sexta-feira, 11 de maio de 2018

Palestina, resistindo à catástrofe

Palestinos: uma luta de resistência pelo direito a viver em sua própria terra

Esse ano completam-se 70 anos da ocupação da Palestina pelo estado sionista de Israel. Uma invasão violenta que desalojou milhares de famílias e matou outras tantas. Uma violência que segue vertendo, todos os dias, na prisão de crianças, no assassinato de jovens, na separação das famílias. E para que nunca seja esquecido o "Dia da Catástrofe", o povo palestino faz questão de realizar atividades, atos, marchas, protestos. Em Florianópolis toda quarta-feira, às 19h, até o dia 31 de maio tem filmes na Fundação Badesc. Faço coro a essa luta. Estou com meus irmãos palestinos. E reproduzo aqui o texto de outro companheiro solidário: Hasan Félix, cubano de nascimento, palestino no coração. 

Nossa resistência frente ao Nakba

Por Hasan Felix 

Há eventos que ao longo da nossa história nos marcaram por seu alto nível de crueldade. No entanto, a violência contra nós mesmos não é uma questão do passado, cada novo evento parece superar o anterior. Como entender que eventos dessa natureza acontecem com tão pouca diferença de épocas?

As palavras "catástrofe ou desastre", como termos específicos que se referem a situações excepcionais de sofrimento, onde as pessoas são submetidas pelos sistemas coloniais nos leva a uma profunda reflexão. Desta consideração particular, podemos ver que um evento dessa natureza "catastrófica" é sempre realizada por uma ideologia que promove tanto as diferenças religiosas, raciais ou culturais, criando um clima que incentive um futuro de limpeza étnica, sequestro em massa e estados de segregação pelos mecanismos coloniais, tendo como cenários a invasão e a conquista. 

Este evento traumático é conceitualmente considerado "desastre causado por estruturas invasoras" nos vários lugares do planeta em que ocorreram, independentemente da linguagem falada ou de seus mecanismos de interpretação do mundo.

Se dividirmos a palavra "desastre", poderemos notar sua origem: des - astre. Em grego, "desastre" feito pelo prefixo un- denotando negação dis- ou reversão de significado, como em: desconforme (não concordo) ou injusto (não é justo) e também pelo substantivo grego Astron (estrela) ou astrum latino. Para os gregos, um "desastre" ocorreu quando a posição das estrelas não era favorável em um determinado momento, por exemplo, na época da colheita ou no nascimento. Como consequência do desafortunado movimento astral, uma má colheita ou um infeliz destino foi previsto para a criança ou vice-versa. 

O termo desastre chegou a espanhol, francês e português provençal, onde significou "infelicidade" e por sua vez veio do "desastre" italiano com o mesmo significado, mas sua verdadeira origem para as culturas latinas é encontrada na Grécia antiga, onde a crença na influência das estrelas nos eventos da Terra lhe deu significado. No entanto, para muitas culturas, desastre responde a essa lógica na qual os eventos impossíveis são resumidos nessa terminologia profunda. Os fatos podem ser compreendidos através das palavras que designam ou significam, embora as consequências da colonialidade nos ofereçam certa incapacidade de entender em essência o que temos sofrido.

Em árabe, a palavra para desastre é "Al-Nakba" e tem o significado específico de "desgraça, catástrofe ou calamidade", mas com o artigo "al" no árabe seria "A Calamidade", o desastre ou a catástrofe máxima, o referente. Além disso, em sua raiz etimológica, significa "algo que cai", é por isso que esta palavra deriva de "ombro", que cai acima dos ombros e não pode mais suportar, e isso também significa desviar-se de um caminho. Esse sentido metafórico nos ajuda a entender que Nakba é "um peso que caiu sobre os ombros e não pôde continuar a durar". 

O desastre para os povos colonizados é uma circunstância histórica envolvidos pelo infortúnio, pela sobrevivência e na luta pela resistência. A expulsão de 80% da população palestina de suas terras através da violência sionista em 1948 (uma invasão oficializada pela ONU) foi possível devido a um plano político militar baseado em massacres e destruição em massa de cidades, aldeias e bairros. Esse plano ficou conhecido como "Plano Dalet", que, segundo historiadores como Walud Khaludi e Illan Papé, buscou a expulsão dos palestinos para a construção do Estado de Israel.

Estas operações de demolição de aldeias em toda a Palestina histórica e a expulsão violenta de seus habitantes, assim como assassinatos, foram conduzidas pelas Brigadas terroristas de Yitzhak Rabin, que mais tarde tornou-se primeiro-ministro e, na arena internacional, foi condecorado com o Prêmio Nobel da Paz. O reconhecimento de personagens violentas por autoridades e governos coloniais tem sido uma prática através da qual os poderes legitimam massacres e saques.

São 70 anos desde o início oficial da Nakba (pois esta catástrofe precede 1948) e as políticas de assentamentos ilegais israelenses, demolições de casas, a expulsão dos palestinos de suas legítimas terras e as mudanças toponímicas e geográficas continuam. Como Moshe Dayan (Ministro da Defesa de Israel em 1967) reconheceu: "não há vila, cidade ou cidade em Israel que hoje não tenha um nome hebraico, que anteriormente não possuía um nome árabe (...) devemos reconhecer que nosso país foi construído sobre os árabes ".

A Causa palestina é a nossa causa, pois nos leva a refletir sobre a invasão no continente americano, que sofreu os brutais saques das potências opressoras. Anos atrás fomos despojados de nossas terras, dos nossos direitos e riqueza, a tal ponto que hoje dizem que temos “dívidas” aos nossos saqueadores. O Sionismo, que hoje tenta remover o direito dos palestinos, é a versão mais assustadora e moderna destes colonizadores que um dia chegaram em barcos de madeira em nossos territórios.

Em cada espaço que temos disponível, devemos denunciar a Nakba, uma vez que a maioria dos meios de comunicação são dominados pelos ideólogos do sionismo, a partir do qual conseguem criar estados de opiniões em pessoas desinformadas. Valendo-se disso, logram, há anos, influenciar incontáveis agrupações religiosas cujos representantes ou alguns dos seus proeminentes partidários a ocupar cargos políticos importantes em suas nações. Não é de se admirar, por isso, o silêncio de todos frente aos ataques assassinos de Israel, como ocorreu em Gaza ou justificar a profanação da Mesquita de Al Aqsa, pois, para eles, a interpretação destas ações é apenas cumprimento de profecias bíblicas.

Desmond Tutu disse: "Na África do Sul, não foi possível avançar sem ouvir as dolorosas histórias das vítimas do apartheid na Comissão da Verdade e Reconciliação". Em 2002, Tutu afirmou que Israel praticava o apartheid com suas políticas para os palestinos. Ele ficou "muito angustiado" durante sua visita à Terra Santa, e acrescentou: "Isso me lembra muito da situação que nós, negros, experimentamos na África do Sul".

Reconhecer o sofrimento da Nakba nos ajudará a abordar o problema dos refugiados palestinos, desta forma, incentivar projetos de coleta de testemunhos orais devem ser parte da solução na Palestina histórica. A memória é também um ato de esperança e libertação. Edward Said afirmou em uma ocasião que escrever com mais sinceridade o que aconteceu em 1948 não é apenas praticar historiografia profissionalmente; é um ato profundamente moral de redenção e luta por justiça e por um mundo melhor. Lembrar, quando é um ato de luto e de denúncia, abre novas possibilidades para os direitos das vítimas da Nakba. Ampliar a solidariedade internacional e proporcionar novos espaços é o dever de quem luta contra esta Catástrofe.

Um momento estelar



A equipe do Iela viverá, nessa sexta-feira, um desses momentos estelares. Dois de seus membros – Nildo Ouriques e Beatriz Paiva - estarão apresentando seus memoriais para a obtenção do cargo de professor titular, o ponto mais alto da carreira docente, o momento em que a vida e a obra se derramam, se enlaçam e se apresentam publicamente, consolidando um tempo de criações e de belezas no serviço público, na universidade. 
Nildo Domingos Ouriques e Beatriz Paiva, duas experiências absolutamente distintas que se encontram para, na diversidade do seu ser, criar um espaço de unidade dentro dos estudos latino-americanos. Um lugar único, sem precedentes na universidade brasileira.

Beatriz Paiva faz sua formação em Serviço Social no Rio de Janeiro e começa sua história como docente na Universidade Federal daquele estado em 1991, transferindo-se para a UFSC em 1994, onde passa a atuar no departamento de Serviço Social.

Nildo Ouriques forma-se em Economia na UFSC e completa sua pós-graduação no México, de lá retornando para a UFSC, onde ingressou como professor concursado em 1995, embora já tivesse atuado por sete anos como substituto.

Cada um deles vinha cumprindo sua história nos departamentos específicos, ainda que no mesmo Centro. Beatriz, de riso iluminado, puro sol. Nildo, cenho franzido, mas generoso. Até que uma ideia os unificou. A de criar um espaço de estudos latino-americanos, coisa que aconteceu em 2004, com o início das atividades do Observatório Latino-Americano, dois anos depois transformado em Instituto, o IELA.

E, mesmo no IELA, que acabou sendo o lugar do encontro na análise sobre a América Latina, cada um deles foi trilhando um singular sendeiro. Beatriz no Serviço Social, Nildo na Economia, uma e outro se destacando no seu fazer específico como teóricos e como professores. Pesquisas, artigos, livros, eventos, grupos de estudo, uma profusão de atividades cujo centro sempre foi e é o aluno. O cuidado com os estudantes da graduação, o compromisso com ensinar seu tema específico ligado aos dilemas do nosso continente.

Por isso que é tão significativo que os dois vivam esse momento da defesa da vaga de professor titular no mesmo dia. Porque fazem parte de uma equipe, porque são braços de um mesmo projeto, porque estão amalgamados no mesmo compromisso de defesa de uma universidade pública, gratuita, com qualidade e inserção na vida real, na resolução dos problemas nacionais. Uma história que iniciaram com as jornalistas Elaine Tavares e Raquel Moysés e que depois ganhou novos parceiros.

São dois mundos diferentes, Nildo e Beatriz, cada um com seu brilho próprio. Mas, são também corpo unificado de um sonho que se fez real: o IELA.

Assim que nessa manhã de sexta-feira, nós, da equipe do IELA convidamos a toda a gente que queira acompanhar essa hora histórica, a se fazer presente no Mini-Auditório de Economia e Relações Internacionais.

Nildo fará sua defesa às 8h e 30 minutos. Beatriz às 13h e 30 minutos. A banca é a mesma para os dois professores: Ary César Minella (UFSC) – presidente, Luiz Jorge Vasconcellos Pessoa Mendonça (UFES), Gilberto Felisberto Vasconcellos (UFJF), Potyara Amazoneida Pereira e Pereira (UNB) e certamente cada uma das defesas será um desses momentos bonitos que a universidade raramente proporciona. Um embate de ideias. Um bailado intelectual.

A defesa é pública e aberta. Compareçam. Valerá a pena.

domingo, 6 de maio de 2018

No tempo da magia


A Editora Hemisfério Sul comunica o lançamento do 25º livro da escritora Urda Alice Klueger, intitulado “No tempo da magia”. Com capa de Johnny Kamigashima, usando um quadro de Jean Oriol Sinriel e uma foto de Vanilda Meister Arnold Policarpo, o livro tem orelha da historiadora Onice Sansonowicz e apresentação da psicóloga Katty Adriane de Mattos. Trata-se de um romance que envolve quatro personagens principais: um homem, uma mulher, um menino e um passarinho. Quando se tem tais personagens juntos, tudo pode acontecer – imagine, então, quando tais personagens estão juntos no Tempo da Magia!

Diz, sobre ele, a apresentadora Katty Adriane de Mattos: Em meados do inverno bipolar de 2017, recebi um e-mail com o pedido da Urda se “escreveria a orelha, quiçá a apresentação de um livro meu com aquela foto na contracapa? Haveria que ler o livro...”  Convite aceito. E-mail assim respondido: “Escrevo... o que você achar mais adequado. Faço com alegria!”

Passaram-se poucas semanas e recebo “o livro”. Abro o arquivo com um misto de curiosidade cheia de alegria... e... surpresa: coube a mim a apresentação! A esta altura de construção do livro, e considero importante assinalar, mesmo que sofra alterações, o livro está com o título provisório “No tempo da Magia”. Logo, tomada de curiosidade, dentro de um ônibus, voltando de uma rápida viagem de trabalho e curso, começo a leitura.Penso que gostaria imediatamente de saber do que trata o livro.Que temáticas de vida irei encontrar nele? Para que lugar ele irá transportar-me? Que emoção viverei ao lê-lo? 

Então começo o “mergulho” na leitura e logo nas primeiras páginas me deparo com a reflexão: ”... era bem claro que agora havia uma quarta pessoa fazendo parte da sua vida... mas não esperava que um pequeno menino que não havia nascido fosse amá-lo tanto assim...” Então penso: um livro sobre amor!!! 

Sim! A Urda escreveu um livro sobre o amor! Sobre amor inspirado, esperançoso e eterno. Assim como aborda temáticas intocadas, temidas e, por vezes, inconfessáveis para grande maioria: aborda vida, morte, desejo, sexo, prazer, fé, diferenças entre classes, crenças pessoais, aborda um et cetera de coisas... 

No livro, Urda nos leva a todos os lugares, dos reais, que temos a certeza de que já vimos, aos imaginários, como cavernas surreais, baías calmas, mares abertos e mares revoltos. Urda, neste seu livro, nos leva a fazermos travessias.Convida-nos a fazermos uma viagem para além do nosso olhar, para além do que habitamos e daquilo com o que nos alimentamos. Urda nos expõe a (re)considerarmos nossas ideias, nossas emoções e nossas crenças.

E, ao final de tudo, nos deixa livres, pois ler este livro acaba sendo... ”tão leve e tão denso’’ que você fica quase que “espelhando serenidade”. Fica com a sensação de que, durante todo o tempo do livro, este faz parte de você e que uma parte de você está no livro. Então minha percepção durante a leitura e a minha emoção ao terminá-la é, de que em nós existe uma parte conectada... ”que esteve lá desde o começo”... Para você, leitor, durante sua experiência de leitura, desejo que ela o coloque em um mergulho profundo e, paradoxalmente, ao mesmo tempo, que permita a você voos contemplativos e seguros. E, a você, Urda, agradeço pela confiança, pela convivência e pelo aprendizado.

E diz Onice Sansonowicz: Sendo simplista, poderia dizer que este livro se trata de uma história daquelas telenovelas gostosas de assistir. Mas é muito mais do que isso. É uma ode ao amor e à vida. Uma história de relações marcadas pela cumplicidade, atravessadas pelo erotismo, pelas agruras da vida cotidiana, pela luta pela sobrevivência, pela tristeza, pela saudade, pelo luto, pelas dores, pelas perdas. 

Mas quando a história começa a ficar densa demais, a autora, como num passe de mágica, faz aparecer fadas, libélulas, passarinhos... faz com que os personagens ora sejam reais,ora sejam imaginários, de forma que esses elementos combinados deem leveza à narrativa. Em outras palavras, Urda nos ensina que a dureza cotidiana pode ser mais bem suportada com um cadinho de magia.

Não espere o leitor, a leitora,um texto militante. Não o é. No entanto, o livro todo é uma defesa do amor, da solidariedade, da pureza, da sensibilidade. E pela via da ficção, Urda Alice Klueger desbanca as ausências do mundo contemporâneo. 

Um belo livro de literatura, intenso e vasto o suficiente para qualquer um se encontrar nele. Um livro necessário em tempos de tanta aridez.

***
O livro terá seu lançamento oficial no município de Palhoça/SC, onde reside a autora, na Cordel Livraria, situada no Shopping Center Via Catarina, no dia 12 de maio de 2018. Posteriormente, será lançado em outras cidades. No anexo, a capa do mesmo. 

Nos próximos dias o livro estará à disposição em todas as boas casas do ramo, e também junto à autora e à Editora Hemisfério Sul, e-mail editorahemisferiosul@gmail.com  ou urdaaliceklueger@gmail.com.br. 

Contatos com a autora também no facebook, com seu nome real.

sábado, 5 de maio de 2018

Aniversários de Marx



Hoje é dia de celebrar os 200 anos do meu jornalista preferido, Karl Marx. Impossível não amá-lo pelo texto brilhante que tem e, principalmente por ter escolhido narrar a vida dos que eram chamados de "perdidos da história". 

Quando voltou seus olhos para os catadores de lenha, que eram mortos por buscarem pedaços de árvores nos bosques convertidos em "propriedades privadas" ele selou seu destino como aquele que iria desvendar o segredo da mercadoria e do sistema capitalista de produção. 

Mais que um jornalista, um cientista social, inventor de uma nova forma de conhecer. Feliz aniversário velho amigo. Por aqui vamos seguindo teus passos, narrando os mundos que a classe dominante quer esconder!


sexta-feira, 4 de maio de 2018

A bandeira do Brasil



Minhas primeiras palavras criaram vida nas carteiras duplas, de madeira marrom, na Escola Municipal Francisco de Miranda. Ficava no bairro do Paso, na beira do rio Uruguai, em São Borja. Ali, além do amor aos livros, aprendi a amar os libertadores da América do Sul, a língua argentina e a bandeira do Brasil. Uma mistura encantadora. Só podia dar nessa paixão latino-americana. De manhã, ficávamos em duplas, no pátio, para o hasteamento da bandeira e o hino nacional. Eu acompanhava com olhos brilhantes o pavilhão nacional tremulando lá em cima. E, em casa, desenhava a bandeira colorida em cada lugar.

Sempre amei os hinos e as fanfarras. O hino do Brasil, o hino do Rio Grande, o hino da bandeira, em particular: "salve lindo pendão da esperança"... e era com a mão no peito que eu cantava: “recebe o afeto que se encerra em nosso peito juvenil, querido símbolo da terra, da amada terra do Brasil”. Sempre fui às lágrimas com o hino da Marinha. 'O cisne branco que em noite de lua, vai deslizando no lago azul".. A pátria era minha mátria. Sempre.

Quando fiquei mais velha e comecei a entender o que acontecia no meu país, senti a necessidade ainda maior de expressar meu amor por esse Brasil, espaço dos meus afetos e amores. Lá em casa sabíamos bem o que era a ditadura e o que aqueles milicos faziam em nome da “pátria”. Mas, eles não eram a pátria. Estavam usurpando o que eu considerava o “sagrado pavilhão”. E isso me fazia amar ainda mais a bandeira verde e amarela, a qual sempre tinha colada nos cadernos.

Por isso que ao longo da vida sempre gostei de me vestir com as cores da bandeira. E quando chegava o tempo da Copa do Mundo eu saltitava de alegria, porque sabia que poderia, enfim, comprar várias camisetas verde-amarelas, as quais não se encontravam em tempos normais, pois os brasileiros, em geral, acham brega usar as cores da bandeira. E a vida toda foi assim. Nos anos de copa, lá estava eu fazendo minha provisão.

Quando viajo para fora do país faço questão de levar a minha camiseta verde-amarela e coisas que marquem a minha origem brasileira. Sou irremediavelmente uma patri/matriota.

Digo isso porque vejo com tristeza, outra vez, pessoas usarem esse símbolo que amo tanto para defender uma minoria que nada mais quer do que servir a outra bandeira, que não a nossa, mas a do "tio Sam". Falo dos chamados “coxinhas” que vestem as cores da bandeira contra os pobres, contra os trabalhadores, contra os sem-terra, contra os sem-teto, que apoiam políticos que entregam nossas riquezas, que se vendem por 30 dinheiros, que se dobram ao grande capital, que sangram o país. Sinto como nos tempos da ditadura que estão usurpando os símbolos nacionais. Causa-me profunda dor.

Venho ao tema porque está chegando o tempo da copa e eu vou comprar minhas camisetas verde-amarelas. Porque nunca vou permitir que tirem de mim esse símbolo que amo tanto. A bandeira do Brasil, o pendão da esperança, que encerra todo o meu afeto. E mesmo com os olhares virados de alguns, seguirei carregando essas cores que dizem tanto do nosso espaço geográfico. O verde das matas, o ouro do sol, o azul dos rios abençoados, o branco do luar do sertão. Meu brasil brasileiro, o qual gosto de cantar.

Sou comunista, quero a força do comum, e quero no mundo todo. Mas, sou filha desse lugar, do descampado da pampa e aqui estão fincadas minhas raízes. Patriota sou, matriota, brasileira, e me cubro de verde e amarelo porque amo esse lugar e essas gentes. E como dizem os meu compas sem-terra, “e é por amor a essa pátria, Brasil, que a gente segue em fileira”.

Assim que não estranhem se me virem com a bem-fadada camisa verde-amarela. Ela não é dos coxinhas. Ela é de quem ama o Brasil.


terça-feira, 1 de maio de 2018

Dia do trabalhador no Campeche



Fotos: Rubens Lopes

No Campeche é tradição. Todo primeiro de maio a comunidade se junta na missa que celebra o início da safra da tainha. Porque o Campeche é bairro de pescador. Terra do seu Deca, seu Chico, seu Aparício, seu Getúlio, seu Hélio e tantos outros que fizeram do mar sua roça, e dali tiraram e tiram o peixe que alimenta corpo e cultura.

A missa foi ideia do seu Getúlio, maestro e pescador, sempre preocupado em não deixar morrer os antigos costumes da comunidade. Assim, desde há 13 anos, o povo vem até o racho de canoa, onde rende graças e pede boa safra. Esse foi o primeiro ano sem o seu Getúlio, que encantou faz três meses. Foi triste e foi bonito. Triste porque ele não estava, com seu andar miudinho, colocando ordem em tudo, e bonito porque veio todo mundo lembrar o quanto ele foi importante para essa comunidade.

E tudo se repetiu. A banda formada por alunos do rancho, a procissão, as bandeiras subindo, tremulando ao vento, os pescadores, as senhorinhas, o povo da reza, o pessoal da Floram, do projeto Tamar, o SOS Praia limpa, a Amocam, os turistas, a gente da praia. E vieram ainda os trabalhadores da prefeitura que estão em greve, com seus cartazes e panfletos, para informar a comunidade e pedir o apoio nessa luta contra as OSs. Estranhamente não veio o prefeito, que sempre vem. Gean Loureiro não apareceu, nem ele, nem qualquer secretário. Hum... Primeira vez na vida que o prefeito não vem.

Veio o Espiridião Amin com Angela Amin, mas ficaram lá atrás. Perto do altar, só mesmo a gente do Campeche. Vieram os vereadores Lela e Afrânio, discretos, entre os pescadores. E quem brilhou mesmo foi o padre Antônio, na sua primeira missa no Campeche, chegado do Paraná. Ele saudou a gente local e fez uma menção especial aos trabalhadores em greve da prefeitura, que ali estavam com seus cartazes. E o povo aplaudiu o padre e os trabalhadores. Hora bonita demais.

No final da missa teve as homenagens ao seu Getúlio, lembrado com carinho e saudade. Teve poema, teve fala de amigo, teve flores e lágrimas. No rancho da canoa Gloria o povo comeu, tomou café e suco, porque o rancho sempre foi a morada da gente. Ali se falou do seu Getúlio, se contou causos, se deu muita risada. Teve abraço, teve beijo, teve emoção.

A manhã sem sol foi perfeita, o vento leve. E as gentes cantaram e comungaram no amor. Amor pelo nosso lugar, pela nossa cultura, pela nossa história, pelos nossos amigos. E entre as pessoas que se aglomeraram na tenda em frente ao altar dava até pra ver a Dona Nicota, com seu tercinho e o seu Getúlio, de olhar atento, cuidando pra não sair nada do script. Os vivos e os mortos, juntos, nessa festa de bênçãos e bem-querenças. Esperando o peixe que virá com o vento suli e o ar gelado de maio.

O Campeche é essa belezura de gente e história. Esse nosso bairro jardim, que pesca e reza. Que canta e se move. Que luta e vence. E, nesses dias assim, a gente se sente como numa rede, descansando corpo e coração, pronta para enfrentar os gigantes.

A bênção seu Getúlio, nosso mestre, a bênção Irene Baldacin, que fez tudo acontecer, e que venham as tainhas!

sexta-feira, 27 de abril de 2018

O crime do padre Amaro- Defender a vida e o direito à terra para os camponeses



Já se vão trinta dias de mais uma prisão injusta no Brasil. Seria apenas uma estatística, afinal, isso é mais regra que exceção. Mas, para os lutadores sociais do Pará e de toda a região norte, o preso em questão não é só um número. Ele tem nome, sobrenome e trabalho junto aos empobrecidos. É o padre Amaro, cujo pecado cometido não tem nada a ver com o do romance do Eça de Queirós. Seu “crime” é atuar ao lado dos camponeses e ser uma das principais lideranças da equipe da Pastoral da Terra da Prelazia do Xingu, na paróquia de Santa Luzia do Anapu, Pará. Amaro era o braço direito da missionária estadunidense, Dorothy Stang, que foi assassinada em fevereiro de 2005, justamente por enfrentar os fazendeiros da região.

Pois o padre Amaro foi preso no dia 27 de março, também na lógica de prisão preventiva, por conta de uma investigação sobre supostos crimes de extorsão, ameaça, assédio sexual e ocupação violenta de terras. Quem conhece o trabalho do padre junto aos camponeses e empobrecidos afirma com certeza de que essas acusações não passam de um grande golpe dos latifundiários locais, para tirar o padre da luta pela terra. “A gente acredita que é armação, porque ele é um exemplo de vida inquestionável, com seu compromisso histórico em defesa da justiça e do povo. Sabemos do contexto de conflito de interesses onde ele trabalha e querem criminaliza-lo como líder e a sua luta", afirma Tiago Valentim, da coordenação da CPT do Pará.
  
Amaro trabalha desde 1998 na Paróquia Santa Luzia, onde é líder comunitário e coordenador da Pastoral da Terra (CPT) e nessa sexta-feira se completam 30 dias que ele está encarcerado no Centro de Recuperação Regional de Altamira/PA, onde também está o assassino de Irmã Doroty. Segundo a Irmã Irene Lopes, secretária executiva da Rede Eclesial Pan Amazônica-Brasil, a prisão do padre Amaro faz parte de um longo processo de perseguição de agentes de pastoral e de direitos humanos que cotidianamente são criminalizados, sofrem ameaças ou são mortos na região. 

Na última semana, os advogados do padre tentaram uma liminar para garantir sua soltura, uma vez que ele é conhecido na região, tem residência fixa, não havendo qualquer necessidade de prisão preventiva, num caso de uma investigação que não foi concluída ainda, mas a liminar foi negada pela desembargadora Vânia Lúcia Carvalho da Silveira, do Tribunal de Justiça do Estado do Pará/TJE.

Hoje o Pará se mobiliza em ação e oração pela liberdade do padre Amaro.