segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Mónica Ertl, “a mulher que vingou Che Guevara”




Fonte: Contrainjerencia

Jurgen Schreiber é um jornalista alemão, de reconhecido prestígio como repórter investigativo, que publicou recentemente a biografia de uma compatriota sua, Mónika Ertl. Quem vê o título do livro “A mulher que vingou Che Guevara” pode até pensar que é uma obra de ficção, mas o relato narra uma história da vida real, ainda que desconhecida. 

Mônica é filha de um dos grandes propagandistas do nazismo, Hans Ertl, que por muito tempo foi conhecido como o “fotógrafo de Hitler”. Ela nasceu em Munique, em 1937, mas nos anos 50 foi viver na Bolívia, para onde seu pai havia fugido depois da queda do Terceiro Reich. Criou-se num círculo fechado de racismo e violência, no qual brilhavam o seu pai e outro sinistro personagem a quem ela chamava de “tio”, e que não era outro senão Klaus Barbie, “o carniceiro de Lyon”.

Essa jovem e bela alemã cresceu nesse ambiente, dedicando-se a mesma profissão do seu pai: era fotógrafa e camarógrafa. Mas, tudo mudou no final dos anos 60, quando tomou conhecimento da proposta de Che Guevara naquele país, e acompanhou todo o episódio de sua morte na selva boliviana. O assassinato do guerrilheiro argentino provocou um rompimento de Mônica com suas raízes e num giro de 360 graus ela acabou militando nas fileiras do Exército de Libertação Nacional, o grupo guerrilheiro formado pelo próprio Che. Depois de viver na Alemanha ela acabou voltando para La Paz onde conheceu e se apaixonou por Osvaldo Peredo, irmão do então líder do ELN, que também era militante.

Pois é ela que, em 1971, cruza o Atlântico, volta para a terra natal, Alemanha, e lá, na cidade de Hamburgo, executa pessoalmente, com três tiros de uma pistola Colt 38, o cônsul boliviano daquela cidade. E quem era esse cônsul? Nada menos do que o coronel Roberto Quintanilla, o homem responsável pelo ultraje final a Guevara: a amputação de suas mão. Ela havia percorrido mais de 20 mil quilômetros, desde a cordilheira dos andes até Hamburgo para justiçar o militar. 

Assim narra Jurgen, aquele dia especial. “Hamburgo, Alemanha, eram nove e quarenta da manhã do dia primeiro de abril de 1971. Uma bela e elegante mulher, de profundos olhos cor de céu entra no escritório do cônsul da Bolívia e espera pacientemente ser atendida. Enquanto aguarda, olha indiferente os quadros que adornam as paredes. Roberto Quintanilla, cônsul boliviano, vestido elegantemente com um traje de lã escuro, aparece e a cumprimenta, bastante impactado pela beleza da mulher que diz ser australiana e que há poucos dias havia pedido uma entrevista. Por um instante fugaz, ambos se encontram frente a frente. A vingança então aparece encarnada no rosto feminino e atrativo. A mulher, de beleza exuberante, o olha fixamente nos olhos e sem dizer palavra extrai um revólver e dispara três vezes. Não houve resistência, nem luta. Os impactos deram na parede. Na fuga, ela deixou para trás a peruca, o Colt 38 e um pedaço de papel no qual se lia “Vitória ou morte. ELN”.

Depois de matar Quintanilla, Mônica foi alvo de uma feroz caçada pelas forças de segurança bolivianas, que atravessou países e mares, e só terminou quando a jovem finalmente caiu morta em uma emboscada montada justamente pelo seu “tio”, o sanguinário Barbie, no dia 12 de maio de 1973, em La Paz. Mônica tinha 32 anos e seu corpo nunca foi encontrado.

Essa história incrível e aventurosa é contada pelo jornalista Jürgen Schreiberm, e faz parte da história de nuestra América. Monica Ertl. Presente!

Veja o vídeo, com narrativa em espanhol sobre o dia em Mônica vingou El Che.



domingo, 12 de janeiro de 2014

América Latina - fim de um ciclo



Ao se completarem dez meses da morte de Hugo Chávez, o panorama que se vislumbra na América Latina é desanimador. A Venezuela “cria cuervos”, agarrada com a elite financeira do país que põe a economia no chão. O Equador se rende as mineradoras e aos ditames do Banco Mundial. O Brasil, que nunca chegou a trilhar os caminhos do socialismo, cada vez mais mergulha no pragmatismo do negócio. Países da América Central que estavam inclinados a uma parceria com a Venezuela também se desviam. A Bolívia, apesar de forte influência indígena, igualmente vai se rendendo às grandes empresas privadas, que formam um perigoso poder no país. O Uruguai, que tem sido a estrela da vez, avança em reformas que muito pouco mudam a estrutura do sistema de governo. Ao que parece, a era das transformações está encerrada e o caminho para o socialismo, que era uma promessa do líder venezuelano, está, por hora, interrompido. Como era de se esperar, o desaparecimento de Chávez foi também o desaparecimento do motor teórico do processo “revolucionário” que começou com a chegada desse militar incomum ao poder em 1998.

Quando Chávez chegou à presidência da Venezuela o mundo estava então dominado pelo pensamento neoliberal. Parecia não haver saída desse labirinto de pensamento único. Na América Latina apenas Cuba seguia resistindo, e o presidente venezuelano entrou no cenário com um discurso duro contra o imperialismo e o capital. No princípio foi tratado como um anacronismo, uma falha na matrix que logo seria extirpada. Mas, no tecido social completamente roto da Venezuela a proposta de Chávez cresceu, tomou corpo e se encarnou na maioria da população desde sempre empobrecida. Ele prometia uma revolução bolivariana, amarrada ao ideário do famoso conterrâneo que liderou as grandes guerras de independência da parte norte e leste da América Latina: Bolívar. E o que é o bolivarianismo? Um sistema de governo que tem como plataforma a educação gratuita para todos, soberania, fim do colonialismo político, econômico e cultural, unidade dos países latino-americanos, fim da dependência.

E foi esse sendero que o governo de Chávez foi abrindo por entre as veias da América Latina. Seu discurso forte, seu carisma e, fundamentalmente suas ações, guinaram a Venezuela à esquerda e, com ela, começaram a girar também outros países. O Equador, depois de fortes rebeliões indígenas, foi buscando um caminho soberano. A Bolívia, igualmente derrubou presidentes, ardeu em rebelião e apontou novos horizontes, inauditos. Veio uma nova Constituição na Venezuela, participativa, desde baixo. Outro duro golpe no pensamento neoliberal, no modelo ocidental, burguês. Institucionaliza-se o poder popular, coisa inédita nestes confins. Anunciam-se revoluções bolivarianas, cidadãs, culturais. O imperialismo atacou, deu golpe, mas foi derrotado pela massa que já não estava mais excluída da participação. Chávez voltou fortalecido, passou por novas eleições, sempre vencendo. Dia a dia ele falava com seu povo, lia livros, editava outros tantos, orientava estudos. Não era um bravateiro sem estofo. Sabia o que dizia e o que estava fazendo. Não era ainda o socialismo. No máximo, um capitalismo de estado, mas prometia avançar para além. E caminhava.

Na esteira das mudanças venezuelanas a Bolívia também mudou. Elegeu Evo Morales, das fileiras indígenas e sindicais, construiu de forma participativa e popular uma nova Constituição, criou um estado Plurinacional, avançou na participação, fez assomar a cultura originária, maioria no país. O Equador seguiu o mesmo diapasão. Nova Constituição, outorgou direitos à natureza, estado pluricultural. Abriu espaço para novos pensares, mais além do socialismo: o sumak kausay, uma forma de organizar a vida embasada em conceitos autóctones, dos povos antigos, coisa completamente nova para quem acreditava que o modelo europeu era o único possível.

A América Latina entrou no novo milênio ardendo em novidade e transformação. Quando alguém fraquejava, lá vinha o Chávez com sua voz de trovão, puxando o timão mais à esquerda. E mesmo quando ele mesmo claudicava, ou cedia ao “possível”, buscava nos autores revolucionários, nos heróis do passado,  a inspiração para reavaliar e avançar. E, assim, esses três países em especial (Venezuela, Bolívia e Equador) começaram a realizar algumas mudanças que finalmente mexiam nas estruturas. Outros, como o Brasil, a Argentina, a Nicarágua, Honduras, Paraguai, Uruguai, principiaram a realizar reformas e a amparar pelo menos alguns pontos do bolivarianismo, como a ideia de soberania e união latino-americana.

Quando, no mês de março de 2013, o câncer venceu o comandante, as coisas já não andavam bem. Na Venezuela era possível observar a subida da inflação e a opção do governo por uma aliança com o setor financeiro. O país não conseguia avançar no caminho do desenvolvimento endógeno, atropelado que fora ano após ano por golpes, contragolpes e ações desestabilizadoras da direita. Apesar de todos os esforços empreendidos, o rentismo petroleiro ainda era o carro chefe da economia do país. A produção - de comida e de outros produtos de uso corrente - não deslanchou. Continuava mais vantajoso ao empresariado nacional seguir com a importação, especulando com o dólar, criando um perigoso mercado paralelo para a moeda estadunidense.

Na Bolívia, Evo Morales passou a apostar na lógica do neodesenvolvimentismo, puxada pelo Brasil. Projetos grandiosos com construtoras estrangeiras (brasileiras) e o crescente conflito com as comunidades indígenas. No Equador, Rafael Correa foi mordido pela mosca azul e abraçou-se às mineradoras e as grandes empresas do petróleo. Tem mantido fogo cerrado contra os povos indígenas, acusando-os de barrar o progresso do país e entrou de cabeça na mesma onda do “desenvolvimento” a qualquer custo. O modelo é o mesmo do Brasil. Reforma sem vestígios de revolução.  

A morte de Chávez de certa forma liberou os aliados para uma virada de timão, mais ao estilo do Brasil. Aquilo que Lula não conseguiu, já que era frequentemente ofuscado por Chávez, Dilma logrou. Não tanto pela ação dela, mas porque agora os mandatários vizinhos estavam mais livres para fugir da rota socialista. Daí que se configura inegável o papel de liderança que o presidente venezuelano exercia em todo o continente. Tanto que as proposta de uma aliança com o Caribe e a construção da Unasur foram constituídas a partir de suas investidas. A união das repúblicas latino-americanas era um sul determinado por ele e, num período de crise na região europeia assim como nos Estados Unidos, foi e continua sendo uma alternativa muito conveniente para os países da América Latina.  Mas, apesar de essas propostas seguirem vivas e atuantes, é fato que perderam força política. Os encontros continuam, as instituições também, mas não há uma liderança capaz de articular as ações econômicas com o debate teórico. A última reunião da Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América (Alba) foi um bom exemplo.  Realizada em Caracas no último dia 17 de dezembro, não mereceu sequer uma nota nos jornais. Falta a grandiloquência de um projeto totalizante de combate ao capitalismo.

O professor Nildo Ouriques, do Instituto de Estudos Latino-Americanos, analisa a Venezuela hoje, sob o comando de Nicolás Maduro, e não tem dúvidas de que o processo revolucionário, por agora, se esgotou. “O fato de o partido do governo ter ganhado as eleições municipais agora em dezembro não diz muito. Nos pequenos municípios a política do partido está consolidada. Mas, nos grandes, não. Daí que a direita avança por aí. Maduro não tem a força de Chávez para mudar o rumo dos acontecimentos e talvez nem mesmo Chávez pudesse fazê-lo. Pode até ser que o bolivarianismo siga no poder por algum tempo – e é bom que siga  - mas não haverá mais mudanças radicais e o povo ficará cada vez mais fora do poder de decisão”. Segundo Nildo, a inflação galopante que tem assolado o país e a criação de um mercado paralelo do dólar enfraquecem a economia e a tendência é de que, a seguir essa política, a situação econômica se agrave ainda mais. O empresariado local não tem interesse na produção, está lucrando de forma astronômica com o dólar. E, sem produção, o país segue dependente. É um círculo vicioso e sem saída. A menos que houvesse uma virada de curso. Mas isso não se vislumbra. 

Nos demais países, a falta de um discurso forte acerca do caminho para o socialismo ou qualquer outra forma diferente de organizar a vida, coloca todo mundo - em maior ou menor grau - na posição de "humanizar" o capitalismo.  No Brasil, algumas políticas públicas asseguram renda aos mais pobres, o programa Mais Médicos surge como um importante paliativo de saúde para os fundões do país. Mas, por outro lado, o agronegócio está cada vez mais abraçado ao governo, deitando e rolando no ataque aos indígenas e aos que pretendem colocar qualquer freio a nova expansão da monocultura. Vive-se uma investida anti-indígena só comparada a caminhada para o norte no início do século XX. No Uruguai, apesar de passos importantes como o ataque ao narcotráfico e a busca por uma democratização da mídia, Mujica permite a ação nefasta das papeleiras e de outras grandes crias do capital. Na Bolívia, na última quarta-feira (18.12), chegou-se ao extremo de reprimir, com gás e força policial, uma manifestação de crianças, que marchavam por um código do menor. No Equador, Correa está rendido às petroleiras.

Na verdade, toda a proposta de soberania e anti-colonialismo contida no bolivarianismo parece se esvair. Os mandatários ditos “progressistas” não conseguem sair da roda da dependência. Preferem o acordo com o capital especulativo e com as mega empresas transnacionais, para tentar algum respiro do que chamam “desenvolvimento”. Aplicam políticas compensatórias que até são importantes, a considerar a extrema pobreza que vivem as maiorias, mas que não parecem capazes de romper com o ciclo de uma quase perpétua subserviência. O máximo que conseguem é o que já apontava Gunder Frank: o desenvolvimento do subdesenvolvimento, o que permite algumas ilhas de riqueza, um certo incremento no consumo através da liberação de crédito, mas praticamente nenhuma mudança estrutural. Para os protagonistas de lutas importantes contra o capital, como é o caso dos bolivianos que viveram as guerras da água e do gás, esses governos, mascarados de esquerda, acabam prestando um desserviço à luta anticapitalista. "Eles domesticam o movimento social, seguram os movimentos de luta, cooptam lideranças, disseminam uma mensagem falsa sobre as possibilidades de melhorias dentro do sistema. Assim, retrocedemos décadas. É uma tragédia", afirma Oscar Olivera, uma das mais importantes lideranças da Guerra da Água, em Cochabamba, 

Nos dias de hoje, sem a presença vigorosa de um Fidel, ou a trovejante ousadia de Chávez, o que parece avançar é a acomodação ao velho modelo de dependência e de cooperação com o capital. Mas, ainda assim, a falta de uma alternativa também abre caminho para a construção de outro ciclo, talvez um pachakuti (o mundo de patas para cima, uma viração), como dizem os povos andinos. Algum novo giro, uma nova tendência, uma surpresa, como foi Chávez e seu sonho bolivariano. No final dos anos 90 essa novidade veio de onde ninguém esperava. Agora, enquanto o mundo mergulha no frisson das novas tecnologias, da inserção internética, no reino das sensações, talvez, em algum lugar não sabido, completamente inaudito, esteja brotando o que virá. As lutas não acabam, seguem seu caminho. Os movimentos continuam protagonizando resistência e, afinal, os povos sempre aprendem quando vivenciam experiências alvissareiras, como as que afloraram na última década. Algo novo há de aparecer.

Assim, seguimos!...
 

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Terra, Trabalho e Teto: tudo que se quer...






São nove horas da manhã e o dia está nublado. Talvez por isso a estrada que vai até Canasvieiras, no norte da ilha de Santa Catarina, esteja quase vazia. Logo depois do viaduto de Jurerê, entra-se no espaço que há umas três décadas era considerado o “celeiro da ilha”, de farta produção de hortaliças, mandioca e milho. Isso sem contar o peixe que, tirado do piscoso rio Ratones, completava a base da alimentação do ilhéu. Com o passar do tempo e a descoberta do turismo, os nativos foram sendo conquistados com promessas de progresso. Assim,  boa parte das terras foi  vendida para grandes empreendimentos. A região foi sendo tomada pelas construções e a calma praia de Canasvieiras acabou se tornando uma espécie de pequena Argentina, tamanho o fluxo de turistas daquele país. 

Mas, apesar da grande densidade de gente e casas próximo à praia, ainda restam grandes espaços de terra no norte da ilha, principalmente na beira do histórico rio Ratones. Não sem razão. São quilômetros e quilômetros de área agricultável, hoje totalmente improdutiva. Para quem cruza aquele caminho todos os dias, o latifúndio vazio vislumbrado da janela do ônibus aparece quase como uma afronta. Tantos pais e mães de família sem uma casa para morar, e aquela imensidão verde sem serventia social.

Foi esse sentimento que levou cerca de 60 famílias de gente sem teto, sem condições de pagar o alto preço do aluguel praticado na “ilha da magia”, a ocupar uma dessas antigas fazendas. A área tem 600 hectares e abrigava dentro dela apenas 15 cabeças de gado, cujos donos nem são os que se dizem donos da terra. Segundo a organização do movimento, a propriedade do espaço seria de um grupo de pessoas e empresas que pretende fazer ali um campo de golfe.  A ocupação que se consolidou no dia 16 de dezembro de 2013, agora já tem 150 famílias alojadas e organizadas. “Todos os dias chega mais gente querendo ficar na ocupação. Pena que não dá para abrigar todo mundo. É que só na ilha há um déficit de 15 mil moradias, Ou seja, são 15 mil famílias cadastradas na prefeitura, esperando, algumas há mais de 20 anos, por uma casa para morar”, diz Rui Fernando, da comissão de organização.

A cidade, desde o final dos anos 80 do século passado, tem recebido um fluxo migratório muito grande, incentivado pela promoção do turismo. Mas, no geral, os governantes acolhem bem apenas os turistas endinheirados, como se pode observar das declarações dos  secretários de Estado de Planejamento, Murilo Flores e o de Turismo, Valdir Walendowsky: “Temos que qualificar o turista que chega em Santa Catarina. Ele tem que ter mais dinheiro para gastar mais”. Só que junto com o turista rico, precisa chegar também aquele que vai trabalhar para manter a estrutura. É assim que também aportam na ilha levas de migrantes em busca de trabalho.

A migração

Num país de tantas desigualdades, migrar sempre foi uma constante. Viver no interior do Brasil é sinônimo de falta de oportunidades, principalmente para aqueles que não têm uma formação específica ou não têm terra. Diante da impossibilidade de sobreviver e cuidar da famílias, as pessoas buscam mudar de cidade, indo para onde seja possível trabalhar. Segundo o último censo do  IBGE mais de 35% dos brasileiros já não vivem mais nos seus lugares de nascimento. E o motivo da mudança é sempre o mesmo: a necessidade de melhorar a vida.  A cidade que mais atrai migrantes ainda é São Paulo, mas, desde há alguns anos, o Estado de Santa Catarina, por ser tão cantado em verso e prosa como a “europa brasileira”, tem sido o destino preferido de uma fatia muito grande.

Foi assim com Maria José dos Santos, 46 anos, que saiu de Palmares, no interior de Alagoas, porque não tinha mais como manter a vida. Nascida no histórico reduto do Quilombo de Zumbi, a vida só lhe reservou pobreza. Sem um pedaço de terra para plantar, o jeito era viver do que desse. Um biscate aqui, uma faxina, uma roupa para lavar. Então, um dia, o filho escutou na televisão que Florianópolis era um lugar de muitas belezas e resolveu arriscar. Juntou os trocados e veio em busca do sonho de viver melhor. Dois meses depois mandou buscar a mãe. Hoje, ele até tem um emprego, mas é quase impossível manter a mãe, a esposa e os filhos tendo de pagar o aluguel, que é alto demais. “A gente estava morando na Serrinha,num barraco, apertado, e o dinheiro ia quase todo no aluguel. Tava difícil dar de comida pra todo mundo”.

Elen Maria Silva também pegou um ônibus em Belém do Pará e arriscou encontrar uma vida melhor em Florianópolis. “Me disseram que aqui era bom, que a cidade vivia de turismo, hotelaria. Eu achei que podia encontrar trabalho já que lá as coisas estavam muito difíceis. Eu vivi 30 anos em Belém e nunca tive uma ocupação de carteira assinada. Aqui em Florianópolis eu tive a minha primeira experiência de ver a carteira assinada. Foi muito bom. Mas, o que me mata é o aluguel. Eu estava morando no Saco Grande e lá eu tinha de pagar 600 reais por mês. Era praticamente o salário todo e eu tenho uma filha pra criar”.   

Jacson Gueveda não veio de tão longe, sua cidade natal fica no Oeste de Santa Catarina. Mas, os motivos são os mesmos. Falta de trabalho. “Lá, a gente que não tem terra só consegue trabalho na safra. Fora disso, não há o que fazer”. Morando no bairro José Nitro, num pequeno barraco que consumia mais da metade do salário, ele também sentia falta da velha cultura de tomar um chimarrão na frente de casa, de plantar um hortinha nos fundos. Ali não havia nem pátio, nem calçada. Isso sem contar o medo de ser atingido por uma bala perdida. “Aquilo ali não era vida e a gente tem direito de viver bem”.

Cláudio Barbosa dos Santos é veterano em Florianópolis. Chegou do Rio de Janeiro há 35 anos. Sendo neto de uma família nativa, ele foi morar na casa dos avós, no bairro Serrinha. Mas, agora, com o casamento, teve de buscar vida própria. “É pouco espaço pra muita gente, não deu pra ficar na casa da vó”. Trabalhando como vidraceiro, Claudio tampouco conseguia bancar o aluguel. A “ilha da magia” é ingrata com os mais empobrecidos.

Todas essas pessoas de vidas singulares tem agora uma coisa em comum: o sonho de conquistar um lugar para chamar de seu. Eles dividem a terra e os barracos da ocupação Amarildo de Souza, esperando que, enfim, se cumpra aquilo que a Constituição brasileira define como um direito: moradia digna.

Luta e esperança

A manhã abafada revela uma azáfama intermitente na ocupação. Algumas pessoas cuidam da horta, que já está com alfaces bem grandes e muito tempero verde. Outros seguem ajeitando os barracos de lona que agora servem de casa. Mulheres lavam roupa que colorem os fios entrecruzados do acampamento. Os índios Xokleng que vieram também para a ocupação, tecem seus cestos e criam os artesanatos a serem vendidos na praia, que fica próxima do lugar. “Nós pedimos na prefeitura um espaço para ficar. Essa época de turismo é boa para nossas vendas. Mas, a prefeitura não quer nem saber de nós. Então, viemos pra cá, onde fomos acolhidos”, revela o cacique.

Os barracos, feitos de taquara e lona estão montados como numa pequena vila, em distância simétrica, para que cada família possa proteger e se sentir protegida. Há uma equipe que cuida da segurança, outra da estrutura, de saúde e mobilização. Também foi criada uma ciranda para cuidar das crianças enquanto os pais saem para trabalhar. “Hoje eu saio tranquila, porque sei que aqui tem segurança. Minha filha está bem cuidada”, diz Elen. E assim é. O filho de um é filho de todos. 

A proposta da ocupação Amarildo é de criar naquela área uma comuna da terra, uma agro-vila capaz de se auto-sustentar. “A intenção é de que a terra seja comum e que a gente comece a produzir alimentos aqui, como acontecia antes. Plantar comida, alimento orgânico, que sirva para o consumo das famílias e também para a geração de renda”. É por conta dessa proposta de reforma agrária popular que as famílias querem o debate do caso da ocupação na Justiça Agrária e não na Justiça comum. “Nós entendemos que essa terra é um latifúndio improdutivo e por isso queremos que a luta se dê no âmbito do governo federal, já que a lei é clara: toda a terra deve cumprir uma função social. Essa terra aqui não está cumprindo o que manda a legislação. Assim, nós já fizemos denúncia na Ouvidoria Agrária do Estado e o Incra já se posicionou favorável as negociações e deve vistoriar a área”, explica Rui.

 Mas, essa não será uma luta fácil. Desde os primeiros dias do ano a Justiça já definiu a reintegração de posse para a Agropecuária Paludo e o Grupo Habitasul, que se intitulam donos da área. A polícia militar já esteve no local notificando as famílias e tem realizado operações de intimidação com o helicóptero. A batalha na Justiça segue. Segundo os moradores da ocupação foram encontrados documentos que comprovam irregularidades nas atas de zoneamento, preparadas para garantir a construção do campo de golfe. “Nós esperamos que a discussão se dê na Justiça Agrária e vamos lutar até o fim para garantir nosso direito de morar”.

“Vagabundos...Vão trabalhar!...”

O debate público sobre a ocupação Amarildo faz aflorar os preconceitos mais toscos e desvela uma cidade racista e discriminadora. “E se fosse o teu terreno, tu ia deixar ocupar?”, pergunta um leitor. Ora, uma ocupação urbana só acontece em áreas improdutivas, que servem à especulação, sem cumprir sua função social. Nenhuma família entraria num terreno que está sendo ocupado como moradia ou como produção. Logo, esse argumento é furado.

Outra fala eivada de preconceito é a de que os ocupantes são marginais. “Essa gente que vá trabalhar”. Bom, não há um morador da comunidade Amarildo de Souza que não trabalhe. Ou têm emprego formal, de carteira assinada, ou estão envolvidos com o trabalho informal, tal como o de pedreiro, eletricista, faxineira, vidraceiro, catador. Ocorre que essa é uma gente empobrecida, frequentemente explorada, que mal consegue garantir comida aos filhos. Daí não poder andar “bonitinha” como querem os reacionários de plantão. “A gente também tem o direito de ter uma casa pra morar. Nós somos trabalhadores, estamos aqui batalhando pelo nosso sustento. E somos nós que construímos essa cidade. A gente faz os prédios, a gente limpa, a gente serve. Não somos vagabundos”.

De fato, se há algo que as famílias acampadas querem é trabalho e teto. Para isso estão dispostas a todos os sacrifícios. Hoje, pouco mais de 20 dias depois da histórica decisão de ocupar o latifúndio urbano, não é sem emoção que as mães olham para os filhos pendurados nos balanços, a brincar, sem medo de enfrentar a violência da periferia. “Por que os pobres não podem morar bem? Por que não podem ter o direito de criar os filhos em segurança?” As famílias que formam a ocupação Amarildo estão dispostas a iniciar uma nova forma de organizar a vida: coletiva, solidária, comum. 

O espaço de terra que agora ocupam tem duas opções: servir a meia dúzia de homens ricos, consumindo litros e litros de água do rio Ratones para irrigar um campo de golfe, ou servir de moradia e espaço de produção agrícola de 150 famílias. O que pode ser mais justo? O filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein definiu de maneira singela que os limites do pensamento de alguém são os limites do seu mundo. Daí sua frase enigmática: “o mundo dos felizes é diferente do mundo dos infelizes”. Talvez por isso seja quase impossível ao que tem condições de viver bem, que tem um bom emprego, compreender o desespero daquele que não consegue colocar comida na mesa. Mais fácil é etiquetar de marginal, vagabundo, ladrão. Colocar na vítima do sistema a culpa da sua dor. Afinal, se for pensar nos motivos de tanta desigualdade, a pessoa terá de se deparar com a verdade de um sistema que para existir precisa explorar e oprimir uma grande parte das gentes. Então, terá de tomar uma definitiva e radical decisão: de que lado ficar?

No sopro da esperança

Já é quase meio dia quando vou deixando o espaço da ocupação Amarildo. No meio das árvores frondosas e sombreiras, as crianças brincam de balanço, correm, dão sonoras gargalhadas. Vigilante, um trio de mães acompanha a movimentação. Jovens cortam taquaras e arrumam os barracos. Outros tomam chimarrão enquanto fazem o seu turno de ronda e segurança. Há medo da desocupação porque, em tanto tempo, alguns nunca se sentiram tão felizes. “Eu não me sinto numa ocupação. Aqui é minha casa. Eu moro aqui”, diz a paraense que trabalha como camareira.

Um carro passa veloz e joga um artefato para dentro da comunidade. Ouve-se o estrondo. Tudo para. As crianças engolem o riso e correm para o portão. As mulheres assomam nos barracos. Será a polícia? Serão as máquinas? Por enquanto não. A juíza Maria Tereza Costa e Silva, alegando motivos humanitários, suspendeu a liminar de reintegração.  É o terrorismo, a semeadura do medo, a intimidação. Ninguém se machuca, mas os corações ficam aos saltos. Passado o susto, todos voltam aos afazeres. Sabem mais que ninguém, que não será fácil. Mas, se têm medo, também têm coragem. O vento sibila entre as árvores, a criançada volta à algaravia. A ocupação Amarildo vai resistir...

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

A terceira e violenta votação do Plano Diretor








Tem sido assim desde as primeiras formações humanas. Quem tem o poder numa comunidade e o exerce para benefício próprio, fatalmente terá medo das gentes. A “malta”, a “raia miúda”, aqueles que ficam fora do círculo do gran senhor, sempre estarão tensionando o poder, exigindo direitos, buscando um lugar no banquete da vida. E é contra esses, no geral a maioria, que os senhores formam exércitos. Muito mais do que para atacar outros povos, é para defender seu poder.  Foi assim nas antigas civilizações, e continua nos tempos atuais. Não é à toa que, hoje,  existem as polícias militares. Não são grupos para defender o cidadão, embora até cumpram esse papel vez em quando. Existem para proteger o poder, seja ele do estado ou dos ricos. É por isso que as PMs veem qualquer mobilização popular como uma ameaça, e os manifestantes como inimigos. Não pode ser diferente. Essas corporações treinam assim os seus membros. 
Nesse dia 6 de janeiro, mais uma vez essa realidade se expressou. Diante da presença de um grande números de pessoas, protestando contra a aprovação de um Plano Diretor para a cidade, que os vereadores mostraram sequer conhecer, as forças policiais cumpriram seu papel de tratar as gentes como inimigas mortais. 

Tudo começou bem antes da sessão iniciar. As portas da casa foram fechadas, numa clara alusão de que, desta vez, a população não poderia entrar. Não importa que a Câmara de Vereadores seja chamada de “casa do povo”. Isso é uma ilusão num sistema que se diz democrático, mas que não resiste a uma mínima pressão. A democracia só se sustenta se há um manso rebanho. Qualquer rugosidade na “paz” do poder, e a democracia mostra sua cara torta. Os guardas municipais fizeram um cordão e avisaram. “Só vão entrar 80 pessoas. É a lotação da casa. Só pode ficar sentado”. Ora, a rua estava cheia de gente que queria acompanhar a votação, ver de perto a canalhice anunciada. 

O argumento dos guardas era de que os bombeiros instruiam para não deixar entrar mais gente do que permitia o plenário, com pessoas sentadas. “Mas como é que para outras votações pode ter gente em pé?”, perguntavam. “As regras mudaram”, diziam os guardas. E o medo bailava nos rostos constritos. Gente demais, povo demais. Medo demais. Os que estavam dentro pressionaram para abrir a porta, os que estavam fora também. Estabeleceu-se o impasse e o empurra-empurra. Nessa hora, a força assoma, vestida com as armas do poder. Cassetete, arma de choque, gás de pimenta. Os jovens, armados só de coragem, gritavam. E o medo na cara dos guardas fazia com que se valessem da força artificial. Dentro da Câmara, as armas de choque reluziram, afastando o povo das portas. 

Do lado de fora a Polícia Militar fazia um cordão, igualmente armada. Ainda assim, por muito tempo as gentes arremeteram contra a porta, sem contudo rompê-la. O fuzuê se estendeu por quase uma hora, tempo suficiente para que, lá dentro, no plenário, os vereadores realizassem a absurda votação, surdos à gritaria. Era para ser apreciado o texto final do projeto, que não existia na votação do dia 30. O vereador Afrânio havia pedido vistas. Não era possível que uma casa legislativa legislasse sobre um texto que nem existia de fato. Pois no dia de hoje tampouco havia o texto. Ainda assim, enquanto lá na porta do plenário, a polícia e a guarda municipal impediam a entrada das gentes, a maioria dos vereadores aprovava o texto inexistente. 

Como das outras vezes, apenas três votos contrários: Pedrão (PP), Afrãnio (Psol) e Lino (PT).    

Terminada a sessão, as portas se abriram. Sairam os manifestantes para a frente da garagem, onde pretendiam esperar a saída dos vereadores. De novo, o poder militar se interpôs diante daqueles que se manifestavam contra a ilegalidade da votação. No rosto dos militares a expressão vazia de quem atravessa o outro, porque é inimigo. Nenhum vestígio de empatia, afinal eles também são moradores da cidade e sofrerão as consequências do que foi votado. 

O tensionamento seguiu, embora não houvesse nada a guardar. Não havia vereadores, não havia carros, não havia nada. Só um portão, tapado pelos soldados. Os manifestantes cantavam e gritavam palavras de ordem. Então, toda a tensão explodiu. Irritados com alguns jovens que brincavam com spray de espuma, os soldados partiram para cima, tentando arrancar o spray. Foi o que bastou. Explodiu a massa. Um garoto foi preso, arrastado para o camburão. Outros receberam pauladas na cabeça e sangravam, uma garota, já dominada por um PM levou spray de pimenta na cara. Aturdidos e irritados com a resposta desproporcional da polícia contra jovens desarmados, as pessoas começaram a jogar coisas. Lixeiras, cones, pedaços de pau. Correria e comoção. Brutalidade e violência por parte da polícia. 

Terminava de forma lacônica a votação do Plano que vai desenhar a cidade pelas próximas décadas. Um plano desconhecido pelos vereadores, mas não pelas gentes. Sabe-se  muito bem que algumas áreas da cidade serão adensadas de maneira absurda, que espaços de preservação serão liberados para construção, que o cimento tomará conta do verde, que a ilha – hoje com 350 mil habitantes  - será preparada para receber mais de um milhão de moradores. Tudo isso sem qualquer planejamento no que diz respeito ao abastecimento de água, de energia elétrica e de saneamento. O que a “turma do cimento” quer é erguer prédio. Não importa se não haverá estrutura, ou se as pessoas não conseguirão se mover. Afinal, um apartamento em Florianópolis hoje, em áreas nobres, está entre 700 mil reais e um milhão. É dinheiro demais. O que vale é vender. Os moradores, depois, que se virem. 

Por três vezes seguidas, os vereadores votaram em propostas não discutidas com a comunidade. Muitas delas incorporadas ao Plano por pedido de seus “patrocinadores”, e pela própria prefeitura, através do Instituto de Planejamento Urbano de Florianópolis, o IPUF. Na primeira votação aprovaram em bloco, sem conhecer o conteúdo das mais de 600 emendas apresentadas, 300 delas. Na segunda votação se recusaram a discutir o fato de que haviam sido quebradas várias regras do regimento interno e do Estatuto da Cidade. Patrolaram. Nesse dia 6, em terceira votação, repetiram a dose. Alheios ao desejo das gentes que queriam entrar para acompanhar o processo, aprovaram o texto final, igualmente desconhecido por eles.  

O que se viu em Florianópolis foi  expressão viva do que é a “democracia” do capital. Um legislativo dominado, insensível, atuando de forma irregular, sem levar em conta o clamor popular. Sem considerar um trabalho comunitário de sete anos e a construção de um Plano Diretor participativo. O projeto aprovado é completamente diferente do que foi desenhado pelas comunidades. Para defendê-lo, a força bruta da polícia. Com medo, mas sem vergonha, os vereadores usaram a PM para sua proteção e para a proteção da proposta daqueles que verdadeiramente mandam na cidade. 

Enquanto isso, em algum lugar dos Estados Unidos – alguns dizem que na Disney – o prefeito da cidade, César Souza Junior, aproveitava suas férias, completamente blindado da turbulência popular que ocupou a frente da Câmara. O “bom moço” voltará em alguns dias e poderá vetar ou aprovar o Plano. Alguns, inocentes, ainda acreditam que ele possa vetar algumas emendas, como as que reduzem os espaços de proteção ambiental. Mas, o certo é que se houver veto, será para beneficiar algum empreendimento. Há ainda uma certa esperança na Justiça, uma vez que o processo de votação está eivado de irregularidades e há uma ação em andamento. Mas, sabe-se que a Justiça também está do lado dos poderosos.

Então, resta a luta nas ruas. Só o povo unido e em ação pode mudar o plano. Só as gente em movimento são capazes de provocar o medo aos que se encastelam no poder. Eles tem a força da polícia, é certo. Mas, momentos há, em que essa “raia miúda” que eles desprezam tanto, assoma com tanta força que ninguém pode detê-la. 

sábado, 4 de janeiro de 2014

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Enquanto sofremos o transporte de massa ruim, prefeitura planeja um teleférico

Teleférico: mais uma “iniciativa” da prefeitura às pressas e sem projeto 

Texto: vereador Lino Peres (PT) 



Até agora a prefeitura não apresentou a íntegra do projeto técnico do Teleférico, apesar de já ter divulgado o seu lançamento no dia 19 de dezembro, cujas bases técnicas questionamos. A falta de transparência é regra desde a aprovação desta obra, junto com outras, por financiamento da Caixa Econômica Federal e Governo Federal, em torno de R$ 200 milhões.

Quando esta proposta de financiamento chegou na Câmara Municipal, em início de outubro, faltavam apenas DOIS dias do prazo para encaminhamento junto à CEF, com o risco de perda de financiamento. Em função dessa urgência, eu e o vereador Afrânio Boppré não fizemos vista ao projeto nas Comissões de Constituição e Justiça e na Comissão de Viação, Obras e Serviço Público, mas a bancada governista no Legislativo se comprometeu, depois de muita negociação, a promover audiência pública para discutir o Teleférico. Isso seria feito em articulação com as demais obras viárias, incluídas no financiamento, e com uma concepção de projeto de mobilidade urbana e metropolitana.

Este acordo foi apoiado pela unanimidade dos vereadores presentes na sessão. O líder de governo, Dalmo Menezes, em mais de uma ocasião se comprometeu a dar cumprimento ao acordado, mas até hoje não promoveu nenhuma audiência pública, alegando que o setor de Obras estava desenvolvendo o projeto e, depois, que iria encaminhá-lo.

Mas pasmem! Tudo se fez sem projeto técnico e sem nenhuma discussão com a sociedade sobre que tipo de projeto é este e de que forma se articula com a proposta de corredor exclusivo de ônibus em torno ao Maciço do Morro da Cruz – esse também sem projeto técnico - e com todo o sistema viário! Resultado: o financiamento foi aprovado e será lançada a pedra inaugural agora em janeiro. Ou seja, a bancada governista não cumpriu o que foi acordado na Câmara.

Esta atitude antidemocrática se repetiu na primeira aprovação do PLC 1292/2013 (Plano Diretor) em final de novembro, e também na aprovação, em dois turnos, do PLC 1296/2013 (aumento do IPTU e ITBI) em início de dezembro, assim como o substitutivo do projeto de lei chamado Cidade Limpa. Os quatro episódios revelaram que não há independência da Câmara Municipal em relação ao Executivo, que encaminha, sem o menor respeito à casa legislativa, projetos de lei com prazos absurdos de tramitação e em total desrespeito à população de Florianópolis.

Sou coordenador do grupo de pesquisa de mobilidade urbana da UFSC (GEMURB) e reivindicamos há muito tempo um plano de mobilidade metropolitano que tenha uma coordenação consorciada entre os municípios da Grande Florianópolis, o que continua NÃO OCORRENDO.

O itinerário do Teleférico inclui três pontos de embarque e desembarque: aterro da Baía Sul, alto da Caeira e Praça Santos Dumont, próximo ao campus da UFSC na Trindade. Mas estudo do professor Werner Kraus, da UFSC, identificou sérios problemas técnicos para implantação, como, por exemplo, o alto custo da tarifa e a frequência de ventos fortes na região, que podem impossibilitar a utilização do sistema. Portanto, mais uma vez, insistimos que se reabra essa discussão, para evitar DESPERDÍCIO de recursos públicos.

É lamentável que mais uma vez uma obra como o Teleférico, como ocorreu com a Quarta Ponte e o VLT (veículo leve sobre trilhos), será tratada com um factóide desconectado de uma reflexão e planejamento para toda a  cidade e região.