segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Brasília soterrada no Sahara Brasiliae



Li o novo livro de Raimundo Caruso, Sahara Brasiliae, em pequenas doses. Devagar, como a própria narrativa, que avança e recua por uma cidade fantasma. A história fala da capital brasileira que, um belo dia, amanhece tomada pela areia, num calor escaldante. Nela, apenas alguns personagens vagueiam, ligados, mas sem nunca se encontrar. Tudo é silêncio e solidão. Calor, abafamento, angustia, sensação de abandono e caos. E, como a areia se move com o vento, a cidade vai se mostrando e desaparecendo, ao mesmo tempo, num movimento sem fim e vertiginoso. Os personagens, ficantes no inferno amarelo que se tornou Brasília, vão nos instigando. Uma tradutora, um ciclista, o narrador, o arcebispo, os políticos, um bibliófilo, um blogueiro, um arcebispo. São figuras estranhas e, ao mesmo tempo, tão reais e próximas que, por vezes, quase lhe reconhecemos as feições.

As andanças do narrador pela cidade deserta são descritas em narrativa vigorosa e dura. Hora lenta, ora ligeira. O texto nos envolve como se fora uma profusão de pequenas cenas, reais e visíveis. A gente consegue sentir a areia entrando pelos poros, os cheiros e, por vezes, quase desfalecer com o calor que emana da trama. O trecho em que o caminhante entra em um mercado, no qual as comidas todas estão apodrecendo com o calor sufocante, é de arrepiar. Produtos químicos, transgênicos, conservantes e toda a sorte de porcarias que se adicionam aos alimentos parecem adquirir vida e nos mostram todo o terror que, cotidianamente, essas coisas que comemos contêm, sem que nos demos conta. É talvez o momento mais impactante do livro. Uma podridão que nos arrasta, e que está dentro de nós.

Raimundo escreveu o livro antes das jornadas de luta do mês de junho, mas, a problemática política do país está completamente presente no romance, quase como se fosse um texto premonitório. A Brasilia ocupada pela areia ainda é a nossa confusa e desumana capital, com todas as suas belezas e contradições. O centro de uma política que tem uma opção de classe. E que não é a das gentes comuns.  Por isso, na trama, Caruso acrescenta, em relevo, dois escritores que deixaram sua marca na humanidade: Erasmo de Rotterdam e Thomas More. E, assim, entre a loucura do status quo e a utopia que nos move para a transformação, nós também vamos escalando as montanhas de areia, tentando respirar num ambiente que nos oprime para além do físico.

A narrativa de Raimundo Caruso ainda oferece outros subtextos. É também, por vezes, uma espécie de ode à palavra mesma, essa ferramenta de quem escreve. O autor e o narrador estão sempre a buscar uma, duas, três palavras que se dizem, ao mesmo tempo, sinônimas, reforçando sentidos e se mostrando quase autônomas, como de fato são. Outro subtexto é reverente amor de Caruso pelos livros. Um toque de Maupassant, Whitman, Somerset, Poe, Goethe e tantos outros que revelam  os dias e noites de infinitas leituras. Também não fica de fora a América Latina e as  novidadeiras realidades de lugares como a Bolívia, Venezuela, Equador que desvelam um autor ligado nos transformações do nosso continente.

Sahara Brasiliae é sufocante, estridente, instigante, intimista e revelador. De alguma forma condensa também a trajetória desse escritor que iniciou sua trilha de escriba no romance, passando depois pelo jornalismo. Como Caruso, o homem que caminha pela areia da cidade soterrada não está perdido no caos. Apesar do absurdo da realidade ele se move com confiança, seguro, sabendo onde buscar o que precisa ser visto. E, ainda que nenhum dos personagens se encontre ao longo da trama, o narrador consegue ligar essas vidas de tal forma que ao final a impressão que fica é de que ele encarna cada uma daquelas almas. O autor é a totalização de todos os personagens. Talvez seja por isso que quando a areia da cidade se esvai, tudo o que fica é a perplexidade daquele que, sendo muitos, nada mais tem a fazer do que seguir seu caminho, esgrimindo as palavras e construindo novos mundos. Diante do completamente inesperado, sobe no táxi, e recomeça. 

É como uma metáfora de nós mesmos. Dando combate à solidão, à realidade de um país em escombros, ao nosso próprio medo de estar soterrado e perdido no calor. A última página aparece como um vento fresco e, como o autor, não nos resta outra opção que fazer um sinal ao táxi, e seguir adiante, não sem estar com a alma em ebulição. Mas, ao que parece, esse é o destino da gente. Nunca paralisar diante do absurdo.

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Para encomendar o romance de Raimundo Caruso, faça o pedido pelo correio eletrônico: livro.sahara@gmail.com


segunda-feira, 21 de outubro de 2013

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Espionagem, soberania e o leilão do petróleo


Sempre digo por aí, não sem certa tristeza: somos os arautos da desgraça. Aqueles que sobem no mais alto monte e ficam a gritar sobre os males que virão. Não que sejamos videntes, pitonisas, magos. Não. Apenas analisamos a realidade, observamos as relações de causa e efeito e pronto: aí está o que pode acontecer. No geral, as coisas acontecem mesmo. É ciência.

Desde há muito anos denunciamos os programas de espionagem do governo dos EUA. E antes de nós outros já denunciavam. Mas, nossas palavras ficam no vento: teoria da conspiração, coisa de esquerdinhas, maluquices dos que são anti-progresso e tantas outras etiquetas pejorativas que se usam para desqualificar nossas análises e opiniões. Para a maioria da população, que conhece a realidade através da mídia comercial, as relações com os Estados Unidos sempre foram muito boas e assim tem de ser, afinal, esse é um país grandioso que tem muita coisa a ensinar e oferecer. Pessoas há que, inclusive, acreditam ser muito bom ser dependente dos EUA, já que esse é um país importante.

Em todos os meios de comunicação de massa raras são as notícias ruins sobre os EUA. No mais das vezes, as que aparecem são as  impossíveis de esconder, como é o caso das chacinas que jovens adolescentes praticam sistematicamente. Mostra-se o fato, a dor, a tragédia, mas quase nunca aparece uma boa análise dos motivos que levam a isso. O jornalismo não se presta a desvelar a realidade. É mera propaganda. Então, fatos como esses aparecem como patologias, falhas na matrix, e não há ligação com o fenômeno da violência de uma sociedade militar.  Assim, logo em seguida, novas notícias sobre a Disneylândia ou o lançamento do "Homem de Ferro 3" colocam as coisas todas no lugar outra vez.

Pois agora, nos últimos tempos, a espionagem dos EUA sobre o mundo veio à tona na denúncia de um jovem estadunidense que trabalhou para uma dessas empresas que roubam dados e fuxicam a vida de pessoas e estados para que o governo possa atuar na defesa dos interesses da elite dominante daquele país. A notícia se espalhou. Não havia como negar. Até então, as provas repassadas pelo WikiLeaks eram vistas com ceticismo e seu criador, Julian Assange, era igualmente desqualificado como pessoa, para que suas informações se perdessem no vazio. E, afinal, Assange é um inglês, logo, poderia ser um inimigo dos EUA, ou, quem sabe, um esquerdinha a mais.  

Foi apenas quando a denúncia veio de dentro mesmo do "monstro" que os meios de massa tiveram de dar algum destaque. Ainda assim, tudo segue meio nebuloso. E Edward Snowden ainda está revestido de mistério. Afinal, como um "americano" normal iria denunciar seu próprio país. Seria ele um tolo? Assim como foi tolo o jovem Brad Manning ao denunciar as atrocidades dos EUA no Iraque, tentando mudar essa realidade, tentando "ajudar" seu país? Perguntas que a mídia comercial deixa no ar, para que as pessoas passem elas mesmas a formular essas teses, aceitando-as como verdadeiras: os caras são traidores da pátria deles.

Só isso pode explicar o fato de o Brasil ter sido espionado naquilo que tem de mais estratégico que são suas riquezas naturais, e tudo ficar por isso mesmo. Comprovado ficou que os Estados Unidos espionaram a Petrobras, espionaram a presidente do país, espionaram ministros. O máximo que se teve de repercussão foi um discurso na ONU e um pedido de explicações ao governo dos EUA. O governo explicou? O Brasil se satisfez com as explicações? O que está em jogo no tabuleiro da espionagem das riquezas do país?

Alguém já pensou no que aconteceria se fosse o contrário. Se o governo brasileiro tivesse espionado alguma empresa estratégica dos EUA, que respostas receberia do país governado por Barak Obama? Certamente a Quarta Frota ocuparia nosso litoral. Os mariners viriam aos montes, os Seals, a CIA, e toda a sorte de mercenários ou patriotas. Haveria uma guerra? Ocupariam Brasília? Viriam o Rambo, o Duro de Matar, o Homem de Ferro, o Capitão América, os Vingadores? Sim, viriam!

Mas, e o Brasil, que poderia fazer? Uma guerra? Possivelmente não. Temos de ser realistas. Mas, uma coisa poderia ser feita sim. Ou melhor, deveria. Cancelar os leilões da Petrobras. É fato notório e comprovado que espionaram a empresa brasileira de petróleo. É fato que o Brasil tem reservas imensas no pré-sal. É fato que as empresas estadunidenses estão de olho no petróleo, não só aqui, mas em todo o mundo. Logo, se espionaram a Petrobras estão de posse de informações estratégicas sobre os campos de petróleo. E, sendo assim, serão as vencedoras nos leilões que mais lhe interessarem. Não é esquerdismo, nem teoria da conspiração. É matemática. Junta dois mais dois e tem o quatro. Não há erro.

Pois apesar de todo esse cenários de filme roliudiano, a presidente Dilma (que foi espionada também) decidiu manter o leilão do Campo de Libra para o dia 21. Está ajoelhada diante do império. Nenhuma reação prática além das palavras na ONU. E mais, chamou o exército para cercar as ruas impedindo que a população se manifeste. Submete-se vergonhosamente aos interesses externos e enfrenta o povo de seu país como inimigo. Porque, afinal, exército é uma instituição que existe para defender o país de agressões externas, de inimigos.

As perguntas que as pessoas devem se fazer é: quem são os inimigos do país? Quais são os que devem ser enfrentados? As pessoas que aqui vivem e que querem proteger as riquezas naturais? Ou os estrangeiros que vêm explorar o petróleo, levando as riquezas para fora do país? Seriam os trabalhadores da Petrobras, os sindicalistas, os militantes do Movimento Sociais os verdadeiros inimigos do Brasil? Pensem nisso... Com calma!

E aqui vão outras indagações para ligar os fios da realidade social: que relação tem tudo isso com os protestos que tem sido realizados nos últimos tempos? Por que foi votada uma lei que transforma em "bandido" e "perigo nacional" aqueles que estão nas ruas se expressando da única forma com a qual conseguem  ser ouvidos? Por que se manda para os presídios estudantes e populares que enfrentam a polícia na luta por direitos e por soberania? Seria realmente "vandalismo"  a reação desesperada de quem não consegue ser escutado como cidadão que pensa e decide as políticas de governo? Afinal, os governantes não deveriam governar baseado nas demandas do seu povo? Ou devem governar baseados nos desejos de empresas transnacionais ou governos estrangeiros?

Pois essa é a trama do tecido social que temos estendido sobre nossos olhos. Segunda-feira acontece o primeiro leilão do pré-sal. Nossas riquezas sendo entregues possivelmente aos mesmos que nos espionaram. Nas ruas, as pessoas que insistem em ver o Brasil soberano, dono de suas própria riquezas, enfrentarão mais que a polícia. Enfrentarão o exército, colocado nas ruas para "defender" a nação. Defender o Brasil dos brasileiros. Jovens, sindicalistas, populares, reagirão organizadamente, pacificamente. Outros reagirão desesperadamente. A luta é desigual. De um lado, homens armados, treinados para exterminar o inimigo. Do outro, gente indignada, apaixonada, desesperada diante da força bruta.

E na televisão os repórteres bem-mandandos ouvirão pessoas que chamarão de "vândalos" aos que lutam. E aparecerão pessoas do povo dizendo que o lugar de quem está mascarado e reage violentamente num protesto deve ser mesmo o presídio. E toda essa gente que luta pelo Brasil soberano será colocada na condição de bandido, terrorista, baderneiro. E os âncoras dos telejornais farão aquelas caras constritas para falar da "violência" perpetrada por pessoas que não querem o progresso do Brasil. O progresso deles, dos âncoras, que são os ventríloquos daqueles que dominam, é o da entrega das riquezas, o da submissão, da dependência. E as pessoas "de bem" dormirão tranquilas, sabendo que os "bandidos" estarão nas cadeias.
Só que as pessoas que lutam pela soberania nacional não são bandidas. Elas são o povo. E isso não se acaba assim, na prisão de alguns. A luta recomeça e, de novo, nas ruas, estarão milhões.   Porque a realidade mesma é clara. Esses espaço geográfico é dos brasileiros e dos que aqui escolheram viver. Não pode servir de lugar de exploração, como sempre tem sido desde a invasão em 1500.

A segunda-feira que virá escreverá os destinos do país.  



quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Aventuras de um sem-saúde


A pessoa começa a passar mal e a primeira opção é, sem dúvida, apelar para a memória histórica dos chás das avós. Afinal, buscar um médico no sistema público é sempre um grande estresse. Mas, os dias se passam a e coisa só piora. Não há o que fazer. Toca ir para a fila do Posto de Saúde do Morro das Pedras. Chega lá no meio da manhã para saber como estão as regras. É que elas mudam todo o tempo. A moça: “Pode vir todos os dias, mas são apenas cinco fichas. Tem de chegar cedo”. Tudo bem, volta para casa sem atendimento.

Passam-se dois dias e tudo piora. Não há remédio. Toca enfrentar a fila de novo. Dessa vez acorda cedinho, antes das sete, afinal são só cinco fichas. Chega no Posto e a fila está grande. Mas, enfim, a necessidade obriga a ficar e tentar uma vaga. São sete horas e tudo está fechado. As oito e cinco começam a chegar os funcionários. A médica, bem jovem, chega num carrão, às oito e meia. A fila vai andando, todos com aquela cara de sofrimento que só os sem-nada têm.

Chega a vez da pessoa. Ela consegue a tal da vaga para ser atendida. Mas, há que esperar. São nove horas quando é chamada. Explica o problema. A médica sequer a olha nos olhos. “Tem que fazer um procedimento, mas não temos sala”. Como não tem sala? E o que é aquilo onde estão? “Não dá para fazer, procure outro posto”. Como procurar outro posto? A pessoa só pode ser atendida no posto da sua jurisdição. O Posto do Campeche não atende quem mora na região do Morro das Pedras. “Não posso fazer nada”, diz a mocinha, possivelmente recém-formada. E a pessoa sai, atordoada, sonhando com um médico cubano.

A pergunta que baila é: por que algumas pessoas precisam amargar o sofrimento da falta de atenção enquanto outras tem os melhores médicos à sua disposição? A resposta é fácil: o sistema que comanda nosso viver define isso. A forma como se organiza o mundo capitalista determina que os ricos se apropriem de todos os avanços da ciência, das melhores coisas, do nelhor cuidado. Os pobres são meras peças de reposição na grande engrenagem. Se morrerem, não farão falta. Outro vem e ocupa o lugar. Há pobres demais no sistema de vida que o mundo ocidental impõe.

Assim que os postos de saúde nos bairros, construídos para atender aos pobres, são meros espaços de enganação. Para que as pessoas digam: Mas, temos os postos e médicos à disposição. Temos as políticas públicas de saúde. Tudo farsa. É da natureza do mundo capitalista que uns explorem e outros sejam explorados. Que uns vivam e outros morram para que esses vivam. Assim, as medidas compensatórias sempre serão véus de Maya (a ilusão).

Por isso que aos pobres restam poucas opções. Resignação, aceitar que a vida é assim mesmo e esperar a morte tomando, no máximo, um paracetamol. Lutar para mudar o sistema, coisa difícil demais num mundo em que a resignação é regra e aquele que luta é visto como anormal. Quebrar tudo no posto de saúde. Ajuda a aliviar a tensão, mas piora a saúde, uma vez que nem o atendimento e ainda a prisão. Quebradeiras solitárias não são eficazes.

Então, para alívio da doença há que encontrar alguma saída individual ou morrer. Mas, para o fim do sistema que explora e oprime as soluções precisam ser coletivas. Novas escolas de medicina precisam nascer. Outra medicina precisa vingar. Mas, isso não pode ser feito de forma isolada, dentro do sistema que temos. Há que fazer vingar outra forma de organizar a vida, porque as coisas precisam mudar na sua totalidade. Não basta uma mudança pontual, aqui ou ali, isso só faz com que a exceção fortaleça a regra. Há que se reconhecer o sistema de vida que temos, entender seus meandros, suas leis. E, depois, coletivamente, encontrar formas de mudar tudo. Se não for assim, seguiremos morrendo como ovelhas no sacrifício para o deus do capital.


terça-feira, 15 de outubro de 2013

O sacialismo

O psicólogo Bruno Simões fala sobre o trabalho com os indígenas em São Paulo e também sobre o "sacialismo" um forma nova de pensar a vida...


segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Ato público pelo Plano Diretor comunitário




Nesta terça-feira, dia 15, às 15h, em frente a prefeitura

Durante mais de sete anos dezenas de pessoas, em todos os bairros de Florianópolis, participaram de seminários, oficinas e reuniões semanais para a construção de uma proposta de Plano Diretor. Esse plano é o desenho da cidade para, no mínimo, os próximos 50 anos, no mínimo, e determina o traçado das ruas, as regras para a construção, as áreas de preservação, os espaços de lazer, a mobilidade. Com ele, a cidade se planeja e decide qual a proposta de desenvolvimento que quer para si.

Com a participação popular, o projeto foi sendo desenhado não apenas nos princípios gerais, mas também nos mapas, e cada comunidade pode apontar os caminhos que deseja seguir para evitar o caos urbano, que já aparece com força na capital dos catarinenses.

Agora, com a chegada do novo prefeito, o que se anuncia é que o Plano finalmente vai sair do papel. Para tanto, a prefeitura simplesmente destituiu o Núcleo Gestor Municipal e determinou que a proposta será entregue aos vereadores para discussão e aprovação. Ocorre que as comunidades não sabem que plano a prefeitura vai colocar na mesa. Até porque, nas reuniões que estão sendo chamadas nos bairros - sempre em cima da hora - os técnicos do IPUF não estão entregando o texto final do Plano e muito menos os mapas que definem concretamente o desenho da cidade. Com isso, as comunidades não estão tendo condições de fazer o debate, pois tudo está às cegas.

Há muita preocupação com isso, pois as comunidades temem que a prefeitura possa apresentar na Câmara de Vereadores uma proposta que não seja aquela que foi consolidada pelas discussões de mais de sete anos nos bairros da cidade. E existem informações de que o projeto será entregue nos próximos dias para os vereadores.

Por conta disso, a bancada popular do Núcleo Gestor Municipal do Plano Diretor está chamando um ato de repúdio ao atropelo e à farsa na finalização do anteprojeto do plano diretor de nossa cidade! Será no dia 15 de outubro, terça-feira, às 15h, em frente ao prédio da prefeitura, na rua Tenente Silveira. 


DIA: terça dia 15/10
HORA:15 horas
LOCAL: na frente da Prefeitura na Ten. Silveira (prox. à Catedral)

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Oscar Olivera – um lutador




O campus onde fica o Centro de Humanas da UFRGS é um lugar bucólico, bem distante de Porto Alegre. Diz a lenda que tiraram essa parte da universidade do centro porque os alunos das “sociais” incomodam demais, e ali, bem longe, ficariam mais isolados e com menos chance de causar problemas. Pois foi ali que se realizou a I Jornada Latino-Americana, promovida por professores do Colégio de Aplicação. Uma primeira tentativa de colocar as questões mais candentes que afetam o nosso continente de uma forma mais totalizante. Assim,  durante uma semana, a universidade conheceu os movimentos políticos, a cultura, a economia, a mídia, enfim, vários aspectos da luta popular que hoje assoma em toda Abya Yala.

No final da tarde calorosa, Oscar Olivera descansa, encostado ao muro que dá acesso ao prédio das Humanas. É um homem pequeno, parece um menino. Tem gestos comedidos e fala baixinha. Quem o vê não percebe, em primeira hora, o gigante que vive ali. Oscar Olivera é um dos mais importantes nomes da “Guerra da Água”, rebelião que aconteceu na cidade de Cochabamba, no ano 2000, quando a população conseguiu barrar a privatização da água. 

Tudo começou ainda em 1993, quando o então presidente Hugo Banzer acordou com uma multinacional a privatização do abastecimento de água da cidade, uma das mais populosas da Bolívia. As pessoas protestaram, mas o acordo foi mantido e logo, em 1999, a empresa Águas deTunari – misto de empresários bolivianos, estadunidenses e espanhóis – mostrava suas garras.  

A água, que é um direito humano universal, começou a faltar em vários espaços da cidade e as contas das famílias cresceram mais de 50%. Nas entranhas da cidade a população começou a se organizar para encerrar o contrato com a multinacional. Naqueles dias Oscar trabalhava numa fábrica de calçados e era, já de longa data, dirigente sindical. Sua batalha pela vida começou muito cedo, ainda menino, quando precisava vender massinhas na porta da escola para ajudar nas despesas da família que formava um grupo de 12 pessoas. Não bastasse a pobreza, ainda teve diagnosticada uma doença grave no coração, a qual, diziam os médicos, não lhe permitiria viver mais que vinte anos. Pois Oscar viveu, e não poupou emoções ao músculo que pulsava como uma bomba relógio. Desde mocinho percebeu que o único caminho para os trabalhadores é a organização e tão logo começou a trabalhar na fábrica já era delegado sindical. 

Enfrentou, nos anos 80, a ditadura de Luiz Garcia Meza atuando no Comitê Clandestino de Bases do Sindicato de Manaco e nos anos 90 dirigiu a Confederação dos Trabalhadores Fabris da Bolívia. Toda sua trajetória se fez no espaço sindical, e não foi fácil fazer a transição para o movimento popular que desembocou na chamada Guerra da Água. “Os companheiros sindicalistas não compreendiam a extensão daquele movimento que crescia no meio da população. Alguns chegaram a me pressionar, dizendo: o que tu tens a ver com isso da água? Então eu explicava para eles que eu trabalhava numa fábrica de sapatos, logo, tinha tudo a ver com a água. Sabe quanto litros de água são gastos para fazer um par de sapatos? Oito mil litros. Imaginem que a fábrica onde eu trabalhava fabricava 25 mil pares por mês. Quanto de água ia pelo ralo? Ora, a questão da água era uma questão para mim, sim, e eu fui atuar naquele movimento. Porque a água é um direito humano, não pode ser vendida”.   

Na região de Cochabamba as famílias tinham tradição do uso de sistemas comunitários de água, criados bem antes do império inca e a empresa multinacional, além de gerenciar o abastecimento oficial foi se apossando de todas as fontes de água do município. Por isso, já em 1999 as comunidades começaram a fazer os bloqueios de estrada, em protesto contra a usurpação da riqueza de todos, que era a água. “Nós começamos um trabalho de comunicação que era muito baseado no simbólico. Então a gente ia pelas comunidades, nas casas, explicava o que estava acontecendo e dizia: se vocês estão com a gente na luta, então coloquem na frente da casa uma wiphala (a bandeira do povo indígena). E de repente, as bandeiras foram aparecendo, tomando todas as casas, toda a cidade. Era uma outra forma de comunicar. Quem via a bandeira tremulando na frente da casa, sabia que ali morava um companheiro”, conta Oscar. E aquilo foi formando um grande espírito de luta.

No mês de janeiro de 2000, quando a empresa anuncia um aumento nas tarifas, o movimento explode. Outro momento de forte conotação simbólica é criado pela Coordenadora da Água e da Vida, na qual já atuava Oscar: as famílias são convidadas a trazerem as contas de luz para serem queimadas numa grande fogueira. “Aquilo também foi uma coisa muito forte, porque nos remeteu a nossa cultura mais arraigada, mais antiga. E queimamos as contas, e cantamos e dançamos”. Era o estopim de um processo de participação, de democracia direta, que iria desembocar na vitória das gentes.  Os protestos são avassaladores, o governo responde com muita repressão e até com a lei marcial. Muita gente é presa, ferida, morta. Os protestos se estendem até o mês de abril, sem trégua e tomam conta não só de Cochabamba, mas de outros departamentos do país. A disposição de luta da população organizada é vitoriosa e a empresa Bechtel, que criara a Águas de Tunari, é obrigada a se retirar do país. A água de Cochabamba volta para o controle público. 

A vitória das gentes na Guerra da Água vai servir de exemplo para a nova rebelião que explodirá em 2003, a chamada “Guerra do Gás”, quando, de novo, organizado e na luta renhida, o povo boliviano bota para correr mais um presidente. Os dois movimentos abrem o caminho para que, mais tarde, um sindicalista do ramo cocaleiro, possa ser eleito presidente da nação. 

Oscar fala com emoção sobre aqueles dias e avalia que Evo Morales não tem sido digno da esperança que se criou com a sua ascensão. Crítico do governo, ele vai mais longe e diz que, tanto Evo, como Correa, no Equador, e Lula, no Brasil, acabaram cooptando muitos lutadores, enfraquecendo a luta social. “Estamos sempre recomeçando. Não é fácil. Mas, ainda há luta e estamos vigilantes”. Basta ver a luta dos povos do Parque Nacional que abriga terras indígenas para impedir a construção de uma estrada por dentro da reserva natural.

Hoje, Oscar não trabalha mais em fábrica. Atua em uma escola rural onde ensina as crianças a conviver de maneira harmônica com a terra. E, mesmo ali, enfrenta o olhar de estupefação e a incompreensão dos colegas. “Os professores dizem: mas de que adianta ficar com as crianças na horta. Há que ensinar matemática, biologia, física. E eu explico: para fazer uma horta temos de medir a superfície, o volume, a profundidade. Isso é matemática. Para plantar uma beterraba a gente vai conhecendo sua conformação, seus nutrientes, isso é biologia, é química. E assim, numa simples horta, podemos ensinar geopolítica, economia, qualquer coisa. Nós temos de recuperar essa coisa fabulosa dos nossos ancestrais que era a relação com a terra, com a água, com a natureza. Atuar em harmonia, respeitar, compreender a nossa cosmovisão. Sem isso, não há como fazer política”.

O veterano da guerra da água acredita que os militantes sociais precisam estar atentos para as novas formas de mobilização. “No movimento pela água, os sindicalistas ficaram pra trás, no episódio do gás também. Há coisas novas brotando do seio do povo e nós precisamos estar atentos para isso. Os povos indígenas têm muito a ensinar, e não é voltar ao passado. É recuperar as experiências exitosas e atuar no presente”. 

Vendo Oscar Olivera e sua doçura no debate sobre coisas tão duras como as rebeliões do povo boliviano, bate aquela esperança de que, um dia, as pessoas possam, de fato, compreender a importância da herança indígena na formação da América Latina, e saibam aproveitar as belezas que essas etnias têm para oferecer ao movimento de luta atual.