sexta-feira, 1 de dezembro de 2023

Condenada por mostrar a verdade


Fábio Bispo - pres. do SJSC e Schirlei Alves




A jornalista Schirlei Alves foi condenada à prisão e pagamento de multa pelo judiciário catarinense. Ela foi acusada de “manchar a honra” de um juiz, um advogado e um promotor que atuaram num caso de estupro. Tudo isso porque ela noticiou a gravação da audiência de instrução, na qual a vítima do estupro, Mari Ferrer, é humilhada e constrangida várias vezes pelo advogado de defesa do acusado, Cláudio Gastão da Rosa Filho. A gravação mostra que ela implora ao juiz por respeito, dizendo que nem assassinos eram tratados como ela estava sendo tratada, mas o juiz ignorou seu apelo. Foram cinco horas de massacre contra a vítima e por fim, o acusado do estupro foi inocentado. Seria mais um caso “comum”, no qual o agressor sai livre, a mulher depreciada e os operadores do direito, incólumes. 

Mas, ocorre que a Schirlei fez o que qualquer bom jornalista faria: descreveu as cenas, desvelou o cenário, expôs as chagas, tanto as da situação do estupro sofrido quanto as do judiciário.  Uma reportagem que não encontrou abrigo nos meios comerciais catarinenses e acabou sendo veiculada na Intercept Brasil, uma agência de notícias. O texto explicita o que as imagens igualmente dizem. E o que se vê é uma garota sendo julgada por suas roupas, por ter bebido, por estar num bar. E, mais do que isso, sofrendo outra violência, praticamente sendo apontada como culpada de ter sido estuprada. Um balaio de horrores. 

A reportagem da Schirlei não se limita às imagens desveladas. Ela ouve a vítima, as pessoas próximas, a OAB, o Ministério da Mulher, delegada, promotora do Núcleo de Gênero, enfim, uma série de outras vozes que corroboram a tese de que a jovem vítima do estupro foi também humilhada e negligenciada no caso. O caso repercutiu em todo país e os envolvidos se viram expostos. O juiz, Rudson Marcos, recebeu uma advertência formal do Conselho Nacional de Justiça, por ter sido negligente, o promotor e o advogado foram repudiados pela opinião pública. E, por isso, decidiram acusar Schirlei de lhes manchar a honra.

O processo foi julgado pela juíza Andrea Struder, que condenou Schirlei aplicando uma sentença leonina. Segundo texto na Agência Intecep: ” A condenação de Schirlei proferida pela juíza lembra a época da ditadura e é totalmente infundada, repleta de falhas processuais e extremamente desproporcional. Studer foi a única juíza disposta a aceitar o caso apresentado por seus colegas na vara, depois que muitos outros se recusaram devido ao conflito aparente”.

A condenação da jornalista levantou a categoria que entende a decisão como uma sentença não apenas contra Schirlei, mas contra todos os jornalistas, visto que a ser mantida, significa claramente uma mordaça. É sabido que o judiciário brasileiro é uma instituição que representa a classe dominante e que se configura num guardião desta minúscula fatia da sociedade. Ficar contra os trabalhadores é pão comido, coisa cotidiana. Mas, ainda assim a sentença chocou os jornalistas por representar uma obstrução ao trabalho do profissional que é o de reportar os fatos. Importante ressaltar que a queixa se dá porque a jornalista expôs um juiz, um promotor e um advogado. 

Ora, receber pena de prisão e multa de 400 mil reais por ter relatado fatos reais e comprovados tem algum sentido? Nenhum. Esta semana outro vídeo de uma audiência virtual em Santa Catarina mostra uma juíza igualmente sendo grossa e arrogante com uma testemunha. Será penalizada também a pessoa que divulgou mais essa cotidiana ação das cortes? Não se pode mostrar a realidade do mundo judiciário? Está vedado? Bom, isso tem nome. Censura. 

Hoje, na Universidade Federal de Santa Catarina, foi organizado pelo Sindicato dos Jornalistas um ato de solidariedade à jornalista, que ainda está lutando na justiça, agora em segunda instância. Compareceram jornalistas, representantes de movimentos sociais, de sindicatos, estudantes, políticos e comunidade, todos dispostos a apoiar e lutar junto com Schirlei para que essa sentença seja anulada. Nenhum dia de prisão e nenhum centavo de multa. O judiciário catarinense terá de responder com justiça. 

É sabido que o jornalismo brasileiro é, via e regra, um jornalismo declaratório, sem profundidade e muitas vezes cúmplice dos poderes dominantes. Mas, jornalistas há que fogem do lugar comum e cumprem a função primeira do jornalismo que é desvelar o que quer se esconder. Schirlei é uma dessas profissionais. Valente, responsável, ética. Ela está sofrendo, porque é repórter, e sabe que fez o certo. Vive uma tortura cotidiana por ter cumprido com seu compromisso profissional. 

Cabe a nós enredá-la numa rede de afeto e de luta para que ela saiba que não está sozinha. E cabe a nós também divulgar ao máximo essa infâmia. 

O jornalismo de verdade carrega essa marca, a da expor à luz o que se esconde. Não é sem razão que lá na Inglaterra o também jornalista Julian Assange sofre prisão e tortura por ter revelado os crimes dos Estados Unidos. Guardadas as proporções, assim tem sido com a Schirlei, por ter exposto algumas vísceras do judiciário. 

Justiça para Schirlei. Suspensão da sentença já! Nada menos do que isso!



quinta-feira, 19 de outubro de 2023

A dependência no futebol


No campo da política já é bastante comum fazer a discussão sobre os dramas de ser um país dependente e subdesenvolvido, situação reservada obviamente para a periferia do sistema capitalista. Os chamados países centrais são os que ditam normas, regras, modas, produzem ciência, conhecimento. Os da periferia consomem o que é produzido no centro, transformam-se em cópias mal feitas, mal arranjadas, mal definidas. É da natureza do capitalismo ser assim, desenvolve os ricos e subdesenvolve os que estão submetidos. Na periferia só se desenvolve o subdesenvolvimento. E nessa de apenas imitar o centro vamos perdendo nossa originalidade, que é a única coisa que poderia nos salvar.

Vejo isso no futebol. Tínhamos um futebol alegre, ofensivo, brincador, cheio de ginga, pura arte, de brilhantes toques de bola, capaz de desulear o adversário. Ficamos famosos com isso, chegamos a ser os melhores do mundo. Porque éramos originais. Depois, com a mercadologização exacerbada do futebol, começamos a imitar as propostas europeias, máquinas de fazer dinheiro. O futebol técnica, baseado na performance corporal, na força, no cálculo. Pouco a pouco fomos perdendo nossos campinhos, os meninos passaram a frequentar mais a academia do que o gramado, fomos perdendo a alegria, a ginga, a malemolência, a arte, ficando cada dia mais parecidos com os europeus. 

Hoje, nossos craques que são convocados para a seleção são quase todos jogadores do futebol europeu, nada da nossa originalidade. Viramos um pastiche, uma cópia desarranjada, bruta, sem paixão. Foi-se a alma do futebol arte, porque, segundo dizem, é assim que tem de ser. Jogamos contra a Venezuela e empatamos, perdemos para o Uruguai e daqui a pouco pode até ser que nem cheguemos à Copa. O futebol mercadoria venceu. O futebol homogeneizado numa proposta alienígena venceu. A dependência nos afogou até no que tínhamos de mais genuíno, nosso toque de bola, nossa magia. Foi-se o tempo de Garrincha, Pelé, Eder, Marinho, Nelinho, Reinaldo, Rivelino, Sócrates, Eder, Zico, Falcão e tantos outros do nosso panteão canarinho. 

O que nos resta é o nosso campo de botão, onde ainda podemos colocar nossa originalidade em ação, com os craques do verdadeiro futebol brasileiro. Adeus, futebol... Perdemos mais uma batalha para o capital. 


domingo, 8 de outubro de 2023

Odisseias do cotidiano



Dez horas, domingo. Hora de levantar o pai. A chuva comendo. Seu Tavares abre os olhinhos e já dá um sorriso. É um amorzinho. Levanta a coberta e a surpresa nos espera. Tá cocozado e bastante. Hora do banho. Faz as gingias de alongamento e toca a levantar. Põe na cadeira de banho e vai para o chuveiro. No começo ele encrespa, mas quando a água quentinha vai subindo ele relaxa e curte. Limpa, limpa, limpa. Tudo pronto, desliga o chuveiro e vai saindo. Mais cocô na parada, bah... Pedro corre pra limpar o chão e eu volto com o pai para o chuveiro para mais uma lavada. Tudo certo, é hora de secar. Vai secando, passando crème com óleo de girassol em todo o corpo. Depois coloca a roupa da parte de cima. Na parte de baixo ainda é hora de fazer o curativo numa escara que apareceu no cóccix. Ajeita, limpa bem, põe a pomada, a gaze e tudo certo. Fechado. Aí vem a hora de colocar a fralda e calça. Passa o crème com óleo nas pernas, ajeita a fralda. É hora então de levantar ele da cadeira. Pedro sustenta pelos braços, porque ele não se sustenta mais, e eu ajeito a roupa. Parecia que tudo ia bem, mas eis que o Pedro sente um quentinho no pé. Mais cocô. Putz grila. Por sorte caiu tudo no pé e não sujou a fralda. Volta pra cadeira e dá um tempo para dar risada porque a cara do Pedro é engraçada demais. Ele mesmo cai no riso e vai para o banheiro para tirar o cocô do pé. Eu volto a fazer nova higiene no pai. Espio para ver se não sujou o curativo. Graças aos bons deuses do Tahuantinsuyo não sujou. O Pedro volta e ergue ele de novo. Eu subo a fralda e a calça e pronto. Tudo certo. Ufa. Bota na cadeira de rodas para ir para sala. Coloca a meia, o sapato, e envolve ele num coberto para poder atravessar a parte descoberta porque a chuva tá caindo forte. Pedro empurra a cadeira e eu sigo com o guarda-chuva. Encerrada a fase despertar. Valamideuzi... Mas ali está ele, bem bonitinho, lavado, arrumado e pronto para o café. Assim vamos indo, fazendo nosso impossível para garantir vida boa e bonita para o pai.

sexta-feira, 29 de setembro de 2023

Aventuras no Busão


O pai saliva muito de noite e por conta disso eu preciso trocar os travesseiros seguidamente e lavá-los. Como não é fácil secar, o jeito é ter vários deles para repor enquanto os outros secam. Assim que hoje eu fui ao centro para comprar mais alguns. Fiz meu recorrido tradicional e parei na Ki Lojão, onde comprei dois travesseiros. Achei grande, mas a moça disse que era padrão. Tudo bem. Saí de lá com um saco que era praticamente do meu tamanho. Eu podia entrar dentro dele e vir disfarçada. Foi engraçado. 

Segui em direção ao Ticen para pegar o Rio Tavares. A fila já estava enorme e eu com aquele sacão. Pensei:, vou ter de ir em pé e com esse saco enorme. Caracoles. Lá fui eu. Por um milagre dos deuses consegui um banco e me enfiei ali com o saco, incomodando um pouco o vizinho. Até ali, beleza. O trânsito lento e eu rezando para o busão chegar antes das duas e meia, horário da saída do Gramal. Chegou duas e meia. Saltei correndo quase tropeçando no saco, mas não consegui pegar o maldito ônibus. O motorista já arrancava e não parou. . O próximo só sairia em 25 minutos e era Eucalipto, o que significaria uns 40 minutos zanzando pelo bairro, pelos Morros da Pedras até voltar pela Gramal. Sem saída fui do outro lado pegar um Caieira da Barra do Sul que saía as 14 e 35. A fila imensa. Esperei todo mundo entrar e fiquei em pé perto da porta com o enorme saco da Ki Lojão. Um entra e sai de gente e eu me espremendo nos travesseiros a cada um que passava. Pra piorar tive de ouvir duas mulheres falando do ônibus cheio assim: "É ruim, mas a gente se diverte". Quem se diverte, querida?, pensei e mandei pra elas um olhar de monstra.

Quando chegou o Trevo do Erasmo, saltei. Dali até minha casa são 17 minutos andando. E lá fui eu me arrastando com o saco de travesseiros. Sou fraca de músculo então a cada tanto tinha que dar uma parada para trocar de mão. Os travesseiros, apesar de não muito pesados, incomodavam pelo volume. Toca andar e andar até que finalmente enxerguei o portão de casa. Ô glória! Votidizete uma coisa... essa vida de pessoa que usa drogas, no caso o transporte desintegrado da cidade amada. Isso acaba com um cristão! E o que me dá mais raiva é saber que o povo ainda pode votar num disgrama que não está nem aí para o nosso sofrimento. Valei-me São Pancrácio...


sexta-feira, 15 de setembro de 2023

Como vencer a batalha da mentira e da desinformação

Foto: Vilar RodrigoWikimedia Commons - Os espaços vicinais como espaços do encontro 

Sempre tive muito arraigada em mim a proposta do trabalho de base. Não por acaso. Sou filha das CEBS. Quando no Brasil vivíamos a ditadura, tudo era proibido. Falar de política, discutir demandas, compreender a realidade, organizar lutas trabalhistas. Os partidos de esquerda eram clandestinos e não havia outra forma de chegar ao povo que não a do trabalho de base, esse feito nas comunidades, nas associações de moradores. A Igreja Católica, na sua vertente da Teologia da Libertação, foi talvez a única que conseguiu fazer esse trabalho organizativo às claras. Quem iria impedir que os clubes de mães da igreja se reunissem? Ou que os grupos de juventude católica se encontrassem? Foi assim que nasceram as Comunidades Eclesiais de Base. O objetivo era discutir a bíblia, mas a discussão passava pela análise da realidade e, principalmente pela proposta de que não era necessário esperar o céu para ser feliz. Era possível ser feliz aqui e agora.  A teoria do vale de lágrimas totalmente desmantelada. 

Foram anos e anos nesse trabalho e não há como negar que grande parte, senão a maioria, dos movimentos sociais que começaram a surgir e se fortalecer no começo dos anos 1980, tiveram aí a sua semente. Combater a ditadura passava por essas reuniões de pequenos grupos.

Outro dia, em conversa com o professor Nildo Ouriques, ele comentava que os tempos modernos não comportam mais aquele tipo de trabalho que fazíamos na ditadura. Creio que ele tem meia razão. 

Hoje não é mais necessário criar subterfúgios para uma reunião ou para a organização dos trabalhadores. Tudo está aberto. E mais, temos uma plataforma tecnológica que, em tese, nos abre para o mundo e na qual podemos publicar textos, vídeos, fazer encontros etc... Não há partidos clandestinos e as possibilidades para os debates são infinitas. Mas, aí também residem problemas.

Justamente por sua multiplicidade as plataformas de comunicação acabam gerando um excesso de informação. Qualquer pessoa, em qualquer lugar, pode fazer um vídeo expondo sua “verdade” e isso vai rodando nas telas, uma após a outra, sem que a gente consiga mais – por conta do extremado número – distinguir o que é correto, o que está embasado em informações seguras, o que verdadeiramente faz sentido. Isso sem contar os vídeos de dancinha e de bichinho que nos distraem a cada tanto. Caminhamos num pântano, numa areia movediça, dos quais raramente conseguimos escapar. 

Como então enfrentar esse tempo, que é totalmente outro, mas que traz suas dificuldades singulares? Acredito firmemente que precisamos, junto com os meios tecnológicos que dispomos, trabalhar também no presencial. Os pequenos grupos, as pequenas reuniões, os pequenos encontros. Eles servem para estabelecer e fortalecer laços amorosos que, em última instância, é o que determina a atenção e a audiência. Isso pode ser feito com o uatizapi? Não sei! Pode ser. Mas, creio que nada supera o olho no olho, o caminho do abraço, do afeto, do respeito construído na caminhada real. Daí que o uatizapi vem depois, como são os grupos de família ou de amigos. Os laços já estão formados...

Como o universo das redes se configura na formação de bolhas, fica bem difícil chegar a alguém que não faça parte do nosso mundo, que não compartilhe nossa forma de ver a realidade. E sair da bolha nos joga nesse pântano de informações que pululam incessantemente. Assim que realizar esse trabalho de encontro em espaços diferenciados pode ajudar os partidos, os grupos políticos, os movimentos, a estabelecer nexos com gente que não se encontraria nos lugares onde estamos acostumados a estar. As estradas reais ainda são importantes, penso eu. 

Não sei se isso poderia ser chamado de trabalho de base, mas a arte do encontro vivencial ainda me parece ser indispensável. Adélia Prado, poetisa mineira, diz: só o que a memória ama fica eterno. Lembro-me de mim mesma, nos caminhos das CEBS, ouvindo sobre a bíblia e sobre a luta política e as memórias mais penetrantes são as caras, os toques, os abraços, os sorrisos, a atmosfera da solidariedade, da cooperação. Isso ficou marcado como uma forma de viver, é mais forte que o discurso. 

Alguns me chamariam de igrejeira... mas eu prefiro dizer que a raiz dessa minha certeza é antropológica. O ser humano pende para a beleza e para o belo e quando os vislumbra, ainda que por uma pequena greta, os segue, os persegue! 

Daí que descobrir como fazer esse trabalho num tempo em que aparentemente não há mais censura e onde a informação jorra é nosso desafio... 

Óbvio que nesse caminho não podemos abrir mão da comunicação de massa... mas isso é outro assunto! 

segunda-feira, 4 de setembro de 2023

Com Samuel, pelos Andes

Na foto, Samuel, o caminhão vermelho e nós três, na parada em Paso de Jama.

Seu nome: Samuel. O encontramos meio escondido debaixo de um enorme caminhão que carregava papel. Estava quase marrom, a cor que cobria tudo na perdida cidade de Susques, na puna argentina. Com um pano sujo, tocava aqui e ali no coração da máquina buscando achar o problema que o prendia naquele lugar. Estava atrasado e mal-humorado. Susques é chamada de portal dos Andes, cidade fronteiriça onde está o posto da alfandega e todos os caminhões que cruzam a linha entre a Argentina e o Chile têm que, obrigatoriamente, parar ali. Por isso, era ali que também estávamos em busca de uma carona para San Pedro de Atacama. Samuel já era o quarto caminhoneiro a ser consultado sobre a tal carona.  “Não dá, tô quebrado”, foi a resposta seca e incisiva. Já eram onze da manhã  e a possibilidade de outros caminhões passarem  se esvaía. O movimento maior era sempre de manhazinha. “Até o meio dia ainda pode aparecer alguém”, dizia Fernando, um dos fiscais da aduana, ansioso por nos ajudar. Mas no olhos dele se percebia que as chances eram pequenas. Teríamos que ficar mais um dia em Susques e nosso sonho de chegar ao deserto ainda naquele dia ficava mais distante. Dalí não saía ônibus nem nada. A única chance era mesmo um caminhão.

As onze e meia da manhã o Samuel apareceu na aduana para acertar os papéis. Iria arriscar atravessar a cordilheira com o caminhão ruim. Não podia mais ficar ali. Estava igual a nós, com pressa de chegar ao Chile, mas tinha medo de levar caronas, pois a coisa podia ficar ruim. A cordilheira é traiçoeira e havia notícias de que estava nevando mais acima. “É arriscado”, balbuciava, enquanto Fernando insistia em convencê-lo a nos levar. Então, finalmente, foi vencido.  E lá fomos nós para a boléia levando a reboque o argentino Horácio, que voltava para o posto da fronteira com um galão de gasolina. Seu carro havia ficado lá, sem combustível. Seríamos cinco a subir os Andes no caminhão avariado. 

 A insistente fumaça branca que saia do possante deixava claro que sem óleo não chegaríamos a lugar nenhum. Poucos quilômetros depois de Susques paramos num posto, o último de toda a travessia da cordilheira. Por azar, só havia quatro litros de óleo  disponíveis. Compramos. Sim, nós, porque o Samuel estava tão quebrado quanto o caminhão. Há dias fora de casa e com o veículo avariado já não restava qualquer tostão. E assim tossindo e cuspindo fumaça lá foi o caminhão pela trilha da montanha.

A travessia é solitária. Vez ou outra, muito rara, aparece alguém. Geralmente os caminhões passam bem cedinho e são pouquíssimos os carros de passeio. O trotezito do caminhão não saia dos 40, 30 quilômetros por hora. Íamos rezando para que o óleo não evaporasse todinho. Mas, faltou santo. O barulhinho de pi, pi, pi no painel dava conta de que era preciso parar. Na estrada, o vazio. Uma chuva forte, deserto total. Os cinco desolados, esperando que passasse alguém. Por um milagre apareceu um caminhão e compramos mais quatro litros de óleo. Voltou todo mundo para o caminhão e toca a subir. Marcela começou a ter dor de dente e ria de nervoso. Eu, que não havia comido nada aquele dia, comecei a passar mal por causa da altura. Na frente, Miriam seguia, impávida, de papo com Horácio que contava sobre Córdoba, sua cidade natal. A duras penas chegamos a Paso de Jama, o ponto da fronteira, e ali deixamos o companheiro argentino. Nada havia além da aduana.

Feito os trâmite seguimos a subida da montanha, o possante cuspindo fumaça. Agora, na estrada de asfalto o que nos esperava era a neve. Começou assim, de repente, e num segundo, tudo estava coberto de gelo, inclusive o caminhão. Bem naquela hora lá veio o barulhinho insistente pi,  pi, pi, exigindo óleo. De novo paramos, no meio da neve, e descemos a olhar a estrada. Um frio de rachar. Mais um milagre? Rezávamos.  

Pois não demorou dez minutos e logo apontou outro caminhão. O motorista nos vendeu mais quatro litros de óleo. Vibrávamos com palmas e gritos. O caminhão seguiria seu ritmo de completa lentidão. Samuel ria da bagunça e contava um pouco de sua vida. Em 27 anos de estrada, sempre fazendo a rota da cordilheira, nunca havia passado por aquele tipo de situação. Casado e com três filhos queria chegar logo à cidade de Calama, no Chile, onde esperavam por ele com uma comidinha caseira e uma cama quente. Achava estranho o fato de nós três sermos casadas  e estarmos viajando sozinhas. “Lá no Brasil a gente é moderno”, brincava Miriam.  E ele ria um riso que deixava entrever que lá no Chile não era assim não. 

Como a jornada estava longa dividíamos a pouca comida que tínhamos: um pão de sal pequeno que eu comprara em Susques, cortado em quatro pedaços, uma barra de cereal, também cortada em quatro pedaços e pedaços de gengibre. Foi o que nos sustentou até o fim do dia. Não imaginávamos que levaríamos mais de oito horas  para fazer duzentos e poucos quilômetros até San Pedro. 

Já ia caindo a noite e estávamos ainda a 20 quilômetros de San Pedro. Parecia que tudo iria dar certo. Chegaríamos, enfim. Mas, o malfadado pi, pi, pi de novo nos fez parar. Agora não seria mais possível um novo milagre. Era pedir demais para os deuses da cordilheira. Samuel disse que se, por ventura, passasse alguém seria melhor a gente ir com a nova carona. Ele passaria a noite na estrada. Não aceitamos. Estávamos juntos e chegaríamos juntos. O vento soprava com uma força descomunal. Ficamos os quatro, dentro do caminhão, parados no meio fio, buscando nos aquecer com o calor um do outro. 

Então, no meio da ventania, como um novo milagre, assomou um carro branco, de passeio. Samuel desceu e pediu para que parasse. Eram dois bolivianos que vinham na direção contrária. Uma conversa rápida e Samuel trouxe a notícia. “Eles vão voltar e levam vocês até a aduana”. Insistimos que seríamos solidárias ficando até conseguir mais óleo, mas Samuel não quis . “Vocês cheguem lá e peçam para os carabinieri virem me buscar. Eles ajudam”.  Bom, assim tudo bem, eram só 20 quilômetros, seria um passinho para eles. Lá fomos nós então com as mochilas para dentro do carro dos bolivianos, enquanto Samuel ficava na estrada acenando. 

Os dois rapazes conversavam nervosos e por fim nos contaram o conto. Na verdade, o motorista tinha vindo justamente do posto da fronteira. Tinha sido mandado de volta porque trazia um clandestino. Os guardas o obrigaram a  levar o outro – que era um primo – até a fronteira. Mas eles haviam decidido que o garoto ficaria ali, no meio do deserto, naquela ventania, e entraria no Chile à pé, em algum ponto, de forma clandestina. “Chegando lá não digam nada”, pediam, assustados. E nós concordando é claro, mais assustadas do que eles.  Pois foi assim que chegamos ao Chile. No carro do boliviano, que já estava encrencado. 

A polícia, normalmente mal-humorada, já nos marcou. Revista total. Abre mala, abre bolsa. Éramos “suspeitas”. Eu, que trazia um saco de folha de coca no bolso, corri para o banheiro e me livrei de tudo. Foi um momento de tensão. E mesmo longe, foi Samuel quem nos salvou, pois contamos toda a aventura e pedimos aos carabinieri que fossem ajudar o companheiro, chileno, que estava a 20 quilômetros dali correndo risco de morrer de frio. Penso que foi só aí que acreditaram que não éramos cúmplices do boliviano. Este, que já havia liberado o primo, sumiu no mundo.

Passado o perrengue da aduana, mochila nas costas, entramos à pé em San Pedro, no Chile, depois de oito horas na estrada. Foi o tempo que levamos para fazer pouco mais de 200 quilômetros, tendo passado por calor, chuva, neve e vento na cordilheira. Ainda estávamos um pouco tensas com toda a aventura e caminhávamos sem falar. Então, ao virar a esquina do pequeno povoado, que era a cara daquelas vilas de seriado de Zorro, foi exatamente isso que vimos. Dentro de um ônibus que saia da cidade, o próprio Zorro, dirigindo, mascarado, a acenar. Caímos na gargalhada e entramos na Caracoles – rua principal - prontas para viver a mais linda experiência do deserto chileno. 

Lá longe, no meio da noite, Samuel recebia dos carabinieri mais alguns litros de óleo, o que lhe garantiria passar a noite em casa.

***


Do Brega

Foto: Rosane Lima


Verdadeiramente tenho uma espécie de compulsão pelo brega. Não sei ser chique. Mesmo quando quero, a coisa acaba descambando. Nas ruas, meus olhos tendem a buscar as lojinhas de roupas baratas e bregas. Não sei por quê. Outro dia fui ao xopim com minha amiga Jussara disposta a comprar uma calça jeans chique. Fomos às lojas da Levis e da Forum...Provei uns 20 modelos, não gostei de nenhum... Geralmente faço uma carinha de enfado, enquanto digo: feeeeiiiiiia. Depois, fui conferir os preços. Com o valor de uma única calça eu compraria seis nas Pernambucanas. Bah, não tem como. 

O pior que sou assim desde pequena. Quando morávamos em São Borja o pai abriu um crediário para nós na Loja Nemetz, uma das mais chiques da cidade. A gente podia ir lá e comprar o que quiséssemos. Minha irmã fazia a festa, comprava roupas, sapatos, bolsas, lenços, tudo o que havia na crista da moda. E eu olhava aquelas roupas esquisitas com a mesma carinha de enfado que faço hoje. Não comprava nada. Minha alegria mesmo era quando eu ia às Pernambucanas com a mãe. A gente ficava por lá uma tarde inteira olhando as fazendas, que era como chamávamos os cortes de tecido. Geralmente paninhos simples, coloridos e baratinhos os quais se transformavam em lindos vestidinhos bregas que a mãe mesmo fazia. Eu me sentindo o máximo. 

O mesmo passa com sapatos. Não consigo sair da tradição. Quando pequena eu usava só as Franciscanas, sandálias confortáveis usadas por freiras. Era tudo de bom. Usei até a fase adulta e só parei porque a fábrica se acabou. Nunca mais vi uma franciscana. Só de pensar eu choro. Como eram boas aquelas sandálias. Sem elas passei para as alpargatas de sola de corda. Usei por anos e ainda uso. Mas as preferidas são as havaianas. Uso o tempo todo, apesar de que agora gourmetizaram as bichinhas. Estão custando 70 reais. Um absurdo. Talvez seja hora de buscar algo mais raiz. Outro dia visitei as lojas de calçados em busca de uma sandália de verão.. mesma coisa de sempre. A cara de enfado e mãos vazias. Acabo no Mercado Público com algum modelito havaiana ou uma alpargata. No inverno até tento ser chique, mas não aguento muito tempo. Uso uma botinha bonitinha um dia e no dia seguinte lá estou de sandália de couro e meia. A alma é brega...  Tem jeito não... Tivesse eu dinheiro seria o fino do brega... exageradamente...