quarta-feira, 30 de abril de 2025

Resenha: Boa Noite seu Tavares


Na página do projeto “Narrar o Alzheimer”, encontro essa generosa resenha sobre o meu livro “Boa Noite, seu Tavares” pela lavra de André Carvalho.  

“Na resenha anterior, apresentei o primeiro livro de memórias brasileiro a tratar dos cuidados de uma pessoa com demência. Hoje, trato do mais recente, "Boa noite, seu Tavares", de Elaine Tavares.

Elaine cuidou do pai, Nelson Tavares, em Florianópolis por oito anos, desde o diagnóstico de Alzheimer em 2016 até 2024, quando ele faleceu. O livro é composto de crônicas sinceras e bem-humoradas escritas ao longo desse tempo, muitas delas publicadas na comunidade virtual Anjos que Cuidam, do Facebook. Temos acesso ao dia a dia de uma filha sensível, carinhosa, firme e corajosa durante o percurso da família através das "milhares de fases" que a doença desenrola.

Elaine é jornalista e escreve muito bem. Cada crônica é sucinta, mas densa. Mistura memória afetiva, informação de saúde e reflexão política, tirando da experiência própria lições para o comum. Aliás, um dos (muitos) méritos do livro, que o destaca dentre similares, é justamente a vocação política de compreender a doença e o envelhecimento no contexto de nosso capitalismo marginal. Assim, mesmo narrando a experiência familiar e doméstica, somos lembrados a buscar as causas para tanto apuro e desamparo, da falta de preparo dos médicos à infraestrutura de transporte público da cidade.

Outro destaque é a consciência das armadilhas de quem vive e narra o cuidado. Elaine não romantiza a doença: "é uma merda". Literalmente. Por outro lado, não existe uma página em que a tragédia domine. No final dos dias mais turbulentos, seu Tavares solta uma frase que derrete nosso coração e redime a penúria da filha. Sempre vale lembrar que Sublime virou marca de papel higiênico.

Há pelo menos outras duas diferenças marcantes com obras do tipo. Primeiramente, não encontramos a tentativa de reconstruir a vida e a identidade do pai, como em biografias tradicionais. A autora aceita plenamente quem o pai é em cada momento, e suas transformações ao longo dos meses e dos anos. O ato-reflexo de voltar à integridade da identidade fixa, segura, está ausente. Em segundo lugar, não existe no livro a cena tradicional do espanto e da crise desencadeados pelo não reconhecimento. Elaine aceita que às vezes seu pai não a reconheça "como filha", mas tem plena segurança de que existe um reconhecimento mais profundo no cuidado e no carinho diários. Juntas, essas diferenças apontam para uma fluidez que narradores/cuidadores de países mais desenvolvidos — leia-se, mais calvinistas e individualistas — raramente alcançam. É na brincadeira, no afeto, no apego à convivialidade e ao improviso de um modo mais humano de existir que Elaine Tavares descobre o caminho. Aqui, o livro realmente se parece com a troca em grupos de apoio de familiares: é gente cuidando de gente.

Se tivesse que recomendar um livro para cuidadoras e cuidadores que desempenham a função 24 horas por dia, seria esse.



sexta-feira, 4 de abril de 2025

A mais-valia ideológica explodiu


Lendo um artigo de Lucas Aguillera, no sítio Nodal, me deparo com a informação de que o argentino médio passa mais de oito horas com os olhos grudados no celular e que mais de 70% da população mundial já tem acesso a esse inoportuno telefone de mão, igualmente abduzido pelo rola-tela em horas a fio. Vejo isso aqui mesmo, na minha aldeia. Há, portanto, uma extraordinária concentração da vida nestes aparelhos que combinam trabalho, vida pessoal, lazer, espiritualidade, tudo ao mesmo tempo agora, desfazendo todas as fronteiras e limites. E, se até então, o capital consumia nossa vida apenas no horário de trabalho, roubando-a a partir da mais-valia, ele agora se imiscui em todos os espaços da existência, exigindo mais e mais, como o deus Moloc.

Com o telefone na mão as pessoas não têm mais horário para o trabalho. A qualquer momento uma mensagem exige algo, 24 horas pulsando. A pessoa está no ônibus e está trabalhando, não está no cinema e está trabalhando, está no parque e está trabalhando. Há quem criou que isso é um ganho, empreendedorismo.

Mas isso não é tudo. O celular também é espaço de roubo da mais-valia ideológica, para usar um conceito de Ludovico Silva. Esse pensador venezuelano, ao estudar a televisão, viu que o trabalhador quando chegava a casa (acreditando estar no seu momento de descanso) e ligava a televisão, estava igualmente capturado pelo capital. Na telinha, entre um programa e outro, as propagandas o incentivando a comprar, comprar, comprar, eram o capital concorrente, bem como as mensagens subliminares escondidas nas novelas, entretenimento etc… Nas palavras dele: “Assim como na oficina da produção material capitalista se produz como ingrediente específico a mais-valia, assim também na oficina da produção espiritual do capitalismo se produz uma mais-valia ideológica cuja finalidade é fortalecer e enriquecer o capital ideológico do capitalismo: capital que, por sua vez, tem como especificamente protegido e protegido o material de capital”.

Pois agora, com o celular, essa produção de mais-valia ideológica é colocada na enésima potência. Daí a importância de se voltar para Ludovico. As plataformas das redes sociais mudam a cada minuto os algoritmos que tentam empanturrar as pessoas com mercadorias para comprar e ideias de jerico para defender. É um carrossel alucinado. As informações são repassadas sem qualquer contexto virando uma algaravia sem sentido e, ao final de mais de 15, 20 horas de rolagem da tela, tudo o que fica é absoluta sensação de vazio e o desejo de comprar.

As plataformas não nos pertencem, então não dá para ter a ilusão de que podemos mudar por dentro. Não dá! O que nos leva ao óbvio. O problema não são as plataformas, mas o modo como o mundo se organiza neste modo de produção. As tecnologias só ajudam a fortalecer e manter essa barbárie. É na realidade material da vida, nas ruas, na luta política, na organização coletiva que pode haver alguma chance de mudar as coisas. É certo que as pessoas estão obnubiladas (cegas), anestesiadas pela luzinha azul da tela do celular, que incutem a ideia de que isto é o perfeito.

Mas, sempre é possível desligar o aparelho e olhar para a vida mesma. Quando a gente enxerga, a proposta de mudança é a única possível. Uma única!

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O livro de Ludovico Silva, “A mais-valia ideológica”, faz parte da Coleção Pátria Grande, do IELA, Volume 3, e pode ser encontrado em www.insular.com.br

quinta-feira, 3 de abril de 2025

Do horror


Sim, sigo despertando no meio da noite, assombrado pelo horror que vem sendo cometido contra o povo palestino, todos os dias, pelo estado de Israel. Vi, ontem, que os soldados de Israel mataram, um a um, no mesmo esquema de execução, 15 paramédicos e uma equipe de resgate. Ou seja, não satisfeitos em arriscar o mundo dos palestinos, querem exterminar qualquer um que resolva ajudar. Isso não é crime de guerra. Não há guerra. O que há é genocídio. Essa gente não pode seguir impune.... E o que me tira o sono é saber que sim, seguirão impunes, e a gente nessa impotência sem tamanho... Os governos que podem mudar isso, não fazem nada.. é aterrador!

domingo, 23 de março de 2025

os perrengues



A vida da gente é esse rodopio incessante de pequenos sobressaltos. Na última semana, por exemplo, num calor de mais de 30 graus, o sistema desintegrado de ônibus me deixou na mão duas vezes. Na primeira vez, calor dos infernos, carro sem ar-condicionado, cheio até a boca, veio pela Gramal sofrivelmente, fazendo um barulho estranho. “Essa porra vai parar”, eu pensei, e os usuários se olharam cada um torcendo para que o busão fosse o mais longe possível. Não deu. Umas quatro paradas depois do Hiperbom o ônibus parou. “Tem que descer, pessoal”. Putz! Tinha quase todo o Gramal pela frente e depois ainda o caminho vicinal até em casa. Toca andar porque até chegar o ônibus reserva passaria um dia inteiro. Sol na moleira lá fui eu, suando em bicas. Obviamente cheguei a casa praguejando. Maldito Topázio. 

Na segunda vez foi dentro do mesmo terminal. Cheguei da UFSC vindo por Tirio/Titri. Ninguém na fila. Glória a Deus. Poderia ir sentado já que o horário que sairia em seguida era o Eucalipto, que leva uns 40 minutos até passar no meu ponto, depois de dar a volta em três bairros. Eu ali, bem faceira, primeira da fila. Chega o ônibus, abre a porta e eu entro, aboletando no meu banco preferido perto da porta. Os minutos passam. O ônibus enchendo. Quando dá a hora, vem o motorista. Liga o carro e nada. Só aquele barulho estranho, sem fazer a ignição. O motorista Pragaja. Liga e liga e liga, e nada. “Vai ter de descer, pessoal”. Puta merda. Desce todo mundo, sem qualquer respeito à fila e na confusão eu fico lá no final. Quando vem o carro novo, entra no mundo todo e eu fico em pé. Maldito Topázio. 

Ontem, calor da peste, desço eu no meu ponto na Gramal e venho me arrastando, ao sol, pela rua de casa, que dá quase uma milha até chegar. Lá longe avisto o “Malino” que é o nome que eu dei a um cachorrinho que vive numa casa da rua. Ele vez em quando escapa e fica deitado bem no meio da rua. É uma cruz de pincher com algum vira lata, porque é grandinho, mas tem o gênio pincher. Há que ter uma técnica para passar por ele sem ser atacado. A gente não pode fazer contato visual. Se olhar pra ele, arreganha os dentes e vem pra cima. Quando o pai ainda estava vivo era um perregue quando a gente saia porque eu dizia: não olha, pai. Pois aí mesmo que ele olhou e o malininho atacou. Pensei, vou dar a volta, mas isso significaria caminhar de volta até o final da rua e depois vir pela rua paralela, que dava mais um quilômetro. Era muita mão. Arrisquei. Ergui a cabeça como o olhar o céu e avançar. Ele deitadão bem no meio da rua. Estava tudo indo bem, eu passando, ele quieto, eu passando. Quando finalmente passei por ele arrisquei um revesgueio. Carambolas! Péssima ideia. Ele arreganhou os dentes e atacou. Lá vou eu correr do malino, me defendendo com a bolsa, enquanto ele me persegue até o portão. Desgrama! Aqui não posso dizer maldito Topázio, afinal desta o prefeito não tem culpa. Entro, esbaforida. É só mais um dia normal.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

Levando o pai



Eu tinha uma missão para meu janeiro: levar o pai para encontrar com a mãe. Isso levou a cabo um périplo, saindo de Florianópolis até o rio Ibicuí, onde faz divisão entre Itaqui e Uruguaiana, na fronteira brasileira. Ali deixamos a mãe em 2009, atendendo a um pedido dela. “Quero que eu joguem no Ibicuí”, ela dizia. A mãe encantou em 1998, mas por conta de mil coisas vividas de enterrá-la em João Pinheiro, Minas Gerais. Era um lugar que ela não gostava e eu fiquei por anos pensando na forma de fazer sua vontade. Até que em 2009 deu. Cremamos seus restos e levamos ao rio. Foi uma viagem linda, com o pai, o Renato, o Rubens e a Rose. Lá, numa única cerimônia, entregamos a mãe para o Ibicuí. Foi quando pai define igualmente sua morada final: “também quero vir pra cá”. Não foi novidade pra mim. Assim como a mãe, o pai também tinha as melhores memórias da vida na beira do velho rio. 

Assim que neste 2025, quase um ano depois da morte do pai, eu fui realizar sua vontade. Saí do Desterro no dia 15, primeiro dia das minhas férias, rumo a Navegantes aonde ia encontrar a Rose. Ela cumpriria a generosa tarefa de me levar até o rio. No dia seguinte empreendemos a jornada, dirigindo 11 horas seguidas até Ametista do Sul, onde descansamos por dois dias. Depois, foram mais sete horas até São Borja, com mais uma parada para rever amigos e lugares. Logo a frente estaria Itaqui e então o rio, onde depositaria as cinzas do seu Tavares. A ideia era ir ao mesmo lugar onde deixamos a mãe, seguindo uma estrada curtinha bem na beira da ponte, que levava ao curso do rio. Mas, para nossa surpresa, debaixo de um sol de quase 50 graus, encontramos a entrada do caminho fechado. Propriedade particular. A estrada agora era de uma mineradora e não tínhamos como chegar ao rio por ali. Resolvemos atravessar a ponte e ir para a margem já no lado de Uruguaiana, mas o rio estava seco demais e havia uma faixa de areia de quase 300 metros até chegar à água. Não tinha como andar ali, poderia haver buracos. Bateu o desespero. Tanta estrada e talvez eu tivesse de voltar com o seu Tavares.

A ponte do Ibicuí é uma velha ponte de ferro na qual só tem espaço para um carro, então é por isso que ali tem ainda um sistema bem antigo de controle, feito por pessoas. Sim, nestes tempos internos e virtuais, o controle é feito por pessoas. E foi o que nos salvou. Um cara fica do lado de Itaqui e outro do de Uruguaiana e são eles que fecham a cancela ora de um lado, ora de outro, para os carros passarem. Paramos o carro em frente à guarita e perguntamos se o rapaz sabia de alguma maneira de chegar ao rio. Eu quase choro. “Eu fiz uma promessa moço, preciso chegar ao rio”. Não havia jeito de descer por ali. Eu acho que ele logo viu o que era, embora eu tivesse vergonha de dizer que ia jogar como cinzas, com medo de ele achar ruim, sei lá. Ele então perguntou: vocês vão jogar alguma coisa? Fui obrigada a confessar. "Sim, são as cinzas do pai. Eu prometi". 

Conversa vai, conversa vem, ele então deu a ideia salvadora. “Bom, por ali pela areia não dá pra ir. O único jeito é vocês pararem na ponte e de lá vocês jogam. Eu paro a ponte deste lado, e peço para meu amigo fechar o lado de lá. Quando terminarem, sigam em frente”. Oh, meu Deus, vontade de pular no pescoço dele. Por sorte encontramos alguém capaz de entender o lance. 

Corremos para o carro para voltar pela ponte. Mas, aí, outro perrengue. A urna estava fechada com parafusos e não tinha como abrir. Mais um desespero. E, de novo, uma espécie. Rose havia levado muitas coisas para a gente comer na viagem, logo, havia utensílios. Uma faca de serrinha serviu de chave de fenda e conseguiu abrir uma urna. O sol queimando, a gente pingando suor. Não teria de ser fácil, né, seu Tavares? Por fim, reiniciamos o caminho pela ponte, no sentido de Itaqui. Andamos até o meio da ponte, onde finalmente encerrava a faixa de areia. Lá embaixo, o rio, na sua corredeira. Paramos. As duas cancelas estavam fechadas. A ponte era toda nossa. Desci, me equilibrando no minúsculo espaço de ferro. "Agora é contigo, meu velho. Vá ao encontro da mãe". Dei meu último adeus e joguei as cinzas, que se esparramaram pelo rio junto com as minhas lágrimas, afinal, foi mais uma despedida.  

Apesar de magrinho, o Ibicuí resplandecia naquela quase meio-dia. Fiquei olhando a sua caminhada macia, ouvindo o riso do pai e da mãe, nadando em largas braçadas, tal como faziam na juventude. Voltei para o carro, cruzamos a ponte, fizemos a volta, cruzamos de novo, e nos despedimos do rapazinho que havia tornado possível aquele momento bonito. E seguimos no boato de Uruguaiana, eu ainda em lágrimas, mas com o coração leve. 

Parte da minha vida ficou ali, naquele rio tão amado, que segue seu curso até o imenso rio Uruguai. Agradeço infinitamente à minha querida amiga, Roseméri Laurindo, por ter sido companheira deste triste e bonito adeus...


segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

O pátio da Dona Noêmia




Quando eu tinha 4 e 5 anos morava numa casa de esquina na rua João Palmeiro, em São Borja. Era uma casa grande, com um quintal imenso, mas o que me atraia mesmo era o casarão que ficava em frente, na outra esquina: a casa da Dona Noêmia e do seu Aparício. Ali viviam os dois com os seus filhos, uma das quais, Maria Elena, seria aquela que me levaria para o colégio, meu inesquecível primeiro ano no Francisco de Miranda, no bairro do Passo. Tenho-a na lembrança como minha primeira mestra, ainda que não tivesse sido minha professora. Era ela quem me pegava pela mão até o ônibus que nos levaria para escola, bem longe dali. Imagino eu que minha mãe confiasse muito naquela guria para deixar que sua pequena, de apenas cinco anos, fosse estudar tão distante de casa. 

O fato é que eu aprendera a ler muito cedo, ensinada por minha irmã, que fazia seus temas num quadro verde no quintal de casa. Eu via e aprendia. Dizia a mãe que a Maria Elena, ao saber que eu já lia, insistira para que eu fosse logo para a escola e assim aconteceu. Com ela eu empreendia, todos os dias, a longa viagem de ônibus até o Passo, até hoje lugar de minhas mais doces memórias.

Por conta dessa amizade, era comum a gente estar por ali, no pátio da casa da Dona Noêmia, brincando. Era um desses lugares de encantamento, cheio de plantas e um pouco úmido, onde assomavam flores coloridas. No meio dele um enorme poço, do qual a família abastecia a casa. E no seu entorno não era raro a gente encontrar algum desses sapos enormes, acostumados a viver no meio dos musgos. Tenho marcada na memória a figura da dona Noêmia puxando o balde enquanto seu Aparício tomava chimarrão na sombra da área. 

Agora em janeiro passei por São Borja, bem rapidamente, quando fui levar as cinzas do pai. E não poderia deixar de visitar minha querida primeira mestra, Maria Elena. Para minha alegria, além de abraça-la pude encontrar, linda, lúcida e cheia de memórias, a inesquecível dona Noêmia, hoje com 99 anos. Foi um desses momentos estelares, quando a alegria se faz plena. Tomamos tererê (os termômetros marcavam mais de 40 graus) e revivemos os bons tempos, contando da vida. 

Dona Noêmia, quase completando um século, lembrava cada detalhe daqueles tempos nos quais fomos vizinhas. Foram muitas risada e uma profusão de boas recordações. Quando chamei para registrar o encontro numa foto, ela levantou, bem serelepe, e foi ao banheiro pentear o cabelo para sair bem bonita. Uma querida. Naquela tarde calorenta com a cidade ardendo sob o sol, nós três desfrutamos da frescura da amizade que não morre. Passados quase 60 anos daqueles dias na João Palmeiro, o pátio da dona Noêmia segue sendo lugar de absurda beleza. O grande casarão não existe mais, mas aquele jardim secreto continua vivo na nossa memória.



sábado, 25 de janeiro de 2025

Museu Getúlio Vargas








Dos seis aos 10 anos vivi colada na vida de Getúlio Vargas, em São Borja. Minha família morava numa casa de aluguel pertencente à Dona Dília, getulista roxa. Bem em frente ao casarão do qual ocupávamos a metade estavam os fundos da casa do filho de Getúlio, Viriato, e alguns metros à frente, a casa do próprio Getúlio. Andar por ali era caminhar na história. Foram incontáveis as vezes que brinquei nos jardins da casa do Viriato com outras crianças que eram filhas das empregadas da casa. Ao contrário da casa do Getúlio, que sempre foi um típico casarão da Banda Oriental, a casa do Viriato se destacava como uma mansoneta moderna, com um imenso pórtico de pedras. 

Neste janeiro fui à São Borja e como não poderia deixar de ser fui visitar minhas memórias. Lá estava a casa da Dona Dília, sólida e impecável, bem como a do Viriato, esta transformada agora em uma empresa. Mais dois passos e Getúlio me acolhia com uma boa cuia de chimarrão. É que hoje tem uma estátua dele, sentado num banco, em tamanho natural, bem em frente ao casarão. 

A casa que hoje abriga o museu foi construída em 1910 e para ela se mudou Getúlio no ano seguinte logo após o casamento com sua esposa Darcy. Era ali também que ele tinha seu escritório de advocacia, no qual atendia a gente de São Borja, ricos e pobres. O museu foi idealizado pelo seu filho mais velho, o Dr. Lutero, e em 1984 foi inaugurado.  Ali se pode acompanhar a trajetória política do caudilho, ver os seus objetos pessoais, móveis, livros, documentos, roupas, discos, retratos e até a máscara mortuária. Getúlio está sereno na sua expressão final. 

Aquele dia em São Borja estava especialmente calor, com a sensação térmica acima dos 40 graus, ainda assim, por conta do pé direito bem alto, a casa se mantinha fresca e a visita pode ser feita com vagar. Por conta das mudanças na política local, a professora que atendia como guia havia sido transferida para outro espaço municipal e a casa contava com apenas uma trabalhadora. Ela não sabia dar muitas explicações sobre os objetos e a vida de Getúlio, mas era visível seu carinho pelo presidente. “Ele foi o pai dos pobres”.

E assim, enquanto a cidade ardia no calor, percorremos os cômodos reverenciando aquele que muito fez pelo Rio Grande, pelo Brasil e pelos trabalhadores. Foi o presidente que abriu a porteira do capitalismo moderno, mas que, ainda assim,  mantinha firme seus ideais nacionalistas. 

Para mim, a Elaine menina, além de ele ser o pai do seu Viriato, em cuja casa nos esbaldávamos, já aparecia como uma espécie de herói visto que meu pai tinha por ele muito respeito. Naqueles dias eu pouco sabia de sua história, mas já lhe queria bem, porque meu pai dizia que ele protegia os empobrecidos. Hoje conheço sua vida e suas contradições, e continuo lhe querendo bem...