quinta-feira, 23 de abril de 2020

O Brasil e a pandemia



O Brasil vive um clima de estupefação, mas ainda assim, com a maioria da população inerte e desnorteada. Com o avanço das infecções por coronavírus os brasileiros assistem o governo federal tomar uma série de medidas anti-vida, sem conseguir esboçar reação. Os casos aumentam e justamente nesse momento de subida das infecções o governo troca a equipe do Ministério da Saúde, que, em vez de apontar caminhos para o enfrentamento da doença, se manifesta sobre como será a economia quando o pico passar. É uma situação aterrorizante.

A crise no Ministério da Saúde surgiu porque o então ministro, médico ortopedista, assumiu o comando da luta contra o coronavírus de maneira bastante ofensiva. Dava entrevista coletiva todos os dias orientando a população, informando e sugerindo que todos atendessem ao chamado de permanecer em casa. Essa posição era totalmente contrária à posição do presidente Jair Bolsonaro, que dizia em alto e bom tom: que morram todos os que tiverem de morrer, porque  não pode parar a economia. 

Mas, o ministro decidiu seguir o caminho apontado pelas autoridades médicas e manteve a posição de isolamento social. A coisa foi ficando insustentável e os dois batiam boca através dos repórteres. Acabou que o presidente demitiu o ministro que, afinal, estava aparecendo para a população como um cara verdadeiramente preocupado com a saúde das pessoas. Estava tendo mais popularidade que o presidente. E o presidente não suportou. 

A demissão do ministro Mandetta desarticulou todo o trabalho de combate que vinha sendo feito via Ministério da Saúde. O novo ministro escolhido pelo presidente tinha duas missões básicas: não aparecer  mais que o presidente e mandar todo mundo voltar ao trabalho. E assim está sendo feito. Acabaram-se as coletivas diárias e a orientação é de que a vida volte ao normal. Apenas ontem o novo ministro, um médico/economista que nunca na vida atuou no setor público da saúde, apareceu na televisão com sua equipe. Um show de bizarrices. Anunciou o novo secretário do ministério, que tem como virtude apenas ser um militar. Nenhuma experiência em lidar com saúde, muito menos com uma crise dessa envergadura. 

A coletiva do novo ministro causou estupor. Nenhuma orientação para a população. Nada. Apenas uma algaravia absurda sobre como deverá ser a economia depois que a pandemia passar. Não dava para saber se quem estava ali era a representação da Saúde ou da Economia. Um terror. 

No campo da luta social a vida está estagnada. Com a confusão causada pelas orientações diferenciadas – cada governado define sua estratégia – os trabalhadores parecem resignados. Aqueles que não conseguem ficar em isolamento e seguem trabalhando não encontram caminhos a não ser colocar uma máscara e seguir driblando o vírus até quando der. Mesmo sabendo que isso não é suficiente. Durante mais de 30 dias, tempo que durou a quarentena, uma massa gigantesca de gente seguiu com vida normal, saindo de casa todos os  dias para trabalhar, sem que houvesse qualquer ação por parte de seus sindicatos, salvo raríssimas exceções. 

Agora, com o novo ministro completamente submetido aos desejos do presidente de retomar a economia, tampouco se percebe alguma ação por parte das Centrais Sindicais ou dos movimentos sociais. Tudo está paralisado, até porque boa parte das lideranças está em isolamento social. Enquanto isso, os partidários do presidente – incitados por ele  - fazem carreatas, passeatas e atos públicos pedindo a volta do comércio e abertura total de tudo. Não acreditam na pandemia e dizem que é um golpe dos chineses para desestabilizar o presidente do Brasil. 

No geral, os governadores que ainda mantinham uma posição de garantir o isolamento social também decidiram se render aos desejos do presidente, sabe-se lá motivados pelo quê. E justamente no momento em que o país começa a mostrar a falência dos sistemas de atendimento, resolvem reabrir o comércio e fazer a vida voltar ao normal.  Uma sandice sem explicação. O resultado é a população toda na rua outra vez, sem os cuidados necessários. O que virá, ninguém sabe, mas pode-se intuir pelo que já aconteceu em outros países. 

Não bastasse isso, o novo ministro disse que o país não vai investir em compra de respiradores ou novas UTIs porque depois não haverá o que fazer com isso. Assim, respalda a ideia de Bolsonaro de que os que tiverem de morrer, que morram logo para que a vida siga. 

Alguns estados como o Amazonas e São Paulo têm apresentado altos índices de mortes e os caixões começam a aparecer nas telas da TV. Mas, ainda assim, a maioria dos brasileiros parece não acreditar que as coisas possam ficar pior. Uma boa parte acusa os que insistem nos cuidados de “querer que tudo dê errado para prejudicar Bolsonaro”. É uma loucura sem fim. Essas pessoas realmente acreditam que o mundo está girando em torno do presidente do Brasil e que tudo que acontece ou deixa de acontecer tem relação com ele.  Nunca se viu nada igual.

O antagonista natural de Bolsonaro, que deveria ser o PT e seu líder Lula, até agora manteve a posição de não atacar o presidente, sendo que Lula chegou a declarar que não iria chamar o “Fora Bolsonaro” que muitos brasileiros já estão chamando. De novo, deixa uma parcela bem significativa da população sem direção. 

Assim, as gentes brasileiras seguem. Alguns devem permanecer em isolamento, mas serão poucos, porque o trabalho vai acabar definindo a volta. A maioria está nas ruas de novo e o ministro da saúde, candidamente, diz que se morrer muita gente, quem sabe o país volta a apostar no isolamento. Mas terá que morrer muita gente. Ou seja. É um governo que espera e aposta na morte. E ainda assim, o presidente segue mantendo um bom índice de aprovação. 

Em meio à pandemia Bolsonaro incita seus seguidores a pedir intervenção militar e o fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal. As instituições fazem ouvidos moucos e permitem que a Constituição seja rasgada, ao vivo e a cores. O máximo que fazem é lançar notas de repúdio. Da mesma forma os partidos de esquerda. 

A nau Brasil parece seguir desgovernada, mas não, ela segue muito bem governada pelos interesses do capital. Afinal, em meio ao caos, nenhuma palavra dos empresários, dos industriais, da representação da classe dominante. Estão todos calados esperando que seus trabalhadores voltem e sigam girando a roda do dinheiro. Creio que desconhecem que quando Nero tacou fogo em Roma, queimou foi tudo. 
  

Renan


Eu não conheci o Renan, mas sabia de suas histórias de luta. Nunca nos encontramos para um papo ou coisa assim. As poucas vezes que nos encontramos foi em situação de eleição para o Sindicato dos Jornalistas e Fenaj. E estávamos em campos diferentes. Ele nunca me dirigiu a palavra, apenas olhares acusadores. Ele não gostava de mim. Creio que foi envenenado por colegas adversários, porque, afinal, não me conhecia. Mas, ainda assim, ele foi capaz de um ato generoso. 

Tempos depois de o grupo no qual estava vencer o sindicato ele publicou um texto comentando um livro meu. Dizia que estava lá na sede, limpando as estantes e o encontrara. Renan deve ter sido o único colega que leu o livro e fez um comentário bem honesto sobre ele. Como repórter que era, sabia reconhecer uma reportagem. O texto me chegou por outras vias, e achei bonito. Ele teve a delicadeza de, apesar de envenenado, dar uma espiada. E gostou do que leu. E foi digno em fazer um comentário público. Isso diz muito de quem ele era. 

Quando entrei na imprensa catarinense era lendária a sua história de briga com a RBS e seu solitário protesto deitado em frente à empresa, exigindo seus direitos. Lendários também eram seus textos, suas reportagens cheias de viço e bossa. Renan era um repórter, absolutamente repórter. Com o passar dos anos a gente ouvia falar: Renan tá na China, Renan tá na guerra, Renan está incomodando alguém. Ele era um furacão. E a gente lia suas reportagens com quem sorve uma água fresca no deserto. Escrevia como ninguém e era capaz de fazer um baita texto sem quase nada. Só observando e descrevendo. 

A última vez que o vi foi, brevemente, por ocasião da campanha do Nildo Ouriques, como candidato a candidato à presidência. Ali estava ele, grudado em mais uma causa impossível. Trabalhamos em uníssono. Foi a primeira vez. 

Depois, fui acompanhando sua luta com o transplante e tudo mais. No dia em que vi sua última postagem liguei para o Nildo e disse: o Renan vai sair de mais uma, ele sempre sai. Danado, não saiu. 

Fica aqui meu carinho por esse grandalhão do jornalismo, em todos os sentidos. Um repórter que iluminava o jornalismo com seu texto. E, por conta disso, é um desses mortos que nunca morrem.   

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Notas da Pandemia

Acho chique quem nessa hora pandêmica consegue ler Hegel, estudar, escrever tese. Eu não consigo. Acordo de manhã, estupefata. Ufa. Tô viva. Olho para o lado e o peito do pai tá subindo e descendo. Outro alívio. Levanto, dou comida pra os bichos e com renovada surpresa vejo despertarem meu companheiro e meu sobrinho. Ufa de novo. 

A manhã passa rápida, consumida no trabalho das coisas do Iela. É o momento em que consigo suspender o pensamento e focar no que tenho de produzir do meu trabalho. Faço o que posso, distribuindo textos, vídeos, mas não tenho conseguido escrever em profundidade. Tudo está nebuloso. 

A tarde passa e eu nos cuidados com o pai. E o tempo todo essa turbulência no espírito. Estaremos vivos amanhã? Tento ler um livro, não dá. E quando a noite chega me encontra ainda nessa ebulição. Falo com amigos, família, mas a sensação de urgência continua. E até o pôr do sol é vislumbrado com uma nostalgia maior. De noite vejo as notícias e meu coração ensombrece. O mundo me dói. As pessoas morrendo sozinhas nos hospitais me doem. Os enterros solitários me doem. As pessoas chorando na porta dos hospitais me doem. Não consigo ficar de boa. Tudo está tão triste. Não entendo como algumas pessoas podem seguir vivendo como se nada. 

Eu sinto uma profunda tristeza. O Brasil me dói. Pela pandemia, pelo mau governo, pela inconsequência dos que ocupam o poder. São dias sombrios. Queria mais do que notas de repúdio. Não sei. Queria poder ficar leve. Mas não dá. Espero o sono, inquieta e incapaz de fixar atenção em nada. Acordo no meio da noite e olho para o pai. Respira. Volto a dormir . 

E no dia seguinte, acordo, estupefata.


quarta-feira, 15 de abril de 2020

Os desafios do cuidador


Se existe algo que o processo de demência nos ensina é que não há caminho seguro, tampouco estabilidade. Quando a gente pensa que conseguiu encontrar uma forma de lidar com algum aspecto da doença, lá vem outra novidade a nos interpelar, exigindo novas técnicas, novos modos de lidar, tudo outra vez.  Com o pai tem sido assim, praticamente a cada dois, três dias um novo problema se apresenta e há que encontrar novas soluções. 

A novidade agora é com relação ao remédio. Não há como fazê-lo engolir os comprimidos. Simplesmente ele não consegue. Põe na boca, dá o gole de água, mas trava. Não consegue engolir. Imediatamente cospe fora. Alguns, como a  Vitamina B, consegui encontrar em gotas, mas o da pressão não tem jeito. Então, a saída é amassar e colocar na comida. Mas, o gosto é ruim e ele logo percebe, então muitas vezes cospe fora também. É uma novela mexicana. Por vezes, para garantir que tome um comprimido eu gasto dois ou três deles. Mesmo as gotas, se ele percebe que eu boto algo no suco, já não toma. Então, é todo um processo de esconde-esconde na cozinha.

Na mesma linha do remédio, tem vezes que parece que ele esquece como é que se engole. Põe o café na boca, por exemplo, e fica com as bochechas cheias, olhando para mim, como em desespero para jogar fora. Tenho que correr com o baldinho para ele cuspir tudo. Não há jeito de comer. Não consegui descobrir uma saída para isso. Não sei se é uma evolução da doença ou se é passageiro. Porque passado algum tempo, eu ofereço para ele outra vez o café, o pão ou a comida e ele come. Mas, volta e meia isso acontece. Fico um pouco em pânico, porque não sei o que fazer. Tenho respeitado a vontade dele por enquanto, visto que não é o tempo todo que acontece, mas assusta-me pensar que pode chegar a hora em que ele não vai mais conseguir comer mesmo. 

À noite, o problema é com o xixi. Acorda várias vezes para ir ao banheiro, mas por vezes não consegue chegar. Então, faz nas calças e nem com reza braba deixa eu trocar o calção. Xinga, fica brabo, dá soco, o diabo. Não há santo que faça ele tirar a roupa molhada. Tento secar como posso, mas tem vez que ele segue dormindo molhado. E se tento trocar enquanto dorme, valamideuzi, ele desperta virado no Jiraia. Ainda são poucas vezes que isso acontece, mas e se piorar? Não aceita fraldas nem que vaca tussa. E enquanto tiver sanidade para isso tenho de inventar formas de mantê-lo seco, afinal, aí já vem o inverno. É uma luta. 

De manhã, quando o dia sobe, afastando toda a tensão que a noite traz, ele senta no alpendre, tranquilo como um monge. Eu o observo, silente, porque não sei o que vai acontecer na próxima hora. A vida segue, como uma montanha russa louca. E eu, tentando ser aquela que precisa dar um jeito do passeio ser bom e parar em segurança. Não é fácil!



terça-feira, 14 de abril de 2020

O poder e o coronavírus



Os Estados Unidos é tido como um dos países mais ricos do mundo, e provavelmente é. E, agora, com a explosão do coronavírus, fica bem fácil ver o porquê. No mundo capitalista a riqueza é produzida pelos trabalhadores e se concentra na mão de um número pequeno de pessoas, que são as que detêm os meios da produção. Justamente por ser assim, aqueles que são os responsáveis pela produção da riqueza, dela não podem usufruir. A eles falta educação, saúde, moradia, segurança, lazer, arte, tudo. Sua função é unicamente rodar o moinho do capital.

Com a chegada do novo vírus mortal, a realidade aparece na sua expressão mais crua. Esses trabalhadores não têm a menor importância para o capital. Eles não têm nome, não têm sonhos, não tem sentimentos, não têm família, não têm existência real. São números. E, como tal, facilmente trocados sem que haja qualquer turbulência no andar da carruagem. 

Os Estados Unidos, sendo o país mais rico do mundo,  tem a maior taxa de pessoas infectadas – mais de 500 mil -  e o maior número de mortes, chegando hoje (dia 14 de abril) a 23 mil pessoas. Números que não são os números reais pois pode haver muito mais, uma vez que não há testagem em massa. Portanto, provavelmente há muita gente circulando pelas ruas com o vírus e transmitindo.  

O presidente Donal Trump, no começo da pandemia havia tripudiado da letalidade do vírus, dizendo que era apenas uma gripe, mas com a explosão dos casos foi obrigado a tomar algumas atitudes, afinal, é candidato à reeleição. Ainda assim, as medidas tomadas continuam não sendo as ideais e é por isso que as mortes se aceleram. Pela primeira vez na história do país o presidente foi obrigado a declarar desastre em todos os 50 estados. 

Não obstante, tal como o presidente brasileiro – que lhe segue os passos – Trump confunde os estadunidenses, hora falando bobagens, ora dizendo que agora, com essa declaração de desastre os EUA vencerão o vírus. Ele também trabalha contra os cientistas ligados à própria Casa Branca, que continuam afirmando: se as medidas de isolamento tivessem sido tomadas, a crise não seria tão violenta. Trump brinca no seu twitter, republicando opiniões de pessoas que pedem a demissão desses profissionais. As semelhanças com o Brasil não são coincidências. É o mesmo descaso com a maioria das pessoas. Trump, ignorando o avanço da doença, insiste que o país deve retomar a “normalidade” no primeiro de maio. 

Enquanto isso, a cidade de Nova Iorque, o coração pulsante da nação, é a que está mais fortemente impactada com a letalidade do vírus, com 10 mil mortos nessa terça-feira, sendo que representa a metade dos mortos no país. A comunidade médica e os trabalhadores da saúde são os que estão dando batalha, como em todo o mundo, contra todas as dificuldades. 

No país, o índice de morte entre os negros e pobres é altíssimo, desvelando também o aspecto de raça/classe, já que os negros estão, em sua maioria, na base da pirâmide social. E morrem justamente porque os pobres, nos Estados Unidos, não têm acesso à saúde. Ou a pessoa paga um seguro ou está morta. Não existe um sistema público capaz de dar suporte a toda essa gente. É por isso que muitos, mesmo doentes não procuram os hospitais. Sabem que se saem vivos, devem até a alma. E, como dever o que não têm?

Lá, como cá, também o governo busca formas de salvar os ricos, colocando a conta para os trabalhadores. É o caso do pessoal do agronegócio que deverá ser beneficiado com uma ajuda direta da Casa Branca, podendo ainda reduzir o salário de pelo menos 250 mil trabalhadores estrangeiros que tem permissão temporária para ficar no país trabalhando nos campos. São trabalhadores essenciais porque, sem eles, a cidade não come. Ainda assim, serão penalizados para que os fazendeiros não percam lucros. É o uso cirúrgico de uma gente que o país odeia (os migrantes), mas da qual necessita. Eles que sobrevivam como puderem. Caso morram, amanha terá mais gente chegando e tudo bem.  

Outro drama que não encontra visibilidade é o dos imigrantes que estão presos nos centros de detenção em todo o país. Gente que não cometeu crime algum, unicamente tentou entrar no país e está confinado em prisões insalubres e violentas. E agora enfrentam essa pandemia sem qualquer preocupação por parte do governo. Tanto que as entidades de Direitos Humanos têm se manifestado em frente aos cárceres, exigindo que o Serviço de Imigração garanta a saúde das pessoas, embora sem sucesso. Inclusive, há cárceres exclusivos de crianças, separadas dos pais e sem cuidados. 

Ou seja, a teoria que sustenta a forma de enfrentamento do coronavírus nos Estados Unidos é a mesma levada no Brasil. Que se infecte logo a maioria das pessoas, que morram os doentes, os fragilizados, os criminosos e que sobrem só os “fortes”, os que passarem pelo vírus sem sintomas ou com sintomas leves. Assim, a economia não para e os ricos continuam acumulando lucros. Num mundo de sete bilhões de almas não importa para o sistema capitalista e seus controladores que pereçam um milhão de vidas. Elas são facilmente substituídas. E segue o baile.

Essa lógica perversa encontra seguidores em todo o mundo. Alguns, por que acreditam mesmo numa “melhoria” da raça e outros porque acreditam cegamente nos seus líderes a ponto de disseminarem pelas redes sociais e nas suas relações interpessoais as mentiras que sustentam a racionalidade certeira do capital.

No Brasil, um vídeo de uma moradora do interior de São Paulo, resistindo a um pedido de policiais para que fosse para casa, respeitando o isolamento social, conseguiu, em poucos minutos, expor os argumentos que sustentam uma espécie de insanidade, que só é para as gentes, não para os governantes. Segundo ela, o vírus é uma invenção dos chineses, com o apoio do PT, para derrubar Bolsonaro. Ou seja, ela crê, sem pejo, que foi criada uma pandemia mundial unicamente para atacar o presidente do Brasil. Cenas semelhantes se multiplicam não só no Brasil, mas com versões locais em outros países que adotaram a lógica do “morram logo”, tal como os Estados Unidos. 

E assim, o planeta vai, mergulhado numa loucura sem precedentes. Uma loucura muito bem dirigida e direcionada. Nas altas camadas dos governos, das multinacionais, das entidades da classe dominante, a vida segue sem novidades, com cada um pensando em como acumular mais lucro e mais poder nessa hora de desespero entre a maioria dos trabalhadores. Para eles, é hora perfeita. 

Deveria ser um bom momento para que os trabalhadores percebessem qual é o seu papel nesse mundo capitalista. Mas, ao que parece, em vez de aflorar a consciência crítica, o que mais cresce é o misticismo e o fundamentalismo. Sem os instrumentos para compreender em profundidade a realidade, um número expressivo de pessoas se volta para o céu, para o milagre, esperando que a saída venha de algum deus poderoso e não da revolta organizada da classe trabalhadora. 

Com o isolamento social e a disseminação exponencial de mentiras a situação fica ainda mais difícil de ser enfrentada. 

Apesar disso, há que atuar e trabalhar no sentido de desvelar a realidade. A tarefa cotidiana e permanente. 

segunda-feira, 13 de abril de 2020

As rendas do Dinho


Cinco horas da manhã, o dia ainda dormia. O pai,  zanzado no quarto na sua dança de arrumação. São pelo menos duas horas nessa função. Pouco posso fazer. Então, fui ver o documentário da jornalista Adriane Canan, “As rendas de Dinho”. Não pude ir ao lançamento e já havia tempos que andava curiosa por assistir. Ela me mandou o enlace secreto, aproveitei.

O Dinho é um morador do Pântano do Sul que é considerado hoje um patrimônio histórico/afetivo do bairro, embora nem sempre tenha sido assim. Na sua história de vida ele mesmo lembra quando teve de ir embora de Florianópolis porque alguém na comunidade o considerava a vergonha do lugar. Ele é rendeiro, profissão sempre fadada às mulheres e que é marca registrada da ilha de Santa Catarina.  E foi essa sua singularidade que atraiu o olhar da documentarista. 

O documentário traduz bem o espírito do Dinho. É terno, leve, alegre, colorido e profundo. Delicadamente vai enredando a renda da vida desse homem que é como um raio de sol na comunidade tradicional de pescadores. A partir da fala dele mesmo e das pessoas do seu entorno o filme desvela o caminho feito desde o mar do Pântano, passando por São Paulo, Canadá e depois a volta para casa. Outra vez em frente ao mar, os olhos nos cardumes,nos barcos e nas gentes. 

No Pântano, depois de tantas andanças, Dinho se viu perdido de alguns de seus mais importantes amores e a vida virou tristeza. Então lembrou que sabia rendar e começou a fazer renda na praia. A partir daí, seu riso aberto voltou e a vida recomeçou apesar da dor.

O filme retrata esse homem e sua história de buscas, perdas e reencontros. Ele eterniza um ser que é também essência do Pântano, reconhecido e amado. Adriane Canan narra o local, mas consegue abarcar a universalidade do humano. Ela cristaliza a memória da nossa cidade e ainda oferece um presente: o Dinho, na sua singeleza e na sua capacidade de reconstrução. No rosa esvoaçante do vestido, no azul do mar e no riso de menino dança a alegria de existir e amar. 

Belo trabalho Adriane. Obrigada... 

sábado, 11 de abril de 2020

O isolamento e o pai


O isolamento social tem cobrado seu preço aqui em casa. Misturado com a demência do pai o resultado é um desastre. Primeiro que os dias se converteram todos em domingo, com todo mundo em casa. E com mais gente circulando, o pai perde a centralidade da atenção. Fica com ciúmes e aí é um deus nos acuda. Agride todo mundo, perde a tramontana e fica num vai-e-vem sem fim, como um bicho acuado. Faz a volta na casa umas mil vezes, andando sem parar, e quando fica bem transtornado começa a se meter no meio das árvores, do arbustos, da plantação. Tudo isso é um risco tremendo, e tenho de ficar andando atrás dele porque se deixo sozinho ele pode cair e se machucar. Não aceita que eu segure seu braço, então só posso ficar como uma sombra, rezando para conseguir segurar se ele for ao chão.

Sem poder sair de casa, a rotina do pai se quebrou e com isso também quebra alguma coisa no cérebro, imagino eu. Nos primeiros dias eu ia inventando uma mentira ou outra, mas com os passar do tempo já fui perdendo os argumentos. E ele fica no portão, com os olhos num vazio cheio de desespero.

Existe uma tal síndrome do pôr-do-sol que se constitui num desejo irrefreável de sair, de "ir pra casa". E a única forma de fazer esse desespero passar é sair, caminhar, encontrar pessoas, distrair. Sem isso, vem a violência, a raiva, e a descompensação. isso tem seus reflexos durante o dia todo e fica ainda pior durante a noite. Aí mistura tudo. A aflição pelo vírus que aí está e que pode atingi-lo e também pelo estado de sofrimento que o confinamento tem causado.

Outro dia quando a rua parecia vazia de gente eu abri o portão e pensei: vou andar com ele uns metros e voltar.Mas qual, ele queria ir no barbeiro e como sabe o caminho foi me arrastando. Tive de usar todas as artes e sortilégios para fazê-lo voltar. Voltou emburrado e a emenda ficou pior que o soneto.

A ânsia por sair agora também aparece durante à noite e, do nada, ele levanta da cama e sai andando no rumo do portão. Se eu tranco a porta é um escândalo, então tenho de deixar sair. Procuro cobri-lo com bastante roupa quente, mas ele vai arrancando tudo. E eu tenho de ir recolhendo e tentando colocar tudo de volta, afinal, as noites são frias.Ele finca o pé no portão e não sai. Eu pego a sombrinha e abro, para tentar evitar o sereno. A cena é louca: na madrugada estrelada, eu com a sombrinha aberta no portão. É um terror digno de Stephen King. É o vírus, é a demência, é a possibilidade de uma gripe qualquer, uma descompensação maior. Tudo é sofrimento.

Um pouquinho de paz vem de manhã quando Rolando Boldrin consegue segurar sua atenção. É quando eu também consigo colocar em dia o trabalho, que igualmente me cobra tempo. E é uma dureza tentar concentrar depois de todas essas aventuras, sabendo que logo logo elas vão recomeçar.

Nesse turbilhão estou, já quase mergulhada na demência também. Porque lá fora tem Bolsonaro, tem Trump e tem uma gente ruim respaldando a selvageria dos feitores do capital. O pouco de sanidade me vem dos livros, os quais vou sorvendo quando possível, como se fossem pequenos oásis no deserto da solidão.