O isolamento social tem cobrado seu preço aqui em casa. Misturado com a demência do pai o resultado é um desastre. Primeiro que os dias se converteram todos em domingo, com todo mundo em casa. E com mais gente circulando, o pai perde a centralidade da atenção. Fica com ciúmes e aí é um deus nos acuda. Agride todo mundo, perde a tramontana e fica num vai-e-vem sem fim, como um bicho acuado. Faz a volta na casa umas mil vezes, andando sem parar, e quando fica bem transtornado começa a se meter no meio das árvores, do arbustos, da plantação. Tudo isso é um risco tremendo, e tenho de ficar andando atrás dele porque se deixo sozinho ele pode cair e se machucar. Não aceita que eu segure seu braço, então só posso ficar como uma sombra, rezando para conseguir segurar se ele for ao chão. Sem poder sair de casa, a rotina do pai se quebrou e com isso também quebra alguma coisa no cérebro, imagino eu. Nos primeiros dias eu ia inventando uma mentira ou outra, mas com os passar do tempo já fui perdendo os argumentos. E ele fica no portão, com os olhos num vazio cheio de desespero. Existe uma tal síndrome do pôr-do-sol que se constitui num desejo irrefreável de sair, de "ir pra casa". E a única forma de fazer esse desespero passar é sair, caminhar, encontrar pessoas, distrair. Sem isso, vem a violência, a raiva, e a descompensação. isso tem seus reflexos durante o dia todo e fica ainda pior durante a noite. Aí mistura tudo. A aflição pelo vírus que aí está e que pode atingi-lo e também pelo estado de sofrimento que o confinamento tem causado. Outro dia quando a rua parecia vazia de gente eu abri o portão e pensei: vou andar com ele uns metros e voltar.Mas qual, ele queria ir no barbeiro e como sabe o caminho foi me arrastando. Tive de usar todas as artes e sortilégios para fazê-lo voltar. Voltou emburrado e a emenda ficou pior que o soneto. A ânsia por sair agora também aparece durante à noite e, do nada, ele levanta da cama e sai andando no rumo do portão. Se eu tranco a porta é um escândalo, então tenho de deixar sair. Procuro cobri-lo com bastante roupa quente, mas ele vai arrancando tudo. E eu tenho de ir recolhendo e tentando colocar tudo de volta, afinal, as noites são frias.Ele finca o pé no portão e não sai. Eu pego a sombrinha e abro, para tentar evitar o sereno. A cena é louca: na madrugada estrelada, eu com a sombrinha aberta no portão. É um terror digno de Stephen King. É o vírus, é a demência, é a possibilidade de uma gripe qualquer, uma descompensação maior. Tudo é sofrimento. Um pouquinho de paz vem de manhã quando Rolando Boldrin consegue segurar sua atenção. É quando eu também consigo colocar em dia o trabalho, que igualmente me cobra tempo. E é uma dureza tentar concentrar depois de todas essas aventuras, sabendo que logo logo elas vão recomeçar. Nesse turbilhão estou, já quase mergulhada na demência também. Porque lá fora tem Bolsonaro, tem Trump e tem uma gente ruim respaldando a selvageria dos feitores do capital. O pouco de sanidade me vem dos livros, os quais vou sorvendo quando possível, como se fossem pequenos oásis no deserto da solidão.
Elaine Tavares. Jornalista. Humana, demasiado humana. Filha de Abya Yala, domadora de palavras, construtora de mundos, irmã do vento, da lua, do sol, das flores. Educadora, aprendiz, maga. Esperando o dia em que o condor e a águia voarão juntos,inaugurando o esperado pachakuti. Contato: eteia@gmx.net / tel: (48) 99078877
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Este é o pressuposto teórico básico do jornalismo praticado pela autora deste blog. Seguindo a senda da Filosofia de Libertação, que busca olhar o mundo a partir do olhar da comunidade das vítimas do sistema capitalista, o jornalismo de libertação se compromete em narrar a vida que vive nas estradas secundárias, nas vias marginais. O jornalismo de libertação não é neutro nem imparcial. Ele se compromete com o outro oprimido e trata de, na singularidade do fato, chegar ao universal, oferecendo ao leitor toda a atmosfera que envolve o assunto tratado. (Jornalismo nas Margens. Elaine Tavares. 2004)
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