quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

A difícil arte de ser desimportante



No geral, sou uma otimista. E crente. Acredito piamente no outro. Para mim, como diz o poeta, o outro sempre é o paraíso. Então, não raro me surpreendo – para o bem e para o mal. Assim há dias que venho mastigando uma mágoa, uma dor, um não-sei-que. Tem a ver com essa coisa demasiado humana, que é o desejo de comandar, de ser o dono, o que decide, o que determina, o que faz acontecer. E, que, por isso, não admite qualquer sombra. Para esses seres, o outro é sempre uma ameaça. Tudo bem que sintam medo, mas há os que agem com má fé. E intrigam, puxam o tapete, fazem denúncias vãs. Tentam assim, afastar de si, com maledicências, aqueles que, como eles, buscam a mesma coisa.  

Ruminando essas coisas, estive a falar com uma mulher que é uma grande mestra pra mim. E, ela, na sua generosidade, me lembrou de uma velha parábola, dessas que contava Jesus. Pois diz que andava ele a passear pelos caminhos quando um dos discípulos lhe chegou a contar, esbaforido, que outras pessoas andavam a tirar demônios das gentes. Coisa que só Jesus podia fazer, segundo ele. “É um absurdo”, vociferava. E Jesus, tranquilão, mastigando uma haste de trigo, perguntou: - E os demônios estão saindo? – E o discípulo: - Pois, sim – E Jesus: - Mas, então está bem. É o que importa. Não quem está tirando.

E é essa observação tão simples e certeira que deveria valer nesse nosso miserável mundo da luta política. Teríamos de andar todos a “tirar demônios”, sem hierarquias, sem temores. Fazer o que é preciso para acabar com esse mundo de exclusão, de violência e de opressão que o capitalismo aprofunda. Deveríamos ser solidários com quem trabalha, faz coisas boas, participa das lutas. Mas, não. Pessoas há que querem o monopólio da revolução. E muitas vezes, nem é com a radical mudança que realmente sonham.  Pois é aí que muita coisa desanda.

O fato é que, como diz Maturana, o nosso imperativo genético é a cooperação. Não há espaço para  competição no mundo humano. Ela é anti-natural, não constrói, não ajuda. Só a junção das forças, a solidariedade, o trabalho em comunhão faz a raça avançar. Essa coisa que os zapatistas entendem tão bem quando colocam o pasamontañas e tornam-se todos um só. São comunidade, porque é o que importa preservar. Cada um de nós vai voltar ao pó dia desses, e a raça seguirá seu caminho, sem a nossa intervenção. Somos esse sopro ínfimo, esse atma, essa poeirinha cósmica. Desimportantes no grande livro da vida, se pensarmos na nossa ação singular. Somos mais, no coletivo.

Vai daí que essa é a grande tarefa ainda a se cumprir. Compreender nossa pequenez e, na grande teia comunitária, ser um nó, forte e definitivo. Não importa quem protagoniza, quem comanda, que está na frente. Importa que a gente avance e expulse os demônios, caminhando com o próximo e o distante, afastando a dor, a miséria, a violência, a opressão.  Mas, esse ainda é um longo caminho da raça... tão distante quanto necessário!


Enquanto não se aprende essa lição, há que se tentar compreender o que intriga, e desarma, e destrói. O que não significa aceitar. E a vida segue, no galope...

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Apontamentos sobre Ucrânia, Venezuela e Brasil



O mundo das redes sociais tem provocado reações interessantes. Ora, serve para democratizar a informação, ora para confundir e difundir mentiras. É um terreno fluido, líquido, pantanoso. Navegar por esses mares do éter cibernético requer cuidado e, principalmente, formação. Como os conteúdos são jogados sem qualquer compromisso com a verdade - ou são mentiras propositais para confundir, ou são meras opiniões, o sentir de cada um sobre os fatos - apenas aqueles que se dispõe a investigar, procurar a fonte original, compreender a realidade, podem formar um quadro que verdadeiramente se aproxime do real. Só que isso dá trabalho, exige estudo, leitura, pesquisa sistemática. Então, o que parece ser hegemônico nos espaços como facebook, twitter ou plataformas semelhantes, é um bombardear incessante de informações sem fundamento, opiniões pessoais, preconceitos e muitas vezes até a discriminação criminosa.

Pode-se observar isso em questões bem específicas que envolvem a política mundial: as manifestações populares na Ucrânia, na Venezuela e no Brasil. Tem sido bem comum nas redes sociais, as pessoas compararem os três países como se fossem situações semelhantes. Uma postagem em particular diz assim: Na Ucrânia, o povo luta contra o socialismo, na Venezuela, luta contra o socialismo e, no Brasil, luta pelo socialismo. Nada poderia ser mais mentiroso. É absolutamente impossível comparar a realidade desses três países de forma tão simplista.

Na Ucrânia, a população está em conflito e mobilizada. Uma parte quer que o país estreite laços comerciais com a Rússia e outra parte quer a união com a Comunidade Europeia. Aí estão colocadas a luta de classes e visões distintas de mundo. Os que querem a União Europeia preferem estar na parceria com o centro do mundo capitalista, acreditando que, com isso poderão participar das promessas do sistema. E não é apenas a elite que anseia pelo pleno capitalismo. Ali também estão operários, estudantes, camponeses pobres, trabalhadores informais e ex-soldados que sentem-se à margem do bem-estar nessa nova Ucrânia pós-soviética. Esses, acreditam que essa outra forma de organizar o mundo, representada pela comunidade europeia, pode lhes dar uma chance melhor, afinal, nunca a tiveram.
Os que preferem a aliança com a Rússia não estão a favor do socialismo, até porque essa experiência há muito tempo que não existe mais naquele país. A Rússia aparece como um parceiro desejável porque tem um considerável poder, por conta de sua força nuclear e militar. E, também, por conta de que seus aliados são os que estão hoje no comando da Ucrânia. Mas, do ponto de vista da proposta de desenvolvimento, não há muitas diferenças com o projeto capitalista.

O certo é que a Ucrânia hoje tem uma sociedade dividida e está em conflito, mas os motivos disso não são tão simplistas assim, de ser contra ou a favor do socialismo. Aliás, como já disse, o socialismo nem está em questão. Há toda uma experiência do passado - de ligação com a antiga União Soviética  - que é rechaçada pelas novas gerações, há racismo, há rasgos fascistas, assim como há o medo de mergulhar na ilusão capitalista por conta da já conhecida derrocada de vários países da periferia da comunidade europeia. É complexo. E esse embate já gerou mais de 100 mortos, porque, afinal, é uma batalha de concepção de mundo. Os últimos informes apontam para um acordo entre a oposição (pró-europa) e o governo (pró-rússia) de antecipação das eleições e mais poder para o parlamento. Tudo isso pode significar o levantamento das barricadas, mas não garante que todas essas pessoas  - as bem intencionadas ou não - terão os ganhos que sonharam. A luta pelo poder recomeçará forte na batalha das eleições.

Na Venezuela a situação é radicalmente diferente. Não há um passado de ligação com o dito "socialismo" soviético. É o contrário. Ao longo de toda a sua existência como república, a Venezuela esteve dominada pela elite local, nascida e criada na exploração dos índios, dos camponeses e, agora, da riqueza natural que é o petróleo. Desde sempre a opção dos que comandaram o país foi pela exploração capitalista. A batalha que está dada hoje na Venezuela é sim, contra as propostas de caráter socialista iniciadas por Hugo Chávez. A chegada de Chávez ao poder em 1998 trouxe a possibilidade de repartição da riqueza do petróleo, que até então estivera na mão de muito poucos.  Isso começou a ser feito com uma série de mudanças estruturais que se iniciaram, mas que não se completaram. Logo, não há um regime socialista na Venezuela. O que há é um capitalismo de Estado que tem como proposta ir se socializando. Mas, esse objetivo tem sido algo bem difícil de alcançar.

A Venezuela não conseguiu alavancar o desenvolvimento interno, a indústria, a produção agrícola. A elite que segue fazendo batalha contra as propostas do governo - porque quer voltar a dominar a riqueza petrolífera - nunca pensou em apostar no desenvolvimento do país. Quando tinham a renda do petróleo, exploravam e enriqueciam.  Hoje, sem ela, exploram o setor de importação, que é igualmente rentável e não gera divisas, a não ser para eles. Então, o que está em disputa na Venezuela é um projeto de Estado e de desenvolvimento. É certo que nas fileiras dos "escuálidos", a oposição elitista, também tem gente simples, camponeses, trabalhadores, operários que tem suas próprias demandas, legítimas, mas que somadas ao golpismo, acabam se perdendo. Com certeza, entre esses trabalhadores, não deve haver quem queria a volta da exploração dos velhos oligarcas, mas eles também têm críticas ao governo bolivariano, que muitas vezes não são levadas em conta. Por isso gritam e se manifestam legitimamente, oferecendo outro projeto. Tudo isso torna igualmente complexa - embora não igual a da Ucrânia - a luta que se trava nas ruas. 

A semelhança com a Ucrânia é a da mobilização popular – tanto de facções reacionárias, como progressistas -  a realidade de uma sociedade em crise, mas os motivos que levam uns e outros às ruas são bem diferentes, e devem ser analisados nas suas respectivas conjunturas. Na Venezuela, o que se vê é um governo com ampla base e apoio popular, que não tem medo de chamar o povo às ruas, que convoca a população a defender a proposta bolivariana de desenvolvimento. O governo não se esconde e não escamoteia suas propostas. Tem problemas? Claro que tem! A Venezuela não é um país socialista, o governo - desde Chávez - comete muitos erros, se equivoca de caminho, volta, retoma. Há uma certa burocracia estatal se fortalecendo, há corrupção. Óbvio. É um governo de humanos. Mas, também há esse diálogo direto com as gentes, feito cara-a-cara e sem medo de defender as escolhas de cunho mais socialista ou progressista. Assim, os erros podem ser acertados. Tudo está em ebulição. Essa é uma luta interna, mas não dá para ser ingênuo. Aproveitando-se das divergências internas, o império - incorporado nos EUA - põe a sua mão. É igualmente óbvio que um governo bolivariano não é bom para os Estados Unidos. Eles preferem os amigos da velha elite, seus também velhos aliados. Vai daí que tudo isso se expressa nas ruas. Descontentes de esquerda, a direita renitente e os mercenários ianques.  Realidade explosiva e complexa. 

No caso do Brasil, as similitudes aparecem igualmente no crescimento da mobilização popular que esteve bastante adormecida nos últimos tempos. Como a opção do governo petista, desde Lula e agora com Dilma, foi de aliança com os banqueiros e com a elite dominante, os problemas de poder começam a se acirrar, porque a elite é insaciável. A escolha por seguir pagando religiosamente os serviços da dívida tira do governo brasileiro a possibilidade de realizar mudanças estruturais. Como analisou o economista Nildo Ouriques, no programa Faixa Livre, da Rádio Livre, nessa sexta-feira (dia 21) as políticas sociais do governo brasileiro não passam de "caridade", não conseguem ultrapassar esse limiar. Com isso, foi se formando uma grande bolha de descontentamento. Existem críticas fortes feitas por parte da esquerda, que, de forma clara tem apontado os desvios de curso, os erros estratégicos, as alianças funestas. Uma esquerda que mostra onde estão os limites e que aponta caminhos, sem ser levada em conta.

Pois esses limites e equívocos agora emergem. O desemprego é uma dos menores da história? Correto. Mas os salários são de miséria. Isso vai aprofundando o abismo das desigualdades sociais. O conflito acaba se explicitando, muitas vezes de forma indefinida e esparsa como mostraram as jornadas de junho. Com a completa falência dos partidos políticos, que deixaram de fazer política, "preferindo fazer trabalho eleitoral", como diz o economista e presidente do Iela,  Nildo Ouriques, não restou ao povo senão a revolta, que se mostrou nas mais variadas facetas, inclusive a da reação alienante. "Não sei porque estou na rua, mas se todo mundo está, também vou". Ou seja, era uma apropriação ingênua, mas não irreal, das demandas do movimento social organizado. Essas pessoas, de um jeito ou de outro sabem que o transporte é uma droga, a saúde é uma droga e a educação vive um estado de miséria. As coisas não estão bem! Muitas vezes, como na Venezuela e na Ucrânia, explodem em reações de cunho fascista, justamente porque falta trabalho político junto às massas.

Diante de todos esses conflitos e o acirramento da luta popular - que encontrou ainda mais força no derrame de dinheiro público para obras da Copa - qual foi a atitude do governo petista? De novo, o professor Nildo Ouriques oferece uma interpretação: "O governo não tomou posição diante do povo na rua, preferiu ignorar o conflito, não enfrentou o drama social que gera dependência e subdesenvolvimento. Em vez de convocar as massas para a luta nas ruas, na defesa de um projeto emancipador, abafou o conflito, não explicitou seu projeto de país". Com isso, acabou atiçando a direita que está sempre à espreita de qualquer deslize para se fortalecer.

A conjuntura brasileira, a exemplo da Ucrânia ou Venezuela, também é complexa. Há os jovens que anseiam mudanças, há os revoltados por causas difusas, mas legítima, há uma esquerda crítica que não pode ficar calada sob a pressão de se confundir com a direita, há partidos políticos com interesses coletivos legítimos, mas há também uma direita raivosa que arma e incita à violência, bem como militantes à soldo das políticas estadunidenses, como não poderia deixar de ser. Porque é preciso que se tenha claro que os Estados Unidos atuam, e forte, na tentativa de manter os países da América Latina na sua órbita. Seja com financiamento direto de grupos, seja com a colonização ideológica e cultural. Não são poucas as pessoas "de bem" que acreditam firmemente serem os Estados Unidos os guardiões da liberdade.  Desconhecer todas essas forças, também as externas, é enveredar para a ingenuidade, coisa inconcebível no mundo da político. Mas, se há tudo isso, como diferenciar esses grupos no meio de uma multidão de milhares e milhares de pessoas? Aí está o desafio. Nas manifestações de junho, nos grupos que gritavam “fora partidos”, a organização – com distribuição de camisetas e lanches – estava a cargo de conhecidas figuras de partidos de direita. Então, há que se informar, estudar, compreender. Não é possível ficar no âmbito da consciência ingênua, acreditando que o povo que marcha quer uma coisa só. Como também não dá para agir como um avestruz, dizendo que quem protesta são só os "coxinhas", ou mercenários, ou anti-petistas, ou a esquerda "burra". Há uma fatia muito grande de descontentes que estão se expressando. Há gente séria fazendo a crítica. E também há entre os que respondem a violência do estado com violência, porque em determinadas situações é o único que cabe fazer. Desconhecer a realidade é o primeiro passo para a derrota.

A paz, todos a querem. Mas pessoas há que querem a dos cemitérios e outras que preferem a de um país soberano, livre e com participação popular.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Olímpia Gayo visita o diabo



O livro que escrevi contando a vida da irmã Olímpia Gayo deverá ser lançado em Lages no mês de março. O trabalho conta a história da Pastoral da Mulher Marginalizada criada na cidade de Lages pela irmã Olímpia. A teóloga Ivone Gebara é quem apresenta essa preciosa história de uma mulher que nunca se recusou a olhar o diabo de frente. Essas são suas palavras generosas...


"Elaine Tavares tem o dom e a arte de contar histórias de mulheres apaixonadas pela vida. Mulheres que são parte da história oculta da bondade e da beleza e que atuaram intensamente para que esses valores continuassem a se manifestar nas vidas sofridas e silenciadas. "Olímpia Gayo visita o diabo" é mais uma preciosa narrativa que revela o percurso de uma mulher que cresceu vencendo o sofrimento que a vida punha em seu caminho. Desde criança vencia o sofrimento preparando-se e lutando pela dignidade da vida de outras sofredoras e sofredores.

O texto move o coração e convida a abrir os olhos para as vidas ocultas, aparentemente sem valor, para a escória humana que somos e criamos assim como para a salvação e libertação que também podem nascer de nós. Sim, somos salvadoras umas das outras, somos a mão estendida, o abraço apertado, o sentido da solidariedade, a misericórdia vivida. Somos a voz que denúncia, que grita até que os corações de pedra comecem a palpitar de novo e ver e ouvir o mundo ao seu redor.


Conheci Olímpia num encontro de estudos em Julho de 2013 em Lages. Sua congregação religiosa me convidara para uma semana de reflexão sobre espiritualidade eco feminista. Desde as primeiras palavras que ouvi de Olímpia, a cumplicidade nas ideias, nas visões e, sobretudo, sua forma de "sentir a dor do mundo" ecoaram em mim. Cada uma do nós, de seu jeito, vivia a paixão pela vida manifestada através de muitas formas e expressa através de muitos nomes. Tínhamos muitas coisas em comum. Enfrentamos demônios parecidos, aqueles que atingem os corpos de mulheres e querem silenciar seus gritos de liberdade.


Nas visitas e encontros de Olímpia com os "diabos" da fome, da droga, da prostituição, seu nome, que faz lembrar o Olimpo, moradia dos deuses gregos, espantava os algozes e trazia algo apaziguador, algo ao mesmo tempo celeste e terrestre.  Os diabos fugiam e se descobria sua face oculta, sua beleza, sua momentânea integridade.  No encontro de coração a coração os diabos não ficam. Abrem o espaço para o amor e a justiça. Por isso tantas pessoas marginalizadas encontraram na presença de Olímpia a força para viver, levantar-se e seguir o caminho do resgate da vida.


Ao final da leitura do livro um sentimento de profunda gratidão e beleza tomou conta de mim. Gratidão à Elaine, à querida Olímpia e a tantas pessoas que no anonimato sustentam a vida e anunciam a grandeza do amor, único capaz de curar os corações partidos e renovar a face da terra".


Vale a pena conhecer a história dessa mulher, guerreira, ainda atuando com toda a valentia.







terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

A Venezuela e a luta de classe



Janeiro de 2006. É final de tarde na turbulenta Caracas. O bar próximo ao imponente teatro Tereza Carreño fervilha de gente atrás das famosas "arepas", um sanduíche típico do país feito com milho moído. Ali encontramos Rosália, prostituta, mãe de três filhos já grandes. Espera a hora para entrar no teatro, coisa que iria fazer pela primeira vez, junto com mais duas amigas. Iam ver uma exposição de fotos sobre mulheres caraquenhas, promovida pelo governo venezuelano. “Nós nunca tivemos acesso à nada por aqui. Agora, com Chávez, temos. Podemos ir ao teatro, ler - os livros são distribuídos de graça - e nós mesmos criar cultura. Imagina quando que uma mulher como eu, antes, iria entrar no Tereza Carreño?” Rosália, assim como as amigas que bebericam uma cerveja, morreriam por Chávez. Fazem parte daquele grupo de pessoas que sempre foi invisível na grande cidade, e que, naqueles dias, no auge da revolução bolivariana, se sentiam protagonistas da sua história. “A gente trabalha na missão Barrio Adentro, temos de trabalhar para ajudar o país. Chávez convocou e a gente vai”. As missões são a forma de organização com a qual a população Venezuela conseguiu ir se encarnando na vida das gentes.

Do outro lado da cidade, no bairro de Altamira, a realidade parece ser completamente outra. É o centro da vida da elite caraquenha, reduto da riqueza. Ali as ruas são vazias, não há o burburinho das zonas populares, proliferam os prédios e os esterilizados centros de compras. As mulheres que circulam bem vestidas e maquiadas são bem diferentes de Rosália. Nunca foram barradas no teatro mais importante da capital e tampouco, hoje, participam das missões para melhorar o país. Fazem parte do grupo dos “esquálidos”, oposição ao governo. Em alguns lugares até é possível ver a bandeira dos Estados Unidos tremulando, numa mensagem bem clara sobre quem eles admiram. Não querem saber de Chávez e de seus planos de tornar a Venezuela soberana.

Três estações do metrô adiante, surge o bairro Sabana Grande e, ali, tudo fica "patas arriba". Como num passe de mágica, outra Caracas surge. Não mais as ruas  clinicamente limpas, os enormes outdoors, os prédios clarinhos, os carros importados, os centros comerciais, as gentes bem vestidas. O que se vê são calçadas tomadas por uma infinidade de barracas de lona do mercado informal. As ruas estão sujas, há lixo nas esquinas e as pessoas comuns estão envolvidas em outra marcha: a da sobrevivência. O grande bulevar da Sabana Grande é o retrato da vida real. Nele vicejam os hotéis de encontros fortuitos, os mendigos, alguns garotos e garotas drogados e mais e mais barracas onde se vende tudo o que há. Mais adiante, na direção da periferia, desaparecem os toldos de lona e surgem as imensas comunidades de tom marrom, que se espalham pelos morros, cheias de barracos de tijolo ou lata. É gritante a divisão das duas Caracas, o que torna mais compreensível a guerra ideológica e utópica travada nas ruas. Nos bairros ricos e limpinhos as pessoas lutam para manter a vida pequeno burguesa, aparentemente protegida, que o dinheiro pode comprar. Nos bairros degradados e na periferia as gentes lutam por mudanças concretas que as levem para uma vida digna, de riquezas repartidas. Essa dicotomia de projetos é tão visível e densa que quase se pode tocar com as mãos.

A batalha para consolidar o bolivarianismo 

Passados oito anos da viagem à Venezuela, muitas são as mudanças na vida dos dois grupos que se enfrentam cotidianamente por um projeto de país. Naqueles dias, a promessa de transformação era soberana. Chávez vencia, eleição após eleição, os golpes que a direita entreguista perpetrava. As missões floresciam e as gentes construíam um novo país. Hoje, a Venezuela está golpeada. A morte de Chávez, no ano passado, pouco antes de assumir mais um mandato, foi um baque duro demais. Ainda que a organização popular tenha crescido e se fortalecido, sempre foi inegável o impacto de Chávez na vida de toda aquela gente que assomou em 1998 como protagonista da nova Venezuela. Ele era a alavanca que provocava o empuxo  para a frente, sempre para a frente.

Muitos foram os avanços populares no país durante os anos de governo bolivariano. A educação, a saúde, a moradia, tudo melhorou para os que eram os mais empobrecidos. Mas, havia um grande desafio a ser vencido: sair da armadilha da dependência do petróleo. Desde sempre, por sua riqueza petrolífera, a Venezuela baseava toda sua economia nesse setor. A revolução bolivariana tinha, então, que recuperar o país para a produção. Havia que incentivar a indústria nacional, a produção de alimentos. O país estava refém das importações. Tudo o que se consumia vinha de fora. E esse foi o caminho que começou a ser palmilhado. Desenvolvimento endógeno. Uma tentativa de substituição de importação.

Mas, o processo venezuelano não foi um processo revolucionário aos moldes ortodoxos, de vitória armada, com o aplastamento do "inimigo". A proposta bolivariana se deu nos marcos da democracia, com eleição, plebiscitos, referendos. Isso significa que, ao longo do tempo, a oposição esteve sempre organizada e atuante, disputando no mesmo terreno. E tanto atuava em liberdade que chegou a tramar e levar a cabo um golpe de estado em 2002, sequestrando o presidente Chávez, e mentindo para o povo que ele havia renunciado. Só que a população organizada ocupou as ruas e recuperou o presidente, bem como a retomada do processo democrático. O golpe foi debelado, mas os golpistas continuaram agindo, livremente, para derrubar a proposta bolivariana, que nada mais é do que distribuir a riqueza, garantir soberania e construir a integração da pátria grande .

Assim, esse embate se manteve nos 13 anos de governo de Chávez. Quando algumas coisas começavam a andar, lá vinham os golpistas com alguma armadilha e tudo tinha de parar. Ao longo desse tempo várias eleições foram realizadas, uma nova Constituinte foi promulgada, tudo com muito debate e envolvimento popular. Eventos políticos de abissal importância que mobilizavam as gentes, mas que, de alguma forma, paravam a máquina das mudanças prosaicas, essas que precisam se dar no dia a dia. Assim, com o passar do tempo e com tantos entraves para as mudanças, o projeto de um desenvolvimento endógeno não conseguiu decolar com a força necessária. O petróleo seguiu dando as cartas e a mesma elite que antes enriquecia com a importação de bens e alimentos, seguiu atuando no mesmo setor.

Na luta cotidiana, Chávez conseguiu uma certa composição com os empobrecidos - historicamente fora de qualquer processo na Venezuela - e a classe média, contando ainda com algum apoio empresarial. Uma tênue composição de classe que nunca perdeu sua tensão. 

A crise e os desafios para o futuro

Desde a última eleição para a presidência, quando Chávez já estava doente, a direita venezuelana colocou em campo todos os seus trunfos. Apostando em lideranças jovens e agressivas, fortaleceu o discurso de que a Venezuela estava indo para o abismo e que era hora de retomar as rédeas do país. É claro que esse abismo estava sendo fortalecido por essa mesma elite que hoje sonha em retomar o controle das riquezas do petróleo. Uma elite que não aceitou a proposta do desenvolvimento, que seguiu apostando na dependência dos Estados Unidos  - financeira e política - e prefere manter a Venezuela como no passado: com uma massa gigantesca de pobres e um pequeno oásis onde só ela possa usufruir das riquezas. 

E, já naqueles dias, quando Chávez ainda administrava o país, se podia perceber algumas rupturas na aliança de classe que ele lograra formar. Economicamente, o governo teve de continuar emitindo dólares para realizar as importações necessárias ao consumo interno e isso só fez fortalecer uma camada empresarial que comanda esse setor. Hoje, é essa força que assume a dianteira na tentativa de retomada de controle por parte da direita. Mas, a grande batalha segue sendo pelo controle do petróleo. Não há, nos planos da elite que chama para a rua as forças contrárias ao governo bolivariano, qualquer intenção de melhorar a vida da maioria da população, hoje acossada com uma grave crise econômica e desabastecimento.  

Por outro lado, o governo, comandado por Nicolás Maduro, não está conseguindo tomar as medidas econômicas que poderiam dar outro rumo à Venezuela. O economista Heinz Dieterich, que tem sido um duro crítico do governo bolivariano - desde os últimos anos de Chávez - diz que os dois atos de Maduro para conter a crise, a lei orgânica do preço justo e o plano de paz e convivência, são medidas paliativas que mais tarde se verão inúteis diante do colapso. Para ele, há que tomar os rumos da economia, sob pena de perder o controle do estado.

Agora que a direita mostra os dentes de novo, com força redobrada, o governo bolivariano está numa encruzilhada. Mais uma vez se coloca o problema da composição de classe. Parte da burguesia que estava apoiando o processo bolivariano vai sendo cooptada pelo grupo que busca retomar o controle do país. Não se tem muito claro qual a posição das Forças Armadas nesse momento da crise. Em 2002, quando do golpe de estado por parte da elite predadora, a escolha das Forças Armadas em proteger o processo bolivariano e seguir apoiando a proposta de soberania, foi decisiva para que, apoiadas no povo reunido nas ruas do país a gritar pelo cumprimento da Constituição, ajudassem a garantir a volta de Chávez.

Ainda segundo Heinz Dieterich, as Forças Armadas venezuelanas são hoje a força fundamental para garantir a continuidade do bolivarianismo e do poder popular. Para ele, essa aliança entre militares, vanguardas e povo é a única que pode constituir um consenso capaz de recuperar o tecido social e ultrapassar a crise. Mas, para além dessa  união necessária, são urgentes medidas econômicas que recoloquem a economia nos eixos e permitam a Venezuela retomar seu processo de desenvolvimento endógeno. Uma batalha difícil, mas que pode ser travada com a ajuda também dos países parceiros, unidos na própria ideia bolivariana de integração.

A luta de classes recrudesceu outra vez na Venezuela. As alianças estão rotas e precisam ser reforçadas para que sobreviva o grande legado da Quinta República: poder ao povo, democracia participativa e soberania. A batalha recomeça. Para pessoas como Rosália, vencer essa luta é decisivo para garantir a sobrevivência de milhares de pessoas que, tal qual ela, conquistaram um espaço real de decisão dentro da revolução bolivariana. Já para o pequeno grupo de moradores de Altamira, vencer é retomar o controle das riquezas para ficarem ainda mais ricos do que já são. Projetos radicalmente diferentes.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Greve dos Correios segue, sem negociação



Nessa quinta-feira (13.02), bem debaixo do sol do meio dia, os trabalhadores dos Correios caminharam pelas ruas do centro de Florianópolis. Eles estão em greve desde o dia 30 de janeiro, mas, ao que parece, o governo está pouco se lixando para suas reivindicações, uma vez que sequer abriu mesa de negociação. Por outro lado, a direção geral da ECT imediatamente acionou a justiça para que o movimento fosse declarado ilegal e abusivo. Ainda assim, os trabalhadores seguem parados, já que o tribunal do trabalho remeteu a discussão para a comissão que discute o dissídio coletivo. Os trabalhadores deflagaram greve por conta das mudanças que a ECT fez no fez no plano de saúde. Até agora, a assistência da saúde dos trabalhadores tem sido feita pela própria empresa. Mas, com as mudanças propostas, eles terão de pagar por um plano privado, terão os pais excluídos do benefício e ainda terão de pagar co-participação por cada procedimento que fizerem. 

Outra reivindicação diz respeito ao horários das entregas. Desde há anos que a ECT acordou estudar a troca de horário para o trabalho dos carteiros, que atualmente é à tarde (do meio-dia às quatro), para o período da manhã. Segundo o diretor do Sindicato em Santa Catarina, Hélio  Samuel, a entrega na parte da tarde tem sido um tormento para os trabalhadores, principalmente agora no verão, quando ondas de calor tornam o dia um caldeirão. “Esse é o pior horário para exposição ao sol, comprovado cientificamente. Temos muitos companheiros com câncer de pele. Isso não é brincadeira.”

Talvez boa parte das pessoas das grandes cidades não tenha sentido os efeitos da greve, uma vez que nos dias atuais pouco utilizam os correios, a não ser para receber contas a pagar. Mas, nas pequenas cidades e entre as comunidades empobrecidas de todo o país, o correio ainda é a única opção de comunicação com parentes distantes, bem como o caminho para o envio de encomendas. E, apesar de muitos dos serviços dos correios já estaram privatizados, a entrega das correspondências e das encomendas ainda é feita por trabalhadores públicos. Pois são esses que, hoje, lutam pela garantia da assistência à saude e por melhores condições de trabalho.

Até 2011 a Empresa Brasileira de Correios era uma empresa pública que detinha o monopólio de todo o serviço postal. Mas, uma medida provisória, mais tarde transformada em lei, acabou com o monopólio e possibilitou a entrega de vários serviços para a iniciativa privada. Naqueles dias, o presidente dos Correios, Wagner Pinheiro de Oliveira, defendia a ideia, alegando que era necessário “modernizar” a empresa, justamente porque o serviço de entrega de correspondência tradicional vinha perdendo espaço para novas tecnologias. “A aprovação da MP possibilitará a transformação dos Correios em uma grande empresa de logística integrada, que poderá oferecer serviços de qualidade a todos os cidadãos brasileiros, objetivo do governo federal”, dizia. Essa modernização, é claro, veio para beneficiar o setor privado que hoje, inclusive, detém a parte do leão, que é o serviço de Sedex, o mais caro do país. Durante o processo de discussão dessa lei, apenas os trabalhadores dos Correios gritaram contra. A sociedade não se manifestou. Muitos sequer souberam que os Correios estavam se privatizando. 

Compreenda como caminhou a privatização dos Correios

Foi o decreto lei 509, de 20 de março de 1969, assinado pelo presidente Costa e Silva,  que transformou os Correios numa empresa pública, responsável pelo monopólio dos serviços postais em todo o território nacional. A sede era na capital federal, com regionais que, na prática , eram as que distribuiam as correspondências, as encomentas e todo o restantes do serviço. Como  uma empresa ligada ao Ministério das Comunicações, o Correio estava submetido a todas as regras orçamentárias federais, sem interferência de capital privado. As franquias postais e telegráficas eram permitidas, mas ficavam totalmente submetidas ao Conselho de Administração Central. 

A lei 6.538, editada em junho de 1978, pelo presidente Ernesto Geisel especifica melhor o que são os serviços postais, listando todas as atividades realizadas pelo correio, garantindo ao cidadão brasileiro o direito de enviar e receber correspondências e encomendas. Segue definindo que apenas a empresa pública pode prestar esse serviço, embora estabeleça algumas novidades como a possibilidade a exploração de publicidade em objetos de correspondência. Fogem do monopólio estatal apenas o transporte de carta ou cartão-postal, efetuado entre dependências da mesma pessoa jurídica, o famoso malote, e o transporte e entrega de carta e cartão-postal; executados eventualmente e sem fins lucrativos, na forma definida em regulamento. No mês seguinte, um novo decreto – 83.726 - define o estatuto da empresa, sua organização e atribuições. 

Em 1989 é a vez do presidente José Sarney modificar a lei, acrescentando, através de um decreto, regras para licitação. Em 1995, o decreto 1.390, assinado por Fernando Henrique Cardoso, altera algumas regras com relação a cargos e especifica atribuições aos mesmo. Em setembro de 1997, outro decreto (2.326), incorpora novas atribuições ao cargo de presidente e diretores de regionais.

Em maio de 2011, o decreto 7.483, assinado pela presidente Dilma Roussef, dá uma guinada na história dos Correios revolgando todos os decretos promulgados desde 1970. Na prática, define um novo Estatuto para a empresa que, a partir de então, libera algumas atividades para exploração privada, além de poder firmar parcerias comerciais que “agreguem valor” à marca. É retirado definitivamente dos Correios o monopólio dos serviços postais. Contraditoriamente, a lei define um “Estatuto Social” aos Correios, ao mesmo tempo em que abre a porta para a entrada da iniciativa privada no setor.

Em setembro do mesmo ano, O Congresso Nacional aprova a lei 12.490, que trata de duas  questões importantes. Uma diz respeito a política de abastecimento e a outra está relacionada aos Correios. Vários pontos são acrescentados com relação aos serviços postais. Finalmente, no ano de 2013, no mês de maio, o decreto 8.016, define um novo estatuto para a empresa, revogando assim o promulgado em 2011.

No novo estatuto também não se vê mais a palavra “monopólio”, a qual acompanhou todos os decretos e leis desde 1969. Prevê exclusividade em alguns serviços e permite a contratação de subsidiárias. Apenas o serviço de entrega de correspondência (carteiros) ainda é vedado às empresas privadas. Muito bom negócio para o empresário que pode lucrar à vontade com o serviço, enquanto o estado segue bancando a entrega. E assim foi regularizado o serviço de Sedex – que hoje é privado e que encareceu o envio de encomentas de forma astronômica. 

Mas, para garantir um serviço de encomendas a preço menor o governo instituiou o PAC, definido como um serviço da linha econômica. Nele, encomendas de 500 gramas até 30 quilos podem ser enviadas com tarifas bem menores que as do Sedex. A diferença é que demora mais de 15 dias para chegar. Não bastasse isso, nos postos privados de Correio ainda há funcionários que se recusam a enviar encomendas que não estejam embaladas nas caixas específicas de empresa, que custam de três a 20 reais, mesmo que isso não seja obrigatório. As pessoas, desinformadas, acabam cedendo à venda casada.  É bom que saibam que o documento que cria o PAC especifica no item 7 - Toda encomenda deverá ser acondicionada e fechada pelo remetente em embalagem que resista ao peso, à forma e à natureza do conteúdo, bem como as condições de transporte. Isso significa que não necessariamente precisa estar numa caixa.  

A luta por serviço de qualidade

Para os trabalhadores não tem sido fácil ver a deteriorização dos Correios, empresa que até bem pouco tempo era considerada um exemplo de confiabilidade e pontualidade. Hoje, conforme pesquisa divulgada pela ONG ProTeste, as correspondências não-comerciais chegam a atrasar em até 75% dos casos. O que mostra que houve uma priorização para o serviço postal empresarial, enquanto que as pessoas mais simples, que ainda precisam do Correio para se comunicar, amargam os maus serviços.

Agora, não bastassem todos os problemas decorrentes do sucateamento da face pública dos Correios, também os trabalhadores estão sendo entregues ao sistema privado. E é por isso que estão em luta. “Nós amamos o nosso trabalho, queremos ver as pessoas bem atendidas. Mas, tudo parece só estar piorando”. 




terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

A cidade se movimenta na luta por terra, trabalho e teto

Foto: Rubens Lopes

No dia sete de fevereiro, sob um sol escaldante, mais de mil pessoas caminharam desde o trapiche em frente ao Koxixos, até o Fórum da capital. Trajeto todo realizado no âmbito de um dos espaços mais caros da cidade: a Beira Mar. As gentes que marchavam eram moradoras da Ocupação Amarildo de Souza - nascida em 16 de dezembro de 2013, nas margens da estrada que vai para a praia de Canasvieiras - mais os apoiadores, estudantes, sindicalistas, militantes sociais. Carregavam faixas, nas quais expunham suas reivindicações - terra, trabalho e teto. Dos grandes prédios da Beira Mar, a elite espiava, entre assustada e perplexa. Havia muito tempo que não via mais esse tipo de "demanda" por ali. No geral, as questões envolvendo terra em Florianópolis, desde há anos estão circunscritas a lutas pontuais, tais como a da chamada "Favela do Siri", nos Ingleses, ou a recente ocupação Palmares, na Trindade, sempre tratadas como casos excepcionais, sem maiores repercussões na mídia vinculada ao poder.

Então, o que faz da Ocupação Amarildo um elemento bem mais perturbador, capaz de atrair uma violenta campanha de desqualificação e repúdio por parte das velhas bocas alugadas da mídia? Seria o fato de ali estarem hoje mais de 700 famílias, unidas num sonho semelhante? Seria porque estão em terreno de gente muito graúda? Ou seria porque a cidade definitivamente entra num outro ponto de viragem no que diz respeito ao tema da terra? Para responder essas questões temos de voltar na história...

1985 - ondas de migração

Até o final dos anos 70 Florianópolis era uma pequena cidade que abrigava o mundo administrativo do estado. Conviviam os funcionários públicos, pescadores, pequenos produtores, alguns engenhos de farinha. A vida urbana se concentrava na região da matriz e do mercado, e as regiões praieiras era totalmente rurais. Mas, os anos 80 trouxeram uma novidade em todo o país. A ditadura se esfacelou e o Brasil rural começou a migrar. Desde o campo emergiam as massas de gente pobre, expulsas da terra por não serem proprietárias. Sem trabalho nas cidades do interior, sem terra e sem esperanças, o único farol visível eram as capitais ou as grandes cidades.

A cidade de Florianópolis começou a receber essas levas de migrantes a partir de 1986. Na época, o prefeito era Edson Andrino, primeiro prefeito eleito depois da ditadura militar. Era do PMDB, portanto dentro do escopo progressista. Nativo da ilha, Andrino mostrava preocupação com as famílias que chegavam sem qualquer apoio. Por conta disso, quando surgiu - a partir de uma proposta do padre Wilson Groh - a ideia de fundar um Centro de Apoio ao Migrante, a prefeitura decidiu apoiar. Naqueles dias e até o ano de 1989, chegavam na ilha, de 10 a 15 famílias por dia. Era uma avalanche. A cidade estava despreparada para tanta movimentação. E foi diante desse fenômeno humano que nasceu o Caprom (Centro de Apoio e Promoção do Migrante), uma iniciativa do então jovem padre Wilson Groh e da irmã Ivone Perassa. Com um pequeno grupo e contando com ajuda da prefeitura, eles montaram uma estrutura para receber essa famílias que aportavam na ilha sem nada mais do que a vontade de trabalhar e participar do sonho do progresso.

Nos anos de 87 e 88 a cara de Florianópolis mudou. De cidade provinciana, com pacatos funcionários públicos, passou a uma ebulição de luta pela terra. Com a chegada de centenas de novas famílias era preciso garantir espaço de moradia. Mas, já naqueles dias, o aluguel era proibitivo para os mais empobrecidos. E, organizados, eles foram ocupando espaços na beira das estradas ou em vazios urbanos. Algumas dessas ocupações fizeram história como a do antigo Pasto do Gado (hoje, Chico Mendes), onde mais de 200 famílias levantaram barracos de lona e insistiram em garantir ali, a sua morada. Também foi nesse período que nasceram as ocupações da Ilha Continente, Santa Terezinha, a beira da Via Expressa e outras mais. Em dois anos de migração vertiginosa, a cidade contabilizou 12 comunidades de ocupação. E todo mundo fazia a luta pelo espaço onde morar, e pela estrutura do lugar.

Foi nessa conjuntura que em 1988 aconteceram as eleições municipais. A direita, representada pelos então PDS e PFL, há muito vinha se articulando para dar outra caracterização para a cidade. Aquele número exacerbado de "gente pobre" que chegava não era visto com bons olhos. Havia a perspectiva de alavancar o "progresso" via indústria do turismo. O candidato desse grupo era o ex-prefeito biônico da época da ditadura, Esperidião Amin, que apontava no topo de uma campanha denominada de "Florianópolis vale a pena", assumida também pela elite local. Amin venceu as eleições com 48,2% dos votos, e com ele iniciava-se o "leilão" que iria descaracterizar as velhas comunidades do interior da ilha, a partir daí transformadas em paisagens especuladas. E começava também um ano de grandes lutas do movimento popular.

1989 - as batalhas pelo direito de morar

Com a explosão imobiliária exacerbada pelas campanhas nacionais que mostravam Florianópolis como um paraíso, também mudou a vida do povo nativo que até então vivia pacatamente à beira-mar. Atraídos para as armadilhas da "vida moderna" eles foram vendendo as terras, que aumentavam de valor. Por que morar num casa próxima ao mar, que dava tanto trabalho para cuidar, se era possível viver num apartamento acarpetado e com ar condicionado? O mundo moderno os aguardava. E, assim, onde antes pastavam as vacas e rodava a mó do moinho foram crescendo os hotéis, os condomínios, os prédios.

No que diz respeito aos migrantes, aqueles que chegavam com muito dinheiro para consumir os melhores lugares da ilha eram muito bem-vindos. Mas, os que aqui chegavam em busca de melhoria de vida, foram sendo rechaçados. Em vez de um grupo de acolhimento, como era o Caprom, o que se tentava era mandar de volta os pobres. E os que já tinham chegado desde 85 e amargavam as ocupações, esses haveriam de pagar o preço mais alto por querer compartilhar desse lugar que a propaganda alardeava como uma cidade que "valia a pena".

Então, quando Amin começa seu governo em janeiro de 1989 Florianópolis tinha 12 comunidades de ocupação, envolvendo 783 famílias, somando quase quatro mil pessoas. Sem opção de moradia, essas famílias de migrantes tinham armados seus barracos na Via Expressa, em áreas do continente e em alguns morros, tudo próximo ao centro da cidade. Como famílias pobres, todos tinham empregos que se interconectavam com a vida no centro: papeleiros, carpinteiros, pedreiros, faxineiras, garçons, empregadas domésticas, empregados do comércio. E foi assim que Florianópolis conheceu as primeiras grandes levas de luta pela terra da pós-ditadura. A derrubada dos barracos na Via Expressa, com as máquinas destruindo os poucos pertences das pessoas foi um dos momentos mais tristes e marcantes dessa batalha. As demais ocupações resistiam e faziam luta. Ocupavam a prefeitura, a Câmara de Vereadores, as ruas. Nas reuniões realizadas com o prefeito, as famílias eram obrigadas a ouvir a indefectível pergunta que Amin fazia, para desqualificar os manifestantes: "Tu és de onde, mesmo?". Já era o germe de todo o preconceito que a cidade foi criando com relação aos "de fora". Mas, que fique claro, os de fora sem dinheiro.   Aquele foi um tempo de grande efervescência e visibilidade do caráter excludente desse novo modelo de cidade. No mês de julho de 1989 a cidade viveria a I Romaria dos Sem-Teto, uma caminhada história que reuniu centenas de pessoas na luta por moradia e vida digna.

Anos 90 - conquistas

Com toda a explosão das lutas que brotavam das comunidades, a prefeitura não teve outra saída a não ser ir legalizando esses espaços que tinham sido criados naqueles anos de batalha. O Caprom rompeu de vez com o executivo e desapareceu. Já não havia migrantes para acolher. Era tempo de organizar a luta. Assim, seus integrantes fundaram outra instituição, o Centro de Educação e Evangelização Popular, também comandado pelo padre Vilson e a irmã Ivone, cujo objetivo maior era auxiliar as comunidades recém-nascidas a garantirem as conquistas e avançarem na organização. Então, paralelo ao processo de regularização das terras e moradias, havia que organizar compras coletivas (eram tempos de inflação alta), hortas comunitárias, padarias comunitárias, a educação das crianças. 

Assim foram se fortalecendo e se consolidando as comunidades outrora de ocupação. E é bom que se diga, para que não venham os mentirosos de plantão a disseminar enganos. Todos eles pagaram por suas casas e terrenos. Nada foi de mão beijada. Nunca é. Além de terem sido pagos em dinheiro, seus espaços de vida tiveram de ser conquistados à custa de muito sacrifício. Foram anos e anos sob barracos, enfrentando a polícia e o terror do despejo. Hoje, a cidade já incorporou essas comunidades, mas naqueles dias, o discursos sobre os "de fora", os "marginais", os "favelados" era exatamente igual ao que se vê na imprensa atual, no que diz respeito às novas comunidades que ocupação que começam a nascer.

2014 - esgotamento do leilão

Durante todos esses anos a cidade de Florianópolis foi submetida a um festim imobiliário. Praias foram ocupadas, terras foram griladas por gente poderosa, prédios se ergueram como espigões. O turismo se firmou como "a" indústria local. E, nesse crescimento vertiginoso, as gentes empobrecidas ficaram para trás. Cada vez mais longe, nas periferias, ou nos morros, que também cresceram. Nos dois mandatos de Dário Berguer esse processo se exacerbou e, agora, com César Júnior chegou ao seu auge com a aprovação de um novo Plano Diretor, o qual não respeitou as longas discussões feitas pelas comunidades, que exigiam outro modelo de cidade.

Aprovado pela maioria dos vereadores - três votos contrários - o plano aponta para uma cidade ainda mais verticalizada, com previsão de até hum milhão e 200 mil habitantes. E tudo isso sem levar em consideração que esse espaço é uma ilha, sem mobilidade e sem capacidade energética  - de luz e água - para suportar uma carga tão grande de gente num mesmo lugar. O plano foi atropelado pelo prefeito e pelos vereadores, sem levar em conta o desejo da população, mas dentro dos planos dos grandes empresários locais.

O que ninguém imaginava era que no exato momento em que a elite política e empresarial aprovava - ao arrepio da lei e com violência policial - um novo plano de expansão exponencial da cidade (sempre mirando os ricos), as gentes empobrecidas iriam assomar com uma ação concreta de rebeldia contra a ganância e transformação da terra em mercadoria de luxo. Pois foi o que aconteceu.

O que era um pequeno número de famílias na calorenta noite de 16 de dezembro - 60 apenas - em pouco tempo passou dos 100. E com o andar dos dias, mais e mais gente foi chegando. Aqueles barracos fincados na estrada de Canasvieiras eram a chaga viva da exclusão dos novos migrantes que foram chegando no final dos 90 e durante todo o início do século XXI. Confinados aos barracos das periferias, pagando altos preços pelos aluguéis, esses trabalhadores decidiram que era hora de pressionar o governo para fazer valer a Constituição. Afinal, morar é um direito.

A terra escolhida foi um terreno da União, terras de marinha, devolutas. Mas, que, no melhor estilo da velha grilagem, já estava cercada. Corria a informação de que ali, uma imensa propriedade de 900 hectares, seria construído um clube de golfe. Há que lembrar que um hectare equivale a 10 mil metros quadrados. Novecentos é terra que não acaba mais. O proprietário em questão é Artêmio Paludo, ex-deputado pela antiga ARENA e depois pelo PDS, e um dos donos da empresa Seara Alimentos, uma das maiores indústria na área em Santa Catarina. No decorrer do processo de discussão sobre o terreno - foi uma fazenda de camarão, do dito proprietário, e faliu - o ex-deputado só conseguiu comprovar através de escrituras nove dos 900 hectares. Ainda assim, a Secretaria do Patrimônio da União está colocando em dúvida essas escrituras, alegando que a terra é terreno de marinha.

No dia da caminhada que atravessou a Beira-Mar as famílias estavam indo para uma reunião de conciliação. Como estão questionando na Justiça a posse da área, que é da União, ele apresentaram a proposta de ficar no acampamento por pelo menos um ano, até que a Justiça se manifeste sobre de quem é a propriedade. Mas, os advogados de Paludo, mesmo com escrituras de apenas 1% da área, insistiram na retirada imediata das famílias. O coordenador da conciliação não quis discutir o debate sobre se a propriedade é legal ou não. Era uma tentativa de resolver o conflito entre Paludo e as famílias. Então, o mérito mesmo da questão ainda está em outro fórum e segue sendo questionado. Ainda assim, as famílias aceitaram a proposta da conciliador, de sair da área no mês de abril. Acreditam que até lá possa haver algum fato novo sobre o mérito. Para os que ali estão lutando por reforma agrária popular, aquela terra é da União e eles devem manter firme a luta para que seja realidade o sonho que vem sendo acalentado nas noites calorosas desse verão: tornar o espaço da ocupação uma agrovila, com produção orgânica, comida boa para a mesa não só dos que ali vivem, mas dos demais moradores da cidade.

Como a área é um latifúndio urbano improdutivo, as famílias acreditam que a Justiça será feita. Segundo a Constituição, uma terra que não cumpre sua função social é passível de desapropriação. A terra está parada e é da União, logo, as chances são boas. E, caso vençam a peleia, os moradores que hoje estão sob os barracos poderão pagar pela terra e Construir sua agrovila. Nada será de graça, como insistem algumas bocas alugadas. O que vai acontecer é as famílias pagarão um preço justo, dentro das suas condições. A terra não é coisa para ser vendida como um bem suntuoso. Ela é direito das gentes.


Assim, as 750 famílias da Ocupação Amarildo vão colocando em questão o tema da terra, num momento crucial para a cidade. A batalha pelo Plano Diretor ainda não acabou e os novos tempos podem reservar muitas surpresas.      

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Isaltina



Rememorando o passado

1894. Uruguaiana. Primeira e única cidade do Rio Grande criada pela revolução farroupilha. Fronteira com Argentina e Uruguai, espaço de amplos horizontes, reduto de gente acostumada às duras lides do campo. Numa de suas ruas, perto do rio, viviam Isaltina e José Antônio, com seus seis filhos. Isaltina era “pelo duro”, mulher nascida na terra, possivelmente com sangue índio. Casara porque era assim que as coisas eram. Mas, o marido revelava-se um homem de gênio ruim, e ela não suportava mais. Não era mulher de aguentar desaforo. Tinha fogo nas ventas e ternura no olhar. Haveria de fazer bastar. 

Assim, decidida a não mais aturar a violência e a ruindade, um dia ela fez assomar a valentia que tinha guardado e mandou o marido embora de casa. Ele a mirou, espantado. Não a reconhecia. Mas aquela faísca nos olhos dizia que o melhor era ele se arrancar. Na pequena cidade, uma mulher descasada não seria bem vista, mas Isaltina não se importou. Ela daria conta. Não precisava de homem para se garantir. Juntou as poucas tralhas num balaio de vime, segurou a fieira de crianças e marchou para  a casa da mãe. Ela iria cuidar dos filhos da forma que pudesse. 

Cabeça erguida e peito cerrado ela se mudou para os fundos da casa dos pais, onde se aninhou com a gurizada. Nunca reclamou da vida e logo começou a costurar para fora, buscando assim o sustento dos bacorinhos. No começo a olhavam de revés, mas, depois, foram acostumando com a “separada”. E ela trabalhava dia e noite, batendo os pés na rampa que fazia a velha máquina funcionar. Difícil era o dia que alguém a encontrava cabisbaixa ou com ares de tristeza. Sempre com um riso nos lábios, ela cantava milongas em castelhano. Criou todos os filhos, saudáveis e trabalhadores. Um deles veio a ser meu avô. 

Soube dessa linda história nesse último natal, quando a casa de meu pai foi palco de uma “roda dos anciãos”. Minhas tias Wilma e Teresa, meu pai e minha tia Dalva jogavam conversa fora na mesa da cozinha, falando de quando eram crianças, lá pelo início do século. E eu, que amo histórias, ia puxando o fio das lembranças, para conhecer as origens dos meus ancestrais. Penso que cada um deles é parte daquilo que faz a gente ser quem é. Foi assim, nessas conversas, que também descobri meu sangue charrua, originário de uma trisavó que apareceu em Itaqui fugida da batalha de Salsipuedes, na qual os Charrua foram traídos e praticamente exterminados. 

Por isso, gosto de vivenciar esse encontro com os mais velhos, para sondar o passado longínquo, me buscar. E então, de inopino, me aparece essa Isaltina, a qual imagino com os cabelos negros, compridos, os olhos de jabuticaba, o corpo franzino, mas teso.  Uma mulher inusitada, naqueles dias, e num lugar tão conservador como a então pequena cidade de Uruguaiana, nos confins do nada.  Essa Isaltina Silva Tavares que ousou dizer basta a um homem ruim e trilhou outro caminho, segurando ela mesma os tentos de sua existência. Nenhuma concessão. 

Tomada de emoção por essa desconhecida bisavó, típica mulher aguerrida dos descampados orientais, eu agora a mantenho no altar dos meus afetos. Tal qual ela, também tenho o costume de trabalhar cantando e me bateu a louca esperança de ter herdado dela, bem mais do que isso. Agora, quando sopra o vento, gosto de ir para a varanda, a chimarrear com sua lembrança. Isaltina, a mulher dos olhos de fogo, pequenina e valente. E sinto que ela se achega e me sopra ao ouvido as canções castelhanas... “desde la banda oriental, se viene el minuano, fuerte, fuerte, fuerte...”