quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

O tempo e o pai



A vida de um cuidador de idoso não é bolinho. Além de ter de dar conta do trabalho, que garante a existência, quando chega a casa tem uma infinidade de tarefas para cumprir. O pai fica numa alegria quando eu chego. E gosta que eu fique paparicando. Então, eu trato de arrumar o café, o qual tomamos juntos, conversando sobre a manhã que passou, o almoço, a sesta. Mas, depois disso preciso dar início a arrumação. Trocar roupa de cama, pois sempre tem alguma surpresinha. Limpar de cima a baixo o banheiro, pois a pontaria já está prejudicada. Juntar as roupas todas para lavar, e eu tenho o costume de lavar à mão. Então essa é função que toma tempo.

Não bastasse isso ainda tem o restante da casa para limpar, pois os bichos, que ficam entrando e saindo, aprontam uma boa bagunça. E, nesse verão de lascar, é sempre bom passar um paninho e deixar tudo cheirando a lavanda. O pai gosta de ajudar nas tarefas, então eu dou a ele a missão de lavar as xícaras do café. É uma boa ideia isso aí porque ele fica bem entretido por algumas horas.

Enquanto ele faz essa tarefa trato de cuidar dos bichos. Lavar as vasilhas, colocar água fresca, comida, limpar o cantinho de dormir. É puxado. O tempo voa e já é hora de arrumar a janta. De novo, outra função.

Ao longo de todo esse tempo, procuro encontrar formas de interagir com ele. Faço um chimarrão para tomarmos embaixo das árvores, dou água, fazemos pequenas caminhadas pelo jardim. Uma forma não deixar ele abandonado pela casa, já que dormir de dia, nem pensar. É uma correria, pois tudo tem de ser cumprido.

Depois da janta ele vai para o quarto ver televisão e é a hora que eu encontro para estudar um pouco, ler, escrever, antes de desabar. Abro o computador e fico nessa tarefa. Enquanto eu escrevo ele fica num vai e vem. Para na porta e fica espiando. Sai e volta, sai e volta, sai e volta, como a se certificar de que eu estou absorvida em algo que não é ele. Fico com pena e pergunto:

- Precisa de alguma coisa, querido?
- Preciso. 
- Do quê?
- De atenção.

Aí não tem jeito, largo o computador e vou ver a novela com ele. Tudo para garantir esse sorrisão. O tempo vai assumindo outra dimensão e muitas tarefas vão ficando para trás...

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Sobre a imprensa e a classe trabalhadora

Na foto, a jornalista Claudia Weinman entrevista Vilson Santin, do MST.

Jornal Nacional. Rede Globo. O presidente da Vale fala por um tempo gigante, a considerar o valor do tempo num jornal global. Repete insistentemente que o que houve em Brumadinho foi um acidente. Um acidente? Com todos os laudos técnicos que mostram o risco dessas barragens? Com todos os avisos de gente muito especializada que milita nos movimentos? Com a trágica experiência de Mariana? Acidente? Foi um crime.

Na hora em que vi aquela cena grotesca, sem a interferência de nenhum jornalista, questionando e apontando as contradições, fui tomada pelo ódio, a indignação. Mas, passado o estupor inicial, a cabeça esfria e a gente começa a pensar. Nada poderia ser diferente. A mídia comercial é braço armado do capital. Jamais encontraremos ali a crítica ou o contraditório. Pode escapar, é verdade, nas brechas que naturalmente os fatos apresentam. Mas, é só isso mesmo. Escapadas, rápidas e sem ligação, coisa que pode tornar bem difícil o entendimento da totalidade do fato.

Isso nos leva a um debate que raramente as forças da esquerda fazem: a necessidade de uma imprensa de classe. O máximo que temos visto nos sindicatos de jornalistas, de radialistas, nos movimentos que atuam no âmbito da comunicação é a discussão sobre liberdade de imprensa. Ora, colegas. Por favor.

Não existe liberdade de imprensa, nem aqui, nem na China, nem em lugar nenhum. O que existe é imprensa de classe. E qual é a classe que domina a mídia? No mundo em geral é a classe dos endinheirados, dos artífices e gestores do capital.

Nós, no Brasil, nunca conseguimos avançar para a construção de uma imprensa de classe. Nem mesmo nos 15 anos que tivemos o Partido dos Trabalhadores no poder. Absolutamente nada foi feito nesse sentido. Pelo contrário. Durante o governo de Lula a própria Globo acabou sendo salva e todos devem se lembrar do presidente no velório de Roberto Marinho, consternado. Também não é pouco que a gente lembre sobre a tão sonhada Conferência Nacional de Comunicação, na qual o governo nos impôs uma derrota, colocando junto os empresários e permitindo que eles dessem a direção para o debate. Praticamente nada foi mexido na estrutura das comunicações no Brasil. Nem mesmo o tema das outorgas foi tocado. O estado, na mão do PT, seguiu rezando pela cartilha empresarial. O resultado disso vimos agora, quando a classe trabalhadora estava desguarnecida de veículos de massa para fazer frente a avalanche conservadora.

É mais do que hora de ultrapassarmos esse discurso liberal de “democratização das comunicações”. Isso nunca acontecerá no âmbito do capital. Porque esse sistema não está aí para brincadeiras e só solta alguns anéis se tem uma ameaça muito grande diante dele. Hoje, ao que parece, não existe nada no horizonte. Então, não virá nada. Pelo contrário. Quando o capital corre livre, sem inimigos de peso, ele não concede um centímetro. Ele aplasta! Vejam que já se configura a vinda da CNN para o Brasil. O tentáculo mais manipulador do sistema. Esse povo não brinca em serviço.

E pensar que quando o governo petista teve a chance de colocar como canal aberto a Telesur, rede televisiva de classe, não o fez. Nunca avançou um milímetro no sentido de trazer a América Latina para dentro do Brasil.

No que diz respeito ao campo dos trabalhadores tampouco se conseguiu avançar, mesmo nos anos de maior ascensão das lutas sociais. Jamais se chegou a um jornal de alcance nacional e o mais próximo disso que tivemos - que foi o Brasil de Fato - acabou se esboroando, justamente por falta de uma compreensão mais classista por parte dos inúmeros movimentos sociais e militantes populares. O que restou foram os grupos de mídia alternativa, comunitária, popular e independente, que vão se arrastando conforme podem, com pouco poder de fogo diante da maquinária capitalista. É muito difícil enfrentar com uma rádio comunitária, uns 30 segundos num jornal noturno de uma rede de televisão que abocanha o país inteiro. O poder do capital é avassalador.

Em Santa Catarina vivemos o mesmo dilema. Temos uma imprensa ridícula, cada dia mais vazia de qualidade. Só nos últimos meses foram demitidos dezenas de jornalistas do grupo hegemônico, ex RBS, atual NSC. Precarizam-se as relações de trabalho, aumenta a exploração dos trabalhadores e a comunidade fica cada dia mais refém de uma comunicação pífia e manipuladora. Assistir um jornal televisivo é de chorar. O pensamento crítico passa longe. Não há sequer boas perguntas, matéria prima básica do bom jornalista. É uma vergonha. Mas, ainda assim temos muitos sindicatos, e movimentos, e parlamentares que preferem assinar um jornal da imprensa comercial que investir nas propostas de comunicação populares que teimam em existir, ainda que em difíceis condições.

Creio que é tempo de aprendermos a lição. Façamos a autocrítica e caminhemos no sentido de construir uma imprensa de classe. Da classe trabalhadora. Já basta de querer melhorar o capitalismo, basta de pensar que pode ele ser humanizado. Não pode. Por isso a comunicação não será democratizada. Há que mudar o modo de organizar a vida e enquanto isso não vem, fortaleçamos a imprensa de classe. É isso, ou morte.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

O médico de família




Nada no mundo é por acaso. Vivi décadas em Florianópolis sem conseguir encontrar um médico, desses como os do passado, que conheciam a gente, a família da gente, que nos enxergavam como seres humanos, que não nos viam como pedaços doentes ou receptáculos de remédios. Procurei bastante, mas nada. Então, um belo dia, por conta das vivências na rádio comunitária, encontrei um desses jovens médicos que conseguiram passar pela faculdade sem se perder na selva do mundo sem coração. Formação de médico de família, perspectiva popular, compreendendo a questão indígena e a realidade do país. Guardei na memória. Um dia, quem sabe, se eu precisasse de um médico, teria a referência.

Então, pouco tempo depois, a vida me deu uma rasteira, e meu pai, de 86 anos de idade, começou a apresentar sinais de demência. Ele morava no mato e lá não tinha como ficar. Fui buscá-lo para ficar comigo. Ele estava bem baleado, muito fraquinho e totalmente fora de si. Não havia tempo para as intermináveis esperas nas filas do posto de saúde. Tinha de agir rápido. Na mesma hora me veio à cabeça o médico que havia conhecido nas lutas pelo SUS. Era o que eu precisava. Chamei.

Eu não queria um desses médicos que nem olham na cara, e já vão receitando. Queria alguém que visse o meu pai como uma pessoa na sua inteireza histórica. O Henrique foi perfeito. Sem pressa, atencioso, carinhoso, respeitoso, explicativo, honesto. Sem soluções milagrosas, mas com propostas inovadoras e perspectivas mais naturais. Iniciamos o cuidado.

Agora em junho de 2019 se completarão três anos que estou cuidando do pai, sempre com o acompanhamento do Henrique. Um médico que eu posso chamar a qualquer hora pelo uatizapi, que me atende e me aconselha. E que se está longe, encontra caminhos e atalhos para o bem estar. Um médico que pede notícias quando elas faltam, e que se preocupa com cada passo da jornada. Um médico que divide o que sabe, que expõe o que não sabe, que aprende junto. Um médico que abraça, que conforta, que ri, que se emociona. Um médico que se move com a força do compromisso, que sabe não ter todas as respostas, que está preparado para perder batalhas, mas sem largar a mão.

Eu que tanto procurei, agora encontrei o médico sonhado. E foi na hora certa, quando o mundo ruiu sobre meus pés. Nada é por acaso, mesmo. Conforta-me saber que passarei por essa dura estrada da demência e do Alzheimer tendo por parceiro do cuidado um cara como esse. Meu pai merece isso. Meu desejo mais profundo é de que cada pessoa nesse Brasil pudesse ter um médico assim, um médico de verdade, trabalhado no carinho, no cuidado, na atenção. E por isso eu luto pela saúde pública, pelos programas de médico de família, pela medicina preventiva.

Agradeço aos deuses e deusas que me permitiram encontrar o Henrique. E sei que, como ele, outros andam por aí, aqui mesmo em Florianópolis. Wagner, Murilo, só para citar alguns que são crias da mesma cepa e não concebem a medicina como negócio. São poucos ainda. Mas, rezo para que sejam mais. Possivelmente a própria ação desses que agora vivenciam essa prática fornecerá o exemplo para o surgimento de novos médicos assim, capazes de encontrar a humanidade que existe neles mesmos, e no outro. Uma parceria construída no amor.

A realidade nos mostra que esse caminho ainda é longo. Basta lembrar que a maioria das vagas dos Mais Médicos, as que estão nos lugares mais pobres, ainda não foram preenchidas. Porque não é moleza ficar cara-a-cara com o dor de quem não tem nada, a não ser o próprio corpo que se deteriora. Mas, não há saída. Só o amor salva. E o tempo da vida plena chegará para todos e todas. É um caminho sem volta, a despeito dos vilões sempre à espreita. Enquanto isso, lutamos!

Recomendo vivamente o Henrique. Podem chamar .


sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

O pai: querendo ir para casa


Nas últimas semanas assomou no pai um das mais difíceis fases, que é a de querer ir embora. Todos os dias a mesma cantilena. Ele chega à porta da cozinha e faz um sinal com as mãos, dizendo:

- ó, tô xispando.

Ou seja, estou indo. Ele diz que quer ir para casa, mas na verdade não tem muita certeza de onde é essa “casa”. Suspeito eu que seja algum lugar de pura beleza, tamanha a ansiedade para ir. Por vezes sinto um profundo desejo de tomar sua mão e ir com ele, para esse não sabido lugar. Mas, a vida chama.

Geralmente quando a ansiedade é muita eu saio com ele. Vamos até o mercado, compramos algumas coisas, damos a volta na quadra. Ele se distrai e quando volta já esqueceu que queria ir para “casa”. Mas, têm momentos em que não esquece e fica muito nervoso. Vai até o portão e fica mexendo no trinco, tentando abrir para escapar.

É um tempo difícil, pois, de fato, temos de mantê-lo trancado. O portão com cadeado, senão ele sai andando “até o fim do mundo”, como diz. Os médicos chamam de síndrome do pôr-do-sol, porque aparece geralmente no final do dia. Mas, no pai, aparece a qualquer hora.

Ontem me deixou mal na fita com os coletores de lixo. De manhãzinha, lá estava ele no portão, esperando algum milagre, até que apareceram os coletores. Como são bem simpáticos, já foram cumprimentando.

-Bom dia!
E o pai.
- Me faz um favor, abre aqui pra mim. Tô preso.

O moço meio que perdeu a tramontana, olhou pra mim que observava do alpendre e fez uma cara de espanto. Fui até o portão e expliquei que o pai não pode sair sozinho, que tem Alzheimer. Ele ficou meio assim, não sei se acreditando, e se foi. E eu:

- Pai, não faz mais isso. O moço vai pensar que eu tô te maltratando.
Ele fez um muxoxo e redarguiu:

- A tentiada é livre.


quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

As mulheres indianas e a luta por vida plena





O pêndulo da política segue seu incansável vai e vem. Por isso, enquanto em alguns espaços do planeta conquistas são perdidas e avança o retrocesso, em outros a luta por transformação assoma, com surpreendente força. Um exemplo disso foi o que aconteceu na Índia, esse imenso país asiático, ainda tão desconhecido para os latino-americanos. De lá, o que sabe o senso comum? Que é a terra de Gandhi, que tem muita pobreza, que tem templos bonitos, muitos deuses e espiritualidade latente. Raros são os que compreendem as razões da pobreza extrema bem, fruto de uma tradição ultraconservadora somado com a destruição colonial, bem como a estranha divisão da sociedade por castas, que se configuram em espaços intransponíveis. Ou seja: quem nasce numa casta ali permanece, e tampouco pode conviver com outra.

Um dos grandes dramas na Índia é o das mulheres, principalmente o das de casta dita “inferior”. No geral são tratadas como propriedade de pais, irmãos, parentes e maridos. Não são poucos os casos de estupro coletivo registrado no país e a violência contra elas é generalizada. Em muitos lugares elas são impedidas até de entrar nos templos para reverenciar seus deuses. Direito é algo que parece inimaginável para a maioria.

E foi justamente a batalha das mulheres para ter acesso a um complexo de templos, no estado de Kerala, que detonou um movimento gigantesco de luta por direitos. Até então, por conta de regras pétreas da chamada “tradição imemorial” elas não podiam entrar no templo de Sabrimala, dedicado a Ayyapann, filho de Shiva, ao qual acorrem mais de 17 milhões de pessoas durante o ano. Depois de muitas lutas a Suprema Corte da Índia suspendeu a decisão da justiça do estado de Kerala, que já havia reiterado essa proibição em nome da tradição.

A decisão da Suprema Corte da Índia foi tomada em 28 de setembro de 2018 e determinava que as mulheres poderiam entrar no templo, alegando que essa discriminação não fazia parte essencial do hinduísmo, mas de um arraigado “patriarcado religioso”. Com base nessa decisão o governo da Frente Democrática de Esquerda do estado de Kerala liberou o acesso, enfrentando por isso uma série de protestos de rua realizados por grupos reacionários de direita, incluindo aí o partido Bharatiya Janata (BJP).

O clima seguiu bastante tenso em Kerala e, em outubro, o chefe dos ministros do estado, Pinarayi Vijayan, que também é líder do Partido Comunista da Índia fez um discurso público na defesa da ruptura de determinados costumes. Ele afirmou: “Se uma tradição é um grilhão, devemos rompê-la”. E então convocou as mulheres a constituir um muro vivo de protesto e de luta. A partir daí, conta o jornalista Vijay Prashad, as pessoas foram se mobilizando. “Foram realizadas mais de cem reuniões públicas nos últimos meses de 2018 para impulsionar o apoio e mais de 170 organizações progressistas da Índia se uniram à campanha”.

E foi assim que no dia primeiro de janeiro, a partir das quatro horas da manhã, começou a se formar o muro humano que juntou cinco milhões e 500 mil mulheres, ombro a ombro, por 620 quilômetros, em luta pela emancipação das mulheres. “Aquele não era um muro da intolerância, como o de Trump, mas um muro de liberdade, contra tradições que não fazem mais do que humilhar as mulheres”, diz Vijay Prashad.

Prashad informa que K. K. Shailaja, ministra da Saúde de Kerala e dirigente do Partido Comunista da Índia esteve a frente do muro em Kasaragod, no norte do estado. O muro terminou em Thiruvananthapuram, a capital do estado, onde a última pessoa na cadeia humana era a dirigente comunista Brinda Karat, que reiterou: “Este muro de liberdade não é só para as mulheres de Kerala, mas para as mulheres de todo o país”. Os movimentos de esquerda estiveram unificados nessa importante manifestação de força.

A luta das mulheres contra as já insustentáveis tradições de exclusão, violência e intolerância não é coisa simples na Índia. Os costumes ainda são muito arraigados e não são poucos os assassinatos de mulheres por conta disso. Mas, com o fortalecimento das forças de esquerda no país esses pressupostos começam a ser questionados e deslegitimados inclusive legalmente, abrindo caminhos importantes para que os direitos sejam respeitados, de fato, na vida real.

A incrível coluna feminina de 620 quilômetros que se expressou no primeiro dia do ano sabe que há muitas coisas mais a conquistar do que o direito de entrar num templo. Mas, devagar, elas vão acumulando forças, coletivamente, para avançar em outros terrenos. O passo desse primeiro de janeiro é o primeiro. 


Sobre o salário, o lucro e o socialismo



É muito comum as pessoas acreditarem que por investirem muito na construção de seus negócios, os empresários tenham mesmo o direito de lucrarem e ficarem muito ricos. No geral acredita-se que essa riqueza vem pelo mérito do patrão, que trabalha e investe bastante para ter sucesso no negócio. Mas, a realidade é bem outra. A riqueza do patrão não tem nada a ver com sua habilidade ou sorte. Ela só existe porque o patrão rouba do trabalhador. Essa é natureza do capitalismo: roubar o trabalho alheio.

Explicando: um empresário resolve montar uma empresa. Ele compra as máquinas, monta a estrutura, a matéria prima para produzir seu produto. Então vai buscar a mercadoria que definitivamente vai trazer o lucro: o trabalhador. Esse trabalhador não tem nada de seu. Nem máquina, nem estrutura, nem matéria prima. A única coisa que pode vender é sua força de trabalho. E é essa força que o empresário compra.

Bom, como o provável patrão calcula o preço a pagar pela mercadoria (força de trabalho do trabalhador) adquirida? Ele precisa calcular o preço dos alimentos que manterão o trabalhador vivo, o preço das roupas que o vestirão, do aluguel, dos gastos com saúde, educação, enfim, tudo aquilo que é necessário para que a pessoa possa se manter, a ela e sua família, e ter condições de trabalhar. Somados esses valores, o total é dividido pelos 365 dias do ano. Assim, o empresário saberá qual é o preço diário do trabalho do trabalhador. Então, se para se manter vivo o trabalhador precisar de 100 reais por dia, o patrão entenderá que o preço justo a pagar pela força de trabalho dele será 100 reais.

Pois bem, depois de comprar tudo que necessita para iniciar a empresa e contratar os empregados pagando o valor que considera justo, no caso os 100 reais por dia, o empresário está pronto para iniciar seu negócio. E quando chegar o fim do mês, o patrão terá de fazer novas contas. Observem que o empresário tem despesas grandes. Os meios de trabalho (máquinas, o prédio, as ferramentas) se gastam, há que comprar os insumos e ainda pagar o salário dos trabalhadores. Logo, é justo que ele tenha seu lucro. Afinal, no capitalismo, o lucro, o excedente, é só o que importa. Até aí vamos bem.

Mas, o lucro do patrão não tem nada a ver com o preço que ele cobra pelas mercadorias que produz, porque ao somar tudo que envolve a produção, vamos ver que o preço da mercadoria não pode ser tão maior do que o custo da produção. Onde o patrão lucra então? No roubo do trabalho do empregado. Como assim?

Ora, o trabalhador é contratado por oito horas e recebe 100 reais por dia (preço que foi calculado com base no que é necessário para a pessoa se manter viva). Bem, nessas oito horas o trabalhador, por exemplo, de uma fábrica de roupas, produz 50 peças. Bem, os 100 reais que é pago ao trabalhador representa a manutenção dele por 24 horas e não o que ele produziu nas oito horas de trabalho. É como o agricultor com seus animais. Ele sabe que uma vaca vai produzir muito mais leite do que o custo que ele tem para mantê-la.

Veja que o trabalhador vai para casa considerando que está bem, o salário é muito justo. Mas, na verdade, não é. Porque ele não recebe sobre o que produz. No caso do trabalhador da fábrica de roupas, ele consegue fazer, em oito horas, 50 peças. Cada peça será vendida por 50 reais. Sua produção foi equivalente, então, a 2.500 reais num dia apenas. E por esse dia ele receberá 100 reais.  Ou seja, 2.400 reais vão para o bolso do patrão, limpinho.

Outra coisa importante para se levar em conta é que na soma das necessidades do trabalhador, o patrão geralmente só leva em conta a sobrevivência mínima do empregado. É por isso que existe um “salário mínimo”. Isso significa que esse valor é menor valor possível que se pode pagar para que alguém consiga sobreviver, comendo, vestindo e morando.

Muitos já devem ter ouvido falar no salário mínimo do DIEESE. O DIEESE é uma entidade dos trabalhadores que atua justamente com pesquisa sobre temas referentes aos trabalhadores. O cálculo que o DIEESE faz para determinar um salário “mínimo” é bem diferente do cálculo feito pelo governo ou pelos empresários. Porque como é uma entidade dos trabalhadores, leva em consideração outras variáveis. E considera que os trabalhadores não apenas devam sobreviver (manter-se vivos com o mínimo), mas fundamentalmente, viver. Ou seja, o trabalhador tem direito a uma moradia digna, comida de qualidade, educação, saúde, diversão, lazer e tudo isso entra na conta. Por isso os valores são bem diferentes.

Por exemplo, nesse primeiro de janeiro de 2019, o governo brasileiro definiu o valor do salário mínimo em 998 reais, frustrando a expectativa de que ele passasse dos mil reais (1.006) conforme já tinha sido definido no orçamento para esse ano, o que ainda seria ruim. O governo entendeu que esses 998 reais devem ser suficientes para que o trabalhador não morra. Pode ser, mas, não é suficiente para que viva.

Para ter uma vida plena e segura, o salário mínimo do trabalhador deveria ser de 3.960 reais, segundo os cálculos do DIEESE. No cálculo, essa cifra é que conseguiria garantir os direitos básicos de uma pessoa: moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e Previdência Social. Alguns poderiam dizer: “ah, mas aí não há quem aguente pagar”. Bom, os grandes empresários aguentam sim (eles lucram muito), e aquela família que tem empregada e não quer pagar muito por ela teria que repensar se precisa de alguém para chamar de “sua”.

Outros poderiam pensar: bem, mas é justo que o patrão ganhe com o meu trabalho, afinal ele investiu tanto. Não, não é. Porque quando o patrão faz as contas dele ele sempre leva em consideração o desgaste das máquinas, dos prédios e dos equipamentos. Está tudo contabilizado e é tirado justamente do lucro que obtém com o roubo do trabalho do trabalhador. Ele nunca perde. Mas, e o desgaste do trabalhador, quem paga? Pois o próprio trabalhador. Onde está a justiça disso? Quando o trabalhador fica doente, ele tem de bancar seu tratamento. Quando ele envelhece, ele que tem de aguentar as consequências de não poder mais trabalhar já que a previdência não lhe garante quase nada.

Para o patrão, o desgaste do trabalhador não interessa. Quando um fica velho, ele demite e contrata braços mais vigorosos. O que ficou pelo caminho que se dane. Essa é a lógica do capitalismo. Sugar o máximo do trabalhador, e deixa-lo a própria sorte quando não puder mais produzir.  

Mas, poderia ser diferente? Sim, poderia. Numa sociedade onde o trabalho fosse parte da vida coletiva (e não objeto de lucro para alguns) e o trabalhador, por qualquer tipo de produção, recebesse conforme suas reais necessidades. A isso se chama socialismo. E é isso que os empresários procurar demonizar para que os trabalhadores não se deem conta do quanto poderia ser bom. “Ah, mas o socialismo deu errado em toda parte”, argumentam alguns. Essa é uma meia verdade já que algumas experiências chamadas de socialistas não foram muito bem sucedidas. Mas, outras tentativas, como a de Cuba, apresentam vitórias importantes para a população, como saúde gratuita e de qualidade, educação gratuita e de qualidade, segurança, moradia. Não é o mundo perfeito, claro, até porque a pequena ilha vive sob o ataque econômico dos Estados Unidos. Só que ainda assim conseguiu garantir avanços incríveis. Imaginem se fosse livre para negociar.

O socialismo não é uma forma de bolo na qual colocamos a massa e esperamos crescer. Não se faz por decreto ou por qualquer forma de lei. O socialismo é um processo que precisamos construir, coletivamente, em comunhão. Que nos custará muito, mas nos trará também grandes benefícios. Claro que nem todo mundo consegue acreditar que é possível viver num estado de Justiça, onde cada qual viva conforme precise, e ninguém tenha mais que ninguém. Onde o trabalho seja sinônimo de vida, de criação, e não de morte. Mas, pessoas há que querem viver assim e não deveriam ser condenadas por isso.

Então, quando ouvirem os empresários ou gente do governo dizer que o socialismo é o demônio, tenham bem claro: é mesmo. Mas, é o demônio para os empresários que enriquecem a custa de todos nós, os trabalhadores. No socialismo eles não seriam os patrões, nem seriam os ricos, porque uma fábrica de roupas, por exemplo, seria gerida por todos os seus trabalhadores. Assim, o que é ruim para eles é bom para a maioria dos trabalhadores. Não é interessante?

Então, não compre o discurso assim, tão rápido. Pense.  



domingo, 23 de dezembro de 2018

Quem cuida do cuidador?



Desde que comecei a cuidar do meu pai, diagnosticado com Alzheimer, há uns três anos, tenho procurado encontrar caminhos para melhor atender as exigências desse tempo da vida. O velho não é criança, então não dá para aplicar as regras do trato infantil com ele. É preciso dar autonomia, fazer com que se sinta capaz, respeitar suas escolhas e vontades. É um processo intenso e difícil.

As coisas ficam ainda mais duras se a gente tem de trabalhar. São pelo menos umas oito horas longe de casa, sempre em sobressalto. Há pessoas que cuidam, mas a gente não descansa. Se o telefone toca, o coração pula, se chega mensagem no celular, o peito aperta. Fica aberto aí um caminho para a doença porque a sobrecarga é grande. O sono é pouco, a pressão aumenta, e a gente parece viver num eterno torpor por conta da vigília intermitente.

Não bastasse o ataque físico, o psicológico também fica roto. Afinal, aquele que cuida está sozinho. Com o tempo, já não há mais tempo para os amigos e muitos vão sumindo. Não é culpa deles, cada um tem seus próprios dramas para viver. A família ajuda, mas a confiança do velhinho se fixa em uma única pessoa e ela é quem carrega o cuidado inteiro. Não é qualquer um que pode dar banho, não é de qualquer um que aceita a comida, o processo de dependência vai criando um torvelinho no qual o cuidador pode sucumbir.

Nesse diapasão, quem cuida do cuidador? Pois, ele mesmo. Ao longo desse tempo nos cuidados com o pai fortaleci em mim uma certeza que eu já tinha de que somos mesmo seres da solidão.  E é isso aí. Não dá para esperar nada de ninguém. Se a ajuda chega, é bom, mas não podemos querer que as outras pessoas venham em nosso auxílio.  Vejo nos grupos de ajuda a familiares o quanto as pessoas sofrem por estarem sozinhas nessa batalha danada. Mas, toda hora de angústia sempre é vivida na solidão. Não tem jeito. Nem mesmo a pessoa que mais nos ama pode viver nossa dor. Ela é nossa. E temos de nos virar com ela. Sei que isso é duro, mas é assim que é.

Podemos nos enterrar na tristeza ou podemos encontrar pequenos pedaços de beleza espalhados pela estrada do cuidado. Aprendi que o meu pai, apesar de seus devaneios, está muito bem. Faço por ele tudo o que posso, o que não posso e um pouco mais. Dedico a ele meu tempo inteiro e sei que isso o faz feliz. Vejo no seu rosto, sinto na sua risada, no seu passo miúdo, sempre me procurando pela casa. Percebo sua confiança na forma como segura meu braço quando vamos passear ou como fecha os olhos, quietinho, quando lhe faço a barba. E mesmo quando explode em violência querendo “ir para casa” compreendo que é coisa da doença e deixo que a raiva passe para depois estreitá-lo em meus braços, dizendo que estarei sempre ali.

Quanto a mim, me esforço para cuidar da casinha que abriga a minha alma. Faço pequenos momentos de meditação. Tomo uma boa cerveja enquanto cozinho. Busco encontrar momentos para encontrar as amigas e os amigos mais próximos, tomar um café, jogar conversa fora, ver as tendências. Também faço ginástica, muita ginástica, fortalecendo o corpo, os músculos, cada pedaço de mim. Basta o pai dar uma folga e lá estou eu estendendo minha toalhinha no chão, dando duro nos abdominais. Procuro ficar forte porque sei que é só comigo que posso contar. Pode parecer meio arrogante, mas não é. Saber da nossa solidão, aceitar isso, é a única maneira de não sucumbir na auto piedade.

Sei que não é bolinho cuidar de uma pessoa velha, com demência, sem grana para cuidadores, ou massagens, ou fisioterapias. Mas, busco me virar à moda cubana, inventando, inventando e inventando, todos os dias e a cada minuto. É assim que eu mesmo descubro as massagens, os exercícios, os entretenimentos. E vou dando jeito, até quando preciso for.  

Por fim, nossos velhos não são incômodos, muito menos castigos de deus. Eles são uma janela para nossa mais profunda humanidade. E se a dureza do cuidado com eles pesa, ela também estende o tapete vermelho para que assome tudo aquilo que é de mais bonito em nós: o riso sem razão, o carinho, a picardia, a ternura, o amor, a compaixão, a vontade de acertar, o cuidado conosco mesmo.

Assim, vamos ficando melhores pessoas. O outro sempre é o paraíso quando ele já existe dentro de nós.