do trágico Infinito.

E quanto mais pelo Infinito cava
mais o Infinito se transforma em lava
e o cavador se perde nas distâncias...

Alto levanta a lâmpada do Sonho,
e com seu vulto pálido e tristonho
cava os abismos das eternas ânsias!