quinta-feira, 20 de maio de 2021

Um mercado em Beijin





Ali estávamos nós, eu e meu irmão, no hotel em Beijin, depois de chegar da grande muralha. As retinas ainda queimavam com a visão daquela grandiosidade, fruto de imensos sacrifícios humanos. Era janeiro de 2013 e fazia um frio de lascar. Ainda era o meio da tarde e via-se pouca gente na rua. E mesmo com os termômetros bem pra lá do zero, decidimos sair, batendo perna, afinal, uma cidade só se pode conhecer assim, vagando ao léu, indo onde os passos nos levam, sem rumo ou plano. É quando nos deparamos com a cidade invisível aos olhos comuns. A cidade real, que não se mostra nos roteiros turísticos. Beijin é imensa e quadrada, cheia de edifícios gigantes, cortada por parques que se mostram estranhamente  meio tímidos por conta da quase onipresente poluição. 

Naquela tarde, por algum motivo, aquela fumaça branca, tipo neblina, tinha amainado e as ruas se mostravam em suas cores sóbrias, claras. Já havíamos andado mais de 10 quadras, entrando nos mercados e nas inusitadas pequenas lojas que não ostentam vitrines. Não estávamos preparados para a visão do Pan Jia Yuan. Mas, ele nos chamava.

Numa das transversais da rua maior por onde andávamos vislumbramos uns portões. Eles destoavam do cenário cor de cimento. Entreolhamos-nos. Aquilo haveria de ser obra do Quilin, entidades mítica chinesa que andávamos buscando. Viramos à direita e entramos. Foi como adentrar o cenário daqueles filmes de época, de uma China antes da revolução. Ao contrário das ruas planificadas, ali vibrava a vida, a cor, as gentes trabalhadoras. Era o mercado Pan Jia Yuan.

Posso dizer que foi a coisa mais fascinante que vi em todo o roteiro que fizemos na China. Eu que sou amante da cidade das gentes, encontrara meu lugar. O mercado era um gigantesco espaço tomado pela genuína arte tradicional e popular chinesa, misturado a um animado e diversificado brique, no qual se vendiam desde bonecas quebradas até as mais finas joias.

O pavilhão, é claro, fica fora dos circuitos turísticos e passar pelos seus portões é mergulhar na China mais verdadeira. Na praça estão os vendedores avulsos, cada um com seu banquinho e  antiguidades de todos os tipos. Tranquilos e sorridentes eles nos convidavam para sentar e apreciar as coisas, com calma. Não importava que a língua verbal não fosse compreendida, o corpo falava e a gente ia se entendendo. Impossível descrever a beleza que explode ali. O mercado, na sua concepção mais antiga. O olho no olho, a conversa, o regateio, tudo na mais absoluta paz, numa algaravia suave, típica dos chineses.

Além dos espaços dos que vendiam a céu aberto, havia lojinhas que circundavam o grande pavilhão onde apareciam as pedras de jade em todas as suas conformações e os artistas se apresentavam, com seus trabalhos, sorridentes, ao observarem nosso olhar embevecido.  Éramos, naquele momento já de fim de tarde e frio cortante, os únicos ocidentais dentro daquele universo. E em cada um daqueles espacinhos nos deparávamos com o sorriso e a delicadeza. 

Em outras dezenas de boxes estavam os pintores da arte tradicional, feita com pincel típico e com nanquim. Verdadeiras obras de arte que em nada devem as que ficam no chique Espaço 798, antiga fábrica de componentes elétricos desenhada pelos alemães em 1950, que virou área da expressão da arte moderna da China. Só que ali, na Pan Jia Yuan, o desenho produzido eram a paisagens, as amendoeiras, o impressionismo e a memória de uma China camponesa e milenar. Pode-se ficar por horas nos corredores vendo as obras se constituírem na sua frente, metódica e tranquilamente, por experientes pintores, que trabalham lentamente, sem parecer notar os compradores. Também é de tirar o fôlego acompanhar a confecção das famosas sombras chinesas, incrível e delicado trabalho que testemunha a capacidade humana de produzir indizíveis e absolutamente delicadas belezas. Eu mesma não queria mais sair dali. 

Circulamos por cada cantinho da imensa praça, vez ou outra descansando ao sol, só olhando o vai-e-vem das pessoas que circulavam sob centenas de bandeirinhas coloridas. Não se vê nem a sofreguidão dos grandes mercados ocidentais nem a frieza dos xopins. Não há turistas, é um espaço tomado quase que exclusivamente por locais. Só o que se escuta é farfalhar dos casacos e a risada cristalina das mocinhas. É quase como um oásis no meio de Beijin. 

E, para coroar a sensação de que estávamos no paraíso, no meio da praça despontava uma árvore inacreditavelmente florida. Em pleno janeiro, no frio intenso, quando não havia sequer folhas nos arbustos, aquela árvore, no centro de Pan Jia Yuan, explodia em rosa claro. Seu caule estava protegido com cordas porque “as árvores se assustam com o frio”, conforme explicou, depois, uma senhora. E ela, a árvore, agradece àquele povo simples e criativo, assim, se abrindo em beleza. Ali, naquele inimaginável lugar, a epifania.

Então, de todas as maravilhas que vi em Beijin, na parte antiga e na nova, certamente o que nunca me sairá das retinas é aquela amendoeira, em flor, no meio daquele mercado colorido e cheio de gente sorridente, como que a desafiar o tempo. Ela mesma um milagre, tão maior do que o propalado desenvolvimento econômico que pretende levar a China ao paraíso. 

Aquele que consegue ver, não tem dúvidas. O paraíso já está ali. Entre aquelas senhorinhas, artistas e bandeirinhas, na adorável azáfama de comerciar sem pressa.

domingo, 16 de maio de 2021

A Palestina resiste




 Essas dolorosas imagens em preto e branco foram tiradas em 1948, quando quase um milhão de palestinos foram obrigados, pela força das armas, a abandonarem suas terras, suas casas, suas oliveiras. Amigos se separaram, famílias se destruíram, sonhos foram pisoteados. Esse momento de dor e desespero ficou conhecido como o Nakba – o dia da catástrofe. Quando a terra palestina foi tomada/invadida por Israel.

Esse êxodo aconteceu porque os Estados Unidos, a Europa e outros países do mundo, servis e vis, decidiram criar nas terras palestinas um estado artificial: Israel. Diziam que lá não havia povo, mas havia. Que era uma terra esquecida, não era. Ali viviam famílias que amavam, plantavam e tinham seus filhos. Famílias que cresciam desde a muitas gerações. E que, de uma hora para outra, foram arrancadas de casa. Suas moradas foram destruídas e os sionistas os obrigaram a marchar, abandonar tudo o que lhes era caro. Muitas dessas pessoas carregaram entre os seus pertences a chave de suas casas, uma casa para a qual nunca voltariam. Uma casa roubada, uma vida saqueada.

Os que conseguiram ficar em outros espaços do território foram tendo suas vidas roubadas pouco a pouco, num Nakba que não tem fim. A cada tanto, com armas e soldados da morte, os israelenses vão avançando sobre a vida dos palestinos e a tal ponto de os confinarem em imensos campos de concentração, como é a Faixa de Gaza, por exemplo. Esses palestinos vivem cercados por muros e não podem cruzar os caminhos sem passar por vexatórias e sistemáticas revistas e humilhações. É incrível que o mundo assista a isso calado. 

São mais de 70 anos de dor, morte e horror. E o que é vimos na mídia comercial? “Orem por Israel”. Hipócritas! São os sepulcros caiados. Assassinos também! 

Não pessoal, não há que orar por Israel porque esse é um estado assassino, que mata crianças, velhos, homens, mulheres, que derruba casas, que corta oliveiras, que obriga ao êxodo.

Não peço que orem pelos palestinos. Eles não precisam de orações. Precisam de apoio e solidariedade. Precisam de nossa ajuda concreta. Principalmente a divulgação da verdade.

O Nakba não tem fim. Essa é a verdade nua. 

Fora Israel das terras palestinas. Terrorista é o sionista.


Cheguei aos 60



 Normalmente não gosto de festa de aniversário. Acho meio tolo ficar celebrando nosso decrepitar. Mas, já tinha pensado em juntar meus poucos amigos quando fosse começar a 60º voltinha em torno do sol. Afinal, entrar nos 60 é algo. Desgraçadamente não vai dar. O novo giro começa essa madrugada, em meio a uma pandemia, num país que decidiu entregar seu povo à própria sorte. Nessa hora noa – de profunda angústia – parece uma afronta celebrar o fato de estar viva quando mais de 400 mil pessoas já morreram no carreirão da incompetência e da maldade. Não me compraz festejar em meio a tanta dor.

Eu nasci na madrugada do dia 14 de maio, no interior de Uruguaiana, no Toro Passo. Era uma noite de chuva, raios e relâmpagos. Iansã abençoava, por certo. Meu pai saiu pela noite atrás da parteira, a Dona Maria, que trazia ao mundo toda a gente por ali. Eram duas e meia da manhã quando ela chegou, encharcada, conduzindo sua carroça, e suas mãos abençoadas me receberam. Cheguei assim, nessa tormenta, bem no meio do nada, na campanha gaúcha. Talvez por isso as tempestades da vida não me amedrontem.

Sempre fui uma criança quietinha, de olhos graúdos e curiosos, disposta a sorver tudo que a vida pudesse oferecer. Apegada a bichos, seres extraterrestres e livros, perdida em meio a letras e histórias. Nunca fui birrenta, mas sempre tive opinião. Adolescente, preocupava mais com a humanidade do que comigo mesma. Tive um amor de colégio a quem amei e esperei até os 21 anos, quando então soube de seu casamento. Aí me soltei, disposta a viver todos os amores. Vivi mesmo, sem freio, até encontrar o homem que hoje me aninha e me faz feliz. 

Hoje, entrando nos 60, me assombro. Jamais pensei que pudesse chegar tão longe. Mas, ao mesmo tempo, parece que foi tão rápido, tão pouco. A primeira infância em Uruguaiana, depois em São Borja. A migração para Minas Gerais, Belo Horizonte, Pirapora, Arinos, João Pinheiro.  A passagem por São Paulo: Bauru, Marília. A volta para o Rio Grande: Caxias, Uruguaiana, Passo Fundo. A vinda para Florianópolis. Faço a lista dos amores, os perdidos, os achados. Os amigos, tantos... As aventuras dizíveis e indizíveis, os segredos escondidos, os sonhos realizados e os que ainda guardo nos planos escritos em papéis amarelados. As viagens pelo mundo, pela minha América Latina. Os lugares ainda não visitados, mas muito anhelados. Quanta vida... quanta beleza... quanta superação. Eu realmente vivi à larga. Agradeço aos deuses e deusas.

Gosto que meu nascimento tenha sido no outono, essa estação tão linda, quando tudo parece que fica mais claro. Na manhã de 14 de maio desse ainda aterrador 2021 despertarei – espero - no mais puro espanto. De saber que ainda ando sobre a terra, que vivo, respiro, amo, encontro pessoas, faço coisas boas. Olharei no espelho e verei uma mulher madura, ainda charmosa, carregada de bonitezas. 60 anos. Uma vida boa demais, carajo. Não haverá churrasco, nem tilintar de copos, só a vidinha ordinária com o pai, os cachorros, os gatos, o Renato, o Pedro. Um almoço melhorado, talvez, uma cervejinha e, à noite, uma pizza, porque afinal sou filha de deus.  

A festa fica para quando der, quando não houver mais pandemia, quando não houver mais esse cavaleiro do inferno a conduzir o país... A festa virá, ah... virá, porque é merecida... 



sexta-feira, 7 de maio de 2021

A luta pela privacidade digital em 2021



Informações repassadas pela Techwarn

A pandemia mundial de COVID-19 mudou (e exacerbou) diversos aspectos de nosso relacionamento com a tecnologia: para muita gente, a continuidade dos trabalhos, lazer, e até contato com família e amigos, depende hoje de um computador ou celular como intermediário. Suas vantagens são inegáveis, podemos ter acesso ilimitado e imediato à informação, podemos nos comunicar a qualquer hora, e aplicativos podem ajudar a resolver diversos problemas do cotidiano.

O problema é que, dentro de um sistema de constante expansão que visa extrair o máximo de valor do trabalhador comum, a tecnologia também pode servir como arma, e suas desvantagens podem ser ainda mais significativas em períodos de vulnerabilidade social. O fenômeno do trabalho em apps de delivery, por exemplo, demonstra como a mesma tecnologia pode oferecer comodidade, praticidade e estabilidade para restaurantes, às custas, mais uma vez, da exploração de um trabalho perigoso e mal remunerado para os entregadores. 

Dentro de todos esses paradoxos, especialistas em segurança digital alertaram que a privacidade (que já estava sendo minada na última década) está sendo completamente destruída nos últimos meses. Não há ainda resposta de que resultados serão enfrentados pelas próximas gerações que viverão em um mundo que se esqueceu do direito à privacidade, mas ainda temos em mãos a oportunidade de entender e lutar contra o começo deste processo. Vamos entender. 

Coleta de dados como modelo de negócios

A grande tendência do fim da privacidade digital aconteceu com a percepção de que os dados relativos a um usuário são extremamente valiosos. É sob essa premissa que plataformas e serviços como o Google e Facebook são capazes de operar “gratuitamente”, e ao mesmo tempo, integrarem o conjunto de empresas tão valiosas que superam o PIB de diversos países. 

Sem que um usuário use alguma técnica consciente para limitar a extração de seus dados, como uma VPN, um DNS customizado, e uma extensão de navegador que bloqueia rastreamento, uma rede como a Google pode imediatamente saber: sua localização, seus contatos, acessar suas fotos, hábitos diários, local de trabalho, comidas favoritas, histórico de navegação, histórico de pesquisa, músicas favoritas, entre muitos outros dados que, em conjunto podem descrever perfeitamente uma pessoa. 

E se isso não é suficiente, o uso de algoritmos de inteligência artificial pareados aos metadados do usuário podem chegar ao nível de conhecer as pessoas mais profundamente que sua própria família. Em um caso famoso, a varejista estadunidense Target usando “a ciência que te faz comprar mais” notou hábitos de consumo diferentes em uma cliente, associados às mudanças de saúde resultantes da gravidez, e passou a oferecer produtos relacionados à gestação antes mesmo que a própria mulher, e seu pai, soubessem do bebê a caminho. 

Algoritmos e liberdade

Se uma empresa como a Google conhece cada detalhe de nossas vidas pessoais, inclusive coletando dados remotamente através de aparelhos com Android, e vende essas informações para anunciantes que, por sua vez, usam os dados para nos convencer de mil maneiras a comprar mais produtos, é possível que algumas pessoas considerem que este fenômeno não seja tão preocupante. Afinal, que diferença faz se o Facebook sabe que prefiro comprar Coca-Cola ao invés de Pepsi? 

O problema é que o uso “inocente” do marketing digital para nos oferecer produtos é a menor das preocupações. Algoritmos inteligentes e um volume imensurável de dados podem ser usados não apenas para entender nosso comportamento, e sim, para o influenciar. Pesquisadores sociais já demonstraram por exemplo que o Facebook ajudou Trump a ganhar as eleições, e uma série de artigos demonstram como plataformas como a Google Notícias e o Instagram criam o “efeito bolha” para manter seus usuários viciados em um círculo fechado de ideias, sem a capacidade de buscar outras informações, questionar suas convicções, e refletir antes de propagar uma notícia ou publicação baseando-se apenas nas emoções. Isso não é um erro, é um algoritmo proposital. 

E a situação pode piorar: Edward Snowden, ex-agente do departamento NSA dos Estados Unidos, é perseguido político por revelar ao mundo que a agência coletava e monitorava os dados de pessoas do mundo inteiro, incluindo a ex-presidenta Dilma Rousseff e cidadãos comuns do Brasil, para que entre outros motivos a opinião pública à respeito do país pudesse ser controlada.

A luta pela privacidade digital é mais importante do que nunca: Se deixarmos nossa vida ser transformada em um pacote de dados para serem comprados e vendidos por gigantes da tecnologia, com poderes financeiros inimagináveis, estaremos abandonando alguns dos direitos mais fundamentais da humanidade, e nos rendendo à nova etapa do capitalismo moderno orwelliano que trata pessoas comuns como amontoados estatísticos que servem apenas para gerar mais renda para suas corporações. 


A escravidão e o Jacarezinho



O sistema colonial que se instalou no “novo mundo” depois da invasão das Américas precisava de mão-de-obra para fazer o trabalho andar. Foi assim que os países ricos da época – Inglaterra e Holanda  - começaram um comércio até então inédito: o de gente. Levavam os navios para o continente Africano, sequestravam gente, e levavam para a América para trabalhar como escravo. Foram séculos dessa infâmia.

No caso do Brasil, quase dois milhões de pessoas foram trazidas para trabalhar nas fazendas dos senhores de engenho ou de café. Mais de 200 mil morreram no caminho. Essa gente toda foi espalhada pelo território e apesar das condições brutais de existência, gerou descendência. Um censo realizado em 1872 - 16 anos antes da abolição - dá conta de que 58% da população brasileira se declarava negra ou parda, ou seja, os negros eram maioria, sempre foram desde que trazidos da África. Quando a abolição finalmente chegou, o país tinha ainda 723 mil pessoas na condição de escravo. 

É bom que se lembre de que antes disso teve a Lei do Ventre Livre, que deu “liberdade” aos nascidos de pessoas ainda escravizadas e a Lei do Sexagenário, que liberou os mais velhos. Ora, todas essas duas leis foram perversas porque jogavam numa condição ainda mais miserável os bebês, que apesar de “livres” tinham de ficar com os pais ou abandonados, e abandonava os velhos a sua própria sorte depois de já terem sido consumidos. Nem às crianças nem aos velhos foi dada qualquer condição de reproduzir a vida. 

Da mesma forma, toda essa gente escravizada se viu livre numa manhã de 1888, sem qualquer opção de existência. A eles não foi dado o direito de propriedade e muito menos qualquer política pública de recomeço da vida agora como um ser livre. Nem mesmo o trabalho lhes restava porque as levas de imigrantes agora viriam a substituir os negros, e estes eram sempre a primeira opção dos fazendeiros. Isso mostra bem a condição do negro naqueles dias de libertação. Começava aí um novo processo de aprisionamento, desta vez como exército de reserva do capitalismo nascente. 

Depois de 300 anos de escravidão, os negros eram largados com uma mão na frente e outra atrás. Sem emprego e sem opção, eles foram ocupando terras periféricas e se organizando como dava. No geral, o máximo que conseguiam eram trabalhos esporádicos, bicos, e suas condições de vida eram precárias. É dessa história de sequestro, violência e abandono que nasce o menino de rua, a favela, o mendigo. É claro que muitos negros conseguiram romper com essa planejada destruição, mas a maioria foi jogada na marginalidade.  

A tragédia do Jacarezinho – Rio de janeiro/2021

Neste dia 06 de maio de 2021, 133 anos depois daquele maio que tornou livres os negros escravizados, uma tropa da polícia civil do Rio de Janeiro entrou na comunidade do Jacarezinho e matou, sem direito a julgamento ou defesa, 25 pessoas. Gente jovem e preta, como tem sido, sistematicamente, há décadas, em todas as regiões do país. A lógica é cortar o “mal” pela raiz. O argumento é singelo: os policiais estavam ali “limpando” a área para garantir a segurança aos “cidadãos de bem”. Segundo a versão oficial, as pessoas mortas eram bandidos, traficantes e mereceram o destino: CPF cancelado, para usar a linguagem dos tempos bolsonarísticos. Não foi um confronto, foi uma execução. 

Analistas entendidos da realidade carioca falam que o Jacarezinho é uma região do Rio onde as milícias ainda não puderam entrar. E que são elas as que dominam quase 60% do território. Pode estar aí um dos motivos para essa “incursão” já que todo o poder institucional do estado e da cidade está conectado com as milícias. Há quem diga que o próprio clã que hoje governa o país também. Tudo isso são questões que aparecem de maneira periférica na discussão. Geralmente quando acontece algo assim sempre vêm à tona as guerras de facções, os esquemas de poder do submundo do crime e tal. 

Para o leitor/espectador comum, o foco todo fica sempre no morto: era um bandido. Mesmo que não seja. Se era preto e vivia na favela, era bandido. Essa é a compreensão. E se o morto é uma criança, as pessoas pensam: bom, se não era bandida ainda, seria. Porque no imaginário nacional o negro está sempre vinculado ao lado ruim da força. Essa é a ideia que vem se reforçando desde o princípio da escravidão, eu intuo. Imagino os donos de engenho repassando aos filhos a informação: “não cheguem perto dos negros, eles não são gente, são coisas do mal”. Depois, quando os negros estavam livres e foram se incrustar nos morros, seguiam sendo apontados como os “malvados”, os “capoeiras”, os “marginais”. Hoje, ainda confinados às regiões mais pobres, eles seguem sendo a imagem do mal. É uma construção histórica que muito bem serve à classe dominante, essa que nunca saiu da casa grande.

Pode ser que alguns daqueles jovens assassinados no Jacarezinho fossem traficantes. Pode ser. Muitos deles são. Porque aos pobres do país muitas vezes não resta saída. Ser recrutado pelos gerentes do tráfico é coisa corrente nas comunidades. É bem difícil escapar desse destino porque no geral não há trabalho para jovens negros, e se há, é subemprego. Com o tráfico eles tiram em um dia o que ganhariam em um mês. Que jovem não faria esse cálculo? Negro, branco, vermelho, amarelo ou azul? Qualquer um, afinal, vive-se num mundo capitalista no qual a pessoa é medida pelo que tem. A questão é? São eles, culpados? E sendo, deveriam ser executado assim, sem julgamento ou direito à defesa?

Não faz muito tempo um avião presidencial – eu disse presidencial - foi pego com quilos e quilos de cocaína. Cocaína é droga. Sabem o que aconteceu? Nada. Nenhuma invasão ao aparelho, nenhum tiro. O militar – assim trata a imprensa, em vez de bandido ou traficante - que acabou responsável pelo caso foi preso sem alarde e nem sei se ainda está. Outro caso famoso é o de um avião cheio de cocaína que era de propriedade de um deputado mineiro e que foi apreendido dentro da fazenda do deputado, tampouco teve tiro ou execução. E inclusive, mesmo sendo o avião do deputado e a fazenda do deputado, o tal deputado não foi incriminado. Parece que só sobrou para o piloto. Eis a questão! 

Os traficantes de verdade, os que importam, os que fazem girar o mundo das drogas, esses não estão na favela. Eles frequentam os salões e vivem no asfalto. Suas casas não são invadidas e eles não são assassinados em frente às mães, às irmãs, aos primos. Eles são os que estão no comando. Nada lhes toca. A guerra é feita aos gerentes e aos soldadinhos do tráfico, para mostrar que se está fazendo algo. E com muito mais violência a guerra é feita  aos soldadinhos, porque esses não tem nenhum poder a não ser a arma que carregam. Eles podem ser abatidos como moscas para serem expostos como troféus de uma “política de segurança”. Mas, outros como eles logo estão prontos para se alistar no exército do tráfico, porque não encontram saída do labirinto onde foram jogados há séculos. 

Esse é o jogo. Essa é a incômoda verdade. “Todo camburão tem um pouco de navio negreiro”, diz a canção do Rappa. 

E, nesse contexto, basta a gente se levantar em defesa dos mortos e já vem a matilha a gritar: “leva pra casa, tomara que estuprem tua mãe”. Porque essas criaturas, que não conseguem enxergar o todo, temem os traficantes, os bandidos, os “negrinhos”. Não conseguem ver que o temor precisa tomar outra direção. Os verdadeiros causadores da tragédia das drogas não são os guris do morro. Eles são apenas um elo da corrente, o mais fraco, aliás. O verdadeiro traficante – o dono da droga – está protegido e seguirá assim até que um dia esse mundo mude pela força das nossas mãos. 

Hoje as famílias do Jacarezinho choram seus mortos, e daqui a algumas horas, outras famílias, de outros morros, outras comunidades, também chorarão. Tem sido assim, todos os dias. Porque são herdeiras daquela gente “descartável” que cometeu a heresia de ficar por aqui, de não morrer. 

E assim vai a vida nesse triste país, sem parada. 

Dia virá, eu espero, que os deserdados se levantarão, organizados e coletivamente, e arrancarão das mansões os verdadeiros fabricantes da morte e do terror. 


Morar é um direito - Vale das Palmeiras de pé



 Quando a pandemia começou em março do ano passado houve uma batalha muito grande para que as prefeituras de Florianópolis e dos municípios vizinhos garantissem condições de higiene e comida para as famílias em comunidades de ocupação. Esses espaços que as famílias sem-nada ocupam para poder montar seus barracos e se proteger, afinal, alugar um imóvel em Florianópolis e região não é para qualquer um. Os preços são altíssimos e mesmo nas comunidades de periferia para muitas famílias fica inviável alugar. Ocupar os terrenos vazios é a única saída.

 Foram meses e meses de conversas, marchas e protestos. Isso porque mais de mil famílias, distribuídas em oito comunidades, estavam completamente destituídas de qualquer possibilidade de sobreviver quando teve início o fechamento total das atividades. Sendo a maioria das pessoas em situação de trabalho informal, a fome logo abriu caminho pelas casinhas mal havidas. Foi preciso que diversos grupos de solidários se formassem para garantir essas vidas, visto que para os governos elas são invisíveis e descartáveis. 

Esse trabalho de suporte que é feito por pessoas ou instituições continua até hoje, pois muita gente ainda não conseguiu voltar ao ritmo de trabalho de antes da pandemia. Segue faltando comida e produtos de higiene. Uma batalha sem fim. 

DESPEJO

Pois não bastasse todo o terror que é não ter comida e nem possibilidade de trabalho, algumas famílias ainda têm de enfrentar as ameaças de despejo. É o que está acontecendo agora na cidade vizinha de São José, com a prefeitura local querendo desalojar 150 famílias da comunidade de ocupação Vales das Palmeiras. Ou seja, em plena pandemia, o prefeito Orvino Coelho de Ávila (PSD), quer jogar na rua uma comunidade inteira que desde há tempos vem se organizando às margens da Avenida das Torres, buscando um canto onde encostar a cabeça numa cidade que há oito anos não cria qualquer projeto de moradia popular. Isso significa que os moradores são deixados à própria sorte numa região em que a renda da terra acaba por tornar a vida insustentável para o trabalhador. Tanto em Florianópolis quanto no seu entorno os imóveis custam os olhos da cara. 

As famílias que vivem na ocupação Vale das Palmeiras têm lutado duramente para seguir vivas nesse período de pandemia, visto que a maioria trabalha de maneira informal.  E agora, desde o começo do mês de abril deste ano vivem em estado de terror permanente com as ameaças de derrubadas das casas. Primeiro foi a polícia que chegou com intimações falsas, alegando que era para saírem imediatamente. Os documentos sequer tinham assinaturas de juiz. Era só um desejo do prefeito. Imediatamente a comunidade acessou as redes de apoio e logo a farsa foi descoberta. Mas, em seguida, souberam que o processo já estava mesmo finalizado na justiça e que a ordem de despejo seria dada. O que o prefeito fez foi antecipar o drama. 

Com essa informação a comunidade tratou de se articular em luta e começou o processo de tentativa de negociação, afinal, existe até uma lei que determina que enquanto durar a pandemia não pode haver despejo. E mesmo com reunião marcada na prefeitura, a polícia seguiu fazendo incursões na comunidade, colocando medo nas pessoas. Tentavam intimidar as famílias a aceitar o aluguel social proposto pela prefeitura, num valor que não alcança pagar nenhuma moradia digna no município.

Uma reunião aconteceu, sem qualquer avanço, até porque o prefeito não estava presente. Nova reunião foi marcada, mas dois dias depois os moradores enfrentavam o corte de luz, um direito básico que foi negado como mais uma intimidação. No dia 23 de abril nova ordem de despejo é dada, sem que o prefeito aparecesse para conversar. Mais marchas, mais manifestação. A prefeitura ofereceu um “acolhimento” que seria de uma parcela única de 770 reais. Ora, o que uma família sem casa e com todas as suas coisas na rua pode fazer com 700 reais? 

No dia 28 de abril as famílias conseguiram uma decisão favorável de um juiz para que as casas não sejam demolidas, mas a prefeitura segue pressionando para que aconteça o desalojo. No dia primeiro de maio a polícia apareceu na ocupação visando impedir uma manifestação pacífica. Nesta quarta-feira, dia 05, foi realizado mais um ato em frente à prefeitura de São José, pedindo uma conversa com o prefeito, mas ele segue se negando a falar cara-a-cara com as famílias.

E assim segue a luta. O despejo está suspenso por enquanto, mas nada está garantido. Os moradores seguem esperando uma negociação de verdade e se amparam na lei, visto que a nossa carta magna diz que morar é um direito, coisa que parece valer apenas para o famoso cidadão-cliente, ou seja, aquele que tem dinheiro.

Santa Catarina, que é cantada na mídia como a Europa brasileira, está bem longe de ostentar o bem estar social da região europeia. Só no quesito moradia o déficit é de quase 200 mil habitações, isso sem contar as moradias precárias – 36 mil segundo a Cohab - que não oferecem dignidade. Em São José o déficit é de mil moradias. 

Morar é quesito de primeira necessidade e ter a própria casa é sonho de 10 entre 10 trabalhadores, porque pagar aluguel é considerado o gasto mais injusto que pode haver. É um dinheiro que, sendo ganho com o suor do trabalho, já vem morto. Por isso, as famílias que lutam nas comunidades de ocupação, não querem deixar suas moradias, muitas vezes bastante precárias. Porque, tendo-as, não precisam pagar aluguel. E isso já significa muito. 

No Vale das Palmeiras é assim. E as famílias vão lutar até o fim. 

O mínimo que esperam é que o prefeito pare de se esconder e venha conversar.


 

quarta-feira, 28 de abril de 2021

Os migrantes e os EUA


A notícia aparece no portal Democracy Now como uma nota pequena. Mas, seu alcance é significativo para toda a América Latina. O governo dos Estados Unidos fez um acordo com o da Guatemala para treinar agentes da polícia da fronteira, garantindo assim uma ação mais dura contra os migrantes que partem de vários cantos da América Central em direção aos Estados Unidos. É bom lembrar que a Guatemala não faz fronteira com os EUA, mas com O México, ainda assim o governo de Joe Biden tem como objetivo militarizar os espaços fronteiriços  buscando evitar que as colunas de gente consigam passar.

A informação é de que os Estados Unidos enviará agentes de segurança nacional para a Guatemala e estes irão treinar os guardas da fronteira. O acordo foi pactado pelo presidente Alejandro Giammattei com a vice-presidente Kamala Harris em uma reunião virtual na semana passada. Esta não é a primeira vez que os EUA realizam treinamento das forças de repressão do país, mas é digno de nota que desta vez seja um curso especial para os guardas de fronteira, fazendo com que a repressão seja mais dura com os próprios guatemaltecos.

Kamala Harris declarou que quer trabalhar com o governo da Guatemala para tratar das causas da migração dando ao povo da Guatemala a possibilidade de manter-se no país. Ora, todos sabem porque as pessoas fogem da América Central: justamente por conta da política imperialista e neo-colonial dos Estados Unidos que empobrece o país, mantendo-o na dependência e na subserviência. 

Os ativistas que atuam na luta por justiça para os imigrantes dentro dos Estados Unidos estão condenando amplamente essas crescente intervenção dos EUA na região e denunciam que são estas sistemáticas intervenções políticas e econômicas que agravam a pobreza e a violência na América Central, o que obriga milhares de pessoas a saírem de suas casas e de suas cidades em busca de vida melhor. 

Ao contrário de Trump que militarizou as fronteiras dos EUA e atuou no sentido de prender e devolver aos seus países os imigrantes, Biden pretende terceirizar essa função treinando os guardas dos países, fazendo com que a responsabilidade de parar os imigrantes fique a cargo de cada governo específico. Isso significa que além de terem de amargar as políticas de destruição que os Estados Unidos mantêm contra seus países, as populações da América Central também serão impedidas de se movimentar no espaço geográfico, com seus próprios conterrâneos garantindo mais violência e repressão. 

A violenta política democrata dos EUA sendo a violenta política democrata dos EUA.