sábado, 5 de abril de 2014

O exército de pinus




Já é noite fechada quando o carro passa velozmente pela cidade de Lages rumo à região do Contestado, em Santa Catarina. A lua cheia no céu é puro esplendor. A luz é tanta que ilumina  campos e matas, construindo sombras fantasmagóricas. De repente, no meio da escuridão surge outra luminosidade, uma espécie de nave-mãe, encravada no meio do verde. Com ela, um cheio ruim, uma náusea.

- O que é aquilo?
- É a Klabin. A fábrica de papel. Parece uma ferida na mata, né? – Ninguém diz nada, prisioneiros daquela cena bizarra.
O carro segue em direção à Caçador. As sombras continuam a se delinear no horizonte. Ao longe julgo ver uma fileira de gente andando, muita gente. Penso em João Maria, o monge, conduzindo seu povo rumo à mítica Taquaruçu, a cidade santa do Contestado. O velho que enfrentou o exército, o medo, a dor e empurrou as gentes à luta contra a estrada de ferro inglesa que cortava Santa Catarina e lhe levava as terras, tornando o povo escravo em seu próprio lugar. João Maria e sua gente combateram o invasor. Foram até o fim e hoje são estrelas fulgurantes da história deste chão, estudados na escola e reverenciados por todos aqueles que buscam liberdade. Apertei os olhos para ver. Mas não era ele. A fileira que eu via, mal iluminada pela lua cheia, era feita de pinus elliotis, milhares, milhões. Não eram gentes em busca de vida digna. Era um novo invasor.

1910

No México começa a revolução. Os índios, os camponeses, as gentes “de abajo” reclamam terra e liberdade. Armam-se até os dentes e, com Zapata e Villa, passam a escrever uma das mais belas páginas da história popular. No Brasil, o povo silencia diante do avanço do cavalo de ferro. Em todo território abrem-se as veredas para a passagem do trem. No comando, as empresas estrangeiras, como sempre, a maioria inglesas.  Em Santa Catarina não é diferente.  A Brazil Railway Company (é, assim mesmo, em inglês) termina de rasgar o solo do estado. Vai trazer o progresso, dizem. O dono é um estadunidense chamado Percival Farqhuar, que decidiu fazer fortuna com as ferrovias criando uma empresa em 1906  e, nestes dias, já domina praticamente tudo ao sul do mundo. O trecho que atravessa Santa Catarina, entre São Paulo e Rio Grande, está terminado e agora vem a melhor hora para o empresário do norte. Ele vai abocanhar mais de seis mil e seiscentos quilômetros quadrados de terra ao longo da ferrovia. O propósito é “enricar” com a madeira. É o acordo. Já os trabalhadores, em número de quatro mil, que penaram na obra, são demitidos sem que se cumpra a promessa de dar dinheiro para a volta a casa. Por isso, são eles que vão engrossar o exército de miseráveis que se forma com a expulsão dos camponeses das terras que agora são do “americano”. É a primeira florada do que mais tarde será conhecido como o Exército Encantado de São Sebastião.

2008

O olhar enviesado e o tique nervoso no canto da boca dão conta de que o homem está incomodado. Ele ouve a mulher falar sobre os males do pinus e mexe a cabeça silenciosamente num gesto de negativa. Depois, mais tarde, numa conversa reservada, enquanto os demais parceiros estão no almoço, arrisca um debate. “A moça não sabe o que é viver de produção. Uma hora é a chuva, ou o sol demais, os riscos de perder tudo estão aí, a toda hora. Depois, ainda que a coisa dê, pode ser que o preço fique lá embaixo e a gente está sempre no vermelho. Com o pinus não, é favas contadas. A empresa paga, e pronto. Dê o que der. Pra quê melhor?” inquire, sério. O agricultor do meio-oeste catarinense  diz o que quase todos os plantadores de pinus têm na ponta da língua. Esta é uma produção segura, sem muito risco. A árvore não exige muito e o retorno é garantido. Para quê então arriscar plantando feijão, trigo, mandioca ou qualquer outra cultura que exige demais dos camponeses e ainda pode levar à falência? Falar de cuidados com o meio ambiente provoca o riso. Boa parte não acredita nesse discurso de que as mudanças climáticas tenham a ver com o que se faz com a terra. “Antigamente os nossos avós cuidavam da terra, e o quê eles tinham?” – Este é o argumento. Os pequenos proprietários do meio-oeste estão enredados até a medula na armadilha do sistema capitalista. Vida simples e natural? Qual nada. Melhor é o microondas e o freezer. Hoje, nas cidades que formam a região de Lages, falar mal do pinus é puxar briga. Os que estão conveniados com as grandes fábricas de papel ou as madeireiras não querem nem ouvir falar de outro tipo de exploração da terra. E se alguém insiste, corre o risco de ser cuspido e até apedrejado.

1500

As caravelas de Cabral se aproximam da costa. Está descoberto o paraíso. Na carta enviada ao rei, vai a semente do grande mal extrativista que daria à colonização destas terras uma marca indelével. “Esta terra, Senhor, será tamanha que haverá nela bem vinte ou vinte e cinco léguas de costa. Traz ao longo do mar em algumas partes grandes barreiras, umas vermelhas, e outras brancas; e a terra de cima toda chã e muito cheia de grandes arvoredos. De ponta a ponta é toda praia... muito chã e muito formosa. Pelo sertão nos pareceu, vista do mar, muito grande; porque a estender olhos, não podíamos ver senão terra e arvoredos...  Até agora não pudemos saber se há ouro ou prata nela, ou outra coisa de metal, ou ferro. Em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo; por causa das águas que tem!” Desde aí, cortar madeira passa a ser coisa normal por aqui. Todo o pau-brasil vai sendo levado embora e séculos mais tarde, para se ver um pezinho, só em viveiros de abnegados que se dedicaram a salvar o que fora uma grande riqueza. Por outro lado, nos castelos e igrejas de Portugal e Espanha lá está a madeira cor-de-rosa a denunciar, com beleza, o roubo.

1776

Andam pela região (hoje Lages) turbas de castelhanos. É um tempo de fixação de fronteiras. Os tropeiros que vêm de São Paulo para o sul dão notícias de que a bandidagem está comendo solta por ali. Então, o governador de São Paulo decide fixar naquela região um povoado. Quem vem é Correia Pinto, um bandeirante acostumado na batalha contra os índios. Vai dar conta dos castelhanos e da “bugrada”. Ele monta uma vila, bem próxima ao rio Canoas. A terra é boa e as araucárias que vicejam por ali prometem grandes lucros. A madeira é de primeira. 

1925

Pelas estradas poeirentas de Lages, Correia Pinto, Lebon Régis, enfim, por todo o meio oeste, circulam, gordos, os caminhões. A Guerra do Contestado já caiu no esquecimento, afinal, quem se importaria com meia dúzia de “fanáticos?”  O trem de ferro que causara tanta dor agora é a anunciação do progresso.  As gentes que por ali vivem têm uma riqueza bem à mão: a floresta. O pinho é madeira nobre, retorno garantido. Basta um machado, força no braço e um caminhão. A boca do monstro tem nome estrangeiro. É a serraria Southern Brazil Lumber Co. Sem que isso seja coincidência, o dono da empresa de nome inglês é o mesmo da ferrovia que foi o estopim da luta camponesa naquelas terras, o estadunidense Percival Farqhuar. Lá dentro a lei é a dos Estados Unidos, pistoleiros vigiam os empregados e só o 4 de julho é dia de festa. A serraria, que foi a maior de toda América Latina, ocupando mais de 60 hectares, devastou a região desde 1913. A madeira abasteceu o mercado estadunidense e sugou a riqueza do meio oeste. Como é de praxe, quando a empresa faliu, em 1938, foi estatizada pelo governo de Getúlio Vargas. Mas, o ciclo do pinho já tinha feito o estrago. Em São Paulo, sem nem saber de Farqhuar, a empresa da família Klabin começa a se destacar no ramo papeleiro.

1960

A empresa nascida do sonho do Mauricio Klabin estende seus tentáculos para o sul do país. Já tinha fincado raízes no Paraná e agora é a vez de Santa Catarina. Para isso, precisa “profissionalizar” seu fazer, então, se junta a duas empresas estrangeiras, ambas estadunidenses: a Adela Investiment Co. SA e a International Finance Corporation – IFC - financeira do Banco Mundial. No ano seguinte abre a Papel e Celulose Catarinense Ltda, que só vai operar a partir de 1969, na cidade de Lages. O som do machado começa a vibrar com força outra vez no meio oeste. Quase sem pinheiros – consumidos na febre da Lumber - a saída encontrada será típica da selvageria capitalista, ou seja, o que der mais lucro em pouco tempo. O povo da região de Lages esquece o feijão, a mandioca e começa a plantar árvore, pinus e eucalípto, afinal não é o verde que os eco-chatos querem? 

2008

O biólogo Ademir Reis, professor na Universidade Federal de Santa Catarina, diz que muito do que se diz sobre os males do pinus é blefe. “Ele não estraga a água e não espanta passarinho. O verdadeiro problema não é o pinus, são as pessoas”. Segundo o biólogo, toda e qualquer plantação cobra sua fatura da terra, seja a soja, o arroz ou o pinus. O que se necessita é adequar a produção a uma forma sustentada, de respeito ao meio ambiente. Sobre o argumento de que o pinus chupa a água de onde está, Ademir argumenta: “toda a árvore puxa água. Na Amazônia, a floresta suga 30% da água que sobe e volta”. O único problema que ele reconhece é o da condição de invasor. “Realmente as sementes de pinus voam a grandes distâncias, elas fogem do espaço plantado e vão ocupando novos territórios.  Isso tem que ser cuidado. No demais, ele até protege a terra da erosão. Há que respeitar as beiras de rio e os topos de morro”. Para o professor, as empresas catarinenses que trabalham com o pinus são responsáveis e têm certificação internacional. “Já no que diz respeito a ser uma monocultura, é certo que é ruim. A produção deveria ser diversificada”


2007



Nas escolas da cidade de Fraiburgo começa a circular uma singela cartilha que leva o nome de: O quati, a gralha e o pinus – como enriquecer preservando a natureza. A idéia é educar as crianças, filhas de agricultores, para as vantagens dos pais plantarem a invasora. O trabalho se utiliza do que há de mais simbólico na região, os dois animaizinhos silvestres. A gralha, inclusive, é a sementeira da araucária, o que torna a cartilha algo grotesco. No documento em forma de gibi, a gralha e o quati vão dizendo o quanto o pinus vai trazer trabalho. “Se o pinus nasce na montanha, porque os trabalhadores estão parados?” pergunta o quati, aludindo a vantagem de se ocupar os morros. Diz a gralha: “ O pinus ajuda o governo através do imposto e o governo depois dá ao povo saúde, educação, lazer e segurança”. E acrescenta: “As árvores protegem as margens dos rios e os animais. Melhora a qualidade do solo, limpa a atmosfera e deixa as águas limpinhas, além de gerar muito emprego”. Isso é claro, revestido da idéia principal que é de se ficar rico com esta plantação. Finaliza, alegre,  o quati: “mas então vamos erguer um monumento ao pinus em todas as cidades”. O documento distribuído tem a coordenação de um conhecido empresário da área de maçã da cidade, Willy Frey, com a colaboração do Projeto Renda Crescente. 

2008

O agrônomo Eros Mussoli não considera “blefe” os males da árvore que hoje invade o Estado. Ele conhece bem a região de pinus que se formou no Rio Vermelho, em Florianópolis, e garante que a árvore solta uma espécie de resina que destrói a vida da terra. “Nada se cria sob o pinus, acaba com a vida orgânica. Ali no Rio Vermelho onde cai a palha não nasce nada. Não precisa ser estudioso para ver”. Pescadores que vivem na Lagoa da Conceição também concordam e denunciam que em dias de chuva, a resina escorre para a lagoa, matando peixes, siris e camarões. Eros considera que a característica do pinus, com suas sementes voadoras, contribui para a formação de grandes desastres ambientais. “É como uma endemia. Lá no parque do Tabuleiro, que é uma região super protegida, já tem pinus. Eles vão tomando conta e quem protesta e quer discutir a questão é logo marcado como um anti-progressita”. Não é à toa que na cidade de Lages já se pode observar, instigada por conhecidos políticos locais, uma sistemática caça aos que eles chamam de eco-chatos.

2009

Mas os dias do pinus podem estar contados em Santa Catarina. E sua “morte” não terá nada a ver com as lutas contra suas características destrutivas ao meio ambiente. Será simplesmente pelo novo gosto dos europeus, como bem convêm ao sistema capitalista. Diz o professor da UFSC, Ademir Reis, que na Europa as pessoas não querem mais saber de móveis descartáveis. Há um retorno à idéia de durabilidade da madeira e estes novos hábitos já repercutem, por exemplo, em Rio Negrinho e São Bento, municípios catarinenses com grande atividade de exportação de móveis. “Tem muita empresa fechando por lá”. Não bastasse a questão da durabilidade tem ainda a cor. O gosto europeu para este ano está mais para as madeiras vermelhas, mais claras, como o cedro e o mogno. “Tem outra madeira que virou sucesso por lá, é a paricá, uma madeira branca, muito bonita, nativa da Amazônia. E o que se sabe é que já tem muita gente botando mata abaixo lá no norte para plantar paricá”. 

Atualidade

Nem a tragédia envolvendo a região do Vale do Itajaí, que praticamente ruiu durante fortes chuvas,  faz com que os governantes compreendam que tudo está ligado à questão ambiental. A prova disso foi o novo Código Ambiental proposto pelo governo de Luiz Henrique da Silveira. Nele, estão liberados os plantios nas margens dos rios e nos topos dos morros, bem ao gosto dos plantadores de pinus, além de outras tantas aberrações. No cerce de tudo, os desejos dos empresários, dos latifundiários, dos ricos. A roda da economia não pára e a política do desenvolvimento a qualquer preço também não. No campo, entre os pequenos proprietários plantadores de pinus, praticamente ninguém aceita falar em mudar de cultura. O pinus dá lucro sem esforço. É o sonho de toda a gente. Quase ninguém quer falar sobre estas coisas chatas que envolvem a destruição do planeta, ecologia, etc... “Isso é coisa de gente atrasada, inimigo do progresso”. Poucos levam em consideração os fatos, tais como conta uma agricultora de Timbó Grande. “Lá tem nove mil habitantes, 10 ou 15 são agricultores. O resto planta pinus. A maioria das cabeceiras de rio está secando, não tem emprego para os jovens, aumentou a pobreza, a droga, a gravidez na adolescência”.

Para o biólogo Ademir Reis, com as mudanças na preferência por outros tipos de  madeira, buscar o replantio da araucária pode ser a grande saída econômica do Estado, que vai assim aproveitar a sua flora nativa. Mas isso só pode acontecer com um grande programa estatal de salvamento. “Temos 100 anos de melhoramento do pinus, enquanto a araucária, por conta da lei, não tem sido replantada. Não é viável economicamente para o dona de terra ter araucária, por isso eles arrancam a árvore assim que ela brota. Porque se vingar ele só pode tirar 50%. Além disso não havia mercado para a araucária. Por isso, um programa de salvamento tem que incluir o Estado. A empresa sozinha não vai se ajustar sem benefício”.

E assim são as coisas. Quando mudam, mais levam em conta os interesses do mercado capitalista do que a vida das pessoas, o bem estar ambiental, o cuidado com o planeta. Só vale aquilo que traz lucro, e de preferência fácil, sem que se faça muito esforço.  

Enquanto isso, em Caçador, à janela sigo fixando os vultos que parecem marchar. Agora sei, são pinus e não as gentes de João Maria. Mas, uma aragem leve me traz um perfume de fogão de chão, e, com ele, vêm a lembrança de uma gente guerreira que vê a terra como mãe, de um povo que conhece o segredo da Pachamama, de homens e mulheres que não se entregam ao canto da sereia da falsa promessa do capital. E, assim, marcham, novos e velhos combatentes do Exército encantado de São Sebastião, das hostes guerreiras de Tupac Amaru, de Sepé Tiaraju. Logo, serão milhões, e suplantarão o exército de pinus... Assim pede a minha vontade na noite fresca de Caçador! 

sexta-feira, 4 de abril de 2014

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Albinos na África



O medo das coisas que não se conhece é capaz de levar a posturas terríveis. Isso é o que acontece na África do Sul com relação a crianças negras que nascem albinas, ou seja, sem pigmentação. Em muitas comunidades a criança albina é vista como um ser mágico e muitas vezes chega a sofrer mutilações para que suas partes sejam usadas em rituais de feitiçaria. Conforme texto divulgado no sítio Opera Mundi pessoas albinas costumam ser escondidas por conta da ação dos “caçadores”, que podem lucrar até 75 mil dólares vendendo um “conjunto de membros”.  

"As partes mais valorizadas (dedos, língua, braços, pernas e genitais) podem ser comercializadas por 3 mil dólares. Entre 2006 e 2012, 71 albinos foram sequestrados, mutilados ou assassinados ao redor da África-subsariana. O último crime registrado no país sul-africano ocorreu em 2011, quando Sibisuso Nhatave desapareceu enquanto caminhava para a escola na província de KwaZulu-Natal. O menino albino de 14 anos nunca mais foi encontrado. Concluídas no ano passado, as investigações apontaram para sacrifício tribal".

O fotógrafo Paquito Masiá esteve na África do Sul e registrou essa imagem, capturada numa espécie de orfanato, onde ficam protegidas crianças albinas. São órfãos, ou rejeitados pelas famílias por causa da falha genética. No momento da foto, elas aguardavam pelo horário da refeição, durante uma apresentação cultural que buscava arrecadar verbas para sustentação da entidade. 

Tristeza. Foi isso o que Paquito viu no olhar de cada uma daquelas crianças. Tristeza e abandono. 

"cada um com seu sentir
cada um com seu se saber
cada um na pele em que habita
cada um com o seu
cada seu"
(Paquito Masiá)




 ,

Caminhada pela verdade















O dia primeiro de abril em Florianópolis foi um dia de verdades. Depois de muito tempo, os mais diversos grupos de esquerda que atuam na cidade marcharam juntos para repudiar o golpe cívico-militar de 1964. Vieram os comunistas, os socialistas, os anarquistas, os trotskistas, os torturados, os estudantes, o povo da ocupação Amarildo, os indígenas, o MST, a CUT, a CTB, a Conlutas, os partidos políticos do campo da esquerda e os jovens que ainda buscam caminhos. Todas as divergências que muitas vezes separam, deram lugar a uma única convergência: um não sonoro à tortura, ao terror e ao estado de exceção que o Brasil viveu por longos 20 anos. Foi um dia de lembranças amargas, mas também de esperanças, de que nunca mais esse país venha viver o que já passou.

À frente da marcha ia uma mulher pequena, de rosto quadrado e olhos que sorriem. Era Derlei Catarina de Luca, professora e militante do grupo Tortura Nunca Mais, uma das tantas pessoas que, nos anos de chumbo, viveu a terrível experiência de ter seu corpo torturado por dias e dias. "Eu fui presa pela Operação Bandeirante, naqueles dias eu militava no grupo Ação Popular. Eles buscavam por uma mulher chamada Maria Aparecida Costa, e achavam que ela era eu. Por dias eu fiquei no pau-de-arara, tomei muito choque. Eles não acreditavam que meus documentos eram verdadeiros. Pensavam que Derlei era o meu nome de guerra. Depois de dias de tortura eles tiraram as minhas digitais. Eu pensei: estou salva. Porque no Dops ninguém tirava digitais, já que seria uma prova de que a pessoa tinha passado por ali". Falar sobre a tortura é algo que ultrapassa a condição humana. Quem viveu esse horror prefere calar. Por isso, tanta dor acaba acumulada. 

Derlei escreveu um livro, "De Corpo e Alma", onde expõe essa chaga aberta da nossa história e que vive no seu próprio corpo. "Foi uma catarse e também uma necessidade. A guerrilha urbana, a preparação da guerra popular, a guerrilha do Araguaia, o sequestro de diplomatas, as reuniões clandestinas, a publicação de jornais e folhetos, a solidariedade pura e simples aos combatentes, a campanha pela anistia, foram táticas diferentes empregadas por diferentes grupos e revelam o espírito aguçado do povo brasileiro, destroem o mito de povo pacífico e constituem uma formidável história de luta. As novas gerações precisavam saber de tudo isso e eu precisava contar".

E foi essa mulher valente, que insiste em manter viva a lembrança de todos os caídos, que conduziu a marcha que serpenteou pela cidade, mostrando os lugares onde se expressou o terror de um regime que matou e violou todos aqueles que pensavam diferente. 

A caminhada começou na sede da União Catarinense de Estudantes, onde nos anos da ditadura se concentrava a luta estudantil. Foram os estudantes brasileiros os que primeiro se levantaram contra o golpe, em manifestações e batalhas, e de suas fileiras saíram os mais frutíferos militantes das organizações clandestinas que passaram a lutar com mão armada contra o regime militar. Assim, foi simbólico que a marcha começasse ali, depois de uma bonita performance teatral que sujou de vermelho-sangue as pedras do pátio. Era o sangue de todos aqueles que caíram nos porões, sob as mais terríveis torturas, por terem decidido lutar pela liberdade.

Em seguida, o povo saiu pelas ruas do centro da cidade, contando para a população sobre a verdade daqueles dias. Na porta das lojas, rostinhos juvenis vinham espiar, escutando curiosos uma história de sangue e terror. "A gente quase não estuda nada sobre isso no colégio", disse uma vendedora de olhos arregalados. Ela tem razão. Pouco se fala da tortura, bem como do que aconteceu na cidade de Florianópolis nos anos de chumbo, com a terrível Operação Barriga Verde, a partir da qual 42 militantes comunistas foram presos e passaram por torturas terríveis. Foi um tempo em que os aliados do golpe, ligados à UDN,  também aproveitaram para matar os inimigos políticos, como foi o caso do prefeito de Balneário Camboriu, Higino João Pio. Seu único crime foi o de ser amigo de João Goulart. Por conta disso, o carimbaram como "comunista" e o prenderam acusado de "irregularidades administrativas". Poucos dias depois ele apareceu morto na cela, enforcado, num caso muito parecido com o de Vladimir Herzog.  Para a família, alegaram ser suicídio. Não foi. O mataram.

A marcha percorreu a movimentada Conselheiro Mafra e parou em frente ao que hoje é a farmácia Catarinense. Ali, nos anos da ditadura, funcionava a Livraria Anita Garilbaldi, gerenciada pelo escritor Salim Miguel. Por ser o escritor ligado ao Partido Comunista, as autoridades locais decidiram queimar todos os livros da livraria, numa operação grotesca de violência e ignorância, típica dos regimes de força. Os livros foram tirados da livraria e queimados na calçada, enquanto as pessoas silenciavam cada dia mais. Os "perigosos" volumes continham obras da literatura mundial, sociologia, história, economia e política. Arderam porque poderiam gestar vozes críticas. 

A caminhada seguiu depois para a frente do prédio da Faculdade de Educação (FAED), onde naqueles dias de chumbo funcionava a sede do Quinto Distrito Naval, que tinha o serviço secreto mais eficiente do Brasil, o  Centro de Informações da Marinha (Cenimar). Todas as informações relacionadas aos então chamados "subversivos" estavam ali registradas e, ao longo da ditadura, o Cenimar extrapolou das suas funções chegando a prender e torturar militantes, com a mesma violência usada pelo temível DOI-CODI. Era uma fonte importante de informação, cujos arquivos até hoje não foram totalmente abertos. E, para lembrar os mortos de desaparecidos catarinense, as gentes na marcha foram dizendo os nomes daqueles que ousaram lutar. Arno Preis! Presente! Frederico Eduardo Mayr!  Presente! João Batista Rita! Presente! Luis Henrique Tejeda Lisboa! Presente! Paulo Stuart Wrigth! Presente!... E tantos outros, cujos corpos nunca foram encontrados mas, que vivem na lembrança dos companheiros. Nunca esquecidos! Vivos, portanto...

E lá se foi a marcha da verdade, da memória e da justiça, juntando velhos e novos militantes numa única vontade. Re-cordar, passar de novo pelo coração, para que nunca mais torne a acontecer. A próxima parada foi em frente ao Palácio Cruz e Souza, hoje um museu, mas que nos anos da ditadura era sede do palácio do governo. Foi ali que a gente de Florianópolis acendeu o pavio da grande virada democrática com a histórica "novembrada", a revolta popular que encurralou o presidente João Figueiredo e o governador Jorge Borhausen. Comandada pelos estudantes da UFSC, muitos dos quais acabaram presos, a novembrada apontou o rumo para um tempo novo, no qual as pessoas pudessem outra vez falar, atuar politicamente, sonhar com novas formas de organizar a vida. Ali, já no cair da noite, essa luta foi lembrada por Marize Lippel, uma das estudantes presas naquele conflito.   

A caminhada encerrou na Esquina Democrática, espaço histórico da luta social em Florianópolis. Muitas falas emocionadas, muitas canções, e muita alegria. Porque apesar da dor por todos aqueles que tombaram, pelos desaparecidos, pelos que ainda hoje sofrem as sequelas das atrozes torturas praticadas pela repressão, há que celebrar a vida que toda essa gente semeou, tornando possível a claridade de um tempo novo, a democracia, ainda capenga, ainda incompleta, ainda insuficiente. Mas, não fossem eles, estaríamos ainda vivendo as trevas do medo, do silêncio cúmplice, do terror. 

Porque nunca é demais  lembrar que a ditadura vivida no Brasil não foi uma coisa isolada. Ela fez parte de uma política dos Estados Unidos para a América Latina, que visava impedir que se espalhasse pelo continente a boa-nova da vitoriosa revolução cubana. Essa luta na ilha caribenha mostrava que era possível vencer o império, que era possível garantir soberania, que era possível repartir as riquezas do país com todos, e não só com alguns. Mas, a grande nação do norte queria seguir dominando, então criou a famosa "Operação Condor", que plantou ditaduras em  vários países da América Latina. Nos vizinhos Paraguai, Uruguai e Argentina, milhares de vidas também foram ceifadas. Os militares desses países foram treinados para praticar as mais horrendas torturas e, com elas, impor, regimes de força e opressão.
Esse treinamento, feito pela também temida Escola das Américas, até hoje sobrevive nas cartilhas militares de todo o continente, sendo ainda responsável pelas práticas de tortura que seguem sendo feitas nas milhares de cadeiras e quartéis desse país e dos demais da América Latina. Basta citar o emblemático caso do pedreiro Amarildo, embora milhares de anônimos sigam sofrendo nos porões. 

Essas verdades duras, essas verdades nuas, caminharam também pela linda Miembipe, a Desterro da gente, a Florianópolis de hoje. E junto com a multidão que marchava iam os nossos mortos: Adolfo, Paulo Wrigth, Higino, Luis, Maria, Sônia, Mosquito, homens e mulheres que pavimentaram com sangue nosso presente de liberdade. Por isso que, ao final de tudo, foi armada uma ciranda. Braços dados, mãos apertadas, corações pulsando, canções. As velhas e as novas gerações, unidas, num átimo de convergência, para  dizer "nunca mais, nunca mais".

E esse primeiro de abril se fez, de verdade, memória, justiça. 

domingo, 30 de março de 2014

"Olímpia Gayo visita ao diabo" é lançado em Lages



 Cema  - primeira presidente da Associação de Empregadas Domésticas de Lages








Terezinha Carneiro - ex vereadora e vice-prefeita

O livro de Elaine Tavares , “Olímpia Gayo visita o diabo”, foi lançado nesse dia 28 de março, no Salão do Livro Serra Catarinense, em Lages. No espaço “palavra do autor”, a jornalista contou como conheceu Olímpia, a freira franciscana que iniciou naquela cidade o trabalho com as mulheres marginalizadas. “Ela foi uma precursora, e numa cidade tremendamente conservadora como Lages. Primeiro, ajudou a organizar as empregadas domésticas, que viviam quase que como escravas. Depois, as negras e, finalmente, as mulheres dos prostíbulos. Criou a Pastoral da Mulher Marginalizada e foi a primeira a trabalhar na prevenção do vírus da Aids junto às prostitutas.  Conseguiu o ódio dos conservadores, da elite local e até de algumas lideranças da igreja, mas ao longo de toda sua vida foi fiel ao mote que move as franciscanas: atuar junto aos oprimidos, aos pobres, aos caídos. Olímpia é parte da história dessa cidade, um patrimônio de dignidade e beleza”. 

Estiveram presentes à apresentação outras duas mulheres que foram fundamentais no movimento de organização popular e feminino na cidade de Lages: Noema Ferreira Tives , a Cema, que liderou o movimento das empregadas domésticas, e Terezinha Carneiro, a primeira mulher a se eleger vereadora e que, quando vice-prefeita, consolidou o trabalho de organização comunitária junto com a irmã Olímpia. Segundo Olímpia, pouca coisa poderia ter sido feita se não fosse a parceria, particularmente dessas mulheres, bem como de tantas outras que passaram pela Pastoral. “Foi uma caminhada conjunta de recuperação do nosso ser feminino, da nossa verdadeira imagem como ser humano. Valeu a pena tudo o que fizemos. Obrigada a todos vocês”.

O trabalho de Olímpia, iniciado nos anos 80 repercutiu no estado de Santa Catarina, pois ajudou a debater a questão da mulher em várias cidades, inclusive na capital, e fomentou a criação de muitos movimentos com a temática feminina, homossexual e de busca por direitos. Terminou por pressão da cúpula da igreja catarinense, mas deixou sementes que germinaram para além dos desejos de “calar a boca” dos poderosos de plantão. Olímpia não calou e seguiu. Toda a sua história, assim como a da Pastoral agora está eternizada em livro e renasce, outra vez, semeando.  

Veja o vídeo do lançamento



sexta-feira, 28 de março de 2014

Polícia no campus da UFSC e a reação conservadora



Desde os anos 80 a cidade de Florianópolis vive ondas de crescimento e migração, sem ser acompanhada por um  bom Plano Diretor que organize o processo. Uma boa porcentagem de migração é de gente rica, cansada da vida nas megalópolis, com degradação e violência. Assim, essas pessoas endinheiradas buscam recantos bucólicos na linda "ilha da Magia", antes Desterro, para fugir das situações criadas justamente pela acumulação de capital por parte de uns poucos. Mas, uma outra parte das migrações é composta por gente que busca um lugar onde melhorar a vida. São famílias que saem do interior do Estado de Santa Catarina, ou de outras regiões do país, nas quais o emprego não se apresenta como alternativa para garantir a existência. Com as propagandas em rede nacional de que aqui é o melhor dos mundos, a europa brasileira, as pessoas são atraídas e vêm em busca da vida digna. Todo esse movimento fez com que a cidade crescesse para todos os lados. Aos ricos, estão reservados os melhores lugares, próximo às praias ou nas regiões centrais. Os empobrecidos ocupam áreas de risco, os morros, ou vão se espalhando pela periferia.

A região da Trindade, onde hoje está a Universidade Federal de Santa Catarina, nos anos 60, quando a instituição foi criada, nada mais era do que uma grande fazenda. Vazio urbano, espaço pronto para ser ocupado em nome do progresso. A construção da sede da UFSC fez com os terrenos se valorizassem e, logo, o entorno foi sendo tomado por prédios que viriam a abrigar os estudantes que começavam a chegar. Mas, não foi só a classe média e alta que fincaram suas bases ao redor da UFSC. Também os empobrecidos vieram, ocupando os morros que cercam a universidade, afinal, ali, a vida e o comércio começaram a vicejar. Nada diferente do processo de crescimento de todas as grandes cidades. Centros ricos e bem cuidados, periferia degradada. Um existindo por conta do outro, conectados na lógica da dependência e da superexploração.

E, como sempre acontece, a classe que cria a pobreza, ao mesmo tempo a repudia e sente medo. Já nos anos 80, o entorno da universidade causava temor. As "favelas" eram foco de marginalidade e o tema "segurança do campus" começava a se impor. Pequenos furtos, alguns assaltos e a presença dos empobrecidos nos caminhos da UFSC levaram algumas vozes a clamar pelo fechamento do campus, com cercas e portões. Como sempre acontece, outras vozes ecoaram entendendo que se a periferia existe é porque o centro a cria, portanto, há um papel de responsabilidade aí que precisa ser visto e discutido. A universidade como "casa do saber" precisa ter ousadia para criar o novo e não apenas reproduzir a lógica que vem de fora, dos mecanismos de repressão, por exemplo.

Assim que durante os anos 90, o tema segurança foi ponto nevrálgico no debate entre professores, técnicos administrativos em educação e estudantes. Derrotada a proposta de uma ação institucional combinada de trabalho no entorno periférico da UFSC, de lazer, educação, esporte, arte e cultura para as comunidades, o campus foi cercado, mas ainda sem portões que impedissem o livre circular das gentes que não faziam parte do seleto grupo universitário. Ainda assim, aqueles que temem os pobres e os preferem bem longe seguiram atuando, no sentido de garantir o fechamento e a ação da polícia dentro da universidade.

Com o crescimento da cidade e o consequente aumento da criminalidade, a região da UFSC não poderia virar uma ilha de paz em meio ao caos. Ela reproduz todas as relações que existem na sociedade. Assim, o campus passou a ser também alvo de ladrões de carro, assaltantes, traficantes de drogas e toda a sorte de ilícitos que existem em qualquer lugar, mesmo na linda Beira-Mar ou no Jurerê internacional. Mas, como a universidade deveria ter por princípio encontrar caminhos alternativos para o enfrentamento dos problemas causados pelo desenvolvimento capitalista, seguiram também atuando os grupos que acreditavam ser possível uma relação mais harmônica com as comunidades do entorno - preconceituosamente vistas como "foco de marginais" - e no enfrentamento da violência e do  crime que, de fato, existem e crescem exponencialmente. Foram realizados encontros, fóruns, debates e discussões envolvendo pesquisadores, estudantes, trabalhadores, comunidade. Muitas foram as propostas, mas praticamente nada era encaminhado.

Uma coisa sempre foi muito clara. A ação da polícia militar encerra toda uma lógica que não serve ao mundo democrático. No mais das vezes, em um espaço como a universidade, sempre permeado por lutas, protestos e discussões acaloradas, seria ingenuidade acreditar que, estando no campus organicamente, a polícia não atuaria como aparelho repressor destas atividades. É bastante comum no Brasil observar a polícia agindo sempre considerando o povo que luta como "inimigo da nação". Essa é a visão de uma polícia militar. Sempre temendo um inimigo interno. Assim, o debate sempre pontuou esses elementos. A segurança do campus e das pessoas que aqui circulam precisava então ser pensada de outra forma. Soluções criativas sempre existiram. Mas, nunca foram implementadas, seja por incompetência ou por decisão política mesmo. O tema segurança seguia em suspenso e aos administradores aparecia como mais fácil chamar a polícia, eventualmente, sempre que julgassem necessário. E isso se deu recorrentemente, no geral para reprimir estudantes ou trabalhadores. Em casos de crimes comuns, como assaltos ou roubos, a polícia sempre atuou, conforme sua competência e isso nunca foi colocado em questão.

Assim, os que dizem que quem é contra a polícia no campus defende bandido, precisam conhecer bem a história do tema segurança na UFSC, antes de saíram "atirando" contra os que - entendendo o papel crítico da universidade - preferem discutir e criar novas alternativas. Ninguém que faça esse debate é a favor de quem comete crimes. Apenas observam o problema desde outro ponto de vista: coletivo e social. A segurança não pode ser pensada só desde uma perspectiva pessoal: o meu carro, a minha bolsa, o meu problema. É certo que uma pessoa assaltada é também um ser mergulhado no social e é por isso mesmo que deveria pensar de maneira mais generosa no todo do qual faz parte.

Mas, o que se vê é a violência extrema contra os que buscam saídas coletivas. Ontem, um colega de trabalho, por exemplo, desejou que eu fosse assaltada para ver "o que é bom" e parar de defender bandido. Falava isso porque me colocava contra a ação desastrada - da polícia federal, militar e da segurança do campus - que acabou gerando um levante estudantil. E o mais grave é que essa não é uma fala isolada. Ela se  reproduz nas redes sociais como um vírus.

Dentro desse contexto voltamos ao começo: quem é o bandido, cara pálida? Quantas vezes na história da UFSC a entrada da polícia se deu para combater o crime real? Quantas vezes a polícia veio para reprimir estudantes ou trabalhador em luta? Ainda não tenho a conta certa, mas nesses 25 anos que trabalho na UFSC a presença repressora da polícia se deu - em maioria absoluta - contra trabalhadores e estudantes que lutavam por salário, bolsa estudantil, comida decente, moradia estudantil, condições de trabalho dignas e por aí afora. Agora, é certo também que quando tem um roubo, assalto ou tráfico, a polícia vem, sem alarde, sem choque, fazer o seu trabalho. Nunca foi impedida, nem poderia.        
    
Os episódios que gestaram o Levante do Bosque estão dentro desse contexto maior que envolve uma administração vacilante, incapaz de unificar a comunidade num projeto institucional de discussão sobre a violência. Estão ligados também a uma proposta de segurança interna que igualmente vacila entre o desejo de ser polícia e o medo da criminalidade crescente, sem que as condições de enfrentamento sejam dadas. Sofrem o acréscimo de existir uma batalha interna de poder, mais o ódio da mídia hegemônica contra uma administração que diminuiu verbas de publicidade. Tudo isso contribuiu para a ação espetacular e tragicômica que tornou a presença de cinco baseados no bosque no motivo para uma violência desmedida.

Notícias posteriores deram conta de que a reitoria tinha assinado um protocolo com a polícia, permitindo investigações no campus. Ora, ninguém pode assinar um protocolo com a polícia pensando que ela não vai agir como polícia. Então, temos aí também uma decisão ingênua e destituída de habilidade que igualmente tem de ser debatida. A administração da UFSC precisa de mais ousadia.

O fato é que, de novo, estamos mergulhados na discussão sobre a segurança, a violência e o papel da polícia. Isso é bom. Não precisava ter o que o houve,  mas pode-se agora avançar para o que sempre esteve em pauta: uma posição institucional sobre o tema, que possa atender todas as demandas. Precisa-se de mais segurança para andar no campus? Sim! Mas, para garantir isso existem outras formas, para além da presença da polícia. E depois, quem disse que os "universitários" precisam de mais segurança que o cidadão comum? Quem arrogou a comunidade universitária o direito de ser mais igual que a cidade?

Então, ainda que os viúvos e viúvas do regime de "mão firme" gritem por polícia para proteger os seus bens, é preciso pensar que estamos todos juntos nesse barco da vida regida pelo capital e que os problemas de segurança que temos precisam ser resolvidos no âmbito do debate geral sobre a forma como organizamos essa vida. A polícia desmilitarizada, parceira do cidadão, pode ser um caminho para a proteção contra os crimes. Mas, a polícia militarizada, que vê o cidadão crítico como inimigo, essa precisa ser questionada. Ainda que doa.

A vida é dura, ainda que só para alguns. Por isso, a luta!


terça-feira, 25 de março de 2014

Em Lages, Olimpia Gayo visita o diabo




Livro que conta a vida da freira franciscana que organizou as mulheres prostituídas de Lages será lançado dia 28 de março, na Praça Joca Neves

“Faz calor em Vacaria, interior do Rio Grande do Sul. São pouco mais de duas da tarde e, talvez por ser ainda tão cedo, os bares estejam vazios. Dois deles estão quase em frente à famosa Casa do Povo, um projeto arquitetônico de Oscar Niemayer. São modestos. Um balcão de madeira velha, algumas mesas de lata, cortinas de pano desbotado. Ali “se faz a vida” como diz a Irmã Olímpia, freira franciscana que desde os anos 80 se dedica a organização das mulheres marginalizadas. E é bem em frente a eles que a irmã para o carro e desce para uma visita. Do fundo do balcão os olhos de Sabrina se acendem. Ela abre os braços e corre para a porta pronta para enlaçar o corpo da freira num apertado abraço. Olímpia pergunta da família, das outras moças, conta histórias, dá boas risadas e se deixa ficar. Sabrina pergunta das reuniões, do encontro que vai acontecer em Caxias, para o qual ela e outras mulheres já estão se preparando. Elas combinam coisas, trocam informações e lá se vai Olímpia de novo, para outro bar”.

Essa é parte da vida da freira franciscana que a jornalista Elaine Tavares registra no livro “Olímpia Gayo visita o diabo”, lançado pela Companhia dos Loucos, editora independente de Florianópolis. Olímpia é reconhecidamente uma das mulheres mais importantes no âmbito da luta de classe do estado de Santa Catarina. Numa cidade conservadora, como Lages, na serra catarinense, ela ousou organizar as empregadas domésticas, os negros e as prostitutas. Nos anos 80, quando a Aids faz sua aparição no mundo, ela está mergulhada no processo de organização das mulheres prostituídas e acaba sendo fundamental na batalha pela proteção das mulheres no sexo e contra a discriminação.  

Sua história começa na pequena comunidade de Nova Roma, onde nasceu, mas é em Ipoméia, Santa Catarina, que aos 13 anos decide ser freira. A partir daí toda sua existência vai sendo marcada pela entrega ao outro, no amor e na compaixão. Bem mais tarde, será em Lages que ela vai consolidar o trabalho de organização das mulheres, abrindo portas para a emancipação feminina em todo o estado. Seu nome já está eternizado como uma precursora e mesmo com todas as adversidades que encontrou dentro e fora da igreja, ela nunca se dobrou. Hoje, vivendo em Vacaria, Olímpia segue seu trabalho junto aos marginalizados.

Toda a rica história dessa vida de comunhão com o oprimido está agora também eternizada em livro. E a cidade de Lages poderá, finalmente, conhecer a intimidade dessa mulher que foi como um farol a iluminar a vida de tantas mulheres. Será também o momento de a cidade se ver desnuda na sua relação com as mulheres prostituídas. Um olhar para dentro. Um mergulho que vale a pena ser feito. 

O livro “Olimpia Gayo visita o diabo” - cujo título evoca os “diabos” que precisaram ser enfrentados ao longo da caminhada - será lançado no Salão do Livro da Serra Catarinense, evento promovido pela Fundação Cultural de Lages, nesse dia 28 de março, sexta-feira, às 18h, na Concha Acústica da Praça Joca Neves, no centro de Lages, com a presença da autora – jornalista Elaine Tavares - e da irmã Olímpia Gayo. 

Vale a pena conferir essa história que é parte da história da cidade de Lages.