terça-feira, 19 de novembro de 2013

O mineiro franciscano


Leopoldo Nogueira com as Pobres e Nojentas

Quando ele chega é como se uma luz dourada pairasse a sua volta. Tem a doçura da criança e a mansidão do velho. Está sempre a inventar brincadeiras como se a vida - dura na realidade - fosse mesmo um imenso jardim. Seu riso baila na sala como um ruído de cristal, limpo, quase divino, mesmo quando conta uma de suas muitas piadas sujas. Nunca se rende a dor, nem nos momentos mais difíceis. Chora, é verdade, e muito. Mas não se entrega ao sofrimento. Apenas sente, deixa que rolem as lágrimas e sobe, na busca do esperado meio-dia. Sabe que a tristeza dói no outro. 

Leopoldo Nogueira é mineiro de Belo Horizonte. Tem a beleza das “geraes”, a terra de Marília e Dirceu, de Drummond, terra que abrigou Cruz e Souza em suas horas de morte. Nasceu no ano de 1960 e, na infância, pouco sentiu os terrores da ditadura militar. Menino, brincava na rua, ora soltando pipa, ora olhando para o céu e se encantando com a beleza da vida. Leitor contumaz, era rato da biblioteca do avô. Da mãe, artista plástica, ganhou o gosto pela arte e, na escola, era comum vê-lo nas peças teatrais. Tinha grande facilidade de articular os conteúdos e logo começou a se questionar sobre as coisas do mundo. Como ser? O que fazer? Que vereda seguir para ajudar os outros a serem felizes? Essas eram as preocupações do garotinho que ruminava as diferenças entre os seres, no caminho entre a leitura de um Tio Patinhas e um Schopenhauer.

Entre as leituras que fez, uma delas lhe tocou a alma: era sobre a vida de Francisco, o de Assis. Tamanha ternura lhe deu aquele homem que não teve dúvidas. Disse: vou ser franciscano. Então, toda a sua vida caminhou nessa direção. A idéia de ser padre não vingou, ficou para trás, mas o conceito de franciscanidade não. Seguindo essa senda foi parar em Alto Paraíso/Goiás, numa comunidade alternativa, onde trabalhou como professor e no apoio a crianças abandonadas. Dali seguiu para o interior de Minas onde queira fazer faculdade de Artes Plásticas. Mas, a universidade sempre lhe foi um peso. “Deviam oferecer disciplinas e a gente ir escolhendo. Assim como é, parece uma prisão”.

Bicho livre, não conseguiu ficar na rotina das cadeiras inúteis. Golpeado no corpo e na alma, desistiu da pequena cidade do triângulo e veio encher de magia o sul. Chegou a Florianópolis em 1998, direto para a Universidade Federal, onde foi trabalhar na Agência de Comunicação. Ativista dos Direitos Humanos foi logo inventando coisas para discutir uma vida de paz. Mas sua alma de menino-artista tampouco conseguiu sobreviver em meio à aridez acadêmica. Pediu demissão e foi viver sem vínculos. Hoje sobrevive com alguns trabalhos que faz como artista gráfico. Não têm sido fácil, muitas são as experiências “desencantantes”. “Eu fiz o caminho inverso do que fez Cruz e Souza, saí de Minas, e vim pra cá ficar sem terra, sem árvore, sem lar, nesta Ilha do Desterro, onde no mais das vezes a falta de arte e cultura, de abraços, jardins e flores acabam matando a gente aos poucos, enterrando na tristeza”. Só que como não se rende, Leo segue o caminho, teimoso, apesar de estar morando de favor na casa de um amigo. Franciscano na prática, ele não se importa em não ganhar dinheiro, e tampouco fica chateado em mendigar. Acredita que as pessoas devem repartir o que têm. Por isso, quanto tem, reparte. Agora, diz, vive seu tempo de receber. “Já fiz de tudo nessa vida e acredito na solidariedade. Quando eu tinha dinheiro, eu repartia. Acho que todos têm direito de ter acesso a tudo o que o conhecimento humano proporciona. O amor franciscano, aquele do Cristo primitivo, precisa ser uma coisa concreta.”

Leopoldo acredita muito que a grande beleza está lá, “em casa”, ou na outra vida. E, enquanto ela não chega, ele vai contando histórias, compartilhando sua alegria de menino-artista-velho-amoroso com aqueles que são capazes de entender. “Quem tiver ouvidos para ouvir, que ouça”, diz. Defende com unhas e dentes a espiritualidade histórica-dialética, ou seja, “essa com a qual o ser humano pode compreender e perceber as outras dimensões em que se manifesta, interligado e integrado à vida universal, e pela qual possa se manifestar no universo e nos pluriversos tantas vezes desconhecidos pelas vãs filosofias, religiões, até as ciências, inclusive as ‘ocultas’ ". 

Assim, nesse mundo de dor/sorriso a esperança de Leo são as crianças. Acredita, como Nietzsche, que é nelas que está a possibilidade de um novo tempo. Por isso, agora que voltou à universidade, a pedagogia que estuda e professa é a da libertação. “Hay que escolarizar-se, pero sín perder la ternura jamás”, diz, parafraseando Che, com aquele seu risinho mineiro. Crítico da escola, busca no seu fazer cotidiano encontrar respostas para uma nova educação, que não formate, que não oprima, que não mate a criança interior. Por isso, inventou um (ante) manifesto, que está em construção. “Ele foi inspirado no Manifesto Comunista, de baixo pra cima. Eu entendo a importância que aquele manifesto teve naquele período histórico, mas penso que hoje devemos contemplar em nossos corações as indignações para o despertamento da Criança Interior, capaz de fazer a verdadeira revolução, talvez a única possível: a de nossos próprios corações, que se entenderão uns com os outros nas dimensões em que interagimos.

Dividimos com todos essas idéias, para que comunguem e retornem. O manifesto não está pronto. Precisa de ti! Da tua criança... Então? Avante!!!  “Esse `manifestarmos` quem somos, apesar de tudo o que nos quer "apagar", é a fonte de inspiração desse Manifesto das Crianças: mãos em festa, em obra, escarafunchando a Terra, acariciando um rosto, enxugando uma lágrima, dando-se à outra mão/Criança para passear junto pelos campos”. 


(ANTE)MANIFESTO DAS CRIANÇAS 

Crianças de todo o mundo, uni-vos! 

As crianças têm toda a infância a perder se não soltarem a imaginação e abrirem as caixas de brinquedos para libertar a Esperança como uma pandorga livre no ar. Têm um mundo a sonhar e realizar como seus. 
Crianças, coloquem em primeiro lugar, como ponto fundamental, a questão de se apropriarem de todas as terras para plantar flores e grãos com suas pás, baldes e regadores. Finalmente, unam-se para que todos as entendam em todos os países. 

Em resumo, sejam a favor de tudo aquilo que as coloque a caminho dos jardins que esperam a revolução das estações com suas alegrias, com o sol, a lua, as estrelas, a chuva, o vento, o tempo. 

Borboletas, abelhas, minhocas, passarinhos, todos se aliam a favor de seus sonhos.  Em lugar dos antigos blocos de cimento duro ou asfalto seco, associem-se a cada um para que todos possam correr livres pelos jardins e campos à espera de sua vida. 

O seu poder, crianças, está para converter a secura das paisagens em florestas e bosques perfumados de doçura e sorrisos. Desapareçam, como que por encanto, todos os seus medos quando vocês se derem as mãos para isso. Sim, isso poderá se realizar em 10 passos como no jogo de amarelinha, pé-ante-pé, indo das tristezas das paisagens que lhes foram dadas até além, onde o céu se põe em espetáculo de cores. Vamos, se abracem. Pulem! 
As crianças arrancarão de seus corações, pouco a pouco, todas as ervas daninhas que lhes foram plantadas pela tradição das escolas, como tem acontecido através dos séculos. Isso não acontecerá novamente neste maravilhoso jardim-de-infância. 

Do mundo antigo há arvores que lhes foram mostradas lindas, como a da liberdade, a da justiça e tantas outras que jamais lhes foram dadas para brincar. Mas, em seu jardim, todas as novas árvores estarão verdes na primavera para vocês balançarem em seus galhos, e se deitarem às suas sombras nos dias de calor. Venham, tragam suas sementes para plantar de novo aquela Esperança. 

Uma nova história começa a partir de sua semeadura. Que nos canteiros de flores sejam desmarcadas todas as fronteiras de sua meninice, para que seja conquistada a amizade entre todos, numa só pátria de solidariedade como flor desabrochada por seus anseios. 

Meninas e meninos, tragam seus gracejos e sua vida! Venham com todos os seus brinquedos fazer casinhas nas árvores, reencontrar uma família de irmãs e irmãos que compartilhem a vontade de recriar os laços de ternura e afeto. Brinquem, que as árvores e o jardim são de todos. 

Inventem suas novas formas de brincar, esqueçam-se das pilhas e dos manuais de instruções de cada jogo que lhes foi ensinado. No amor e companheirismo dedicados uns aos outros poderão ser descobertas outras maneiras de contar e fazer histórias. Sejam livres para fazer a sua linda história de amor e solidariedade. 

Crianças, que seus corações estejam abertos para compartilhar a riqueza de idéias e ideais de cada um. Que o futuro seja construído a partir de seus sonhos de ventura. Repartam, de mãos cheias de alegria, os abraços e cuidados para com tudo e todos. Construam, assim, seu mundo novo. 

As flores e os frutos deste jardim são abundantes. Juntem suas mãos para colher mil buquês, façam suas cestas para depois irem repartir estas alegrias plantadas e descobertas. Repartam este jardim aos outros, chamem mais crianças para brincar, que estes campos são para todos. Unam-se. 

Deixem os bancos enfadonhos das escolas que transformam as crianças em peças de máquinas, e dispersem-se pelos canteiros em busca do que aprender com seus novos amigos. Ah, crianças, abram suas asas da imaginação para tocarem-se e repartirem o que têm aprendido. Subam às árvores, iniciem hoje este processo de compartilhamento destes sonhos. 

Continentes inteiros esperam sua chegada, crianças, para que da terra brote as esperanças adormecidas. As cidades mortas, as casas vazias de ternuras, as estradas poeirentas, os campos aguardam sua vinda. Espalhem-se, recriem a natureza à imagem e semelhança de seus sonhos. Que a solidez das flores se desmanche no ar em bem-te-queros através dos seus perfumes. 

Ah, crianças, que as manhãs de seus sonhos façam cair os véus das antigas e tristes noites de quando seus sonhos lhes foram retirados. Sejam corajosas, vivam seus ideais, despertem da sonolência que lhes foi imposta pelos contadores de uma história que lhes tirou a dignidade e os finais felizes. Em cinco pétalas e palavras: acordem, brinquem, vivam, realizem, sonhem. 

Sorriam ao compartilharem suas flores, sentem-se à grama e recriem seus brinquedos. Inspirem as outras crianças adormecidas a brincarem também. Quando elas ouvirem suas gargalhadas saberão que podem se juntar à brincadeira e realizarem as vontades de sua imaginação. 

Crianças, um mundo despedaçado em ruínas espera sua chegada para que novas formas de viver em alegria recrie a beleza para as futuras estações. Um tempo de pás, de baldes, de regadores, enxadas, foices e martelos para que sejam derrubadas todas as cercas, muros e portões que as separavam de seus sonhos. 

Crianças do mundo inteiro, uni-vos!

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Viamão: um retrato singular do descaso com as gentes



Nara Regina foi morar no interior de Viamão, comunidade de Águas Claras, há pouco mais de um ano. Espaço rural. Algumas casas, pequeno comércio, mas com os serviços básicos de uma comunidade que já tem mais de sete mil almas: posto da brigada militar, escola e posto de saúde. Uma fábrica da Ambev atraiu muita gente e o povoado cresce a cada dia. Mas, o que pode parecer bucólico revela toda a falta de respeito que uma administração pode ter com o seu povo.

Viamão é o maior município da região metropolitana de Porto Alegre, maior até que a capital. Tem quase 300 mil habitantes, os quais se espalham pelo largo território. Uma grande parte vive nas comunidades rurais ou na periferia. Ainda assim, a prefeitura atua como se cada cidadão de Viamão fosse filho de Porto Alegre. Pouca coisa se consegue fazer no município e  quase tudo aponta para a capital, fazendo com que as pessoas vivam uma espécie de calvário por conta de pequenas coisas.

Um exemplo disso é a saúde. Na comunidade de Águas Claras, desde agosto de 2012 não há médico. Qualquer um que procure o posto de saúde do local vai ser recebido por uma moça solícita que só sabe dizer: não temos médico, não temos condições, não temos nada. Nara tem hipertensão e precisa de acompanhamento sistemático. Cada vez que precisa de uma avaliação precisa pegar um ônibus e se deslocar até a parada 44, quase na entrada de Porto Alegre, onde tem um posto central. Isso significa pelo menos uma hora de pé, em ônibus lotados, que passam em Águas Claras de hora em hora.

Na última quinta-feira ela foi mordida por um cachorro. Com a mão aberta, correu para o posto. A enfermeira nem sequer olhou o ferimento. “Já temos médico, mas ele é pediatra, e não está aqui agora. Também não temos a vacina anti-tetânica nem a anti-rábica. Melhor ir para Viamão”. Com a mão enrolada numa toalha, sangrando, lá se foi ela para a parada de ônibus. Quarenta minutos de espera, mais trinta minutos de viagem até o centro de Viamão.  No posto de saúde central tampouco havia vacina. Mandaram para o hospital, na emergência. Toca esperar mais de duas horas pelo atendimento. Feito o curativo, a médica anunciou que também o hospital não tinha a vacina. “Vai até o posto da 44”. Mais quarenta minutos na parada e uns vinte minutos de viagem. No posto da 44 tampouco tinha a vacina. O único jeito era ir à Porto Alegre. De novo, mais um tanto na parada de ônibus até um centro de referência na capital. Cada viagem no ônibus, três reais e vinte de passagem. Já se iam quase 10 reais.

No Sanatório Partenon, em Porto Alegre, uma única médica se desdobrava entre o atendimento dos mordidos por cachorro – que eram muitos  - e o plantão no hospital. Um desgaste tremendo para a profissional e para os que precisam dela. “Tinha que ter um médico são para o atendimento dos mordidos, mas não tem. Temos de dar jeito”. Toda essa odisseia entre a chegada no posto de Águas Claras e a volta para casa demorou exatas oito horas. A sorte da mulher foi que a mordida não lhe arrancou a mão. Ela pode aguentar.

Mas, a pergunta que fica é: como pode um município que tem uma população rural imensa, logo sujeita a esse tipo de ocorrência (uma mordida de cão ou de cobra) não ter, em nenhum dos seus postos uma vacina? Como pode um município empurrar uma demanda para outro sem qualquer prurido? Como pode abandonar sua população a esse tipo de sacrifício?

Pois esse município assim o faz. O novo prefeito, agora do PSDB, ainda chegou ao cúmulo de retirar ônibus de circulação, deixando a população rural em completo abandono. O que já era ruim, ficou pior. Foram retirados horários e os coletivos que fazem os percursos rurais ficam lotados, colocando em risco a vida das pessoas. A resposta ao caos veio da forma mais perversa possível. A prefeitura autorizou as empresas que fazem o transporte intermunicipal a recolher passageiros. Só que os ônibus que fazem as linhas intermunicipais não são adequados para transportar pessoas em pé. Os corredores são bem menores e não há onde se agarrar. É cruel ver aquelas pessoas idosas – um número bem expressivo – passarem todo o tipo de humilhação e aperto. Uma vergonha!

Nas paradas de ônibus a reclamação é geral, mas, como sempre acontece, os governantes não estão nem aí. Fazem ouvidos moucos. Eles não usam o transporte coletivo. Resta ao povo a humilhante espera nos pontos e todo aquele sofrimento para chegar em casa. Abaixo assinado, protestos, tudo já foi feito e nada. “A gente tem que ir lá e queimar tudo, só assim eles se mexem”, resmunga uma mulher , carregada de sacolas. “Estou aqui desde as quatro horas. Já são cinco e 15 e nada do ônibus”.  Ela conta que não pega o intermunicipal porque a passagem é mais cara. Ou seja. A lógica é clara. A prefeitura tira os horários dos ônibus urbanos e dá vantagem a dois grupos empresariais de uma só tacada. Os locais que circulam menos e levam mais gente, e os intermunicipais que podem lucrar muito mais com os passageiros extras. O povo? Que se arrombe!!!

E assim segue a vida na adorável Viamão... Até que alguém resolva acordar...

    

Construtoras se unem à elite dominante para destruir Florianópolis


Plano diretor vai à votação as quatro da tarde dessa terça-feira

Os rapazes bem vestidos da prefeitura de Florianópolis já não pretendem mais passar por bons mocinhos. Atropelaram a população com o edital do transporte coletivo, sem debate, sem discussão e agora promovem novo massacre com a votação do Plano Diretor. Sem que as comunidades pudessem avaliar claramente as mudanças feitas no projeto que levou anos sendo debatido e acabou cheio de alterações, o prefeito César Souza Junior encaminhou o projeto para a Câmara de Vereadores. Tudo isso feito na manhã seguinte à audiência pública, já encadernado e bonitinho, mostrando que nada do que foi dito pelas lideranças comunitárias e moradores foi incorporado.

De forma nada surpreendente o projeto passou como um relâmpago pelas comissões chegando a ser aprovado em três delas no mesmo dia. Ou seja, ninguém estudou o plano. Tudo já estava acertado. Depois, foi a vez das emendas que chegaram aos borbotões de todos os vereadores preocupados em introduzir aquilo que seus financiadores exigem. Ao todo, 253 emendas recolhidas num calhamaço de 503 páginas. Para as comunidades restou a ação de vereadores como Lino Peres, do PT e Afrãnio Bopré, do Psol.

Com o pouco tempo para analisar cada uma das emendas e o plano como um todo, muita coisa ruim pode passar sem que a população tenha condições de compreender o conteúdo das mudanças. Uma análise preliminar feita pelo verador Lino Peres, do PT aponta as seguintes questões:

- Uma das emendas mexe na Ponta do Coral permitindo a construção de prédios ali, de até 16 andares. Quem a defende são: Bispo Jerônimo Alves, Edinon Manoel da Rosa, Marcos Aurélio Espíndola (Badeko), Aldérico Furlan, Célio João, Guilherme Pereira, Deglaber Goulart e Marcelo Fernando de Oliveira (Marcelo da Intendência). Já o movimento social não aceita isso, quer que o local se transforme em área de lazer pública.

- Outra emenda permite que a Ponta do Goulart, que integra a proposta do Parque das Três Pontas, passe a ser área residencial, com prédios de até dois pavimentos.

- Outra emenda permite a urbanização da região do Pântano do Sul, bem no lugar onde a população luta para ter um parque.

- A área pertencente ao Exército na rua Bocaiúva também fica no alvo dos especuladores, com viabilidade de construção que ameaça fauna e flora local.

- Permissão para aumentar o número de andares na margem direita da SC-401, sentido Centro-Bairro, de 3 para 6, sem previsão de áreas verdes nem de infraestrutura para dar conta desse aumento.

- Morro do Jurerê, em Canasvieiras poderá ser ocupado em mais de 10% da área.

- Área da Marinha, no Estreito, poderá ter 12 pavimentos! É o fim da proposta de uma área de lazer no local.

- A área entre o túnel no Saco dos Limões e o supermercado Baía Sul, aterro da Baía Sul e rua geral do Saco dos Limões terá viabilidade para oito andares e não quatro como é agora.

Essas são apenas algumas das propostas que mudam radicalmente o rosto da cidade, transformando-a numa grotesca selva de pedra. Nem mesmo os recantos mais bonitos, os quais são procurados pelos turistas ficarão de fora. Tudo está preparado para as grandes construtoras deitarem e rolarem.

Não bastasse todo esse horror, os veneráveis vereadores chamaram a sessão que vai votar esse plano para amanhã, às quatro da tarde. Ou seja, não querem permitir que a população acompanhe, uma vez que todo mundo está no trabalho a essa hora.

Nesse sentido, é preciso que nessa terça-feira, dia 19, todo mundo falte ao trabalho e vá para a Câmara. Não é possível permitir que seja votado um plano com mais de 200 emendas, sem que haja qualquer discussão.

Esse é um momento chave para a vida da cidade. Ou participamos ou perdemos a batalha.


É hora! Todos para a Câmara de Vereadores. 

Equador: a opção pela dependência

as escolas novas

os saberes antigos


Apesar de toda a propaganda que se faz do Equador, colocando-o dentro de um espectro de "país dirigido pela esquerda", não são poucas as contradições vivenciadas pelo governo de Rafael Correa, cada vez mais distante do que se poderia considerar um mandato com o povo. Indiscutivelmente o primeiro mandato trouxe avanços importantes, como a realização de uma nova Constituinte, soberana e autônoma, que, apesar de todos os percalços, conseguiu levar para dentro do documento que rege a vida das gentes numa nação uma série de avanços fundamentais que, inclusive, servem de exemplo a todo o mundo.

Mas, no cotidiano da vida, quando a Constituição começou a ser regulamentada, os interesses econômicos e políticos começaram a aparecer com força e a ditar regras que, de certa forma, destroem toda a lógica do sumak kausai (o bem viver - que é o bem viver de corte indígena, não é o consumismo do mundo capitalista), centro de toda a Constituição nacional. Um dos exemplo mais visíveis é o da mineração e da exploração de petróleo. Mesmo que a  natureza tenha ganhado um capítulo dentro da carta magna, revestindo-se de direitos, na prática tudo cai por terra quando os interesses econômicos cobram a conta do que chamam "progresso". Em nome do que denominam "desenvolvimento", as classes dominantes impõem seu modelo e passam por cima do que foi construído coletivamente com muita luta pela população do país.

Os povos indígenas são os que mais tem sofrido nesse processo. Primeiro porque sistematicamente sofrem desqualificações sobre a sua maneira de viver a política. Não é raro que a qualquer grito de rebeldia eles sejam imediatamente ligados a setores da direita raivosa do Equador, tal qual o grupo do ex-presidente Lucio Gutierrez, de descendência indígena. Basta que haja qualquer oposição ao projeto governamental e lá vem o velho discurso de que os índios estão sendo manipulados, que fazem o jogo da direita, etc...

É fato que a direita se aproveita - e muito bem - das batalhas travadas pelos indígenas contra as propostas do governo, mas daí a dizer que eles são manipulados é pura ideologia. E também mostra que a elite dominante continua mantendo pelas populações originárias um profundo desprezo, a tal ponto de nunca admitir que os indígenas possam pensar, formular políticas e definir suas demandas de maneira autônoma e livre.  

Outro discurso que o governo usa com bastante maestria, até porque Rafael Correa é bastante carismático e uma figura midática, é o da necessidade do progresso. Alegando que o país tem imensas riquezas minerais que necessitam ser exploradas para que as gentes possam ascender a bons níveis de consumo, o governo vem passando por cima daquilo que foi a pedra fundamental da nova Constituição: a vontade popular. No caso dos territórios indígenas está na lei que, para qualquer tipo de exploração dos recursos, a comunidade precisa ser ouvida. Mas, não é o que acontece. Mesmo que as comunidades estejam gritando contra a exploração, fazendo lutas, enfrentando a polícia, o governo permanece surdo. E ainda joga o restante da população contra os indígenas alegando que eles estão tentando impedir o "progresso" do país. De certa forma, o governo alimenta o velho ódio, de origem colonial, entre brancos e índios. Não são raros os textos e opiniões de gente da esquerda de toda a América Latina que também cai nesse canto de sereia.

Ataque à educação indígena

O mais novo ataque do governo de Rafael Correa é contra a educação indígena. Mesmo que a Constituição tenha garantido o direito a pluriculturalidade, na prática o que está acontecendo no campo da educação é o soterramento de toda e qualquer iniciativa indígena, ganhando força a homogeneização da educação. O primeiro golpe foi na Universidade Intercultural Amawtay Wasi, universidade indígena que existe no Equador desde 2004 com o objetivo de atuar na educação superior a partir de uma pedagogia autóctone. Ou seja, a forma de ensinar e os conteúdos do ensino estão completamente ligados ao jeito de ser das comunidades indígenas que, ao contrário do que muitos pensam, mantiveram vivos seus pressupostos éticos e pedagógicos apesar de mais de 500 anos de dominação. Assim, a universidade surgiu justamente para se contrapor ao modelo bancário de educação segmentada, descontextualizada e colonizada. Entre seus princípios está a proposta de criar um sistema de educação superior que tenha a sua identidade (indígena), dentro de um marco da integralidade do conhecimento, permitindo assim superar a ruptura usual que existe entre teoria e prática. Busca ainda formar profissionais que tenham uma visão intercultural, descolonizada,  capazes de entender onde vivem e de buscar soluções para os problemas concretos das nacionalidades e populações. Gente que também seja capaz de conhecer os mais diversos saberes que existem nas comunidades, apropriando-se deles para melhorar a vida e para construir, de verdade, uma sociedade intercultural, na qual o saber científico conquistado pelo mundo ocidental dialogue com os saberes originários, sem dominação.

Não bastasse essa "heresia" descolonial, a Amawtay Wasi tem uma estrutura física e pedagógica que está totalmente integrada à cosmovisão dos povos indígenas. Todo o trabalho se ampara nos princípios de vincularidade (a relação entre o todo e as partes), complementariedade (a necessidade de um `outro`, com o qual se dialoga), simbólico (relação entre o saber científico e o que ele significa no âmbito simbólico), e a reciprocidade (a troca de saberes). Esses são conceitos muito difíceis de serem compreendidos por aqueles que tem uma formação racional, ocidental. É praticamente outra episteme e precisa ser compreendida como uma forma radicalmente diferente de atuar, de educar e de viver.

Pois com a nova lei de educação, o governo de Rafael Correa decidiu homogeneizar o processo educativo, sem levar em consideração a própria Constituição que garante a pluriculturalidade. Depois de vários meses sendo visitada por tecnocratas governamentais, a Universidade teve seu registro suspenso. Não pode mais funcionar da forma como se organiza, a partir dos princípios que regem o mundo indígena. Os "educadores" governamentais querem que a Amawtay Wasi morra ou se iguale às demais universidades organizadas dentro dos cânones ocidentais. Mas, não é essa a proposta da universidade indígena. Ela quer, justamente, se contrapor a essa pedagogia desestruturante e colonial. No contexto de uma sociedade pluricultural, não há motivo para que isso não aconteça. É só uma universidade diferente, que atua dentro da episteme dos povos indígenas que ali vivem desde muito antes dos espanhóis chegarem e invadirem seus mundos, impondo uma cultura de dominação e de extermínio.

Mas, Rafael Correa tem sido implacável, espalhando ainda que a universidade é foco de resistência de grupos ligados à Lúcio Gutierrez. Como argumento usa o fato de a mesma ter sido criada durante o governo daquele presidente. Na verdade, o que quer é destruir um espaço de formação indígena construído a duras penas pelas comunidades.

As escolas comunitárias

Todo esse ataque ao mundo indígena ainda não terminou. Agora, o governo decidiu também eliminar as pequenas escolas comunitárias que atuam na lógica intercultural, ensinando em duas línguas. Não quer mais que a educação alternativa (leia-se indígena) se faça nas pequenas unidades que atuam com a proposta de unidocência, porque os indígenas acreditam que o conhecimento é um só, e não pode ser dividido em aulas de 50 minutos desconectadas do mundo real.   

Mais uma vez, os tecnocratas governamentais decidiram que a educação de primeiro e segundo grau do Equador devem seguir as propostas do Banco Mundial e precisam se constituir em "Unidades Educativas do Milênio", as quais são reputadas as novidades tecnológicas e todas aquelas "maravilhas" que os projetos vindos de fora apregoam. Falam em escolas equipadas com computadores, alto nível de ensino, novos conceitos pedagógicos. Tudo dentro da proposta ocidental, sem considerar as especificidades da pedagogia indígena. Segundo a pedagoga e comunicadora Rosa María Torres (http://otra-educacion.blogspot.com.br), a proposta está centrada na aparência, sem que sequer se mencione a situação dos professores, por exemplo, categoria que tem protagonizado grandes lutas no país.

No campo da propaganda o governo de Correa consegue convencer. Desde 2008 vem construindo uma série de UEMs (Unidades Educativas do Milênio), cujo número já ultrapassa as 24, atendendo 23 mil estudantes. E segue construindo outras tantas, dizendo que aumentará esse número em mais de 30 até 2014. Os prédios bonitos e bem pintados aparecem como o "progresso para todos". E justificam a exploração de petróleo na região do Parque de Yasuní. "Com o petróleo teremos mais saúde e educação para todos", diz, na tentativa de buscar apoio para as ações de fechamento das escolas indígenas. Conforme anunciou, das 18 mil escolas comunitárias que existem, apenas cinco mil seguirão abertas. Conforme diz, as escolas comunitárias, aquelas que são geridas de forma alternativa, "são o atraso, a marca da pobreza". Já os educadores que sempre estiveram nas comunidades quando o estado as abandonava, têm outra posição. Eles dizem que essas escolas que vivem à margem do sistema oficial são, recorrentemente, referência na inovação e na transformação cultural, tanto no Equador quanto no mundo. Segundo eles, esse tipo de escola multigrau e unidocente não é necessariamente uma escola para pobres. Ao contrário, é uma escola que se contrapõe ao sistema bancário imposto pelo Banco Mundial a toda América Latina. Como exemplo lembram do programa Escola Nova, que existe na Colômbia e o das Escolas Não-Formais, experiência de Bangladesh, ambas modelos premiados internacionalmente.

Mas, ainda assim, segue a "planificação" da educação, sem que se leve em conta a voz dos educadores e das comunidades. Toda a proposta vem sendo construída por burocratas, apresentando as modernidades como a solução do problema educativo. "Fecharemos as escolinhas precárias e os alunos serão realocados nas Unidades Educativas do Milênio", diz, sorridente, Correa, na televisão. Num primeiro momento, tudo pode parecer muito bom. Novos prédios, fusão de escolas, urbanização de escolas rurais, transporte escolar. Tudo preparado para a criação de grandes complexos escolares com educação igualada/homogênea/ocidental, sem que se leve em conta as especificidades culturais, tal como reza a própria Constituição.

Diz a pedagoga Rosa María Torres sobre uma UEM que visitou: "Em Otavalo, norte de Quito, inaugurada em abril de 2009, com grande presença da mídia. Era a terceira UEM construída no país e custara 2 milhões de dólares. Os alunos, 800, são de maioria indígena. A escola abriu com os sete primeiros anos de educação básica. Tem 38 salas de aula, quadros digitais, cozinha, restaurante, espaços esportivos, laboratórios, bibliotecas, 38 computadores e internet banda larga. O desenho da escola é tradicional, frio, sem qualquer presença da cultura local. Os professores sequer sabem usar o quadro negro digital, é visível a falta de capacitação. Nota-se que os espaços são subutilizados, há problemas de segurança e não se vê qualquer preocupação com a capacitação dos professores". Ou seja, tudo conspira para uma ode a tecnologia, sem cuidado pedagógico e muito menos o contexto cultural.

A experiência das escolas indígenas

Inka Samana é uma pequena escola indígena no sul do país, reconhecida internacionalmente como espaço de uma "revolução educacional", por sua proposta diferenciada de ensino de saberes que vão além do formal. Pois também ela deverá entrar no sistema homogeneizado da "educação nacional", abrindo mão dos aspectos simbólicos e culturais que a caracterizam. Os protestos tem sido grandes, mas o governo segue surdo. Quem quiser conhecer melhor essa bonita experiência de educação indígena pode encontrar sua voz nas redes sociais (https://www.facebook.com/pages/INKA-SAMANA/101245569927872?fref=ts). Rosa María Torres lembra ainda de outras experiências comunitárias indígenas como as da província de Pichincha, a Escola Ecológica Samay e a Yachay Huasi (Escola do Saber), que atuam no diálogo entre educação formal e educação indígena. Há coisas do mundo das comunidades que as UEMs não tocarão, com certeza, como a sabedoria dos mais velhos, fazer uma rede ou como reconhecer uma semente, reforçando a ideia de que só a educação formal/ocidental/moderna/científica é que é importante. Enfim, são dezenas de experiências comunais, culturais e alternativas que estão prestes a sucumbir diante da ideia de uma "educação única, nacional". Isso não pode ser possível num país com tantos povos indígenas, já tão acostumados a atuar dentro de seu mundo cosmogônico e simbólico.

A luta é desigual. O governo constrói prédios vistosos e garante a gratuidade do ensino formal, mesmo que a qualidade desse ensino esteja submetida aos ditames internacionais. As pequenas escolas indígenas vivem de contribuições da comunidade ou de ajuda externa. O governo já declarou que não aportará recursos a essas experiências. Sufoca todas elas no campo econômico e depois acusa os educadores de aliança com ONGs estrangeiras e grupos direitistas. É um cenário difícil de se assimilar.

A mesma prática tem se dado no campo universitário. No mesmo momento em que anuncia o descredenciamento da Universidade Intercultural Amawtay Wasi, o governo divulga a criação de quatro novas universidades estatais, onde os equatorianos poderão ter ensino superior gratuito. Difícil para quem segue acreditando que as culturas indígenas não tem nada a dizer no mundo, aceitar que as mudanças da educação equatorianas não sejam boas. Pois se aumentam as universidades públicas, se constroem novas escolas, se amplia o ensino gratuito. Poucos são os que questionam esse processo de destruição do saber indígena, da forma indígena de educar. Para boa parte das gentes, rendidas ao mundo ocidental, racionalizado e dependente mais vale uma escola grande que um ensino de qualidade. Se as diretrizes vêm do Banco Mundial, melhor ainda, vão aprender conforme aprendem os "gringos".

Poucos são aqueles que observam criticamente o processo de aprofundamento do colonialismo mental em pleno governo dito "progressista". A destruição das escolas comunitárias, dos espaços indígenas de saber e da universidade Amawtay Wasi são, na verdade, uma grande ofensiva do capital contra os povos indígenas, tradicionalmente um entrave nos planos de ganância e destruição de empresas transnacionais, da elite local e de muitos governantes. Estrangular essas experiências é um ato de força e de beligerância.

Os indígenas agora denunciam e não deverão aceitar tudo isso sentados. Eles encontrarão suas formas de resistir e manter viva suas culturas. Serão acusados de alianças com Gutierrez, com forças estrangeiras que querem destruir o governo "popular" e muitas outras coisas mais. Algumas comunidades podem até se enredar nessas armadilhas, isso não se descarta. Mas, qualquer guinada para a direita dos povos originários só se dará por conta do desrespeito às culturas antigas, por conta da insensibilidade do governo em dialogar, pela arrogância - herança colonial - e pela intransigência de Correa. Ou seja, o Equador vive uma hora importante de aprofundamento da dependência e da submissão aos grandes interesses internacionais. Não há interesse em se aliar aos povos autóctones para a construção do sumak kausai, conforme grita a Constituição. O que parece direcionar a ação do governo é o mesmo modelo desenvolvimentista que já mostrou todas as suas tristes e destruidoras faces por onde passou. Explorar petróleo, explorar minério, desalojar famílias, garantir um consumo fictício a uma classe média emergente, provocar a destruição do ambiente, incutir uma educação alienante e colonizada e maquiar o sistema de saúde. Tudo isso pode estar sendo construído para servir de base para a consolidação daquilo que "la radio buemba" (o que se diz nas ruas, boatos) já anuncia: a vinda de um acordo comercial de livre comércio com os Estados Unidos. Se isso se confirmar, o futuro será sombrio, com o aprofundamento da dependência econômica, política e cultural. Tudo como antes.

Então, nada de novo no front. A não ser a força viva das gentes de Abya Yala que, mesmo derrotadas, se reorganizam e voltam a se levantar.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

São Borja – um retalho de memória




Minhas memórias mais remotas remontam ao tempo que eu tinha quatro anos de idade. Tínhamos vindo de Uruguaiana para São Borja e fomos morar ao lado de uma igreja metodista. Duas cenas se perpetuam nas retinas. Uma delas é um casamento que presenciei e que sempre ficou dançando na cabeça. A noiva, ao contrário do que se via nas revistas, não estava de branco. Entrou na igreja com um vestido azul-bebê. Não sei porque ela usou essa cor, mas isso me encantou. Aquela mulher não devia ser uma mulher qualquer. Mesmo aceitando a tradição do casamento, tratou de fazer diferente. Sistematicamente, ao longo da vida, sonhei com aquela cena.

O dia era de sol, a igreja pequenina. A mulher entrando pela nave iluminada parecia um ser etéreo. Não lembro seu rosto, porque a vi em contraluz. E era o vestido que tomava toda minha atenção. Parecia algum tipo de encantamento que a envolvia. Azul, todo azul. Minha família era católica, mas o pastor, que morava na casa ao lado, era sempre bem vindo em nossa casa. Minha mãe sempre foi generosa com a diferença. Daí que circular na igreja metodista não era problema. Eu mesma, curiosa, vivia metida nos cultos, espiando, observando, ouvindo. E nas tardes, ainda jogava bola no pátio do templo, que também acolhia outras crianças da rua. Era uma época na qual ninguém parecia ser discriminado pela religião.

Outra cena que nunca esqueço da velha casa ao lado da Metodista é da gente – eu e minha irmã – deitada no chão em dias de chuva vendo os pingos caírem na porta da frente. Havia um pequeno declive e os pingos, caindo ali, na terra fofa, assumiam várias formas. Era uma coisa mágica.  

Várias vezes, ao longo da existência eu me perguntei se tudo aquilo realmente era parte da minha infância. É que as vezes a gente se pega roubando memórias. Como o tempo vai longe, algumas histórias, contadas por outras pessoas próximas, vão grudando na gente e pensamos que são nossas. Muitas vezes não são.

Mas, em 2009, voltei a São Borja para levar as cinzas da minha mãe. Ela queria viver para sempre no Rio Ibicuí, braço d´água que divide São Borja de Itaqui. E lá fomos nós na missão. Encasquetei que seria bom irmos ver a velha igreja metodista, para saber se tudo aquilo do qual me recordei a vida inteira ainda estava lá. E já se haviam passado mais de 40 anos. O pessoal riu, dizendo que a cidade era outra e nada mais deveria restar. Não aceitei e me fui em busca da igrejinha.

Pois como num milagre de natal, lá estava ela, exatamente como eu me lembrava. Não eram memórias roubadas. A igreja resistia ao tempo e as transformações. Do lado dela, estava também a velha casa, da qual sempre me lembrei, agora sob a forma de um comércio de refrigeração. Fiquei mareada de emoção. Era como se eu fosse, outra vez, a guriazinha arisca e assustada, que voejava por entre os bancos da igreja, ou observava, incrédula, a forma das gotas de chuva.

Entendi que são esses momentos singelos que fazem a gente ser quem é. Naquela tarde de calor escaldante, numa São Borja encontrada 40 anos depois, eu ainda podia ouvir, através da porta fechada, as cantorias que saiam da igreja naquelas longínquas manhãs de domingo e, num instante, na janela da casa ao lado, vislumbrei minha mãe, com seus olhos cheios de melancolia. Aquela mulher magrinha que me ensinou a amar as coisas simples e pequenas. Abençoada seja!

Encontradas as memórias, cheia de ternura por um passado feliz, parti para a beira do velho rio da minha infância, no qual deixei ir minha Helena, sabendo que ela nunca sairia de mim. 


domingo, 10 de novembro de 2013

Governo suspende demarcação de terras indígenas no sul



Áreas indígenas já definidas e prontas para serem demarcadas  na região do Rio Grande do Sul e Santa Catarina tiveram sua legalização suspensa pelo governo de Dilma Roussef. Rapidamente a presidente rendeu-se aos argumentos dos agricultores. que realizaram um protesto ontem (06 de novembro), fechando estradas no sul e exigindo do governo a suspensão do processo. Nunca um protesto foi tão efetivo em tão pouco tempo. Segundo Dilma, novos estudos serão feitos nas áreas. Com isso, ela pretende aliviar o clima de tensão que existe hoje no sul. Aliviar para quem? Essa seria a pergunta crucial!

Na queda de braço entre proprietários de terra e indígenas, raramente os indígenas saem vencedores. Roubados de suas terras desde a invasão em 1500, sistematicamente os povos originários foram sendo atacados, dizimados e humilhados. Na região sul do Brasil, boa parte dos povos autóctones que viviam no litoral se deslocaram para o interior, juntando-se a outras etnias que ali já viviam, como os kaigang e os xokleng. Já no século 18, com a abertura de caminhos para a passagem das tropas que iam e vinham de São Paulo ao Rio Grande, então Província de São Pedro, os indígenas enfrentavam os brancos em batalhas fortuitas. Mas, foi só no século XIX, com o processo de migração de famílias europeias, que todos esses grupos começaram a enfrentar com mais frequência a captura, assassinato e consequente tomada das terras.  No caso da região que hoje configura o oeste de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul, essa nunca foi uma terra sem gente, daí a necessidade de uma política de extermínio por parte do governo. Tudo isso foi levado a cabo. Os chamados "bugres" eram caçados como bichos e os que não aceitavam a "civilização" eram mortos.

Os poucos que sobraram foram sendo confinados em aldeias, onde permanecem até hoje, tutelados e tratados como seres de segunda categoria. Considerados naquele então um obstáculo para o "crescimento econômico" do estado e do país, eles passaram de legítimos donos das planuras a quase mendigos. Com o passar do tempo, esses indígenas que resistiram ao massacre foram sendo esquecidos. Cada imigrante que chegou para "desbravar" o interior foi cercando a área onde fincou raízes e as terras começaram a ser tituladas. O que era campo de liberdade para os originários passou para a "propriedade" de alguns.

Esse deve ser o caso das mais de 30 mil famílias - segundo Fetraf-Sul (Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar do Sul) - que vivem em terras já definidas como indígenas no Rio Grande do Sul e das outras 300 famílias que ocupam área indígena em Santa Catarina. Possivelmente todas essas famílias que hoje vivem na área que foi delimitada como "terra indígena" compraram suas propriedade de boa fé, têm escritura e tudo mais. Só que os indígenas também reivindicam esse território desde a invasão. Logo, se for aplicada a Justiça, não pode haver dúvidas de que quem ocupava o território primeiro eram os povos originários.

O debate que as entidades que representam os agricultores fazem é que a maioria dessa gente é pequeno produtor e não sabe fazer outra coisa na vida que não seja plantar. Sem as terras, eles morrem. O argumento é forte, mas se for aplicado aos indígenas, também deveria ter a mesma força. As famílias originárias que hoje reivindicam a área passaram gerações e gerações sofrendo o assassinato, a fome, a miséria, o medo, o terror. Da mesma forma que as famílias - hoje novas proprietárias - também nada mais gostariam de fazer na vida do que viver em paz na sua terra, onde possam plantar e cuidar dos filhos. Qual a diferença, então, entre os dramas?

As áreas no Rio Grande e Santa Catarina já foram vistoriadas e passaram por um longo processo de estudos e burocracias. Está mais do que provado de que são terra originária, portanto é de direito que sejam devolvidas aos indígenas. Mas, agora, o governo diz que vai fazer novos estudos. Paz para os agricultores, mais dor para os índios.

O fato é que com a demarcação as famílias que compraram as terras, muitas delas com registro desde o ano de 1919, não ficariam desamparadas. Todo o processo de demarcação garante indenização àqueles que, de boa fé, compraram terras indígenas. É certo que a situação causa sofrimento a quem construiu toda uma vida num lugar. Esse é o drama da maioria das famílias de agricultores que, com a decisão, precisariam mudar de lugar e até de cidade. São dramas humanos que não podem ser diminuídos. Mas, humano por humano, os indígenas também vivem mergulhados no drama. E, diferentemente das famílias que puderam viver em paz, plantando e comerciando seus produtos por anos e anos, os indígenas tiveram de passar todo esse tempo em aldeias mal arranjadas, muitas vezes passando fome e sem poder garantir de maneira autônoma sua existência.

Conforme reportagem produzida por Ibiapaba Netto, em 2008, na revista Planeta (http://revistaplaneta.terra.com.br/secao/reportagens/indios-x-agricultores-campo-minado-em-santa-catarina), a história da compra dessas terras segue a rota do roubo perpetrado pelo próprio estado ao longo do processo de colonização. Segundo ele, as vendas das terras, na parte catarinense, foram feitas pela Companhia Territorial Sul Brasil, que era um braço privado dentro do estado. Era a empresa que fazia as vendas para os imigrantes que chegavam da Europa acreditando entrar numa terra vazia. Daí que a lógica seria garantir às famílias, hoje proprietárias, uma indenização que cobrisse todo o patrimônio e não apenas as benfeitorias. Afinal, a maioria dessa gente foi enganada pelo próprio estado. Sendo assim, a batalha que hoje está sendo travada entre os índios e os agricultores tem vítimas dos dois lados.

O governo, que deveria assumir a responsabilidade por todo esse imbróglio criado há séculos, acaba por fomentar ainda mais a separação dos dois grupos que se enfrentam como inimigos. E, agora, com a suspensão da demarcação, bota ainda mais lenha na fogueira. Se diminui a tensão entre os agricultores, aumenta no lado indígena. Talvez aposte na fragilidade dos originários que, comparados aos atuais donos das terras, seguem em absoluta desvantagem, seja no campo jurídico, na correlação de forças e no imaginário coletivo.

Desde o início do processo de luta por demarcação das terras originárias, todos os dias, as emissoras de televisão regionais e estaduais disseminam o ódio aos índios. Em quase todas as notícias relacionadas com o tema, os indígenas aparecem como os "invasores", os "vagabundos", os que querem "impedir o progresso", os "selvagens" que não precisam de terras porque não trabalham. Esse estereótipo do índio está consolidado no imaginário popular e segue sendo fortalecido pelas usinas ideológicas que são os meios de comunicação. Daí ser tão difícil fazer o debate sobre o tema de forma tranquila. Criou-se na maioria da população, que é não-índia, a ideia de que os índios não precisam dessas terras, que deveriam se contentar com suas reservas e as cestas básicas dadas pelo governo. É, na verdade, a continuidade, a perpetuação da ideia primeira dos portugueses e espanhóis que aqui chegaram e passaram por cima das milhares de criaturas que eles acreditavam não ter alma por não falarem sua língua nem viverem da mesma maneira que os europeus. Toda a cultura indígena foi ignorada, bem como a própria humanidade de cada um dos primeiros moradores dessas terras. Aparentemente, apesar das atitudes caridosas eventuais, é o que boa parte da população segue pensando com relação aos índios. São nada, coisas descartáveis, gente não-produtiva, atrapalhos à nação.

No oeste de Santa Catarina essa é a realidade que os xinguara e os kaigang vivem desde há séculos. Hoje, muitos deles vagueiam sem rumo pela região, trabalhando de boia-fria, enquanto outros se submetem a humilhação das reservas que não oferecem muita condição de vida digna. Mas, ao que parece, poucos estão interessados nessa realidade. A mídia regional, bem como as forças políticas aliadas ao poder dominante insistem em tornar mais "triste" o destino daqueles que perderão suas terras para entregá-las ao que nominam como "meia dúzia de índios".

Ora, como fazer uma competição para saber qual sofrimento é maior? Haveria ganhadores?  Aquele que sofre entende sua dor como a maior do mundo. Não é o caso de fazer concorrência. O fato é que existe uma dívida histórica do estado com relação aos povos indígenas e também com as famílias de agricultores. E o estado deveria fazer tudo para sanar essa dívida sem fazer chantagem com os mais fracos, sem fomentar o preconceito.

Também é importante ressaltar que, na maioria dos casos envolvendo demarcação,  os "opositores" não são os pequenos produtores de boa-fé. Mesmo no Rio Grande e em Santa Catarina, muito do que comanda a "luta" anti-demarcação é ação dos grandes fazendeiros e do setor de especulação sobre a terra. No Mato Grosso do Sul, por exemplo, os indígenas precisam enfrentar a sanha de jagunços a soldo dos latifundiários, que matam, violentam e ameaçam as famílias de índios que vivem nas beiras de estradas. E como se isso não bastasse, ainda enfrentam a Justiça, que está sempre do lado dos fazendeiros, e as ameaças de uso da Força Nacional para a realização dos despejos de áreas ocupadas pelos indígenas. Porque índio quando está quieto é queridinho, mas se ousa levantar-se em luta passa a ser só mais "terrorista, baderneiro" como qualquer outro militante social. Sobre esses dramas a mídia comercial não fala. Sobre essas ações violentas, assassinatos e jagunçagem, nenhuma linha nos jornais. E é assim que vai se formando a opinião pública contra as demarcações. Porque no mundo capitalista não dúvidas de alguns são sempre mais iguais que outros. E assim, a dor! ...

A única saída possível é a indenização justa a quem comprou terra de boa-fé e a urgente demarcação das terras indígenas para que essa gente que anda vagando pelos caminhos desde o fatídico 1500 encontre finalmente morada e possa viver sua vida em paz.

Jornalismo dissecado, para outra práxis!



O trabalho de Miriam Santini de Abreu no livro “Quando a palavra sustenta a farsa – o discurso jornalístico do desenvolvimento sustentável” é uma ousadia que se espraia em múltiplas direções, tal qual o discurso que, de forma crítica, ela busca refletir. Ousadia polissêmica. Gesto que se faz desde um lugar específico, singular, o Brasil, parte que se nega de uma América Latina que ainda não conhece seu próprio rosto. E é deste espaço que Miriam fala como jornalista, construtora de mundos, com o frágil/forte tijolo da palavra. E fala ainda como um ser que vive e tem consciência de seu espaço geográfico, que percebe a natureza não como uma inimiga a ser domada, e muito menos como um sacrário a ser preservado dos pés e mãos humanas.

A natureza com a qual conspira Miriam no seu mapa da farsa não é uma abstração romântica. Ela é o espaço geográfico com todas as suas conformações: pedras, matas, águas, montanhas, animais e homens. Uma simbiose que deve ser vista assim, na sua totalidade, historicidade e na sua concretude social. Com a faca afiada da crítica que desvela aquilo que se apresenta unicamente como aparência, a autora vai ajudando o leitor a decifrar a intrincada rede de ilusões fabricada pelo dito jornalismo ambiental que, na maioria de suas expressões, age como uma igreja, incensando o chamado desenvolvimento sustentável, usando a tática de dividir a paisagem entre o meio e o homem, como se isso fosse possível. Além disso, Miriam mostra sem disfarces a fantasiosa ideia capitalista que torna “responsáveis sociais” aqueles que tomam o ambiente como mercadoria e o destroem em nome do lucro, mascarando essa degradação com o que chamam de redução de danos.

Assim, nos veículos considerados pelo trabalho em questão, pode-se observar que o jornalismo se faz não mais como uma crítica análise do mundo da vida, mas sim como uma máquina de propaganda de um sistema insaciável que esconde sua essência na chamada “sustentabilidade”, conceito no mais das vezes falseado, porque não apresenta a historicidade do fenômeno e muito menos a perspectiva do lugar. Por exemplo, aquilo que aparece como sustentável na Europa, não tem o menor sentido na África ou na Bolívia.

Noam Chomsky tem um trabalho exaustivo sobre como, nos Estados Unidos, o jornalismo funciona como propaganda de um modo de vida em que não está em questão a vida das maiorias e sim, os interesses específicos de governo e empresas específicas. Mas, essa crítica serve muito bem ao jornalismo praticado no Brasil, particularmente o ambiental, tal qual mostra a análise feita por Miriam, até porque uma das características do modo de fazer jornalismo neste país segue a mesma cultura colonizada de quase todas as outras áreas do saber.

Pois neste livro incomodativo Miriam estraçalha com todos os véus. Aguda analista do seu tempo, ela pega na jugular e faz sangrar a farsa sem qualquer pitada de dó. Cada reportagem dissecada pelo diagnóstico da pesquisa grita conceitos de uma gente (jornalista) que parece ignorar as contradições do desenvolvimento capitalista dependente, o qual não permite erro de análise: nenhum mundo contaminado por esse modo de produção pode ser sustentável. Ou ainda, o que é pior, é praticado por seres que se fizeram cortesãos do sistema e, portanto, impedidos – por censura interna – de expressar as contradições. Assim, defender a ideia de desenvolvimento sustentável só pode ser possível a estes que realmente estão convencidos de que o sistema que obriga a morte de um para que o outro viva é mesmo melhor e legítimo. E aí, o que faz a autora é interpelar cada um que se disponha a ler esse trabalho, na mesma direção que Jacione Almeida em uma das citações: “Trata-se de sustentar o quê? `Futuro comum´ de quem  e para quem?” Esse é ponto! Certamente que esta sustentabilidade está dirigida a uma classe em particular, e não são às maiorias.

É justamente por isso que o trabalho da autora é perturbador. Ela explicita, corajosamente, essa questão da posição do sujeito jornalista, que nunca é neutro ou imparcial. Ao narrar, o autor se desvenda a si próprio e qualquer tentativa de ignorar isso é apostar na impostura. E é por acreditar nisso que Miriam questiona. Que tipo de pessoas são essas, os jornalistas que narram a vida nas páginas dos jornais?  Ingênuos, ignorantes ou os crentes no capital? Que tipo de profissionais são esses que dão voz apenas ao poder, silenciando outras vozes que clamam à margem? Que tipo de jornalista é esse que só se dispõe a pisar as salas acarpetadas dos palácios e das grandes empresas, negando-se a mergulhar no mundo da vida, esse, real, dos excluídos da dignidade? Que jornalismo é esse que louva uma monstruosa ponte de cimento como algo que se semeia na paisagem, enquanto mostra os empobrecidos que ocupam áreas de preservação como a suja escória que deve ser varrida? Que prática é essa que faz da vítima o vilão?

As respostas saltam das páginas, sem que autora precise dizer. Tudo fica claro quando se percebe que o rei está nu. O jornalismo hegemônico é uma fábrica de ilusão, amparada na mais descarada publicidade, na qual a natureza perde a sua aura, vira fantasmagoria, se dilui na prateleira do grande mercado do capital. O modo capitalista de reprodução da vida se mostra no discurso dos jornais, impiedoso e simples, tornando difícil entender como as pessoas não se dão conta da sua vilania.

E é nessa articulação entre o espaço, a narrativa jornalística e o discurso que Miriam Santini de Abreu vai desfilando sua ousadia de jornalista que toma posição. Dialoga segura com a geografia de Milton Santos, esse intelectual brasileiro que também ousou e imprimiu um desenho humano no debate sobre o lugar e a natureza. Revive a teoria revolucionária de Adelmo Genro Filho, um pensador que conseguiu decifrar o segredo de um jornalismo que se expressa no singular, mas só se torna crítico quando articula e aspira ao universal. E, revela os sentidos do discurso a partir de Eni Orlandi, uma analista que se aventura para além do texto, revelando a polifonia e a ideologia que ele contém. Então, nesse entrecruzar de elementos inimagináveis, e depois de uma impiedosa análise dos textos do JB Ecológico e do AN Verde, a autora acaba revelando também um outro segredo, singelo, mas fundamental: o jornalismo não precisa ser esta fábrica de ilusões que aparece hegemônica, essa prática a-crítica e cortesã. O jornalismo carrega em si mesmo, como já anuncia Adelmo Genro Filho, a possibilidade de ser uma poderosa arma de desvendamento do real.

A ideia que fica é a de que, apesar de toda a máquina de propaganda na qual se transformou o jornalismo, o sujeito jornalista tem todas as condições de ser também aquele que tem consciência de que fala desde um lugar, e que esse lugar tem historicidade. Que o jornalista pode, no texto, fazer o trânsito entre o singular, particular e universal, apresentando toda a atmosfera do fato e não apenas a sua singularidade reificada, que empobrece, desinforma e deforma. Que o jornalista pode buscar outras vozes, as que clamam desde fora do centro do poder, e não apenas aquelas que se vendem como produtos. Ao evocar Marcos Faerman, um criador, um mago da palavra transformadora, sensível e revolucionário, Miriam desfaz qualquer possibilidade de frustração ou desencanto com essa feiticeira profissão. Pelo contrário, depois da verdade que se esparrama pelas páginas do livro, fica a certeza de que o jornalismo pode ser mudado. Não mais como uma grotesca farsa, mas como um discurso libertador, capaz de revelar o humano “sufocado em sua vontade de ser”.