Fotos: Rubens Lopes No Campeche é tradição. Todo primeiro de maio a comunidade se junta na missa que celebra o início da safra da tainha. Porque o Campeche é bairro de pescador. Terra do seu Deca, seu Chico, seu Aparício, seu Getúlio, seu Hélio e tantos outros que fizeram do mar sua roça, e dali tiraram e tiram o peixe que alimenta corpo e cultura. A missa foi ideia do seu Getúlio, maestro e pescador, sempre preocupado em não deixar morrer os antigos costumes da comunidade. Assim, desde há 13 anos, o povo vem até o racho de canoa, onde rende graças e pede boa safra. Esse foi o primeiro ano sem o seu Getúlio, que encantou faz três meses. Foi triste e foi bonito. Triste porque ele não estava, com seu andar miudinho, colocando ordem em tudo, e bonito porque veio todo mundo lembrar o quanto ele foi importante para essa comunidade. E tudo se repetiu. A banda formada por alunos do rancho, a procissão, as bandeiras subindo, tremulando ao vento, os pescadores, as senhorinhas, o povo da reza, o pessoal da Floram, do projeto Tamar, o SOS Praia limpa, a Amocam, os turistas, a gente da praia. E vieram ainda os trabalhadores da prefeitura que estão em greve, com seus cartazes e panfletos, para informar a comunidade e pedir o apoio nessa luta contra as OSs. Estranhamente não veio o prefeito, que sempre vem. Gean Loureiro não apareceu, nem ele, nem qualquer secretário. Hum... Primeira vez na vida que o prefeito não vem. Veio o Espiridião Amin com Angela Amin, mas ficaram lá atrás. Perto do altar, só mesmo a gente do Campeche. Vieram os vereadores Lela e Afrânio, discretos, entre os pescadores. E quem brilhou mesmo foi o padre Antônio, na sua primeira missa no Campeche, chegado do Paraná. Ele saudou a gente local e fez uma menção especial aos trabalhadores em greve da prefeitura, que ali estavam com seus cartazes. E o povo aplaudiu o padre e os trabalhadores. Hora bonita demais. No final da missa teve as homenagens ao seu Getúlio, lembrado com carinho e saudade. Teve poema, teve fala de amigo, teve flores e lágrimas. No rancho da canoa Gloria o povo comeu, tomou café e suco, porque o rancho sempre foi a morada da gente. Ali se falou do seu Getúlio, se contou causos, se deu muita risada. Teve abraço, teve beijo, teve emoção. A manhã sem sol foi perfeita, o vento leve. E as gentes cantaram e comungaram no amor. Amor pelo nosso lugar, pela nossa cultura, pela nossa história, pelos nossos amigos. E entre as pessoas que se aglomeraram na tenda em frente ao altar dava até pra ver a Dona Nicota, com seu tercinho e o seu Getúlio, de olhar atento, cuidando pra não sair nada do script. Os vivos e os mortos, juntos, nessa festa de bênçãos e bem-querenças. Esperando o peixe que virá com o vento suli e o ar gelado de maio. O Campeche é essa belezura de gente e história. Esse nosso bairro jardim, que pesca e reza. Que canta e se move. Que luta e vence. E, nesses dias assim, a gente se sente como numa rede, descansando corpo e coração, pronta para enfrentar os gigantes. A bênção seu Getúlio, nosso mestre, a bênção Irene Baldacin, que fez tudo acontecer, e que venham as tainhas!
Elaine Tavares. Jornalista. Humana, demasiado humana. Filha de Abya Yala, domadora de palavras, construtora de mundos, irmã do vento, da lua, do sol, das flores. Educadora, aprendiz, maga. Esperando o dia em que o condor e a águia voarão juntos,inaugurando o esperado pachakuti. Contato: eteia@gmx.net / tel: (48) 99078877
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Este é o pressuposto teórico básico do jornalismo praticado pela autora deste blog. Seguindo a senda da Filosofia de Libertação, que busca olhar o mundo a partir do olhar da comunidade das vítimas do sistema capitalista, o jornalismo de libertação se compromete em narrar a vida que vive nas estradas secundárias, nas vias marginais. O jornalismo de libertação não é neutro nem imparcial. Ele se compromete com o outro oprimido e trata de, na singularidade do fato, chegar ao universal, oferecendo ao leitor toda a atmosfera que envolve o assunto tratado. (Jornalismo nas Margens. Elaine Tavares. 2004)
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