domingo, 12 de fevereiro de 2017

Campeche na luta

Entrevista com moradores do bairro que estão organizando ações pela praia limpa.


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

No mercado...


Já fazia muito tempo que eu não sentava na ponta do mercado para olhar a vida. Desde que o prefeito César Souza inventou uma reforma gourmet e tirou da ponta o Bar do Alvin, ir ao mercado Público de Florianópolis virou um sofrimento. Por ali, tudo agora é espaço de boy e de madame. Turistas comendo pratos caros e cervejas artesanais. Não tem mais o samba de raiz, nem as cadeiras de plástico e principalmente pessoas. Gente nossa, dessas que a gente conhece, dos botecos, das quebradas. Até bem pouco tempo nem cerveja tinha, só aquela de pescoço longo, tamanho pequeno e preço nas alturas. Passo por ali quase todo o dia, mas não gosto. Não reconheço ali o povo daqui. E não tem mesmo.

Mas, hoje, me assaltou a vontade de ver a vida passar. E não há melhor lugar no mundo do que a ponta do Mercado, que dá vista para o terminal de ônibus. Ficar ali, sentado, é ver passar diante de si a cidade. As pessoas e seu corre-corre cotidiano. Dez minutos e a gente já cumprimentou pelo menos uns três. Estudantes, trabalhadores, donas de casa em compras, mascates, cantores, mendigos, skatistas, artistas de rua, é uma miríade de vida, uma vida que se conhece. Tão diferente da que se expressa no vão do mercado, antes tão nosso.

O sol estava quase a pino quando entrei no bar. Era o espaço do antigo bar do Alvin. Tudo arrumadinho demais. E os garçons? Nenhum conhecido, todos sem sotaque. O exato sentido de solidão. Antes, já se gritava: “Ei, Marcelo, um chope”. “Neto, um bolinho de bacalhau”. E se via o Alvin, circulando pelas mesas. Mas agora, nada. Aquela coisa sem vida, sem gritos, sem bebuns. Uma gente arrumadinha demais. Enfim, sentei. Aquele lugar é, sem dúvida, o melhor lugar de Floripa para se ver a vida que pulula no centro. Bem em frente ao Camelódromo, na diagonal com o terminal central. É um sem fim de gente.

O garçom foi simpático, mas não era amigo. Pedi um chope e fique ali, bem na porta, vendo as gentes passarem. É uma experiência sem igual. Um vai e vem de pessoas que carregam nas almas suas dores, seus medos, suas alegrias. O cego, o sem perna, a mocinha de pernas de fora, a do shortinho curtíssimo, o homem da água de coco, a velhinha com a sombrinha, o vendedor do chip da TIM, a senhorinha bem arrumada com sacolas do xopingue, as garotas falantes com sacolas do Kilojão, os garotos sarados, os equatorianos com suas sacolas cheias de muamba.

Vez em quando algum amigo ou conhecido que passava ligeiro me acenava. E eu ali, morrendo de vontade que fosse outro tempo. Bateu quase que um sentimento de vazio. Meio da tarde e eu ali, sozinha, ruminando minhas ausências. Nenhum garçom pra contar das namoradas, nenhum amigo para dividir as coisas da vida, nenhum ombro companheiro para as lágrimas e lamentações. Só aquele sonzinho de música cabeça, e aquela coisa limpa demais. O garçom chegou, solícito: “Mais um?”. “Tá”. Fazer o quê. O primeiro chope tava amargo demais, pedi um da brama. A porra do bar só serve duas marcas de chope. Ou isso, ou vaza. Caralho, e é o melhor lugar da cidade, na ponta do Mercado. Ódio. Fiquei, ainda que com aquele sentimento de estar traindo o Alvin e toda a companheirada que antes frequentava o bar.

Mas a vida ali na esquina dessa cidade que amo me chamava. E eu mergulhei. Esquecida do ambiente abuguesado e dos clientes entojados, fiquei, virada para a rua, balançando no vai e vem. Lá na outra ponta do camelódromo começou um bafon, uma mulher gritava por conta de uma sombrinha. Sorri. A vida! Do nada surgiu um cara com uma caixa de som e começou a cantar. Músicas bregas, de traições e mágoas de amor. Pedi o terceiro chope, sem nem olhar para dentro do bar. O centro da cidade é bom demais. Não saberia viver sem isso.

Por fim, 30 pila mais pobre (é, 10 pila cada chope), decidi pegar o rumo do sul. Misturei-me a multidão que assomava rumo ao terminal, passei a catraca da Plataforma B e procurei o Rio Tavares. Lá estava, parado, e com pouca gente. “Milagre, milagre”, gritei, mentalmente, e corri arrastando a sacola da Millium, onde tinha comprado umas almofadas vermelhas.  Sentei esbaforida. Um menino no meu lado sorriu. E eu retribui.

Ah, tem horas que vale a pena viver.


Aqui, a histórica entrevista com o Marcelo, garçom no Bar do Alvin.


terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Sobre o "caos" no Espírito Santo

Esposas e familiares dos PMs se movimentam contra o arrocho e a insegurança

A mídia comercial tem mostrado o "caos" no Espirito Santo por conta da greve dos policiais militares. Algumas coisas precisam bem esclarecidas sobre esse movimento. Em conversa com o cabo Noé, vice-presidente da Associação dos Cabos e Soldados da Polícia Militar e Bombeiros Militares do Espírito Santo, colhemos as seguintes informações. 

1 - Não é uma greve de policiais. O que acontece é que as esposas e familiares dos policiais estão trancando as portas do batalhões e não estão permitindo que eles saiam. 

2- Os familiares decidiram fazer isso porque é vedado aos policiais fazer greve.

3 - Os familiares reivindicam um salário melhor aos policiais e também condições de trabalho. Hoje o salário médio é de 2.750 bruto, e é o pior salário do Brasil. No Espírito Santo eles estão sem ganho real há sete anos, e desde há três anos sequer têm reajuste da inflação. A situação é de penúria.

4 - Não bastasse a falta de salário, os policiais são obrigados a trabalhar enfrentando riscos cotidianos sem as condições para sua proteção. os coletes a prova de bala estão vencidos, e os que estão na validade precisam ser usados em sistema de rodízio. Um veste a proteção e outro não. A sorte define quem vive.

5  - As perdas salarias chegam a 45%, mas a Associação dos Praças alega que um reajuste de 10% já poderia abrir uma negociação. Ainda assim o governador Paulo Hartung, que é do PMDB, se nega a negociar. 

6 - A postura do governador é descrita como "imperial". Segundo os policiais eles prefere morrer a ceder. 

7 - Por outro lado, os policiais e suas famílias já estão morrendo e tampouco estão dispostos a seguir assim.  

8 - Se hoje o estado vive um caos, com criminosos nas ruas, tiroteios, sequestros, roubos de carro, saques, a responsabilidade deve ser dada a quem de direito: o governador e sua política de arrochar os trabalhadores em vez de cobrar as dívidas do empresariado local. Como sempre, o argumento para manter o salário baixo e não garantir a segurança dos soldados é a falência financeira do estado. Como sempre, pagam os trabalhadores.  

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Abandonada pelos prefeitos, abraçada pela população


 Campeche mobilizado na luta contra o esgoto na praia

Comunidades do norte da ilha lutando pelo Rio Papaquara - Foto: Eduardo Dahse

Florianópolis é conhecida no Brasil inteiro pelo seu carnaval e pela estonteante beleza de suas 42 praias. Para incrementar o turismo, os governantes investem em anúncios milionários nas revistas nacionais, oferecendo a “ilha da magia” como um lugar de natureza exuberante, tranquilidade e prazer. Lugar de magia, até pode ser, mas quem faz a mágica são os moradores, que precisam dar tratos à bola para manter a cidade e as praias como espaço de beleza. Isso porque o abandono no que diz respeito ao serviço básico de esgoto tem colocado em risco não apenas as praias turísticas, mas também dezenas de comunidades que assistem, impotentes, a morte de seus rios.

No último mês, a comunidade do Campeche, sul da ilha, por exemplo, foi obrigada a realizar atos de fechamento de bocas de desague de esgoto nos rios locais, porque a praia está contaminada, em vários pontos, pelas águas servidas. Assim, desde quatro domingos atrás os moradores se organizaram e foram tapando, com sacos de areia, os canos por onde desaguam os esgotos de condomínios e outras residências, sem qualquer tratamento. A intenção tem sido despertar o poder público que parece ter abandonado as comunidades à própria sorte.

Durante o governo de Dário Berger, o Campeche foi contemplado com obras preparatórias para o tratamento do esgoto. Era o tempo do Programa de Aceleração do Crescimento, programa nacional de investimento em estrutura do governo petista. O bairro se movimentou. Vieram as máquinas, os canos e os moradores assistiram ao frenesi das obras com preocupação. Onde desaguariam as águas servidas que correriam pela rede de esgoto? Como o Campeche é um bairro que discute sua vida desde os anos 80, de maneira coletiva, o debate foi aberto. A proposta da Casan (empresa estadual que cuida da água e do saneamento), apoiada pelo prefeito, era construir um emissário submarino que levaria os dejetos para o mar, saindo atrás da ilha do Campeche. Naqueles dias houve protestos e levantamento popular.

Os moradores não aceitaram a ideia de jogar a bosta no mar, pois as experiências de emissários submarinos já comprovavam que os dejetos voltam e contaminam as praias. Foi uma longa luta. Como proposta alternativa, a comunidade apresentou projetos de estações de tratamento menores e espalhadas. O governo não concordou. A luta seguiu e acabou que nada aconteceu.   A comunidade ficou com a rede coletora pronta, mas ligando a lugar nenhum.

Com a chegada de César Souza Júnior à prefeitura, novamente veio à baila a problema do esgoto. A comunidade seguiu reivindicando e promessas foram feitas. O prefeito chegou a criar um programa chamado “Se liga na rede” e fez discursos prometendo atingir – em parceria com a Casan - 75% da cobertura de esgoto tratado na cidade. No Campeche, nada aconteceu. E nas demais comunidades também não. O problema estourou no início de 2016 quando a famosa praia de Canasvieiras, no norte da ilha, ficou contaminada pela sujeira que vinha do Rio do Brás. Foi um escândalo nacional. Turistas iam parar nas emergências com vômitos e diarreias, enquanto o rio agonizava em meio à merda.  Por conta do problema de Canasvieiras, outras comunidades praieiras começaram a se ligar que seus rios também estavam com problemas. No Campeche, os moradores detectaram vários pontos de desague de rio, completamente poluídos. Cursos de água como o Rio do Noca (conhecido como riozinho e point da praia) apresentavam água lodosa e cheiro ruim.

Naqueles dias, uma fiscalização na região de Canasvieiras, a respeito do rio do Brás, levantou que 57% das residências estavam com sistemas sanitários irregulares. Além disso, a capacidade de bombeamento do esgoto para a estação de tratamento estava baixa. Foram feitas promessas de ampliação dessa capacidade e realizada uma ação emergencial.  Mas, a ação do governo com relação a Canasvieiras não foi de resolução do problema, apenas de mascaramento. Vieram as máquinas e fecharam com areia a saída do rio na praia. A água contaminada já não escorria pela areia, mas o problema seguia lá. Desde aí pouca coisa foi feita realmente para resolver. A população bem sabia que tudo aquilo poderia se repetir.

Por conta do alerta em Canasvieiras outras comunidades passaram a vigiar suas praias. Foi o caso do Campeche, que percebeu pontos de desague de esgoto. O bairro do Campeche sofreu uma vertiginosa expansão nos últimos anos, com uma série de condomínios e prédios ocupando os espaços próximos à praia. Como existe a rede de esgoto pronta, muita gente acaba ligando o seu esgoto doméstico nela. Ocorre que não há estação de tratamento, e esse esgoto todo vai desaguar nos rios da comunidade. Por conta desse problema, moradores iniciaram uma campanha para que a prefeitura tomasse conhecimento da situação e oferecesse uma solução. Foram realizados atos e abaixo-assinados, mas nada aconteceu.

Nesse verão de 2017 quando os turistas chegaram a grande número, lá estava, de novo, o problema do esgoto escorrendo na praia. Vários pontos de desague formaram lagoas lodosas e malcheirosas que, inadvertidamente são usadas pelas famílias como espaços seguros para colocar os filhos pequenos. Preocupados com a possibilidade de viroses ou outras doenças atacarem os turistas e principalmente as crianças, os moradores iniciaram ações de denúncia e protesto. Assim, todos os domingos estão indo nos pontos de desague, fechando com areia e informando aos frequentadores da praia do perigo.  Já se completou um mês e nenhuma ação foi feita pela prefeitura ou pela Casan. Ao que parece, o prefeito Gean está mais preocupado em desmontar o serviço público e atacar trabalhadores do que resolver os problemas da cidade. E, no geral, os prefeitos costumam jogar o problema para a Casan, como se a saúde dos rios e da natureza da cidade não lhes dissesse respeito. É um descaso sistemático, só superado esporádica e paliativamente quando a mídia comercial mostra algum problema.

No último final de semana as comunidades do norte da ilha também realizaram protestos denunciando a poluição no rio Papaquara que é um efluente do Rio Ratones, e que, doente, pode afetar toda a Bacia do Ratones. O Papaquara deságua justamente da Estação Ecológica de Carijós e é fundamental que ele siga saudável e limpo. Para pedir providências do poder público, as comunidades ocuparam a estrada geral que vai para o norte distribuindo panfletos e conversando com turistas e moradores. Eles também buscavam conscientizar aqueles que de maneira irresponsável jogam seus esgotos na rede pluvial. É uma batalha difícil para aqueles que, organizados, estão sempre a proteger a cidade. Pois, tem de brigar com o poder público e também com os próprios vizinhos.

Já no Campeche, os moradores que vem fechando os pontos de desague na praia promoveram um abaixo-assinado chamando a atenção dos frequentadores da praia que imediatamente fizeram filas para assinar. Todos querem manter a praia bonita e limpa e entendem que é preciso haver uma ação urgente da prefeitura tanto na fiscalização das ligações irregulares quando na solução do problema. Desde há anos que a comunidade oferece alternativas, inclusive com projetos prontos, mas não encontra parceria nas administrações municipais.  

Os dados do município para tratamento de esgoto apontam que 53% da cidade é atendida pelo tratamento. César Souza chegou a prometer 75%, mas o que se vê todos os dias são problemas de poluição nos cursos dos rios e nas praias. O que está acontecendo então? Esses sistemas não são eficazes? Se não são, por que não chamar a comunidade para decidir e resolver? Como já falamos, desde há anos, por conta das reuniões do Plano Diretor, os moradores de Florianópolis já apontaram saídas. Só que os administradores fazem ouvidos moucos e preferem apostar em obras faraônicas e inúteis que só beneficiam quem as constrói. No fim das contas, a situação segue se agravando e, como sempre, são as pessoas, organizadas coletivamente, que precisam fazer o trabalho dos governantes.

A luta segue, para salvar os rios e a vida.


quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

O caçador de carrapatos

Minhas tarde agora se tornaram lentas. Porque, nelas, compartilho a vida com meu pai. Todo dia é único, ainda que algumas coisas se repitam. Ele anda por uma vereda de esquecimentos, então, todos os dias, determinadas coisas precisam ser ditas mais uma vez.

Ele sempre se espanta que sua mulher, minha mãe, já tenha morrido. “Mas eu não sabia disso”. E eu: “sabia sim, é que tu esqueceu”. Outro espanto cotidiano é a demora para a consulta no dentista. Faz quatro meses que esperamos pelo chamado do Posto de Saúde. “Mas aqui não tem um dentista que se possa ir e pagar depois?” É que na cidade onde ele morava, lá no interior de Minas, era assim. Precisava de um médico ou dentista e ia. Pagava quando, como e quanto pudesse. Seu médico o conhecia mais que ele mesmo, 30 anos de parceria. Isso ele lembra.

Outra coisa que não esquece é da outra filha e o neto que vivem no Rio Grande. Toda hora arenga: como estarão?
Pois agora que uma das cachorrinhas está paralítica, ele tomou para si a tarefa de fazer carinho quando ela chora. Está sempre por perto e a qualquer chorinho, lá está, passando a mão pelo dorso, devagarinho. E não é que ela para de chorar na hora?
Fora isso, como é verão e tem bichos demais na casa, estamos vivendo o tempo dos carrapatos. Todas as tardes, depois de ver a Usurpadora, no canal do Sílvio Santos, vamos para o alpendre, para fazer a checagem dos cachorros, ver se apareceu algum carrapato. Enquanto eu faço a triagem ele fica de olho no chão. Descobriu que os bichinhos vez em quando passeiam pelo piso clarinho, vindos da grama. Fez-se caçador. Os olhos de lince percorrem atentos cada cantinho e por incrível que pareça sempre acha um. “Lá vai um, lá vai um”, grita, esperando que eu faça a caçada. Sua função é descobrir onde estão, não se atreve a pegá-los.
No final do dia ele faz a conta dos que achou e compara com os que eu achei nos cachorros. Se ganha em número, ri, satisfeito.
Se eu demoro a chegar ele fica andando pra lá e pra cá no alpendre, esperando para começar a vigilância . E quando eu assomo no portão, avisa: “já vi uns bichinhos”.
E assim vamos passando o verão, entre bichos, risadas e a lentidão do outono da vida.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

MEC suspende a nomeação de reitora eleita da Unifesp



Governo suspendeu a nomeação da reitora Soraya Smaili porque a consulta foi fora da regra dos 70/30.

A Universidade Federal de Santa Catarina viveu no último ano um debate importante  sobre a democracia. É que um grupo de professores decidiu retroceder no tempo, tentando acabar com a prática histórica das eleições paritárias para a reitoria. Uma prática que tampouco é lá muito democrática, visto que uma pessoa não vale um voto.  Ainda assim, a paridade é uma prática que foi conquistada com luta dura, e uma batalha que ainda não terminou visto que o horizonte é o voto universal.

Infelizmente, no final da vida, o grande Darcy Ribeiro deixou essa significativa herança que foi a LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação), dentro da qual se determina que a eleição para a reitoria seja definida por maioria docente. Ou seja, os professores valeriam 70% dos votos, enquanto técnicos e estudantes dividiriam os 30% restantes. Uma grande cagada de Darcy, para a qual os conservadores se voltam quando querem cortar as asas dos técnicos e dos estudantes.

Essa regra eleitoral já foi bastante combatida, durante a votação da LDB e depois. Afinal, não há qualquer argumento que justifique um poder tão grande para a categoria dos professores. Trabalhadores técnicos e estudantes igualmente constroem o processo pedagógico. Há quem justifique a proposta descabida de Darcy argumentando que ele ainda estava preso a um tempo em que os trabalhadores entravam pela janela ou eram indicados pelos caciques. Mas, isso já estava mudado na votação da LDB. E, mesmo que ainda fosse assim, se vivemos numa democracia, não há porque discriminar as pessoas pelo modo de acesso que elas têm ao emprego.

E foram, justamente, ancoradas no argumento da democracia que as universidades decidiram realizar as eleições para a reitoria no sistema paritário, no modo “consulta”. Com o acordo político de que na lista tríplice enviada ao Conselho Universitário (que é formado no 70/30, com maioria docente) iria o nome do candidato eleito na consulta e que esse deveria ser escolhido. Na UFSC temos conseguido manter, mas já aconteceram casos nos quais o eleito não é o indicado pelo conselho, o que leva a lutas e mais lutas.

Pois agora o MEC, do governo de Michel Temer, decidiu meter a colher nessa cumbuca e resolveu suspender a nomeação da professora Soraya Smaili, eleita em consulta paritária, para o cargo de reitora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). O ministério decidiu acolher a “denúncia” de um professor, Antônio Carlos Lopes, que,  em dezembro de 2016,  mandou uma carta alegando que o processo tinha sido “ilegal”, justamente por ter seguido a regra histórica da consulta.

A decisão do MEC caiu como uma bomba na Unifesp e professores, técnicos e estudantes já estão se mobilizando para reverter isso. Segundo a direção da Associação dos Docentes da Universidade Federal de São Paulo (Adunifesp-Seção Sindical do ANDES-SN), em nota pública, a decisão do MEC abre um precedente muito perigoso e significa uma clara intervenção antidemocrática. Do ponto de vista formal não há irregularidade alguma, visto que o nome foi homologado pelo conselho maior da universidade.

O que aconteceu é que a autonomia universitária, nesse caso não foi respeitada. A interferência do MEC, então, fere a Constituição. E, por conta disso, vai ter luta.


terça-feira, 31 de janeiro de 2017

A vida da cidade


casa do povo fechada ao povo

Nenhuma alma, além da dos jornalistas, acompanhou a votação dos projetos que mexem no Plano Diretor de Florianópolis, que ainda sequer foi votado, e que define como deve se organizar a cidade. Um plano que as gentes, nas comunidades, discutem há 10 anos, entre golpes e contragolpes. Um plano que não termina justamente porque os vereadores, que representam interesses do capital, seguem mexendo e re/mexendo, garantindo direitos às construtoras e empresários especuladores. O plano é justamente não permitir que as comunidades organizadas ditem as regras.

Pois no pacote de maldades do novo alcaide, lá estavam projetos que interferem no Plano Diretor. Nada urgente, que necessitasse essa votação em sangria desatada. Nada urgente para nós, pois para alguns grupos de poder deve ser decisivo. Senão não estariam ali. E a Câmara estava em perfeita calma na tarde de ontem, com suas portas todas fechadas. Mesmo que alguém quisesse entrar e ouvir os argumentos dos vereadores, não poderia. Alegando questões de segurança, os nobres legisladores não permitiram que a sessão fosse aberta. Ali estavam, surdos e mudos – a maioria - como durante todas as demais votações do pacotaço do prefeito Gean.

Enquanto os vereadores de oposição gastavam saliva com argumentos, os demais apenas esperavam para votar conforme os interesses da classe dominante da cidade, representada pelo novo prefeito. Não sobrou pedra sobre pedra. Já haviam destroçado os trabalhadores, o serviço público e agora avançavam sobre a cidade.

Foi dado um espaço de três minutos para que um representante do Núcleo Gestor do Plano Diretor participativo fizesse uso da palavra, mas foi um momento ritual. A base aliada ao prefeito nem ouviu. Cumprido o rito, votaram e aprovaram.

1 - Liberação de construções de até 750 metros quadrados, alegando desburocratização, sem controle do setor de análise de projeto; 
2 - Regularização de construções irregulares sem a devida instrução técnica; 
3  - Troca de recurso de desapropriação por índices construtivos ou outros instrumentos da política urbana via Parceria Pública-Privada (PPP) sem instrução ambiental, urbanística, técnica e jurídica. 

Agora, entrando no segundo mês de mandato, o prefeito Gean já terá cumprido uma boa parte do seu projeto. Arrochando os trabalhadores, cortando salários, tesourando “gastos” que é como considera o serviço público de qualidade para a população. E os empresários poderão construir sem licença, livres de pressões ambientais e populares, tudo sob o beneplácito das novas leis. Sobrará então muito dinheiro para cargos comissionados, obras faraônicas e ações midiáticas. La nave vá.

Quando passar o carnaval, talvez, e os turistas forem embora, a cidade vai se deparar com sua vidinha cotidiana. E as pessoas exigirão trabalhadores públicos alegres e solícitos, ficarão estarrecidas com a falta de remédios nos postos de saúde, com a falta de médicos e dentistas, com professores desmotivados, atendentes mal-humorados. E possivelmente ainda olharão para os que ficaram dizendo: “trabalhem bem ou peças demissão”, afinal – pensam – eles têm escolha.

E os vereadores – a maioria  - seguirão legislando para seus patrões, enquanto uns cinco ou seis continuarão a espernear, tentando avançar dentro de um sistema de poder que não permite isso, que concede apenas migalhas.

Até que uma fagulha chispe no ar. E o povo se mova, arrastando tudo e todos. 

Veja a manifestação do representante do Núcleo Gestor do PDP, Alexandre Lemos