quinta-feira, 12 de agosto de 2021

O trabalho e os dias


Eu tinha 19 anos quando consegui meu primeiro trabalho de carteira assinada. Foi em Pirapora, Minas Gerais. E eu tinha essa carinha aí. Naqueles dias minha mãe vivia a dor de ter desenvolvido a doença da tristeza: a tuberculose. E, não havia SUS. A parada era sinistra. O tratamento muito caro. Era preciso agir. Eu não tinha muita qualificação e fui atrás do que fosse. Padaria, lanchonete, hotel, qualquer coisa que assegurasse uma ajuda para o pai, que era o único que tinha salário. 

Depois de muita procura consegui uma vaga numa distribuidora de bebidas, de um amigo/vizinho da minha amiga Fathiô, que ficava quase na saída da cidade, bem longe. Minha função lá era anotar os pedidos que chegavam por telefone ou ao vivo e fazer as notas. Era um escritório pequeno e trabalhávamos eu e outra menina, a doce e querida Lúcia, que pacientemente me introduziu naquele mundo de números, quase incognoscível para mim. Já no pátio, onde ficava a carga e descarga de bebidas, tinha bem mais gente, todos rapazes bem encorpados, pois era um trabalho de força. Ali, era sempre uma festa, apesar do trabalho pesado.

Em pouco tempo já percebi que o trabalho no pátio, apesar de alegre, era bem perigoso. Volta e meia alguém se machucava, garrafas quebravam e pronto, ali estava o acidente. Pedi ao chefe uma caixa de primeiros socorros, pois às vezes, era necessário um curativo. Claro que não me deram bola. Insisti, enchi o saco, mas nada. Sempre que alguém se machucava eu tentava dar um jeito e foi assim que fui montando uma caixinha com gaze, iodo, bandeide, pomada para ferimentos, comprimido para dor de cabeça, o básico. Acabei virando uma referência para a gurizada. Sempre que alguém se machucava me gritavam e lá ia eu com minha caixinha. Ainda assim continuava reivindicando que era a empresa quem tinha de garantir. Todo dia um embate.

A gota d´água foi o dia em que um dos guris enterrou alguma coisa na cabeça, acho que foi um prego. Como sempre acontecia, me chamaram. Eu fui lá com a minha caixinha e quando vi o ferimento, saia uma coisa branca da cabeça do guri. Apavorei, pensei que podia ser coisa grave. Nunca tinha visto assim. Corri para o gerente pedindo que o levassem para o hospital. Não tinha sangue, só aquela coisa branca. Ele não levou em conta. O guri lá, pálido e trêmulo. Ah, bom... Aí virei o Jiraya!

Peguei o guri pela mão e fui para a estrada, fazendo sinal de socorro.

Ao primeiro carro que parou pedi que o levassem ao hospital. Voltei para o escritório, peguei minhas coisas, abracei a Lúcia, agradeci por todo o seu cuidado comigo, já que me ensinara todo o trabalho, e saí. Bati o pó das sandálias e me fui, a pé, até em casa, tremendo de ódio. Eu precisava daquele emprego, mas não deu de segurar. Desde então, sempre foi assim. Em cada lugar que trabalhei virei a “encrenqueira”, sempre com alguma demanda. Hoje tenho 60 anos e sigo igual. Valamideuzi.



sexta-feira, 6 de agosto de 2021

Das vitórias com o pai


Foto: Seu Tavares arranjando confusão, junto com o outro velhinho da casa – o Steve – na hora do almoço. Adora fuçar no fogão. Haja atenção!

Na vida é assim. A gente traça nosso projeto. Determina o objetivo geral e os específicos e vai tentando cumprir. O que aprendi ao longo dos meus 60 anos é que os específicos vão mudando, muitas vezes à nossa revelia. No meu plano, desde há muuuuuuito tempo o objetivo geral é construir e vivenciar a revolução brasileira, a transformação do mundo, a queda do sistema capitalista. Esse permanece. Já os específicos, tive de muda-los quase na totalidade por conta da doença do pai. As frentes de luta “callejeras” ficaram mais escassas e comecei a travar uma longa batalha para dar qualidade de vida ao pai, para que ele pudesse viver com alegria e segurança esse tempo com o Alzheimer. 

Foram muitas as batalhas: acabar com as alucinações, com a violência, com a ansiedade, com o tremor das pernas, com a insônia. Introduzir a fralda, organizar melhor a noite, ufa... esse alemãozinho – o sr. Alzheimer – é duro na queda. Eu contra ele é assim como se estivesse no ringue com o cubano Mijaín Lopez. A derrota é segura. 

Mas, ainda assim, sou nojenta, do tipo que não desiste. E vou dando batalha a cada novo desafio. Nessa caminhada contei com a ajuda do querido amigo, médico, Kike, e com o valoroso diálogo de familiares de doentes de Alzheimer num grupo de facebook, onde compartilhamos os problemas e as alternativas encontradas. Claro que o que vale para um às vezes não vale para o outro, mas ajuda a gente a pensar. 

Meu objetivo atual é manter o pai sequinho durante a noite, principalmente por conta dos dias muito frios aqui do sul. Para isso já comprei todos os tipos e modelos de fraldas, desde as tipo cueca até as normais. Todas elas vazam. Apelei então para as calças plásticas e também encomendei vários modelos diferentes, sem botão, com botão, do tipo bermuda. Juntei fralda com calça plástica, não deu certo. 

Tratei de pensar. O que fazer. Vi na internet várias técnicas para manter a pessoa sequinha. Testei todas. Nada. O pai dorme de lado e o xixi vaza pela parte de cima da fralda. Então inventei algo: colocar a fralda tipo cueca, rasgar as abas de outra e colocar atravessada na cintura, no lado que ele fica mais tempo. Do outro lado, colocar uma faixa com duas fraldas de pano, dessas de neném. Então ele fica como numa espécie de cinturão. E por cima de tudo a calça plástica, segurando. Tudo pronto, deitei o velhinho e esperei. Na manhã seguinte: vitória. Sequinho. E assim tem sido. Vez em quando, quando o volume aumenta muito ou ele mexerica demais na calça, vaza um pouco, mas no geral dá certo. 

Tá bom, é uma novela mexicana ajeitar essa  coisa toda na hora de dormir, com direito a dramas intermináveis, mas vale o esforço. A fralda que fica na cintura, apertada pela fralda cueca, absorve quase todo o xixi.  Foi uma baita sacada. Repasso a ideia para quem tem problema semelhante. 

E enquanto meu paizinho dorme bem sequinho, eu tenho tempo de pensar sobre meu objetivo geral – a revolução brasileira - e fazer algumas coisas para chegar lá. E o plano vai se acertando. Vou rengueando, mas vou.

***


Povos indígenas: mais um corpo dilacerado


Foto: Terra Indígena da Guarita

 O massacre iniciado em 1500 ainda não terminou.

Uma menina indígena, de 14 anos, da etnia Kaingang, de nome Daiane Griá Sales, foi encontrada morta, com o corpo dilacerado e alguns órgãos retirados, no interior do Rio Grande do Sul. Ela vivia na terra indígena de Guarita, em Redentora,  noroeste gaúcho, uma área de 24 mil hectares que abriga mais de sete mil almas Kaingang e Guarani. O corpo foi achado numa lavoura, cheio de hematomas e estraçalhado da cintura para baixo. Uma cena de horror, certamente constituída pelo ódio. Não se sabe ainda o autor nem a motivação. 

A notícia circulou na mídia burguesa como mais um crime, sem maiores alardes. Até aí, nenhuma novidade. Corpos indígenas caem todos os dias nos cantões do Brasil, assassinados pelos grileiros, madeireiros, mineradores, jagunços, latifundiários, sem provocar comoção. Ainda essa semana uma garota indígena foi atropelada por avião no meio da selva Amazônia, numa pista aberta pelo garimpo. Não ouvimos o Datena gritar na televisão contra essa barbárie que, além de ferir de morte a floresta, assassina os indígenas. Tudo parece normal no país de Bolsonaro. 

Mesmo agora, esse crime hediondo contra uma adolescente Kaingang não ocupa manchetes. E nas mentes perversas dos que odeiam os indígenas a sentença já foi dada: alguma coisa ela fez. É o que normalmente acontece quando a vítima é uma mulher, e se é uma garota indígena, bem, aí é pior. Não dá para esquecer que desde que assumiu o mandato de presidente da República, o mandatário geral tem atacado os povos originários, considerando-os um atrapalho ao progresso. Assim que implicitamente autoriza a violência e o extermínio. Isso não é de hoje, mas está pior.

No extraordinário livro de Edilson Martins, “Nossos índios, nossos mortos”, que deveria ser obrigatório em todas as escolas do país, ele conta sobre os horrores que os invasores portugueses e, depois, os brasileiros, faziam com as populações indígenas. Na ocupação da Amazônia, quando do ciclo da extração da borracha, os seringueiros a mando dos ladrões das terras sequestravam as mulheres e crianças, obrigando os homens a trabalhar na extração da borracha. As hordas se moviam pela floresta destruindo as comunidades, eliminando o modo de vida indígena, prostituindo mulheres e dispersando os homens pelos vários campos de colheita. Os donos dos seringais incentivavam então as famosas “correrias”, que eram as expedições feitas para espantar ou exterminar os povos que viviam na floresta. O nome correria é bastante ilustrativo sobre como eram as expedições. Os homens chegavam armados até os dentes, e botavam os índios para correr. Quem ficava era passado na faca ou no tiro. Martins conta que muitas vezes acontecia de os homens jogarem as crianças para o alto, aparando com a ponta do facão. Era um massacre. E tudo era feito entre risos.

Na região do sertão brasileiro o foco era mesmo: a posse da terra. A intenção dos invasores era a expulsão dos indígenas para que pudesse vingar a criação de gado. Poucas comunidades conseguiram sobreviver aos massacres. Aonde chegavam os brasileiros, os indígenas eram escorraçados. Aonde havia missionários, as crianças eram tiradas das famílias e criadas como se fossem brancas, para deixar de serem índias e se integrarem à sociedade. Na avançada pelo interior do país, com as bandeiras, a tática era igualmente cruel: envenenavam a água e deixavam coisas contaminadas com varíola. Milhares de indígenas morreram nessas investidas desumanas. E quando chegaram os imigrantes, começou a caçada aos chamados bugres, que era como eles nominavam aqueles que eram os verdadeiros donos das terras. Assassinar índios era quase um esporte. 

Esse processo seguiu até o século XX quando as etnias sobreviventes foram sendo concentradas em “reservas” e a nação as observava como uma reminiscência folclórica. Permitia-se que vivessem, mas sem atrapalhar o progresso. O quadro só começou a mudar quando os povos originários iniciaram o seu levante, exigindo a retomada de seus territórios originais e seus direitos de autonomia. Aí viraram inimigos dos fazendeiros, madeireiros e mineradores. A mídia fez seu trabalho e eles passaram a ser também inimigos da população. O ódio ao indígena e o racismo explícito não é isolado. Ele perpassa a nação. 

Assim como os corpos negros que são alvejados todos os dias nas grandes cidades, jovens e crianças, sem causar maior comoção, a morte de indígenas tem o mesmo peso. Ou seja: nenhum. Hoje como antes. Fosse uma menina branca, filha de algum fazendeiro, que tivesse sido encontrada morta nas condições de Daiane, o caso teria virado um tema nacional e se espraiado pelo mundo todo. Velas seriam acesas nos lares, haveria lágrimas de horror e ninguém descansaria enquanto o assassino não fosse pego. Tem sido assim desde sempre. Isso é o racismo estrutural. Está entranhado e é reforçado a cada segundo pela indústria cultural.

O assassinato de Daiane não é só mais um crime. Ele tem essa marca, cor e classe. 

Davi Kopenawa Yanomami, já apontou: “Vocês, brancos, dizem que nós, Yanomami, não queremos o desenvolvimento. Falam isso porque não queremos a mineração em nossas terras, mas vocês não estão entendendo o que estamos dizendo. Nós não somos contra o desenvolvimento: nós somos contra apenas o desenvolvimento que vocês, brancos, querem empurrar para cima de nós (...). Para nós desenvolvimento é ter nossa terra com saúde, permitindo que nossos filhos vivam de forma saudável num lugar cheio de vida”.

Esse sonho de Davi ainda é sonho e, no Brasil atual, está cada dia mais distante. 

quinta-feira, 5 de agosto de 2021

O Brasil em tempos de Olimpíadas e chantagens


Atleta preparando-se para as Olimpíadas

Os dias têm sido assim. De dia a CPI da Covid no Congresso Nacional, um teatro de emoções simuladas, mentiras e atuações dramáticas que parecem ir para lugar nenhum. De noite, as Olimpíadas, onde atletas mal pagos, sem patrocínio e sem espaço para treinamento disputam os esportes individuais, alguns até arrebatando medalhas, o que faz a mídia entreguista vibrar e enaltecer o “esforço” pessoal. Correndo por fora, temos o presidente da nação, criando a cada minuto um novo factoide, ameaçando e chantageando o país, prometendo um golpe, sem que nenhuma instituição do chamado “mundo democrático” faça qualquer coisa. São dias fatigantes e desesperadores.

Não se pode dizer que não há reação. Há. Mas ela é pequena e pontual. Nesse momento, se expressa apenas nas particularidades, em lutas corporativas, onde a perda de direitos caminha à galope. Os trabalhadores tentam entabular lutas, mas têm sido patrolados sem dó. E, quanto mais perdem, mais apáticos ficam. Porque não enxergam saídas.

No mundo das redes segue a mesma tática de fazer graça com as chamadas “maluquices” do presidente. E enquanto as pessoas ficam inventando “memes” e compartilhando postagens, no mundo da vida os gerentes do governo vão passando o rodo. Em tudo. Já queimaram a Amazônia, o Cerrado, o Pantanal. Já queimaram museu e cinemateca, na tentativa de destruir a memória, incentivam a morte dos lutadores sociais, aprovam projetos que permitem o roubo de terras de indígenas, quilombolas e ribeirinhos, já passaram as reformas mais importantes para o capital, faltando agora a reforma Administrativa que mergulhará o serviço público em mais um amplo processo de desmantelamento.

A mais nova investida presidencial está na proposta de tirar poderes do Tribunal Superior Eleitoral durante o processo de eleições, que ele quer que seja com o voto impresso, para garantir o curral eleitoral. E o factoide do dia é mais uma ameaça ao ministro do Superior Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, dizendo que “seu dia vai chegar”. Tudo noticiado pelos jornais e redes de TV como coisas normais, sem questionamento. Enquanto isso, a  Covid 19 segue cobrando mais de mil mortes por dia ao mesmo tempo em que a vacinação segue em passos de tartaruga. Isso que a variante Delta ainda nem chegou.

Vivemos a trágica realidade na qual todos os dias o presidente do país anuncia que vai dar um golpe, sem que absolutamente nada aconteça. Tudo segue “normal”, ainda que o desemprego mantenha o recorde de 14,7%, com quase 15 milhões de desempregados, mais os seis milhões de desalentados, que nem buscam mais por emprego. Ou seja, 21 milhões de pessoas sem renda. O gás está em 100 reais e a gasolina logo chegará aos 10 reais, sem protestos. Os salários dos trabalhadores estão congelados enquanto o grupo de amigos que está no poder  - incluindo aí uma leva de militares – tem os salários triplicados. Não bastasse isso, conforme denúncia da revista Forum, 100 generais vinculados ao governo receberam recentemente a patente de Marechal, extinta desde 1967, que volta à vida para privilegiar alguns. Uma farra.

Os bolsonaristas gritam aos quatro ventos que a corrupção no Brasil acabou, mesmo com a CPI da Covid a revelar todos os dias casos escabrosos relacionados ao uso da pandemia para ganhar dinheiro. O presidente impôs 100 anos de silêncio sobre a presença de seus filhos  - que são vereador, deputado federal e senador – no Palácio do Planalto e também colocou sob sigilo seus gastos no cartão corporativo. Tudo que diz respeito a ele é segredo, até seu cartão de vacina. Ele certamente se vacinou, mas quer manter a fachada de “não-vacinado macho” para a sua claque que obviamente se mantém firme contra a vacinação.

E assim vai indo a nave Brasil, que ao contrário do que todo mundo diz, não está desgovernada. Ela tem direção certa. Conforme o prometido em campanha, o presidente segue destruindo tudo o que estava aí, servindo ao grande capital, fazendo as reformas esperadas pelos empresários nacionais e internacionais, atendendo ao latifúndio e às mineradoras. Importante que se diga que não está sozinho nessa empreitada. Com ele está a maioria esmagadora dos deputados e senadores que conformam o Congresso Nacional  bem como os ministros do STF. Os três poderes caminham juntos em ordem unida e devem ser responsabilizados pelos danos.

Essa não é jornada de um psicopata. É um plano bem urdido da classe dominante, escolhendo a rota mais perversa que pode encontrar o modo capitalista de produção para atender ao seu insaciável apetite.

Resta saber até quando vamos suportar...



sexta-feira, 30 de julho de 2021

O CESB e meu primeiro amor



Estudei no CESB no início dos anos 70. Era o maior colégio público de São Borja e muito bem gabaritado. Formar ali era certeza de um bom ensino. Lembro-me de cada dia naquele saguão imenso, com suas colunas redondas, e a efervescência do bar que ficava bem na entrada, no lado direito. Éramos adolescentes e a vida se descortinava como uma grande aventura. Meu curso era o Curso de Defesa Sanitária Vegetal e Animal e além das aulas normais de português, matemática, física, e outras do tipo, tínhamos as aulas específicas do curso técnico. Aprendíamos a fazer horta, e a conhecer as culturas do arroz, do trigo, a criação de gado ovino e bovino. Numa cidade como São Borja, repleta de estâncias, aquele era um curso bastante procurado. Nossas aulas práticas eram na Escola Técnica Viriato Vargas. Eram tardes incríveis as que passávamos lá. Foi numa dessas que aprendi a dirigir trator e era bem engraçado ligar o bichão, visto que eu era muito pequena e magrinha. Tinha de colocar o peso do corpo todo na embreagem, num esforço danado, que gerava gargalhadas nos guris. Inesquecíveis foram as aulas com o professor Moacir, uma criatura doce e adorável. 

Mas, além de todas essas boas lembranças da vida escolar o que o CESB me trouxe de mais lindo foi o meu primeiro amor. Eu era completamente apaixonada pelo astro do vôlei da escola, um guri lindo e enorme. Tudo platônico, claro, até porque eu era extremamente tímida, reservada e me achava feia, então não tinha esperança alguma de namorar o guri, visto que as gurias mais bonitas do CESB estavam sempre à volta dele. Poucas amigas sabiam da minha paixonite pelo lindo Paulo Lul: a Regina, a Luiza e a Cassiana. Só que não precisava ser muito esperto para saber, pois eu simplesmente acompanhava todos os jogos do time do CESB, inclusive quando era fora e organizavam-se excursões para a torcida. Torcedora número um. O Paulo era meu sonho de adolescente e eu simplesmente botei na cabeça que ou eu casaria com ele ou com mais ninguém. Claro que ele não sabia disso e nunca soube. 

Por conta dessa paixão eu sempre chegava cedo ao colégio, esperando vê-lo sair de sua casa, que ficava a meia quadra do CESB, e vir, com seu passo dançante na direção do portão. Todas as manhãs eram assim. Ele vinha, passava por mim e eu morria. Nunca me dirigiu um olhar, e eu o amava até a morte. Seguia seus passos nos jogos de vôlei, e nas tardes dos finais de semana, fazia minha irmã passar umas mil vezes em frente ao Clube Comercial onde ele sempre estava com os amigos, na esperança de vê-lo.

Fui embora de São Borja em 1977, logo depois de me formar no ensino médio e nunca sequer lhe roubei um beijo. Mas ainda sonhava em casar com ele. Sonho que se esvaiu numa noite de verão quando uma carta da amiga Cassiana contava que ele havia se casado. Eu já tinha 20 anos e ainda pensava que poderia encontrá-lo. A notícia do casório acabou com tudo e eu finalmente decidi abrir meu coração para outros rapazes. 

Muitos anos depois também soube que ele havia encantado, ainda bem jovem, e chorei por dias. Um sonho definitivamente perdido para sempre. Ainda assim, conservo até hoje uma foto dele, que comprei na Foto Madrid, provavelmente tirada num carnaval. Era comum as fotos ficarem expostas na frente da loja para que as pessoas se achassem. Eu o achei e guardei pra mim. 

Hoje, passados tantos anos, ainda volto a essa foto com o maior carinho do mundo, pensando no beijo que nunca roubei e na jura secreta que nunca fiz. 

Por isso e muito mais, o CESB vive no meu coração, assim como o imenso e lindo Paulo Lul (na foto, é o que está agachado).




terça-feira, 27 de julho de 2021

Covidagrobussinespopvideofinanceiro


Muito se fala da pandemia. O vírus novo que apareceu na China e se espalhou pelo mundo todo, causando morte e sofrimento. Um vírus que provoca uma doença feroz, capaz de deixar sequelas inimagináveis. Todos os dias, na TV, nos jornais, na internet, acompanhamos os números de infectados, de mortos, de recuperados, vacinas. No Brasil, onde já passamos das 500 mil mortes, temos até uma CPI para investigar o papel do governo federal no não/enfrentamento da pandemia. Mas, pouco se diz das causas. O que, afinal, provocou o aparecimento de um vírus tão mortal? 

O professor Gilberto Felisberto Vasconcellos tem uma teoria. Para ele as causas podem ser encontradas no tipo de agricultura que o capitalismo produz. Ele lembra que os seres humanos não conseguem mais escapar de uma rotina cotidiana que é o caminho entre o supermercado e a farmácia. Segundo ele, estamos presos nisso. As mesmas empresas que produzem sementes são as que produzem veneno e produzem remédio. Ou seja, os remédios são criados para enfrentar os males provocados pelas sementes e pelos venenos. É uma cadeia muito bem articulada. 

O agro é pop, diz a propaganda na TV. E é assim que a ideologia do capital vai tentando convencer a população de que aquilo que é produzido no latifúndio é bom para todos. Não é. “A origem do coronavírus está no sistema agrobussines”, diz Gilberto. Um sistema que é sustentado pelo petróleo e que apenas visa o lucro para alguns. A comida que vem daí é só um efeito colateral. E também não importa a essas empresas que a comida seja envenenada, que os frangos estejam entupidos de hormônios, que os peixes recebam antibióticos e que os grãos e vegetais estejam encharcados de pesticidas. Isso é bom porque ajuda a indústria farmacêutica. A população que se dane. 

Assim, para combater os efeitos dos venenos ali está a drogaria. E ela é a que vai fornecer o remédio para o câncer, o diabetes, o coração, a pressão alta e tudo mais que é gerado pelo modo de produção do capital. Uma jogada de mestre. 

O novo vírus junta a economia com a epidemiologia, em mais uma onda geradora de lucro. “O contágio da gripe está ligado ao contágio do capital. Vivemos uma gripe agrofinanceira. O agro é pop. O pop é money. O agro é pix, petróleo, CO2 e céu sujo”.

Gilberto lembra que os pesticidas que envenenam a comida têm origem no Napalm, uma arma química usada no Vietnam. Isso por si só já dá conta do tamanho do problema. Não bastasse a disseminação do veneno pela agricultura e pecuária,  a terra inteira ainda vive o drama do desmatamento, da política de terra arrasada. Tudo é devastado para que entre o agropop.

Assim que não precisa ir longe para saber as causas da aparição de um vírus como esse. A causa é econômica, social, cultural. Está visceralmente ligada ao que comemos e como produzimos a vida. Logo, muito em breve teremos outra epidemia, e mais outra, e mais outra. Mais doenças, e mais dor. 

Sendo assim, a única vacina possível é a morte do capitalismo. Ou isso, ou seguiremos como zumbis entre o supermercado e farmácia.


A casa França

 


Fui ao centro, depois de séculos pandêmicos. O centro, meu céu, meu paraíso. Andei pelas ruas como uma deslumbrada turista, olhando cada pequeno detalhe, esperando encontrar os mesmos vendedores ambulantes, o afiador de facas, os entregadores de papéis. O que vi foi um centro diferente. Muitas casas de comércio fechadas, outros novos negócios, pouca gente circulando. Depois fui jogar beijos para o Cascaes, o Cruz e Sousa, a Antonieta, e descobri nos caminhos a belíssima arte do artista Bruno Barbi, com as personalidades negras da nossa cidade. Tristeza e alegria se misturando na cidade mascarada.

Meu destino principal era a Casa França, lugar onde vou exercitar minha meninice. Gosto de entrar ali e ficar perdida no meio dos bonecos de pelúcia. Tantos que nem sei. Tive uma surpresa. Agora existem duas Casa França. E uma delas com um andar gigante só de bonecos. Visita de horas. Junto comigo caminhava também uma guriazinha, que se maravilhava, como eu, com a profusão dos bonecos. 

- Mãe, isso aqui é o paraíso – ela exclamava, enquanto arrastava a mãe pelas prateleiras. 

Sim, é o paraíso. Ela está certa. 

Rodei as prateleiras tocando, afofando e cheirando os bonecos. Por fim, decidi por um sapo, pensando no Armandinho. Queria trazer para o pai, pois ele gosta de se agarrar em coisas como o pano de prato ou a toalha de mesa, e fica aferrado até dormir. Pensei que talvez um fofinho daqueles pudesse ter o mesmo efeito.  Dizem que a gente presenteia a gente mesmo naquilo que dá. E é verdade. Lá estava eu querendo dar o que me encanta. Que seja. Comprei.

Cheguei a casa e coloquei o sapo sobre o armário da sala, onde fica o som. Passou um tempinho e lá foi o pai agarrar o bicho. Não deu outra. Agarrou e ficou grudado. Na hora de dormir também levou o sapo para a cama. Agora o sapo tá aqui, muito bem acompanhado.

Fosse por mim, a casa seria uma arca de bichos de pelúcia. 

E a casa França segue sendo meu éden.