segunda-feira, 1 de julho de 2013

Receita para um dia gris


Tem esses dias em que a alma está gris. O sentimento de abandono aflora, e a gente se encolhe feito um gato de rua, esperando que alguém ofereça um afago. Mas, não. Nenhum olhar piedoso, nenhum sorriso, todos estão muito ocupados consigo mesmos. Não bastassem todas as dores do mundo a criatura ainda precisa ir à loja da Oi resolver problemas que estão pendentes há meses. É que operadoras de telefones no Brasil são empresas do cão. Não te atendem por telefone e quando atendem não encaminham o serviço. Então, estava resolvido. Haveria que ir à loja onde tem algum ser humano capaz de atender.

O problema é simples. Trocar o endereço da linha. O pedido foi feito via telefone há quatro meses num atendimento feito por aqueles seres que a gente nunca sabe se são pessoas, se são robôs, se moram em Goiás ou na China. Tudo é muito estranho e frustrante. Passam dezenas de números de protocolo e quando tu pedes para ver o atendimento referente ao protocolo eles não encontram. E assim, vai. A pessoa pendurada no telefone, tendo ataques de nervos. E aquela voz robótica a dizer: sinto muito senhora fulana, não encontramos senhora fulana. E a pessoa a se arrancar os cabelos. A puta que te pariu! E o pobre do ser do outro lado, balbuciando as mesmas palavras, numa algaravia tão impotente quanto a do que reclama.

Dois ônibus depois e lá está o vivente na loja da Oi, que fica dentro do centro de compras Beira Mar. O atendente é um humano. Confere. Até sorri. “Meu filho, tô há quatro meses querendo trocar esse endereço”. – Hum!.... Tac tac tac no computador. “Sinto muito senhora fulana, mas não podemos fazer nada. O número é de fora”. “Mas como não podem, não estão conectados? Não usam a internet?”. “Sim, mas o sistema é fechado. Só podemos entrar no 48.” E não adianta chorar, espernear, arrancar os cabelos, cair em lágrimas. Não há o que fazer. O rapaz fica olhando como um cordeiro, assustado com o ataque histérico.   

Lá vai a criatura para o Procom, ver se encontra algum aconchego. Pega a senha e fica, fica, fica. Quando chega a vez. “Trouxe o protocolo? Tem que ter o protocolo”. “Mas aquilo não vale nada”. “É, mas sem o protocolo nem adianta”. Ódio ao cubo. Tivesse uma garrucha fazia um estrago, como aquele do filme “Um dia de fúria”. Sai da sala aos prantos. Chora pelo Procom, pela Oi, pela amiga que se foi, pela solidão, pelo medo, pelo amigo que a apunhalou. Chora sem parar, desfeita, desalojada de si. Está perdida.

Então, do nada, sento o cheiro que voeja por sobre o dia gris. É quentão. Um homem, com um carrinho, cheio de pinhão e quentão. É isso. Não precisa nada mais. “Me dá um copo”. “Grande ou pequeno?” “O maior”. E ele dá o copo fumegante, aquele cheiro de cravo, canela, gengibre e sei lá mais o que. Quentinho, vai descendo garganta abaixo, aquecendo a alma cinzenta. Gole, e gole e gole. A criatura vai andando pela Felipe com o quentão fumegante. Senta na mesinha de jogar xadrez, que está vazia. E fica ali, sorvendo aquele tanto de São João, de criancices em minas, de saudade da mãe. As lágrimas vão parando, o riso vai voltando e tudo à volta vai se colorindo. Um quentão. Apenas um quentão. Bãodimaissô!

sexta-feira, 28 de junho de 2013

A mulherzinha pequena




Era um menino. Seu cotidiano era correr pela rua de areia, perseguir os gatos, empinar pipa, caçar corujas, jogar carreira com os cães, pular poças de água, jogar amarelinha. O momento mais tenso era o ir para a escola. Fechava a cara, resmungava renitente e seguia pela estrada afora, carregando, mal-humorado, a velha sacola dos livros. Não lhe agradava aquele tipo de lugar. Muitas regras, muita atenção, muito cuidado com coisas desinteressantes. Assim, àquelas horas da manhã era puro aborrecimento. Passava a maior parte do tempo olhando para a janela, como se o simples fato de ver o “lá fora” trouxesse a liberdade. E o tempo ia escoando, enquanto ele contava os minutos para sair feito um bólide, perseguindo alguma borboleta.

Ele não lembra bem quando ela chegou, como foi, o que aconteceu, sequer o seu nome. Só sabe que aos poucos, aquela mulherzinha pequena foi prendendo sua atenção. De alguma forma ela colocou mágica nos aborrecidos deveres de matemática, os números passaram a fazer sentido, dançavam, coloriam, inventavam mundos. Seu cheiro de hortelã, sua risada sapeca, e aquela piscadela marota quando queria convencer que a coisa mais bela do mundo era a tabuada, tudo somava para enreda-lo numa deliciosa rede de descobertas. Quando a sineta batia e ele arrancava para fora da escola, a rua ia assumindo outros contornos e ele se via fazendo contas. Uma borboleta, mais uma joaninha, mais uma cigarra eram três integrantes da banda de música do jardim. Bem assim ela ensinava.  E ele ria o riso cristalino de quem estava a descortinar as coisas importantes da vida. A rua e a escola agora combinavam. Conhecer era isso: combinar, sem alienar a fantasia.

O tempo passou, o menino cresceu. E por mais que a turba de alienados fosse grande ao longo de toda sua vida escolar, aquela mulherzinha pequena que lhe ensinara matemática nunca saíra de sua cabeça. Fora por ela que seguira a louca ideia de ser cientista, de arranjar-se com números a descobrir os segredos do universo. Vez ou outra, quando as coisas embaralhavam ele sentia o cheiro de hortelã, e mergulhava outra vez. Nas manhãs de outono, quando fraquejava diante de uma equação insolúvel, podia ouvir a risada de cristal anunciando que bastava olhar para a vida mesma que ali estariam as respostas. Os números voltavam a dançar e tudo clareava.

Ontem, de inopino, ele prestou atenção ao filho pequeno que ruminava pragas enquanto se arrumava para ir à escola. Era um pequeno homenzinho, sem rua de areia, sem pés descalços, sem nariz ranhento,  sem borboletas. Seu mundo era o quarto, onde visitava universos inóspitos através do vídeo game. “Conte-me sobre os teus professores... Existe algum que faça os números dançarem? Alguma que tenha riso de cristal e cheiro de hortelã?” O guri olhou de revés. “Bebeu, pai? Na escola só temos regras, e ordens, e gente chata”. E saiu, emburrado, carregando o mundo nas costas. O homem ficou, perplexo, dando-se conta que a escola já não é mais espaço mágico onde a rua combina com os saberes formais. Mudou o tempo? Mudou a escola? Não existem mais mulheres que conseguem ser meninas de riso solto, saltitando pela fantasia, apesar de já serem gente grande?

Sentiu pena do filho e de todos os outros que não se encantarão com números, ou letras, ou fórmulas, ou fatos. Pensou que é preciso que haja mais gente capaz de entender, de fato, de almas de meninos, como aquela mulherzinha pequena, de tantos anos atrás...

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Eleições na Fenaj, e eu com isso?



Já está em andamento a campanha eleitoral para a Federação dos Jornalistas. Muita gente que está chegando agora na profissão, e mesmo os mais antigos, não tem muita noção do que seja a federação e qual o papel que ela representa no nosso cotidiano. Isso por si só já é um dado revelador. Se uma federação de trabalhadores não está encarnada na vida concreta da categoria a qual representa, alguma coisa não deve andar bem.

A organização sindical brasileira atual se estrutura dentro de um sistema confederativo, criado em 1930. Na base está o sindicato, há uma estrutura intermediária que é a federação, depois a confederação. O sindicato é a estrutura mais próxima do trabalhador, atua na organização da categoria, encaminha as lutas, faz as negociações diretamente com os patrões, assina acordos coletivos. A federação é uma estrutura que reúne vários sindicatos (no mínimo cinco) representativos de uma determinada categoria e sua função é articular as lutas em nível nacional, disponibilizar análises periódicas de conjuntura, debater nacionalmente os problemas da categoria, definir a linha política da luta nacional, discutir a formação dos trabalhadores. Existe para potencializar a luta. As confederações tem semelhante papel e reúne federações, também para garantir maior poder de barganha nas disputas entre trabalhador e patrão. Por conta disso é que a classe patronal também se organiza em federações e confederações.

A Fenaj é uma federação, entidade que reúne os Sindicatos de Jornalistas do país e seu papel deveria ser o de garantir os instrumentos políticos aos sindicatos de base a ela filiados, para que esses pudessem se fortalecer e enfrentar os patrões – que são singulares, regionais, de diversos pesos e tamanhos. Mas, no campo dos jornalistas, o que se vê é uma federação completamente descolada dos grandes problemas nacionais e dos trabalhadores jornalistas. Basta se perguntar: qual a última avaliação de conjuntura da Fenaj que foi divulgada? Como a federação está atuando no sentido de garantir informações sobre a realidade nacional, sobre a situação das empresas oligopólicas, para que os sindicatos possam atuar com mais segurança na hora de negociar salários? Qual a posição da Fenaj sobre os acontecimentos que têm balançado o país nas últimas semanas? Como garante aos sindicatos filiados subsídios políticos e de formação para que esses possam melhor informar seus trabalhadores de base? Que papel tem representado na luta contra os oligopólios, contra as seis famílias que mandam na comunicação brasileira? No geral o que se vê é a denúncia das agressões a jornalistas, más condições de trabalho, coisas necessárias, mas não suficientes.

Ao longo dos últimos anos um mesmo grupo político tem comandado a Fenaj. O que se vê é uma troca de cadeiras nos cargos, mas, ao fim, são praticamente as mesmas pessoas que vão se perpetuando nas instâncias, muitas vezes criando verdadeiros feudos, intocáveis. Entra ano, sai ano e a categoria dos jornalistas vai administrando perdas. O grande debate que deveria ser feito pela Fenaj – que diz respeito ao poder das empresas e suas práticas de superexploração dos trabalhadores – fica subsumido em lutas particulares que reduzem danos, é fato, mas não atacam as verdadeiras causas. A Fenaj praticamente perdeu sua cara sindical. Não há lutas, não há formação para a rebeldia, não há um embate real contra os oligopólios da comunicação.

Como então que essa política de “bom mocismo” e de negociações de gabinete da Fenaj interfere na vida de cada um, mesmo daqueles que sequer são filiados a um sindicato? Disseminando entre os sindicatos filiados essa forma de agir, titubeante com relação aos poderosos, ao governo. A Fenaj faz algumas campanhas importantes, mas que se configuram em lutas pontuais – a defesa do diploma, o assédio moral, as diretrizes curriculares dos cursos de jornalismo. Lutas necessárias, sem dúvida, mas, repito, não suficientes. A categoria dos jornalistas é bastante heterogênea. Nos dias atuais há uma grande parcela que trabalha “por conta”, freelance, “pessoa projeto”, pessoas que estão longe de qualquer proteção trabalhista legal, precisam se virar sozinhas, são as que negociam seus vencimentos direto com o contratador. Muitos sequer estão se preparando para a velhice, para aposentadoria. Outros se transformaram legalmente em empresas, os famosos “pejotizados” e seguem trabalhando para os oligopólios, no mais das vezes duplamente explorados porque uma vez que são “empresários” já não têm o direito do descanso, das férias e tudo mais. Alguns se dão bem e ficam ricos, mas a maioria rala muito para fechar o ano. E há os que estão no “chão da fábrica”, os que trabalham nos jornais, emissoras de televisão, agências de notícias. Esses trabalhadores de carteira assinada são os mais desprotegidos. Acossados pela máquina de moer que são as empresas, têm a vida sugada na famosa multifunção. Jornalistas cumprindo a função de vários profissionais com um único salário: apuram a notícia, redigem, entrevistam, fazem vídeo para o blog do jornal, fotografam para o blog, alimentam o blog, redigem a matéria do jornal de papel, dirigem o carro, enfim, vivem a exploração elevada ao cubo.

Pois esses dramas pessoais e coletivos praticamente não são considerados nas análises, nas propostas, nos encontros nacionais, nas políticas que saem da federação e se espraiam pelos estados, via sindicatos. E, sem uma direção mais segura e guerreira, as entidades de base fazem o que podem para reduzir os danos que vão aparecendo a cada dia. As políticas, ao não atacarem a causa central da exploração, acabam sendo paliativas, sem  trazer perspectiva de melhoras para os trabalhadores.

Agora, às vésperas de nova eleição para a Fenaj, há uma proposta de mudança que é o grupo do Luta, Fenaj. Porque por todo o país existem jornalistas que querem uma federação que enfrente a batalha com os grandes empresários da comunicação, que denuncie o oligopólio, que faça campanhas enraizadas na vida cotidiana do jornalista, que garanta os instrumentos teórico-políticos aos dirigentes sindicais para que possam atuar com mais valentia e segurança nas bases, que produza análises de conjuntura, que interfira na vida real dos trabalhadores oferecendo conhecimento, informação, formação, que debata os grandes temas nacionais, as matrizes do pensamento, os desafios do milênio. Uma federação que tenha uma política de enfrentamento com as empresas exploradoras dos trabalhadores e das gentes, já que as mesmas são verdadeiras usinas, produtoras de mais-valia ideológica, alienando quem as consome e consumindo quem as produz. Jornalistas há que acreditam que já basta de reuniões de gabinete que levam a lugar nenhum. Que é chegada a hora de essa federação assumir uma cara sindical, de combate real.

Para quem está na redação, nas assessorias, ou mesmo em casa esse debate e essa eleição podem parecer coisas que não tem nada a ver com sua vida, com o pão na mesa que precisa garantir Mas, desgraçadamente, tem. É a federação que, em última instância, dá a direção sobre como atuar com os patrões, sobre o país que queremos, sobre as possibilidades de emancipação ou não. E isso interfere diretamente no cotidiano de quem vive de fazer jornalismo.

Então, pense nisso. No dia da eleição, escolha a proposta da mudança. A Fenaj sindical, de luta. Não hesite. Dê o seu voto ao Luta, Fenaj - Chapa 2.


Mais informação sobre as propostas no sítio da Chapa: http://www.lutafenaj.com.br/

quarta-feira, 26 de junho de 2013

sábado, 22 de junho de 2013

Uma mulher, em Cuzco...


Hoje celebra-se o Inti Raymi, milenar festa dos aymaras, quechuas, collas e outras etnias dos andes. Dia de dar pago a Pachamama, celebrar as colheitas e encaramujar-se na introspecção do inverno que começa. Por conta disso, lembrei de uma pessoa muito especial que conheci, em 2003, no Peru. Maria, mulher de ascendência inca, que vive na cidade de Cuzco.


Maria é uma dessas mulheres, herdeira dos povos originários, prisioneira de um atávico silêncio. Eu a vi vendendo pulseiras na praça de armas, mas não consegui estabelecer contato na primeira vez que a encontrei. Resmungou alguma coisa que ficou difícil de compreender em função de estarem suas bochechas cheias de folha de coca, as quais mascava lentamente. Foi só no dia seguinte que finalmente nos conhecemos. Ela veio a mim. O corpinho fraco, de costas curvadas, se achegou sem que eu percebesse. Naquela manhã de fevereiro eu chorava desconsolada, sem procurar abafar os soluços. Eu vivera uma odisseia pelas estradas de “nuestra América” para chegar até ali e, na porta de entrada do maior monumento da comunidade inca, não conseguiria chegar. O valor da passagem do trem até Machu Pichu era um absurdo, praticamente o mesmo tanto que eu pagara para chegar no Peru, percorrendo Paraguai, Argentina e Bolívia.

Mostrando que apesar do passar do tempo, tudo seguia muito igual, uma empresa espanhola é quem tem o domínio do caminho e, para chegar até a cidade perdida, havia que se aceitar as regras e o preço. Podia-se ir caminhando, mas, para isso, era preciso ter um guia e toda uma equipagem que, igualmente, encarecia a viagem. Sozinha, sem maiores informações, resolvi chorar. Sonhara com esse encontro por anos a fio e agora morreria na praia. Pensando assim eu me acabava em lágrimas bem em frente a enorme catedral – também espanhola -  aproveitando para atirar sobre ela milhares de maldições.


Foi aí que a mulher inca se acercou. Munida de sua sabedoria ancestral ela percebeu que ali estava uma companheira, talvez pelo ódio que fuzilavam meus olhos em direção às construções espanholas que margeiam a praça. Ainda mascava as folhas de coca, mas eu a compreendi muito bem. “Que pasa, nena?”


E eu desandei a falar do tanto que havia esperado para conhecer Machu Pichu e que agora não poderia, por não ter dinheiro suficiente. Ele me olhava com os olhos mansos. Então, solene, perguntou. “Veniste para sacar fotos o para saludar a los dioses?” Então foi a minha vez de ficar em silêncio. Aquelas gentes já deveriam andar fartas de ver milhares de turistas, com suas máquinas potentes, a caminhar pelas pedras sagradas desfilando suas posses e tirando fotos para os álbuns familiares, pouco se importando com a histórica dominação, até hoje visível. “Saludar los dioses”, respondi, sem titubear.


Então ela me convidou para segui-la. E lá fui eu, esquecida das lágrimas, pelas ruelinhas cuzqueñas, cheias de caminhos internos lotados de barracas de artesanato. Numa delas, Maria entrou. Lá dentro, uma profusão de ervas, ossos e outros instrumentos mágicos davam conta que aquele era o reduto de uma mulher especial. Ela procurou entre as coisas um saquinho cheio de pó e o passou para mim. Disse que se eu queria render homenagens aos deuses não precisava ir a Machu Pichu. Bastava subir, a pé, pelo lado norte, até Sacsayhuaman e lá fazer uma singela celebração. Ensinou algumas palavras do seu idioma e pediu que eu cantasse para os deuses, podia ser na minha língua mesmo. Aquilo seria o suficiente para eu mostrar meu respeito e faria com que a viagem não tivesse sido em vão. “Ellos saberán”, sentenciou. Então, segurou as minhas mãos num gesto de despedida e seus olhos indicaram: vai!


Eu fui e encontrei os deuses. Foi o suficiente. Aquela jornada já valera. Eu estava feliz. E foi lá que encontrei também um pessoal que deu a dica de outro caminho para Machu Pichu, bem mais barato, no trem usados pelas gentes locais. Já nem importava mais. O encontro essencial se fizera. Ainda assim eu subi até a cidade sagrada. Não tirei fotos. Não precisava. Tudo estava cravado em mim.


A lição maior me deu Maria, a inca. Mulher e feiticeira, sacerdotisa de Inti. Com toda a carga da opressão de 500 anos nas costas e na vida, foi capaz de sentir a desolação de uma viajante branca e, solidariamente, ensinar o caminho dos deuses, os seus. Forjada no aço da dor - da invasão, do genocídio, da submissão - ela encontrou espaço para a ternura e abriu fendas no seu silencio milenar. Fez encontro, partilha, comunhão. É essa mulher que quero sempre ser. Dura na luta, mas pronta para gesto mágico do encontro amoroso. Fibra e amor, juntos - tal qual já ensinara el Che – no caminho da libertação que há de chegar. E é essa imagem que compartilho hoje com todas as companheiras e com os varões, também capazes de compreender...




sexta-feira, 21 de junho de 2013

O dia 20 em Florianópolis




As ruas de Florianópolis, no dia de ontem (20 de junho),  expressaram a luta de classe na sua forma mais acabada. Desde as quatro horas da tarde já se percebia um certo frisson nas lojas do centro, onde os trabalhadores do comércio se preparavam para a marcha. Coisa nunca vista, uma vez que, passeata, na conservadora Florianópolis, sempre foi, para o senso comum, coisa de "baderneiro". A partir das cinco e meia da tarde começaram a chegar as vagas de pessoas. Os tradicionais militantes das causas sociais e sindicais, e os estudantes. Depois, começaram a aparecer aqueles que nunca vieram. Vinham com as caras pintadas, com tinta verde e amarela, o que sugeria que havia alguma organização por trás, uma vez que a tinta parecia a mesma.  Outros carregavam faixas de plástico, bem arranjadas, feitas em série, o que também mostrava a organização. Havia gente espalhada pela entrada do terminal distribuindo camisetas, onde se lia o mote da classe média: "abaixo a corrupção". Alguma coisa muito orquestrada se fazia por ali. É certo que vieram também aqueles cidadãos indignados com suas causas particulares, com cartazes singelamente feitos à mão, que queriam expressar sua indignação, mas o clima que se armava era fruto de estudada organização.

Os manifestantes tradicionais, que desde sempre estiveram na rua reivindicando o direitos dos trabalhadores, fazendo as lutas coletivas, tentaram se articular junto ao carro de som. Mas, o vagalhão de gente que assomava, vinha de maneira agressiva, disposto a quebrar todas as bandeiras. O coro de  "sem partido" e "enfia as bandeiras no cú", era puxado por alguns homens estrategicamente colocados no meio da massa. Aos poucos, a maioria foi sendo formada por uma multidão de gente que gritava, hostilizando os militantes do passe livre e os articulados em partidos e sindicatos, exigindo que eles baixassem as bandeiras. Carregando faixas e cartazes que pediam democracia, os manifestantes - paradoxalmente  - impediam o grupo de se expressar.

Sem acordo para baixar as bandeiras, uma vez que cada um ali estava se manifestando do jeito que me lhe aprazia, os militantes da luta social e popular organizada se separaram do grupo que os hostilizava. Ficaram em frente ao antigo terminal de ônibus esperando o início da marcha. De novo, um grupo de rapazes fazia a organização dos "apolíticos". Circulava pelo meio da multidão chamando os "sem partido" para o outro lado. "Quem não tem partido é por aqui". E a massa acorria, entre milhares de flashes que se consumavam para a devida postagem no facebook.

Quando deu sete horas da noite, o povo decidiu sair em passeata na direção da ponte. A polícia fazia um cordão de proteção, impávida. Tudo era festa. Naquela hora, o grupo dos militantes tradicionalmente organizados, sindicatos, partidos e movimento popular, deu início à marcha, caminhando em direção a ponte que liga a ilha ao continente. Nenhuma reação da polícia. A massa dos "sem partido" seguiu atrás, aos gritos de "vamos cruzar a ponte". Um pequeno grupo de militantes, com as bandeiras tremulando, ficou parado no meio fio. Foram praticamente acossados pela multidão que os cercava e gritava, a exaustão: "sem partido, sem partido". Como eles não baixavam a bandeira, começavam as agressões: empurrões, xingamentos, provocações. Uma violenta expressão da intolerância. Perguntei a um pequeno grupo de moças que gritava histericamente.

- Por que vocês são contra os partidos?
- Ah? É porque é sem partido!
- Sim, mas por que?
- É sem partido e pronto. Não fazemos política. Tu tem partido? - me encararam, agressivamente.

Assim, gritavam sem partido porque era sem partido. Tautologia. E diziam não fazer política, fazendo.

A tensão seguiu por todo o percurso, e os manifestantes com bandeiras não as baixaram, mas eram minoria. Entre os organizados "sem partido", corriam as faixas, camisetas e capas de chuva. Havia ainda outro grupo perdido, sem saber exatamente onde se colocar. Caminharam juntos, num roldão, cada um aparentemente sozinho com suas demandas particulares. Prevaleceu o discurso político do "apolítico". Ou seja, a luta de classe se mostrou na rua, claramente, sem véus. Só que dessa vez, os que sempre estiveram na rua, enfrentando a polícia e o poder, tinham seus adversários bem ali, junto a eles, gritando-lhes na cara. E a polícia, sempre hostil, "protegendo" os "sem partido". A fala do coronel Nazareno, comandante geral do Polícia Militar, não podia ser mais explícita. Ao ser perguntado por que a polícia estava fazendo a proteção em vez de garantir o direito de ir e vir dos carros que estavam trancados, sem poder passar a ponte, ele disse: " Esse não é um movimento particular, de trabalhadores, de sindicatos. É um movimento da sociedade". Aí está.

A alienação segue sendo o melhor instrumento

O grito das gentes, exigindo que os partidos políticos não se manifestassem não é uma coisa gratuita, inventada pela direita que decidiu entrar de cabeça no movimento. Não. Foi apenas a potencialização de um sentimento que os próprios partidos conhecidos como esquerda - em sua grande parte - permitiram que brotasse. Desde há muito tempo que esses partidos desistiram do trabalho de base, que foi tão importante para preparar a democratização do país depois de tantos anos da violência da ditadura militar. O PT, que hoje está no governo, também é em grande parte responsável por essa "bandeira" que se mostrou na rua. Muito antes da chegada ao governo já havia diminuído o trabalho na base e, ao assumir o governo, investiu muito mais na cooptação do que na educação para a emancipação. Depois, negando-se a enveredar pelos caminhos de uma transformação mais profunda, que atingisse a estrutura dos problemas, igualmente mascarou  os problemas, preferindo apostar numa perigosa bolha de "desenvolvimento" sem politização.

No mundo sindical e no movimento social também houve uma grande desaceleração da formação política, muita gente aderiu a defesa das políticas do governo, permitindo que as fronteiras do que se conhece como direita e esquerda fossem ficando cada dia mais pálidas. Mesmo os partidos mais à esquerda, que conseguiram permanecer críticos, não apostaram na formação e no trabalho de base, não conseguiram se aproximar das gentes que passaram a viver a apoteose do consumo. Não se prepararam para um debate qualificado. Qualquer "esquerdinha" que viesse com críticas a esse modelo de crescimento e de consumo era logo rechaçado como "os do contra".

Agora, quando a bolha de crescimento começa a murchar, a boa e velha classe média começa a se amedrontar. Os meios de comunicação de massa, que são os ventríloquos do sistema, passaram a fermentar ainda mais esse medo e, numa virada eficiente, começaram a capitalizar para a classe dominante as grandes mobilizações que começaram a surgir pela diminuição da tarifa. Com a introdução do também antigo discurso usado pela direita do "contra a corrupção", a alienação passou a tecer sua teia. Quem não se lembra da lavagem cerebral do "contra a corrupção e fora marajás" que levou Fernando Collor à presidência do Brasil, em 1989? Foi igualzinho. De repente, do nada, do fundo das Alagoas, surge um jovem político fazendo discurso contra a corrupção, despolitizando o debate, tirando o foco dos grandes problemas estruturais do Brasil. Era o bonitinho da elite, prometendo acabar com os corruptos. Obviamente não o fez. Pelo contrário, foi deposto por corrupto. Mas essa história parece nunca ter sido contada aos milhares de jovens que agrediam os militantes que insistiam em carregar suas bandeiras.

E assim, o que vai tomando conta das cabeças é de novo esse discurso vazio, raso, sem sentido. Um "contra a corrupção" que se levanta contra uma ou outra pessoa, particularizado e roto. Não há uma compreensão do que seja de fato a corrupção real, a que enfraquece a soberania de um país. A que é cometida pelos grandes bancos, pelos sistema financeiro, pela elite dominante.  Então, paga-se o preço do trabalho de formação que não é feito e da nossa incapacidade de construir um partido revolucionário de verdade.

A luta de classe não é só um passeio na chuva, com batalhas de palavras de ordem. Mas isso é a expressão concreta das divergências sobre o tipo de sociedade na qual grupos distintos querem viver. Esse confronto verbal - e em alguns momentos físico - explícito na rua deve servir para que esquerda real se reorganize, com muito trabalho e muito estudo. É hora então de os partidos, sindicatos e movimentos populares organizados analisarem suas práticas, ajustarem suas bússolas, recuperarem o   trabalho na base. Os 10 anos de governo do PT, (reconhecido como partido de esquerda), com seus "estranhos" aliados ( PC do B, PMDB, PSC e outros minúsculos, reconhecidamente conservadores)  amorteceram a luta, confundiram as gentes. Agora, a velha direita arreganha os dentes e se prepara para o ataque.  É hora de destruir a "estrela da morte". O faremos?

terça-feira, 18 de junho de 2013

E o povo foi para a rua





A luta de classe, já dizia o velho Marx, é isso mesmo: luta. Uma batalha entre aqueles que detêm os meios de produção contra os que são oprimidos por eles. Nesse confronto, as forças geralmente são desiguais porque os que dominam têm também o controle das forças armadas, a força bruta, a repressão. Por isso que, para vencer, os oprimidos só podem usar o que têm: "seus corpos nus", como dizia o grande repórter Marcos Faermann. Então, sem o recurso das armas só quando muitos corpos se unem numa mesma luta, é possível vencer a força bruta. Assim, a revolução!...

Mas, a revolução tampouco é coisa que nasce do nada. Ela é o acúmulo de anos e anos de medos, dores, ódios, amores, mortes, violências. As coisas vão acumulando nas camadas mais pobres da população, entre os oprimidos, até que um dia, um motivo torpe, uma coisa de nada, acende o estopim, e tudo começar a arder. Quem não se lembra de 1968, na França, quando uma manifestação estudantil contra a divisão de dormitórios, acendeu o pavio de um movimento gigantesco, que mudou a cara do mundo no que diz respeito aos costumes, à cultura e até à política. Não chegou a ser uma revolução, mas alavancou transformações importantes. 

Ontem, no Brasil, a população viu o que não via há tempos. Multidões nas ruas, reivindicando, exigindo direitos, protestando. Começou como um dos tantos protestos contra o aumento de tarifas, teve uma reação fora de propósito pela polícia paulista e gerou uma onda incontrolável de manifestações. É um estopim.

Muitos analistas falam da falta de foco do movimento. Cada um protesta por uma coisa diferente. As reivindicações são difusas e não convergem para um propósito único, capaz de provocar uma fissura realmente considerável no sistema. Isso de fato é verdade. Há uma gana por dizer a palavra, há tantas coisas a reivindicar e isso tende a diluir as vitórias. Só que como as manifestações estão sendo feitas por gente, o resultado de tudo isso ainda é inalcançável. Tudo pode acontecer. 

Tive a oportunidade de acompanhar algumas das grandes manifestações que ocorreram no mundo nos últimos anos. Estive na Grécia, nas greves gerais, quando milhões de pessoas saíram às ruas contra os "ajustes" impostos pelos bancos que levaram o país a bancarrota. Estive na Praça do Sol, na Espanha, vendo milhões a caminhar contra o arrocho provocado pela mesma crise que atingiu a Grécia. Estive na cidade do Cairo quando a multidão saiu às ruas para celebrar um ano da queda de Mubarack.  Em cada um desses lugares, os milhões de manifestantes ( e tantos mortos) lograram poucas mudanças. A Grécia segue aprofundando as medidas de recessão, a Espanha elegeu um presidente da direita que também penaliza as gentes e o Egito ainda segue tentando garantir alguma transformação. Em todos esses momentos também foi possível observar as reivindicações difusas, as divisões internas, a intervenção "providencial" da direita. Porque a luta de classe é assim mesmo: batalha de duas concepções divergentes. E quando as gentes ocupam as ruas, a classe dominante sabe que também tem de sair, usurpando bandeiras e confundindo as mentes. Quando a força bruta perde eficácia, a classe dominante usa a confusão, usa a alienação mental potencializada pela mídia comercial a seu serviço, infiltra gente para fazer ações de desestabilização ou incita a que as façam. A batalha é feroz.  

Mas, tudo isso não pode fazer com que o sentido da revolta seja diminuído. Num mundo onde as pessoas são diuturnamente bombardeadas com informações alienantes e desestruturastes, seja na escola, na mídia, nos diversos grupos sociais, é natural que os desejos de transformação sejam parciais, difusos, variados. Todo o sistema funciona no sentido de manter a mente das pessoas prisioneira da ideologia de que no capitalismo, em algum momento, se elas trabalharem direitinho, chegarão "lá". O que significa chegar a um nível de consumo capaz de satisfazer todos os desejos de vida boa e bonita. 

Mas, no capitalismo, esse chegar lá é individual, depende de cada um. Daí a sua sedução. E essa mentira, repetida tantas vezes, em todos os veículos de transmissão da ideologia da classe dominante, vai se fazendo realidade. A classe dominante aprova e incentiva a formação de grupos diversos, para que as reivindicações fiquem mesmo difusas: negros, mulheres, LGBT, funcionários público, trabalhadores privados, familiares de presos, ecologistas, pela liberação da maconha, contra a corrupção. Assim, divididos e sem um corte de classe definido, fica bem mais fácil de controlar.

Só que chega um dia, como ontem, que essas gentes divididas entre tantas reivindicações segmentadas se juntam e caminham em uníssono. É onde nasce a possibilidade do ainda-não. É um momento único de explosão da consciência de classe. De alguma forma, todos ali na caminhada são oprimidos, estão enfrentando o mesmo aparato repressor, se enfrentam com um única classe dominante. É a luta de classe.

O que pode acontecer depois desses momentos de elevação da consciência de classe não há como saber. Pode ser apenas um momento de acumulação de força, de crescimento da consciência, de reconhecimento sobre quem é a elite dominante e como age para manter  o controle. O fato é que a consciência de classe só pode brotar desses instantes únicos, de comunhão, de povo unido na rua. Ela não pode ser incutida pelo discurso, pelos cursos de formação. Ela só pode brotar assim, na práxis, no enfrentamento da vida mesma. As ruas do Brasil se encheram ontem, de jovens, de velhos, de trabalhadores, de crianças, de gente querendo mudanças. Como um dia, num passado bem próximo,  se encheram pela anistia, pelas diretas, pela queda de Collor. Foi um momento lindo, bonito de se ver e viver. 

Agora, nos palácios, governantes e aqueles que os governam, já ensaiam sua reação. Que virá. As tarifas vão baixar e eles esperarão para contabilizar os estragos, para observar as rachaduras no muro ideológico, sempre com o cimento na mão. Para nós, que estamos do outro lado também será tempo de observar onde avançou a consciência de classe e seguir, sempre prontos para o combate.