quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Enfim, abriu o mercado!







O Mercado Público sempre foi o coração da cidade. Por entre seus espaços a vida ilhoa emergia. Nasceu para o peixe, de frente para o mar. Depois, com os aterros, ficou ancorado no centro, vibrando de vida popular. As lojinhas de calçados, as panelas, as ervas-mate, as camisetas de cinco reais, a padaria, o artesanato, os bares "sujinhos" que reuniam os pobres, os sujos e os malvados, com uma boa pinga e a gelada barata. Pelo vão central corria o samba, feito pela gurizada local, e o sábado de manhã era pura festa. Conviviam os espaços mais refinados, como o Box 32 e os botecos da plebe. A divisão de classe demarcada, mas o espaço do mercado era compartilhado, aparentemente sem conflito.

Então, chegou o prefeito César Souza e o mercado fechou. A promessa era de uma reforma. Um novo projeto que tornasse o prédio mais seguro e reparasse algumas injustiças. Segundo diziam, havia gente ali que nem pagava aluguel, ou se pagava, era um valor irrisório e isso não podia ser assim. O espaço nobre era uma galinha de ovos de ouro e tinha de dar lucro para a municipalidade. 

Aí, foi feita uma licitação e muitos dos antigos comerciantes perderam seus espaços, afinal, como bem concerne a cultura ilhoa, eram negócios familiares, sem pretensões de globalização. Impossível esquecer a tristeza das senhoras da loja de panelas, que ali estavam há gerações. Ou o seu Alvim, com mais de meio século na porta leste. Não foi levado em conta a historicidade, a tradição, o costume. O mercado precisava se modernizar. Foi muito triste acompanhar o fechamento das portas, a despedida, o levantamento dos tapumes. Todos sabíamos que o mercado que voltaria não seria mais o mesmo. Até porque, quem ganhou a licitação foram "marcas" que certamente não teriam nada de característico da cultura local.

Quando a ala oeste abriu já vieram os primeiros baques. Sorveteria italiana, com a bola de sorvete custando seis reais. E na ponta principal um "Bobs", marca transnacional que vende hambúrguer e coca-cola. Um restaurante chique, de comidas caras, cervejarias, bistrôs. Nenhum boteco, nenhum espaço acessível ao bolso das gentes. O mercado gourmetizou. Já não precisava ser muito esperto para saber que a ala faltante não seria diferente. 

A obra seguiu seu curso, os milhões chegaram via PAC, o Plano de Aceleração do Crescimento, da Dilma. Mas, apesar dos recursos em profusão, a coisa andava devagar. A previsão era de tudo estar pronto em 19 de julho de 2014. Não ficou. Precisou passar mais um ano. Na propaganda da prefeitura a explicação foi de que o mercado era muito antigo e precisava fazer tudo bem devagarzinho, para não dar erro. Mas, ao fim e ao cabo, o que era para custar cinco milhões, custou 10. O dobro. 

Então, nesse dia cinco de agosto, a ala leste ficou pronta. Era o lugar onde antes ficavam as peixarias e, segundo o prefeito, demorou a terminar por conta de obras de segurança. Enfim, sabe-se lá. O fato é que a cidade esperava com ansiedade pelo fim dos feios tapumes e pela volta do resplandecente mercado.

A cerimônia de reabertura estava marcada para as 11 horas. Eu cheguei antes. Queria ver tudo sem as gentes. E lá estava o mercado, com seu amarelinho queimado, as portas verdes, novinho em folha. O coração até deu aquele pulinho, de puro amor, de alegria extrema. O mercado sempre foi o centro dessa alma ilhoa, da cultura mané. Muitas pessoas fizeram como eu, chegaram antes, para olhar com vagar, deliciando-se com a paisagem sem tapumes ou entulhos. Quem ama a cidade sabe bem o que aquele lugar representa. "Ficou muito lindo", dizia um. "Valeu a pena esperar", dizia outro, encantado com o cuidadoso acabamento.

No vão central, onde antes se misturavam as cadeiras de plástico, brancas e amarelas, com guarda-sóis multicores, agora estavam mesas uniformizadas, marrons, com os guarda-sóis da mesma cor. E as cadeiras também, todas homogêneas, iguaiszinhas, com uma acintosa marca da coca-cola. Poderia ser uma praça de alimentação de um xópin qualquer. Bonito, mas sem alma.

As peixarias, todas muito limpinhas, de azulejos brancos, luzindo ao luminoso sol da manhã. Os peixes fresquinhos, como sempre estiveram e os vendedores com seus costumeiros chamados de clientes. Os boxes frigoríficos tiveram seu número aumentado. Isso achei legal. Mais a frente, o espaço do Box 32, que sempre foi um lugar mais requintado. Agora, ficou ainda mais chique. Bancos vermelhos, estilosos, balcão mega-moderno. Um típico lugar para turistas ricos, desses que existem nas grandes cidades do mundo e que dão familiaridade. Pode-se estar no Egito, na Grécia, na China ou em Florianópolis e a impressão é de que se está em casa, considerando que a casa é lugar de conforto e luxo.

Alguns boxes ainda permaneciam fechados, mas dava para entrever que seriam também todos no mesmo naipe. Espaços mais requintados, com preços salgados. Cerveja de marca, long neck ou latinha, preços nas alturas. "Antes os preços eram baixos porque os caras não pagavam aluguel, agora esses pagam e tem de tirar o lucro. É claro que tem de cobrar caro", justificava um jovem bem vestido, agarrado a uma Heineken.

Não vi a cerimônia de reabertura, nem ouvi os discursos das autoridades. Por certo seriam odes a si mesmos. Preferi passear pelos boxes, mirando as gentes. O mercado estava cheio de gente bonita, bem vestida e disposta a gastar uns cobres. Num instante toda a área central se encheu e foi a festa da praça da alimentação. 

Mais a frente um palco estava montado para as apresentações culturais e, fora do espaço do mercado, do lado da Praça dos Bilros, estavam os mais pobres. Ali, reuniram-se os negros, os mendigos, os trabalhadores, os desassistidos. E por toda a beira do chafariz abundavam os vendedores ambulantes com seus isopores cheios de cerveja gelada a quatro reais. Churrasquinho, pipoca, algodão doce, caldo de cana. A festa dividia bem as classes, embora todo mundo parecesse se divertir. Para quem não tem acesso à cultura a não ser assim, quando ela se oferece de graça, a coisa toda estava muito legal. Havia anos que não via a região do mercado tão cheia. E, lá de longe, as gurias olhavam o mercado e diziam com os olhos brilhantes: Tá bonito.

A festança se estendeu até tarde da noite. Eu saí lá pelas seis da tarde, depois de me deliciar com a Escola Livre de Música, acompanhando o chorinho do Geraldo Vargas, com a alegria do Boi de Mamão, o Nilera e suas música de mar, os bonecos do Berbigão do Boca. A festa foi bonita mesmo e encheu de alegria as gentes. O mercado estava vivo outra vez.

Agora é esperar para ver a vida real, cotidiana. E observar como se comporta o lugar na relação com o povo local, a gente comum. Os peixes seguem com seus preços baixos, mas os demais espaços parecem inacessíveis para muitos de nós. O ar de xópin é concreto e não consegui ver nada que tivesse muito a ver com a nossa cultura gastronômica e cultural. Há um espaço para o trabalho das rendeiras, mas também achei que ficou meio sem alma.

Existe ainda um projeto, que está em andamento, de fechar o vão central, o que pode tornar a coisa muito ruim, ainda mais xopinizada. Imagino que estejam pensado até em colocar ar-condicionado. Pessoas há que gostam disso, mas a mim parece uma perda completa da aura, da beleza. O mercado, que nasceu peixeiro e depois abrigou um entorno popular, agora parece que se descola da essência ilhoa. Está tudo muito artificial, muito homogeneizado.

O mercado é um desafio. Pelos preços das coisas, a tendência é que fique um espaço para turistas e abonados. Mas, tudo pode acontecer. Quando os vestígios da festa sumirem, voltarão os capoeiras, com seu gingado, os negros do samba, os trabalhadores, os desgarrados. E aí pode ser que toda essa gente que sempre fez do mercado seu chão ocupe a área, introduza sua alma, seu jeito, sua cultura, desfazendo o ar esnobe e "global".

Eu me permiti estar no mercado. Porque o mercado é meu. E eu estarei sempre por ali, ainda que tenha de comprar a cerveja com o carinha do isopor e me sentar, faceira, como hoje, nas chiques cadeiras coca-cola. Sempre é possível subverter a ordem das coisas.

A cidade amanheceu feliz. O mercado estava, enfim, aberto. A vida pulsou, o riso se abriu. Agora cabe aos frequentadores habituais recuperarem o mercado. Não vai ser fácil, porque as pessoas tendem a se acomodar com as coisas que pensam não poder mudar. Mas, quem sabe? 








terça-feira, 4 de agosto de 2015

Das coisas boas do meu lugar
















Tá, refrigerante tem muito açúcar e tal, e faz mal à saúde. Mas, como dizem os gregos, na justa medida, tudo é permitido. Quem, vivendo em Santa Catarina não já tomou um Guaraná Pureza? O melhor que há, desde 1905, genuinamente local, receita da família Sell. Pois eu fui até a mítica fábrica da Pureza em Rancho Queimado e registrei o momento histórico. Menos de uma hora de Floripa e ali está a delícia.


segunda-feira, 3 de agosto de 2015

As greves intermináveis do serviço público












O jornalista Milton Temer escreveu há poucos dias um texto no qual questiona a
greve nas universidades, alegando que já é hora de os trabalhadores dos serviços públicos em geral pensarem em outras formas de se manifestar e reivindicar seus direitos, que não venham ferir a cidadania. Reforça ainda que as greves no serviço público servem mais é para dar “férias” aos trabalhadores e colocar a sociedade contra eles.  

Ruminei algum tempo sobre isso e me permitirei fazer alguns apontamentos sobre a sua indignação diante da tal “greve por tempo indeterminado”, que o colega insiste em ser algo absolutamente anacrônico e anti-sociedade.

Um primeiro ponto a ser considerado é entender que o serviço público não tem data-base. Uma coisa tão prosaica que qualquer outro trabalhador da esfera privada tem. Ou seja. Quando chega maio, ou outro mês acordado pelas categorias, o patrão é obrigado a discutir as perdas salariais e as possibilidades de ganho real. É lei. Mesmo que o patrão não queira, é obrigado a sentar com o sindicato e negociar. Assim, quando uma greve nasce é porque já foram esgotadas as conversas.

No caso do serviço público, o governo não está obrigado a discutir as perdas dos trabalhadores em um mês específico do ano. Não há data-base. Então, os trabalhadores vão aguentando, aguentando, esperando pela boa vontade do governo em negociar. Porque qualquer reposição só virá se o governo quiser discutir. Como até hoje não tivemos um governo que se preocupasse em sentar com os trabalhadores para debater salário e condições de trabalho, todo esse parto tem de ser feio à fórceps. É um drama anual. O governo não chama para discutir, os trabalhadores se articulam, buscam negociação através de suas federações, o diálogo não vem e aí acaba sendo necessária a greve. 

Logo: a greve é o único recurso que o trabalhador tem para abrir diálogo com o governo. E, no mais das vezes, o governo se recusa, enrola, tergiversa, faz com que a movimentação dure dois ou três meses. Então, como é comum, diante da falta de informação e do preconceito perpetuado, os trabalhadores passam a ser os vilões da história. São eles os que atingem a “cidadania”. São eles os malvados que deixam estudantes sem aula, velhinhos sem pensão, pessoas sem médicos. O governo parece não ser responsável por nada.

Reivindico que essa é uma velha estratégia governamental. Estender as greves por meses para que os trabalhadores sejam enxovalhados na praça pública como os irresponsáveis, os que não prestam atendimento. Assim, aceitar essa premissa acaba por reforçar o preconceito criado pelos governantes de que todo servidor público é um relapso e vadio.

Já no aspecto da metodologia da greve, Milton Temer tem razão. Já era hora de as lideranças dos trabalhadores públicos terem bastante clareza disso. A demora das greves – provocada pelo governo – é um calcanhar de Aquiles que precisa ser atingido. Sabedores da estratégia governista em demonizar o trabalhador, era tempo de pensar em novas estratégias para que a reivindicação pudesse ser feita sem tanto prejuízo às pessoas que utilizam os serviços públicos.

Mas, também é bom que o jornalista saiba que esse tema sempre foi foco de debates e discussão. As tais das “novas formas de luta” estão sempre em pauta, sem que se possa avançar. Porque, afinal, o que têm os servidores públicos para barganhar? Eles não param uma produção de salsichas, nem de sapatos, nem de carros. Coisas que geram lucros astronômicos para os patrões. Um dia de greve numa montadora é prejuízo gigantesco e os patrões logo se mobilizam para terminar o movimento, seja com violência, com punições ou negociação. Mas, a coisa é rápida.

Agora, quando para um servidor público, o que é que para? O serviço à população. Coisa que historicamente sempre foi vista como prioridade zero. Nos discursos dos políticos, eles estão no topo, mas na ação cotidiana dos governantes, é zero. Então, há que se perguntar: como são os serviços públicos quando os trabalhadores estão trabalhando? Se for olhar com honestidade vai se perceber que se a “cidadania” consegue ter algum acesso aos serviços do estado, muito é por conta da dedicação dos trabalhadores que, trabalhando geralmente em condições adversas, se desdobram em mil para dar conta de uma máquina emperrada, ineficaz, desumana. Basta passar um dia num hospital público, ou num posto de saúde, ou numa escola de periferia, ou numa universidade sucateada para ver como é trabalhar nessas condições.

Então, o trabalhador para, quando não pode mais. Quando precisa gritar por melhor qualidade no ambiente de trabalho, por carreira, por salário – essa coisa vil que não paga o valor daquilo que se produz. E o que faz o governo? Estica a greve, leva dois meses parar abrir uma mesa de conversa, na qual diz que não haverá conversa. Então passam mais meses e os trabalhadores implorando por um diálogo. É isso que é uma greve de trabalhadores públicos. Uma humilhação a mais. E no fim das contas, são ainda enxovalhados como vilões da cidadania.

O jornalista fala de um exemplo no qual os médicos em greve atendem na rua. Mas não é isso que se quer. O que querem os trabalhadores públicos é um atendimento digno, humanizado, em instalações boas, eficazes. Os professores poderiam dar aulas públicas, e dão. Mas e daí? O governo valida como aula dada? Não! E o trabalho cotidiano dos técnicos-administrativos para manter a máquina pública funcionando nas suas entranhas? Como fazê-lo em tempos de luta? Ou eles são tão insignificantes que não estão na lista dos serviços a prestar?

Sim, a greve no serviço público é um drama social. Sim, toca no que é mais frágil, que é quem precisa do serviço público. Prejudica, provoca sofrimento, angústia e dor. Logo, ela não deveria existir. Isso significa que a “nova forma” de luta deveria ser eleger um tipo de governo, um tipo de organização da vida, que realmente pensasse no Público, que valorizasse os trabalhadores do setor, que dialogasse com eles, que ao primeiro sinal de movimentação reivindicativa se dispusesse a negociar, impedindo a paralisação. 

Mas, não, o que vemos é um governo – os de todas as cores – que provoca o espichamento da greve, que se omite, que se esconde, que endurece em posições pré-definidas, que não negocia. Assim, as greves por tempo indeterminado são provocadas por essa ação governamental. Porque é o governo quem tem poder. Os trabalhadores só têm a sua força de trabalho, os seus corpos nus, como dizia o grande repórter Marcos Faerman. E é essa força, frágil, que eles colocam na rua, em luta. Claro que trabalhadores há que não participam, que ficam em casa, que são relapsos na greve e no trabalho. Mas, são a minoria. 

Por fim, questionar o método das greves intermináveis é legítimo, mas há que focar no alvo certo. Responsabilizar os trabalhadores é reforçar velhos e sofríveis preconceitos. 




sábado, 1 de agosto de 2015

Das peripécias do prefeito



O preconceito nasce da mentira, da ideologia (que é a falsa consciência) e do medo daquilo que, para nós, aparece como diferente. Daí que a melhor maneira de lidar com isso é o conhecimento, o debate, a livre discussão sobre os temas considerados tabus. Homossexualidade, sexualidade, orientação sexual, feminismo, machismo, são alguns desses temas que, em pleno século XXI, ainda provocam alvoroço. Não sem razão, afinal, estão sempre sendo colocados embaixo do tapete. Por conta disso parece tão surreal a reunião que o prefeito de Florianópolis, César Souza Junior, teve com pastores evangélicos e lideranças católicas. Não que ele não possa conversar com essas pessoas, afinal, são tão cidadãos da cidade quanto qualquer um de nós. Mas o que assusta é o resultado dela.

Segundo se pode observar num vídeo divulgado pelo superintendente do Instituto de Geração de Oportunidades de Florianópolis (Igeof) e pastor da Assembleia de Deus, Everson Mendes, o prefeito se compromete em deixar de fora do Plano Municipal de Educação - que estabelece as políticas por um década - qualquer menção à identidade de gênero ou sexualidade. E mais, diz o prefeito: "A educação e a religião são atribuições da família. A prefeitura e o Estado não podem se intrometer, até porque há muitos outros pontos importantes a serem discutidos (dentro do Plano Municipal de Educação). Da minha caneta, nada que diga respeito a ideologia de gênero será encaminhado à Câmara. Assumimos aqui esse compromisso público".

A imagem da reunião mostra o prefeito, no centro, e os pastores com as mãos impostas sobre ele, abençoando. Como resumo de tudo, diz o pastor Mendes: "Vitória da família e do povo de Deus".

O fato em si traz profundas contradições.  Se educação e religião é atribuição da família, como diz o prefeito, então o que a religião tem a dizer ao estado? Se o estado é laico, como pode permitir a interferência da religião nos seus planos para a cidade? Em que medida o Plano Municipal de Educação, ao fazer menção à gênero e sexualidade, está se metendo na família ou na religião? E por que, não discutir gênero ou sexualidade pode ser considerado vitória da família? Discutir machismo, feminismo, sexualidade, orientação sexual e outros temas dessa lavra não só é papel da educação pública, como um dever. É certo que esse não é ponto mais importante num plano de educação, mas não cabe aos religiosos exigirem algo dessa natureza.

Diante de uma realidade nacional, na qual se vê cotidianamente, pessoas agredindo pessoas por conta de sua sexualidade, e até matando por isso, esse passa a ser um tema obrigatório nas escolas. Quando uma criança, desde os primeiros passos escolares, já começa a discutir essas questões, terá, com certeza, muito menos possibilidade de se deixar levar pela ignorância ou pelo preconceito. Isso sim seria a vitória da família, de todo o tipo de família. O município, que é responsável pelo ensino fundamental, não pode ser espaço de obscuridade. Tem, por obrigação, que ser um ambiente de conhecimento, se realmente estiver disposto a formar pessoas críticas e capazes de participar da vida da cidade.

O que choca nesse episódio do encontro do prefeito com os líderes religiosos é a ignorante aquiescência à perpetuação das trevas do desconhecimento e do preconceito. Não falar é se omitir diante da realidade. Não falar é ser conivente com toda a violência que é gerada pelo discurso que confere aos que escolhem caminhos diferentes dos da maioria a marca do "demônio". Esse é um discurso da idade média, quando o poder religioso temia o conhecimento laico, e que, desgraçadamente, tem reaparecido de forma assustadora.

No princípio, esse tipo de discurso, que paradoxalmente vem da boca daqueles que dizem seguir a Jesus (um homem que só pregou amor), provocou risos e brincadeiras nas redes sociais. Foi tratado como uma aberração. Mas, quando percebemos como tudo isso está se imiscuindo na vida do estado, é hora de olhar para esse discurso de ódio com mais cuidado. Agora, vendo um prefeito, de uma cidade como Florianópolis, constrito diante dos religiosos, submeter-se a esse compromisso, a situação assume formas bem mais sérias. Afinal, se aquele que rege os destinos da cidade, se deixa levar pelas teias do preconceito e confirma a omissão da escola diante dos temas que estão pulando na cara dos educadores, o que mais se pode esperar? Hoje, rende-se a não falar em gênero, amanhã render-se-á a quê mais? Voltaremos aos tempos da ditadura no qual a palavra liberdade não podia ser escrita? O que mais será retirado dos documentos oficiais?

Sabemos que há uma classe de políticos que é capaz das coisas mais vis para garantir votos e governabilidade. Mas, é bom que eles saibam que também há uma comunidade que se move, questiona e reivindica. A escola deveria ser espaço de fomento da democracia e da participação popular,  lugar de vivências humanas amorosas vitais para o futuro das crianças, corrente de discussão de uma nova práxis. Ali, na escola fundamental está o novo, o futuro, e é ali que podemos  mergulhar no conhecimento, oferecendo às crianças outra visão de mundo no qual não caibam a violência e o preconceito.

O prefeito César Souza Junior, ao prometer não incluir esse debate na escola, só perpetua o que, talvez, lhe interesse: a ignorância.



Homenagem II - Antônio Carlos Silva




















É sempre assim. Eu entro na reitoria e fico procurando pelas paredes aquela arte que sempre mobilizou nossas greves. Não há mais. Charges, desenhos, frases de efeito, tudo muito bem pensado entre o engraçado e o crítico. Uma linguagem única, feita por alguns traços e cores. Assim era o trabalho realizado pelo nosso querido guru, Antonio Carlos Silva, que, inclusive foi imortalizado num livro editado pelo Sintufsc.  Durante os anos em que atuou na UFSC, como arquiteto, ele nunca faltou a um movimento de luta. E mais, ele foi um dos que, junto com outro ícone da luta na UFSC, Manoel Arriaga, iniciou todo o processo de discussão de organização dos trabalhadores pela esquerda. Com eles, nasceu o Movimento Alternativa Independente, o MAI, que mudou a cara da UFSC. Com seu jeito meio tímido, discreto, ele agigantou a luta política de tal maneira, que desse criadouro nasceram inúmeras lideranças que fizeram história na universidade.

Pois com o Silva era assim, bastava eclodir um movimento grevista e lá estava ele com suas tintas e pincéis. Sempre disposto ao trabalho coletivo. Ele desenhava as charges e a galera fazia as pinturas, em manhãs e tardes de puro contentamento. Assim a greve sempre assumia aquele aspecto de arte, alegria e compromisso. Os imensos desenhos, ironizando os governantes, os reitores, os pelegos, depois de pintados eram pendurados por toda a UFSC. E, nas reuniões de comando, que aconteciam todos os dias, lá estava ele, fazendo sua análise, construindo a política.  Um homem completo. Imprescindível.

Há poucos anos ele se aposentou. E, sem ele, os movimentos grevistas da UFSC perderam muito em beleza e em alegria. Artista plástico de reconhecida competência, ele segue por aí fazendo seus desenhos, pintando suas telas. Mas, nós, na UFSC, ficamos órfãos, e não apenas de sua arte. Mas, também do seu sorriso de menino e da sua lucidez.

Minha homenagem de hoje vai para esse homem. Colega, amigo, companheiro, fazedor de mundos. Sim, sentimos sua falta, mas temos sua arte e sua ternura marcadas em nós de maneira indelével. Sabemos que está bem feliz curtindo seu tempo de livre das pressões do trabalho cotidiano. E eu, do fundo do meu coração quero dizer obrigada. Por ter nos ensinado tanto, por ter tido a paciência de trabalhar com os mais jovens, por iluminar nossa UFSC com a beleza que criava no papel.


Antônio Carlos Silva, guru, mestre, amigo, um ser especial. Obrigada por tudo!!!




quinta-feira, 30 de julho de 2015

Eu chorei por Cecil



Sim, eu chorei. Chorei pelo tal leão que o dentista estadunidense matou na África. Chorei também pelo dentista, que precisa investir milhares de dólares para ter uma sensação de poder. Chorei pelo leão, como choro pelos palestinos, pelos meninos negros de Serra Leoa, pelos jovens da Guiné, as mulheres do Saharauí, os ciganos, os indígenas de Mato Grosso do Sul, os garotinhos negros das comunidades empobrecidas das grandes cidades brasileiras. Toda essa gente, e muito mais, que é abatida, cotidianamente, por seres como esse homem dos Estados Unidos. Chorei pelo leão, na sua inocência selvagem, entregue ao predador. Choro pelas gentes, violentadas e violadas na sua dignidade e na sua tentativa de simplesmente viver. 

Mas, diante destes fatos, que envolvem a vida de bichos e gentes, não basta chorar. Nossas lágrimas não mudam as coisas que já são. O que muda é nossa ação concreta, cotidiana e sistemática. A luta incessante contra um sistema que nos ensina a banalizar a vida. A batalha sem trégua que temos de dar para constituir outro modo de organizar a vida. E isso não é coisa fácil. Muito mais fácil chorar e dormir achando que já fez o suficiente. Mera musculação de consciência.

Sim, a vida do leão é importante, porque ela faz parte do grande equilíbrio cósmico. Ela também enchia de orgulho e autoestima toda uma gente que quase nada tem. Porque quem tem a savana africana como território ancestral sabe que aquele animal, como todos os outros que por ali são protegidos, mantém o mundo deles balanceado. Ali, o homem respeita o bicho e o bicho cumpre seu destino.

Da mesma forma é importante a vida das gentes, em todos os rincões da terra, porque são expressões desse universo mágico e inescrutável. Bicho e gente, gente e bicho, balançando no pêndulo da existência e com direito de viver em paz. O leão precisa existir não para alegrar meus olhos, mas porque há uma razão para que ele exista na natureza: equilíbrio. E, naquela parte da África, eles estão sendo exterminados, até que sua ausência extermine também o homem, porque são um.

E assim é também no sistema político. Os predadores - os que têm as riquezas - vão exterminando os que nada têm, sob pretextos variados: comunistas, terroristas, marginais, possíveis criminosos. Tudo o que constituir ameaça ao mundo de benesses que construíram a custa dos que massacram, eles eliminam. Com a mesma alegria deslavada do matador de leão. Armados com as armas do dinheiro, do poder, eles caçam e decepam as cabeças, riso aberto na cara. Depois, levam os troféus para casa, para enfeitar a sala. É bem assim.

Por isso há que chorar sim. Chorar pelos que são sacrificados. Mas, logo depois, secar as lágrimas e sair para a batalha. O leão vivia numa reserva, aparentemente protegido, inocente, sem consciência da maldade humana. Nós, não.  Nem em reservas, nem protegidos. E, conscientes. Sabemos que há homens com fuzis à espreita. E mais, temos a capacidade de, sabendo disso, nos juntar e dar combate. É a luta de classe.

Vivo por um sonho que persigo com atos concretos: um mundo de riquezas repartidas, de justiça, de vida plena, de equilíbrio entre gente, bicho e planta. Vivo e morro por isso. Um dia o condor encontrará a águia e virá o pachakuti. O tempo novo, pelas nossas mãos.

Assim, choro por Cecil, choro pelas gentes e arreganho os dentes, pronta para as batalhas. 

Trabalhadores do HU retomam debate das 30 horas


















A assembleia dos trabalhadores técnicos-administrativos da UFSC realizada nessa quinta-feira, dia 30, dentro do Hospital Universitário, colocou em destaque a luta dos trabalhadores do HU pelas 30 horas. Desde há muitos anos o hospital vem praticando os turnos de seis horas, entendendo que isso não só é melhor para o trabalhador, mas também para o serviço público, visto que aquele que oferece o serviço está menos estressado, mais descansado e conseguindo ter alguma qualidade de vida. 

Mas, a reitoria da UFSC insistem em aplicar a letra fria da lei – na interpretação que lhe interessa – para fazer com que os trabalhadores voltem a fazer oito horas. Segundo a administração essa foi uma indicação do Ministério Público Federal  por conta de inúmeras denúncias que recebe sobre o não cumprimento de horário por parte de trabalhadores. A mais visível diz respeito aos médicos, que agora está em destaque na mídia.

Pois os trabalhadores que atuam dentro das clínicas médicas, no setor administrativo, estiveram na assembleia contando sobre o que acontece dentro do HU. Segundo eles, apesar de estar no setor administrativo, o trabalho dentro das clínicas tem certa singularidade que a administração - nem do HU, nem da UFSC - leva em conta. Daí que também eles reivindicam o direito de trabalhar em turnos de seis horas. 

Na interpretação da administração da UFSC, existem aqueles que podem e os que não podem fazer as 30 horas, apesar de o decreto presidencial ser bem claro, dizendo que onde haja atendimento em 12 horas seguidas é facultado a realização dos turnos de seis. Ora, se a universidade funciona das 7h30min até as 22h , o dirigente, usando da autonomia que está garantida por lei, pode implantar os turnos e garantir as seis horas. Isso depende apenas de decisão política.

Com base nisso, os trabalhadores do HU querem conversar com a administração. Primeiro para mostrar que o relatório que circula no HU não espelha a realidade do trabalho cotidiano, e depois, para reivindicar as seis horas com a garantia do atendimento em 12 horas seguidas. 

Na assembleia ficou decidido que os demais trabalhadores da UFSC, que inclusive já fizeram uma greve interna, no ano passado, com essa pauta, se juntarão aos colegas do HU nessa batalha. O sindicato também deve apresentar um documento à reitora sobre o tema. Tudo isso reverte em luta de todos os trabalhadores, porque, afinal, a batalha pelas 30 horas não é só da UFSC. Ela é internacional. Os avanços tecnológicos já permitem que o trabalhador possa ter mais tempo  livre. Insistir na jornada de oito horas é seguir na lógica da superexploração dos trabalhadores, coisa que uma instituição como a universidade não deveria apoiar.

Assim, hoje, às 15 horas, os trabalhadores buscam abrir uma janela de diálogo com a administração levando para o debate esse tema que é considerado tão espinhoso pela atual gestão. Basta lembrar os ataques que foram perpetrados contra os trabalhadores durante a greve de 2014, quando a reitora Roselane Neckel chegou a  cortar os salários – coisa nunca feita na UFSC – e a não reconhecer a greve, sujando a ficha dos trabalhadores com “faltas injustificadas”.

E é assim, na força da mobilização que a luta avança. No ano passado os TAEs foram derrotados, mas novas batalhas se avizinham.