segunda-feira, 23 de agosto de 2021

O império às claras


Ouvi ontem a fala do presidente dos Estados Unidos sobre a retirada do “seu” pessoal do Afeganistão. Ele informava à nação sobre a evacuação do país e sobre quem eles tinham decidido salvar. Tranquilo e sem pejo ele disse que 28 mil afegão tinham sido resgatados, aqueles que durante esse tempo de ocupação haviam colaborado com os Estados Unidos. “Fizemos isso, porque é assim que somos. Cuidamos dos nossos”. Pois bem, 28 mil pessoas e ponto final. Os demais que se virem. Foram lá e destruíram um país, então esse descaso com as gentes não é novidade. “Só se dá bem que é nosso amiguinho”. E provavelmente a audiência aprovou sem destaques a decisão.

Disse ainda o presidente que não havia mais o que fazer no Afeganistão. Eles tinham ido pra lá para pegar Osama Bin Laden e destruir a Al-Kaeda. Isso já estava feito. Então, nada mais havendo a tratar, encerramos essa etapa. Foram 20 anos para ver que nem Osama estava lá, nem a Al-Kaeda. Mas, Julian Assange, o homem que o governo estadunidense quer encarcerar e destruir, já havia dito há anos atrás: não se trata de vencer, se trata de manter a máquina de guerra. Tudo o que há é o business. Tudo que se quer é manter a economia girando. E, depois, o mundo é tão grande. Há tantos países para destruir. Mas, não se preocupem, quem ficar do nosso lado, a gente resgata. Essa foi a mensagem.

Assim, apaziguados e certos de terem sido solidários com os seus amiguinhos, os estadunidenses devem ter ido dormir em paz. Provavelmente haverá algumas campanhas de denúncias por conta da situação das mulheres e depois, em alguns dias, o assunto sai das manchetes e tudo segue seu curso. Tampouco se falará que o Talibã é cria do serviço não tão secreto dos EUA.

Pouco sei do Afeganistão, sua cultura e sua forma de viver. Mas, ao longo desses 20 anos sempre estive do lado daqueles que defendiam o direito do país se autodeterminar. Dizem alguns que lá é um emaranhado de clãs, dominado por tradições arcaicas e que é dever do mundo ocidental, civilizado, impor sua maneira de viver a isso que consideram um atraso. Bem, nós, em Abya Yala, sabemos de cor e salteado sobre o que acontece quando alguém se arvora em ser  “a” civilização. No caso específico do Afeganistão nós pudemos acompanhar via satélite: os crimes, os massacres, o terror, a tortura, tudo o que foi imposto pelas armas estadunidenses em nome da “democracia e liberdade”. Provavelmente isso só foi bom para uma minoria que encheu os bolsos. De novo, o que deve ter pesado foram os negócios, o dinheiro, o lucro.

Assim que os fatos se apresentam sem disfarces para todos nós. Quem tiver olhos para ver, que veja. Quem tiver ouvidos para ouvir, que ouça. Enquanto o que dominar o mundo for o interesse de uma classe minoritária, as coisas serão assim.



Farinha pouca, meu pirão primeiro


Esse é um ditado popular que infelizmente parece ser a regra no mundo humano. Aquilo que toca individualmente é o que acaba prevalecendo. O coletivo serve para bonitos discursos, mas a prática é o que determina aquilo que realmente somos e pensamos. Um dos exemplos disso é a vacina. Há os que, em nome de suas convicções individuais, preferem deixar o coletivo se explodir. Mesmo sabendo que a vacina terá mais eficácia quando mais gente estiver vacinada, há os que se negam, ainda que nos seus perfis de redes sociais façam emocionados discursos pela família, por deus, por gatinhos ou cachorros. 

Outro exemplo são as lutas sindicais, coletivas. Uma batalha travada por uma categoria precisa da adesão de todos, mesmo aqueles que não são tocados pelas decisões. Lembro-me das greves da UFSC quando os técnicos de nível superior decidiram criar uma associação própria porque entendiam que os ganhos vinham só para os de nível médio.  Estudados, sabiam muito bem que numa greve existem várias demandas e que os ganhos podem não chegar da mesma forma nem no mesmo tempo para todos. Houve greves que os TAEs de nível superior ganharam mais, e outras que os de nível médio ganharam mais. É assim. 

Também havia e há até hoje os que sequer fazem greve porque acreditam que estão muito bem, que o seu salário tá bom, que não sofrem assédio, que têm chefias camaradas etc... Então, se existe alguém que não está satisfeito, que lute sozinho. O bom e velho egoísmo funcionando a mil. Sempre tentamos trabalhar isso nos movimentos, observando que a luta coletiva é o que fortalece a categoria, e que as batalhas pontuais a gente vai travando ora aqui, ora ali. 

Agora mesmo a UFSC define um retorno ao trabalho presencial em setembro, apenas para os técnico-administrativos é claro, bem no meio de uma nova onda da Covid, com a variante Delta chegando para arrasar. A ideia, diz o documento da reitoria, é preparar os setores gradualmente para o retorno, ainda que diga que os setores precisam abrir das 08 às 18. Onde fica o gradual aí? E como trabalhar em salas que não têm a devida ventilação quando os prédios foram sendo feitos para o uso de ar-condicionado? Há tantas coisas que causam insegurança e até terror. 

Isso acontece com todos os trabalhadores? Não! Existem setores na UFSC que podem estar bem preparados para um retorno. Inclusive existem trabalhadores que nunca pararam de ir à universidade, presencialmente, para resolver problemas. Eu mesma fui várias vezes ao IELA ligar os equipamentos, fazer limpeza, fazer a manutenção nas máquinas fotográficas, filmadoras e em outras máquinas que não podem ficar tanto tempo paradas. Sabemos o quão difícil é conseguir a estrutura. Amamos a UFSC e temos muita clareza de que precisamos cuidar. E por que eu fui ao IELA? Porque lá estou sozinha. Não divido o espaço com ninguém e nunca permiti ar-condicionado no meu espaço, sempre de janelas abertas. Ora, essa é minha realidade, individual. 

O mesmo não acontece com uma parcela bastante grande da universidade. Boa parte dos trabalhadores labuta em salas coletivas, fechadas. Então, o compromisso ético de cada um de  nós deve ser com essa maioria. A luta coletiva precisa estar em primeiro lugar. Atualmente, os mais diversos setores da UFSC, com suas especificidades tão díspares, estão trabalhando na sua capacidade máxima. Cada pequeno setor segue dando respostas para a comunidade e para a instituição. Ninguém está parado. O trabalho da maioria está sendo feito remotamente, mas, possivelmente, muitos colegas já foram até a UFSC para resolver alguma coisa presencialmente. Porque é assim que são os trabalhadores comprometidos com a universidade.

Assim que um retorno presencial em massa não tem sentido algum nesse momento, muito menos na lógica confusa da administração que afirma ser um retorno gradual, mas exige setores abertos. Haveremos de retornar, é certo. Quando for seguro. E ainda não é. Por que então expor os trabalhadores a um risco desnecessário? Por conta das cobranças da imprensa pelega? Ora, desde quando a UFSC se rendeu à bocas-alugadas de plantão? O documento da reitoria diz que serão acompanhados os casos de infecção que possam surgir. Ora? O que é isso? Depois de os trabalhadores serem infectados, sem necessidade, o que a UFSC fará? Rezar? Chorar no enterro? Isso não tem qualquer cabimento. 

Cada trabalhador da universidade sabe do seu trabalho e a maioria sempre esteve e está comprometida com a qualidade do que faz, sabendo muito bem o que significa ser um trabalhador público. Sim, existem os ladinos, os preguiçosos, os egoístas. Mas, esses, são poucos, exceções. Não podem servir como base. 

O que deve nos orientar é a luta coletiva. Enquanto houver um único colega em risco, por conta de uma decisão irresponsável, temos de estar juntos, lutar juntos.  

Precisamos preparar a universidade para o retorno, é certo, mas isso não se dá assim, num ato administrativo, sem diálogo com os trabalhadores e sem a devida contrapartida estrutural. Esse retorno precisa ser articulado e discutido com as categorias que conformam a UFSC. Não estamos em Marte. Estamos aqui e temos muito a contribuir. 

Esperamos que a administração central não se esqueça de tudo que prometeu na campanha eleitoral. A democracia tem de ser participativa e, tal e qual a solidariedade, ser uma prática cotidiana e não um discurso vazio.



quinta-feira, 12 de agosto de 2021

O trabalho e os dias


Eu tinha 19 anos quando consegui meu primeiro trabalho de carteira assinada. Foi em Pirapora, Minas Gerais. E eu tinha essa carinha aí. Naqueles dias minha mãe vivia a dor de ter desenvolvido a doença da tristeza: a tuberculose. E, não havia SUS. A parada era sinistra. O tratamento muito caro. Era preciso agir. Eu não tinha muita qualificação e fui atrás do que fosse. Padaria, lanchonete, hotel, qualquer coisa que assegurasse uma ajuda para o pai, que era o único que tinha salário. 

Depois de muita procura consegui uma vaga numa distribuidora de bebidas, de um amigo/vizinho da minha amiga Fathiô, que ficava quase na saída da cidade, bem longe. Minha função lá era anotar os pedidos que chegavam por telefone ou ao vivo e fazer as notas. Era um escritório pequeno e trabalhávamos eu e outra menina, a doce e querida Lúcia, que pacientemente me introduziu naquele mundo de números, quase incognoscível para mim. Já no pátio, onde ficava a carga e descarga de bebidas, tinha bem mais gente, todos rapazes bem encorpados, pois era um trabalho de força. Ali, era sempre uma festa, apesar do trabalho pesado.

Em pouco tempo já percebi que o trabalho no pátio, apesar de alegre, era bem perigoso. Volta e meia alguém se machucava, garrafas quebravam e pronto, ali estava o acidente. Pedi ao chefe uma caixa de primeiros socorros, pois às vezes, era necessário um curativo. Claro que não me deram bola. Insisti, enchi o saco, mas nada. Sempre que alguém se machucava eu tentava dar um jeito e foi assim que fui montando uma caixinha com gaze, iodo, bandeide, pomada para ferimentos, comprimido para dor de cabeça, o básico. Acabei virando uma referência para a gurizada. Sempre que alguém se machucava me gritavam e lá ia eu com minha caixinha. Ainda assim continuava reivindicando que era a empresa quem tinha de garantir. Todo dia um embate.

A gota d´água foi o dia em que um dos guris enterrou alguma coisa na cabeça, acho que foi um prego. Como sempre acontecia, me chamaram. Eu fui lá com a minha caixinha e quando vi o ferimento, saia uma coisa branca da cabeça do guri. Apavorei, pensei que podia ser coisa grave. Nunca tinha visto assim. Corri para o gerente pedindo que o levassem para o hospital. Não tinha sangue, só aquela coisa branca. Ele não levou em conta. O guri lá, pálido e trêmulo. Ah, bom... Aí virei o Jiraya!

Peguei o guri pela mão e fui para a estrada, fazendo sinal de socorro.

Ao primeiro carro que parou pedi que o levassem ao hospital. Voltei para o escritório, peguei minhas coisas, abracei a Lúcia, agradeci por todo o seu cuidado comigo, já que me ensinara todo o trabalho, e saí. Bati o pó das sandálias e me fui, a pé, até em casa, tremendo de ódio. Eu precisava daquele emprego, mas não deu de segurar. Desde então, sempre foi assim. Em cada lugar que trabalhei virei a “encrenqueira”, sempre com alguma demanda. Hoje tenho 60 anos e sigo igual. Valamideuzi.



sexta-feira, 6 de agosto de 2021

Das vitórias com o pai


Foto: Seu Tavares arranjando confusão, junto com o outro velhinho da casa – o Steve – na hora do almoço. Adora fuçar no fogão. Haja atenção!

Na vida é assim. A gente traça nosso projeto. Determina o objetivo geral e os específicos e vai tentando cumprir. O que aprendi ao longo dos meus 60 anos é que os específicos vão mudando, muitas vezes à nossa revelia. No meu plano, desde há muuuuuuito tempo o objetivo geral é construir e vivenciar a revolução brasileira, a transformação do mundo, a queda do sistema capitalista. Esse permanece. Já os específicos, tive de muda-los quase na totalidade por conta da doença do pai. As frentes de luta “callejeras” ficaram mais escassas e comecei a travar uma longa batalha para dar qualidade de vida ao pai, para que ele pudesse viver com alegria e segurança esse tempo com o Alzheimer. 

Foram muitas as batalhas: acabar com as alucinações, com a violência, com a ansiedade, com o tremor das pernas, com a insônia. Introduzir a fralda, organizar melhor a noite, ufa... esse alemãozinho – o sr. Alzheimer – é duro na queda. Eu contra ele é assim como se estivesse no ringue com o cubano Mijaín Lopez. A derrota é segura. 

Mas, ainda assim, sou nojenta, do tipo que não desiste. E vou dando batalha a cada novo desafio. Nessa caminhada contei com a ajuda do querido amigo, médico, Kike, e com o valoroso diálogo de familiares de doentes de Alzheimer num grupo de facebook, onde compartilhamos os problemas e as alternativas encontradas. Claro que o que vale para um às vezes não vale para o outro, mas ajuda a gente a pensar. 

Meu objetivo atual é manter o pai sequinho durante a noite, principalmente por conta dos dias muito frios aqui do sul. Para isso já comprei todos os tipos e modelos de fraldas, desde as tipo cueca até as normais. Todas elas vazam. Apelei então para as calças plásticas e também encomendei vários modelos diferentes, sem botão, com botão, do tipo bermuda. Juntei fralda com calça plástica, não deu certo. 

Tratei de pensar. O que fazer. Vi na internet várias técnicas para manter a pessoa sequinha. Testei todas. Nada. O pai dorme de lado e o xixi vaza pela parte de cima da fralda. Então inventei algo: colocar a fralda tipo cueca, rasgar as abas de outra e colocar atravessada na cintura, no lado que ele fica mais tempo. Do outro lado, colocar uma faixa com duas fraldas de pano, dessas de neném. Então ele fica como numa espécie de cinturão. E por cima de tudo a calça plástica, segurando. Tudo pronto, deitei o velhinho e esperei. Na manhã seguinte: vitória. Sequinho. E assim tem sido. Vez em quando, quando o volume aumenta muito ou ele mexerica demais na calça, vaza um pouco, mas no geral dá certo. 

Tá bom, é uma novela mexicana ajeitar essa  coisa toda na hora de dormir, com direito a dramas intermináveis, mas vale o esforço. A fralda que fica na cintura, apertada pela fralda cueca, absorve quase todo o xixi.  Foi uma baita sacada. Repasso a ideia para quem tem problema semelhante. 

E enquanto meu paizinho dorme bem sequinho, eu tenho tempo de pensar sobre meu objetivo geral – a revolução brasileira - e fazer algumas coisas para chegar lá. E o plano vai se acertando. Vou rengueando, mas vou.

***


Povos indígenas: mais um corpo dilacerado


Foto: Terra Indígena da Guarita

 O massacre iniciado em 1500 ainda não terminou.

Uma menina indígena, de 14 anos, da etnia Kaingang, de nome Daiane Griá Sales, foi encontrada morta, com o corpo dilacerado e alguns órgãos retirados, no interior do Rio Grande do Sul. Ela vivia na terra indígena de Guarita, em Redentora,  noroeste gaúcho, uma área de 24 mil hectares que abriga mais de sete mil almas Kaingang e Guarani. O corpo foi achado numa lavoura, cheio de hematomas e estraçalhado da cintura para baixo. Uma cena de horror, certamente constituída pelo ódio. Não se sabe ainda o autor nem a motivação. 

A notícia circulou na mídia burguesa como mais um crime, sem maiores alardes. Até aí, nenhuma novidade. Corpos indígenas caem todos os dias nos cantões do Brasil, assassinados pelos grileiros, madeireiros, mineradores, jagunços, latifundiários, sem provocar comoção. Ainda essa semana uma garota indígena foi atropelada por avião no meio da selva Amazônia, numa pista aberta pelo garimpo. Não ouvimos o Datena gritar na televisão contra essa barbárie que, além de ferir de morte a floresta, assassina os indígenas. Tudo parece normal no país de Bolsonaro. 

Mesmo agora, esse crime hediondo contra uma adolescente Kaingang não ocupa manchetes. E nas mentes perversas dos que odeiam os indígenas a sentença já foi dada: alguma coisa ela fez. É o que normalmente acontece quando a vítima é uma mulher, e se é uma garota indígena, bem, aí é pior. Não dá para esquecer que desde que assumiu o mandato de presidente da República, o mandatário geral tem atacado os povos originários, considerando-os um atrapalho ao progresso. Assim que implicitamente autoriza a violência e o extermínio. Isso não é de hoje, mas está pior.

No extraordinário livro de Edilson Martins, “Nossos índios, nossos mortos”, que deveria ser obrigatório em todas as escolas do país, ele conta sobre os horrores que os invasores portugueses e, depois, os brasileiros, faziam com as populações indígenas. Na ocupação da Amazônia, quando do ciclo da extração da borracha, os seringueiros a mando dos ladrões das terras sequestravam as mulheres e crianças, obrigando os homens a trabalhar na extração da borracha. As hordas se moviam pela floresta destruindo as comunidades, eliminando o modo de vida indígena, prostituindo mulheres e dispersando os homens pelos vários campos de colheita. Os donos dos seringais incentivavam então as famosas “correrias”, que eram as expedições feitas para espantar ou exterminar os povos que viviam na floresta. O nome correria é bastante ilustrativo sobre como eram as expedições. Os homens chegavam armados até os dentes, e botavam os índios para correr. Quem ficava era passado na faca ou no tiro. Martins conta que muitas vezes acontecia de os homens jogarem as crianças para o alto, aparando com a ponta do facão. Era um massacre. E tudo era feito entre risos.

Na região do sertão brasileiro o foco era mesmo: a posse da terra. A intenção dos invasores era a expulsão dos indígenas para que pudesse vingar a criação de gado. Poucas comunidades conseguiram sobreviver aos massacres. Aonde chegavam os brasileiros, os indígenas eram escorraçados. Aonde havia missionários, as crianças eram tiradas das famílias e criadas como se fossem brancas, para deixar de serem índias e se integrarem à sociedade. Na avançada pelo interior do país, com as bandeiras, a tática era igualmente cruel: envenenavam a água e deixavam coisas contaminadas com varíola. Milhares de indígenas morreram nessas investidas desumanas. E quando chegaram os imigrantes, começou a caçada aos chamados bugres, que era como eles nominavam aqueles que eram os verdadeiros donos das terras. Assassinar índios era quase um esporte. 

Esse processo seguiu até o século XX quando as etnias sobreviventes foram sendo concentradas em “reservas” e a nação as observava como uma reminiscência folclórica. Permitia-se que vivessem, mas sem atrapalhar o progresso. O quadro só começou a mudar quando os povos originários iniciaram o seu levante, exigindo a retomada de seus territórios originais e seus direitos de autonomia. Aí viraram inimigos dos fazendeiros, madeireiros e mineradores. A mídia fez seu trabalho e eles passaram a ser também inimigos da população. O ódio ao indígena e o racismo explícito não é isolado. Ele perpassa a nação. 

Assim como os corpos negros que são alvejados todos os dias nas grandes cidades, jovens e crianças, sem causar maior comoção, a morte de indígenas tem o mesmo peso. Ou seja: nenhum. Hoje como antes. Fosse uma menina branca, filha de algum fazendeiro, que tivesse sido encontrada morta nas condições de Daiane, o caso teria virado um tema nacional e se espraiado pelo mundo todo. Velas seriam acesas nos lares, haveria lágrimas de horror e ninguém descansaria enquanto o assassino não fosse pego. Tem sido assim desde sempre. Isso é o racismo estrutural. Está entranhado e é reforçado a cada segundo pela indústria cultural.

O assassinato de Daiane não é só mais um crime. Ele tem essa marca, cor e classe. 

Davi Kopenawa Yanomami, já apontou: “Vocês, brancos, dizem que nós, Yanomami, não queremos o desenvolvimento. Falam isso porque não queremos a mineração em nossas terras, mas vocês não estão entendendo o que estamos dizendo. Nós não somos contra o desenvolvimento: nós somos contra apenas o desenvolvimento que vocês, brancos, querem empurrar para cima de nós (...). Para nós desenvolvimento é ter nossa terra com saúde, permitindo que nossos filhos vivam de forma saudável num lugar cheio de vida”.

Esse sonho de Davi ainda é sonho e, no Brasil atual, está cada dia mais distante. 

quinta-feira, 5 de agosto de 2021

O Brasil em tempos de Olimpíadas e chantagens


Atleta preparando-se para as Olimpíadas

Os dias têm sido assim. De dia a CPI da Covid no Congresso Nacional, um teatro de emoções simuladas, mentiras e atuações dramáticas que parecem ir para lugar nenhum. De noite, as Olimpíadas, onde atletas mal pagos, sem patrocínio e sem espaço para treinamento disputam os esportes individuais, alguns até arrebatando medalhas, o que faz a mídia entreguista vibrar e enaltecer o “esforço” pessoal. Correndo por fora, temos o presidente da nação, criando a cada minuto um novo factoide, ameaçando e chantageando o país, prometendo um golpe, sem que nenhuma instituição do chamado “mundo democrático” faça qualquer coisa. São dias fatigantes e desesperadores.

Não se pode dizer que não há reação. Há. Mas ela é pequena e pontual. Nesse momento, se expressa apenas nas particularidades, em lutas corporativas, onde a perda de direitos caminha à galope. Os trabalhadores tentam entabular lutas, mas têm sido patrolados sem dó. E, quanto mais perdem, mais apáticos ficam. Porque não enxergam saídas.

No mundo das redes segue a mesma tática de fazer graça com as chamadas “maluquices” do presidente. E enquanto as pessoas ficam inventando “memes” e compartilhando postagens, no mundo da vida os gerentes do governo vão passando o rodo. Em tudo. Já queimaram a Amazônia, o Cerrado, o Pantanal. Já queimaram museu e cinemateca, na tentativa de destruir a memória, incentivam a morte dos lutadores sociais, aprovam projetos que permitem o roubo de terras de indígenas, quilombolas e ribeirinhos, já passaram as reformas mais importantes para o capital, faltando agora a reforma Administrativa que mergulhará o serviço público em mais um amplo processo de desmantelamento.

A mais nova investida presidencial está na proposta de tirar poderes do Tribunal Superior Eleitoral durante o processo de eleições, que ele quer que seja com o voto impresso, para garantir o curral eleitoral. E o factoide do dia é mais uma ameaça ao ministro do Superior Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, dizendo que “seu dia vai chegar”. Tudo noticiado pelos jornais e redes de TV como coisas normais, sem questionamento. Enquanto isso, a  Covid 19 segue cobrando mais de mil mortes por dia ao mesmo tempo em que a vacinação segue em passos de tartaruga. Isso que a variante Delta ainda nem chegou.

Vivemos a trágica realidade na qual todos os dias o presidente do país anuncia que vai dar um golpe, sem que absolutamente nada aconteça. Tudo segue “normal”, ainda que o desemprego mantenha o recorde de 14,7%, com quase 15 milhões de desempregados, mais os seis milhões de desalentados, que nem buscam mais por emprego. Ou seja, 21 milhões de pessoas sem renda. O gás está em 100 reais e a gasolina logo chegará aos 10 reais, sem protestos. Os salários dos trabalhadores estão congelados enquanto o grupo de amigos que está no poder  - incluindo aí uma leva de militares – tem os salários triplicados. Não bastasse isso, conforme denúncia da revista Forum, 100 generais vinculados ao governo receberam recentemente a patente de Marechal, extinta desde 1967, que volta à vida para privilegiar alguns. Uma farra.

Os bolsonaristas gritam aos quatro ventos que a corrupção no Brasil acabou, mesmo com a CPI da Covid a revelar todos os dias casos escabrosos relacionados ao uso da pandemia para ganhar dinheiro. O presidente impôs 100 anos de silêncio sobre a presença de seus filhos  - que são vereador, deputado federal e senador – no Palácio do Planalto e também colocou sob sigilo seus gastos no cartão corporativo. Tudo que diz respeito a ele é segredo, até seu cartão de vacina. Ele certamente se vacinou, mas quer manter a fachada de “não-vacinado macho” para a sua claque que obviamente se mantém firme contra a vacinação.

E assim vai indo a nave Brasil, que ao contrário do que todo mundo diz, não está desgovernada. Ela tem direção certa. Conforme o prometido em campanha, o presidente segue destruindo tudo o que estava aí, servindo ao grande capital, fazendo as reformas esperadas pelos empresários nacionais e internacionais, atendendo ao latifúndio e às mineradoras. Importante que se diga que não está sozinho nessa empreitada. Com ele está a maioria esmagadora dos deputados e senadores que conformam o Congresso Nacional  bem como os ministros do STF. Os três poderes caminham juntos em ordem unida e devem ser responsabilizados pelos danos.

Essa não é jornada de um psicopata. É um plano bem urdido da classe dominante, escolhendo a rota mais perversa que pode encontrar o modo capitalista de produção para atender ao seu insaciável apetite.

Resta saber até quando vamos suportar...



sexta-feira, 30 de julho de 2021

O CESB e meu primeiro amor



Estudei no CESB no início dos anos 70. Era o maior colégio público de São Borja e muito bem gabaritado. Formar ali era certeza de um bom ensino. Lembro-me de cada dia naquele saguão imenso, com suas colunas redondas, e a efervescência do bar que ficava bem na entrada, no lado direito. Éramos adolescentes e a vida se descortinava como uma grande aventura. Meu curso era o Curso de Defesa Sanitária Vegetal e Animal e além das aulas normais de português, matemática, física, e outras do tipo, tínhamos as aulas específicas do curso técnico. Aprendíamos a fazer horta, e a conhecer as culturas do arroz, do trigo, a criação de gado ovino e bovino. Numa cidade como São Borja, repleta de estâncias, aquele era um curso bastante procurado. Nossas aulas práticas eram na Escola Técnica Viriato Vargas. Eram tardes incríveis as que passávamos lá. Foi numa dessas que aprendi a dirigir trator e era bem engraçado ligar o bichão, visto que eu era muito pequena e magrinha. Tinha de colocar o peso do corpo todo na embreagem, num esforço danado, que gerava gargalhadas nos guris. Inesquecíveis foram as aulas com o professor Moacir, uma criatura doce e adorável. 

Mas, além de todas essas boas lembranças da vida escolar o que o CESB me trouxe de mais lindo foi o meu primeiro amor. Eu era completamente apaixonada pelo astro do vôlei da escola, um guri lindo e enorme. Tudo platônico, claro, até porque eu era extremamente tímida, reservada e me achava feia, então não tinha esperança alguma de namorar o guri, visto que as gurias mais bonitas do CESB estavam sempre à volta dele. Poucas amigas sabiam da minha paixonite pelo lindo Paulo Lul: a Regina, a Luiza e a Cassiana. Só que não precisava ser muito esperto para saber, pois eu simplesmente acompanhava todos os jogos do time do CESB, inclusive quando era fora e organizavam-se excursões para a torcida. Torcedora número um. O Paulo era meu sonho de adolescente e eu simplesmente botei na cabeça que ou eu casaria com ele ou com mais ninguém. Claro que ele não sabia disso e nunca soube. 

Por conta dessa paixão eu sempre chegava cedo ao colégio, esperando vê-lo sair de sua casa, que ficava a meia quadra do CESB, e vir, com seu passo dançante na direção do portão. Todas as manhãs eram assim. Ele vinha, passava por mim e eu morria. Nunca me dirigiu um olhar, e eu o amava até a morte. Seguia seus passos nos jogos de vôlei, e nas tardes dos finais de semana, fazia minha irmã passar umas mil vezes em frente ao Clube Comercial onde ele sempre estava com os amigos, na esperança de vê-lo.

Fui embora de São Borja em 1977, logo depois de me formar no ensino médio e nunca sequer lhe roubei um beijo. Mas ainda sonhava em casar com ele. Sonho que se esvaiu numa noite de verão quando uma carta da amiga Cassiana contava que ele havia se casado. Eu já tinha 20 anos e ainda pensava que poderia encontrá-lo. A notícia do casório acabou com tudo e eu finalmente decidi abrir meu coração para outros rapazes. 

Muitos anos depois também soube que ele havia encantado, ainda bem jovem, e chorei por dias. Um sonho definitivamente perdido para sempre. Ainda assim, conservo até hoje uma foto dele, que comprei na Foto Madrid, provavelmente tirada num carnaval. Era comum as fotos ficarem expostas na frente da loja para que as pessoas se achassem. Eu o achei e guardei pra mim. 

Hoje, passados tantos anos, ainda volto a essa foto com o maior carinho do mundo, pensando no beijo que nunca roubei e na jura secreta que nunca fiz. 

Por isso e muito mais, o CESB vive no meu coração, assim como o imenso e lindo Paulo Lul (na foto, é o que está agachado).