sábado, 19 de dezembro de 2020

Conselho de Saúde do Campeche alerta



O Campeche é um bairro que tem tradição de luta e de organização. Por isso, na manhã desta quarta-feira o Conselho Comunitário de Saúde se reuniu para discutir a situação relacionada à pandemia. O relato é de que estamos vivendo agora, neste mês de dezembro, um dos momentos mais dramáticos do processo, bem mais grave do que no início, em março. Praticamente já não há mais sequer um leito nas UTIs da cidade e os Postos de Saúde estão sobrecarregados ao máximo, com os trabalhadores arriscando a vida todos os dias. Por isso mesmo não é hora de relaxar. Mesmo aqueles que não acreditam que haja uma pandemia, precisam saber que os serviços de saúde estão em colapso. O que significa que se tiverem um infarto, ou precisarem de cirurgia ou qualquer outro tratamento mais complexo – que não tenha nada a ver com a Covid – tampouco conseguirão espaço nos hospitais.

Agora, com a chegada da temporada de verão e a liberação de 100% das vagas de hotéis, a situação tende a piorar ainda mais. Por conta disso é preciso que a comunidade saiba como está a situação do Posto de Saúde, para evitar choro e ranger de dentes depois.

O novo Posto de Campeche foi inaugurado pelo prefeito Gean Loureiro com a promessa de colocação de quatro equipes, com médicos, enfermeiros e todos os profissionais necessários para o atendimento. Mas, isso não aconteceu. Apenas outra nova equipe foi alocada. Desses trabalhadores um número bastante expressivo está em trabalho remoto por conta de serem do grupo de risco. Isso significa que a equipe encolheu ainda mais. Apesar de ter quatro médicos atendendo, as equipes estão limitadas a duas. Nesses meses de pandemia o atendimento presencial ficou focado apenas nos casos de Covid. As demais demandas são resolvidas por telefone.

O Posto tem atualmente seis números de celular ativos para receber as chamadas. Cada um deles recebe mais de 450 mensagens por dia. É praticamente impossível dar vazão aos pedidos na velocidade necessária. Isso estressa os trabalhadores e também a comunidade, que se sente abandonada. Isso leva a cenas de agressão e gritaria no posto, o que deixa os profissionais ainda mais esgotados, pois ninguém quer saber dos problemas. Só querem atendimento.

Outro problema enfrentado pelos trabalhadores são as pessoas que omitem os sintomas da Covid e buscam atendimento no posto e só depois de terem esperado e sido atendidos é que vai se descobrir que podem estar infectados. Aí já podem ter espalhado o vírus para muito mais gente. “Quando sabemos de antemão que a pessoa tem sintomas todo o atendimento é diferenciado, inclusive os equipamentos de proteção da gente. Omitir os sintomas expõe todo mundo ao risco”.

O tempo todo em risco os trabalhadores do Posto também enfrentam a demora dos resultados dos exames para confirmação de Covid. “Se alguém apresenta sintoma, logo é afastado e faz-se o teste. Mas os resultados demoram demais e muitas vezes o trabalhador  retorna ao trabalho e ao convívio sem saber se teve ou não o vírus. O teste deveria ser rápido para que pudéssemos isolar imediatamente toda a rede de contato”. Essa é na verdade uma das formas mais acertadas de cuidar das pessoas. No Uruguai, por exemplo, onde um infectologista criou um teste rápido, nacional, e a testagem foi massiva, e as mortes não dispararam. Porque ao ser testado e comprovado a Covid, a pessoa pode ser isolada e toda a sua rede de contatos detectada. Aqui no Brasil nada disso acontece e a proliferação do vírus segue a todo vapor.

Agora, com a temporada e a circulação de milhares de turistas, a perspectiva é de caos. E é preciso relembrar: o posto de saúde não atende apenas Covid. São todas as doenças.

A reunião do CCS juntou além dos conselheiros, diversas lideranças comunitárias e entidades para discutir um plano conjunto. A intenção é massificar a informação sobre prevenção e vigiar para que as pessoas tomem o máximo de cuidado nos espaços públicos. Não há medicamento para prevenir a Covid. A melhor estratégia ainda é o isolamento social, a máscara e o lavar as mãos.

É certo que nosso verão é lindo, nossa praia também. Mas, é melhor que estejamos vivos para curtir. É muito importante que a comunidade entenda que o trabalho dos profissionais de saúde do posto local tem sido árduo e arriscado. Há que protegê-los também, pois quanto menos gente tiver no posto para fazer o atendimento, pior é a situação. Estamos vivendo um momento dramático e a linha entre a vida e a morte é ténue.

Os meios de comunicação estão sempre divulgando o número de pessoas recuperadas, como se isso fosse uma grande vitória contra o vírus. Não é. Todos aqueles que têm contato com o vírus e desenvolvem sintomas podem ter graves problemas de saúde. Há pessoas que perdem olfato, paladar, desenvolvem problemas cardíacos, respiratórios. O sofrimento é grande, mesmo depois de ser “curado” da Covid. Então, não dá para vacilar. Essa doença não é brincadeira.

Cuidado, cuidado e cuidado. Essa é a orientação. Não aglomerar, seguir realizando a limpeza de tudo o que tocar e apostar no isolamento no tanto que for possível. Não sendo, usar a máscara e o álcool gel.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

Brasil: o assalto ao estado


O Brasil segue em passos largos no processo de contaminação pelo coronavírus, vivendo um de seus piores momentos desde julho, ultrapassando a marca dos 300 mil contaminados em uma semana. Enquanto isso o presidente da nação desinforma sobre a vacinação, faz piadinhas, inaugura exposição de suas próprias roupas e vai pescar. Tudo isso diante uma população completamente apática. Os gritos só aparecem nas redes sociais e em um ou outro meio de comunicação como o jornalão Folha de São Paulo que escreveu no seu editorial que “a estupidez assassina do presidente passou de todos os limites”. Mas, o fato é que o presidente passa dos limites a cada semana e isso só faz aumentar o índice do seu limite porque, ao que parece, nunca é suficiente.

Só para falar da pandemia é preciso lembrar que o país foi deixado a sua própria sorte, sem um plano nacional de combate ao vírus, com os governadores e prefeitos tendo de agir cada um por conta própria. A única coisa articulada em nível nacional ao longo desses meses da peste tem sido a ação dos empresários para que nada feche e a roda do capital siga girando. Tem funcionado e é o que mantém o país com altas taxas de contaminação.

Agora, quando o mundo já inicia o processo de vacinação, com pelo menos quatro propostas de vacina, o Brasil, de novo, viverá a guerra da politicagem. O presidente diz que vai coordenar o processo de vacinação, mas não faz absolutamente nada. O Ministro da Saúde diz que vai ter um plano “caso houver demanda”. É o horror. Ao mesmo tempo, quando alguns governadores anunciam planos de compra de vacina e de vacinação, o governo federal ameaça com retaliações. Uma situação que em qualquer outro lugar do mundo colocaria a população nas ruas em protestos massivos. Aqui não. Os jornais divulgam números de aprovação ao governo que chegam aos 37% e uma taxa de 22% dos brasileiros que afirmam que não vão se vacinar em hipótese alguma, porque a vacina é um plano comunista para se apoderar do cérebro das pessoas.

E assim, apesar de termos laboratórios de extrema qualidade, como o Butantã, e um dos melhores processos de vacinação do mundo, a tendência é caminharmos para o desmonte do sistema de saúde e de tudo aquilo que se construiu com muita luta.

Mas, engana-se quem pensa que essa é uma nave desgovernada. Não é. O timoneiro sabe muito bem para onde está levando o país. Inclusive ele anunciou isso com todas as letras durante sua campanha eleitoral. Quem depositou o voto na urna sabia muito bem que a proposta era o desmanche e a destruição de “tudo isso que tá aí”. Logo, não há surpresas. O capitão do mato entrega o país para a mão privada estrangeira e nacional e, por conta disso, vai engordando sua conta bancária para - quando não for mais necessário - sair de cena, muito bem remunerado. Junto com ele atua um Congresso Nacional muito bem orquestrado e alinhado à essa política de destruição. É a nacionalização do conhecido bordão do velho comunicador Silvio Santos “tudo por dinheiro”.

Então, quando forem dizer que não há um plano de vacinação nem qualquer plano para o país, pensem bem. Há um plano sim. O plano é assaltar o estado no mais curto tempo. Pegar o que der.

Enquanto isso, as Centrais sindicais estão mortas, a maioria dos sindicatos também. Mesmo aqueles que representam os trabalhadores que jamais tiveram a opção de ficar em casa. Não há movimento entre os comerciários nem nos trabalhadores da indústria. Só há medo. Medo de perder o emprego. Medo de morrer. Medo. É o caldo perfeito para que o assalto ao estado aconteça sem maiores tremores.

O plano, portanto, segue, com competência, enquanto a morte nos espreita.

É tempo de ocupar as ruas. Ou isso, ou o matadouro.


sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

O cuidado sem remédios, ruim para o cuidador, bom para o velho



A vida da gente é feita de escolhas. Elas definem nosso caminho. Meu pai me chegou há cinco anos com diagnóstico de Alzheimer. Estava fraquinho, não conseguia andar muito menos pegar os talheres para comer. Foi como um furacão em casa, pois tudo teve que começar a ser ajeitado para suas necessidades. Eu nada sabia de Alzheimer ou cuidado com pessoas dementes. Haveria de aprender no corpo-a-corpo com a realidade. Nos primeiros meses foi difícil demais, mas, com o andar da carruagem a gente vai se adaptando.  

A primeira batalha foi com os remédios. Que fazer para segurar as crises de violência, os gritos na madrugada, as alucinações, o desespero da fuga, a insônia permanente? A única coisa que consegui pensar foi em médico e remédio. E fui à luta. Na parceria com o médico começamos a experimentar algumas medicações. Mas, cada remédio dado, pioravam as crises. Houve um dia em que ele quase arrancou o portão da casa, aos gritos de socorro, pela madrugada adentro. Desses remédios que se usam para o Alzheimer, usei todos, mas como piorava eu tirava.  

Até que decidi não transformar mais o meu pai num campo de testes. Escolhi cuidar sem remédio. Iria aguentar as crises apenas no osso do peito. Durante o dia, uma gota de canabidiol, que não é remédio, é vida. E quando a ansiedade ficava muita, um cigarro, dos mais fortes, pois a nicotina, me ensinou um médico, é forte calmante nessas situações. Assim temos caminhado nesses anos.  

Alucinações o pai não tem mais e tampouco crises de violência ou tentativas de fuga. Consegui estabelecer uma rotina durante a noite, com a qual consigo fazer com que ele durma algumas horas. Bom, e qual é preço disso? Cuidado 24 horas. Definitivamente o que substitui os remédios é a presença, a atenção, o cuidado, as coisas que fazemos juntos. O dia inteiro inventando coisas. Isso obviamente cobra um tempo danado da gente, e praticamente toda a vida que a gente tinha deixa de existir - só há um hiato para o trabalho, ainda necessário. De resto, os dias são passados em função dele, pois se a atenção não chega, o bicho pega.  

Entendi que esse caminho é bastante duro para o cuidador porque exige atenção integral, entrega total. É dureza. Não são todos os que podem fazer isso. Algumas pessoas até têm sucesso com a medicação. Mas eu preferi desistir. Como o pai tem saúde de ferro não há sequer outros medicamentos para atrapalhar. O único remédio que ele toma é o da pressão que o médico disse que não é bom parar. Como é só um, fica bem fácil administrar.  

O resultado dessa escolha é ver o pai bem de boa, fazendo suas pequenas loucurinhas como colocar coisas no vaso do banheiro, comer todas as bananas da fruteira, mexericar no armário de comida, espiar no portão conversando com algum amigo imaginário. Ele não fica irritado, não fica violento, não fica ansioso. Só perde a tramontana na hora de trocar de roupa. Não gosta que lhe baixem as calças. Mas, com paciência, tudo dá certo. Também não gosta de banho e o jeito é levar ele para o box, com roupa e tudo e ir molhando devagar. Conforme a roupa vai molhando, ele mesmo vai tirando. É bem engraçado. Lógico que é uma operação demorada, mas temos todo o tempo do mundo. 

Depois, é ficar com ele no alpendre vendo os passarinhos, os gatos, os cachorros, ouvindo música, tomando uma cervejinha. É pesado pra mim, mas essas cenas do cotidiano, valem toda a pena. Como hoje, depois do banho, ele dormitando à sombra, com o gatinho a lhe lamber a mão. Nenhuma rugosidade na sua adorável vida. Só o passar das horas. Por vezes conversamos, bastante tempo, numa língua estranha. Mas, nos entendemos.

Tudo o que eu queria era que as pessoas pudessem ter esse tempo para cuidar de seus velhos. Pois, com certeza, isso lhes dá um final de vida sereno, cheio de alegria e dignidade. Coisa que eles merecem depois de tanta vida de trabalho. Não é fácil, mas, vale a pena. 


quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

O tempo dos maus? Onde estás, felicidade...


A morte de um mendigo numa padaria em São Paulo - ao qual, antes, foi negada ajuda - e que, depois, teve seu corpo coberto por um plástico, enquanto a vida no entorno seguia sem atropelos provocou muitos comentários nas redes sociais sobre a falta de generosidade das pessoas. Há que falar sobre isso.  

Frequentemente ouvimos que estamos vivendo o pior dos mundos, que nunca houve gente tão ruim ou descabeçada. Não é verdade. Esse tipo de gente sempre existiu em todos os tempos. Cada tempo tem sua cota de maldade, de terror, de medo. Basta a gente pensar como seria, sendo pobre, trabalhador ou mulher, viver no século 16 ou 17, por exemplo, no Brasil? Ou na Idade Média, na Europa? Ou no Império Romano? Ou em Bagdá, no século III? Ou no Egito antigo? Ou na Mongólia? Ou na China imperial? 

Esse não é o pior dos tempos. É o nosso tempo. E nesse tempo, a tecnologia possível nos permite, inclusive, saber o que acontece em cada canto desse planeta. É o que torna os terrores ainda maiores, porque são mais visíveis. 

E assim como temos de analisar porque nos tempos passados foi possível tanta maldade humana, há que refletir porque hoje é assim. Maldade, indiferença, ódio. Não creio que haja uma explicação antropológica, mas sim uma explicação social. É o tipo de sociedade que existe que faz com essas pessoas possam se expressar e se manifestar. Quais as forças dominam a sociedade em cada época? Esse é o tema. 

Falando sobre o nosso tempo há que observar que o mundo capitalista alfabetiza os seres humanos, desde a tenra idade, para a competição, o individualismo, o egoísmo. Há que vencer o outro. Há que eliminar o outro. Há que disputar. Não se ensina solidariedade, cooperação, empatia. Isso é coisa de um grupo muito pequeno de pessoas que foge da caixa. A regra é olhar para o que está do nosso lado com absoluta indiferença sobre seu destino. Que se lasque. É por isso que a maioria não liga para um mendigo doente, um corpo no chão. Não há ali uma maldade intrínseca. Há um aprendizado social.   

Não sem razão que propostas sociais como o anarquismo e o comunismo são tão combatidas. Porque essas são formas de organizar a sociedade que escapam da lógica de dominação de uma minoria sobre a maioria. São propostas que, demarcadas suas diferenças, tem como elementos centrais a lógica da cooperação. Ou seja, não se compete, a proposta é atuar junto para que todos desfrutem da vida à larga. É justamente por isso que nesse tempo, de capitalismo tardio, a ideia de comunismo precisa ser demonizada. Imaginem as pessoas compreendendo o que seja isso? Imagina viver sem precisar destruir o outro? Viver sem ser explorado? Viver sem fome? Viver com acesso à terra, à moradia? Não. Isso impede a sociedade de avançar, dizem. É coisa do demônio.  

A ideologia obscurece a verdade. A mentira assume o status de verdade. E as pessoas, ensinadas desde o berço, acabam acreditando que se trabalharem muito poderão vencer na vida. E para isso, há que ir derrubando qualquer um que cruze o caminho. A sociedade do mérito, que é uma falácia.  

Então, antes de clamar aos céus sobre o tamanho da maldade no mundo, há que construir escolas de solidariedade, da prática do comum. Escolas não formais, é claro. Mas, escolas na vida, nos bairros, nas igrejas, nos partidos políticos, nos movimentos sociais. Há que alfabetizar para o bem-viver. Isso não brota do nada, muito menos da nossa vontade. É uma prática política. E que não pode ficar relegada a guetos, a ações pontuais. Precisa ser massiva e organizada. Precisa negar o capitalismo. Precisa ser uma força de destruição do que aí está. Não pode ser uma prática de convivência. É de destruição da forma social capitalista. Sem isso, seguiremos com nossas lágrimas. 

A felicidade é uma construção social e coletiva. A felicidade é o horizonte do comum. Não vai existir no capitalismo. Não vai. 


quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Réquiem para Diego


Hoje foi um dia que chorei um bocado. Cada vez que entrava na internet e via algum escrito sobre Diego Maradona. Uma sensação de perda, profunda e dolorida. O Maradona era um cara especial. Um tipo que tendo ficado famoso poderia ter simplesmente vivido sua fama, sua grana, tornando-se um babaca, como tantos que conhecemos. Não é fácil sair da pobreza, conquistar o mundo e não se perder. Diego perdeu-se em muitas coisas. Álcool, drogas, mulheres. Sabe-se lá que dores o atormentavam. Sabe-se lá se foi apenas deslumbramento. O pequenino de Lanus  aproveitou a vida à larga. Teve seus ataques, mostrou sua sombra, expôs os demônios. E ele poderia ter ficado nisso. Mas, não. 

Diego decidiu caminhar pelas estradas conflagradas. De repente, lá estava ele com Fidel, o demônio comunista. Declarava seu amor à Cuba e tatuava-se com a cara do Che, seu irmão geográfico. E amou Chávez, e amou o bolivarianismo, e se misturou com as gentes sofridas desse imenso continente. Diego latino-americano, Diego cubano, venezuelano. E ficou feliz com Mujica, com Lula, com os Kirchner, com Evo. Maradona caminhava pelas nossas estradas, sonhava os sonhos da gente, de uma Pátria Grande, de uma Abya Yala soberana. Diego era parça.

Diego Maradona já era um saco de pancadas pela forma como vivia. Não precisava achar mais motivos para ser demonizado. Mas não se achicou. Mostrou-se na sua inteireza, como um sujeito político, como um homem engajado, e levantou as bandeiras que acreditava serem necessárias para as gentes latino-americanas. Diego foi pura paixão. Pelo futebol, pela Argentina, por Nuestra América. Por isso essa tristeza. Encantou um irmão. Cheio de defeitos, de ambiguidades e contradições, mas absolutamente certo acerca do que deveria amar.

Não é sem razão que hoje choram os amantes do futebol, os argentinos, os cubanos, venezuelanos, bolivianos, uruguaios, equatorianos, colombianos, paraguaios, peruanos, brasileiros, salvadorenhos, guatemaltecos, nicaraguenses, enfim, todos os que aprenderam a amá-lo, em campo e fora dele.

Diego foi um deus do futebol, e poderia ter ficado ali, naquele pedestal inútil de conversinha mole. Mas não, ele desceu, fez-se irmão, parceiro, amigo. Fumava charuto cubano, usava boné com estrela, sapateava na cara dos que apenas o queriam como um macaquinho amestrado.

Diego viveu. Atormentado, sofrido, mas também alegre, pleno, cheio de amor por esse mundo ainda não-visto, ainda não-constituído, mas que caminha em cada um de nós que coloca seu tijolinho na luta pelo mundo novo. esse meio-dia que virá. 

Que as nossas lágrimas lavem todas as suas trapalhadas e que ele possa entrar no céu dos bons, abençoado pela Compadecida de Suassuna. E que lá de cima, com seus parceiros de vida que também já encantaram, sopre segredos para que possamos enfrentar melhor a caminhada.

Gracias, gordo, gracias... por ter escolhido nossa gente em vez de ficar na indiferença.

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

Os negros e a chibata



Não, não vi o vídeo. Apenas a imagem se repete na minha linha da vida o tempo todo. O homem negro sendo espancado por dois seguranças, enquanto aparentemente uma mulher incentiva. Hoje é o Dia da Consciência Negra e a situação se reveste de especial perversão. É assim aqui, nos Estados Unidos, na Europa, em qualquer lugar. Ser negro é ser alvo. Aqui em Joinville uma mulher, eleita vereadora, também teve a vida ameaçada, porque cometeu a ousadia de ser petista e negra.  

Negro não pode falar alto em nenhum lugar. Porque matam. Negro não pode andar na rua de noite. Porque matam. Negro não pode ter carro bom. Porque matam. Negro não pode olhar feio pra ninguém. Porque matam. Negro não pode se arvorar a ser político. Porque matam. Negro tem que ficar no seu lugar. E que lugar é esse? O da sombra. Negro tem de olhar baixo, tem de ser silencioso, servil. Negro não pode ostentar, nem dar risada alto. Tampouco pode estar na rua depois da meia-noite, nem andar de boné ou de capuz. Negra tem de se comportar, não pode circular em loja chique. Negra tem de se contentar com emprego ruim e aceitar. Essa é nossa sociedade, que é nascida da violência, do estupro e do tráfico negreiro. Hoje, temos na presidência uma criatura abjeta que cristaliza essas práticas, que incita a violência, o estupro, o racismo. Então, os desgraçados acreditam que não tem a menor importância matar, socar, violentar. Fazem tudo à luz do dia, diante das câmeras e postam nos seus perfis. Está tudo permitido. Fazem isso com os negros pobres em maior medida, mas, não se enganem, ninguém está salvo, nem o otário que hoje dirige a Fundação Palmares. Nem ele. Porque ser negro é ser alvo. Essa é uma verdade que ninguém pode negar. Como ultrapassar essa cerca, de ser uma sociedade que mata negros? Como superar essa chaga aberta? Reforma e Revolução. Atuar agora, na luta pela redução de danos, mas também pavimentar o caminho da revolução. Porque é preciso viver agora. É preciso existir sem medo agora. É preciso poder brincar na rua agora, ser vereadora agora, circular nos lugares agora.  

Mas, ainda também é hora de fazer os desgraçados largarem a chibata, como um dia os marinheiros liderados por João Cândido fizeram ao ocuparem o encouraçado Minas Gerais, no Rio de Janeiro. "Nós, marinheiros, cidadãos brasileiros e republicanos, não podemos mais suportar a escravidão na Marinha brasileira... Vossa Excelência tem o prazo de 12 horas para mandar-nos uma resposta satisfatória..." Assim falava já como almirante, o marinheiro comandante da revolta acontecida em 1910, João Cândido, com os canhões apontados para o palácio, no que ficou conhecido como a Revolta da Chibata. Vários navios aderiram. Os negros em luta enquanto na praia, o povo acompanhava, maravilhado, o balé dos navios amotinados. Os negros, armados, definindo sua história e a dos que viriam depois. João, que era um homem viajado, sabia da história do Encouraçado Potenkin, quando os marinheiros russos deram início ao que depois virou a revolução. Ele sabia que era preciso atacar e atacou. Foi vitorioso.  

É fato que depois da revolta o governo matou muitos dos amotinados, prendeu, demitiu, todo o kit básico da resposta do poder. Mas, a chibata nunca mais voltou. É assim que se avança.  

No Brasil, segue sendo necessária a revolta da chibata. Outra vez, outra vez e outra vez. Até que um negro e uma negra possam simplesmente ser em qualquer lugar do país.  

Viva o Dia da Consciência Negra. Uma consciência de revolução! Viva Zumbi, Dandara, Tereza de Benguela, João Cândido, João Gama, Maria Firmina, Carolina de Jesus, e tantos outros.  

Estamos juntos, agora e amanhã.


A vaca emburrada


Tenho a mania de juntar coisinhas, pequenas e singelas lembranças dos lugares por onde andei. Com isso vou enfeitando o que chamo de “altar dos meus afetos”. Pedrinhas, pedaços de pau, bonequinhos, enfim, mimos. Com a doença do pai, eles foram sendo sistematicamente eliminados. Faz parte da agitação do fim de tarde, um desesperado mexe-mexe. Aí, as mãozinhas vão pegando os meus recuerdos e arrancando cabeça,  tirando pedaços. Um a um eles foram desaparecendo. As lembranças vivem apenas na minha cabeça agora. Uma das poucas coisas que ainda conservo à vista é um pequeno altar com meu São Francisco, o quilin (antiga divindade chinesa), e um presépio que fica montado o ano todo porque eu definitivamente amo essa hora do nascimento do meu jesusinho. Nesse presépio, que é bem estranho – com os personagens meio desproporcionais - tem uma vaca, que, por supuesto, devia estar na manjedoura. Ela é gozada, grande demais diante das outras peças - como o camelo que é minúsculo - e tem uma singularidade: a cara da vaca parece emburrada. Virou então uma referência para todos nós na casa. Assim, quando temos de clamar por algum milagre a gente chama: “santa vaca emburrada, rogai por nós”. E ela ajuda. É nossa santinha.  

Pois hoje o pai danou de mexer no presépio e eu meio desesperada porque também não dá pra falar pra não pegar, que aí mesmo é que ele pega. E puxa o são José, e puxa Maria, e pega as ovelhas, e olha o camelo, e muda os reis magos de lugar. E eu só rezando pra ele não pegar a vaca emburrada. Mas, não deu outra. Pegou. E vira pra cá, e vira pra lá. Até que... pimba. Lá se foi a vaca emburrada para o chão. Ai jesuzinho... Já era a minha santinha. Fiquei estaqueada. Esperando. Quando ele finalmente se acalmou e deixou meu presepinho fui ver o que havia restado da vaca, caída embaixo da poltrona. Pois para minha surpresa lá estava ela, intacta. Milagre.  

Essa minha santa vaca emburrada é forte mesmo. Aleluia.