Essa foto me tocou como se fossem dois raios. Um, pela maldade. Quem poderia pichar um retrato assim, de alguém que passou a vida – e por isso foi morta – lutando contra o terror? O terror que mira no pobre, no preto, no caído. Atingida no peito, verti lágrimas, que caíram mansinhas, sustentadas num ódio são. Pensei que se tivesse sido alguém da ordem, desses que gosta de matar e torturar, tudo bem. Faz parte do show dele e está dentro do seu script odiar a mulher que estava fazendo uma devassa na Polícia Militar do Rio. Mas, e se não foi? E se a pessoa que manchou o retrato é uma dessas pessoas comuns que trabalham e vão à igreja rezar, ajoelhadas aos pés de um Jesus de amor? Como poderia? Como foi inoculada no ódio aos seus? O ódio de classe é o motor do mundo. É com ele que aqueles que são oprimidos, roubados, massacrados, pisados, avançam e mudam o estado das coisas. O ódio aos vilões do amor, como dizia o grande poeta Cruz e Souza. E o ódio de classe é o ódio de quem é explorado pelo explorador, assim como o explorador odeia o pobre, aquele do qual visceralmente depende, afinal, só o que trabalha gera valor. Mas, como odiar aqueles que são como a gente, que lutam com a gente, que buscam cuidar, proteger, garantir a justiça? Que estranho vírus é esse que toma o empobrecido e o faz voltar-se contra os seus, os companheiros de classe? Pois seja esse "vírus" o que for, há que combatê-lo até o último suspiro. Os que trabalhamos e vendemos nossa força de trabalho – tudo o que temos – precisamos andar juntos, sonhar juntos, lutar juntos. Só assim garantimos a vida plena. O outro raio que me pegou foi o da força, essa que move a luta de classe. Em volta da pintura vandalizada, mulheres negras, abraçadas, em pé, cabeça erguida, pernas retesadas. Protegendo a memória de Marielle, uma mulher que lutou até o dia do seu último suspiro, garantido à bala pelo ódio do opressor. As garotas protegendo Marielle e protegendo-se. Uma posição de batalha. Porque cada uma delas ali sabe muito bem quem são os inimigos, e onde estão. Seus inimigos são os inimigos de todos nós, da classe trabalhadora. Na foto não vemos os rostos da mulheres, mas podemos intuí-los e haverão de estar impregnados do ódio, o ódio são, o que é necessário. Aquele que impele à resistência, ao combate. Porque enquanto houver um mundo em que para que um viva outro tenha de morrer, não teremos tempo para a paz. Marielle foi assassinada. Outras tantas serão. Mas, como uma incontrolável onda, outras mais virão. Assim, agarradas, retesadas, cabeça erguida e com ódio, muito ódio, contra os vilões do amor.
Elaine Tavares. Jornalista. Humana, demasiado humana. Filha de Abya Yala, domadora de palavras, construtora de mundos, irmã do vento, da lua, do sol, das flores. Educadora, aprendiz, maga. Esperando o dia em que o condor e a águia voarão juntos,inaugurando o esperado pachakuti. Contato: eteia@gmx.net / tel: (48) 99078877
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Este é o pressuposto teórico básico do jornalismo praticado pela autora deste blog. Seguindo a senda da Filosofia de Libertação, que busca olhar o mundo a partir do olhar da comunidade das vítimas do sistema capitalista, o jornalismo de libertação se compromete em narrar a vida que vive nas estradas secundárias, nas vias marginais. O jornalismo de libertação não é neutro nem imparcial. Ele se compromete com o outro oprimido e trata de, na singularidade do fato, chegar ao universal, oferecendo ao leitor toda a atmosfera que envolve o assunto tratado. (Jornalismo nas Margens. Elaine Tavares. 2004)
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