quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Pelo Natal


E então eis que que chega o aniversário daquele que andou com os perdidos e distribuiu ternura por toda a região da galileia há mais de dois mil anos. Uma criatura tão especial que ultrapassou a barreira do tempo e até hoje é lembrada como o compadecido, o que realizou a nova aliança. A partir desse Jesus, histórico ou desejo, não houve mais o tributo a um deus violento e vingativo. Mas, a compreensão de que estamos nesse lindo jardim e que aqui devemos semear a alegria, a bondade, a solidariedade e o amor.   

Jesus, o assassinado, mostrou que é um deus fraco, incapaz de salvar quem quer que seja. Mostrou que o deus verdadeiro é o que, no meio da mais profunda dor, só pode estender os braços e acolher, em lágrimas, dizendo a única palavra que precisamos: “estou aqui”. Somente juntos nos salvamos. O deus de Jesus é o amigo sincero, o companheiro, o que não abandona, o que abraça, o que compartilha, o que morre junto se preciso for. Ele não aparece entre mil megatons prometendo ilusões. Ele nos diz que nosso tempo aqui precisa ser vivido no amor, na ternura, no encontro com o outro, real, caído.  

Que nesse dia do aniversário, quando essa generosa ideia de Jesus completa mais uma volta em torno do sol, nós possamos nos irmanar nessa proposta de amor. Há uma longa jornada pra cumprir nessa terra e Jesus nos convida a ser feliz. Amar, sem esquecer que é justamente esse compromisso que nos leva a lutar contra todos os vilões do amor. Contra eles, vamos à batalha. Porque haverá de chegar o dia em que ela não será mais necessária.   

Que nosso Natal possa ser sereno, apesar de toda a dor que temos vivido nesse ano de pandemia, quando a vida parece não ter qualquer valor. Que nós, os vivos, possamos tocar o coração de cada um dos que nos é caro e dizer: “estou aqui”. Isso já será suficiente.   

Feliz aniversário, Jesusinho... Feliz Natal para todos nós. 

2020 – O ano da peste


O ano que termina foi o ano da peste.  Já em janeiro os primeiros casos do novo coronavírus apareciam na China, ainda sem causar preocupação, visto que poderia ficar isolado naquela parte do mundo. Seguindo a lógica do “não é comigo” o resto do mundo seguiu tranquilo e no Brasil até o carnaval, cheio de aglomeração, aconteceu, apesar de já se saber que o vírus escapara do oriente em direção à Europa.

Quando no mês de março os diversos países do continente Europeu começaram a reportar casos do vírus houve uma comoção geral. Cenas dos hospitais lotados e das centenas de caixões chocaram a população brasileira, que assistia a tudo pela televisão sem imaginar  o que estava por vir por aqui, e que seria muito pior. O anúncio das 500 mortes por dia na Itália causou estupor, assombro. Mas, quando chegamos a mais de mil aqui no Brasil, já ninguém mais se importava.

No mês de abril a Covid-19 faria uma entrada triunfal no Brasil e na América Latina,  provocando também centenas de mortes. Estados como o Amazonas, por exemplo, abriram covas e mais covas para os mortos que não paravam de chegar. No Equador os mortos ficavam por dias nas ruas, sem gente para recolher. Foi um verdadeiro terror, pois nem os médicos, nem os trabalhadores da saúde sabiam muito bem como lidar com o vírus. Houve muita desinformação e medo. Põe a máscara, tira a máscara, tudo era muito pouco certo.

Diante disso, para piorar o que já era o mais puro horror, o governo federal decidiu travar guerras políticas com seus inimigos e abandonou a nação, demitindo dois ministros de saúde médicos e contratando um militar para gerir a crise. O resultado não poderia ser outro: mais mortes e uma absurda incompetência administrativa.  Sem um plano nacional de combate ao vírus, estados e municípios foram definindo as políticas ao longo do caminho. No começo, optaram por ouvir a ciência, fechando comércio, escolas e tudo mais. 

Mas, com o passar dos meses, começaram a ouvir o empresariado que não queria perder os lucros e tudo voltou a se abrir, ocasionando ondas de novos casos. A tal ponto que hoje já estamos próximos dos 200 mil mortos. Mortes que poderiam ser evitadas porque com o passar do tempo os trabalhadores da saúde já tinham certo saber sobre a doença e as formas de proteção.  Ainda assim, muita gente se foi porque não encontrou um respirador no hospital.

O “ano da peste” define também mais um ano de mandato do atual presidente, que já havia promovido um grande desmonte no primeiro ano. Com a guerra política e o negacionismo em relação à ciência, só conseguiu fazer com que a tragédia se aprofundasse. Chamando a pandemia de uma gripezinha ele foi para a televisão receitar remédios inúteis, além de gastar horrores comprando estoques dessa medicação que agora mofa nos armazéns. Não há nada a fazer com eles. Não há remédio para prevenir o vírus. Prejuízo para a nação, dividendos para os amigos do Trump.

E assim, entre um espetáculo e outro do presidente, os meses foram se passando, sem que o governo federal tomasse a frente no combate à pandemia. Nem teria como, ocupado que estava em aprofundar o assalto ao estado brasileiro. Mergulhado nas denúncias de corrupção envolvendo os filhos e a própria esposa, o presidente tratou de criar várias cortinas de fumaça para tirar do foco as falcatruas da família. E, com isso, foi também fortalecendo esse grupo que surfa na mesma onda do negacionismo. Negação da doença, negação dos cuidados, negação da vacina.

No mês de junho, Fabrício Queiroz, o pivô da famosa “rachadinha” criada por Flávio Bolsonaro foi preso, num sítio do advogado da família do presidente em Atibaia. A imprensa tratou o caso de forma muito superficial e fosse outro o presidente, seria a morte política. Mas, para Bolsonaro não pegou nada. Ele seguia visitando padarias, sem máscara, ora dizendo que tinha se infectado com o vírus, ora dizendo que não. Uma pantomima sem fim. Queiroz foi preso, foi solto e até agora o filho número 1 não respondeu pelo crime. Nem ele, nem o pai, que interveio de maneira descarada na Polícia Federal, sem que nada lhe acontecesse.

Enquanto isso, os partidos começaram a esquentar as baterias para a eleição geral de novembro, que iria eleger prefeitos e vereadores. O vírus seguia ceifando vidas, mas os candidatos não fizeram caso. Houve campanha de rua, do mesmo jeito de sempre, só que com máscara. E também foi o tempo em que os índices de infecção voltaram a crescer. E quando novembro chegou, lá foi o povo a aglomerar mais um pouco nas filas de votação, com o corona bem satisfeito.

O resultado das eleições foram os esperados. Bolsonaro não elegeu os seus, mas também não foi responsabilizado pela inoperância na condução do combate ao coronavírus. Os menos convictos acabaram voltando para o reduto seguro dos velhos partidos das oligarquias tradicionais, sem abrir mão do conservadorismo, e voltamos a ver PP, DEM e PSDB assomando nos municípios. Praticamente nenhuma mudança no pensamento geral da nação, apesar de algumas vitórias pontuais de lideranças envolvidas em lutas específicas contra o racismo, LGBT ou agroecologia. As candidaturas de esquerda que propunham mudanças estruturais foram derrotadas e os ganhos da esquerda liberal, ao fim e ao cabo, não oferecem nada que efetivamente altere o sistema de forças. Serão espaços de resistência e denúncia, mas provavelmente só isso.

No Congresso Nacional dormem mais de 50 pedidos de impedimento do presidente da nação, por corrupção, por improbidade administrativa, por desleixo na gestão da saúde, por incapacidade governativa, enfim, múltiplos motivos. Mas, os deputados preferem sentar em cima dos pedidos e negociar cargos e emendas milionárias. Não há, na classe política brasileira em geral, qualquer preocupação com a população. Tudo gira em torno de interesses pessoais. Tanto que agora, ao fim do ano, com o visível crescimento do contágio do coronavírus por conta das liberações gerais, a casa legislativa nem se toca e segue a vida, muito mais envolvida com a eleição do presidente da Câmara e do Senado do que com qualquer outro tema. Afinal, quem preside a Câmara define a agenda, e isso é poder.

Vários países do mundo já iniciam a vacinação em massa a partir do final esse ano, mas aqui no Brasil o presidente vai à televisão dizer que não haverá vacina para todos, que ele não vai tomar e que tampouco vai obrigar que a população se vacine, será facultativo, como se a saúde pública pudesse ficar à deriva, sob o desejo individual de cada brasileiro. O presidente faz piada com a vacina chinesa e não organiza uma estratégia de vacinação. Estamos completamente entregues ao desmando e a inoperância. É um caos programado e bastante adequado ao sistema de poder.

É bom lembrar que enquanto as gentes se debatiam no meio da absurda guerra política que se transformou a questão da Covid 19 ao longo desse tenebroso ano, o governo seguiu destruindo o país, acabando com “tudo isso que tá aí” conforme o prometido. Não atuou contra as queimadas que varreram a Amazônia, o Pantanal e o Cerrado, sendo conivente com fazendeiros e mineradores que aplaudiam o fato de o fogo ter aberto mais espaço para a exploração. Um fogo que provavelmente nasceu das mãos dessa mesma gente.

O presidente não moveu um dedo para parar com a violência no campo e nas terras indígenas, pelo contrário, incentivou. Abriu as portas para as armas estrangeiras, chegando ao ponto de zerar o imposto para importação, mais uma vez gerando lucros para as empresas estrangeiras. E no finalzinho do ano ainda rematou com a proposta de desmonte completo da política da saúde mental. Uma volta ao hospício e a medicalização, bem ao gosto da indústria da morte que são as farmacêuticas e os hospitais privados. Também tentou meter a mão na verba da educação garantindo que ela escoasse para mãos privadas. Ou seja, seguiu cumprindo as promessas feitas aos fazendeiros, ao agronegócio, às escolas particulares, aos parceiros estrangeiros.

Chegaremos ao ano 2021 com a sensação de que esse que passou foi um ano perdido. Mas, apenas perderam os trabalhadores. Os mais ricos do mundo ficaram ainda mais ricos por conta da pandemia, e a maioria das gentes apenas se debateu como pode nesse mar de descaso. A sobrevivência foi um ato de sorte.

O mais doloroso para nós brasileiros é que o ano que se aproxima seguirá sendo um ano de peste. A vacina tardará o quanto o presidente puder fazer tardar e nós ainda teremos de amargar mais 360 dias com o que parece ser um bando de gângsteres dando as cartas e assaltando o estado no máximo vapor.

O dramático de tudo isso é que os trabalhadores passaram esse ano na mais completa apatia gerada pelo medo de perder o emprego e de morrer pela Covid, o que aprofundou ainda mais a exploração. O aumento dos preços da alimentação, da luz, da água, da moradia foi motivo de apreensão, mas não de indignação. E nem mesmo o apagão no estado do Amapá, que chegou a ficar mais de 15 dias sem luz por conta da incompetência de uma empresa privada, provocou passeatas ou manifestações.  Nenhuma solidariedade, nenhuma cobrança. Nada. Pelo contrário, encerramos 2020 com 37% dos brasileiros aprovando um governo genocida. E nada disso foi capaz de fazer reagir as Centrais sindicais, outrora tão combativas, e que praticamente estão mortas. Tampouco houve, ou há, qualquer ação por parte dos partidos de esquerda que deram toda a energia na eleição, sem sequer carregar nas tintas contra o governo federal. A maioria disputou os municípios com propostas locais, sem ligação com a política nacional, pensando talvez que se não atacassem Bolsonaro teriam chance. Ingenuidade ou má fé? Ainda estamos para ver.

2020 foi, enfim, um ano triste demais. Perdemos amigos, familiares, conhecidos, amigos dos amigos, perdemos uma infinidade de vida e não ainda recobramos a consciência. A consciência de classe.

Enquanto isso, cercado de cadáveres, o presidente inaugura exposição de roupas usadas por ele na posse e usa a verba do governo para promover empresa de eventos do filho mais novo que agora também entra na política pela mão do pai. E praticamente ninguém diz um ai. Ao que parece, para esse senhor que ocupa a presidência, tudo é permitido. Sem limites.

Que se acabe logo esse 2020 e que a luz da rebeldia apareça para incendiar o mundo. Porque geralmente é assim mesmo. Uma fagulha, uma ínfima fagulha e quando se vê, já está.

Aqui estamos, na espera. 


sábado, 19 de dezembro de 2020

Jornalicídio doloso - jornalista processada por interpretar a realidade



 A palavra jornalismo vem do grego diurnalis, que significa “do dia”. Quando passa a designar um fazer significa então “análise do dia”. Isso é o que está na etimologia e é o que deveria estar na cabeça de cada um de nós, os que praticamos o jornalismo todos os dias. Observar a vida, os fatos, e narrar, não como meros porta-vozes, mas como sujeitos capazes de analisar e interpretar os fatos para além da aparência. 

Pois foi exatamente isso que fez a jornalista Schirlei Alves ao cobrir o vexaminoso julgamento do caso André Aranha, acusado de estuprar uma garota numa casa noturna da capital catarinense. Na audiência, o advogado do dito estuprador coloca foco na vida da jovem estuprada, Mariana Ferrer, e a humilha em diversos momentos, tratando-a como se ela fosse culpada por ter sido estuprada. Na verdade, até aí nada de novo, pois sempre foi essa a estratégia das defesas de estupradores: virar o jogo para a vítima. “Estava bêbada, estava de vestido curto, estava com roupa transparente, provocou, que fazia ali àquela hora”, e tudo mais. Até aí, pão comido. Como também foi pão comido o resultado do julgamento. Depois de toda a pressão sobre a vítima, o resultado foi a absolvição do Aranha. 

Com todo o rebuscamento da linguagem do juridiquês, o processo aponta que existem situações em que “o erro exclui o dolo, mas permite a punição por crime culposo... quando há a vontade, mas não a plena consciência”. E foi – linhas gerais – em cima disso que o homem foi absolvido. Chegaram à conclusão de que não foi estupro, porque, mesmo que tenha havido o dolo (perda da virgindade) não houvera a intenção.

Como uma boa jornalista, Schirlei Alves, se debruçou sobre o processo, leu as letras pequenas e fez suas análises e interpretações. Uma delas lhe permitiu apontar a genial expressão “estupro culposo”, que acabou ganhando destaque e levando o país inteiro a discutir o caso. Ou seja, Shirlei percebeu que a lógica usada na sentença permitia uma analogia com o que conhecemos como homicídio culposo – quando uma pessoa mata outra sem intenção de matar (o caso de um acidente, por exemplo). Claro que o que a jornalista fez foi uma ironia - porque nem isso seria. Mas , foi uma ironia que não surgiu do nada. Ela está subentendida nos autos. 

Como as palavras são polissêmicas, cada um que leu o texto atribuiu um sentido e a expressão foi usada para criticar de maneira jocosa o judiciário e todos os operadores que atuaram no caso. Obviamente que a exposição nacional, e até internacional do acontecido, causou indignação aos envolvidos. Então, trataram de judicializar a jornalista. E agora, ela responde processo por ter analisado um fato e interpretado o mesmo com base nas informações dos autos. Ou seja, ela disse algo que eles não haviam dito mas que estava subentendido nas entrelinhas.

Seria até engraçado um processo por isso, mas é claro que não é. Porque estamos no Brasil, porque a Justiça tem classe e porque esse é um tempo em que o jornalismo tem de ser calado. Na verdade, todos os tempos são tempos que tentam calar o jornalismo, aquele, de verdade, que interpreta, que desaloja, que desequilibra, que analisa criticamente. Mas, momentos há em que ele tem mais espaço. Não é o caso dos nossos dias. Vale lembrar outro colega jornalista e professor, o Cristian Góes,  que foi processado por ter escrito um texto de ficção com o qual um desses “coronéis”  nordestinos se identificou. Cristian foi condenado por fazer ficção e ainda teve de pagar por isso. Loucura? Não! Realidade brasileira. 

O processo agora contra Schirlei segue essa lógica da tentativa do cala-boca. Diz para os jornalistas: não vejam para além das aparências, não tentem interpretar nada, não realizem a análise do dia, não façam mediações inteligentes com seus leitores, limitem-se a carregar vozes, fiquem nos seus lugares de capachos do sistema.

O caso Schirlei Alves então passa a ser o nosso caso, dos jornalistas, dos que fazem jornalismo, dos que tem apreço pelo jornalismo.  E é preciso contar essa história, para que a jornalista não venha a ser condenada por interpretar um fato, por criar uma manchete fora do padrão. Por que se isso acontece é um tiro no peito do jornalismo e aí, não é “jornalicídio culposo”, mas doloso mesmo, porque a intenção é obviamente a de matar qualquer possibilidade de um trabalho que fuja da normose disso que alguns chamam de jornalismo, mas que é apenas um pastiche, limitando-se a dizer que: segundo fulano isso, segundo fulano aquilo. 

O jornalismo de verdade vai além do porta-voz. Ele mexe no vespeiro. Ele expõe a ferida, sangrando. O que Schirlei fez foi isso: de maneira inteligente, expôs, numa expressão tão curtinha, toda a pantomina do julgamento e da ação do estuprador. 

Que se mexam o Sindicato, a Fenaj, as instituições internacionais. A Schirlei não pode ficar sozinha nessa batalha. Notas de repúdio não são suficientes. Há que ter movimento forte. 

Tô contigo, Schirlei Alves.

Homenagem aos vivos - Pedro Martínez Pírez



 Conheci o Pedro numa das Jornadas Bolivarianas no Iela, em 2006. Jornalista da velha cepa, daqueles que sabem farejar uma boa pauta, seja onde for que estiver. Lembro-me dele, numa das mesas, dando conferência bem compenetrado, mas quando o outro convidado começou a falar coisas sobre Cuba ele imediatamente sacou do bolso o gravador – extensão do seu corpo - e registrou a fala. Aquilo era notícia. Óbvio que me tomei de amores. Desde aí ele tem sido nossos olhos e nosso coração em Cuba.

Nascido num fevereiro de 1937, na bela Santa Clara, ele é filho de poeta, o mesmo que lhe apontou o amor pelo jornalismo, pelo rádio e por Cuba. De família pobre, começou a sua vida de trabalhador muito cedo. Aos 12 anos já tinha emprego, bem como os outros quatro irmãos, ajudando no sustento da casa. Com 16 anos já estava na escola do Comércio, seguia trabalhando, e ainda encontrava tempo para a militância anti-Batista editando jornais mimeografados contra o ditador. Não demorou muito e lá estava ele no Movimento 26 de Julho.

Quando a revolução se fez vitoriosa ele estava na Universidade e já no primeiro ano largou tudo para ajudar o novo governo, indo trabalhar no Ministério de Relações Exteriores como diplomata, exercendo funções no Equador e no Chile onde também continuou fazendo jornalismo, sua paixão. De volta à Cuba em 1964 ele funda a revista OCLAE, ligada a organização dos estudantes, atua nos órgãos da Juventude Rebelde e na Prensa Latina. Desde aí não larga mais a caneta nem o microfone. Seu destino seria o de narrar a vida.

Em 1973 chega à Rádio Havana, onde está até os dias de hoje, incansável, na sua missão de informar. Ali já cumpriu praticamente todas as funções, além das coberturas jornalísticas nacionais e internacionais. Não bastasse isso ainda seguiu para Angola nos anos 80, quando ajudou na luta sendo formador de jornalistas em Luanda. De volta a Cuba seguiu sua saga de formador, como professor titular da Universidade de Habana, mas sem nunca largar o microfone.

O Pedro é um desses seres gigantes que, na sua humildade de revolucionário cubano, atua silenciosamente e sem parada. Hoje, com mais de 80 anos, segue sua rotina de “reportero” e dirigente da Rádio Habana. Já recebeu todos os Prêmios possíveis, e segue com seu riso fácil e sua absurda capacidade de doação à revolução cubana e à revolução mundial.

Alto, magro, elegante, ele é uma mistura adorável de ternura, alegria e capacidade de trabalho. Ele é repórter com letras maiúsculas. Ele é jornalista, narrador. Mas, mais que tudo, ele é um cubano repleto de amor pela sua gente e pela sua revolução. A ele faço reverência e registro meu mais profundo amor. Ficará marcado para sempre na minha memória nossas alegres caminhadas no Centro de Florianópolis, com o equatoriano Fernando Sarango, nos encantando com as bugigangas do Mercado Público, do mesmo jeito que nos encantamos nos mercados de rua de Quito. Compartilhamos, cúmplices, desse mesmo amor pelas coisas simples, populares.

Amo-te Pedro Martínez e agradeço aos deuses por esse encontro. Viga longa, meu amigo querido, a ti e a Cuba revolucionária.

Conselho de Saúde do Campeche alerta



O Campeche é um bairro que tem tradição de luta e de organização. Por isso, na manhã desta quarta-feira o Conselho Comunitário de Saúde se reuniu para discutir a situação relacionada à pandemia. O relato é de que estamos vivendo agora, neste mês de dezembro, um dos momentos mais dramáticos do processo, bem mais grave do que no início, em março. Praticamente já não há mais sequer um leito nas UTIs da cidade e os Postos de Saúde estão sobrecarregados ao máximo, com os trabalhadores arriscando a vida todos os dias. Por isso mesmo não é hora de relaxar. Mesmo aqueles que não acreditam que haja uma pandemia, precisam saber que os serviços de saúde estão em colapso. O que significa que se tiverem um infarto, ou precisarem de cirurgia ou qualquer outro tratamento mais complexo – que não tenha nada a ver com a Covid – tampouco conseguirão espaço nos hospitais.

Agora, com a chegada da temporada de verão e a liberação de 100% das vagas de hotéis, a situação tende a piorar ainda mais. Por conta disso é preciso que a comunidade saiba como está a situação do Posto de Saúde, para evitar choro e ranger de dentes depois.

O novo Posto de Campeche foi inaugurado pelo prefeito Gean Loureiro com a promessa de colocação de quatro equipes, com médicos, enfermeiros e todos os profissionais necessários para o atendimento. Mas, isso não aconteceu. Apenas outra nova equipe foi alocada. Desses trabalhadores um número bastante expressivo está em trabalho remoto por conta de serem do grupo de risco. Isso significa que a equipe encolheu ainda mais. Apesar de ter quatro médicos atendendo, as equipes estão limitadas a duas. Nesses meses de pandemia o atendimento presencial ficou focado apenas nos casos de Covid. As demais demandas são resolvidas por telefone.

O Posto tem atualmente seis números de celular ativos para receber as chamadas. Cada um deles recebe mais de 450 mensagens por dia. É praticamente impossível dar vazão aos pedidos na velocidade necessária. Isso estressa os trabalhadores e também a comunidade, que se sente abandonada. Isso leva a cenas de agressão e gritaria no posto, o que deixa os profissionais ainda mais esgotados, pois ninguém quer saber dos problemas. Só querem atendimento.

Outro problema enfrentado pelos trabalhadores são as pessoas que omitem os sintomas da Covid e buscam atendimento no posto e só depois de terem esperado e sido atendidos é que vai se descobrir que podem estar infectados. Aí já podem ter espalhado o vírus para muito mais gente. “Quando sabemos de antemão que a pessoa tem sintomas todo o atendimento é diferenciado, inclusive os equipamentos de proteção da gente. Omitir os sintomas expõe todo mundo ao risco”.

O tempo todo em risco os trabalhadores do Posto também enfrentam a demora dos resultados dos exames para confirmação de Covid. “Se alguém apresenta sintoma, logo é afastado e faz-se o teste. Mas os resultados demoram demais e muitas vezes o trabalhador  retorna ao trabalho e ao convívio sem saber se teve ou não o vírus. O teste deveria ser rápido para que pudéssemos isolar imediatamente toda a rede de contato”. Essa é na verdade uma das formas mais acertadas de cuidar das pessoas. No Uruguai, por exemplo, onde um infectologista criou um teste rápido, nacional, e a testagem foi massiva, e as mortes não dispararam. Porque ao ser testado e comprovado a Covid, a pessoa pode ser isolada e toda a sua rede de contatos detectada. Aqui no Brasil nada disso acontece e a proliferação do vírus segue a todo vapor.

Agora, com a temporada e a circulação de milhares de turistas, a perspectiva é de caos. E é preciso relembrar: o posto de saúde não atende apenas Covid. São todas as doenças.

A reunião do CCS juntou além dos conselheiros, diversas lideranças comunitárias e entidades para discutir um plano conjunto. A intenção é massificar a informação sobre prevenção e vigiar para que as pessoas tomem o máximo de cuidado nos espaços públicos. Não há medicamento para prevenir a Covid. A melhor estratégia ainda é o isolamento social, a máscara e o lavar as mãos.

É certo que nosso verão é lindo, nossa praia também. Mas, é melhor que estejamos vivos para curtir. É muito importante que a comunidade entenda que o trabalho dos profissionais de saúde do posto local tem sido árduo e arriscado. Há que protegê-los também, pois quanto menos gente tiver no posto para fazer o atendimento, pior é a situação. Estamos vivendo um momento dramático e a linha entre a vida e a morte é ténue.

Os meios de comunicação estão sempre divulgando o número de pessoas recuperadas, como se isso fosse uma grande vitória contra o vírus. Não é. Todos aqueles que têm contato com o vírus e desenvolvem sintomas podem ter graves problemas de saúde. Há pessoas que perdem olfato, paladar, desenvolvem problemas cardíacos, respiratórios. O sofrimento é grande, mesmo depois de ser “curado” da Covid. Então, não dá para vacilar. Essa doença não é brincadeira.

Cuidado, cuidado e cuidado. Essa é a orientação. Não aglomerar, seguir realizando a limpeza de tudo o que tocar e apostar no isolamento no tanto que for possível. Não sendo, usar a máscara e o álcool gel.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

Brasil: o assalto ao estado


O Brasil segue em passos largos no processo de contaminação pelo coronavírus, vivendo um de seus piores momentos desde julho, ultrapassando a marca dos 300 mil contaminados em uma semana. Enquanto isso o presidente da nação desinforma sobre a vacinação, faz piadinhas, inaugura exposição de suas próprias roupas e vai pescar. Tudo isso diante uma população completamente apática. Os gritos só aparecem nas redes sociais e em um ou outro meio de comunicação como o jornalão Folha de São Paulo que escreveu no seu editorial que “a estupidez assassina do presidente passou de todos os limites”. Mas, o fato é que o presidente passa dos limites a cada semana e isso só faz aumentar o índice do seu limite porque, ao que parece, nunca é suficiente.

Só para falar da pandemia é preciso lembrar que o país foi deixado a sua própria sorte, sem um plano nacional de combate ao vírus, com os governadores e prefeitos tendo de agir cada um por conta própria. A única coisa articulada em nível nacional ao longo desses meses da peste tem sido a ação dos empresários para que nada feche e a roda do capital siga girando. Tem funcionado e é o que mantém o país com altas taxas de contaminação.

Agora, quando o mundo já inicia o processo de vacinação, com pelo menos quatro propostas de vacina, o Brasil, de novo, viverá a guerra da politicagem. O presidente diz que vai coordenar o processo de vacinação, mas não faz absolutamente nada. O Ministro da Saúde diz que vai ter um plano “caso houver demanda”. É o horror. Ao mesmo tempo, quando alguns governadores anunciam planos de compra de vacina e de vacinação, o governo federal ameaça com retaliações. Uma situação que em qualquer outro lugar do mundo colocaria a população nas ruas em protestos massivos. Aqui não. Os jornais divulgam números de aprovação ao governo que chegam aos 37% e uma taxa de 22% dos brasileiros que afirmam que não vão se vacinar em hipótese alguma, porque a vacina é um plano comunista para se apoderar do cérebro das pessoas.

E assim, apesar de termos laboratórios de extrema qualidade, como o Butantã, e um dos melhores processos de vacinação do mundo, a tendência é caminharmos para o desmonte do sistema de saúde e de tudo aquilo que se construiu com muita luta.

Mas, engana-se quem pensa que essa é uma nave desgovernada. Não é. O timoneiro sabe muito bem para onde está levando o país. Inclusive ele anunciou isso com todas as letras durante sua campanha eleitoral. Quem depositou o voto na urna sabia muito bem que a proposta era o desmanche e a destruição de “tudo isso que tá aí”. Logo, não há surpresas. O capitão do mato entrega o país para a mão privada estrangeira e nacional e, por conta disso, vai engordando sua conta bancária para - quando não for mais necessário - sair de cena, muito bem remunerado. Junto com ele atua um Congresso Nacional muito bem orquestrado e alinhado à essa política de destruição. É a nacionalização do conhecido bordão do velho comunicador Silvio Santos “tudo por dinheiro”.

Então, quando forem dizer que não há um plano de vacinação nem qualquer plano para o país, pensem bem. Há um plano sim. O plano é assaltar o estado no mais curto tempo. Pegar o que der.

Enquanto isso, as Centrais sindicais estão mortas, a maioria dos sindicatos também. Mesmo aqueles que representam os trabalhadores que jamais tiveram a opção de ficar em casa. Não há movimento entre os comerciários nem nos trabalhadores da indústria. Só há medo. Medo de perder o emprego. Medo de morrer. Medo. É o caldo perfeito para que o assalto ao estado aconteça sem maiores tremores.

O plano, portanto, segue, com competência, enquanto a morte nos espreita.

É tempo de ocupar as ruas. Ou isso, ou o matadouro.


sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

O cuidado sem remédios, ruim para o cuidador, bom para o velho



A vida da gente é feita de escolhas. Elas definem nosso caminho. Meu pai me chegou há cinco anos com diagnóstico de Alzheimer. Estava fraquinho, não conseguia andar muito menos pegar os talheres para comer. Foi como um furacão em casa, pois tudo teve que começar a ser ajeitado para suas necessidades. Eu nada sabia de Alzheimer ou cuidado com pessoas dementes. Haveria de aprender no corpo-a-corpo com a realidade. Nos primeiros meses foi difícil demais, mas, com o andar da carruagem a gente vai se adaptando.  

A primeira batalha foi com os remédios. Que fazer para segurar as crises de violência, os gritos na madrugada, as alucinações, o desespero da fuga, a insônia permanente? A única coisa que consegui pensar foi em médico e remédio. E fui à luta. Na parceria com o médico começamos a experimentar algumas medicações. Mas, cada remédio dado, pioravam as crises. Houve um dia em que ele quase arrancou o portão da casa, aos gritos de socorro, pela madrugada adentro. Desses remédios que se usam para o Alzheimer, usei todos, mas como piorava eu tirava.  

Até que decidi não transformar mais o meu pai num campo de testes. Escolhi cuidar sem remédio. Iria aguentar as crises apenas no osso do peito. Durante o dia, uma gota de canabidiol, que não é remédio, é vida. E quando a ansiedade ficava muita, um cigarro, dos mais fortes, pois a nicotina, me ensinou um médico, é forte calmante nessas situações. Assim temos caminhado nesses anos.  

Alucinações o pai não tem mais e tampouco crises de violência ou tentativas de fuga. Consegui estabelecer uma rotina durante a noite, com a qual consigo fazer com que ele durma algumas horas. Bom, e qual é preço disso? Cuidado 24 horas. Definitivamente o que substitui os remédios é a presença, a atenção, o cuidado, as coisas que fazemos juntos. O dia inteiro inventando coisas. Isso obviamente cobra um tempo danado da gente, e praticamente toda a vida que a gente tinha deixa de existir - só há um hiato para o trabalho, ainda necessário. De resto, os dias são passados em função dele, pois se a atenção não chega, o bicho pega.  

Entendi que esse caminho é bastante duro para o cuidador porque exige atenção integral, entrega total. É dureza. Não são todos os que podem fazer isso. Algumas pessoas até têm sucesso com a medicação. Mas eu preferi desistir. Como o pai tem saúde de ferro não há sequer outros medicamentos para atrapalhar. O único remédio que ele toma é o da pressão que o médico disse que não é bom parar. Como é só um, fica bem fácil administrar.  

O resultado dessa escolha é ver o pai bem de boa, fazendo suas pequenas loucurinhas como colocar coisas no vaso do banheiro, comer todas as bananas da fruteira, mexericar no armário de comida, espiar no portão conversando com algum amigo imaginário. Ele não fica irritado, não fica violento, não fica ansioso. Só perde a tramontana na hora de trocar de roupa. Não gosta que lhe baixem as calças. Mas, com paciência, tudo dá certo. Também não gosta de banho e o jeito é levar ele para o box, com roupa e tudo e ir molhando devagar. Conforme a roupa vai molhando, ele mesmo vai tirando. É bem engraçado. Lógico que é uma operação demorada, mas temos todo o tempo do mundo. 

Depois, é ficar com ele no alpendre vendo os passarinhos, os gatos, os cachorros, ouvindo música, tomando uma cervejinha. É pesado pra mim, mas essas cenas do cotidiano, valem toda a pena. Como hoje, depois do banho, ele dormitando à sombra, com o gatinho a lhe lamber a mão. Nenhuma rugosidade na sua adorável vida. Só o passar das horas. Por vezes conversamos, bastante tempo, numa língua estranha. Mas, nos entendemos.

Tudo o que eu queria era que as pessoas pudessem ter esse tempo para cuidar de seus velhos. Pois, com certeza, isso lhes dá um final de vida sereno, cheio de alegria e dignidade. Coisa que eles merecem depois de tanta vida de trabalho. Não é fácil, mas, vale a pena.