quarta-feira, 23 de novembro de 2016

A universidade necessária



A Universidade Federal de Santa Catarina está em processo de luta. Há uma greve dos técnicos-administrativos, vários Centros estão ocupados e os professores decidiram acampar em frente à reitoria para apoiar o movimento dos estudantes e realizar também a sua própria luta contra a PEC da morte. Todos os que estão envolvidos com as ocupações sabem muito bem que só a luta mesmo pode mudar as coisas, já que as instituições legislativas estão ocupadas por pessoas que representam os interesses de grupos econômicos. 

No Centro Socioeconômico a batalha está mais dura. A ocupação, iniciada pelos alunos do Curso de Relações Internacionais, apesar de não estar impedindo as aulas, tem sido violentamente atacada por um pequeno grupo de alunos contrários ao movimento. Por duas vezes esses alunos provocaram tumultos, inclusive agredindo estudantes que nem estão na ocupação. 

Por conta das agressões a direção do centro decidiu suspender as aulas na segunda e na terça-feira, justamente para garantir a segurança dos ocupantes. Segundo nota divulgada pela direção, já estão sendo feitas as diligências para identificar os agressores, e que medidas administrativas serão tomadas. 

Agora pela manhã, o centro foi reaberto e as aulas estão acontecendo normalmente. O ambiente ainda está tenso porque na segunda-feira, mais uma vez, um aluno tentou desobstruir a entrada referindo-se aos ocupantes com palavras agressivas e ameaçando mais violência caso as aulas não fossem retomadas.

Gentilmente, os estudantes da ocupação informaram ao estudante que as aulas não estão paradas por causa deles, e sim por conta das agressões que outros estudantes, contrários à ocupação, realizaram. Ainda assim, percebe-se que não há desejo de diálogo por parte dos agressores. Tudo o que querem é tumultuar. Insistem em defender o seu direito de ir e vir, mas não querem saber de defender o direito dos outros alunos à livre manifestação. Muito claramente, esses jovens defendem a democracia que lhes interessa. 

A segurança do campus está presente no CSE e segundo o coordenador, está atenta para garantir a segurança dos estudantes. 

Ontem aconteceu uma reunião entre os estudantes e o reitor sobre uma possível desocupação em função da realização do vestibular. Mais de mil alunos realizarão a prova no CSE e isso não acontecerá caso se mantenha ocupado. Os estudantes deverão discutir o tema.

Na parte da manhã, o vice-diretor do CSE, Rolf Hermann Erdmann circulou pelo prédio onde são realizadas as aulas e constatou que muitos professores não vieram. Alunos que exigiram aulas estavam fora das salas, sem os professores. Poucas salas estavam ocupadas com aula normal.

A luta segue. Hoje a partir das 12h e 30min as três categorias devem realizar uma assembleia para discutir o processo. 


segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Os meios alternativos no Brasil



Foto: Jeane Adre

Conferência proferida no 22° Curso Anual do Núcleo Piratininga de Comunicação

Antes de falar dos meios alternativos – que eu prefiro tratar de independentes, comunitários  ou populares -  é preciso pontuar alguns elementos referente aos meios de comunicação que dispomos na chamada mídia corporativa ou comercial. Isso é importante para entendermos a ideia de alternativa. Seríamos nós uma alternativa a quê?

Do ponto de vista do sistema capitalista que rege o mundo nós estamos colocados na periferia. Somos um país dependente e subdesenvolvido. A outra face de uma moeda, na qual  para que um seja rico e pungente, outro tem de ser explorado até o âmago. Fazemos parte dos explorados. Que isso fique claro.

Essa mídia corporativa, tal como a conhecemos é visceralmente ligada ao capital. Tanto que o primeiro jornal diário do mundo nasceu em 1650, na Alemanha, nos albores desse então novo modo de organizar a vida, espalhando-se a ideia depois para a França, Inglaterra e demais países da Europa. Assim, o que antes eram folhas literárias e políticas passaram a ser jornais diários que misturavam as notícias com o anúncio das mercadorias. Era necessário dar notícias desse mundo novo que emergia dos burgos.   

Do final do século 18, pelo século 19 afora até a primeira grande guerra no século XX os jornais acompanharam a lógica liberal, então hegemônica. Eram empresas privadas, com ligações políticas com o poder, que buscavam potencializar – com as notícias  - a venda de mercadorias. O poder instituído já sabia da importância estratégica de formar opinião pública, por isso os jornais eram armas potentes da classe dominante.

Com o final da primeira grande guerra e a ascensão dos Estados Unidos como grande potência mundial, começou uma mudança  no processo informativo. Já não era suficiente só anunciar produtos, havia que usar os veículos para formar um consenso sobre como ser no mundo. Havia acontecido também a revolução russa em 1917, e ela colocava uma novidade no mundo: a proposta socialista se fazendo corpo. Mais um motivo para a comunicação mudar. 

É nesse período, de 1918 a 1950 que começam a tomar corpo as teorias de comunicação baseadas na persuasão. Usava-se dos recursos da ciência para buscar formas de enredar as gentes, fazendo-as crer que o “mundo livre” do capitalismo era o melhor dos mundos. O rádio, iniciando sua trajetória pelas ondas do ar em 1918, passa a ser um importante meio de distribuição desse consenso. O cinema, igualmente, torna-se uma usina ideológica, principalmente dos EUA, e os meios em geral – que eram unicamente privados – passam a ficar bem mais abertamente ligados aos Estados. Afinal, é ponto pacífico que os estados nacionais são os espaços que organizam as burguesias locais ao mesmo tempo em que são por elas dominados. Nascem então as principais teorias de comunicação, dando status de ciência ao processo de persuasão e controle das mentes.

Com a segunda grande guerra e o advento da televisão, esse processo recrudesceu. O novo veículo agora entrava nas casas com áudio e vídeo, aprofundando ainda mais a manufatura do consenso. A tal ponto de até hoje o mundo inteiro saudar o fim da segunda guerra como uma vitória dos EUA, com o famoso desembarque da Normandia, eliminando completamente da história o sacrifício de milhões de russos, que foram os que realmente pararam a máquina de matar de Hitler. O cinema e o jornalismo inventaram outra história. Com a chamada “guerra fria”, depois do fim da segunda grande guerra, o processo ficou ainda mais forte. Alienar as mentes era estratégico e os meios de comunicação de massa – rádio e TV – concessões dos Estados, estavam amarrados nessa missão. 

E assim como era no centro do sistema, também na periferia. As teorias, os veículos e as técnicas de comunicação eram importadas sem qualquer visão crítica. A periferia sempre tentando “progredir” como o centro, sem dar-se conta de que isso era impossível. O único desenvolvimento que os países periféricos podem ter no sistema capitalista é o desenvolvimento do subdesenvolvimento, conforme bem revelou Gunder Frank. 

O conhecido “neoliberalismo”, que é uma fase a mais do processo de acumulação capitalista trouxe para o mundo das comunicações novas tecnologias. O advento da internet, possibilitando interconexão mundial deu a receita mágica: ilusão de democracia e aprofundamento da dominação. A famosa www passou a ser uma correia de transmissão planetária da mesma lógica de fabricação de consenso. Totalmente dominada pelos mesmos grupos que controlam a produção da informação, a “rede” se espalhou dando possibilidades de interação, coisa nunca antes possível. 

A ideia de que, agora, qualquer pessoa é produtora de conteúdo abre um espaço importante de debate. E mais do que nunca é preciso ter bastante claro o que é espaço de opinião e o que é informação de qualidade. No geral, as redes sociais, além de espalharem opiniões, reproduzem as informações que são produzidas pelos mesmos grupos que controlam os meios de massa como rádio, TV, jornais e revistas. 

No campo da vida real, as empresas que controlam servidores e grandes produtores de informação seguem sendo as mesmas, com um elemento novo: a crescente participação das entidades financeiras  - bancos  - no controle acionários dos conglomerados midiáticos. Ou seja, a financeirização da vida não está mais circunscrita à economia clássica. Não basta aos bancos definirem a situação econômica dos países, eles têm de inventá-la também. Isso significa que, com o controle da informação, eles podem produzir um futuro dentro dos seus interesses.

Nesse sentido, a informação produzida pelos grandes meios de comunicação assume a condição de commoditie, vendida num mercado futuro. Torna-se irmã siamesa das matérias primas de base como cereais, minerais, petróleo etc... Os grandes meios fabricam informações que não apenas influenciam no presente, mas também conformam o futuro. Inventam uma realidade vindoura moldada aos seus interesses. Isso é novo e precisa da nossa atenção.

O sítio do jornal espanhol El País, por exemplo, tem 30 milhões de usuários, e metade desses leitores está na América Latina. Hoje, o El País é comandado por uma instituição financeira, tem uma dívida astronômica de três milhões de euros. Uma dívida que não é cobrada porque interessa aos donos do jornal que ele sobreviva, mesmo nessas condições. A dívida é cinco vezes mais o patrimônio do jornal, mas o que vale mesmo para o banco que o domina é a sua capacidade de criar opinião. Eles sabem que um jornal capaz de influenciar tantas pessoas é um investimento par ao futuro. 

Essa financeirização da vida já tinha sido prevista por Marx no seu clássico, o Capital. Agora está aí nos desafiando e invadindo também o campo da informação. O que fazer? Essa é a pergunta abissal!
O espaço internético deu possibilidades para a criação de mídias alternativas, independentes, populares. Mas, a questão que temos de pensar diante desse cenário é: são realmente essas mídias uma alternativa? Têm eficácia na desconstrução da fabricação do consenso? Qual é poder dessa mídia diante da realidade que se nos apresenta?

Se observarmos bem a situação da mídia dita alternativa no Brasil, vamos ver que apesar dos múltiplos veículos hoje possíveis, ela ainda não se configura uma alternativa. Não é de massa. Enquanto a Globo e suas irmãs siamesas chegam a 97% do território nacional, os meios alternativos continuam circulando em guetos, no qual o público é o já cativado, já propenso ao discurso de desconstrução. Poucos espaços alternativos, independentes, populares e comunitários conseguem fugir dessa bolha.

Os meios mais estruturados continuam se concentrando no eixo Rio-São Paulo- Brasília, reproduzindo como sempre o colonialismo interno. É comum o Piauí reproduzir informações produzidas nos meios alternativos paulistas, mas é raro ver esses meios reproduzindo o Piaui. 
O Vito Gianotti passou boa parte de sua vida gritando na montanha, junto com a Claudia Santiago (ambos fundadores do NPC), sobre os veículos sindicais e sua possibilidade concreta de ser uma mídia de massa. Nunca foram levados em consequência. Deram cursos em todo o país, mas não conseguiram quebrar a mediocridade e a falta de entendimento do papel estratégico da comunicação por parte de boa parte dos dirigentes sindicais. 

Do ponto de vista de sustentabilidade os meios alternativos estão sempre na corda bamba, reféns de governos amigos ou de fundações estadunidenses e europeias – em sua absoluta maioria entidades que existem para manter as coisas bem acomodadas. Fundações como a Rockfeller, Kellogs, Ford, a de George Soros e outras, europeias de cunho social democrata, anti-comunistas, são praticamente o governo mundial. Elas ditam as políticas governamentais em seus países de origem e ao financiar grupos comunicativos na periferia do sistema estão nada mais nada menos do que garantindo o controle da informação. Enquanto interessa provocar a “desordem” o dinheiro jorra. A “revolução” promovida pelas mídias alternativas – como vimos no oriente médio, com a mal chamada primavera árabe, vai até certo ponto. Até onde não toca nos interesses do sistema. Então, é ilusão chamar de alternativa uma mídia financiada por esses gangsteres. Os “golpes coloridos” no oriente mostraram claramente o que acontece. 

No Brasil, a televisão ainda é o meio de massa pelo qual a maioria se informa. Como já disse ela chega em 97 dos lares. Não é sem razão que o governo investe nela a maior fatia do bolo publicitário. No governo de Lula e Dilma isso não mudou. Houve um decréscimo na publicidade das revistas e jornais, mas a TV se manteve como maior sugadora de verbas (67%). A novidade do governo petista é que ele passou a investir também na internet (os blogs de jornalistas mais afinados ao projeto e alguns coletivos), ainda assim o investimento nessa comunicação foi irrisório: 8% da verba total. Em 2015 o governo investiu 44 milhões no facebook, enquanto a Globo levou 206 milhões. No campo dos jornais a Folha de São Paulo e o jornal Valor Econômico tiveram crescimento das verbas publicas de publicidade, e na internet, os que mais ganharam foram a UOL, o G1 e o R7. Ou seja, tudo seguiu como sempre. E ainda assim, essas mesmas mídias que sugaram as verbas públicas foram decisivas no golpe. 

O governo brasileiro – na era petista – não pensou a comunicação como uma área estratégica, ou pensou errado, acreditando que as empresas que sempre foram capacho dos governos conservadores se abririam para a proposta petista. Equivocadamente o governo petista não deu espaço para a comunicação alternativa, livre, comunitária e popular. Perdeu a batalha nesse campo e, com isso, abriu passo para a grande derrota final.

A TV Brasil que nasceu para se conectar ao generoso projeto da Telesur, criado por Hugo Chávez, foi outro equívoco. Não se integrou a Telesur, não potencializou a comunicação comunitária e nacional, não abriu o sinal para o país. E apesar dos avanços, com a construção de uma programação crítica, seu alcance sempre foi reduzido. Deveria ter sido uma rede aberta, com acesso para qualquer um que tivesse uma antena torta com um bombril na ponta. 

Agora, com o fim da era PT, um número grande de blogs e coletivos produtores de informação crítica, ou mesmo de informação pura, com um viés classista, estão amargando a falta de recursos para existir. Os parcos 8% que eram divididos aos veículos dito alternativos do eixo Rio-São Paulo-Brasília já não existem mais. O governo Temer vem aumentando exponencialmente as verbas para os veículos de massa, que seguirão fabricando o consenso que o poder quer.

Diante disso, quais os nossos desafios? Como atuar de tal forma que venhamos a ser efetivamente uma alternativa? Não há respostas simples nem possibilidades reais diante da ordem. 

O que podemos fazer, na ordem, é resistir. Com nossos blogs, nossos coletivos, nossas rádios comunitárias. Afinal, se ainda não somos uma alternativa de massa, somos certamente um espaço importantíssimo de organização, inclusive dos movimentos sociais. Os veículos comunitários, livres e populares foram fundamentais na articulação da resistência ao golpe, tem prestado um serviço inestimável na divulgação das ocupações de escolas e universidades, totalmente silenciadas pela mídia comercial. Assim, há que seguir, apesar de todos os obstáculos.

Só que esses não são tempos para resistir apenas. Há que atacar, surpreender, vencer a batalha comunicacional. Porque sem essa vitória sempre estaremos na defensiva, esgrimindo canhões com bala de rolha.

Por isso que o horizonte tem de ser a mudança do estado, a mudança de sistema, o fim do sistema capitalista de produção. Isso tem de estar em cada pequena intenção, cada pequeno texto, cada foto. Mas, nosso protagonismo como produtores de informação tem de estar calcado na universalidade. Para isso serve o jornalismo. As informações estão aí, pulando na internet, nas ruas, nas redes sociais. Mas elas estão pulando sozinhas, isoladas, em bolhas, muito mais desinformando, que formando. 

Nossa função é dar a esse mosaico de informações loucas e saltitantes a dimensão da totalidade. Nós, os jornalistas, conhecemos o segredo, que foi desvendado pelo grande teórico do jornalismo, Adelmo Genro Filho. Ele mostrou como se faz jornalismo é produção de conhecimento, que pode existir sem ser manipulador. Há que estudar Adelmo, compreendê-lo e fazer jornalismo crítico. Temos os recursos humanos e teóricos. Há que usar esse poder.  

domingo, 20 de novembro de 2016

Documento dos meios alternativos

Jornalista Rosângela Bion de Assis lê documento dos meios alternativos na Câmara de Vereadores.

Meios de Comunicação alternativos e populares realizam audiência histórica



Pela primeira vez os meios de comunicação livres, alternativos, independentes, comunitários e populares se juntam para reivindicar do município o compartilhamento das verbas que a administração de Florianópolis gasta com publicidade e propaganda, 100% delas dirigidas aos grandes meios de massa, como os grupos RBS e RIC Record.

Entendendo a comunicação como um direito humano, esses meios independentes entendem que o Estado, seja ele em nível federal, estadual ou municipal, não pode se limitar a financiar grupos que representam apenas um extrato da sociedade, que é o da classe dominante. Como nesses meios as vozes da maioria não se expressam, é necessários que o estado compartilhe as verbas de comunicação também com os veículos populares e comunitários.

Foi a partir desse entendimento que os veículos resolveram unir forças, se encontrar e pensar formas de reivindicar o mesmo direito que os grandes meios têm. Assim, numa discussão puxada pelo Portal Desacato, juntaram-se a Rádio Campeche, Portal Catarinas, TV Floripa, Rede Abraço, o Centro de Estudos de Mídias Alternativas Barão de Itararé, o portal O Barato de Floripa, Coletivo de Jornalismo Maruim  e UFSC à Esquerda. Desse debate nasceu a ideia de uma audiência pública para dialogar com os vereadores sobre a necessidade de uma regulamentação para o uso de verbas da comunicação que contemplasse as mídias alternativas.

A proposta logo foi encampada pelo vereador Lino Peres, que foi quem articulou a audiência. Assim, no dia 17, os representantes de todos esses veículos lá estavam para serem ouvidos pelos vereadores e pela sociedade. O recado foi dado, ainda que apenas o vereador Guilherme Botelho tenha participado, como representante da Comissão de Educação.  Coincidiu que naquele mesmo momento outra reunião sobre o Plano Diretor estivesse acontecendo, o que tirou o quórum da audiência. Mas, mesmo assim, todos os meios fizeram sua fala e ficou acertado ao final que será criado um Grupo de Trabalho dentro da Comissão de Educação para que se construa coletivamente um projeto de lei no qual esteja normatizado o direito dos veículos alternativos, comunitários e populares a receber também verbas do estado na rubrica comunicação.

A importância desse movimento é muito grande na medida em que a cidade de Florianópolis conta hoje com grupos muito bem estruturados de comunicação livre. As novas tecnologias baratearam bastante a produção de informação e as mudanças que vieram com essas tecnologias também proporcionam a possibilidade do crescimento desses novos veículos, comprometidos com a maioria da população, dispostos a oferecer espaço onde as vozes – geralmente silenciadas pela grande mídia – possam se expressar.

É fato que essas mídias ainda não se constituem de fato uma alternativa de comunicação, uma vez que os meios de massa são capazes de chegar ao estado inteiro, no país inteiro, enquanto as mídias comunitárias e populares ainda formam um grupo de alcance reduzido. De qualquer forma, esses espaços tem sido de crucial importância no processo de organização dos movimentos populares uma vez que cumprem a função de informar o que acontece no campo de interesses da maioria. Basta lembrar que toda a articulação contra o golpe foi feita através dos meios alternativos e das redes sociais.

Por isso, cada dia mais é fundamental fortalecer esses veículos, para garantir que a maioria da população tenha, de fato, uma alternativa ao pensamento único e a fabricação do consenso que são elementos basilares dos meios de massa.

Com a criação do GT na Comissão de Educação da Câmara de Vereadores, esses veículos de mídia comunitários e populares acompanharão o processo e se manterão na luta para romper com a assimetria de tratamento na distribuição das verbas. Se os grandes meios de comunicação recebem recursos do bolo estatal, os meios alternativos também  devem receber. Não há argumento para a discriminação.


A luta avança. 

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Por que ocupar a universidade?



Roda de conversa sobre Saúde Mental - Ocupa CSE/UFSC

A mídia comercial não diz, mas são mais de 180 universidades ocupadas no Brasil. Isso, por si só, já é uma notícia estarrecedora. Ainda assim, nem o Fantástico, nem os programas da Record ou da Band discutem o tema. Nenhuma novidade. A mídia corporativa é braço ideológico armado do sistema. E ao sistema interessa que a opinião pública não seja informada das coisas que acontecem e que podem fazer estremecer o mundo tão organizado para a domesticação.

Mas, como sempre, todos esses meios haverão de ser engolidos pela realidade. Pois, ainda que a mídia não mostre, a vida está acontecendo e as pessoas veem.

Pois as universidades estão ocupadas e não é por professores ou técnicos em greve. Não. São os estudantes. Empurrados pelas demandas e lutas dos secundaristas, que decidiram ocupar escolas para salvá-las, os universitários perceberam que era também chegada a sua hora. Então, começaram a ocupar também. Não para salvar, mas para transformar. Afinal, como bem diz Álvaro Vieira Pinto, é preciso fazer com que a universidade deixe de ser “um centro distribuidor de alienação cultural para convertê-la no mais eficaz instrumento de criação da nova consciência estudantil, direta e exclusivamente interessada em modificar a estrutura social antiga e injusta, substituindo-a por outra humana e livre”.

Quando Álvaro escreveu seu texto seminal  “A questão da universidade”, essa era mesmo a casa da elite brasileira, espaço praticamente vetado para a classe trabalhadora. E era, sem questionamentos internos, o instrumento mais eficaz da classe dominante  para assegurar o comando ideológico. As ideias produzidas na universidade ali estavam para justificar o poderio do pequeno grupo que sempre mandou no país. De costas para a realidade brasileira, os jovens aprendiam profissões e de lá saiam incapazes de dar respostas às demandas concretas de um país dependente e subdesenvolvido.  Europeizados, elitizados, alienados.

O tempo passou, veio a ditadura, a democratização e a universidade seguiu igual. Usina ideológica do sistema dominante. E tanto que os poucos jovens da classe trabalhadora que conseguiam entrar, através do injusto e excludente vestibular, no mais das vezes vão se “convertendo” e incorporando o mesmo modo de ser dos seus algozes, essa classe “ociosa e aproveitadora, cujo intuito é reprimir a ascensão das massas”.

Com a vitória de um governo mais próximo dos trabalhadores em 2003, a esperança da construção de universidade popular, visceralmente ligada aos interesses da maioria, renasceu.  E vieram mudanças. Incompletas, inconclusas, insuficientes, mas vieram. Houve a vitória das cotas, para negros, índios e alunos de escola pública, novas formas de ingresso na universidade, novas universidades. O número de pessoas da classe trabalhadora que conseguiu entrar para uma instituição de ensino superior cresceu bastante.  Em 2004, os mais ricos representavam  55% nas universidades públicas e 68% nas privadas. Em 2013, os mais ricos eram apenas 38% nas públicas e 43% nas públicas. Os negros saltaram de 16% em 2004, para 45% em 2013.

São dados importantes, mas não redundaram em mudanças no perfil da universidade. Os currículos seguiram os mesmos, a lógica seguiu a mesma, e o perfil colonizado, de costas para a realidade, não sofreu alteração. A ideologia burguesa seguiu dominando, tanto no professorado quanto nos técnicos. Aos empobrecidos, coube gastar seu tempo lutando para permanecer, o que tirou bastante a capacidade de apontar mudanças. Muitos foram sendo cooptados e a universidade seguiu tão reacionária e conservadora como sempre.

Agora, a vida lá fora está ululando. Veio um golpe, “brando e de outro cariz”, mas, não se enganem. Golpe. Golpe contra a classe trabalhadora. E as primeiras ações de caráter reformista/neoliberal, libertaram as forças da reação. E elas vieram de onde menos se esperava. Daqueles que sempre foram acusados de não “quererem nada com o peixe”, os estudantes secundaristas das escolas públicas, meninos e meninas da periferia. Quando todos os estudos se voltavam para a violência nas escolas, a impossibilidade de ensinar, a falta de disciplina dos alunos, eles se levantam, como uma vaga tsunâmica, com um único discurso: queremos estudar e nas nossas escolas. Mais uma prova de que a universidade estava de costas para a realidade. Como os “pesquisadores” não se deram conta da vontade de educação dessa gurizada? Como não viram seus olhos cheios de desejo de aprender? Como não compreenderam que a “violência” era um grito de protesto contra uma pedagogia rota e atrasada?

Os secundaristas, sabendo que nada tinham a perder, ousaram a luta mais dura, contra o estado e contra todos os “papers” financiados pela Capes. Ocuparam as escolas, viraram a mesa, apontaram novos caminhos, enfrentaram a polícia. Mostraram na luta renhida que querem fazer parte da mesa principal do banquete educativo. Nada de educação bancária, de segunda categoria, para formar mão-de-obra. Querem educação amorosa, comprometida com a realidade.

E foi essa lição ensinada pelos meninos e meninas das escolas públicas que chegou à universidade. De alguma maneira tocou algum espaço secreto no cérebro dos universitários formatados pela ideologia da classe dominante. E havia só um caminho. Parar tudo, repensar as práticas, discutir o ensino universitário que forma os professores dessa gurizada. Professores cegos. Assim, a vida urgente que se expressa fora dos muros universitários atingiu como um raio aqueles que ainda podem ver. Os que ainda se importam. Então, a disputa por outro modo de ser no mundo contaminou a universidade. Bem dizia Álvaro Vieira Pinto: estudante não é só pra estudar. Estudantes têm de estar afinados com a arena política, com as causas nacionais. A educação só tem sentido se for para mudar as coisas. Estudar também é um ato social.  A realidade brasileira está a exigir dos de todas as pessoas o engajamento na luta pela mudança.  E os estudantes saem na frente.

As ocupações nas universidades são esse movimento de transformação, de despertar. A esperança é que ultrapassem as demandas particularistas e consigam perceber o cerne do problema: a universidade precisa mudar na essência. Ele tem de ter uma finalidade política que é a de superar o colonialismo mental, compreender o processo de dependência, e construir caminhos de transformação.

Ou isso, ou nada.

Os estudantes já mudaram a temperatura do mundo em 1918, na reforma de Córdoba, em 1968, na França, no México e na América Latina. Agora, o Brasil, esse gigante sempre dormido, assinala que a vida pulsa e que a história não acabou.

Avante, estudantes secundaristas e universitários. Quem sabe essa força bonita contamine os trabalhadores.  

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Pós do Serviço Social contra a PEC 55 e outras maldades


Nota de posicionamento dos estudantes do Programa de pós-graduação em Serviço Social da Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC
Nós, estudantes da pós-graduação em Serviço Social da UFSC, considerando a conjuntura e os processos históricos de movimentos golpistas seculares arquitetados pelas oligarquias que se mantém no poder, que coadunam com o acirramento das desigualdades e superexploração da classe trabalhadora, nos posicionamos contrárixs às tenebrosas ações e medidas em curso pelo governo golpista de Michel Temer, que colocam em cheque a, já restrita, democracia brasileira. Dentre elas destacamos a PEC 55 e a proposta de reforma da previdência que, fogem à legitimidade da Constituição Federal e se apresentam como um verdadeiro desmonte dos parcos direitos sociais garantidos pela classe trabalhadora, afetando radicalmente direitos básicos da população brasileira. Tais propostas visam atender aos mais escusos interesses do capital financeiro e das elites nacionais às custas do cancelamento de qualquer perspectiva de melhorias na vida dxs trabalhadorxs.

A Reforma do ensino médio e PL “escola sem partido”, promotoras do protagonismo do setor privado e instituídas sem debate prévio com a sociedade, constituem-se contra os interesses dos setores mais marginalizados da sociedade. Em consonância com a PEC 55, a MP 746 utiliza-se do discurso de “crise” com o propósito de enxugar gastos públicos com a Educação. Sob o discurso de livre escolha dos estudantes, fragmenta-se o Ensino Médio em “itinerários formativos específicos” e retira-se a obrigatoriedade de disciplinas fundamentais para o desenvolvimento integral dos estudantes, tendo por objetivo a formação precária dxs filhxs da classe trabalhadora para uma inserção laboral igualmente precária. O projeto que reivindica uma “escola sem partido”, sob a alegação de que há doutrinação no ambiente escolar, é na verdade é uma tentativa de bloqueio às perspectivas de educação crítica, diversa e includente e a imposição de um ensino conservador e tecnicista.

Posicionamo-nos veementemente contra o uso do poder coercitivo do Estado, empregado tanto pelo governo federal, como pelos governos estaduais e municipais. O monopólio do uso da força - prerrogativa tradicional do Estado - vem sendo usado de forma desmedida sem nenhum tipo de proporcionalidade ou justificativa. O uso de violências, ameaças, constrangimentos e a criminalização de movimentos sociais só constrói a certeza de que este é um governo autoritário de exceção e que repudia fortemente qualquer manutenção do Estado Democrático de Direito ou perspectiva ligada aos direito humanos e sociais.

Evidenciamos nosso apoio à todas as organizações que se articulam contra a manutenção do processo golpista e fundamentalista em curso. Com destaque para as ocupações realizadas por estudantes secundaristas e universitários; aos movimentos dos professores, técnicos e demais trabalhadores da educação. Apoiamos e nos somamos à paralisação nacional neste dia 11 de novembro e reforçamos a necessidade da construção de uma greve geral, pois esta é um instrumento legítimo de luta da classe trabalhadora, a qual pode nos possibilitar, para além do enfrentamento das demandas imediatas, um processo de reflexão e de reconstrução da perspectiva da classe trabalhadora na sua tarefa histórica de transformar esta sociedade. 

Diante de tais processos, cabe a nós, como classe trabalhadora, reconhecer e reivindicar a necessidade histórica da luta, sabendo que ela será árdua e que seu horizonte não se restringe apenas às pautas imediatas, deve visar sempre a construção coletiva e popular de uma sociedade livre de toda superexploração e opressão que nos golpeia há séculos.

Florianópolis, 11 de novembro de 2016.
Estudantes do Programa de Pós-Graduação em Serviço Social - UFSC.

sábado, 12 de novembro de 2016

Sobre o 11 de novembro e os desafios da caminhada


Foto: Rubens Lopes 

Luís tem 19 anos e trabalha numa barbearia. Ele estava à porta, quando passou a caminhada dos estudantes e trabalhadores no 11 de novembro. Seus olhos tinham um misto de vontade de estar ali e assombro. Parei para conversar e perguntei se ele sabia sobre a PEC 55. Ele disse: “ouvi falar”. E a luta? “Esse pessoal só fica entre eles. Parece que não vê quem tá de fora. Olha só”, e apontou para o grupo que ia pelo meio da rua, dançando e cantando. “Era bom explicar, né? Mas, com calma, pra que a gente possa fazer pergunta, tirar todas as dúvidas”. 

Luís não terminou o ensino médio. Não deu. Teve de trabalhar. Tinha o sonho de ser engenheiro, mas sorri ao lembrar. Parece impossível. Comentei que a PEC empobrece ainda mais a vida da gente, inclusive na educação. Ele deu de ombros. Sua vida já está fodida mesmo. “Deixa isso (a luta) para os riquinhos”, finalizou.

No caminho pela Mauro Ramos, a marcha passou em frente a um bar. Dois homens bebiam cerveja e olhavam a algaravia com censura. Uma mulher, já mais velha, segurava a bolsa apertada contra o peito e acompanhava, também com olhos acusadores. Sorri para ela e falei: “É a luta contra a PEC da morte”. Ela franziu a boca e balançou a cabeça, em desaprovação. 

Das casas vez em quando assomava alguém à porta ou à janela e fazia sinal de positivo, ou aplaudia. Espectadores simpáticos, mas sem muita vontade de seguir o cordão. Na rua, a turma seguia entre cantorias e palavras de ordem. Parecia mesmo um rio tormentoso, seguindo sozinho, enquanto das margens, as pessoas assistiam apáticas ou admiradas.

De certa forma o garoto barbeiro tem alguma razão. Ainda que não seja coisa de “riquinhos” o primeiro ensaio da greve geral ainda não saiu do âmbito das entidades. Em alguma medida já tocou os estudantes – que estão em outro patamar – mas é certo que falta uma longa caminhada para chegar ao coração das gentes que estão fora do circuito sindical ou de movimento social organizado. 

O esforço dos sindicatos para se incorporar ao protesto ainda é restrito às diretorias e lideranças. A base não acompanha. Talvez seja o resultado de mais de 15 anos de adormecimento ou domesticação. Durante os governos de Lula e Dilma, esse foi um setor  que desaqueceu, seja por cooptação, seja por acreditar no projeto petista, seja por impossibilidades políticas. Os dirigentes abandonaram o trabalho de base. Claro que isso não serve para todos, mas para maioria com certeza. Bravos sindicalistas e lutadores sociais fizeram a crítica naqueles tempos estranhos, inclusive tendo dedos acusadores sobre si. 

Agora, é preciso voltar aos velhos tempos de militância sistemática na base das entidades. Quase uma reconstrução. Se os trabalhadores desorganizados não se sensibilizam pelas lutas sindicais, os que estão na estrutura tampouco. Preferiram deixar nas mãos dos dirigentes a solução dos problemas. Uma missão que não deveria ter sido aceita, afinal, os governos petistas não avançaram no sentido de garantir as demandas dos trabalhadores. Preferiram a conciliação de classe. A união com a burguesia nacional, apostando num mundo melhor para todos. 

Ora, não pode haver “mundo melhor para todos” no âmbito do capital. É da natureza desse modo de produção que para que um viva, outro tenha de morrer. Esse é um sistema assentado na violência de uma classe sobre a outra. É impossível compor acordos com aqueles que, na hora em que a água bate na bunda, não hesita em voltar ao reduto da classe dominante, seja porque é parte, seja porque é um servo voluntário. 

Francisco Martins Rodrigues, num texto sobre os equívocos do leninismo europeu, no qual mostra que se está a 80 anos enterrando Lenin, afirma que ao longo dos tempos  a ideia de socialdemocracia foi contaminando os socialistas-leninistas, fazendo com que fossem deturpando as ideias do grande pensador russo. Opções pela governabilidade, alianças espúrias em nome da unidade, afastamento da base, escolhas políticas equivocadas, tudo isso foi deixando para trás uma das máximas de Lenin: “Devemos ajudar o proletariado a elevar-se do papel passivo de motor ao papel ativo de guia, a passar  de defensor subalterno de uma liberdade truncada a defensor totalmente independente de uma liberdade completa, em proveito da classe operária”. 

Essa é uma tarefa que temos de recuperar. As gentes que olham perplexas as marchas e as ocupações precisam de informações bem mais musculosas, para além dos panfletos de agitação. Até aqui, ao que parece, o consenso criado pelos meios de comunicação massivos está vencendo. A televisão, repetindo à exaustão a ideia de que quem luta é baderneiro, terrorista e agitador, leva vantagem sobre nossa comunicação fragmentada e pouco formativa, perdida de totalidade.  Adelmo Genro Filho já dizia: um texto precisa transitar da singularidade para o universal. As pessoas não são burras. Se houver informação de qualidade, capaz de dar conta da totalidade do problema, as ideias avançam.

A batalha da comunicação é estratégica e decisiva. Se não for dada a devida atenção, a mais-valia ideológica que é extraída dos trabalhadores a cada noite em frente à TV, seguirá cumprindo seu nefasto papel. 

É preciso construir as marchas, sim. São simbólicas, são energizantes, são fundamentais. Mas, é preciso também que essas marchas se transformem em pequenas e incalculáveis colunas  dispostas a travar a batalha no cara-a-cara, na conversa demorada, na formação continuada. É como o rio extrapolando suas margens, deixando de correr sozinho para misturar-se ao território em incalculáveis cursos de água, irrigando e preparando a terra. 

O movimento secundarista tem dado boas lições. Eles se voltaram para dentro das escolas e lá estão tentando entender o mundo, juntos, em comunhão, um apontando o caminho para o outro, amalgamando as veredas, inventando novos cursos. Vivenciam cotidianamente, na necessidade da organização da vida prática, a política real. Estão construindo novas práxis e sabem muito bem quem são os inimigos e os adversários. Não contemporizam nem esperam governabilidade. Respondem na ação direta e decidem na democracia participativa. Seria bom aprender com eles. 

Hoje, vivemos tempos duros, nada líquidos, e é preciso dar respostas criativas e inventivas. É Simón Rodríguez, clamando, das brumas do nascimento de nossa América, pela necessidade de inventar a partir de nossa própria experiência. Somos latino-americanos, brasileiros, vivemos num determinado espaço geográfico, na periferia dependente do capital. O que, então, podemos propor, que não seja imitar o centro? Respostas novidadeiras, com nossas caras mescladas de índio, branco e negro, forjadas na luta renhida. 

É fato que a luta contra a PEC 55 não é a mãe de todas as batalhas. O combate definitivo é contra o capital. Mas, é de batalha em batalha que se vence a guerra, e vamos avançar, porque estacionar a vida das gentes por 20 anos é coisa que mobiliza. Só que essa peleja tem de ser travada com o olho na totalidade do processo. Nossa indignação tem de tocar também o coração do barbeiro Luís, da mulher com a bolsa apertada ao corpo, dos homens que bebem cerveja no bar, de todos aqueles rostos desesperados dentro dos ônibus urbanos. Dancemos nas ruas, mas sejamos também capazes de estender os laços para além do curso, enlaçando amorosa e comprometidamente essas almas igualmente grávidas de revolução. 

O caminho para isso, vamos construindo.