quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Livro à venda



Com a pandemia e o confinamento em casa tratei de começar a pôr ordem nos livros que tenho. Praticamente todos eles já esgotados, pois tiveram edições pequenas. Minha ideia é ir digitalizando cada um deles e colocando para vender na internet, já que essa é uma forma bastante eficaz de difusão do trabalho. Vender sempre é a pior parte, principalmente para quem, como eu, não tem a menor vocação comercial. Aproveitei o pdf finalizado pelo meu querido amigo Leopoldo, que editorou o livro “Olimpia Gayo visita o diabo”, lançado em 2013, e coloquei para vender como minha primeira experiência internética. Assim, quem tiver interesse é só visitar a página e comprar. O livro em questão recupera a história da irmã Olímpia Gayo, que foi coordenadora da Pastoral da Mulher Marginalizada da cidade de Lages e, inaugurou um importante trabalho de luta para as mulheres da região. Sua história é um caminho de amor, dedicação, batalhas e extraordinárias vitórias no processo de organização das mulheres. Perseguida, censurada, calada, ela nunca esmoreceu e ainda hoje segue seu trabalho de entrega com aqueles que estão à margem da sociedade. O  diabo, o qual ela visita amiúde, mostra sua cara na sociedade conservadora e hipócrita. Olímpia sabe seu nome, conhece seus segredos e o vence, em cada batalha travada. É uma bela história e uma boa leitura.  

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quarta-feira, 16 de setembro de 2020

O sono, os remédios e as escolhas com o pai


Nessa batalha que é cuidar de uma pessoa idosa com demência um dos pontos mais difíceis é o sono. Desde que o pai chegou aqui em casa para meus cuidados que eu venho batalhando formas de tornar sua noite um momento de descanso, já que ele é igual a um dínamo, não para um segundo durante o dia todo. Só que quando a noite chega, também não tem parada. E isso é ruim. Ele não descansa.

Devo dizer que ao longo desses mais de quatro anos tentei de tudo e ele passou por todos esses remédios que são ministrados para pessoas com Alzheimer. Psicotrópicos, calmantes, antidepressivos, ansiolíticos, uma infinidade. E a cada um desses remédios eu observava uma reação diferente. Acontecia de tudo, menos o sono. Em alguns casos vinham as alucinações, o desespero, a agitação desenfreada, a loucura desatada, levantando no meio da noite, querendo sair, batendo portas e forçando o portão, gritando sem parar. Em vez de melhorar, piorava. Outros o deixavam completamente dopado durante o dia, prostrado numa cadeira, com a boca torta.

Participando de grupos de ajuda de familiares com Alzheimer fui conhecendo os casos de pessoas que iam ficando com os músculos rígidos, paravam de andar, problemas para engolir, tudo aparentemente efeito colateral dos remédios. Uma aflição dos diabos vai tomando conta da gente porque não queremos ver a pessoa sofrer, e esse troca-troca de remédios ia me parecendo uma experiência meio desumana. Sabe-se que não há um remédio para o Alzheimer, o que os médicos podem fazer é ir tentando resolver os problemas que a doença causa. Eu entendo isso, mas os experimentos com o pai me causavam muito sofrimento também.

A gota d´água pra mim foi uma noite em que ele apareceu na porta da cozinha com a cara lavada de sangue. Eu havia dado um desses remédios para ele dormir e estava na minha cama, no meu quarto, dormindo. Pois ele havia acordado em surto e caído, abrindo um corte na testa. Aquela cara ensanguentada, aquele olhar de desamparo acabou comigo. Decidi mudar toda a minha abordagem.

A primeira coisa que fiz foi tirar os remédios. Mais nada. Depois, me mudei de mala e cuia para o quarto dele. Iria dormir com ele e observar sua noite, dando suporte para o que fosse. Antes, ele tomava o remédio e ficava sozinho, com a luz acesa e a televisão ligada. Não me deixava desligar. Ficava brabo. Percebi então que ele levantava várias vezes durante a noite e com a luz ligada, pensava que era dia, queria sair. Com muito carinho e tato fui mudando essa rotina. Apaguei a televisão depois de certa hora, depois a luz, e fui criando um ambiente aconchegante, mas penumbroso.

Hoje estamos assim. Ele janta as seis e lá pelas sete e meia vai para o quarto ver a novela. Assistimos juntos. Depois vimos as notícias e lá pelas nove já preparo tudo para o dormir. Ajeito a cama e vou insistindo com ele para deitar. Ele deita, eu apago a televisão, desligo a luz e o quarto fica silencioso e escurinho. Ele apaga na hora. Dali até o amanhecer acorda mais umas quatro vezes para fazer xixi, mas eu estou bem ali do seu lado. Limpo a bagunça, seco os pés e indico a cama para que ele volte a dormir. No geral dá certo. Há dias que ele está bem consciente e fica rindo por eu estar feito um fantasma ao seu lado. E quando está meio viradinho, resmunga um pouco mas volta pra cama. Há dias, é claro, que ele está bem mais agitado. Não deita, fica mexendo nas cobertas, tiras as coisas do guarda-roupa. Eu mantenho a luz apagada, só com a claridade do banheiro e fico quieta, esperando. Seus agitos podem durar duas horas seguidas na madrugada, mas depois disso ele cansa, aí eu venho e digo: vamos dormir agora? Ele deita e apaga.

Claro que isso é bem mais custoso e cansativo pra mim. Mas, percebo que é o melhor pra ele. Nenhum medicamento causando efeitos ruins, só a fixação sistemática da rotina. Tudo é feito na mesma hora, do mesmo jeito. Isso tem me custado as noites e toda a minha rotina de escrever e ver filmes nessas horas de calmaria. Isso se foi. Mas, por outro lado, quando ele desperta de manhã está mais descansado, e com o descanso também ficam mais raros os seus momentos de descontrole.

Tenho aprendido que essa doença danada tem pouco controle. E que o melhor remédio mesmo é a atenção e cuidado sistemático. Durante o dia uso um óleo natural abençoado por deus que o deixa lépido e falante e também garanto uma boa dose de nicotina – receita médica contra a agitação. Ele caminha bastante, come muita fruta, ajuda na horta, “trabalha” com seus papeizinhos, ouve música. E, de noite, na caminha. Não é coisa fácil mudar toda a vida da gente, mas foi o caminho que encontrei. Espero poder levar essa rotina até o fim. É só o que peço ao universo.



segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Mostrando as vísceras do capital


 

O Brasil vive um momento de extrema desolação. Além de toda a tragédia provocada pela inexistência de um combate centralizado ao vírus da Covid 19, que já ceifou quase 150 mil pessoas, Amazônia e Pantanal queimam, por incêndios criminosos. Há algumas dezenas de pessoas que lutam contra as chamas, desesperadamente, de maneira quase inglória. E há um governo que corta verba para o combate aos incêndios, faz piada e divulga vídeos falsos, minimizando a tragédia que se abate sobre a terra, as gentes e os animais. Há milhões de criaturas que negam a realidade, que se manifestam contra a vacina e que aplaudem a lógica governamental. Esse é o triste cenário com o qual nos deparamos. Trágico, mas não surpreendente, afinal, o que importa para quem governa é apenas o bem-estar de uma minoria dominante. O que passa ao largo dessa pequena parcela de gente é absolutamente irrelevante. E por quê? Porque essa é a natureza do sistema capitalista no qual estamos inseridos.  

Existe um livro, que deveria ser leitura obrigatória nas escolas, que se chama “A situação da classe trabalhadora na Inglaterra”, escrito por Friedrich Engels, em 1845. Ele inclusive serviu de fonte para que Marx escrevesse o seu clássico “O Capital”. Engels era um jovem rico que em 1842 vai para a Inglaterra aprender sobre a indústria, visto que seu pai era industrial na Alemanha. Naqueles dias, a Inglaterra, especialmente Manchester, era a ponta de lança das inovações e da modernidade capitalista. Ali Engels vive por 21 meses e ao observar os avanços na indústria local e a urbanização das grandes cidades, começa a perceber também as condições de vida dos trabalhadores.  

Quando volta para casa, na Alemanha, Engels conhece Marx e com ele discute tudo que viveu. Logo em seguida começa a redação desse livro que é uma obra prima sobre a realidade do capitalismo. É uma espécie de ver por dentro, de narrativa do escondido, do que não aparece aos olhos de quem apenas usufrui dos produtos que nascem das mãos dos trabalhadores. O livro é uma espécie de “Globo Repórter” da época, pois Engels consegue descrever como vivem, onde moram, o que comem, que doenças têm, como se divertem e que expectativas têm os trabalhadores da meca do capital.  

Engels mostra como se deu o movimento do camponês para a cidade grande, saindo da condição de trabalhador da terra, com casa para morar e um pedaço de terra para tirar seus sustento, para a condição de proletário, sem nada de seu a não ser a força de trabalho, cujo pagamento por ela sequer era suficiente para mantê-lo em pé. O jovem alemão visita não apenas as fábricas, onde vê de perto as condições de trabalho de homens, mulheres e crianças, mas também circula pelos bairros periféricos, morada dos trabalhadores, os quais eram desconhecidos pela elite dominante e também pela chamada classe média que ocupava as profissões liberais, ou cargos mais elevados nas fábricas.  

Nessas andanças pelas vielas fedorentas de Manchester – os chamados “bairros de má fama” - Engels viu gente morrer de fome, dividir casa com os porcos, dormir na maior imundície, padecer das doenças mais horrendas. Aquelas ruas e casas que ficavam na parte mais feia da cidade, eram o espaço da morte, e não da vida. Não recebiam cuidados por parte da administração local e eram conhecidas como redutos da criminalidade. Isso lhes lembra algo?  

Engels descreve com riqueza de detalhes aquele universo e tanto que se pode até sentir o cheiro das ruas e das casas. “Não há um único pai de família em cada dez, que tenha outras roupas além das de trabalho e muitos só têm à noite, como coberta, esses mesmos farrapos e por cama, um saco de serragem”. Ou ainda a visão de uma mulher que morrera de fome: “jazia morta ao lado do filho, sobre um monte de penas, espalhadas pelo corpo quase nu, porque não havia lençóis ou cobertores. As penas estavam de tal modo aderidas à sua pele que o médico só pode observar o cadáver depois que o lavaram, e o encontrou descarnado, todo marcado de picadas de insetos”. 

E por aí vai a toada. O livro de Engels é como um soco na boca do estômago, detalhando de maneira crua a vida daqueles que fizeram a riqueza do capital. Uma gente que morria cedo, com fome, sem nada de seu. Uma gente que não era visível para ninguém que vivessem fora daqueles antros de podridão e dor. Da classe média, essa excrescência que sonha em virar exploradora ele diz: “Tive de observar a classe média, vossa adversária, e rapidamente concluí que vos tendes razão em não esperar dela qualquer ajuda, seus interesses são diametralmente opostos aos vossos, mesmo que ela procure incessantemente afirmar o contrário e vos queira persuadir que sente a maior simpatia por sua sorte.” Para Engels a classe  média só quer enriquecer às custas dos desgraçados e simplesmente pode deixá-los morrer de fome quando não puder mais lucrar com o que chama de “comércio de carne humana”. 

Mas, o que realmente é espantoso no livro de Engels, é que a situação que ele descreve na Inglaterra de 1842, segue absolutamente igual nas periferias do mundo inteiro. As cenas descritas dos horrores, das condições das moradias, da saúde dos moradores e da exploração que sofrem não apenas nas fábricas, mas também dos donos dos armazéns onde compram seus víveres, poderiam ser vislumbradas hoje em qualquer grande cidade ou mesmo em países inteiros. Porque o Engels mostra não é apenas a situação dos trabalhadores da Inglaterra, mas sim as vísceras do modo de produção capitalista. O lado de dentro, o lado escondido, que os poderosos preferem deixar invisível para que não haja revolta. Pelo contrário, o capitalismo dispõe de uma pedagogia da sedução que leva os explorados a acreditar que um dia poderão ultrapassar o limiar da miséria, basta que trabalhem bastante. Mas, isso não é verdade. A roda do capital que gira desde o 1800 segue fazendo o mesmo de sempre: moendo gente. É assim que se mantém.  

É justamente por isso que, hoje, no Brasil, enquanto milhares de famílias choram seus mortos, que partiram por não conseguir amparo médico, ou um respirador, ou uma UTI, a classe dominante não está nem aí. E se não está nem aí para as pessoas, porque motivo estaria preocupada com as milhares de vidas animais perdidas nos incêndios da Amazônia e do Pantanal? Isso não importa em absoluto. Assim como não importam as vidas dos indígenas - esses seres que consideram inúteis e um atrapalho ao progresso – dos negros da periferia, dos quilombolas, dos ribeirinhos, dos sem-terra, dos zé-ninguéns. Enquanto essa gente morre a classe dominante segue com suas festas, suas mansões, seus banquetes. A dor dos que lhes servem não lhes toca, não lhes chega. Porque, ao fim, alguém dos seus está enriquecendo enquanto as terras ardem e as gentes morrem. 

O que nos resta, então? Primeiro conhecer a realidade. Entender porque uns tem tanto e tantos não tem nada. Entender porque existe a pobreza, a miséria, a exploração. Entender a lógica do capital. Debruçar-se sobre as vísceras desse sistema, ter coragem de olhar adentro e, a partir daí, compreender que é o trabalhador quem produz a riqueza e que os ricos não trabalham. E que se quem produz a riqueza é o trabalhador então a ele tudo é devido. Não a morte, não a fome, não o desespero. Mas a alegria, a fartura, o bem-viver. E que isso pode ser conseguido se essa minoria que domina tudo for vencida. É uma minoria. Os trabalhadores são maioria, logo, mais fortes.  

É certo que no caminho haverá quem não acredite no que mostram as vísceras, haverá quem defenda o algoz, haverá quem traia os companheiros. É a vida. Mas, os trabalhadores, coletivamente podem enfrentar cada um desses obstáculos, e avançar.  

O capitalismo tem essa aparência bonita, de sucesso, de possibilidades. Mas, dentro dele estão as vísceras. Engels mostrou as da Inglaterra. Nós vamos mostrando as nossas. E, assim, conscientes do mal, haveremos de encontrar o caminho para a libertação.  


quarta-feira, 9 de setembro de 2020

A novelização da política

Na foto: mestre Gilberto, o que grita!


Gilberto Felisberto Vasconcellos tem sido nosso Jeremias, gritando na montanha contra a telenovelização da política. Gilberto faz a crítica, mordaz, feroz. Mas, tem sido ignorado nesse quesito. Segundo ele, a política brasileira tem seguido desde 1964, com o advento da Globo, uma estética telenovelizada e a novela real politiza as cabeças no sentido de extrair a mais-valia ideológica. Por isso que ver novela é também entender a política que está na cabeça das massas. Afinal, é pela televisão que a maioria se informa. E não apenas no telejornal, mas nos programas de auditório e na novela.  

O reacionarismo religioso entrou no Brasil através da novela. Quem não acompanhou as grandes produções da Record não tem como compreender porque os brasileiros estão se tornando “terrivelmente evangélicos”. As sagas dos personagens do velho testamento foram introduzidas na casa das pessoas trazendo mensagens políticas importantes: Israel é o centro do mundo (daí as bandeiras de Israel nas manifestações bolsonaristas), a mulher precisa aceitar seu sofrimento e amar seu marido, há que rezar que deus atende, e há que temer porque deus também vinga.  

Esther, Sansão e Dalila, Rei Davi, a Bíblia, José, Os dez mandamentos, O Rico Lázaro, A Terra prometida, Lia, Jezebel, Gênesi, Jesus e o Apocalipse, todas essas histórias tem manufaturado uma ideia de deus, de moral, de comportamento, de ser no mundo. Isso não é pouca coisa. Se juntarmos isso às mensagens que são inoculadas pelas novelas globais – tais como as de que existem empresários bonzinhos, ricos generosos e que há que defendê-los – temos aí um caldo extraordinariamente conservador que domestica e amansa. A novela ensina a amar o algoz e mostra que a luta só tem chance de vitória se for em aliança com os ricos bonzinhos.  

A política, diz Gilberto, reproduz na vida essas mensagens e essa estética. Por isso as campanhas eleitorais são realizadas via televisão, com vídeos emocionais que reeditam as sensações novelísticas.  

Se a Globo passou durante décadas insuflando as ideias liberais, a Record veio e consolidou o reacionarismo apostando no velho testamento que, inclusive, foi rechaçado por Jesus, embora muitos cristãos não se deem conta disso.   

Hoje, vivemos o drama de ver partidos alinhados ao campo da esquerda votar no perdão da dívida das igrejas. Isso não deveria ser nenhuma surpresa. O sistema eleitoral se alimenta dessas ideias que são plantadas nos cultos e nas novelas. A política telenovelizada não tem pejo em sacanear a população perdoando dívida de um bilhão enquanto os trabalhadores precisam mendigar um auxílio em plena pandemia. A religião romanceada pela telenovela tem sido pródiga em manter os fiéis amarrados aos seus planos de enriquecimento e bem-viver. E isso interessa aos que disputam os votos. É tudo uma questão de cálculo eleitoral. Triste, mas é verdade.  

O perdão da dívida dos ricos igrejeiros, logo cairá o esquecimento. Mas, sobre o povo seguirá recaindo a acusação de alienado, incapaz, massa de manobra de pastores mal-intencionados. O povo, essa abstração para alguns, quer apenas comer, se divertir, gozar, sair do inferno das drogas ou da dor. Por isso busca amparo nos templos, já que não há Estado. Porque lá lhe oferecem isso. Ali está o amor de deus, inculcado pela Record, e o sentimento de que existem ricos que são bons, inculcado pela Globo. Por isso não importa que Edir Macedo tenha uma casa feita de ouro, ele é um desses heróis ricos e bonzinhos das novelas globais. De quebra, é um abençoado pelo deus de Israel. 

Todo esse drama novelístico que vivemos agora na vida real tem sido sistematicamente traduzido nas telas da ficção. A realidade é essa. O pastor, o empresário do bem, o padre, o político espartano ligado ao povo, são os que estendem a mão na hora da angústia, os que salvam. A novela reforça a realidade e por aí segue a malta.  

Por isso a classe dominante seguirá perdoando a dívida das igrejas, garantindo subsídios e mantendo as concessões televisivas com os amigos. Aliados a ela, os oportunistas eleitorais.  

Quem tiver capacidade crítica que pense e se liberte.   


domingo, 30 de agosto de 2020

Sobre Wakanda e o socialismo


 Chadwick Boseman é um ator negro que morreu aos 40 e poucos anos e causou uma grande comoção nos Estados Unidos. Ele interpretou um rei africano de uma terra imaginária, Wakanda, no cinema. Um filme sobre um reino negro, feito só com pessoas negras. Um marco nos Estados Unidos. Não vou entrar aqui no debate sobre a mensagem do filme, absolutamente liberal. Vou apenas perguntar: e poderia ser diferente? 

Sempre é importante lembrar que as ideias socialistas e comunistas foram varridas dos Estados Unidos na grande cruzada realizada pelo nefasto Joseph McCarthy entre os anos 1946 a 1958. Durante anos a fio qualquer pessoa com ideias mais à esquerda era denunciada e cassada. Acredita-se que mais de 10 mil pessoas perderam seus empregos e caíram no ostracismo social durante a chamada era McCarthy: professores, sindicalistas, artistas, escritores. Até o grande Charles Chaplin viveu na pele esse horror. 

Nas universidades se algum professor resolvesse incluir nas suas aulas de história a verdade sobre a Segunda Guerra ou algo sobre a Revolução Russa já era denunciado por alunos e imediatamente expulso. Se alguém numa empresa qualquer fizesse um abaixo-assinado para ter café para os trabalhadores também era apontado como comunista. E o comunismo passou a ser um inimigo a ser extirpado do país. Vale lembrar que muitas dessas pessoas que foram execradas não eram comunistas. Eram apenas pessoas que queriam lutar por direitos, mínimos às vezes. McCarthy promovia uma caça aos comunistas e a população apoiava fortemente, porque toda a mídia de massa divulgava a necessidade de combater o perigo vermelho.  

Foi uma campanha tão virulenta que o Partido Comunista dos Estados Unidos quase chegou a extinção, sobrando muito pouca gente identificada com essa proposta. E quando nos anos 1960 assomam as lutas pelos direitos civis, os direitos da população negra e contra a Guerra do Vietnam, as ideias que as movimentam são mais no campo liberal. Os Panteras Negras, que falavam de socialismo e apresentaram uma visão mais radical da luta contra o racismo, igualmente foram presos e execrados, sobrevivendo uma visão mais “palatável” da luta, com as ideias pacíficas de Luther King. Muitos avanços vieram a partir daí, ainda que cobrando alto em sangue e dor da população negra. Mas, tudo redução de danos, a considerar a realidade atual via massacre sistemático dos negros naquele país. O que dizer quando um negro desarmado leva sete tiros nas costas e um branco armado de fuzil mata e sai andando? 

Hoje, observando as figuras que representam as ideias mais progressistas nos Estados Unidos – de qualquer etnia - fica bastante claro que a visão vencedora – não apenas no campo da luta contra o racismo, mas também nas demais lutas por direitos – foi a visão liberal. Assim, o máximo que a turma consegue chegar é nas pautas que traduzem as lutas contra as desigualdades, o que significa que as desigualdades seguirão existindo, só que menos. Bom, isso não é suficiente. 

Essa é também a mensagem do filme Pantera Negra, do qual Chadwick Boseman foi protagonista. E, na indústria do cinema estadunidense isso já foi altamente transformador. Seria obviamente impensável que Hollywood colocasse na tela um filme só de negros, com uma mensagem revolucionária: ou seja, Wakanda saindo de seu isolamento para comandar uma revolução mundial, acabando de vez com as desigualdades e com a exploração. Não. Isso não sairia da cidade dos anjos. O que pode sair é o que saiu. Wakanda dando uma de Banco Mundial, FMI, Nações Unidas, financiando programas de redução da pobreza. Até aí, tudo bem.

Cá no meu cantinho eu entendo perfeitamente a comoção da população negra estadunidense com a morte daquele que representa um rei imemorial dos ancestrais. E sua história de luta contra a doença, mesmo durante as filmagens, o torna ainda mais heroico como ser humano e como homem negro tentando sobreviver na selva real. Ele certamente viverá na memória das crianças negras, que nunca tinham visto um rei negro no cinema. Levá-los a ultrapassar esse limite é a tarefa hercúlea dos partidos e dos movimentos revolucionários, que ainda são minúsculos nos Estados Unidos. 

Mas, por hoje, é isso que se pode ter. Não morreu apenas um ator negro, um bom ator a se considerar sua performance como James Brown, morreu alguém que representou, pela primeira vez em muito tempo, uma imagem positiva do negro estadunidense – ainda que camuflada em rei africano e limitada pela proposta liberal.  Chadwick representa um marco no cinema estadunidense e, na pele do rei de Wakanda, representa uma esperança para muitos meninos e meninas negras acostumados a ver seus iguais apenas em papel de empregados, drogados ou bandidos. Cruzar o muro do liberalismo é o próximo passo. 

A luta pelo socialismo/comunismo nos Estados Unidos é uma estrada que vem sendo reconstruída com muito vagar. Tanto que o Partido Comunista de lá passou décadas sem conseguir eleger sequer um vereador. Apenas no ano passado, o partido pode garantir um assento no legislativo da pequena cidade de Ashlan (oito mil habitantes), ao norte, no estado de Wisconsin, conhecido por ser o berço do chamado “progressismo” ainda no final do século XIX.

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

O Brasil e os trabalhadores

greve dos trabalhadores dos Correios

O Brasil já está quase em 120 mil mortos pela Covid 19 e segue tendo mais de mil mortes por dia, mas esse número já não causa mais nenhuma comoção. As pessoas perderam o interesse no drama da Covid. Já não é mais a sensação da hora. O desconhecido cantor Kauã, que sabe-se lá porque ocupou as telinhas por semanas, saiu do hospital curado e parece que isso inaugura uma nova fase. Na televisão vai escasseando o tema e a vida assume a mesma “normalidade” de sempre. Não existe nenhum novo normal. É tudo como dantes no quartel de Abrantes. Nas redes sociais cresce a discussão sobre as eleições e as gentes vão se preparando para mais essa “festa da democracia” que é oferecida de dois em dois anos, sob o comando do poder financeiro. Ou seja: ganha quem tem maior poder de compra. Compra mesmo, real. 

No campo da política o mesmo roteiro de toma-lá-dá-cá vai se fortalecendo no Congresso Nacional, casa do povo onde o povo não entra e onde os deputados sentam em cima dos pedidos de impedimento do presidente porque, afinal, “ele não está fazendo nada de errado”. Não há ministro da Saúde, não há combate à pandemia, mas há anúncios de novos programas sociais que irão amortecer a pobreza. Muda o nome, mudam os logotipos, mas a política é a mesma. Digestão moral da fome, como diria Nildo Ouriques.  

No campo da moral as redes se enchem de memes sobre o assassinato do marido de uma pastora pentecostal, aliada do presidente. O marido saiu desse plano justamente porque a pastora contratou os assassinos. Foi a mandante e chorou como uma carpideira no enterro. Fotos da assassina com o presidente, com os filhos do presidente, com a mulher do presidente são publicadas à exaustão, mas isso, na verdade, não diz nada para os seguidores do mandatário. Afinal, tirar fotos com alguém não é crime. Assim, a ligação da assassina com o presidente não se faz. E é óbvio.  

A mídia comercial, que é aliada da política de Bolsonaro para o Brasil, tampouco faz questão de ligar lé com cré. Nada parece turvar as águas do governo, que segue popular nas pesquisas. 

E enquanto isso vão rolando no legislativo nacional algumas propostas de Reforma Tributária que igualmente são ignoradas pela mídia, e que acabam não chegando na maioria da população, justamente os que vão sofrer a política. Propostas de manutenção da tributação já existente, hegemonia do empresariado nas propostas e a esquerda liberal discutindo a possibilidade de taxar as grandes fortunas. 

 Conforme muito bem explica o advogado e doutor em direito tributário, Marcos Palmeira, taxar as grandes fortunas não muda em nada o estado das coisas, pois continua se admitindo que haja a concentração da riqueza. Ele lembra o exemplo da Argentina, que tem um percentual - baixíssimo - de taxação sobre as grandes fortunas e que isso não altera o processo de distribuição dos recursos. Os pobres continuam pobres e os ricos mais ricos. A taxação não faz nem cosquinha no abismo que existe entre as classes. 

Falta definitivamente um debate sério sobre o país, uma crítica radical e uma proposta plausível para a transformação. O professor Nildo Ouriques insiste que só uma revolução brasileira pode mudar os rumos do país e ele está certo. Não há como humanizar o capitalismo já que é da natureza desse modo de produção ser assim: para que um viva, outro tem de morrer. Para que um homem como o dono da Amazon tenha sua fortuna aumentada em bilhões, mesmo numa pandemia, é preciso que uma gigantesca massa de gente esteja na penúria, fugindo das guerras, arriscando-se no mar ou morrendo de fome no cotidiano das grandes cidades.  

O Brasil de hoje é o gigante adormecido, entregue às mãos da mesma velha elite que domina essa capitania desde os tempos da invasão. Há reações, pequenas e pontuais, dos trabalhadores. Mas, essa é uma ação que precisa crescer e se espalhar. Nada virá de bom do Congresso Nacional e muito menos as ações isoladas – sobre alguns inimigos intraclasse – do STF farão diferença no andar dessa carruagem capenga. A prisão dos agora inimigos de Bolsonaro não fortalece a esquerda, pelo contrário, ela serve para afirmar junto a claque que o atual governo não tolera a corrupção, embora seja fruto da barganha cotidiana que se dá no judiciário e no legislativo nacional. É um competente jogo de cena. 

Só a luta renhida da classe trabalhadora muda o mundo. Nada mais. 

Uma manhã com o pai



As manhãs com o pai são sempre cheias de surpresa. Hoje acordei mais cedo e o deixei dormindo. É o tempo que tenho para escrever, ver as mensagens e tal. Lá pelas dez horas vi o movimento no quarto e corri, pois é nessa hora do levantar que tenho a chance de trocar a roupa e fazer a higiene matinal. Sempre uma batalha, mas enfim, ou pego ele nesse contrapé ou perdi a guerra. Entrei no quarto e já estava armada a bagunça. Havia um pequeno montinho de cocô em pelo menos uns seis lugares entre o quarto e o banheiro, com respectivos rastros por todo o chão. Afff... Dá aquela desolação! Respiro fundo e para não o deixar nervoso, faço cara de surpresa. 

- Barbaridade, pai, quem será que fez isso? 

E ele me olha com aquela carinha de inocente. 

- Mas sabe que eu não sei. Passou um cara aqui, e outro ali, e outro ali – e foi apontando os cocozinhos, como se cada um deles tivesse sido obra de uma pessoa diferente – Passaram aí e foram embora.  

- Puxa vida, que safados, né? 

- É - e sai andando como se nada.   

Sobra a limpeza, coisa nada fácil. E ele descansa no alpendre, bem faceiro. Assim são as manhãs na casa Tavares