terça-feira, 21 de março de 2017

A carne e a luta



Sempre é bom repetir. Ao capital e aos capitalistas não interessam as gentes. Portanto, o que tiver de ser feito para que os lucros sejam sempre maiores, será. Isso acontece nos frigoríferos, nos bancos, nas fábricas, em todo lugar onde se produz mercadoria e onde se extrai a mais-valia do trabalhador. O jogo é sempre o mesmo: o trabalhador cria valor e os donos do capital usam seus truques para dobrar ou triplicar o lucro. Se isso incluir fraudar os produtos, usar veneno, plástico ou o que for, será feito. Bem como subornar funcionários, fiscais e etc...

Assim que o caso da carne podre, ou com papelão, e os casos de corrupção não são um raio num céu azul. É praticamente regra. O que acontece de fato, é que enquanto não são pegos, os capitalistas vão fazendo o que podem para ampliar os lucros, inclusive ilegalidades ou barbaridades, obviamente sempre amparados no estado que, para eles, nunca é mínimo. E esse tipo de fraude pode ser feito também pelos servos voluntários, aqueles que querem ser mais reais que o rei, e que, mesmo não sendo eles os donos do negócio, agem como se fossem, empregando os métodos mais sujos para garantir mais riqueza aos patrões.  

Ainda no caso dos frigoríficos, outra coisa que precisa ser levada em conta é a ligação deles com a proposta petista/lulista/dilmista de país. Não tem nada a ver com teorias mirabolantes de conspiração. É a simples observação da realidade. O grupo que hoje governa o Brasil quer varrer da história o modo de governar proposto por Lula desde o seu primeiro mandato, que não era revolucionário, nem socialista, apenas um pouco diferente do que sempre foi praticado. Por isso essa política de terra arrasada e, é claro, que os aliados de primeira e última hora de Lula serão os mais focados. Destruí-los faz parte do jogo.

O Lula quando assumiu a presidência do Brasil não o fez apenas com a classe trabalhadora. Ele fez uma aliança muito clara com o setor produtivo da burguesia nacional. Não foi à toa que seu vice era um industrial tido como “bom moço”, o José de Alencar. Ao longo de seus dois mandatos, Lula prosseguiu com essa política de abrir espaço e crédito para um determinado grupo produtivo, incluindo aí empreiteiras, os frigoríficos, alguns agro-empresários e assim por diante. Uma espécie de proteção ao capital produtivo nacional e ao latifúndio industrializado, que se deu via os bancos de fomento.  Até aí morreu neves. Nada de novo no front. Era o lulismo tentando deitar com o capitalismo, buscando nesse grupo a proteção, já que a velha direita não iria engolir o sapo barbudo. Lula não fazia nada de errado. Apenas traçou uma política diferenciada da que vinha sendo praticada até então. Capitalista, dependente, tudo isso, mas com um forte apelo nacional. Ou seja, dava comidinha para as multinacionais, mas também engordava o capitalismo nacional.

Não é por acaso que, agora, com Temer no comando, todo o projeto lulista esteja sendo desmontado. Temer é a velha política de entrega total do país aos estrangeiros, com o apoio de grupos da burguesia produtiva nacional que aceitam ser apenas entrepostos das grandes multinacionais. Aqueles que não têm apego algum a coisas como pátria, ou mátria ou nação. Seu território é o movediço terreno da grana, venha de onde vier.

Então, que esses frigoríficos de gente que já foi aliada no projeto nacional de Lula estão sob o foco dos aliados de Temer, isso não tem dúvida. Assim como a Odebrech já foi flechada e a Petrobras.
Mas, que fique claro. Isso não quer dizer que não tenha havido crimes, subornos, corrupção, adulteração, fraude etc... Provavelmente isso aconteceu, pois é da natureza do capitalismo, seja ele nacional ou estrangeiro. Todos têm o mesmo sangue e o mesmo DNA.  Logo, não se trata de cerrar fileiras em defesa da indústria dita nacional, ou aos antigos aliados de Lula e do PT. As empresas capitalistas não merecem nenhuma lágrima por parte dos trabalhadores, porque qualquer uma delas os esfola vivos todos os dias. Então, há que denunciar, há que boicotar, há que constranger cada um desses que jogam com a vida e com a saúde das pessoas. E eles o fazem sem dó.

O agronegócio invade terras, mata índios, rouba pequenos proprietários, escraviza, prostitui, mata trabalhadores sem-terra. Tudo em nome do lucro, de uns poucos. Basta que se observe o tal do trabalho agregado, quando o produtor produz na sua terra a matéria prima que a grande empresa vai comprar para fazer sua mercadoria. As famílias trabalham de sol a sol, não têm direitos, estão à própria sorte e se algo sai errado, precisam arcar com todo o prejuízo. É quase uma servidão, ainda que mascarada.

Então, não há que ter piedade dessa gente que hoje enfrenta a fúria dos golpistas. Eles não são os bonzinhos só porque eram aliados de Lula. Eles aproveitaram a onda e ficaram mais ricos. Muito pouca coisa do “projeto nacional” petista chegou à maioria da população. Migalhas. Importantes, é fato. Pois, afinal, tirar 40 milhões de pessoas da situação de fome não é brincadeira. Mas, não deixaram de ser migalhas. Afinal, a gente não quer só comida, a gente quer saúde, diversão, balé...

Há o risco de essas empresas quebrarem e colocarem na rua da amargura milhões de trabalhadores? Não creio. Pode ser que haja algum momento de queda nas vendas, uma perda aqui, outra ali. Mas, as negociações no tapetão já devem estar acontecendo, e os endinheirados se entendem. Muita gente vai perder, é claro. E não serão os empresários. A corda sempre estoura nas mãos dos trabalhadores. 

Certamente milhares de produtores, principalmente os integrados, serão prejudicados. Mas ocorre que eles são prejudicados hoje, com esses patrões. Do mesmo jeito. Com esses, nacionais, ou com as multinacionais que virão no seu lugar, tudo seguirá como sempre. Exploração, exploração e exploração. Alguns ganham mais, outros menos, mas todos vivem esse processo de servidão mascarada. Não é o que podemos comprar com o dinheiro do salário que nos faz menos ou mais explorado. Seja como for, os que detêm os meios de produção estão sempre roubando os trabalhadores. 

Então, o que podemos tirar de lição de um caso como esse? Primeiro: não basta a um governo – que se diz progressista - se unir com alguns grupos da burguesia nacional esperando lealdade na hora do “pega pra capar”. Não há lealdades no mundo do capital. A história está aí para mostrar, caso após caso. Toda vez que os trabalhadores se uniram com a burguesia para tentar conquistar algo juntos, foram traídos e abandonados no meio do caminho.

Segundo: o agronegócio latifundista não é uma boa opção para o desenvolvimento nacional e muito menos para a segurança alimentar das pessoas. Essa gente comanda uma indústria, não a produção de comida. É indústria que produz mercadoria que é vendida pelo maior preço possível com o menos custo de produção e com o roubo do trabalho dos trabalhadores. Quem produz comida no Brasil é o pequeno e o médio produtor. E esses estão aí, como sempre, afogados pelas imposições da grande indústria agropecuária. 

Terceiro: é preciso construir uma proposta verdadeiramente nacional de produção e geração de riqueza. Não essa que foi tentada por Lula, de engordar indústrias e fazendeiros locais, sem um projeto popular de nação. Mas uma construída pelos trabalhadores, unificados com os camponeses que verdadeiramente produzem alimento e podem ser ganhos para um projeto de país.

Para isso é preciso trabalho, muito trabalho. Mas o campo está aí, aberto e preparado. A crise das empresas de carnes não vai durar muito. Já, já as emissoras de televisão, as mesmas que derrubam, às erguem. Basta que sejam bem pagas. E os trabalhadores, que no capitalismo, de um modo ou de outro sempre saem prejudicados, haverão de levantar. Esse furacão que está passando pelos grandes frigoríficos precisa servir de alavanca  para a consolidação da velha aliança operário/camponesa, sempre tão necessária. 

Hoje, no espaço da luta pela terra, são os trabalhadores rurais sem-terra que formam a ponta-de-lança, um pouco adormecida. É o momento de reforçar as grandes lutas, unificar com os pequenos produtores, constituir um novo modo de organizar a vida, retomar a terra.

Os tempos de arar já se foram. É hora de fazer brotar a semente. 

domingo, 19 de março de 2017

Jornalista Moair Loth recebe medalha Professor João David Ferreira Lima


Homenagem será na Câmara de Vereadores, dia 20, segunda-feira, às 16h

Quero começar esse texto dizendo que Moacir Loth é um homem especial, e que eu o amo. Ele é um desses jornalistas de primeira linha, dos que quase não existem mais. Seus textos primorosos, desde os tempos em que trabalhava no velho Jornal de Santa Catarina, em Blumenau, sempre foram um sul para os novos repórteres. Escrita potente, ironia fina, Moacir tem como marca adentrar as entranhas dos fatos, descrevendo com maestria e reportando com fidelidade. Nascido lá na Itoupavazinha, ele traz, bem arraigada, a sua alma colona, de desbravador. Os olhinhos apertados, sempre desconfiados, nunca deixaram passar um detalhe. O espírito reporteiro encontrou ali a sua concretude.

O conheci quando entrei na UFSC para ser repórter na Agência de Comunicação (Agecom). Ele era o diretor da agência. Durante a caminhada naquele pequeno (grande em qualidade) espaço de comunicação da UFSC tivemos grandes momentos. O Moacir é um chefe como poucos. O trabalho com ele é como um bailado. Não impõe. Discute. Sua marca na Agecom sempre foi a da liberdade. Nós podíamos escrever o que quiséssemos, desde que fosse bem escrito. Uma novidade para alguém que, como eu, vinha de anos na iniciativa privada, sempre podada por interesses outros que não o da boa informação pública.

Com ele construímos uma política pública de comunicação que andou pelo Brasil, inspirando e acendendo novas formas de ser assessoria de imprensa. E sob sua direção fazíamos o Jornal Universitário, que, por conta da maneira como todos entendiam a comunicação, mostrava toda a vida que pulsava na UFSC. Não era um jornal chapa-branca, desvelava as mazelas da política nacional, os grandes temas do país e fazia a crítica da própria universidade. Moacir segurou barras incríveis por conta de reportagens aparentemente desabonadoras sobre a UFSC. Posso dar um exemplo de uma que eu fiz, sobre o cruel abandono de cachorros usados para experiências no curso de Medicina. Gente grande pediu minha cabeça. Moacir segurou a barra, sob o risco de perder a sua própria cabeça. Vivemos muitas situações assim. E ele nunca abandonou qualquer um de nós.

Tivemos, é claro, brigas homéricas e ficamos por algum tempo sem se falar. Afinal, Moacir, na direção da Agecom, também cometia erros, como qualquer ser humano. E eu era implacável. Acho que ainda sou. Mas, como ele é generoso, e eu também sou, sempre voltamos às boas. É difícil demais ficar brava por muito tempo com ele.  E ele tem um coração maior que o corpo.

Uma das coisas que sempre me emocionou na história de Moacir foi o seu amor pela UFSC. Nunca vi coisa igual. Talvez o Assis tenha chegado ao mesmo nível. Quando diretor da Agecom, praticamente morava na universidade. Sua sala, tomada por livros, recortes de jornal e outros papéis, era seu ninho seguro e quentinho. Escondido ali, com os dedos ágeis sobre a máquina de escrever, usada muito tempo ainda depois da chegada dos computadores, ele passava os dias e parte da noite. Nunca teve tempo feio. E mesmo quando a vida se transportava para o bar, com cerveja e pizza, a UFSC era o assunto principal. Conspirávamos, conspirávamos, planejávamos e agíamos. Que tempos vivemos, que tempos!!!

Por conta da pequena política Moacir também passou maus bocados. Por muitas vezes foi afastado, preterido, substituído. Mas, aquilo não importava. Seguia seu caminho, fazendo sempre o melhor pela UFSC,  sua “pequena”, sempre amada. Fosse na Agecom, ou na Editora, onde também atuou. Aposentou-se em meio a uma tormenta, na gestão da Roselane Neckel. Perseguido, assediado, vilipendiado. Saiu da UFSC sem pompa, mas sempre com aquele risinho meio tímido, meio cínico, como a dizer “a vida é mais”. E ele estava certo.

Agora, quando o vereador Lino o homenageia pelos 35 anos de dedicação à UFSC eu me emociono. Porque o Moa merece que o reverenciemos. Ele merece, não uma medalha, mas esse reconhecimento público pelo trabalho que fez na universidade. Trabalho de formiguinha, amoroso e sistemático. Ele merece pelo tanto que contribuiu com o jornalismo de qualidade, seja como repórter, seja como chefe de redação, seja como colunista.

Com ele, a despeito de todas as diferenças, dividi minha vida de reporteira. Na Agecom, na Pobres e Nojentas, no sindicato. E, hoje, me enche de felicidade vê-lo homenageado. Não pela Câmara, que é uma instituição que não nos diz nada. Mas, pelo Lino, que foi professor na UFSC e sabe bem o que o Moacir significou na Comunicação. E por todos nós, seus amigos, que também queríamos ver todo o seu trabalho dignamente reconhecido.

Nessa segunda-feira, quando ele receber a medalha Medalha Professor João David Ferreira Lima, eu estarei lá, para ver com esses olhos de enxergar a merecida honraria a esse homem que construiu uma linda história no jornalismo catarinense. A honraria não partiu da UFSC, sua casa amada. Mas, não importa. Ela se faz e nós nos alegramos.

Valeu Lino, por dignificar o trabalho do Moa.


Valeu Moinha, por ser quem tu és. E eu sei que tantas outras belezas estão nascendo desses teus dedinhos, agora no computador. Bem assim, desse teu jeitinho, quietinho, escondidinho, mas absolutamente lindo. Que venham os livros!!!!

quarta-feira, 15 de março de 2017

Há mais velhos no Brasil, e eles estão fodidos


Os velhos são lentos, mas não são idiotas

Sempre me encantou a cidade de Porto Alegre. Desde que me lembro, é muito comum ver os velhos circulando pelas ruas, no comércio e principalmente nos restaurantes. Geralmente são aqueles que vivem sozinhos os que têm o costume de comer fora, por conta da comodidade. E é bacana ver como os restaurantes estão completamente adaptados à presença dessas pessoas que, ao contrário dos adultos, são lentas e, por vezes confusas. Sempre há um trabalhador pronto para ajudar, e no mais das vezes, sorridente e prestativo.

Mas, penso que isso é uma raríssima exceção. No geral, as pessoas tratam muito mal os velhos, ignorando que eles estão num outro patamar da realidade, completamente diferente da loucura que já foi incorporada pela maioria das gentes, desse mundo acelerado e tecnológico. No serviço público, a situação é lamentável. Outro dia, levei meu pai a UPA do Sul, por conta de uma febre de 29 graus. Ele tem 85 anos e sofre do mal de Alzheimer. O enfermeiro que o atendeu para a triagem pediu que ele colocasse o termômetro embaixo do braço. E o pai completamente confuso, atarantado pela febre, deixava o termômetro cair. Foi assustadora a reação do rapaz. Falou com o pai de maneira desrespeitosa, voz alta, ríspido.

-Eu já coloquei esse termômetro três vezes, tem de segurar.

Pois não via ele que ali estava um velhinho doente? Não podia ter um pouco de paciência? Não! Não teve o cuidado de tratar com carinho alguém que não estava no seu normal.  E que nem fosse carinho, mas com um pouco de respeito pela condição da pessoa idosa.

Da mesma forma são absurdas as regras do SUS. Para marcar consulta o velho tem de ir até o Posto, ficar na fila, às seis da manhã. Tem a opção de marcar pelo telefone, mas no geral é para dois ou três meses. Logo, se quer ser atendido tem de ir para a fila. Não importa se está doente, se não pode caminhar, se está com febre. Também o remédio de uso contínuo só pode ser retirado pelo paciente, “para evitar fraudes”. E olha que nunca uma palavra significou tão bem: paciente. Haja paciência para lidar com tudo isso. Quem mora longe do posto, e não tem carro, cada vez que precisa pegar o remédio tem de carregar o velhinho, todo estropiado, pelo transporte desintegrado. Um absurdo. Com certeza deve ter uma forma mais humana de lidar com isso sem dar moleza para a fraude.

Mas um dos lugares onde o velho mais padece é no banco. Obrigado que é a receber sua aposentadoria nessas malditas casa de usura, lá vai ele todo o mês para retirar seu pagamento. Os mais velhos não conseguem acompanhar a loucura da informatização. E por mais que o funcionário explique, a coisa é incognoscível. Experimente tentar ensinar como é que retira o dinheiro aplicando a senha de 4 dígitos, depois a senha de letras e números e toda aquela sorte de botões. Não dá! É impossível. Outro dia vi uma velhinha chorado copiosamente, dizendo: “não entendo, não entendo”. E não podia entender mesmo, e o funcionário fazendo cara de paisagem. Por que, com todos os caralhos, não capacitam essa gente para lidar com os velhos? Isso deveria ser prioridade num país onde o número de velhos aumenta significativamente a cada ano.

Tenho andado por aí com meu pai e vivenciado essas experiências todo o dia. É de arrasar. Porque a gente fica pensando que um dia também vai chegar nossa hora e teremos de igualmente viver toda essa sorte de humilhações e desrespeitos.

O velho pertence à classe dos homens e mulheres lentos. Tudo neles é pausado, tranquilo, vagaroso. Eles demoram a decidir a comida, eles demoram em entender as sentenças imperativas, eles se confundem com os sinais, as placas, eles param no meio da rua para olhar os passarinhos, eles escutam, mas por vezes não ouvem, eles se distraem com uma música, eles caminham bem devagar, eles são frágeis e precisam que as pessoas lhe toquem o braço, sorriam e repitam várias vezes as mesmas coisas, sem exasperação, sem rispidez, sem pressa. Eles não são crianças, para serem tratados como bebezinhos. São velhos. Portanto precisam que as pessoas os reconheçam na sua capacidade e autonomia. Estão baleados, mas ainda sabem quem são. Estão confusos e lentos, mas ainda podem tomar decisões sobre as coisas. Só demoram um pouco mais.


Fico pensando que, talvez, quando os capitalistas descobrirem que os velhos são também “consumidores”, quem sabe comecem a mudar a forma de atender, respeitando essa diferença. Mas, seria bom que as pessoas já pensassem sobre isso e começassem a mudar no trato com eles. Não custa nada desacelerar e ouvir delicadamente a confusão. Depois, ir desenrolando o novelo da desordem, com carinho e atenção. Veja o velho como um espelho. Ele é tu amanhã. 

E a considerar a reforma da Previdência que o governo Temer está planejando para os brasileiros, o destino de todos os trabalhadores será esse: de sofrimento, miséria e desrespeito. Barrar a reforma é preciso, mas ainda há muita estrada para caminhar no que diz respeito ao cuidado com os velhos do Brasil.

quinta-feira, 9 de março de 2017

Ruas bem comportadas não vencem batalhas



A reforma da Previdência está caminhando a todo vapor nos bastidores da política, que é onde, no Brasil, as coisas se resolvem. Se até mesmo o novo ministro do STF foi  sabatinado num jantar faustoso, dentro de um iate de luxo, imaginem como não está a maratona de convencimento dos deputados e senadores. Do jeitinho como sempre foi, promessas de poder e dinheiro nas contas. Cada nomezinho contabilizado. Os senadores, por exemplo, que se aposentam com 180 dias de mandato, recebendo aposentadoria vitalícia, não hesitarão um segundo em votar com o governo. Aos mortais comuns, a regra será de 49 anos de contribuição. Observem bem a diferença: quem vota o projeto se aposenta com 180 dias de mandato. Uma coisa esdrúxula, porque servir a nação num cargo eletivo não deveria ser “emprego”. Será o fim dos velhos. Se não a morte, pelo menos uma velhice bem desgraçada, no último nível da dor. E aqueles que não conseguirem provar contribuição terão de esperar até os 70 anos para entrar com o pedido do benefício por idade.

Enquanto tudo isso é tramado, aí andam as gentes nas ruas, em marchas e passeatas de protesto. Como já andaram gritando “não vai ter golpe”. E teve. Mas, as vozes das ruas não fazem eco nos palácios. Lá, o som da festa ofusca qualquer dor que possa querer saltar pela janela. Não há espaço para a dor do pobre ou do velho. Que se danem. Eles precisam ser oferecidos em sacrifício ao deus capital. É o que garante a riqueza de uns poucos.

Assim tem sido historicamente. O trabalho é a única força que gera valor, portanto, riqueza. Por isso, os trabalhadores precisam ser espremidos até a última gota. É o trabalho não pago da maioria das gentes, a famosa mais-valia, que garante a boa vida dos amigos do “rei”. Assim que não há espaço para compaixão. No início do capitalismo, o alemão Karl Marx mostra como foi a ocupação das terras dos aldeões ingleses para a chegada das ovelhas. Eles foram expulsos sem dó ou piedade, jogados nas fábricas insalubres, sem direito a nada, transformando a família inteira em escrava da máquina. Ou o que fizeram os colonos ingleses na Índia, quando depois de ocupar o país, destruíram todo o processo milenar de tecelagem que havia, para que os indianos fossem obrigados a tecer lã, completamente fora de sua cultura. Não houve ninguém, nos palácios, que se preocupasse com as gentes agonizando nas ruas.

A reforma da Previdência é a versão contemporânea da acumulação primitiva mostrada por Marx. O capital, insaciável e incontrolável, segue consumindo tudo a sua volta. Agora, avançando ainda mais sobre o corpo dos trabalhadores. Que trabalhem e paguem imposto até os 100 anos. Alguém tem de produzir a riqueza e esse alguém não será o 1% que detém os meios de produção, nem os seus lacaios de luxo. E, da mesma forma, não há ninguém entre os ricos que se compadeça dos que morrerão. Eles olharão os corpos e dirão: “era necessário”. Como disseram os escravistas ao longo dos séculos nos quais traficaram pessoas para garantir suas riquezas.

Os deputados estão nesse patamar. Refestelam-se com as sobras do banquete, amealhando alguns milhões. Querem tirar vantagem da posição que estão agora e é por isso que quando chegar a hora da votação ouviremos o “sim” ser repetido 500 vezes ou mais. A reforma do Temer vai passar. Por mais que as ruas gritem e protestem. Os gritos não serão ouvidos, eles sequer fazem cócegas.
A única coisa que pode realmente impedir a reforma da Previdência é a ação efetiva e radical das gentes. Há que derrubar a Bastilha. Caminhadas bem comportadas não vencem batalhas. A realidade já mostrou que o Congresso Nacional não se deterá. Tudo já está acertado. O que vem é a morte. Então, que temos a perder?

É certo que as barricadas não vão aparecer do nada. Há uma longa caminhada para informar em profundidade a população. Um trabalho de base que sumiu do mapa e que ainda não se faz. É tempo de construir a luta não apenas com palavras de ordem, mas com o conhecimento. Ninguém lutará contra o que não conhece. E ainda temos muita gente boa nesse país que não sabe exatamente o que vai acontecer com a aposentadoria. A consciência ingênua, sozinha, não dá o salto revolucionário. É preciso saber com concretude sobre a exploração e conhecer as entranhas do capital para que assome a certeza de que é preciso cortar a cabeça da medusa. Decifra-me ou te devoro, dizia o monstro. E assim é!


terça-feira, 7 de março de 2017

8 de março: as mulheres vão parar


Foi no ano passado, na Argentina. Uma garota de 16 aos foi drogada, estuprada, morta e empalada por dois homens, um de 40 e poucos anos, e outro de 23. A violência do caso levantou as mulheres argentinas que realizaram uma marcha gigantesca para denunciar todo o terror que ainda vivem as mulheres naquele país. 

Mas, a morte de Lucía Pérez também acabou por levantar o véu da violência e da brutalidade que se abate sobre as mulheres em todo o mundo. Desde aí começou a ser articulado esse 8 de março de 2017. A intenção é realizar uma greve mundial de mulheres. Uma parada global para que a sociedade pense sobre o que acontece cotidianamente na vida das mulheres em cada canto desse planeta. Uma violência que não é apenas sexual, como no caso de Lucía, mas também é política, cultural e econômica. 

A mulher sofre com o abuso físico, com o assédio sistemático, com a falta de liberdade para decidir sobre seu corpo, com salários menores do que o dos homens, com a tripla jornada, com o preconceito. É uma lista interminável.

Assim, que nesse 8 de março cada cidade, cada país, cada espaço do globo vai viver seu momento de parada para refletir sobre a situação da mulher. E, no âmago de todos esses dramas particulares, a certeza de que é o sistema capitalista o principal inimigo a ser combatido. Por isso, a parada envolve tantas pautas de luta.

No Brasil, por exemplo, uma das lutas mais importantes é a que se trava contra a reforma da Previdência que está sendo engendrada pelo governo Temer, a qual exige que a pessoa trabalhe 49 anos seguidos para conseguir garantir uma aposentadoria integral. Contra isso, as mulheres vão se manifestar. Também as mulheres camponesas levantam suas foices contra o agronegócio, e as mulheres indígenas vão às ruas pelo território, as mulheres trabalhadoras urbanas por salários dignos. Cada segmento com sua bandeira, mas todas irmanadas na luta contra um sistema que é, por essência, violento e opressor.

O 8 de março se ampara na luta histórica das mulheres operárias que foram queimadas, trancadas dentro da fábricas, onde lutavam por uma jornada menor, na batalha das socialistas que brigaram pelo direito ao voto, na jornada de cada companheira que ousou levantar a voz e o braço contra o sistema patriarcal. Mas, para além do passado, assoma também na solidariedade às mulheres que hoje lutam nas ruas, nas guerras fabricadas pelo capital, nos locais de trabalho, espaços de opressão, e se acomuna com as que erguem a voz para questionar, protestar e elaborar novas liras.

Em Florianópolis, a movimentação começa já às 6h da manhã, com várias atividades no Centro da cidade, culminando com uma marcha às 19h. 

Será um dia de luta, como nunca se viu. E o planeta inteiro vai tremer. 

Confira a programação:

06h30 às 9h: Panfletagem e entrega de fita lilás e apitos no Ticen.

9h às 18h: Tenda do 8MBrasilSC no Largo da Alfândega: TRIBUNA LIVRE para mulheres, debates, exibição de vídeos, atividades artísticas, atendimento com profissionais de saúde e do direito. Informações sobre a Reforma da Previdência. 

12h30: APITAÇO MUNDIAL DAS MULHERES!

13h: Concentração e ATO CONTRA A REFORMA DA PREVIDÊNCIA em frente ao INSS da Rua Felipe Schmidt, com mulheres do campo e da cidade, seguida de panfletagem nas ruas e lojas do Centro.

17h: Tenda do 8MBrasilSC no Largo da Alfândega: Assembleia de mulheres para leitura e aprovação do Manifesto 8MBrasilSC.

18h: Concentração no TICEN para a Marcha das Mulheres em Florianópolis, com saída às 19h.

quinta-feira, 2 de março de 2017

Sobre ser mulher nesse mundo



No dia 8, as mulheres vão marchar em todo mundo

Assisti dia desses um filme indiano chamado Sairat. Dolorosa representação parcial de um país que ainda trata a mulher como uma coisa, unicamente para ser usada pelos homens, seja como mercadoria de troca ou como objeto sexual. O filme é novo, mas aponta para a quase impenetrável lógica das castas ainda em vigor. Quem nasce pobre só pode conviver com os pobres e quem nasce rico, com os ricos. Podem até usar alguns espaços em comum, como é o caso da universidade, espaço no qual começa o drama de um jovem casal. Mas, isso não significa que possam se misturar. 

O filme narra a paixão de dois estudantes, ela filha do cacique local, ele, filho de um pescador. Como é comum aos jovens de hoje, eles pouco se importam com as convenções e proibições. Mas, quem diz que o resto do mundo não? O fato é que o pai da moça já tem um pretendente para a filha, escolhido por ele, segundo suas necessidades, não as dela. E ele vai fazer de tudo para impedir o romance. Não vou aqui narrar as peripécias do casal para viver seu amor, as dificuldades pelas quais passa, a fuga, o enfrentamento com seus próprios preconceitos e valores arraigados. 

O fato é que o filme termina e a gente fica em estupor. Não consegui nem chorar. Foi como receber um golpe no estomago, dois, três, sei lá. Fica-se sem fôlego, sem ar. Dane-se que seja o século XXI. Nenhuma mulher pode decidir seu destino se o pai e toda a família – no seu lado masculino – não quiser. E a gente que vive nesse lado do mundo se estarrece. 

Mas, basta que a gente se ponha a pensar e já podemos ver que essa apropriação das mulheres não é uma coisa que acontece na longínqua Índia, apenas. Não. Ela está aqui, bem do nosso lado, quando um namorado mata a namorada porque ela decidiu terminar, ou um ex-marido mata a ex porque ela se separou e quer voltar a ser feliz. As cultura se diferenciam, mas essa ideia de que a mulher é uma coisa, uma coisa com um dono, se mantém. E olha que não é só no capitalismo não. Nos sistemas regionais de poder que existiram antes do capitalismo global, a mulher também era peça de troca, tal e qual. Jogada para cá e para lá segundo os interesses dos pais e dos maridos. Nem a chamada “revolução sexual” mudou o panorama. Afinal, ser livre para transar com quem se quer não significa liberdade mesmo. Pode-se acabar com um tiro na cara, apenas por que algum macho alfa se arvore no direito de “possuir”, como uma coisa, a mulher. 

Nas guerras, como as que vivenciamos bem agora, no oriente médio, são inumeráveis os casos de estupro de mulheres e até de meninas nas aldeias, nos campos de refugiados. E não apenas no “oriente selvagem”, como afirmam alguns. Não. Nos países europeus, aonde as mulheres chegam fugindo do terror, elas são obrigada a “servir” aos agentes de imigração, aos policiais, aos guardas. Nas prisões de qualquer país, as mulheres são estupradas e violadas quando bem querem seus algozes. Seus corpos são espaços de abusos de toda ordem. E quando elas se alçam em luta, unindo-se e protegendo-se, como fizeram as curdas, quando podem, os inimigos as violam para provar que não há escapatória. 

É por isso que, de certa forma, a mulheridade é uma coisa que extrapola a classe. Pois mesmo na classe alta, no mundo dominante, as mulheres também estão em risco e podem sofrer violências, abusos e violações. Então é comum que assome esse sentimento de sororidade quando qualquer mulher no planeta é atacada, ainda que em outros espaços elas venham a ser adversárias ou inimigas. Parece ser algo que está no DNA. Não dá para não se sentir irmanada a qualquer mulher que venha ser violada na sua dignidade. Nessa hora é o corpo que se expande e se torna útero, disposto a acolher, como mãe, qualquer que seja a mulher em risco. Pelo menos é que o percebo entre as mulheres que vivem ao meu redor. Não sei se na classe dominante o sentimento é mesmo.  

De qualquer forma, é óbvio que na classe trabalhadora o índice de violência contra a mulher é bem maior, porque as mulheres estão em maior vulnerabilidade. E não é só a violência sexual. É justamente a violência de classe. A dependência econômica, a falta de um lugar seguro para morar, a necessidade de cuidar dos filhos, a dura batalha para sobreviver, o jugo dos patrões, as pressões para ser tal e qual o sistema quer, tudo isso é lenha na fogueira para a violência e para o sentimento de que a mulher pode ser tomada como coisa, tanto pelo homem como pelo sistema dominante. 

É por isso que essa é uma luta que precisa ser travada com muito mais intensidade no campo da política. Não é só um assunto de mulher. É um assunto humano. Assunto de todos. Tem de adentrar em todas as esferas e em todas as cabeças.

Tenho plena convicção de que num outro sistema de produção da vida, a mulher fatalmente encontrará um novo lugar. Esse é um processo em construção. Se no mundo antigo a mulher era coisa, se no mundo das grandes civilizações pré-colombianas a mulher era coisa e se no capitalismo a mulher segue sendo coisa, a luta que vem se travando desde os tempos mais remotos já garantiu as condições materiais para a mudança. 

É chegado o tempo de poder ser mulher, e sem medo. Seja aqui, na Índia ou na Conchinchina. Isso passa não só pela sistemática luta por direitos e contra a violência– que é, e sempre será, insuficiente no capitalismo - mas também pela construção de uma nova sociedade. Sem isso estaremos sempre no espaço da redução de danos. E nós merecemos bem mais do que isso.

Agora, nesse 8 de março, as mulheres de todo o mundo estão organizando uma marcha, unificando gritos, lutas, desejos, esperanças. Será um dia em que cada uma de nós estará unida em coração e mente, na construção desse mundo novo. Enfrentar a violência, destruir o capitalismo, esse é o caminho. Não podemos querer só mais justiça, mais respeito. Mais isso ou mais aquilo. O “mais” significa que ainda estaremos dentro do paradigma que queremos destruir. 

Queremos um mundo no qual possamos ser mulher, sem medo, sem opressão, sem exploração, sem violência. Um mundo de justiça, de corpos livres e riquezas repartidas. Um mundo socialista, ou com qualquer outro nome, desde que nele esteja contido todo o ideário dessa generosa proposta de bem-viver. 

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Greve dos trabalhadores da prefeitura

Entrevista com Wagner Muniz, trabalhador público que viveu 38 dias de greve em Florianópolis. Uma greve contra a retirada de direitos, contra o corte de mais de 40% nos salários. Uma greve vitoriosa.