quarta-feira, 30 de março de 2022

No Brasil das maravilhas


Artistas brasileiros se manifestando contra a censura durante a ditadura 

Nem mesmo os mais mirabolantes enredos do realismo fantástico podem fazer páreo à realidade brasileira capitaneada pelo atual presidente. Fatos que em outros tempos poderiam ser catalogados como completos absurdos neste período obscuro que vivemos são nada mais nada menos do que o cotidiano normal do poder político brasileiro. Eu poderia enumerar aqui as criminosas queimadas na Amazônia e no Pantanal, a destruição da Funai, a entrega do patrimônio público, a proteção aos mineradores e latifundiários, a tentativa de lucrar com a pandemia, o atraso na vacinação, o escárnio com as milhares de mortes, a ocupação do governo pelos militares e pastores, e muito mais. Mas, vou ficar em apenas dois fatos recentes que, apesar de gravíssimos, ao que parece entraram para a conta do “normal”.

Um deles foi a divulgação da existência de uma espécie de gabinete paralelo dentro do Ministério da Educação orquestrado por pastores evangélicos que decidia, a partir de propinas em dinheiro ou em ouro, para onde iam as verbas da educação. A história foi divulgada pelo jornal Folha de São Paulo que conseguiu uma gravação, com a voz do próprio ministro Milton Ribeiro, dizendo que priorizava a liberação de verbas a prefeituras ligadas ou indicadas por pastores a mando do presidente. Os pastores em questão são Gilmar Santos, presidente da Convenção Nacional de Igrejas e Ministros das Assembleias de Deus no Brasil Cristo Para Todos (Conimadb), e Arilton Moura, ligado à Assembleia de Deus. Eles fazem parte do círculo de “assessoria” de Bolsonaro, embora não tenham cargo no governo.

Essa denúncia já tinha circulado, a partir de depoimentos de prefeitos, mas quase sem repercussão. Com a gravação, a coisa avolumou. Ainda assim, apesar do grotesco da situação, o caso não esquentou a chapa. A mídia comercial anunciou sem os alardes que faria caso o escândalo acontecesse em outro governo. O presidente, que só se comunica pelas redes sociais, disse que colocava a cara no fogo pelo amigo ministro/pastor. A pressão por uma atitude no caso veio dos aliados, que temiam que a coisa crescesse e atrapalhasse a candidatura. Por fim, o ministro pediu para sair e o presidente aceitou a demissão. Queimou a cara, mas tudo bem. Agora, o episódio deve ficar por aí mesmo, sem respingar no mandatário geral, que segue fazendo campanha alegando fazer um governo sem corrupção. O que nisso tudo é digno de pasmo? Ainda têm uns 20% da população que acredita piamente. O Congresso, para dar uma de bom moço, anunciou que vai chamar o ministro deposto para dar explicações, mas quem viveu uma CPI da Covid que acabou em nada sabe que isso é só um show para a torcida.

O fato é que enquanto a educação brasileira retrocede séculos, com escolas destruídas, professores destroçados, ensino médio piorado, o ministro barganha a troco de ouro. Um caso digno de episódio num clássico “Cem anos de Solidão” tupiniquim. Mas, nada cola do síndico. Já veio um novo ministro, o quinto, com formação em engenharia de redes (?) e tudo seguirá como antes no quartel de Abrantes. Os trabalhadores públicos federais da educação, que amargam um congelamento de salário desde 2016, organizaram um protesto em Brasília onde cobraram explicações sobre mais esse escândalo, mas a movimentação só apareceu mesmo nas redes sociais das bolhas. A mídia, como sempre, ignorou. 

O segundo caso foi a trapalhada da censura à manifestação de artistas num festival de música. Depois que Pablo Vittar decidiu desfilar com uma toalha tendo a cara do Lula estampada, os advogados do partido do presidente entraram com pedido no Tribunal Superior Eleitoral para que fosse proibida a manifestação política que, segundo eles configurava crime eleitoral. Oi? Como assim? Pois é... Ninguém entendeu. O festival é uma festa privada e Pablo não estava ganhando nada para levantar a cara do Lula. Mas, de novo, o pasmo: um dos ministros, Raul Araújo, deu a liminar proibindo qualquer manifestação imputando uma multa de 50 mil reais para quem a fizesse.

A censura. Limpa e descarada.

O brasileiro levantou-se em rebelião? Não, nada disso. O povo seguiu sua vidinha e lá no festival os artistas recrudesceram as críticas ao presidente Bolsonaro. A galera vibrou entre o som pesado e o coro de “hei, Bolsonaro, vai tomar no c...”, tudo incorporado ao show. Nas redes sociais explodiram os memes, que já são assim uma espécie de instituição nacional. Tudo vira piada, pastiche, e se perde na selva dos fatos que se renovam a cada dia, pois sempre tem um escândalo novo para substituir o velho. A coisa é tão surreal que a liminar foi derrubada pelo próprio autor depois que se descobriu que os advogados erraram o CNPJ da empresa do festival. Ou seja, a medida estava sem efeito. Na derrubada, o ministro do TSE diz que foi levado a crer que era crime eleitoral, mas não era. Mais alguns memes e tudo já é passado. 

Fora isso, mais nada. Lá nas entranhas da floresta seguem matando índios, a fome assola as periferias das grandes cidades, o povo tá sem casa pra morar e o botijão de gás daqui a pouco atinge a soma de 150 reais. Na televisão, em vez de apontar as causas da crise os jornalistas ensinam como se pode viver fazendo foguinho no chão com lenha e forrando os barracos com folha de bananeira, bem como as apresentadoras de programas de comida ensinam como matar a fome com as folhas que são descartadas nos supermercados e cascas de ovo. “Não se avexem, inventem”.

Assim, nesse país de maravilhas, vamos caminhando rumo às eleições de outubro, cujas pesquisas atestam que Lula está em primeiro lugar, com 40% das intenções. Ao que parece, no reino encantado do Brasil, a turma está tranquila, esperando pelo pleito que, conforme atestam os analistas, vai ser limpo e seguro.  Todo mundo acredita nisso, mas se não for, bom, aí teremos mais uma chuva de memes. 

 

sexta-feira, 4 de março de 2022

O que encanta o popular


Eu tenho sempre uma imensa curiosidade por entender o que encanta o popular, por isso estou sistematicamente vasculhando aquilo que a massa curte. Impressiona-me, por exemplo, que alguns artistas consigam levar milhares de pessoas nos seus shows. Fico pensando: mas, por quê? Luan Santana é um. Não entendo. As letras são horríveis, a música não tem ritmo, é um negócio incognoscível pra mim. Também não gostava da Marilia Mendonça. Tá, entendo o lance da indústria cultural e do bombardeio que as gravadoras fazem no rádio e nas plataformas. Mas não pode ser só isso. 

Por outro lado vejo figuras como o Orlandinho, e acho muito engraçado. Ao vê-lo em suas dancinhas estranhas, me divirto mesmo e gosto de ver os três fazendo um matuto/moderno descolado. Gosto de muitas músicas da Anitta e até acho que não precisava ela usar tanto a bunda. Tento entender esse lance de bunda, tento mesmo. Sei que é parte constitutiva do imaginário masculino brasileiro e sei que tem a ver também com esse lance de “meu corpo, minhas regras”, mas acho que fica tudo meio misturado. Também percebo que essa coisa da conotação sexual nas músicas sempre houve, embora agora a coisa esteja menos sutil, mais crua mesmo. Vejam a letra da Malvada, cantada pelo Zé Felipe. A música tem três compositores e basicamente só diz que vai ter socadão, sentadinha e rebolada. É a realidade nua e crua do “sexo selvagem” sem qualquer  romantismo. Creio que isso diz muito sobre o nosso tempo, como também diz muito da libido de gente jovem. Por isso vasculho, pesquiso, conheço. 

Agora encontrei o Xamã, um raper carioca que tem a música mais tocada hoje no Brasil. A mais ouvida. Milhões de vezes em todas as plataformas. O tema igualmente é bunda gostosa, mas também é a realidade do trabalhador comum, o celular sem bateria, a passagem do busão, a malandragem, a tesão. Formas diversas de dizer sentimentos e sensações. 

Acho meio blasê algumas pessoas dizerem que não conhecem esse ou aquele que está bombando na cabeça de milhares. Fui criada ouvindo ópera, sertanejo e música cigana, Lupicínio e Agnaldo Timóteo, Leni Andrade, Miguel Aceves Mejia e Jorge Ben. Depois, Elvis, Rick Wakeman, Paulo Sérgio, Fernando Mendes, Vila Lobos, Ovelha, Beto Guedes. O cabeça e o popular, lado a lado. Ora gosto mais de um, ora de outro. E sinto que não é possível desconhecer aqueles que conseguem – por uma coisa ou outra – cair no gosto de tantos. 

Sei lá, divagando... e ouvindo o Malvadão...

O Adelmo chegou


A internet e suas surpresas. Numa dessas coisas das redes sociais que são inexplicáveis, apareceu na minha linha um grupo de Artistas Plásticos do Brasil. Entrei, afinal, gosto de arte e vi que tinha muito artista popular. Aí me deparei com um cara, o  Claudio Junior Aprendiz, lá do Recife, que fazia bonequinhos de filósofos e outros pensadores. Bah, achei incrível o trabalho dele. Então, como sou apaixonada por bonequinhos, entrei em contato e perguntei se ele faria um bonequinho do Adelmo Genro Filho, para eu colocar no altar dos meus afetos... Ele não conhecia o Adelmo, mas topou. 

Hoje, chegou pelo correio o trabalho do Cláudio. Ai, meu deus. Esperado por mais de dois meses. Pensa numa alegria? O carteiro não entendeu a gritaria, mas sacou que era algo muito precioso o que vinha naquele pacote postado desde o distante Pernambuco.

Pois aí está o meu Adelmo, com o livro "Segredo da Pirâmide" numa das mãos e uma caneta na outra. Esse homem incrível que ilumina minha vida e meu ofício de jornalista. Esse teórico gaúcho que criou a teoria marxista do jornalismo e mudou para sempre a maneira de a gente fazer o jornalismo. Esse homem fantástico que nunca vi e sempre amei. 

Agora, ele vai fazer parte do altar dos meus afetos, onde estão meus outros amores, e sempre vou poder reverenciá-lo com bebidas e comidas, como deve ser. Porque existem mortos que nunca morrem e ele é um. 

Obrigada Claudio, pelas tuas mãos mágicas, capazes de recriar em miniatura a imagem dos que amamos... lindimais... E, não bastasse o próprio Adelmo ainda veio uma flor e um bilhetinho escrito à mão. Há humanos que valem a pena, como tu rapaz... que bom...  que dia feliz... 

O Adelmo, que já vivia em mim, agora é também presença. Não caibo em mim de tanta alegria.

***

Contato com o artista: https://www.facebook.com/claudio.junior.9047

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

Seu Tavares faz 90 anos


Outro dia, enquanto vínhamos do quarto para a cozinha, no passo lento e inseguro, falei com o pai:

- Seu Tavares, sabia que o senhor vai fazer noventa anos? 

E ele, me olhando espantado, abriu um sorriso e disparou, incrédulo:

- Capaz?

Pois é. Sem nem a gente saber como, ele chegou aos 90. Tem sido um caminho bem difícil desde os 86 pra cá. A doença de Alzheimer é muito cruel e vai incapacitando a pessoa, assim, devagarinho. Lembro que quando ele chegou aqui conseguia ir ao mercado sozinho, ligeirinho e serelepe. Agora, os passinhos são trôpegos e ele precisa se amparar. Alterna momentos de alheamento com lucidez, mas no geral passa bem os dias. Dou atenção 24 horas, converso sobre tudo, explicando tim-tim por tim-tim as coisas da casa, os problemas que vivencio, as notícias que vemos na TV, os filmes. Falamos sobre o clima, sobre os animais, sobre política, sobre tudo. Procuro não tratá-lo como criança, mas como uma pessoa adulta que precisa saber o que se passa. No geral ele é bem curioso, tudo quer saber. 

No mais das vezes ele não consegue pronunciar as palavras certas. Brinco que ele agora fala a língua do Cheewbaca, por estar vivendo muito tempo entre os Wookiees. Ele sempre ri quando eu falo isso.  Mas, o fato é que assim como eu entendo o Cheewbe, também entendo tudo o que ele diz. Respondo todas as suas perguntas e ele fica bem satisfeito com as respostas. Nós passeamos bastante pelo quintal, tomamos sol, comemos muita fruta do pé, falamos sobre Quaraí e Uruguaiana, cidades que ainda habitam sua memória, e cuja lembrança sempre suscita uma expressão de grande contentamento. Estamos sempre conversando e a Clau, que é a companheira que fica com ele de vez em quando para eu poder dormir ou trabalhar, faz o mesmo. Ela também entende a língua do Cheewbacca, ri com ele, e isso é muito bom. 

Agora que a doença vai avançando ele tem muitas infecções urinárias e isso acaba debilitando seu corpinho já tão frágil. A última delas fez com ele perdesse a manha de caminhar. Só agora, nos últimos dias ele voltou a andar, e foi uma alegria, porque pensei que não voltaria. Ele é valente e teimoso, gosta de fazer tudo sozinho. Eu dou área, ficando por trás para amparar se necessário.

No final do dia ele toma um copo de vinho enquanto tomamos uma cerveja gelada e assim vamos indo, nos dias que se repetem. Completou hoje 90 voltas em torno do sol. Uma tremenda aventura, quase um século. Tem vivido plenamente, de acordo com seus princípios de honestidade e honra. Trabalhou muito e agora, já sem as imposições da moral, apenas frui da existência. O que faço, como filha e parceira, é garantir todas as condições para que encerre sua extraordinária caminhada na paz e na alegria. O maior presente que ele me dá é justamente isso: ouvir o seu riso. De minha parte, sigo aqui, segurando sua mão... e vamos caminhando...

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

Quando briguei com o pai


Tive a minha primeira grande briga com o pai em 1977. Ele havia partido para Minas Gerais e eu não o perdoava por ter nos deixado sozinhos em São Borja passando tudo o que passamos. Um ex-sócio nos acossando e tentando nos tirar tudo o que tínhamos e a vida da gente se esvaindo. Naquele mesmo ano, logo depois da partida do pai, o meu avô Dionísio morreu e eu não conseguia me conformar com tanta desgraça. Eu culpava o pai e dizia que nunca mais iria falar com ele. 

O pai fora embora para Minas Gerais porque em São Borja não havia chance alguma de conseguir um emprego. Ele já tinha passado dos 40 anos e ainda carregava a marca de ter sido “cupincha” do Jango, o presidente deposto pelo golpe. Depois que a Rádio fechou, por conta da censura do governo golpista, ele havia montado um pequeno negócio com um amigo. O negócio falira e não havia o que fazer. Para nós, foi um baque. A vida ruía e eu não me conformava que ele tivesse nos abandonado. Naqueles dias terríveis era esse o sentimento, mas na verdade ele partira para que nós pudéssemos ter um futuro.

Depois que o vô morreu vimos o oficial de justiça chegar a casa e ir levando tudo o que havia dentro dela. O ex-sócio do pai o enganara fazendo assinar um documento no qual ele entregava até nossa casa. Começamos então a nos preparar para ir para Minas. Lembro que minha mãe decidiu ir até a biblioteca pública da cidade para doar todos os nossos livros. “Pelo menos os livros ele não vai levar”, ela dizia. E para lá partiram caixas e caixas dos livros amealhados por toda uma vida. Acho que nunca chorei tanto na vida como naquele dia. Chegou um momento em que nem cama havia, dormíamos sobre nossas poucas roupas. Quando fomos para Minas, no final de janeiro de 1978, só levamos algumas mudas de roupa e a máquina de costura da mãe. Mais nada. Toda uma vida se acabava. 

Lembro que fiz a viagem certa de que ao chegar a Minas iria buscar meu caminho, pois não ia perdoar o pai. Fomos de São Borja a Porto Alegre e de lá até a estação da Luz em São Paulo. De São Paulo seguimos para Belo Horizonte, carregando nossas malas e a máquina. Chegando à capital mineira pegamos um trem para Pirapora, destino final. Lá pelo meio da viagem o vagão onde estávamos pegou fogo. Foi um furdunço e tivemos que mudar de vagão. Lá fomos nós carregando toda aquela tralha e ainda tivemos de terminar a viagem em pé, no corredor, porque não havia lugar. Foi uma odisseia. 

Lembro como se fosse hoje aquela manhã de fevereiro quando o trem parou em Pirapora. Ainda estávamos na correria de tirar as malas e a máquina de costura do vagão quando vi o pai, nos esperando na estação. Estava magrinho e pálido, com uma roupa puída, retrato acabado da dor da ausência de mais de um ano. Então, todo o rancor que eu havia alimentado naquele ano se apagou. Corremos todos para os seus braços, esquecidos de toda a dor. E tudo que eu havia ensaiado para dizer foi abandonado. A gente precisava de cuidado, mas ele também. E a gente recomeçou, agora todo mundo junto.

Esta história me veio assim porque quis o destino que o pai viesse terminar a vida aqui, comigo. Tenho cuidado dele, pego pelo Alzheimer, há seis anos. E são incontáveis as vezes que eu olho pra ele e vejo aquela imagem de homem perdido e só, que ele apresentava na plataforma da estação. E exatamente como naquele dia, eu abro os braços e o aconchego junto ao coração. A diferença é que daquele fevereiro nós  partimos para a vida, e, agora, daqui, o caminho é o fim. Não é fácil acordar todos os dias vendo meu pai desvanecer. E ali, bem pertinho, a ceifadora à espreita, me encara sem piedade.


quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

Sem caminhos para Gaza



Terminei de ler o livro "Sem caminhos para Gaza", de Renatho Costa (professor da Unipampa), Rodrigo Campos (documentarista) e Lucas Bonatto Diaz (músico). É um retrato sem retoques da jornada de 20 longos dias que eles viveram tentando chegar à Palestina para gravar um documentário. O destino era Gaza e eles optaram por fazer o caminho pelo Egito, já que a tentativa feita de entrar por Israel não deu resultado. A troca de emails com a embaixada de Israel beira o surreal. Não basta ao Estado sionista ter invadido o território dos palestinos e os aprisionado atrás de muros e cordões de arame farpado, também é preciso impedir que outras pessoas entrem, evitando assim que a realidade apareça sob o sol.  

A equipe então começou as tratativas com o Egito, visto que Gaza está há poucos quilômetros da fronteira. A ideia então era chegar ao Cairo e dali seguir até a fronteira e cruzar para Gaza. Todos os vistos foram providenciados com antecedência. Mas, uma coisa é o que diz a burocracia, outra o que acontece realmente quando se está em um país estrangeiro, sem falar a língua local e onde as regras mudam conforme o humor dos burocratas e militares de plantão. A odisséia dos três documentaristas é tão extraoridinária que definitivamente foi preciso que virasse livro. 

Foram 20 dias no Egito, chegando muito perto de passar para o lado palestino, mas, ao fim, não foi possível. O Egito obviamente faz parte do cordão de isolamento formado por Israel para impedir que as pessoas entrem na Palestina e tudo é feito para dificultar, ainda mais quando os visitantes têm câmeras na mão. 

A descrição de todas as peripécias para chegar à Gaza, incluindo aí até a internação hospitalar de um dos integrantes da equipe motivada por um AVC, é impactante e nos carrega sofregamente até o fim. O livro, por conta da descrição detalhada de todas as vicissitudes dos autores, vai além disso, porque consegue mostrar com profunda claridade a tragédia que é a vida dos palestinos na fronteira com o Egito, eles também impedidos de ir e vir, passando por humilhações das mais diversas. 

Sem tempo, sem dinheiro, estressados ao máximo, os três documentaristas tiveram de voltar para casa sem conseguir chegar ao destino. Mas, ao colocarem à luz todo o processo que viveram, acabam desvelando a dolorosa realidade de um povo aprisionado e bloqueado, impedido até de receber visita, o que viola todos os códigos de direitos humanos. Ainda assim, Israel segue sendo apoiado no mundo todo, inclusive sendo o maior aliado dos EUA, que vivem fazendo cruzadas de defesa dos Direitos Humanos, acusando Venezuela, Cuba, Coréia e outros que não se alinham com sua política. 

A Palestina é um campo de concentração. Ler esse livro é um soco no estômago, necessário e urgente. 

O trabalho foi editado e publicado pelo Monitor do Oriente Médio. Vale a pena ler. 

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

Dos horrores do capitalismo

Um homem foi queimado vivo na Beira-Mar (morada dos ricos) em Florianópolis. Estava rolando uma festa ali, mas ninguém viu. O homem era pobre e preto. A mídia diz que ele tinha passagem pela polícia, como se isso justificasse. O horror. Ele lembra que ouviu risos. Ou seja, quem ateou fogo nele, riu, achou engraçado. E foi embora, certo da impunidade. A polícia não sabe de nada, não tem imagens no local (coisa bem estranha, visto que é a região mais nobre da ilha) e chegou a pensar que ele tinha sumido do hospital, aparentemente sem se importar muito. 

Um velho morreu congelado em Paris, França, num bairro elegante.  Sentiu-se mal, caiu no chão e ninguém, absolutamente ninguém, se importou de ver o que estava acontecendo. Era uma noite fria, de inverno. Ele ficou ali caído por nove horas e a primeira pessoa que se acercou dele pra ver se estava vivo foi um morador de rua. Provavelmente as pessoas que passaram por ele acharam que era um bêbado ou um homem da rua e, isso, por si só, era uma indicação de que deveria ser deixado ali. Quando na manhã seguinte soube-se que era um fotógrafo famoso, a comoção foi grande. Teria sido se fosse só um andarilho? Com certeza não. 

Um garoto de 24 anos, pobre e preto, foi espancado, amarrado, e espancado de novo, por ter ido cobrar seu salário do dono de um quiosque no Rio de Janeiro. Se alguém viu o horror, não se manifestou. E cerca de cinco caras mataram o jovem africano porque ele ousou pedir o que lhe era direito.  

Essas são cenas de horror que acontecem praticamente todos os dias em quase todos os lugares do mundo onde impera o capitalismo. Porque neste modo de produção, no qual a exploração do outro é base, há uma completa falta de preocupação com o pobre, o caído, o oprimido, o trabalhador. Não há empatia, não há comprometimento. No geral as pessoas preferem não se envolver. Se está apanhando, alguma coisa fez! Se está aí no chão, boa coisa não é. Se foi queimado é porque estava incomodando.  É o que a maioria pensa. 

Para nós, que nos horrorizamos, é sempre importante lembrar o óbvio: as saídas não são individuais. A saída é coletiva. Para que isso não mais aconteça há que mudar a maneira como a sociedade se organiza. Por isso que a única forma de acabar com essas tragédias é a construção de um modo de vida no qual a cooperação, a solidariedade e a justiça existam de verdade. É necessário que venha o socialismo e depois o comunismo. Claro que ainda acontecerão tragédias, é do humano, mas, certamente não será algo cotidiano como é hoje no mundo capitalista. Disso eu tenho a mais absoluta certeza.

Queria que todos pudessem ter essa certeza também e, desde aí, construir esse mundo novo, a partir da revolução. Afinal, apenas chorar não resolve...