terça-feira, 15 de novembro de 2011

De noite, no Lava Piés


Madri, quatro milhões de habitantes, duas horas da manhã. A vida ainda está pulsando, as pessoas saem dos bares, andam pelas ruas, tranqüilas. Também eu sigo em direção a casa, em uma boa conversa com as companheiras espanholas. Estamos no Bairro Lava Piés, um dos espaços onde se concentram os latinos, africanos e migrantes de outras terras. No dizer de alguns locais “um lugar perigoso”. Mas, para quem conhece bem as coisas e sabe que a pobreza não é sinônimo de crime, não passa de ideologia. Por isso também se vê muitos espanhóis andando por ali e há bastante fraternidade.

É fácil perceber como o sistema concebe a presença dos imigrantes. Por toda a parte estão as viaturas policiais e, a cada tanto, seus ocupantes fazem a “redada” que é a vistoria por papéis. Como durante a noite os jovens saem a passear e a tomar uma bebida, os grupos de negros, latinos e marroquinos se convertem em boas presas.

Desgraçadamente topamos com uma dessas. Um grupo de negros conversava em uma praça quando chegaram os policiais. São bastante intimidantes, pois chegam em bando. Vai daí que começou uma certa confusão pois um dos jovens ou não tinha os papéis ou não aceitou aquele tipo de intervenção. De longe, ouvíamos a voz que gritava, indignada. Era um negro grande, encorpado, e falava um português de Portugal, o que me levou a crer que vinha de algum país da África. A coisa se arrastou e depois de alguns minutos lá vieram os policiais na direção das viaturas, já com o homem algemado. Ele seguia argumentando, rebelde, questionando a ação policial. Os demais acompanhavam, também argumentando.

Ali ficamos as três, impotentes. “Isso acontece a toda hora. Quando tem mais gente, as pessoas se juntam e impedem as prisões. Mas tem momentos assim, que ficamos sem forças”. O grande número de migrantes tem se convertido em um “problema” para o governo e para alguns que argumentam que essa gente que vem de fora lhes rouba o pouco de trabalho que ainda tem. Mas, no geral, o que se vê é um sentimento de solidariedade. De qualquer forma, os bairros onde se concentram os migrantes são sempre os mais visados pela polícia e a qualquer momento as pessoas podem ser revistadas com a exigência de papéis. Caso não os tenha são presas e deportadas.

Entre os espanhóis que lutam pelo direito dos migrantes de permanecer no país há os que o fazem por sentimento de humanidade, por solidariedade concreta. Mas também há os que têm muita clareza sobre o papel que Espanha teve na desgraça dos países de origem de toda essa gente. Um exemplo mais contemporâneo é o da gente do Marrocos e da região do Saharauí que esteve nas mãos dos governos espanhóis até bem pouco tempo.

De fato, ali, na madrugada fria de Madri, o que parece ficar claro a quem circula pelas ruas do bairro Lava Pies é que ali não existem “migrantes”. As conhecidas caras latinas, negras e árabes que tornam tudo tão familiar estão, de certa forma, em casa. Pois, afinal, esses povos estavam cuidando de suas vidas quando foram invadidos e dominados. Agora, querem direito de poder transitar pelos caminhos do vencedor que, à força, os fez partilhar de sua cultura e modo de vida.

Talvez a europa devesse estudar mais a sua própria história para saber que toda essa gente que hoje alguns chamam de “ilegais” nada mais são do que irmãos, filhos da mesma pátria e da mesma violência. Quando se acabou o tempo colonial pela força da luta das gentes, os países se independizaram, mas o estrago causado pelos países colonizadores foi grande demais. Agora, haveria de agüentar as consequências. O sistema capitalista inventado desde a Europa criou seus centros e periferias e hoje se autodenomina como um sistema-mundo. Pois bem, se é assim, se o sistema pode ser mundial e as mercadorias podem andar livremente entre as fronteiras nacionais, assim também as gentes. Dessa forma, não existem ilegais.

Mas, claro, isso é sonho e a realidade concreta é que nas ruas de Espanha os imigrantes pobres seguem sendo acossados. Já os que chegam para jogar no Barcelona ou no Real Madri, ou ainda os que aportam em jatos ou navios de luxos, esses são bem vindos e nunca importunados. Afinal, o dinheiro sempre pode ser um bom documento em qualquer lugar.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Uma longa noite espanhola ou a primavera?










A crise econômica e social está apenas começando

O que a mídia brasileira chama de movimento de indignados, na Espanha significa outra coisa. É certo que há muita gente indignada e que aproveita as manifestações para dizer a sua palavra, mas o movimento em si surgiu de lutas muito concretas que existem na Espanha desde há muito tempo. Uma delas é a luta das famílias que compraram suas casas e que, com a crise financeira e monetária já não conseguem mais pagar suas dívidas com os bancos. Essa gente, além de perder as casas, ainda fica obrigada a terminar de pagar a hipoteca que contraiu. Por isso, bem antes do 15 de maio, quando a Praça do Sol virou um símbolo da luta popular, o qual acabou dando nome ao movimento que segue até hoje, essa gente já andava por aí reivindicando, fazendo marchas e realizando ocupações nos bancos.

Não bastasse essa demanda muito concreta com relação às dívidas hipotecárias, havia também, já bastante organizado, o movimento “Juventude sem futuro”, que teve seu começo nas universidades. Os jovens, observando as mudanças que estavam ocorrendo no país, foram percebendo que ao contrário da geração passada, que viveu algum tipo de bem estar, não teriam a mesma sorte. Não havia moradia, nem saúde, nem educação, não havia futuro. A isso agregaram que se não havia futuro, tampouco haveria medo e desde aí saíram a lutar. Da mesma forma, estavam por aí organizados os anarquistas, comunistas, gente que trabalha com o movimento ecológico, com cooperativas de produção e consumo, enfim, uma série de movimentos sociais organizados que sempre estiveram reivindicando trasnformações.

Com as grandes movimentações populares que estavam alterando a vida no mundo árabe, muita gente que andava calada decidiu que poderia ser hora de expressar toda a sua indignação por coisas pontuais que vão desde temas históricos como a questão da república, até o movimento de pais pela guarda compartilhada. Ou ainda desde a liberação da maconha até a luta pelo fim do capitalismo. Então, de repente, pelas ruas estavam aqueles que nunca antes tinha tido coragem de se manifestar. “Nós que andamos nisso há anos ficávamos maravilhados quando saímos numa marcha e lá estava muita gente que não conhecíamos. Porque sempre éramos os mesmos. Depois do 15 de maio, juntaram-se milhares. Isso foi e continua sendo incrível”, diz Erika, do movimento ecológico.

O 15M, como ficou conhecido o movimento, não tem donos. As ruas estão aí para serem ocupadas e as pessoas reivindicam o que querem. Claro que os movimentos que já vêm organizados de longa data, ou os partidos políticos e sindicatos fortes acabam de alguma forma assumindo um protagonismo, porque estão nisso há muito mais tempo. São afinal os que permanecem nas assembléias, os que propõem e elaboram documentos, os que organizam as assembléias nos bairros. Mas, ainda assim, existem muitas pessoas que não estavam ligadas a nenhum movimento e que agora estão envolvidas até a medula no 15M.

A grande mobilização que só cresceu depois da repressão policial no 15 de maio, junto a Praça do Sol, acabou também criando um acampamento na praça, ao estilo do que já havia acontecido em Tunis e no Egito. Mas, por conta da tremenda logística que tinha de ser montada, a proposta do acampamento foi sendo revista. Hoje, pelo menos em Madrid, já não há mais acampamento, mas o movimento segue nas ruas, realizando marchas periódicas e principalmente nos bairros, onde também se organiza semanalmente com assembléias abertas e sistemáticas. Isso acaba sendo mais eficaz dado que as pessoas podem ter sua vida normal de trabalho e de vida, sem deixar de lado a organização. Julia tem 25 anos, uma filha pequena que exige cuidados, mas não deixa de estar nas manifestações, embora não esteja vinculada a nenhum movimento tradicional. “Estão acontecendo muitas demissões, o governo segue cortando verbas nas políticas sociais como, por exemplo, na de cuidados com as crianças, e a maioria acaba nem sabendo que isso acontece. Por isso viemos para as ruas. Para denunciar e barrar esses cortes de verba e de gente”.

Já os que estão na luta organizada há mais tempo e têm propostas muito claras de transformação do sistema, esse ainda é um momento muito pouco claro, embora cheio de beleza e de esperança. É o que diz Luis Nieto, da organização Paz con Dignidad. “As coisas estão acontecendo de forma muito rápida. Não sabemos onde vai dar. Estamos caminhando e discutindo as coisas, mas não sabemos se isso desembocará numa mudança de sistema ou de modelo de desenvolvimento”. Segundo ele, a Espanha está agora pagando pelos acordos espúrios dos anos 70, na política de transição da ditadura à democracia, que acabou cooptando muita gente, levando o pessoal de esquerda a se retirar do cenário. Agora, o povo está de novo se levantando. Os mais velhos estão de volta na luta, há gente muito jovem querendo mudanças. “Um ano atrás não havia esse movimento, tínhamos muito pouca gente no processo de luta. Hoje temos tudo isso, essa organização, a juventude. Penso que se daqui a um ano ficarem 30% desse povo na luta, já será muito bom para começar um processo de transformação nesse país”.

A Espanha está vivendo um clima pré-eleitoral, de eleições para presidência. Mas, nas ruas, o povo que anda a fazer a luta tem uma coisa bem clara: essa gente não os representa. O PP (Partido Popular) é a velha direita, o PSOE (Partido Socialista Obrero Español) há muito tempo que renegou o socialismo fazendo com que essa palavra perca todo o significado por aqui. E esses são os dois gigantes que estão dividindo as pesquisas, e que acabam sendo muito parecidos na sua forma de atuar. Há outros partidos menores, de esquerda e de direita, mas com muito pouca representatividade. Nas ruas, a voz corrente é a do voto nulo embora os militantes mais organizados, que atuam nos sindicatos ou movimentos sociais sejam mais inclinados ao voto na IU (Izquierda Unida uma coalizão de vários pequenos partidos de esquerda). “De qualquer forma sabemos que nessas eleições ainda não lograremos fazer frente ao sistema”, dizem. O mais provável é que ganhe o PP.

E assim segue a gente de Espanha, cheia de esperança de que algo aconteça pela força da sua mobilização. Como dizem todos, é uma incógnita o que pode acontecer. O certo é que a crise por aqui tende a se aprofundar com cortes no serviço público, desemprego, corte nas políticas sociais, dívidas externas elevadas, enfim, uma realidade que para nós, latino-americanos é muito conhecida, mas que para os europeus mais jovens, que não viveram os duros anos do pós-guerra, se afigura como uma grande tragédia, porque é o fim do chamado estado de bem estar. Nos corredores do poder, novo países da periferia européia, como é o caso de Espanha e Portugal, devem ser a bola da vez, já que a Grécia e a Itália estão aparentemente dominados. Assim, por certo, muita luta ainda deve ser travada por aqui.


quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Vencendo as ciganas




Ali estava eu, extasiada diante da mesquita, em pleno centro de Córdoba. Foi quando chegaram as ciganas. Lindas como só elas sabem ser, com seus cabelos negros e dentes de ouro. Cercaram-me com a algaravia que lhes é peculiar. “A ver la suerte niña”. Disse que não, e que, ao contrário, eu lhes poderia ver a sorte. Sorriram, apontando para o bindi que tenho no meio da testa. Uma delas me entregou um galho de alguma planta dizendo que era para dar proteção. Aceitei.


Outra logo foi me pegando na mão e ainda que eu dissesse que não queria saber do futuro ela foi dizendo coisas acerca do que iria me acontecer. Já não adiantava mais. Eu estava pega na armadilha. Não haveria mais como escapar. Essa é a tática milenar.


Eu conheci os ciganos quando criança, pois em minha cidade natal havia muitos. E ficavam sempre num terreno perto de casa. Era impossível ignorá-los. Para nós, que éramos crianças, parecia um mundo tão misterioso o daquela gente, vivendo nas tendas. As mulheres com seus vestidos coloridos, a música tocada com violinos e os bailes ao redor da fogueira. Coisa mágica. Os adultos diziam para termos cuidado que eles eram ladrões de crianças, mas era impossível não sucumbir diante daquele universo tão diferente do nosso. Ali ficávamos, extasiados. Aprendi com eles que é uma obrigação das mulheres andar a ver a sorte e então, desde aí, sempre paro e dou atenção. Respeito demais essa tradição e esse povo.


Mas, nessa fria manhã em Córdoba, a simpática cigana me enganou. Após ler a sorte pediu um trocado. Fui buscar uma moeda. Não aceitou dizendo que moedas traziam má sorte. Tinha que ser dinheiro de papel. “Só tenho 20 euros”, expliquei. Disse que trocaria. Aceitei. Então, quando lhe passei a nota dizendo que lhe daria de bom grado 5 euros, ela agradeceu e disse que era aquilo ali mesmo. Não haveria troco. Zanguei-me. “Tu estás me roubando”. Ela riu, “Seriam 40 euros, uma para cada mão”. E ficou ali um bate-boca que, sabia, não resolveria o problema.


Foi então que decidi apelar para os meus poderes. Tirei os óculos escuros e pedi que me olhasse bem dentro dos olhos. Ela olhou, as demais companheiras acompanhando, sorridentes. Haviam pegado uma trouxa. E eu, tomando-lhe a mão disse, muito séria, os olhos grudados nela: “Eu te respeitei e tu me enganaste. Vou te jogar agora uma maldição. Em menos de dois dias uma tragédia muito grande vai se abater sobre ti e tua família. Ojo, nena, ojo”. Ela sustentou meu olhar e estremeceu.


As demais deram um passo atrás. “Es bruja, es bruja”... murmurou, atarantada. E, olhando para as amigas disparou: “dame cambio, dame cambio”... Não tinham.

Ela, ainda sob a força daquela maldição me disse, “venha, venha, vou trocar o dinheiro”. E se foi, como louca a pedir a um e outro comerciante que trocasse os 20 euros. Voltou e me passou os 15 euros. “Retira a maldição, retira a maldição”, pediu. Eu então disse a ela: “nunca mais engane alguém que está te respeitando como eu estava”. Ela assentiu e parecia que o que mais queria era se ver livre de mim. Peguei meu troco, retirei a maldição e sai. As ciganas ficaram a murmurar. Estavam realmente assustadas. Eu me fui pela rua, sorrindo. Foi uma coisa mágica. Em plena capital do antigo mundo árabe, eu vencia cinco ciganas nas artes do sortilégio e do engano.


Por primeira vez convenci-me de que de fato, sou bruxa. Naquela mesma hora, no meio da praça quase deserta, tocaram os sinos. Coloquei meus óculos escuros e segui, poderosa...

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Eu voto no Irineu



Sou uma dessas pessoas que tem o privilégio de amar o que faz. Coisa rara. E ao amar o trabalho que realizo, acabo também amando o lugar onde isso é possível: a universidade federal. Por isso, quando chega o tempo das eleições para reitor eu trato de me posicionar. Porque acredito que é assim que tem de ser. E, apesar de esse ano ser o ano mais estéril no que diz respeito à política universitária, eu não tive muitas dúvidas em definir o meu voto. É do Irineu. Resta agora dividir com vocês as explicações.


Muitas são as coisas que ouço pelo campus com relação aos candidatos. Principalmente sobre o Irineu. Uns dizem que ele é cria do rodolfismo, essa nefasta forma de fazer política, marca do Rodolfo Pinto da Luz, de fomentar a prática do favor. Pode ser que seja. Mas, mesmo aqueles que nascem nas piores famílias podem se transformar e caminhar para estradas mais interessantes. Lembro-me do meu querido amigo Assis, que fazia sua autocrítica: “eu já fui da direita, elaine. Não sou mais”. E era verdade. Foi um dos mais aguerridos lutadores dessa universidade. Inesquecível, com sua pasta marrom, a desenterrar números, dados e índices.


Outros dizem que o Irineu tem um projeto pessoal de ser reitor. E eu rezo a deus que sim, que isso seja mesmo verdade. Porque é óbvio que é preciso ter um projeto pessoal para se colocar nessa difícil tarefa. Imagino também que os demais candidatos tenham o mesmo projeto. Porque seria diferente com o Irineu? Ele é um homem sério, dedicado que sempre teve um sonho: o de ser reitor do lugar que ele mais ama, que é a universidade. Acho isso uma qualidade rara e não um problema. Ele tem se preparado para isso toda sua vida. É bonito de ver. Não é qualquer um que assume isso, com verdade e firmeza.


Mais alguns dizem que a candidatura do Irineu não nasceu da discussão coletiva. Aí está uma meia verdade. Nasceu sim, da discussão coletiva de um grupo que nunca deixou de pensar a universidade, escrevendo sobre seus problemas, propondo, elaborando. Não veio da massa, é fato. Mas qual das outras veio? E como poderia vir se as categorias de trabalhadores andam tão desmobilizadas, assim como os estudantes a pensar apenas sobre seus problemas mais imediatos.


Pois o Irineu, para mim, reúne muitas virtudes. Foi um trabalhador técnico-administrativo exemplar, um chefe justo, um companheiro presente, e hoje é um professor dedicado. Na última campanha para reitoria, quando Nildo Ouriques era candidato, esteve na luta pela mudança, assumiu as propostas construídas coletivamente pelo grupo que, com Nildo, queria tornar real uma universidade nova, livre, participativa. Hoje, quando ele assume para si essa tarefa, e incorpora as propostas que há quatro anos nos seduziram, não há dúvidas sobre o que escolher.


Eu voto no Irineu, porque quero mudanças. Irineu é sério, é honesto, é competente. Ele sabe como fazer para mudar a UFSC. Não será perfeito, é claro, ninguém o é. E Nós estaremos aí, cobrando e exigindo o cumprimento das promessas. E será uma beleza ver um dos nossos na direção da UFSC, ah, isso será!

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

A Globo se protege


Tem certos assuntos que dão uma preguiça. Um deles, pelo menos para mim, é a rede Globo. Empresa nascida no período militar, abençoada pela Time Life, veio para criar a idéia de um “estado nacional”, sob o ponto de vista dos militares, é claro. Depois, ao longo da sua vida como empresa, sempre de braços dados com o poder. Não importa qual seja. E, nesses anos todos, o jornalismo que pratica é o que interessa aos donos do poder. Ou seja, no mais das vezes, nem jornalismo é. Propaganda, como bem diz Noam Chomsky. É certo que, vez ou outra, um determinado repórter escapa dessa lógica e consegue produzir jornalismo de qualidade, mas é raro. O que também às vezes ocorre é que, como ensinou Adelmo Genro, alguns fatos por si mesmo são tão eloqüentes que transcendem qualquer possibilidade de manipulação. Mas, o que é certo é que o jornalismo global é porta-voz do poder. Não se importa com a vida das gentes, essa gente real, que luta e protesta.

Assim, não pode causar espanto que existam por aí afora pessoas que sintam vontade de repudiar com mais veemência essa prática nefasta de mau jornalismo. Há os que fazem análises ácidas, mas se comportam de forma respeitosa. Há os que escracham, os que xingam, os que são bem deselegantes. Mas há também os que chutam o balde mesmo. Talvez porque tenham aprendido que no Brasil tentar fazer as coisas “por dentro da ordem” não dá muito resultado. Por isso, por aí andam esses que fazem aparições nos momentos em que os repórteres globais estão ao vivo.

Outro dia acabaram derrubando uma repórter e o caso virou notícia nacional através das redes sociais. Enfastiada, acabei lendo bastante coisa que saiu e não me surpreendeu que a maioria dos comentários fosse de repúdio aos manifestantes. Alguns chegaram a dizer que era um ataque ao jornalismo. Bueno, ainda com preguiça, resolvi entrar no assunto.

Lembrei de uma campanha salarial que fizemos em Santa Catarina na qual se desencadeou a “operação papagaio de pirata”. Nela, alguns colegas se postavam atrás dos repórteres da RBS que entrassem ao vivo, protestando, com cartazes, sobre os baixos salários no estado. Foi um momento histórico da luta dos jornalistas em Santa Catarina, até hoje lembrado com orgulho. Não era um ataque ao “jornalismo”, mas um ousado e criativo protesto contra a rede que mais explorava jornalistas naqueles dias. E não foram poucos os que condenaram a eficaz forma de luta dos jornalistas, alguns apelando para o que chamavam de “desrespeito aos colegas”. Ora, não era. Pelo contrário. Era amor pelos companheiros explorados.

Assim, vejo esses ataques que andam acontecendo junto aos repórteres da Globo como um saudável protesto contra os péssimo serviços da emissora. E, finalmente, um protesto que se pode ver, justamente pela radicalidade do grupo. Não os comparo com vândalos ou baderneiros. Devem ser criaturas que querem ser escutadas e encontraram nessa forma a mais eficaz. E vejo que tem dado certo.

Talvez isso leve os big boss da Globo a pensar um pouco sobre o que andam fazendo. Que tipo de jornalismo é esse que, num país democrático, precisa de segurança para se fazer? Não seria isso um sintoma claro de que algo está podre no reino da platinada? Perguntas que qualquer profissional sério se faria. Mas, qual! A primeira resposta da Globo foi, pasmem, demitir os trabalhadores que faziam a segurança da equipe. E a segunda atitude foi anunciar que agora os repórteres que entrarem ao vivo serão cercados por um aparato de proteção contra vândalos. Interessante isso! Mais uma trincheira impedindo a verdade de entrar.

Eu, aqui da periferia da periferia, no sul do sul, não tenho dúvidas. Esse povo aí não está agredindo as pessoas, nem o jornalismo. Estão protestando contra a mentira, a manipulação e ao descaso com a vida real. E quer saber? Gosto disso!


De PT, lutas e Lula...

Eu sou filha das CEBS, não posso negar. Foi com os padres vermelhos que adentrei nesse mundo da luta popular. Através deles conheci o PT. Era repórter em Caxias do Sul em 1983 e já ajudava na campanha da então candidata pelo partido naquela cidade, a Geci Prates, uma mulher valente como poucas. Naqueles dias ela era do Sindicato dos Gráficos e enfrentava a conservadora cidade criando o PT e a CUT. Era uma guerreira. Eu trabalhava na RBS e não perdia oportunidade de dar espaço para a Geci. Lembro com carinho do seu riso e da sua fortaleza. Aprendi muito com ela. Desde então, sempre estive nas campanhas petistas e acreditei que era possível construir uma proposta de poder para o país. Desde aí, que em 1989 estive de cabeça na campanha de Lula para presidente.

Naqueles dias eu já morava em Florianópolis e lembro que montávamos bazares na Esquina Democrática a vender botons e outros materiais de campanha. Era um frisson e éramos um grupo bonito de pessoas que sonhavam com um Brasil diferente.

Mas, o tempo foi passando e as coisas mudando. Inclusive o PT. Quando Lula finalmente chegou à presidência em 2003 já não era mais com aquele projeto pensado nos anos 80. Ainda assim, votei nele, embora já estivesse madura o suficiente para saber que seu governo não passaria de algumas reformas. Mas, o que veio foi “mais pior”, como diria minha avó. Poucos meses depois de assumir o governo Lula impôs uma reforma da Previdência, uma reforma que tirava direitos. Foi um furdunço, porque a gente reagiu na hora. Não aceitaríamos. Naqueles dias eu estava na direção do Sindicato dos trabalhadores da UFSC. E iniciamos nossa luta contra a reforma do Lula.

Foi coisa difícil de fazer porque todos os amigos ainda acreditavam que o governo iria fazer coisas boas. Nossos velhos companheiros nos viravam a cara, nos xingavam e acusavam de fazermos o “jogo da direita”. E a gente permaneceu firme na crítica. Recusávamos a ficar cegos diante das evidências. E a reforma da previdência passou, assim como a reforma sindical, as privatizações, os transgênicos, as políticas compensatórias, os fundos de pensão, a previdência privada e tantas outras coisas horrorosas, antes tão combatidas. O movimento sindical foi se domesticando, parte do movimento popular também. E parecia que já mais ninguém podia ver que o rei estava nu.

Eu, que nunca havia endeusado o Lula, tampouco sofri com a guinada que ele deu na direção da elite predadora deste país. “Nunca antes os bancos ganharam tanto como no meu governo”, ele disse, com orgulho. E é verdade. Apenas entendi que ali estava um político que, tendo todas as condições de avançar (com a aprovação popular que tinha) preferiu ajoelhar diante do capital. Isso tampouco é novidade. Raros são os que conseguem fugir da sedução da mosca azul.
Assim, tenho toda a convicção que a história - o implacável tempo que passa – haverá de mostrar com mais claridão o que significou o governo Lula para o movimento social e sindical desse país.

Tenho lido coisas horríveis sobre a doença dele. Como ouvi da do Hugo Chávez, quando admitiu que tinha câncer. Tampouco me surpreende. Sobrevive, forte, uma direita insaciável, sempre arreganhando os dentes, querendo mais do que já tem. E ninguém é poupado. Nada vou falar sobre isso, pois as dores humanas nos alcançam a todos. Lula agora vive as suas, como qualquer mortal. Aonde vai se tratar não é o ponto. Posso, e devo, falar do político Lula. E esse, na minha insignificante opinião, perdeu grande chance de mudar a história do Brasil.

Olho para mim no espelho e nunca me envergonho do passado, de filha das CEBs e da militante petista que fui. Aprendi muito na caminhada. E uma certeza me pulsa: quem mudou não fui eu! Caminhando sigo, à esquerda!

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Minha alma caipira


Desde pequena minha vida foi embalada pela viola caipira. Coisa inusitada, já que morava no interior do Rio Grande. É que o meu pai tinha um profundo amor por essa cultura do homem do interior, e tanto que criou um personagem na rádio Fronteira do Sul, onde trabalhava. Era o Nhô Zé, um caipira que reunia histórias e causos da vida do campo, mescla de gaudério e tropeiro. E foi com ele que aprendi a amar esse som que toca a alma da gente e nos remete ao interior de nós mesmos. A viola, a toada, o repente, a catira, o cateretê, ritmos que brotam do mais profundo sentimento das gentes.


Um desses mestres da música caipira que eu aprendi a amar é Adauto Santos. Cantor, compositor, violonista e violeiro dos bons. Mesclava a MPB com a música caipira e era capaz de contar lindas histórias como a que narra na canção “Triste Berrante”, um hino dos boiadeiros. Um lamento contra o desenvolvimento sem coração!...