terça-feira, 14 de julho de 2020

Memórias da mãe


Minha mãe nasceu no campo, filha de um italiano e uma morena pelo-duro, da fronteira. Era a segunda filha. O primeiro era um varão, sempre preferido. Da mãe teve muito pouca atenção. Minha vó era filha de fazendeiro, metida a rica, e quando casou com o meu avô, italiano pobre, seguiu vivendo como se fosse abastada. O resultado eram as crises, pois o vô era do tipo bondoso e sempre acabava sendo levado no bico nos negócios. Tudo o que fazia não dava certo. Teve bar, e perdeu tudo, tinha dó dos clientes pobres e não cobrava. Depois, foi plantar arroz. Viveu até os 70 anos plantando em terra alheia, na dura vida de agricultor sem os meios de produção.

Da infância, a mãe contava que a vó a deixava trancada no quarto e ia com o vô para os bailes de campanha. Ela, no escuro, sozinha e com medo, se apegava nas novelas do rádio. Era tudo que tinha. Por isso, talvez, o seu romantismo incurável. Apaixonou-se, numas férias, quando tinha 15 anos, mas o guri era de Porto Alegre e acabou indo embora quando o verão terminou. A minha vó, que a queria casada com meu pai, escondia as cartas que chegavam semanalmente da capital, e a mãe achou que tinha sido esquecida. Aquilo a destruiu. Por fim, aceitou casar, afinal, que outro destino poderia ter? Nunca foi feliz no casamento, nunca esqueceu seu amor. De bom, teve os filhos, era o que dizia.

Essa foto tirada lá pelos seus 18 anos mostram uma guria pobrezinha, bem mal vestida, de chinelo de dedo, cigarrinho na mão e já com aquele olhar meio desesperado que lhe era característico. Tinha o nariz adunco, feito águia, uma belezura que não herdei. Era uma mulher triste. Foi triste até o fim. Morreu do pulmão, a doença da tristeza. Por mais que fizesse, nunca consegui lograr que ela recuperasse a alegria. Essa é também minha grande dor. Olhando pra ela, nessa foto que emerge das brumas do passado, me vejo, e me sobram as lágrimas.


domingo, 12 de julho de 2020

O dragão da maldade não está só


Estamos a um passo de bater a cota de 100 mil mortes por Covid-19, e não precisaríamos estar vivendo isso. Como muitos países do mundo já haviam passado pela experiência da pandemia ficou fácil para nós agirmos rápido e certo. Sem vacina e sem remédio, a única alternativa para não morrer gente era o isolamento social e a testagem em massa. O fechamento de tudo, de maneira radical, por um ou dois meses, a quarentena para os sintomáticos e a realização de testagem massiva para evitar que gente assintomática ficasse por aí, transmitindo o vírus. Mas, nas últimas eleições, os brasileiros decidiram colocar na presidência um ser que, além de ser o mais fiel representante do capital, é também a concretude do mal. Tudo nele exala enxofre e o que se viu foi o óbvio. Nenhuma ação para barrar a desgraça. Pelo contrário. As ações foram para acelerá-la, torná-la maior.

A pandemia chegou e o governo federal não tomou qualquer atitude para comandar a ação de combate de maneira unificada. Pelo contrário. Mandou embora os ministros da saúde que passaram pelo cargo e que não tiveram coragem de seguir as ordens, que eram as de não se isolar e sequer de usar máscaras. O próprio governante, que veio dos Estados Unidos, depois de um encontro com um infectado, decidiu sair às ruas sem máscara, abraçando e tocando as pessoas. Apesar de todos os que estavam com ele no avião terem sido infectados, ele disse que não foi, e se recusou a mostrar os exames.

Os meses se passaram, as mortes foram acelerando. Primeiro nos estados mais empobrecidos, do norte e nordeste. Centenas e centenas de covas sendo abertas sob os olhos da nação e o presidente fazendo troça. Inexoravelmente o processo foi chegando aos demais lugares. Agora, até mesmo nos estados do chamado “sul maravilha”. Já não há leitos nas UTI e não há sequer remédios para garantir a intubação de pacientes. E os números crescendo a olhos vistos. Foram-se 50 mil, 60 mil, 70 mil e seguimos caminhando para o matadouro. Trabalhadores da saúde exaustos, massacrados, e as gentes desamparadas.

Parecia não ser possível mais nada de tão ruim. O presidente então resolveu fazer outro teatro. Anunciou estar contaminado, mas que não era problema, pois ele estava tomando cloroquina, o remédio que ele quer empurrar massivamente e que não têm qualquer comprovação de eficácia. Segundo ele, é o que lhe garante passar pelo vírus. Um deboche, um acinte diante de tanta dor e desespero.

Também conseguiu elevar suas doses de maldade a última potência quando decidiu vetar medidas de prevenção ao coronavírus junto aos povos indígenas, uma das frações da sociedade brasileira mais fragilizadas diante das doenças dos não-índios. Vetou a distribuição gratuita de materiais de higiene, limpeza e desinfecção de superfícies. Vetou a oferta emergencial de leitos hospitalares e de unidade de terapia intensiva (UTI). Vetou a aquisição de ventiladores e máquinas de oxigenação sanguínea. Vetou a distribuição de materiais informativos sobre a covid-19. Vetou a instalação de pontos de internet nas aldeias. Até o acesso à água tratada foi vetado, com o presidente dizendo que os índios estão acostumados a tomar água do rio. Mais deboche e maldade pura. Afinal, exterminar os indígenas tem sido uma de suas prioridades desde a campanha, quando ainda nem era presidente. Segundo ele, os indígenas devem se integrar ao corpo de trabalhadores e deixar de ser “privilegiados”. Além de incentivar invasões nas terras originárias e incentivar a queima da mata, agora ele decide vetar aspectos essenciais do programa de prevenção à COVID-19 nas aldeias. Talvez acredite que assim possa ser mais fácil e rápido acabar com as comunidades.

Tudo isso parece um conto de terror e também pode parecer que é ação demoníaca de uma única pessoa. Mas, não é. O dragão da maldade não está só. Ele está acompanhado e respaldado pelas demais instituições da política oficial brasileira, como o judiciário e o congresso nacional. Tudo acontece sem que qualquer uma dessas instâncias aja em consequência. Há um assentimento total com relação a todas as atitudes de lesa pátria e de crime contra o povo brasileiro. Ainda que alguns poucos parlamentares atuem no plenário, o congresso em si segue impávido diante dos desmandos. O apoio é pleno. Vez ou outra uma notinha de repúdio, bem tímida, sem consequências.

Bateremos os 100 mil mortos logo ali. “E daí? Não sou coveiro!” diz o presidente. Com ele, as demais autoridades também dizem isso, ainda que não pronunciem. Isso já seria ruim, mas tem mais. Com eles também caminham e apontam suas arminhas contra os “mentirosos e comunistas” quase 40% da população brasileira que apoiam as ações ou não/ações do presidente. O vírus é uma invenção comunista, dizem, e andam por aí desafiando as autoridades médicas, sem máscaras, devidamente autorizados pelo seu líder.

Poderíamos dizer que tudo isso é um absurdo, mas, se pensarmos bem, é só o capitalismo se expressando como sempre, apenas com mais desembaraço. Aproveitando a pandemia para que alguns possam acumular mais riqueza e se desfazendo “da carga” que representam os velhos, os doentes, os desempregados.

O dragão da maldade não é uma excrescência no céu azul do país. Ele é a cara visível de um sistema que normalmente se esconde sob a pele de cordeiro, mas que está aí, todos os dias tripudiando dos trabalhadores. Agora, sem pejo, ele se mostra e ri. Não tem medo. Está seguro diante da inércia, do pavor e de seus seguidores.

Só mais um passo e já estarão ali, os 100 mil mortos. E mais...

Ao que parece, na nação anestesiada, que vê a fileira de mortes pelo Jornal Nacional, a resistência ainda é pífia e o ataque inexistente.


segunda-feira, 6 de julho de 2020

A administração da UFSC e os trabalhadores

Promessas feitas por Cancellier foram esquecidas pela atual gestão

Quando Luiz Carlos Cancellier  venceu as eleições em 2015, para a reitoria da UFSC, levou com ele um número significativo de votos dos trabalhadores técnico-administrativos. Havia se comprometido, para o segundo turno, com as tão sonhadas 30 horas, que fariam a universidade ficar com as portar abertas desde manhã até a noite, sem fechar ao meio-dia. Eleito, precisou ser pressionado para levar adiante a proposta. Relutava, colocava entraves, mas ia caminhando.  Com sua trágica morte, em outubro de 2017, depois de uma espetaculosa ação da Polícia Federal, as demandas dos trabalhadores voltaram à estaca zero. No final daquele triste ano e no que se seguiu, a comunidade como um todo precisou se mobilizar para garantir que a universidade continuasse funcionando, até que viesse uma nova eleição.  As lutas particulares ficaram em segundo plano.

Em 2018, quando Ubaldo Balthazar enfrentou Irineu Manoel de Souza, os trabalhadores técnico-administrativos, em grande número, acreditaram que, por ser da equipe de Cancellier, Ubaldo honraria as promessas do reitor morto. Decidiram não colocar suas vidas nas mãos de Irineu, que já fora TAE e que já apontara com clareza meridiana suas propostas para a universidade, nas quais os TAEs teriam vez e voz. 

Com a chegada de Ubaldo Balthazar à administração central, os TAEs já tiveram de enfrentar de saída um longo processo de luta para garantir a permanência de uma trabalhadora que tinha sido reprovada no estágio probatório. Uma excrecência administrativa e uma clara perseguição. Não foi uma luta fácil, sempre barrada pela Pró-Reitoria de Gestão de Pessoas, que viria desde aí se mostrar, de maneira paradoxal, contrária a muitas demandas dos trabalhadores. 

Ao mesmo tempo em que a batalha por Juliane seguia dura, estava também colocada na mesa a proposta de controle de horário dos trabalhadores através do ponto eletrônico. Isso já tinha sido tentado em outras administrações, todas barradas. Os trabalhadores tinham construído uma proposta de controle social e com ela foram para a mesa de negociação, buscando esclarecer ao reitor que a universidade não era uma fábrica de salsichas e como uma instituição educacional não se prestava a um controle estrito como o do ponto. Mas, a conversa com a administração sempre foi difícil. Primeiro porque o reitor raramente se manifestou, sempre alegando que seguia o que mandava a Justiça, preferindo colocar a questão nas mãos da Pró-Reitoria de Gestão ou do chefe de gabinete, Áureo Moraes. 

Durante todo o processo que levou o Ministério Público indicar a implantação do ponto,  a reitoria se limitou a uma defesa formal sobre o tema, sem chamar os procuradores para uma conversa e sem propor uma ação mais agressiva no sentido de discutir a especificidade da universidade. Deixou que a questão corresse sem defender os trabalhadores, usando inclusive a ação como pretexto para acelerar o processo de controle. Estava mais do que claro para os trabalhadores que essa administração seguia a mesma linha de pensamento de praticamente todas (exceto a de Diomário de Queiróz) as que já passaram pela UFSC: a de tratar os TAEs como mão-de-obra desqualificada, sem qualquer ligação com o processo educacional. Para  maioria dos professores – e a administração parece se colocar aí – o TAE não desenvolve qualquer trabalho intelectual, podendo então ser controlado através do relógio. 

A administração finge desconhecer o trabalho dos TAEs que se faz nos espaços de ensino, de  pesquisa e de extensão, afinal, até mesmo os que tem como função abrir e fechar as portas estão envolvidos intelectualmente com seu fazer  e com a educação, porque sabem que se a porta não tiver aberta, o processo educacional não se realiza. Além do que, os que têm essa função não se limitam a ela, visto que esses trabalhadores também são responsáveis pela excelência dos espaços de aula e dos laboratórios, acumulando um conhecimento sobre os equipamentos e os processos que muito professor não tem. Isso é trabalho intelectual. 

O fato é que, passados três anos da administração de Ubaldo Balthazar, a gestão tem sido leonina com os trabalhadores TAEs. Praticamente nenhum avanço nas demandas internas, ainda que existam encontros e conversas amistosas que só revelam a omissão e o não-comprometimento com as promessas de campanha. O desmoronamento do já implantado processo das 30 horas foi central. Tudo foi cancelado sem levar em conta toda a estruturação da vida que já tinha sido modificada. Sem discussão e sem diálogo, os setores que já faziam 30 horas tiveram de desfazer os turnos e fechar os setores. 

Agora, em plena pandemia e todo o desconforto gerado pelo trabalho remoto, que tem esgotado e onerado os trabalhadores, a reitoria coloca como pão comido a implantação do malfadado ponto eletrônico. Nunca lutou junto com os trabalhadores, nunca se comprometeu, nunca sequer tentou compreender a proposta do controle social. Todo o debate sobre o tema sempre foi  marcado por uma postura anti-trabalhador  da pró-reitora Carla Búrigo – uma TAE – mostrando que o ponto nunca esteve em questão para essa administração, visto que nem o reitor, nem a Prodegesp esboçaram qualquer atitude diante das intervenções do Ministério Público e da Justiça.  A administração abriu mão da autonomia, não foi capaz de mostrar a verdadeira face do trabalho realizado na universidade e agora já dá como uma realidade sem volta a implantação do ponto eletrônico. Um ponto que será biométrico, com o uso de câmeras e catracas. Ou seja: O Ministério Público e a Justiça agem como se os trabalhadores da UFSC fossem um bando de irresponsáveis e relapsos, vagabundos em potencial, sempre dispostos a driblar o trabalho. E a administração aceita isso sem pestanejar. É o que pensa também? Acredita que os trabalhadores precisam desse tipo de controle bizarro e fora de propósito?

Claro, fora de propósito para nós que somos TAEs, porque para a administração e boa parte dos professores, é a coisa mais acertada a fazer: colocar um cabresto no trabalhador para voltar a exercer sobre ele o mesmo tipo de controle que havia quando não existia sequer concurso público: a velha moeda de troca para ganhar eleições. Aí, haverá chefes que afrouxarão, pedirão favores, tudo como antes na fazendinha Assis Brasil.

Assim que é hora de os trabalhadores compreenderem o tremendo erro que foi confiar nas promessas do grupo que trouxe Ubaldo para a reitoria. Porque foi um engano. Nem deu sequência às promessas feitas por Cancellier – e esse grupo venceu como defensor de seu legado – nem bancou as próprias promessas feitas. Para os TAEs essa administração não apontou nada de bom.  Pelo contrário.

É tempo de aprender a lição. 



quinta-feira, 2 de julho de 2020

Mulher-gato


Lidar com meu velhinho não é moleza. Os dias são difíceis e tensos, porque a demência é coisa dura de lidar. Mudanças rápidas de humor, a ideia fixa de ir embora, o pega-pega de coisas, o ir e vir sem parar. Uma rotina que não dá folga, ainda mais agora na pandemia. Mas, tem também seus momentos engraçados e mostra o quanto a gente tem a capacidade de se reinventar, ou de descobrir habilidades jamais imaginadas. Uma delas é o radar do movimento. Durante a noite, deito na cama ao lado do pai e quando ele adormece, eu também durmo. Mas, ao menor movimento, mesmo que eu esteja em alfa, acordo. Ele levanta umas quatro vezes para ir ao banheiro e é sempre um salseiro. Mas, eu não falho.

A outra habilidade que descobri em mim é a do olfato apurado,praticamente felino. Como agora ele não se dá mais conta que está fazendo cocô, se desobriga a qualquer momento, sem ir ao banheiro. Nos primeiros dias era aquela confusão, cocô por todo o lado, uma sujeirada. Tentei as fraldas. Não deu. Resolvi colocar nele só calças de pernas bem largas, então, se ele se aliviava, a coisa caia pelas pernas e eu corria para limpar. Estava dando certo. Mas, agora, eu adquiri a capacidade de sentir quando o processo começa. Então eu sinto o cheirinho e já saio correndo com os lencinhos umedecidos para aparar na saída, sem que ele chegue a sujar as calças. É incrível. Estou infalível, como um gato. É uma aventura e tanto. E engraçado. Porque ele sempre faz aquela cara de surpresa intensa.

- Mas, o que é isso?

- Nada não, só um cocozinho.

- Mas que barbaridade.

E assim, seguimos...


segunda-feira, 29 de junho de 2020

Dia do Pedro


Hoje é 29 de junho, dia dos Pedros do mar, dia dos pescadores. Nesse dia, aquático por natureza, nasceu o Pedro, meu amor. Esse canceriano diuturnamente grávido de ternura. Dele, não escapa uma palavra ruim, uma ofensa, um ai. Ele olha para a vida como se realmente tivesse entendido a promessa de que aqui seria um grande jardim, onde seríamos felizes. Pedro nunca saiu do paraíso. Ele o constrói, dia a dia, e generosamente o oferece aos que ama. Não que não sofra. Sim, ele sofre. Já sofreu perdas inomináveis. Mas, enfrenta com a certeza de que o que aqui se cumpriu foi bom e de que haverá o grande encontro. Então, volta a brincar no paraíso, com seu riso de menino, tornando tudo colorido.

Quando meu pai chegou, trazendo a demência e toda a mudança que gerou nas nossas vidas, ele tratou de ir tirando os entraves do caminho, abrindo os espaços para que o riso se mantivesse e a ternura fosse o fio condutor da nova existência. Ele já havia aberto espaços para dois desconhecidos vindos de Minas, que em pouco tempo já ocupavam seu coração, haveria de achar um canto para meu velho pai. E tem sido assim. Ele é o risonho pastor de gentes e bichos, mesmo dos gatos que diz não gostar. Sua presença ilumina a casa bem mais do que o gerador mais potente, bem mais do que o sol. Agora, avô duas vezes, de vera e emprestado, ele volta a abrir novos espaços nesse coração gigante, cornucópia de amor. Tudo é dádiva.

Com ele eu vivo desde há anos, quase sem rugosidades, e como Jesus apontando ao seu discípulo preferido eu também vaticino: Pedro, tu és pedra, e nela amarro meu barco, evitando que ele se perca no mar da demência e do imponderável. Ancorada no teu cais, eu me transformo em pandorga, e voo, para além do meio-dia, lá onde a dor não pode me alcançar. Porque tu és esse menino que não tem medo de soltar o fio, já que sabes que sempre encontrarei o caminho para tua morada.

Amo-te, broto. Amor meu. Feliz aniversário.


sábado, 27 de junho de 2020

Entre o tribunal das redes e a liberdade


Eu gosto de novidades e gosto de aprender. Por isso sempre me encantam as novas tecnologias, as novas plataformas, e toda essa mudança louca pela qual passa o nosso planetinha. Acho revigorante e procuro me atualizar. Mas, não faço disso meu mundo. Ainda tenho como maior paixão essa coisa do corpo-a-corpo com a vida. Pode ser essa minha veia repórter. Caminhar pela vida real, sentir os gostos, os cheiros, olhar no olho, tocar na mão, abraçar.

Só que agora com essa pandemia que nos limitou os movimentos e nos confinou, acabei por estar bem mais tempo no mundo virtual, creio que como todo mundo. E, com o passar dos dias, fui me aterrorizando. Já havia percebido que as tais redes são pequenos tribunais de exceção. As pessoas estão sempre prontas para o julgamento sumário e para a condenação sem apelação. É espantoso e cruel. E se tu tentas argumentar, buscar o debate, não te é permitido. Julgamento feito, condenação dada, nada mais a fazer.

Outro dia li alguém a dizer: “essas pessoas ficam jogando suas histórias, como se isso tivesse alguma importância”. Santo Marx. Mas, se não louvarmos nossa caminhada histórica, o que vamos louvar, nós, os trabalhadores, que só temos de nosso a nossa história e nossos corpos nus? Há uma inumerável multidão de pessoas que acredita piamente que o mundo começou quando elas entraram nele. E tudo o que já foi feito antes, não tem valor. Uma geração de arrogantes e de seres incapazes de ouvir. Vivessem numa aldeia indígena seriam ensinados sobre o valor da história dos anciãos.

Navegando pelas redes sociais tenho me sentido assim como o Zaratustra, do velho Nietzsche. Aquele que passou 10 anos aprendendo coisas e veio para a cidade dividir os conhecimentos. Mas, o que encontrou foi uma turba insensível e alheia, perdida em suas próprias verdades, no caso do nosso mundo, verdades muitas vezes construídas via uatizapi. Zaratustra querendo mostrar os horrores do último homem, buscando a ponte para o além do homem. Ninguém para ouvir. E falo isso já sabendo que alguém vai dizer: Nietzsche era um machista. E o além da mulher? Ô, glória! E dê-lhe pedra.

Zaratustra desiste de tentar falar com as gentes. “Não serei pastor, nem coveiro. Cantarei aos solitários”. Por vezes me sinto assim. Mas, sou filha de um tempo bem antigo no qual o coletivo sempre esteve acima do individual ou do particular, e prefiro ser gregária, agarrada a minha classe. Apavora-me pensar que a cada dia que passa, vamos perdendo mais gente no caminho para a intolerância e para os mais diversos fundamentalismos. E que, por isso, o mundo anda tão triste, tão gris.

Confesso que tenho dado umas fraquejadas. Mas, ampara-me a literatura. Há um livro em particular do qual gosto muito, é o “A Caverna”, do José Saramago, que conta a história de uma família que não suporta mais viver no mundo no qual lhes era seguro viver. E, junto com um cachorro, Achado, tomam o rumo do sabe-se lá. Ah, como me identifico com aquele momento de partida do Centro, num carro velho, cheio de coisas bonitas e singelas, feitas com as próprias mãos, recheadas de história.

Estou presa nesse átimo entre ficar no rebanho, ou levantar âncora. Sei que sempre haverá uma pequena “família” – parentes de alma - para sair por aí comigo, desligada de todas as redes, livre de todos os tribunais. E, com essa gente, sentar em volta de uma fogueira, para contar minha história, e ouvir a deles, respeitosamente, porque será só o que teremos. E será suficiente. Esse é o mundo pelo qual ainda luto!


domingo, 21 de junho de 2020

Pai, trabalho e confusão


Quando comecei no jornalismo não tinha esse lance de salinha e computador. Não. As salas eram amplas e todos trabalhavam juntos. O ato da escrita, da construção da notícia, tinha de ser feito em meio ao barulho das vozes, da máquina de escrever, do telex, dos telefones tocando. Uma balbúrdia. A reportagem de televisão era ainda muito pior. Terminava as entrevistas e tinha de escrever o texto do off no joelho, sentada num meio fio ou dentro do carro, porque o material tinha de chegar semi-montado na redação. Ali aprendi o dom da síntese e essa misteriosa capacidade de entrar dentro de uma imaginária bolha silenciosa em meio ao caos. Talvez por isso que agora, trabalhando em casa, na pandemia, os textos consigam sair de alguma forma. A balbúrdia é grande. Tenho o pai, com demência, que me exige demais, cachorros, gatos, quintal, e tudo gira em torno de mim sempre ao mesmo tempo.

Basta que eu me organize, na mesa da cozinha, e abra o computador, para tudo começar. O pai gruda em mim, desde o amanhecer até a hora de dormir. Não há folga, e ele mesmo não descansa. Desde que acorda até à noite fica andando, mexericando nas coisas. Então, escrevo uma linha e saio à porta para ver se ele não se enredou em algum galho no quintal. Escrevo outro parágrafo e lá vou tirar das mãos dele os meus recuerdos de viagens que ficam no armarinho da sala. Já quase não há um inteiro. Ou ele já quebrou a cabeça, ou a pata, ou o rabo. As lembranças têm mesmo de ficar só na memória.

Também é preciso vigiar para ver quando ele faz xixi ou cocô, pois há que entrar em campo toda a parafernália da limpeza. Tenho pelo menos uma quatro toalhas e 12 panos de chão que uso diariamente nessa tarefa e todos precisam ser usados e lavados a cada tanto. Também há que ficar de olho para ver se ele não come demais, pois como não se lembra do que fez há um minuto, ele assalta a fruteira dezenas de vezes, podendo às vezes comer frutas demais. Também gosta de fuçar nos sacos de pão e faz uma bagunça danada. Deus o livre que eu diga alguma coisa. Vira no Jiraia. Há que deixar ele no seu mexe-mexe. Só que isso dá um trabalho danado e concentrar em um tema é quase impossível. Como ele não dorme de tarde, não há descanso.

Se tenho alguma reunião de trabalho, feita pelo computador, ele fica parado na minha frente querendo que eu pare de falar com as outras pessoas e fale só com ele. Ciumento que só. E se estou participando de alguma atividade extra, como uma conferência ou uma entrevista, tenho de fugir e me entocar no quarto para que ele não interrompa, brabo. E, mesmo escondida, fico saindo de quando em quando para dar uma espiada. Raramente consigo me concentrar na coisa em si. É extraordinário que consiga concatenar ideias.

Quando o dia vai terminando vem a novela do “eu quero ir embora”. Ele fica na porta me chamando: vamos, vamos. E nessa desamarração eu levo pelo menos uma hora e meia. Aí já é hora do jantar. Toca arrumar a comida e cuidar para ver se não está fazendo estripulia com a janta. Não dá para descuidar. Depois, quando tudo acaba, volto outra vez para o computador ver se consigo finalizar algo. Ele fica sentado ao meu lado ouvindo o Programa do Rolando Boldrin, e a cada minuto me convoca para fazer um comentário ou qualquer outra coisa incompreensível. Nessa hora já estou em exaustão, mas ainda arrisco mais um pouquinho de trabalho. O que é automático sai tranquilo, mas pensar exige mais. Ler, então, é uma odisseia.

Com muito custo o convenço a ir ver a novela. Ele vai, mas fica indo e vindo, cobrando atenção. O máximo de tempo que consigo é uns 15 minutos e aí tenho de acelerar para poder encerrar algum tópico ou parágrafo. A parada é dura. Lá pelas nove horas da noite ele começa a demonstrar cansaço e o coloco pra dormir. Ele deita e ronca. Mas aí eu mesma já não tenho mais qualquer fatia de energia. Toca-me a desabar na cama e dormir também, já que preciso aproveitar para descansar quando ele mesmo dorme. E assim lá se vai mais um dia na pandemia, como se estivesse diariamente girando dentro de um furacão. A sorte é que, de alguma forma, sempre vivi assim, ainda que em menor medida. Por isso, espero sair viva!