Escrevo sobre a doença do pai - demência, Alzheimer, caduquice, ninguém sabe ao certo - e procuro encontrar janelas de beleza. Sem romantizar. Porque a parada é dura. Dura mesmo. Mas, se o que não tem remédio remediado está, penso que é necessário driblar o desespero. E é o que faço colocando no papel as histórias dessa fase intensa com ele. O pai não aceita colocar fralda. Ele ainda tem boa dose de autonomia e de vontade. Não quer e pronto. Faz escândalo. Então, há que deixar que ele se vire com suas necessidades. E cada dia é uma surpresa. Fazer cocô é complicado. Quando está bem, vai no vaso e segue os protocolos. Mas, quando não tá muito legal, o salseiro é grande. Eu fico na minha, deixo ele se resolver. Depois vou lá e limpo tudo, serenamente, cercada de óleos perfumados e luvas de borracha. Ainda brinco com ele que “as mãos amarelas” vão lhe pegar. Ele se diverte. Antes tinha um pouco de vergonha. Agora não tem mais. Não está nem aí. Fica mexendo nos “seus papéis” enquanto eu vou limpando. Pois é, sujaram tudo aqui, eu digo. E ele, surpreso, responde com pergunta: sujaaaaaaaaram? Eu não fui. Mas, se para o cocô ainda vai ao banheiro, para o xixi ele não escolhe lugar. Deu vontade, baixa as calças e vai mijando. Geralmente escolhe uma planta ou as pedrinhas do jardim e ainda faz mira. Se é de noite. Ele levanta da cama e ali mesmo, em pé, se alivia. Pode bater na parede, no guarda-roupa, foda-se. Ele mija mesmo. E eu, por perto, para a operação limpeza. Ele volta a dormir, bem tranquilo. Agora, nos últimos dias, deu de levantar pelado. Cinco horas da manhã ele está na porta da cozinha, como veio ao mundo, sorrindo. Eu me comporto com naturalidade e vou, devagarinho, levando ele para o quarto. - Bora botar uma roupinha, querido, que tá fresquinho. E ele me segue, tranquilo, aceitando a roupa outra vez. Fosse no começo ele não me deixaria vê-lo nu. Tomar banho foi um calvário. Mas, agora, ele parece não estar nem aí com a nudez. Fico pensando que isso até que é bom. Para quem viveu tanto - vai fazer 88 - ter de passar quase um século seguindo regras morais e sociais, deve ser bem legal poder mandar tudo às favas. Claro que pra mim o lance é pesado, a limpeza sextuplifica. Mas, sinto que pra ele é libertador. Então, enquanto posso, vou deixando. Nada paga o olharzinho sapeca de quem está muito bem com a vida. Seu Tavares não é fácil.
Elaine Tavares. Jornalista. Humana, demasiado humana. Filha de Abya Yala, domadora de palavras, construtora de mundos, irmã do vento, da lua, do sol, das flores. Educadora, aprendiz, maga. Esperando o dia em que o condor e a águia voarão juntos,inaugurando o esperado pachakuti. Contato: eteia@gmx.net / tel: (48) 99078877
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Jornalismo de Libertação
Este é o pressuposto teórico básico do jornalismo praticado pela autora deste blog. Seguindo a senda da Filosofia de Libertação, que busca olhar o mundo a partir do olhar da comunidade das vítimas do sistema capitalista, o jornalismo de libertação se compromete em narrar a vida que vive nas estradas secundárias, nas vias marginais. O jornalismo de libertação não é neutro nem imparcial. Ele se compromete com o outro oprimido e trata de, na singularidade do fato, chegar ao universal, oferecendo ao leitor toda a atmosfera que envolve o assunto tratado. (Jornalismo nas Margens. Elaine Tavares. 2004)
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