quinta-feira, 11 de julho de 2013

Mercadorias humanas

Nesses dias em que o corpo grita e nos obriga a des-andar, nada mais me restou que a televisão. Assim, entre dores e delírios, fiquei a revirar os malfadados canais. Então, algumas notícias foram me deixando ainda mais doente. Desisti. Melhor ficar olhando para o nada. Mas, o nada não existe. Sempre há algo e, de inopino, aparece uma pequena aranha a tecer sua teia delicada e cruel. Fiquei a matutar sobre isso. Essas teias que vão enredando, sem dó nem piedade aqueles que andam por aí, despreparados. Voltei à notícia que tinha provocado engulhos. Na Europa, tão logo chegou, Neymar foi levado para fazer uma cirurgia de retirada das amígdalas. Segundo diziam os repórteres nada havia de errado com elas. Apenas que, sem as ditas, ele teria mais velocidade, sabe-se lá por que, a ciência explicaria ou quem sabe um desses feitores de escravos que levam guris brasileiros para a Europa.

Fiquei imaginando o garoto, longe de casa, numa mesa de operação, transformado em coisa. Tudo bem que ele não é uma vítima inocente. Sabe muito bem onde está metido. Mas, mesmo assim, senti dó. Diziam ainda os repórteres que a proposta era fazer com que ele adquirisse mais massa muscular, deixando, então, de ser quem é. O garoto miudinho, de pernas finas, a fazer maluquices com a bola. O que virará Neymar, pensei, entre delírios de aranha e bola. Um milionário transgênico, talvez. Assim como Ronaldo. Bichado antes dos 30.

Mais febre, mais delírios, a aranha sumiu. De novo, a TV ligada e, nos canais abertos, só o esporte me salva. Foi a vez dos comentários sobre o lutador de MMA, aquele, de fala fina, que era o xodó de todo mundo até ontem. Não vi a luta, não olhei as imagens, acredito que aquilo não é esporte. Igualmente me apena que alguém precise fazer aquilo para viver, sobre-viver. Não pode haver sentido em provocar dor em alguém. Mas, enfim, era a conversa. De olhos fechados ouvia que a luta teria sido uma armação. Que a derrota foi comprada. Que não havia como o rapaz ter perdido. Muito dinheiro haveria de estar em jogo. Fiquei pensando no cara. Teria vendido o cinturão? Teria recebido muita grana para viver o que vivera. De herói passou a nada em poucos meses. E o que diria ao filho? Aos vizinhos, aos amigos? Como irá à padaria, ao mercado? Ficou sobre ele a mancha indelével. Vendido!

Humilhados pelo capital, Neymar e Anderson. Um, transformado numa bola de carne, rasgado, maculado, para virar uma máquina de fazer gols. Suprema estupidez. Ele já é. O outro, vilipendiado, estupidificado, obrigado a perder para que o show não perdesse o brilho do inesperado. Veio-me à cabeça aquela velha canção de Simon em Garfunkel: The boxer.... Um homem, em pé, diante das lembranças da glória, um menino pobre apenas querendo ir para casa, dizendo a si mesmo: estou indo, estou indo... Mas o lutador permanece. Então, comecei a chorar.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Há que derrotar o oligopólio informacional




O Primeiro Seminário Unificado de Imprensa Sindical, promovido por um grupo de sindicatos de Florianópolis, partiu de uma pergunta, praticamente retórica: por que os trabalhadores não são notícias? Ora, essa questão tem uma resposta óbvia. Vivemos em processo de luta de classe no sistema capitalista que é predador. E, nesse sistema, quem detém o poder é quem determina o que sai na imprensa. A mídia comercial nada mais é do que uma ventríloqua do sistema. Através das bocas alugadas sai a matéria prima que sustenta a classe dominante. Por isso, as lutas dos trabalhadores não interessam à mídia, a não ser como possibilidade de sujar, embaralhar e enganar a população. Trabalhadores em luta são sempre vândalos, baderneiros, bando. Agora, nos protestos das últimas semanas, em Santa Catarina, ouvimos o coronel da polícia dizer claramente: "protegemos os manifestantes porque não são sindicatos, nem movimentos de trabalhadores, é a sociedade". Ora, e o que são os trabalhadores senão a sociedade? Para a classe dominante não. Assim, compreendendo isso parte do problema se esclarece. Os trabalhadores não são notícia porque suas lutas não interessam ao sistema. Dito melhor, essas lutas, que aparecem como desestabilizantes, precisam ser escondidas ou deturpadas. Por isso aparece quase como uma ingenuidade a ideia de "mais democracia" nos meios de comunicação. Aos grandes meios não há que pedir melhorias, há que tomá-los! Como? Essa pergunta ainda não tem resposta, mas é para ela que temos de caminhar.

Nesse universo de controle oligopólico da informação por parte dos meios comerciais - seis famílias ou grupos controlam tudo que vemos, lemos e escutamos -  estamos nós, os chamados meios alternativos, populares ou comunitários. E a pergunta que se faz necessária é: disputamos, de fato a hegemonia? Uma rádio comunitária, como é o nosso caso do Campeche, que poder tem diante do oligopólio? Como constituir uma audiência que de fato dispute com o Jornal do Almoço ou o RBS Notícias? Podemos fazer isso ou apenas atuamos na resistência?

A Rádio Campeche se diferencia de muitas rádios comunitárias porque foi criada desde a luta mesma. Nasceu da articulação orgânica de vários movimentos que já atuavam no bairro do Campeche na luta pelo plano diretor, pelo saneamento, pela qualidade de vida. Esses movimentos foram os que decidiram criar a Associação Radio Campeche. Então, ela é fruto legítimo da organização comunitária. Está no ar, 24 horas, desde 2004, embora tenha iniciado sua programação ao vivo só em  2006. Tenho o privilégio de fazer parte do grupo que instituiu o primeiro programa ao vivo, o Campo de Peixe, no ar até hoje. Nossos programas abrem os microfones para a comunidade e tudo que acontece no sul da ilha passa por ali, embora não tenhamos um programa específico de jornalismo diário. Ainda assim, todos os programas ao vivo tem o compromisso de trazer a voz da comunidade. Alguns conseguem mais outros menos.

Tivemos momentos importantes no bairro que mostram a força da rádio, como no caso do "Bar do Chico", espaço histórico da comunidade que foi derrubado pela prefeitura. Nos dias em que vinham as máquinas, havia uma chamada à população pelos microfones da rádio, as gentes acorriam ao bar, protegendo-o, e isso impediu muitas vezes que a prefeitura o colocasse no chão. Tanto que só conseguiram fazê-lo porque trouxeram as máquinas de madrugada, quando a comunidade dormia. Também quando ocorrem grandes chuvas e alagamentos, os líderes comunitários aportam na rádio para informar e organizar a comunidade. São coisas que definem o nosso trabalho. Mas, sabemos que 30 segundo no RBS Notícias podem por abaixo todas as informações que divulgamos durante os programas. Um exemplo disso foi a luta que travamos contra a destruição de parte da mata atlântica para a realização de um show do cantor estadunidense Ben Harper. Durante semanas fizemos campanha contra a derrubada das árvores, pela segurança das gentes e tivemos o apoio da comunidade. Mas, a entrada da RBS no tema fez com que muita gente se voltasse contra nós, acusando-nos de "contra o progresso". Conseguimos barrar a derrubada das árvores, mas o show aconteceu.

Nesse sentido é importante ressaltar que os meios de comunicação comunitários são importantes, é fato, mas, sozinhos, não conseguem competir com eficácia diante da alienação e confusão provocadas pela grande mídia. Nossa única chance como meios alternativos e comunitários é unir as forças e potencializá-las. Essa outra informação, que forma, que contextualiza, que esclarece, precisa estar em rede. Temos de reproduzir uns aos outros, formar grupos, replicar as notícias de cada um. Isso funciona em alguma medida, mas não é suficiente. A verdadeira saída é controlar os meios massivos. E, para isso, o desafio maior é o de mudar o estado, avançar para uma democracia participativa. Vai daí que essa é uma luta gigante a ser travada.

Agora estamos aí discutindo a lei de meios. Essa novidade começou com a Venezuela em 2004 , quando criou uma lei específica da comunicação que foi uma revolução no setor. Mas a Venezuela estava em processo de transformação, com o povo organizado e nas ruas, querendo mudança. Tanto que levaram dois anos discutindo, com ampla participação das gentes, o que resultou numa lei extremamente completa e democrática. Depois vieram leis similares na Argentina, na Bolívia, no Equador. Todos esses países estão em processo de transformação da forma de ser estado, com ampla participação popular nos debates, com movimentos sociais muito fortes, gente com poder de decisão.

No Brasil estamos tentando dar foco nessa questão, mas qual é a nossa chance? Temos uma Federação de Jornalistas extremamente formalista, sem perfil popular, que não encaminha lutas no chão da vida. Temos o fórum de democratização da comunicação e o Intervozes que estão nesses debate, mas são financiados por fundações estrangeiras, do tipo Ford. Isso é problemático, uma vez que sabemos muito bem qual é o papel dessas fundações estadunidenses no mundo: desmobilizar, desfazer, desestruturar. Temos um Congresso Nacional dos mais conservadores, com ampla bancada de proprietários de meios de comunicação. Assim, como vamos avançar para uma lei de meios se não tivermos uma sociedade em ebulição como é o caso dos países já citados? Se esse debate não se encarnar na vida real, nos movimentos sociais, nos sindicatos, corremos o risco de construir uma lei de meios minotáurica, disforme, formal, não revolucionária.

Então, o papel dos trabalhadores e imprensa sindical é bem mais importante do que apenas compreender como fazer as notícias das lutas saírem nos jornais. Enquanto esses jornais, rádios e TVs estiverem na mão da classe dominante nada vai mudar. É preciso dar combate para construir uma outra forma de ser estado, com verdadeira participação popular. O Vito Gianotte tem falado aí há anos sobre isso, sobre os sindicatos se unirem e construírem veículos massivos de comunicação, mas a gente vê que a coisa não avança. Poucos usam dos seus meios de comunicação para tratar de assuntos fora do mundo do trabalho. Preferem apostar em proselitismo, em discursos vazios. Os trabalhadores precisam de informação de qualidade, de análise sobre o que acontece no mundo, na aldeia. Eles não são otários. E temos de dar a eles uma "fina iguaria", como dizia o grande repórter Marcos Faermann. Mas, fundamentalmente temos de dar batalha a esse estado, fomentar a rebeldia, a desconstrução, a transformação. Sem isso, só faremos remendos...


terça-feira, 2 de julho de 2013

Jornalismo, jornalistas e o dever da verdade

Por José Cristian Góes*

Impressionante como alguns colegas jornalistas não conseguem entender (ou não querem) o porquê das ações agressivas e persistentes contra repórteres e veículos de comunicação em quase todas as manifestações pelo país. Convenhamos, não precisa muito esforço para querer entender esse fenômeno.

Primeiro, deixo bem claro meu posicionamento contundente contra qualquer violência, seja do Estado, do mercado e das pessoas. Nada, absolutamente nada justifica a violência, nenhuma forma violência, nem as explícitas e nem as veladas. É o que penso.

As manifestações que tomam contam do país têm uma pauta muito além da redução do preço do ônibus e isso parece bem clar o. No fundo, os atos apontam consistentes críticas às instituições sociais porque elas não responderiam mais as demandas, as necessidades da sociedade. 

A corrupção privada e pública, a injustiça contra muitos e o grande lucro de poucos são centrais no sistema capitalista. As instituições sociais foram tomadas pelo capital e por seus interesses, estando mergulhadas até a alma nesse fosso. Nos limites do capitalismo elas esgotaram-se.

Mas que instituições sociais são essas? A Política, por exemplo, (partidos, regras e financiamentos eleitorais, participação); o Estado (Executivo, Legislativo e Judiciário) e sua forma de organização e financiamento; a Organização social (associações, sindicatos, entidades religiosas); o Jornalismo (imprensa).

Essas instituições têm um traço comum: a representação social. E a essência da crítica estaria aí. Esclarecendo, política, Estado, entidades civis, imprensa não mais re presentam de forma preponderante os interesses da maioria. Vivemos uma crise de representatividade. Isso é um fenômeno mundial e já faz tempo. O descrédito é a tônica.

Ocorre que as instituições não são entes abstratos. Elas se materializam nos homens e mulheres que as compõem e em suas atividades cotidianas. Na prática, a crise está na enorme distância entre representantes e representados, entre compromissos e realizações, entre promessas de fidelidade e ações concretas de traição, entre o discurso e a prática. 

O PT, apenas para citar um exemplo, enquanto ideia de realização contribuiu imensamente para essa desesperança, à medida que inverteu significativamente à lógica da esperança depositada nele.

E a imprensa nessa história? 

O jornalismo também é uma instituição social e adquire essa condição porque se comprometeu com a sociedade com o “dever da verdade”, doa em quem doer. Ou não foi is so? Nós (as audiências) concedemos ao jornalismo a tarefa de representação dos interesses de todos. Acreditamos ser o jornalismo um farol que nunca se apaga, isto é, estará sempre atento e pronto (sem jamais descansar) para fiscalizar e denunciar, por exemplo, os atos corrupção no sistema político.

Há um contrato tácito entre jornalismo e sociedade. Esse acordo prevê que o jornalismo oferecido pela imprensa a todos considera que a informação de relevante interesse público é um direito fundamental para o exercício da cidadania e que os jornalistas não podem admitir que esses direito seja impedido por nenhum tipo de interesse (Código de Ética dos Jornalistas). Grife-se: nenhum tipo de interesse.

Agora, avalie criticamente: Imprensa e jornalistas têm cumprido esse acordo do dever da verdade? As coberturas da imprensa revelam a supremacia absoluta do interesse público sobre os interesses privados? Como tem ocorrido a seleção e o enfo que das notícias? Há manipulação e inversão? Há mentira em lugar da verdade? Omite-se para atender interesses políticos e econômicos? Há sensacionalismo e criminalização das camadas populares? Quem tem fala preponderante nas notícias: os políticos, os empresários, o Estado, a polícia? 

À prática cotidiana do jornalismo impõe-se o exercício da reflexão sobre a atividade jornalística, exatamente em razão de a imprensa ser uma importantíssima instituição social. Infelizmente essa avaliação da prática do jornalismo é raríssima entre os próprios jornalistas e impensável pelos meios. Aliás, a mídia – enquanto sistema - tem verdadeiro horror e pavor da ideia de receber críticas, o que é profundamente antidemocrático.

Alguém apressadamente pode gritar: mas o jornalista é apenas um profissional que estaria a serviço da empresa, do dono dos meios. Calma com o andor. Não é bem assim, não. De fato, não se pode desconhec er que a maioria dos veículos está nas mãos de políticos, de suas famílias e de gente que trata o jornalismo como negócio. Independente da linha política dos empresários e da natureza das empresas, o jornalista é corresponsável em todo processo de informação.

O compromisso fundamental do jornalista é com a verdade no relato dos fatos e ele deve pautar seu trabalho na precisa apuração dos acontecimentos e na sua correta divulgação (Código de Ética dos Jornalistas). Não é o dono do veículo quem vai para rua, não coloca o revólver na cabeça do repórter diz como deve ser feito o trabalho. Nenhuma linha editorial pode contrariar o dever da verdade, a precisa apuração e divulgação dos acontecimentos.

Um fato concreto: há uma manifestação de 15 mil pessoas nas ruas. Movimento pacífico. O ato dura mais ou menos seis horas. São inúmeras as reivindicações, as pautas, as figuras, as músicas, etc, etc e etc. O ato termina tran quilo. Depois de encerrado algumas pessoas (seis ou sete) resolvem jogar pedras e tocar fogo. Alguns são presos. Claro, a imprensa cobre tudo e tem que cobrir mesmo. É acontecimento.

Quando vai se noticiar estão em destaque nas manchetes e fotos, isto é, como enfoque principal sobre a manifestação: “depredação, crime, vandalismo, quebra-quebra, saques, ônibus incendiado, terror, bombas, paus e pedras, etc, etc”. O ato foi isso mesmo? Só isso? São presas 31 pessoas (muitas sem provas), todas rotuladas como “bandidos, criminosos, canalhas, vermes, pulhas”, etc e etc. Nas notícias a versão oficial é a versão da polícia, e apenas são revelados os nomes e fotos dos presos, não por coincidência, pobres. Ou seja, há uma profunda desproporcionalidade na angulação do acontecimento, inversão, manipulação e a sociedade não engole mais passivamente isso.

Assim, a cobertura jornalística não informa, apenas contribui para o medo, p ara o pânico social, criminalizando todo e qualquer movimento reivindicatório. Qual será a reação das pessoas na próxima manifestação diante da imprensa? De apoio ou rejeição? Pior, além de desqualificar essas e outras coberturas – por má fé ou incompetência – parte da imprensa ainda carrega a arrogância de querer dar direção, impor, manipular as pautas de reivindicações populares, incentivando o comportamento de manada, de um nacionalismo tirano e fascista.

Três detalhes para finalizar: primeiro que o povo não é bobo. Até finge ser, mas não é. Tem uma paciência imensa. Demora, demora, dá muitas e muitas chances, mas tudo tem limite e acorda. Por exemplo, não foi a grande e velha mídia quem convocou as grandes manifestações. O povo não foi às ruas por causa de sua convocação, que não existiu. Os atos ocorreriam independentemente do jornal A, da tv B e da rádio C fazer convocação e cobrir. 

Segundo que essa cris e de representatividade envolvendo o jornalismo como uma instituição social revela um modelo falido de imprensa e uma forma ultrapassada de fazer jornalismo. Não se aceita mais com muita passividade a mentira, a manipulação, a omissão, a criminalização, a versão oficial do Estado e do mercado como única e intocável verdade. O desmascaramento não trata a aparecer. As redes sociais estão em prontidão.

Não é preciso reinventar o jornalismo nem a imprensa, mas se deve dedicar ao exercício do que essa instituição social se propõe: o dever da verdade, da pluralidade, da diversidade, do senso de justiça e respeito aos direitos humanos.

E por fim, o terceiro e talvez o mais importante detalhe: esse momento de crise é excelente para que jornalistas, empresas e entidades da sociedade civil façam uma aprofundada reflexão sobre esta instituição social. Lembre-se, por exemplo, que empresas de rádio e tv são concessões públicas. Já pass ou da hora da imprensa ser pensada e repensada enquanto atividade. 

Esta é uma oportunidade que muitos, por própria arrogância, sequer cogitam debater. Bom, para esses, as coberturas jornalísticas continuarão sendo realizadas com jornalistas sem identificação, com medo em cima dos prédios, com a contratação de seguranças e colocando em risco seus profissionais, ampliando ainda mais o fosso entre jornalismo e a sociedade.

Reafirmo meu claro meu posicionamento contra qualquer violência, seja do Estado, do mercado e das pessoas. Nada, absolutamente nada justifica a violência, nenhuma forma violência. E sustento que a imprensa deveria aproveitar o bom momento para tomar um chá de humildade e reflexol. Faria muito bem ao jornalismo e melhor ainda para a sociedade.


*Jornalista e ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas/SE, mestrando em Comunicação/UFS

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Receita para um dia gris


Tem esses dias em que a alma está gris. O sentimento de abandono aflora, e a gente se encolhe feito um gato de rua, esperando que alguém ofereça um afago. Mas, não. Nenhum olhar piedoso, nenhum sorriso, todos estão muito ocupados consigo mesmos. Não bastassem todas as dores do mundo a criatura ainda precisa ir à loja da Oi resolver problemas que estão pendentes há meses. É que operadoras de telefones no Brasil são empresas do cão. Não te atendem por telefone e quando atendem não encaminham o serviço. Então, estava resolvido. Haveria que ir à loja onde tem algum ser humano capaz de atender.

O problema é simples. Trocar o endereço da linha. O pedido foi feito via telefone há quatro meses num atendimento feito por aqueles seres que a gente nunca sabe se são pessoas, se são robôs, se moram em Goiás ou na China. Tudo é muito estranho e frustrante. Passam dezenas de números de protocolo e quando tu pedes para ver o atendimento referente ao protocolo eles não encontram. E assim, vai. A pessoa pendurada no telefone, tendo ataques de nervos. E aquela voz robótica a dizer: sinto muito senhora fulana, não encontramos senhora fulana. E a pessoa a se arrancar os cabelos. A puta que te pariu! E o pobre do ser do outro lado, balbuciando as mesmas palavras, numa algaravia tão impotente quanto a do que reclama.

Dois ônibus depois e lá está o vivente na loja da Oi, que fica dentro do centro de compras Beira Mar. O atendente é um humano. Confere. Até sorri. “Meu filho, tô há quatro meses querendo trocar esse endereço”. – Hum!.... Tac tac tac no computador. “Sinto muito senhora fulana, mas não podemos fazer nada. O número é de fora”. “Mas como não podem, não estão conectados? Não usam a internet?”. “Sim, mas o sistema é fechado. Só podemos entrar no 48.” E não adianta chorar, espernear, arrancar os cabelos, cair em lágrimas. Não há o que fazer. O rapaz fica olhando como um cordeiro, assustado com o ataque histérico.   

Lá vai a criatura para o Procom, ver se encontra algum aconchego. Pega a senha e fica, fica, fica. Quando chega a vez. “Trouxe o protocolo? Tem que ter o protocolo”. “Mas aquilo não vale nada”. “É, mas sem o protocolo nem adianta”. Ódio ao cubo. Tivesse uma garrucha fazia um estrago, como aquele do filme “Um dia de fúria”. Sai da sala aos prantos. Chora pelo Procom, pela Oi, pela amiga que se foi, pela solidão, pelo medo, pelo amigo que a apunhalou. Chora sem parar, desfeita, desalojada de si. Está perdida.

Então, do nada, sento o cheiro que voeja por sobre o dia gris. É quentão. Um homem, com um carrinho, cheio de pinhão e quentão. É isso. Não precisa nada mais. “Me dá um copo”. “Grande ou pequeno?” “O maior”. E ele dá o copo fumegante, aquele cheiro de cravo, canela, gengibre e sei lá mais o que. Quentinho, vai descendo garganta abaixo, aquecendo a alma cinzenta. Gole, e gole e gole. A criatura vai andando pela Felipe com o quentão fumegante. Senta na mesinha de jogar xadrez, que está vazia. E fica ali, sorvendo aquele tanto de São João, de criancices em minas, de saudade da mãe. As lágrimas vão parando, o riso vai voltando e tudo à volta vai se colorindo. Um quentão. Apenas um quentão. Bãodimaissô!

sexta-feira, 28 de junho de 2013

A mulherzinha pequena




Era um menino. Seu cotidiano era correr pela rua de areia, perseguir os gatos, empinar pipa, caçar corujas, jogar carreira com os cães, pular poças de água, jogar amarelinha. O momento mais tenso era o ir para a escola. Fechava a cara, resmungava renitente e seguia pela estrada afora, carregando, mal-humorado, a velha sacola dos livros. Não lhe agradava aquele tipo de lugar. Muitas regras, muita atenção, muito cuidado com coisas desinteressantes. Assim, àquelas horas da manhã era puro aborrecimento. Passava a maior parte do tempo olhando para a janela, como se o simples fato de ver o “lá fora” trouxesse a liberdade. E o tempo ia escoando, enquanto ele contava os minutos para sair feito um bólide, perseguindo alguma borboleta.

Ele não lembra bem quando ela chegou, como foi, o que aconteceu, sequer o seu nome. Só sabe que aos poucos, aquela mulherzinha pequena foi prendendo sua atenção. De alguma forma ela colocou mágica nos aborrecidos deveres de matemática, os números passaram a fazer sentido, dançavam, coloriam, inventavam mundos. Seu cheiro de hortelã, sua risada sapeca, e aquela piscadela marota quando queria convencer que a coisa mais bela do mundo era a tabuada, tudo somava para enreda-lo numa deliciosa rede de descobertas. Quando a sineta batia e ele arrancava para fora da escola, a rua ia assumindo outros contornos e ele se via fazendo contas. Uma borboleta, mais uma joaninha, mais uma cigarra eram três integrantes da banda de música do jardim. Bem assim ela ensinava.  E ele ria o riso cristalino de quem estava a descortinar as coisas importantes da vida. A rua e a escola agora combinavam. Conhecer era isso: combinar, sem alienar a fantasia.

O tempo passou, o menino cresceu. E por mais que a turba de alienados fosse grande ao longo de toda sua vida escolar, aquela mulherzinha pequena que lhe ensinara matemática nunca saíra de sua cabeça. Fora por ela que seguira a louca ideia de ser cientista, de arranjar-se com números a descobrir os segredos do universo. Vez ou outra, quando as coisas embaralhavam ele sentia o cheiro de hortelã, e mergulhava outra vez. Nas manhãs de outono, quando fraquejava diante de uma equação insolúvel, podia ouvir a risada de cristal anunciando que bastava olhar para a vida mesma que ali estariam as respostas. Os números voltavam a dançar e tudo clareava.

Ontem, de inopino, ele prestou atenção ao filho pequeno que ruminava pragas enquanto se arrumava para ir à escola. Era um pequeno homenzinho, sem rua de areia, sem pés descalços, sem nariz ranhento,  sem borboletas. Seu mundo era o quarto, onde visitava universos inóspitos através do vídeo game. “Conte-me sobre os teus professores... Existe algum que faça os números dançarem? Alguma que tenha riso de cristal e cheiro de hortelã?” O guri olhou de revés. “Bebeu, pai? Na escola só temos regras, e ordens, e gente chata”. E saiu, emburrado, carregando o mundo nas costas. O homem ficou, perplexo, dando-se conta que a escola já não é mais espaço mágico onde a rua combina com os saberes formais. Mudou o tempo? Mudou a escola? Não existem mais mulheres que conseguem ser meninas de riso solto, saltitando pela fantasia, apesar de já serem gente grande?

Sentiu pena do filho e de todos os outros que não se encantarão com números, ou letras, ou fórmulas, ou fatos. Pensou que é preciso que haja mais gente capaz de entender, de fato, de almas de meninos, como aquela mulherzinha pequena, de tantos anos atrás...

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Eleições na Fenaj, e eu com isso?



Já está em andamento a campanha eleitoral para a Federação dos Jornalistas. Muita gente que está chegando agora na profissão, e mesmo os mais antigos, não tem muita noção do que seja a federação e qual o papel que ela representa no nosso cotidiano. Isso por si só já é um dado revelador. Se uma federação de trabalhadores não está encarnada na vida concreta da categoria a qual representa, alguma coisa não deve andar bem.

A organização sindical brasileira atual se estrutura dentro de um sistema confederativo, criado em 1930. Na base está o sindicato, há uma estrutura intermediária que é a federação, depois a confederação. O sindicato é a estrutura mais próxima do trabalhador, atua na organização da categoria, encaminha as lutas, faz as negociações diretamente com os patrões, assina acordos coletivos. A federação é uma estrutura que reúne vários sindicatos (no mínimo cinco) representativos de uma determinada categoria e sua função é articular as lutas em nível nacional, disponibilizar análises periódicas de conjuntura, debater nacionalmente os problemas da categoria, definir a linha política da luta nacional, discutir a formação dos trabalhadores. Existe para potencializar a luta. As confederações tem semelhante papel e reúne federações, também para garantir maior poder de barganha nas disputas entre trabalhador e patrão. Por conta disso é que a classe patronal também se organiza em federações e confederações.

A Fenaj é uma federação, entidade que reúne os Sindicatos de Jornalistas do país e seu papel deveria ser o de garantir os instrumentos políticos aos sindicatos de base a ela filiados, para que esses pudessem se fortalecer e enfrentar os patrões – que são singulares, regionais, de diversos pesos e tamanhos. Mas, no campo dos jornalistas, o que se vê é uma federação completamente descolada dos grandes problemas nacionais e dos trabalhadores jornalistas. Basta se perguntar: qual a última avaliação de conjuntura da Fenaj que foi divulgada? Como a federação está atuando no sentido de garantir informações sobre a realidade nacional, sobre a situação das empresas oligopólicas, para que os sindicatos possam atuar com mais segurança na hora de negociar salários? Qual a posição da Fenaj sobre os acontecimentos que têm balançado o país nas últimas semanas? Como garante aos sindicatos filiados subsídios políticos e de formação para que esses possam melhor informar seus trabalhadores de base? Que papel tem representado na luta contra os oligopólios, contra as seis famílias que mandam na comunicação brasileira? No geral o que se vê é a denúncia das agressões a jornalistas, más condições de trabalho, coisas necessárias, mas não suficientes.

Ao longo dos últimos anos um mesmo grupo político tem comandado a Fenaj. O que se vê é uma troca de cadeiras nos cargos, mas, ao fim, são praticamente as mesmas pessoas que vão se perpetuando nas instâncias, muitas vezes criando verdadeiros feudos, intocáveis. Entra ano, sai ano e a categoria dos jornalistas vai administrando perdas. O grande debate que deveria ser feito pela Fenaj – que diz respeito ao poder das empresas e suas práticas de superexploração dos trabalhadores – fica subsumido em lutas particulares que reduzem danos, é fato, mas não atacam as verdadeiras causas. A Fenaj praticamente perdeu sua cara sindical. Não há lutas, não há formação para a rebeldia, não há um embate real contra os oligopólios da comunicação.

Como então que essa política de “bom mocismo” e de negociações de gabinete da Fenaj interfere na vida de cada um, mesmo daqueles que sequer são filiados a um sindicato? Disseminando entre os sindicatos filiados essa forma de agir, titubeante com relação aos poderosos, ao governo. A Fenaj faz algumas campanhas importantes, mas que se configuram em lutas pontuais – a defesa do diploma, o assédio moral, as diretrizes curriculares dos cursos de jornalismo. Lutas necessárias, sem dúvida, mas, repito, não suficientes. A categoria dos jornalistas é bastante heterogênea. Nos dias atuais há uma grande parcela que trabalha “por conta”, freelance, “pessoa projeto”, pessoas que estão longe de qualquer proteção trabalhista legal, precisam se virar sozinhas, são as que negociam seus vencimentos direto com o contratador. Muitos sequer estão se preparando para a velhice, para aposentadoria. Outros se transformaram legalmente em empresas, os famosos “pejotizados” e seguem trabalhando para os oligopólios, no mais das vezes duplamente explorados porque uma vez que são “empresários” já não têm o direito do descanso, das férias e tudo mais. Alguns se dão bem e ficam ricos, mas a maioria rala muito para fechar o ano. E há os que estão no “chão da fábrica”, os que trabalham nos jornais, emissoras de televisão, agências de notícias. Esses trabalhadores de carteira assinada são os mais desprotegidos. Acossados pela máquina de moer que são as empresas, têm a vida sugada na famosa multifunção. Jornalistas cumprindo a função de vários profissionais com um único salário: apuram a notícia, redigem, entrevistam, fazem vídeo para o blog do jornal, fotografam para o blog, alimentam o blog, redigem a matéria do jornal de papel, dirigem o carro, enfim, vivem a exploração elevada ao cubo.

Pois esses dramas pessoais e coletivos praticamente não são considerados nas análises, nas propostas, nos encontros nacionais, nas políticas que saem da federação e se espraiam pelos estados, via sindicatos. E, sem uma direção mais segura e guerreira, as entidades de base fazem o que podem para reduzir os danos que vão aparecendo a cada dia. As políticas, ao não atacarem a causa central da exploração, acabam sendo paliativas, sem  trazer perspectiva de melhoras para os trabalhadores.

Agora, às vésperas de nova eleição para a Fenaj, há uma proposta de mudança que é o grupo do Luta, Fenaj. Porque por todo o país existem jornalistas que querem uma federação que enfrente a batalha com os grandes empresários da comunicação, que denuncie o oligopólio, que faça campanhas enraizadas na vida cotidiana do jornalista, que garanta os instrumentos teórico-políticos aos dirigentes sindicais para que possam atuar com mais valentia e segurança nas bases, que produza análises de conjuntura, que interfira na vida real dos trabalhadores oferecendo conhecimento, informação, formação, que debata os grandes temas nacionais, as matrizes do pensamento, os desafios do milênio. Uma federação que tenha uma política de enfrentamento com as empresas exploradoras dos trabalhadores e das gentes, já que as mesmas são verdadeiras usinas, produtoras de mais-valia ideológica, alienando quem as consome e consumindo quem as produz. Jornalistas há que acreditam que já basta de reuniões de gabinete que levam a lugar nenhum. Que é chegada a hora de essa federação assumir uma cara sindical, de combate real.

Para quem está na redação, nas assessorias, ou mesmo em casa esse debate e essa eleição podem parecer coisas que não tem nada a ver com sua vida, com o pão na mesa que precisa garantir Mas, desgraçadamente, tem. É a federação que, em última instância, dá a direção sobre como atuar com os patrões, sobre o país que queremos, sobre as possibilidades de emancipação ou não. E isso interfere diretamente no cotidiano de quem vive de fazer jornalismo.

Então, pense nisso. No dia da eleição, escolha a proposta da mudança. A Fenaj sindical, de luta. Não hesite. Dê o seu voto ao Luta, Fenaj - Chapa 2.


Mais informação sobre as propostas no sítio da Chapa: http://www.lutafenaj.com.br/

quarta-feira, 26 de junho de 2013