quinta-feira, 17 de junho de 2021

Da memória

DA MEMÓRIA – Hoje, tentando fazer o pai permanecer dentro de casa, por conta do frio, tivemos um daqueles momentos de boniteza. Ele falando palavras ininteligíveis sobre algo lá fora no portão. Aí eu fui tentar abraça-lo, dizendo “meu magrinho... meu querido paizinho”.

E ele, fazendo cara de brabo: 

- Mas, por acaso eu sou teu pai?

- Pois o teu nome não é José Nelson Tavares?

- Sim.

- E o meu é Elaine Tavares, então?

Aí ele, reconhecendo o Tavares,  deu um grande sorriso e abriu os braços todo alegre, me envolvendo em um longo e apertado abraço...

- Maaaaaas, que coisa querida, dizia. 

E os seus olhos era puro brilho...

segunda-feira, 14 de junho de 2021

Do cerrado ao mar


Chapada Diamantina, um estupor de beleza

Era janeiro de 1994 e eu dava início a mais uma das minhas viagens, do jeito como gosto, minha mochila e eu.  Decidi sair de João Pinheiro, de ônibus, é claro, onde moravam meus pais, no cerrado de Minas Gerais, indo até Maceió, onde estava vivendo minha amiga/irmã Rosemeri Laurindo. Uma odisseia pelas estradas esburacadas do Brasil real. O roteiro era doido. Saia de João Pinheiro, no noroeste de Minas, com primeira parada em Brasília. Nada planejado, pois naqueles dias não tinha internet assim, à mão, e viajar era expor-se ao acaso. Hoje, mexendo em velhos cadernos, achei esse texto, que fala um pouco do caminho até Maceió. Como acontece nas viagens a narração do caminho é sempre mais bacana que o destino final. É uma narrativa bruta, tal qual está no caderno, impressões de um pedaço do Brasil de 27 anos atrás. 

“Minas ainda há sim, e bela, apesar da pobreza que se vislumbra nos vales por onde passa o ônibus no rumo da capital do país. No norte do estado o cerrado toma conta da paisagem, essa vegetação rasteira com árvores anãs, retorcidas. Firmando o olho na imensidão a gente tem a impressão de que a qualquer momento pode surgir um bandoleiro, desses dos filmes de TV, um Corisco talvez, com o cabelo claro brilhando ao sol. 

À medida que vamos percorrendo o caminho, vez ou outra, a paisagem muda. É que no meio do cerrado alguns gaúchos se acoitaram e abriram terras, botando no chão as árvores anãs, transformando a típica paisagem mineira em lavoura de soja. Dá uma profunda tristeza. Ao longo do caminho a gente ainda vê as montanhas de Minas. Ora qual, não são montanhas, são pequenos montes que até parecem seios de virgens, duros e pontudos erguidos para o céu. Seios de alguma mulher verde, porque cobertos de mato. Bonito demais. 

Mais um pouco e entramos em Goiás. Lugar quente, sufocante. O ar parece rarear e dói o nariz. Quanto mais Minas fica para trás, menos verde fica o espaço. Goiás tem um verde pálido e um povo escuro que espia das portas das casas feitas de barro e cobertas de capim. Crianças ranhentas acenam e oferecem carambolas a preço bom. Compro algumas. No caminho há vários pontos de vacinação contra a febre-amarela. “Têm tido muitos casos”, diz a enfermeira. Sem pestanejar desço e tomo a injeção. Sou a única. O resto do povo no ônibus ri de mim. Tudo bem. Acho que é uma boa oportunidade. Ficarei por 10 anos imunizada. Nunca vou perder para o mosquito.

Goiás também tem campos lavrados. Coisa dos gaúchos de novo. Por vezes, no meio das lavouras, vê-se algum homem à cavalo, com chapéu de beijar santo em parede, típico do Rio Grande. Nas cidadezinhas que se sucedem, o que mais se vê nos muros brancos é a inscrição: CAIADO 94. O latifundiário da UDR está investindo seus bois para entrar na política. Propaganda ostensiva. “O que ele fez de bom para Goiás?”, pergunto, na singela parada do ônibus. “Seu Caiado é bom”, diz um velho sem dentes, sem responder a pergunta. 

O ônibus agora se aproxima de Brasília e as grandes mansões no meio da quentura do dia parecem brincar com nossa tristeza. Nas cidades satélites se aglomera o povo que gera a riqueza e no meio do caminho, mais próximo do plano piloto saltam as casas imensas, com as enormes piscinas brilhando de tão azuis. Ninguém está se banhando nelas, estão ali, inúteis, ostentando riqueza. O ar é seco, as pessoas se escondem, muitos carros. Em Brasília não há pessoas. Vez em quando vemos alguns mendigos, gente sem casa, miseráveis quebrando a rotina dos imensos jardins. O poder tendo de lidar com a pobreza que ele mesmo gera. Embaixo das pontes tem gente dormindo, enrolada em cobertores apesar do calor. Vida mesmo só na rodoviária, perto do Centro Comercial. Ali, o povo vê vitrines, faz compras, toma sorvete. Caras nordestinas misturadas com gente do sul. Roupas finas, sorrisos tristes, gente triste. Só as crianças parecem rir com gosto. 

Depois de andar algumas horas pela rodoviária, enquanto espero o ônibus, finalmente sigo para a Bahia num carro da Viação Paraíso. O nome é bom, o carro nem tanto. Ele fará 24 horas até Salvador e uma boa parte do caminho é de estrada de chão. Os ônibus que saem de Brasília para o nordeste são indescritíveis. Vão sempre lotados, cheios até a boca e o povo leva tudo o que é possível imaginar. São caixas e mais caixas por pessoa. Tem até quem leve pneus e pedaços de carros inteiros. Levam bicicletas e muitos, mas muitos mesmo, aparelhos de som. E há quem leve secadores de prato, desses de acrílico, tentando ajeitar na parte de cima. As cenas são incríveis. Centenas de filmes não seriam suficientes para captar o clima. Um homem sentado sobre dois pneus de trator dá o tom do surreal. E os pneus, depois, são enfiados no bagageiro. E lá vamos nós rumo a Salvador.

A primeira parada é em Formosa, Goiás. Um lugarejo de sonho. Em vez de restaurante, churrasquinhos de gato nos recepcionam. O povo está sentado na frente das casas, as mulheres em roda, os homens bebendo uma cachacinha. Crianças e cachorros brincam. As casinhas são simples e há toalhinhas de renda sobre as mesas. O céu é claro e a lua enorme. 

Seguimos pela Estrada Federal 242. Um mar de buracos. No meio da noite clara, o sobressalto. Estamos no sertão, já é Bahia. Lá fora a paisagem é de desolação. Chega a dar medo tanto vazio, e aperta um oceânico sentido de solidão diante de tamanha quantidade de terra seca se estendendo além do horizonte. Não há como descrever a beleza da noite naquela paisagem. A lua clara, contrastando com o vazio da terra rachada. Uma ou outra arvorezinha aparece, tentando se erguer do chão. Dá vontade de chorar, confrontada com a maravilha desse país tão grande e belo. Pena mesmo é a falta de cuidado. A estrada é tão esburacada que dá até medo de o ônibus virar. 

Paramos em Barreiros, Bahia. Cidadezinha pequena e de grande pobreza. Na rodoviária várias pessoas dormem na rua. A noite é fria e eles se encostam um no outro para se esquentar. A cena é triste. Os corpos no relento, cobertos com trapos. Não parecem forasteiros. São gente da cidade mesmo que não têm casa para morar. Nessa região do norte da Bahia é grande o números de ocupações de terra e o MST é forte ali, vê-se bandeiras aqui e ali. A maioria das propriedades na beira da estrada é bem pequena, com casinhas feitas de barro e palha. Um lugar desolado que poderia brotar se houvesse política pública de irrigação. Um poço em cada casa e a vida estaria garantida em abundância. É tão pouco e ainda assim, não vem. Sem a água a terra é dura, o gado é magro e as cabras são fraquinhas. 

De repente, no meio da terra rachada do sertão surge um milagre: o rio São Francisco. Imenso, ele corta o agreste e espalha o verde escuro por todo o lado, Altaneira, ao lado dele, a cidade de Ibotirama. Uma ponte enorme liga a margem seca à outra margem turbulenta de vida. Não há ruas calçadas, só areia, que se enfia pelos pés da gente. No posto rodoviário estão quatro táxis, todos modelo Corcel, daqueles antigos: um verde, um azul  e dois vermelhos. Mulheres montam banquinhas próximo aos ônibus e vendem café com rosca, bolos, biscoitos, laranjas e água de coco. O calor é forte e o povo parece alegre. Um velhinho com sandálias de couro cru e bastão de santo pede esmolas, ou come os cocos deixados pelo povo do ônibus, que sai na corrida.

Mais um pouco e surge a imagem da magnificência: a chapada Diamantina, as montanhas da Bahia. Montes de pedra, lindos na sua falsa desolação. Encostas imensas, canions, é extraordinário. Com jeito, fixando o olho, eles parecem tomar formas humanas, um rosto, um corpo, uma expressão. É tão bonito que o olho não cansa de olhar. Bem no pé de uma das montanhas fulgura uma casinha, pintada de verde-cheguei. A composição da cena é inenarrável. 

Mais tarde passamos por outra cena considerada impossível: um rio totalmente seco. Está ali a ponte, o leito do rio, mas não qualquer vestígio de água. Curiosamente a cidade ao lado chama-se Beira-Rio. Há três anos que não chove uma gota ali. Bem mais na frente, estrada acima, surge um pequeno olho dágua, quase um poço. Água suja e pouca. Mesmo assim, as mulheres estão ali, com suas trouxas, lavando roupa. O menino baiano que viaja ao meu lado, diz desolado: “Essa é a parte pobre da Bahia, lá pro sul do estado é que é bonito”. Eu olho pra ele estarrecida: “mas tu não vê beleza?” Ele balança a cabeça, negando. A partir daí, juntos, vamos descortinando e recolhendo nas retinas as cenas dessa Bahia empobrecida. As árvores anãs, tão fortes, o cactos de um verde brilhante na paisagem seca, o sorriso das mulheres que vendem doces, o ar dolente dos homens que se debruçam nos balcões. Os montes da Bahia, as pedras, as casinhas, as crianças, os cachorros. E então? Torno a perguntar. Ele ri e diz: É, tem muita boniteza sim. 

A Chapada Diamantina então. O que é aquilo? Parece que as pedras foram colocadas uma a uma sobre o monte. É bonito demais. Pena eu não ter uma máquina fotográfica porque, de verdade, não há palavras capazes de descrever. Se nada mais fosse bonito naquela viagem, a visão da chapada bastaria. Uma das coisas mais linda que já vi na vida. Não dá vontade de seguir. Só de ficar ali bebendo daquela beleza sob o sol. Imagino o que seria um pôr-do-sol naquele lugar. 

Chegamos a Itaberaba, já no meio do estado, com ares de cidade média. Tem igreja, tem praça e ruas calçadas. Depois que passamos a chapada o cenário já vai mudando mesmo. Têm mais açudes, mais rios com água, lugares aparentemente aprazíveis. Itaberaba ostenta um alegre ar de festa, bem comum nas cidades baianas. Gente vendendo frutas pelas calçadas, bugigangas, e um festival de tipos humanos circulando na rodoviária, que é bonita e bem servida. 

Toca rodar mais um pouco até Feira de Santana. “Ebaaa... vamos chegar na civilização”, dizem, dentro do ônibus. É a metrópole baiana. Cidade grande, com todos os confortos. Ali é meu ponto final, onde vou pegar um ônibus que vai para Maceió. “Cuidado aí, menina”, diz uma senhora que estava sentada do outro lado do corredor, “tá cheio de avião”. Agradeci. É que dali não tinha carro para Maceió. Haveria que ir até um posto fora da cidade. 

Pois nem bem desço do ônibus um velho tenta me passar a perna, querendo que eu embarque num táxi para me levar ao ponto do ônibus que fica fora da cidade uns 30 quilômetros. Sinto que é fria e fico para sondar o local e saber direitinho como fazer. Encontro mais três pessoas querendo ir para Maceió. Juntos batalhamos e enfrentamos os 30 quilômetros em uma carona dividida, o que nos saiu bem mais barato. Três caras bem queridos: um latoeiro, um camelô e um montador de caldeira. Saltamos no posto de gasolina, onde passaria o tal ônibus. Esperamos um pouco e lá veio ele. Ufa! Vamos conseguir ir direto para Maceió, sem precisar ir até Salvador. 

Foi uma odisseia naquele final de madrugada, mas às cinco horas da manhã já estávamos na capital alagoana. Despedimo-nos com beijos estalados e eu fui encontrar minha amiga Rose. Chegara e tinha cruzado a Bahia em mais uma das minhas aventuras solitárias”. 


Coliseu Tropical


Quem escreve sabe: narrar é sangrar. Ainda mais nesses tempos de medo e solidão. É impossível não rasgar a carne da vida e deixar que as vísceras apareçam, afinal, é nelas que mora o futuro. E esse é o caminho percorrido pelo escritor blumenauense no seu livro Coliseu Tropical. Já no primeiro texto colocamos o pé na realidade sem retoques, a morte do pobre, a dor, o abandono, as pinceladas de um cenário que beira o mágico, ainda que dolorosamente real. Os textos são curtos, incisivos, diretos. A barbárie de um tempo duro que só parece tocar o outro quando apresentada como ficção. 

Viegas apresenta o Brasil, esse, que vimos nas páginas policiais como se fosse culpa das vítimas, a partir de olhos amantes, comprometido, abigarrado. Um país atravessado pela dependência e o subdesenvolvimento, a outra cara da riqueza dos países de cima. Viegas apresenta Desterro, essa terra que escolheu para viver e evoca os ventos que sopram memórias de baleias e de canoas de pau. Esgrime as palavras como a bailarina no trapézio. Traz em cada frase a delicadeza, a força, o mais profundo amor pela vida.

O livro anatomiza o corpo dilacerado da vida brasileira, mas não é um livro triste. Sim, às vezes faz chorar, mas é por puro assombramento, por tamanha grandeza, por tanta riqueza na construção de cada parágrafo. A palavra constituindo o nosso mundo que é feio sim, mas também cheio de belezas. Viegas não doura a pílula, extravasa angústias e sopra esperanças: “apesar desses tempos tristes, meus olhos acreditam no horizonte. A história ensina que os tempos serão outros. A história ensina que o mar já desaguou em abismos, antes de lamber nossas praias”. Ah, que vontade de seguir! 

No Coliseu do Viegas se digladiam as letras, os contos, aforismas, as vidas, os sonhos, e o eterno desejo humano de ser feliz. Mas, nessa luta titânica ninguém morre. Não. O que essas lutas nos cobram é coragem, como diz o sertanejo de Guimarães. E a gente chega ao fim desse livro intenso com o peito estufado de tanta belezura.  

Vale a pena percorrer esse caminho do coliseu tropical, acompanhando o traçado de Viegas: “Tu eras bonito. Tinhas o sonho balançando nos olhos como um barco de pesca em alto mar”. 

Assim somos. Bonitos e carregados desses sonhos balanceiros. Vamos vencer!

***

Obrigada por esse livro Viegas Fernandes da Costa. Foi lido bem devagar, como quem sorve um chimarrão amigo. Me fez rir, me fez chorar e me deu muita gana. 

Coliseu Tropical também está a venda na Livraria Livros & Livros (localizada no Centro de Eventos da UFSC).

quinta-feira, 10 de junho de 2021

Da confiança do pai



 Uma das coisas que mais me impacta nesse cuidado com o meu pai, que tem Alzheimer, é a completa e total confiança que ele tem nesse cuidado. Sei que não racional, mas ainda assim é definitivamente incrível e eu não canso de me emocionar. E me emociono mesmo por isso, porque não tem razão ali, embora tenha sentido. Uma pessoa mal intencionada pode fazer muito mal a alguém assim, porque são inocentes demais. Um exemplo disso é a parada dos remédios. 

O pai já não consegue mais entender o lance de engolir. Eu dou o remédio e digo: engole, pai. Ele faz um monte de firula com o remédio na boca, mas não engole. É engraçado até. Às vezes eu pensava que ele tinha engolido, mas passado um tempinho eu só ouvia o barulhinho dele cuspindo fora o comprimido. Uma odisseia. Então a gente tem de trabalhar com algumas artimanhas. Eu faço é moer o remédio e camuflo em pão, fruta, ou bananinha amassada, ou em mingau, pudim. E só chegar com a colherinha perto da boca e ele já abre, abocanhando, sem questionar. É uma ternura. E é incrível que ele não desconfie mesmo que ali tem um remédio. Come bem refestelado. 

Para minha sorte ele só toma um remédio, que é o da pressão, um de manhã e outro à noite. Graças aos deuses não tem qualquer outro problema de saúde, então, não sofro muito com isso. Mas, sei de velhinhos que chegam a tomar 15 comprimidos. Valamideuzi. Seria o caos. Da vez que teve uma infecção urinária eu sofri pra dar o antibiótico porque ele, doente, é outra pessoa. Também precisei de algum engenho. Muuuuuito engenho.

Mas, o fato é que, na confiança, ele vai onde eu quiser. Vamos ao posto de saúde todo mês tomar a vitamina B, e ele vai bem serelepe. Eu explico bem que vai tomar uma injeção, que vai doer um pouquinho, mas nem precisaria. Ele simplesmente pega na minha mão e vai. Olha pra mim, sorri, e me segue no seu passinho lento.

Penso que nunca em minha vida tive ou terei alguém que em mim confie tão cegamente. Isso é grandioso e assustador, porque significa que estamos tomando as decisões e qualquer decisão errada pode trazer consequências danosas. Tenho procurado fazer só coisas boas pra ele, espero poder ser merecedora dessa confiança abissal. 

É um grande aprendizado essa estrada que estamos cumprindo juntos...



quarta-feira, 2 de junho de 2021

Trabalhadores do HU perdem direito de almoço e janta

 





Fotos: Rubens Lopes

 

Cobrança das refeições começou nesse primeiro de junho, Sintufsc realizou ato de protesto

Quando o governo Lula propôs a ideia de uma empresa privada gerir os hospitais universitários os trabalhadores se levantaram. Sabiam que a conversinha de que a empresa iria melhorar os serviços prestados era balela, afinal, basta ter um único neurônio para compreender que hospital não é para dar lucro, logo, não teria sentido ser administrado como empresa. Na época havia já um intenso debate sobre o papel das fundações dentro das IFES e corriam muitas denúncias de corrupção. O governo, então, acreditou que criando uma fundação pública de caráter privado evitaria problemas. Houve uma batalha gigante contra essa proposta, mas, mesmo assim, em 2011 Lula e Haddad assinaram a medida provisória que criava a Ebserh. Apontavam que cada universidade deveria decidir se queria ou não aderir à nova fundação, mas ao mesmo tempo também avisavam que quem não aderisse poderia ficar sem recursos. A boa e velha chantagem.

Na UFSC, o debate correu por anos, antes e depois da criação da Ebserh. Foram pelo menos sete anos de intensos debates, seminários, encontros, mostrando o equívoco que seria aderir à fundação, pois não apenas criariam portas privadas nos HUS como dividiriam a categoria entre trabalhadores públicos e privados, gerando perda de direitos. A luta dos trabalhadores e dos estudantes conseguiu adiar por algum tempo essa decisão. Em 2015, na gestão da reitora Roselane Neckel, foi realizado um plebiscito para que a comunidade universitária decidisse se queria ou não aderir. O plebiscito, realizado em abril de 2015, deu 69,8% para o NÃO. Mesmo assim a reitora insistia em propor a adesão. Várias reuniões do Conselho Universitário foram realizadas, com bastante confusão, pois os trabalhadores e estudantes fazendo pressão. 

E foi numa melancólica tarde do primeiro dia de dezembro de 2015 que a reitora levou o CUN para dentro da Polícia Militar e, numa sessão que durou 30 minutos, conseguiu aprovar a adesão. Naquele dia os TAEs se recusaram a entrar e fizeram protesto em frente à PM. Não participariam de uma vilania tão grande. Por fim, a votação do CUN dentro da PM teve 35 votos a favor e dois contra. Isso significa que apenas 37 dos 61 conselheiros se prestaram a esse triste papel. Uma vergonha para a UFSC e para o HU. 

Desde aí tudo aquilo que se dizia sobre o que poderia causar uma fundação administrando o HU aconteceu. O lucro passou a ser a baliza que mede a atenção e a vida laboral dos trabalhadores vem se deteriorando, com claras divisões entre os que pertencem ao quadro da UFSC e os que são contratados pela fundação.

A última agora da Ebserh foi deixar de oferecer gratuitamente o almoço e a janta aos trabalhadores, alimentação que vinha sendo oferecida há mais de 30 anos. Uma decisão tomada pela direção do HU com o aval da administração da UFSC. E, isso acontece justamente agora quando esses trabalhadores vivem seu pior momento, enfrentando com valentia uma pandemia. Na mídia são apontados como heróis, mas na prática, são acossados com perdas de direitos. O argumento é de que essa cobrança já estava apontada no contrato da Ebersh e que só agora eles conseguiram colocar em prática. Ou seja, seis anos depois e em plena pandemia, quando muita gente dobra turno e se sacrifica para atender os pacientes. Há rumores entre os trabalhadores que também o estacionamento passará a ser cobrado, mesmo de quem trabalha dentro do HU. A lógica privada crescendo e tomando forma.

É importante lembrar que a cozinha do HU sempre foi tocada pelos trabalhadores do quadro da UFSC , muitos já em processo de aposentadoria e sem perspectiva de contratação. Muito provavelmente a fundação quer privatizar a cozinha, daí a cobrança de 13 reais pelo almoço e 9,50 pela janta. 

O Sintufsc realizou ontem um ato dentro do HU, distribuindo alimentação aos trabalhadores e chamando para a luta. O caso foi denunciado na última audiência pública realizada com a administração central, com a presença do reitor Ubaldo Balthazar, e o sindicato espera que haja uma resposta urgente por parte da reitoria contra mais esse ataque aos trabalhadores do HU. Não dá para se vangloriar de ter um hospital de qualidade enquanto explora cada vez mais os trabalhadores.  Com a palavra, o reitor. 


terça-feira, 1 de junho de 2021

O Steve Biko



Já vai fazer uns 15 anos que essa criatura vive comigo. Chegou aqui enrolado na minha blusa. Eu o encontrei no caminho da Rádio Campeche, quando voltava pra casa, perdido, abandonado, cheio de carrapatos. Era um naquinho, pequeno e magricela. Ele olhou pra mim na entrada de um atalho e eu olhei pra ele. Meu coração condoeu, mas segui andando. Então, olhei pra trás e ele me olhava ainda como a dizer: vais mesmo me deixar aqui? Voltei, enrolei-o na blusa e vim correndo. Tinha tanto carrapato que chegou a ficar com um problema neurológico. Mas, fora isso, nunca ficou doente. Eu já tinha um gato preto ao qual dei o nome Zumbi, então coloquei nele o nome do herói negro sul-africano, Steve Biko. Ele sempre foi tranquilo, mas fujão. Mesmo com o portão fechado ele sempre pulou o muro para seus passeios e escapadas. 

Pois agora, justo num momento em que estou dedicada aos cuidados com o meu pai, que tem demência, o Steve começou também a dar sinais de velhice e o primeiro deles é a rabugice. Desde a manhã quer sentar na mesma poltrona do pai e se eu tiro, bah, é um deus nos acuda. Ele chora ou morde. E assim, durante todo o dia tenho que administrar a refrega entre ele  e o pai. Ele se aboleta no sofá e o pai já vem pra tirar. Aí ele rosna, ameaça e o pai fica batendo nele com a almofada. Lá tenho eu que correr e mediar o confronto, pois ele pode morder. Um pouco o pai fica sentado, um pouco o Steve. Mas é o dia inteiro nisso. Se o pai vai para o alpendre é a mesma coisa, ele vai atrás e quer sentar na cadeira do pai. Novas confusões. 

Como ele já está velho não consegue mais pular o muro então fica chorando para que eu abra o portão. Eu não abro e é aquela agonia. Se eu abro ele sai, anda pra lá e pra cá e logo volta, chorando pra entrar. Isso acontece umas mil vezes por dia. Haja paciência. O pai de um lado e o Steve de outro, os dois querendo sair. Valamideuzi.

Quando é de noite eu ponho vídeos de viagens para o pai ver e o Steve finalmente se aquieta. Aí é um em cada poltrona. O pai vendo a TV e o Steve dormindo. Vez ou outra, se dá alguma balbúrdia lá fora, ele se levanta e chora pra sair da casa. Lá vou eu abrir a porta, para dali a dois minutos abrir de novo pra ele entrar. Nesse diapasão meus dois velhinhos vão ocupando meu dia até lá pelas nove da noite, quando cada um vai para sua cama.



terça-feira, 25 de maio de 2021

O Brasil e os dias



É outono no Brasil. Os dias de maio são luminosos. Mas, para a maior parte da população os tempos são sombrios. A pandemia, que chegou em março de 2020, segue seu caminho de morte, sem parada, e sem que o governo federal invista em políticas de prevenção. Avançamos para 500 mil mortes em ritmo acelerado, e não há previsão de alteração no quadro de perdas e dor. Pelo contrário. O presidente da nação segue apostando alto no contágio de rebanho e faz ele mesmo a sua parte, circulando, aglomerando, sem máscaras ou cuidados. E, atrás dele, segue o bonde da negação e da ignorância.

O Congresso Nacional, depois de mais de um ano de omissão, decidiu instalar uma CPI para investigar se há ou não responsabilidade do governo na disseminação acelerada da doença. Passaram por lá os três últimos ministros da sáude, todos eles revelando o que o país inteiro já sabia. O governo não se preocupou em proteger a população, o governo incentivou o não uso de máscaras, incentivou o tratamento precoce com remédios inúteis para a Covid, não atuou para resolver a falta de oxigênio em Manaus – quando morreram centenas de pessoa, sem ar - e não está preocupado com a vacinação. Nenhuma novidade, portanto. 

Mas, apesar de tudo isso, mesmo com os depoimentos e as provas, nada acontece e ao que parece nada acontecerá. Isso porque a escolha governamental tem sido muito boa tanto para os cofres públicos quanto para os negócios da pequena fatia dos brasileiros que conforma a elite local. Os idosos – considerados como peso para a previdência – são os que mais morreram, somando mais de 70% das mortes, e esse dado foi comemorado pela Superintendência de Seguros Privados, pois diminuiria o chamado rombo das contas da previdência. Segundo a Fundação Getúlio Vargas, a morte dos velhos retirou cerca de cinco bilhões de reais da renda potencial das famílias, muitas delas tendo nos aposentados a única fonte de renda. Isso significa um número considerável de gente sendo jogada para a miséria. 

Para os empresários esses números são considerados bons também porque aumenta o exército de reserva e eles podem barganhar ainda mais os salários, exigindo mais dos seus trabalhadores e pagando menos. É um momento propício para aumentar os lucros.

Não bastasse isso, enquanto o país se distrai com os depoimentos da CPI gerando memes nas redes sociais, a casa legislativa segue arrochando ainda mais a vida dos brasileiros, seja votando leis que tiram cada vez mais direitos ou entregando a preço de banana o patrimônio nacional. A última agora foi a aprovação para a venda da Eletrobras, empresa brasileira de geração de energia elétrica. A historinha é a mesma de sempre: tem muita dívida, e empresa dá prejuízo, a conta da luz vai baixar. Ora, uma empresa estatal – a quinta maior do mundo - que cuida de um setor estratégico como o da energia não é uma empresa para dar lucro e sim para servir a nação. Qual empresa privada vai investir e adentrar no interior do país para atender as necessidades de pequenos consumidores? Nenhuma. 

Outro golpe que corre célere no congresso é a tal da reforma administrativa do ministro Guedes, que prevê acabar com o serviço público no país. É um desmonte total do estado, cujas consequências não são divulgadas para a população visto que a mídia comercial é totalmente cúmplice do projeto ultraliberal do governo Bolsonaro. 

Não vou nem falar nos inúmeros casos de corrupção envolvendo a família do presidente que, apesar de todas as evidências e provas concretas, não comove o judiciário brasileiro, igualmente cúmplice dessa tragédia nacional que vivenciamos. E, se está tudo bem para a classe dominante, dane-se o populacho. Essa é a tônica. 

Já vamos entrar no sexto mês do segundo ano da pandemia e por aqui menos de 10% da população está vacinada. Não há indícios de que as coisas possam melhorar, bem como não há indícios de que haja uma reação massiva. Num país onde a Covid-19 só avança, o medo ainda é o nosso maior inimigo. Porque além de não haver vacinas, não há também qualquer garantia de que haverá hospitais, leitos de UTI ou oxigênio para os infectados. É o cenário perfeito para a classe dominante – que se vacina nos EUA – avançar sobre os direitos dos trabalhadores e saquear a nação. 

Nesses tristes dias, nem deus é por nós!