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| Adelmo Genro Filho, criador da teoria marxista de jornalismo |
Outro dia um amigo me disse categoricamente: este jornalismo que tu faz não existe mais, não tem mais espaço para ele no mundo. Fiquei a matutar. E parei por alguns dias a observar a realidade da comunicação no Brasil.
Já faz algum tempo que a estrutura da comunicação mudou. Os jornais vão desaparecendo, a vida se faz nas redes sociais. Empresas, sindicatos, entidades não querem mais contratar jornalistas, preferem pessoas capacitadas para gerir as redes sociais. O negócio é lacrar no Instagram mesmo que, muitas vezes, a informação fique em segundo plano. E esta lógica tomou um rumo tão hegemônico que agora, em seis de janeiro, o governo sancionou a Lei nº 15.325, chamada de “lei dos multimídias”. A nova lei regulamente uma profissão nova que engloba todos aqueles que trabalham com mídias digitais, incluindo os tais “influenciadores”.
A nova lei está sendo questionada por radialistas e jornalistas. As entidades sindicais ligadas a esses profissionais alegam que o reconhecimento do “multimídia” pode gerar sobreposição de atribuições e fragilizar a regulamentação do jornalismo e do radialista, uma vez que estas categorias, que têm anos de luta, já conquistaram direitos importantes bem como um piso salarial. O fato concreto é que profissionais multimídia já atuam no mercado há anos e como já disse, vêm ganhando cada vez mais espaço no mercado de trabalho. É bem mais barato contratar um produtor de conteúdo do que um jornalista, por exemplo. Para as empresas é bem melhor. Para os trabalhadores não tanto, pois além de disputar espaço com outras profissões já regulamentadas, acabam sempre sendo arrochados no quesito salário.
Com essa mudança o que se observa é que realmente parece não haver mais espaço para o jornalista. Os que tentam sobreviver no mundo “influencer” acabam virando comentarista de notícias. Na nova geração de jornalistas, sem espaço de trabalho formal, a saída acaba sendo essa: criar um canal no Youtube ou no Instagram e ali fazer comentários. Mas a concorrência com os influenciadores é grande. Ainda há alguns jornalistas que tentam oferecer notícias e reportagens bem feitas. Mas, no geral são profissionais mais velhos e com estrutura para sustentar uma boa apuração dos fatos. A maioria baseia-se apenas na opinião ou na informação colhida de maneira mais superficial.
É um jeito novo na forma, mas não no conteúdo. Antes das redes também tínhamos muitos jornalistas a escrever notícias superficiais, baseadas em achismos ou sustentadas em uma única fonte – no geral oficial. O jornalismo chamado “manual de geladeira”, sem interpretação ou análise, era maioria nos meios comerciais. Então, olhando bem, não há grandes novidades no campo.
A novidade, é claro, está na entrada deste novo profissional, o multimídia, na seara da do jornalismo. Sendo assim, que fazer? Agora estamos no tempo do protesto. Jornalistas e radialistas apontam os perigos da lei no aprofundamento da precarização de todos os profissionais. Mas, talvez, seja hora de pensar no ataque. Um sindicato dos trabalhadores da comunicação, quem sabe, que pudesse juntar a todos para garantir mais direitos e vantagens. Algo a se pensar.
Já no que diz respeito ao jornalismo, insisto em discordar do meu amigo. O jornalismo que eu faço - e muitos outros que conheço – existe sim. Existe e existirá. Porque o jornalismo é cada dia mais necessário. Neste universo de “influencers” que muitas vezes, a exemplo dos antigos grandes jornalões, representam os interesses da classe dominante e do capital, é preciso que emerja o jornalismo, aquele do qual fala Adelmo Genro Filho. O jornalismo que é necessidade social, que aponta a totalidade dos fatos, que leva o leitor à reflexão crítica sobre a realidade, que apresenta a diversidade dos pontos e vista, que interpreta e descreve. Como antes lutávamos contra o jornalismo superficial e alienador nos grandes meios, agora há que lutar contra a falta de jornalismo nos grandes meios. A batalha é a mesma, as armas mudam um pouquinho.
Antes como agora, o desafio é unificar os trabalhadores e travar a batalha contra o inimigo real: o sistema capitalista, que tudo engole, que superexplora, que aliena e domestica. Nunca foi fácil fazer esse debate. Nem agora será. Mas, há que seguir resistindo e fazendo jornalismo de qualidade.

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