quinta-feira, 23 de março de 2023

Aprovadas as mudanças no Plano Diretor


Aconteceu o esperado. Os vereadores da capital, por ampla maioria, aprovaram as mudanças no Plano Diretor. Basicamente agora será permitido o aumento dos números de andares nos prédios e se entrega o desenho da cidade para os empresários. Ou seja: a prefeitura cede soberania aos homens do cimento. Sendo assim, aquele que foi eleito pela população para comandar os destinos da cidade, simplesmente não comanda. Concretiza-se o estelionato eleitoral. Mas, se é assim, por que não se observa uma rebelião na cidade? Por que a maioria simplesmente não se importa com o que acontece na Câmara? Por que o protesto se limita a um grupo específico que desde há mais de duas décadas estuda, acompanha e elabora propostas para a cidade? 

A resposta para isso é simples: a ideologia prevalece e obscurece a compreensão sobre o que de fato acontece na vida das pessoas. 

A maioria da população está ocupava em sobreviver. Lutando para manter a cabeça fora da miséria da vida. São trabalhadores e trabalhadoras, estudantes, desempregados buscando bicos, enfim, gente em batalha. No pouco tempo que têm para seu descanso ou lazer, o máximo que conseguem fazer é ficar diante da televisão ou nas redes sociais. E, nestes espaços a mensagem que chega é singela. As mudanças que a prefeitura quer fazer na cidade vão garantir mais emprego e mais oportunidades para as pessoas. Novos prédios são novos espaços de trabalho e a ocupação desenfreada das praias também trará empregos nos bares, restaurantes, lojas etc... Transformar Florianópolis em uma nova Balneário Camboriú trará turistas de montão e provavelmente artistas famosos de todo mundo comprarão lindas coberturas em frente ao mar. 

Aqueles que moram ainda perto do mar poderão vender seus terrenos a preços altíssimos e pouco importa se tiverem de morar nos municípios vizinhos, terão um dinheirão no bolso. E pouco importa se as praias estiverem cheias de merda, a turma aproveita igual. Não é assim no Balneário Camboriú, onde até o Cristiano Ronaldo tem um apartamento? Se é tão ruim assim, por que as temporadas de verão bombam por lá? 

O apelo a um possível emprego e ao dinheiro fácil que virá se servirmos aos ricos que consumirão os novos prédios de apartamentos parece ser imbatível. No geral, pouco se compreende a proposta de preservar as dunas, as restingas, os mangues e a floresta atlântica. Como se vai arrancar dinheiro dali? É onde a pedagogia da beleza do capitalismo nada de braçada. Porque o que os capitalistas prometem é: se vocês trabalharem duro, vão chegar lá. E esse lá a que se referem aparece como “vocês serão iguais aos moradores ricos dos prédios caros ou aos turistas que vêm no verão curtir a praia”. Mas, na verdade, o lá aonde nós, os trabalhadores chegamos, segue sendo o mesmo lugar de sempre: o de vendedores da nossa força de trabalho para enriquecer algum empresário. A não ser por um golpe de sorte – que atinge raros – os trabalhadores seguem tendo de se virar no almoço para pagar a janta. 

Só que esta realidade fica escondida pela ideologia que se esparram na televisão e nas redes sociais. Nas telas, jornalistas e “influenciadores” de boca alugada esbravejam contra quem quer preservar a natureza e garantir a cidade como um espaço para todos. E, aqueles que não têm tempo nem condições materiais para conhecer a realidade, acreditam, e passam a defender a mesma ideia. Danem-se as dunas, se brotarem hotéis. Dane-se a restinga se brotaram condomínios de luxo. Dane-se a floresta se brotarem áreas de eventos para os granfinos. 

E, nessa batalha ideológica, os movimentos sociais que lutam para garantir uma cidade soberana ficam em desvantagem, porque eles não aparecem na televisão todos os santos dias, eles não aparecem nas redes sociais, eles não são distribuídos nos uatizapis de família. Raramente conseguem chegar à maioria e quando chegam são pintados como ecochatos, inimigos do progresso e gente que atrapalha o sonho de “chegar lá” da turma que está aí, trabalhando duro. É uma luta desigual. 

Por isso não surpreende que a Câmara tenha mandado cercar o prédio para impedir que os movimentos comunitários acompanhassem a votação e protestassem. Por isso a polícia, a força bruta. E na televisão e nas redes o mesmo discurso: “esse povo só quer atrapalhar, pau neles! Bora fazer de Florianópolis um lugar moderno e perfeito para se ganhar dinheiro”. Como vencer esse discurso sedutor?

Não há como escapar. 

Não temos mais os velhos partidos políticos atuando nos bairros, nas comunidades, formando gente. Não temos trabalho de formação política nos sindicatos. Não temos a sistemática caminhada junto à população levando informação e conhecimento. Não há formação para a rebeldia. Tudo se dá nas redes, como se tivéssemos o mesmo espaço, como se o algoritmo não apagasse as pegadas dos lutadores, como se os servidores alocados no estrangeiro não censurassem. Aceitamos fazer a luta no campo deles, sem preparar qualquer surpresa. Eles sabem que o máximo que faremos será gritar lá na frente da Câmara, numa ação ritualística de impotência. 

O poder perdeu o medo que tinha dos trabalhadores organizados. Eles patrolam e riem de nós. Temos 23 vereadores na capital. Quatro votaram contra a proposta que entrega a cidade para o cimento. Quatro. Uma do PT, três do PSOL. Os 19 restantes votaram sim. E celebram. 

Hoje, nossa cidade comemora mais um ano de existência. Uma cidade que se perde e se afoga na grande ressaca das empreiteiras. Haverá festas e celebrações e nas telinhas da TV e dos celulares, os mesmos vendilhões seguirão entregando a ilusão de que agora sim, o progresso vai chegar. E as gentes seguirão o mágico som do capital, no rumo de sua desgraça, acreditando chegar ao paraíso. Sem informações, acreditam que o comunismo é o demônio e não a alegria do comum. 

Fomos derrotados, mas seguiremos lutando.

quarta-feira, 15 de março de 2023

Casas quadradas, sem alma


Todos os sábados eu pego minha bicicletinha e vou pra rádio lá pelas 9 da manhã. Gosto de ir devagar, olhando o bairro, observando as mudanças. Amiúde, eu choro. Lutamos muito para manter o Campeche como um bairro jardim. Fomos fragorosamente derrotados. O trajeto é longo e pelos caminhos vou notando as novas construções, principalmente nos grandes condomínios. O que é aquilo, meu deus? As casas são todas do mesmo tipo, quadradas, sem curvas, sem desenhos, sem rococós, sem detalhes. Parecem caixas. São grandes, chiques, mas daquele jeito estranho, como se não tivessem vida. Eu acho feio demais da conta.

Também assomam ao longo das ruas os “apertamentos” que as imobiliárias vendem como casas. São finos e quadrados também, como caixas. Tem uma nesga de terra na frente e outra atrás. Não é casa. É um caixotinho metido a besta. Feio demais da conta. Isso sem contar nos prédios que também pululam em todo o lugar. Apartamentos  e apartamentos, prometendo vista para o mar. Igualmente caixas de alto padrão. Feio demais da conta. Nesse ritmo vão se apagando os caminhos de areia e vão sumindo as árvores.  O asfalto vai tomando as ruas, aquecendo ainda mais os dias. Também já não encontramos mais as corujas buraqueiras, pois não existem os terrenos baldios. Tudo nos foi tirado.

Lá na curva da rádio havia um engenho, lindo e singelo. Foi derrubado. Agora o terreno está todo cercado de tapumes pretos e já se podem ver as colunas das construções. Com certeza um enorme prédio surgirá no lugar. O Campeche vai se transformando na fria patrolagem do progresso. Um progresso burro, que destrói o que mais os turistas querem: a natureza, a beleza, o mar limpo. Muito em breve seremos um bairro igual a tantos outros, sem alma, sem a delicadeza dos jardins, abarrotado de cimento futilidades.

Para nós, moradores, restam às lágrimas. E as minhas, não tem fim... 


terça-feira, 14 de março de 2023

Prefeito não ouve a comunidade

Fotos: Flora Neves Guarani Kaiowá e Kauan Marisco

A prefeitura de Florianópolis tentou passar modificações no Plano Diretor da cidade numa patrolagem. Não deu certo. As comunidades se organizaram, entraram na Justiça e garantiram audiências públicas para que a municipalidade apresentasse a proposta e ouvisse as gentes. As audiências foram feitas, mas com via única. A prefeitura mostrou sua ideia – que basicamente entrega a cidade para os empresários do cimento – e simplesmente fez ouvidos moucos para as falas da comunidade. Em praticamente todas as audiências nos bairros as comunidades rejeitaram a proposta que pretende aumentar o gabarito dos prédios (mais andares) e garantir aos empreiteiros o controle do desenho da cidade. Ou seja, mostra uma prefeitura fraca, rendida aos interesses dos construtores. 

Nas falas dos moradores da cidade, a proposta da prefeitura simplesmente incha a cidade, sem qualquer preocupação com a infraestrutura. Não há proposta para mobilidade, saneamento, espaços de lazer, nada. É só a sanha louca de construir prédios e prédios para render lucros aos empreiteiros. Há os que se iludem com a ideia de que com mais prédios haverá mais empregos (???) e desenvolvimento. Numa cidade como Florianópolis, que vive do turismo, é a natureza o foco principal. Uma praia cheia de merda não pode ser atrativa para ninguém, mas a prefeitura parece não se importar com isso. Tampouco está preocupada com oferecer transporte de qualidade e rápido para os trabalhadores que sofrem cotidianamente com o sistema desintegrado, e mais ainda na temporada, quando a cidade dobra de número de habitantes. Aos moradores, nada. Aos empreiteiros, tudo. Esse é o plano. 




Ontem a prefeitura faria a Audiência Final. Na mesa nenhuma novidade, a não ser a mesma proposta que foi rejeitada pelas comunidades. Insisto. Na maioria das audiências essa proposta foi rejeitada. E foram audiências bastante expressivas em números de moradores. REJEITADA! Mesmo assim, a prefeitura insiste em mandar para a votação na Câmara de Vereadores. Os movimentos sociais se reuniram e constituíram um substitutivo, um Plano Popular. Todos entendem a necessidade de mudanças no Plano, mas é preciso que sejam mudanças para melhor, e não para pior. Assim, depois de muito debate e levando em conta mais de uma década de discussão e construção coletiva de alternativas, o substitutivo ficou pronto e havia a proposta de que ele fosse levado em conta, que se discutisse o plano popular. Como a prefeitura não quis saber de conversa, os movimentos assomaram na Audiência Pública em protesto. 

De novo, sem qualquer capacidade de diálogo, a prefeitura ignorou a organização popular, encerrou a audiência e anunciou que mandará o projeto para votação no próximo dia 20 de março.

A manifestação das comunidades mostrou que a cidade está viva e em luta. Qualquer decisão sobre a cidade precisa da participação popular. Não é possível que um plano rejeitado totalmente seja encaminhado para votação, quando se sabe que a Câmara de Florianópolis também está de joelhos diante dos interesses dos empresários do cimento. Entrando em votação, o plano passa, porque não há preocupação com a cidade por parte daqueles que deveriam proteger e cuidar. Basta lembrar que o plano em vigor foi votado num final de ano, em uma votação marcada por protestos, na qual os vereadores aprovaram mais 600 novas emendas, que não haviam sido apresentadas às comunidades e que nem eles conheciam. Muitos votaram sim sem haver sequer lido as emendas. Assim que dia 20 deve ter mais protestos. 

A articulação dos movimentos sociais nesta terça-feira deixa claro que ainda há muita luta. E não vai parar. 

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Do aprendizado


Quando o pai chegou lá em casa e com ele a doença de Alzheimer, a vida de todos mudou. Eu, que sou filha, não tive muita opção. Desde o primeiro dia assumi o cuidado, buscando aprender o máximo para lidar com tudo. Comigo vivem meu companheiro e meu sobrinho, e eles também precisaram aprender. A demência é uma doença da família. Há que ter parceria para lidar com ela. 

Sei o quanto foi difícil para os dois. Meu sobrinho que é, portanto, neto do pai, acabou sendo o mais requisitado, por estar mais em casa. Coube a ele uma parte significativa do cuidado e sei o quanto é duro ver o avô ir se desfazendo diante dele. Um avô que foi pai. Um avôhai. Ainda assim, com todos os medos e perplexidades ele foi adentrando no universo do avô, sacrificando também seus estudos, suas noites e muitos finais de semana. Hoje, é ele o responsável por levantar o pai, pois trabalho de manhã. Já pegou as manhas todas e é capaz de fazê-lo sozinho, mesmo nas difíceis horas escatológicas. Ainda encontra tempo para brincar de corrida com a cadeira de rodas e desfrutar com ele as músicas caipiras e as gaúchas de raiz. 

Além disso, faz as mais deliciosas comidas para deleite da família, girando na cozinha entre especiarias de todo tipo que amealha na feira. É um feiticeiro dos sabores. É um pouco atrapalhado e cabeça de vento, mas isso vira qualidade quando a vida pesa. Quase todas as noites ele me ajuda a trocar e deitar o pai e é também o parceiro na hora do banho. Sem ele, a parada seria mais dura, com certeza. Hoje, ele começa mais uma voltinha em torno do sol, repleta de música e redemoinhos emocionais. Às vezes fica sem pernas, mas segue andando, e eu agradeço por sua presença. 

Ainda que quebre todos os copos e pratos possíveis, nossa casa seria bem sem graça sem ele. Feliz dia, meu amado Paulo Renato. E obrigada por ser quem és. Te amo!

sexta-feira, 10 de março de 2023

Tô gostando desse mundo não



A vida anda muito estressante para quem é da minha geração. Esse mundo tecnológico, no qual tudo tem de ser feito pela internet, toma tempo demais da gente, quando não enlouquece a pessoa totalmente. Ontem fui ao centro comprar um computador, porque o da rádio Campeche deu tilti total. Precisava dele para ontem mesmo, para colocar a rádio no ar. Andei em várias lojas no centro e os computadores de melhor preço não estavam disponíveis. Só se a compra fosse feita pelo aplicativo da loja. Tem base isso? Tô na loja, mas tem de ser feito pelo aplicativo. Mas, o caso é que fazendo pela internet o prazo de entrega é outro. Só na semana que vem porque, na verdade, não é a loja que vende, e sim um parceiro da loja. Sabe-se lá que loucura essa. Resultado: mais um sangramento de úlcera, de tanto ódio acumulado. Perdi tempo, estressei e voltei sem o equipamento. 

Outro universo cabeludo são os bancos. Precisava de uma assinatura digital para um documento. Tinha de ser feito no gov.com. Tudo na internet. Lá, só pode fazer assinatura quem tem conta prata. E para ter conta prata tem de fazer alguma transação no banco da pessoa. Faz vinte vezes o processo e dá erro. Entra na página do banco e para subir de nível na conta tem de cadastrar um determinado documento. Ok, vamos lá então. Faz todo o procedimento e dá erro, dizendo que isso não pode ser feito pela internet, só na agência. Mas, aí, não dá prazo de ir numa agência. Olha, é dureza de entender. Faz uma parte pela internet e outra pelo presencial. Que porra é essa?  Todo dia tem um lance assim, uma perda de tempo do caralho preenchendo formulários, senhas e não sei que mais. Pra no final ainda dar erro. Mais um sangramento de úlcera. O vivente não tem como fugir. 

Pessoas mais velhas que não nasceram já com um celular na mão sofrem demais nesse mundo. É incrível. Aquelas que não têm ninguém para ajudar estão literalmente ferradas e se buscam ajuda nos Bancos, por exemplo, são mal tratadas, vistas como estúpidas. É um inferno. Dias há que a gente acorda com um azar tremendo e tudo vai dando errado, encordoadinho, até que vem a explosão. 

Acho que prefiro o mundo zumbi, que a gente vai encontrando os monstros e passando o facão, tudo na brutalidade da vida, cara-a-cara. Esse mundo internético? Gosto não. Ô ódio, viu...

quarta-feira, 8 de março de 2023

Recuperar a qualidade dos cursos de Graduação da UFSC: o grande desafio para 2023

 


Foto: Henrique Almeida

Carta aberta do professor Lauro Mattei sobre a necessidade de uma profunda análise da situação da graduação na UFSC depois de todo o drama da pandemia que esvaziou os cursos e gerou outra série de grande problemas para os estudantes. 


Texto do professor Lauro Mattei

O início do ano de 2020 demarcou uma nova era na história da humanidade, uma vez que a pandemia provocada pelo novo coronavírus atingiu todos os países e povos do mundo, causando milhões de mortes, além de deixar um número expressivo de sequelados e de milhares de crianças órfãs. No Brasil o primeiro caso da doença (Covid-19) foi oficialmente registrado em 26.02.2020, sendo que a virose logo se espalhou por todas as cidades e regiões do país. Já em Santa Catarina (SC), o primeiro registro oficial da doença foi documentado em 12.03.2020.

Como naquele momento (ano de 2020) não havia um antídoto eficaz para combater a doença, os mecanismos de proteção das pessoas foram o isolamento social e o uso de máscaras para evitar o contágio, uma vez que a transmissão ocorria via micropartículas virais expelidas pelo sistema respiratório.

Neste cenário, a UFSC decretou, em 15.03.2020, a suspensão de todas as atividades acadêmicas e administrativas presenciais. Todavia, somente após cinco meses – e diante da continuidade e avanço da pandemia – foi instituído o ensino remoto, o qual perdurou até o mês de março/22, período que compreendeu os dois semestres letivos dos anos de 2020 e de 2021. Obviamente que esse foi um período extremamente complexo, dada a gravidade com que a pandemia se alastrou no país e também em SC, afetando as diversas esferas da vida de todos.

Infelizmente, até hoje a UFSC não fez uma avaliação rigorosa e adequada sobre o significado desse processo sobre os resultados do ensino remoto, especialmente na aprendizagem do corpo discente. Ou seja, no dia 15.03.2020 tiramos o plug da tomada e no dia 18.04.2022 o recolocamos, seguindo as rotinas acadêmicas e administrativas como se nada tivesse ocorrido. Mas o retorno às aulas presenciais revelou – pelo menos para aqueles que querem ver e analisar um conjunto enorme de problemas, inclusive que se avolumaram após um ano de ensino presencial. O mais evidente desses problemas é o enorme número de vagas ociosas nos cursos de todas as unidades de ensino da universidade. Mas há, ainda, uma quantidade enorme de problemas bem menos visíveis, quase sempre ligados aos aspectos comportamentais e existenciais dos integrantes da comunidade universitária.

Neste caso, gostaria de registrar o feede back que obtive de um número considerável de estudantes ao longo do ano de 2022. Assim, problemas de ansiedade, desânimo, falta de concentração, desistência, depressão, etc., são bem mais comuns do que se possa imaginar. E o resultado da combinação dessas diversas mazelas afetou e ainda está afetando a qualidade do processo ensino-aprendizagem, caso nada seja feito para o enfrentamento das mesmas.

Exatamente neste ponto, gostaria de externar duas ordens de preocupação. A primeira delas diz respeito ao comportamento de parte expressiva do corpo docente que, de maneira confortável e até mesmo descompromissada, faz de conta que esses problemas não existem e seguem como se a vida acadêmica-profissional continuasse como era antes do início da pandemia, porém com um agravante: tornou-se comum para uma parte importante da categoria docente a narrativa de que fazer reuniões presenciais para discutir os problemas anteriormente mencionados é “perda de tempo”. Registre-se que há relatos de que muitas atividades acadêmicas da graduação em diversas unidades continuam remotamente, apesar da decisão da instância máxima da universidade (CUn) de que essas atividades devem ser 100% presenciais. Assim, cada qual continua em seu “quintalzinho” enquanto “la nave va”.

A segunda diz respeito à postura das administrações da UFSC. A gestão anterior – encerrada em junho de 2022 – foi marcada por uma inércia monumental desde o início da pandemia, destacando-se a lentidão para implementar o ensino remoto quando este já era um ponto pacífico na maioria dos países igualmente afetados pela pandemia. Além disso, entre março de 2020 e junho/22 a UFSC viveu um período de completo abandono, cujo cenário era mostrado cotidianamente pelos meios de comunicação, uma vez que o mato tomou conta das diversas edificações, especialmente no campus de Florianópolis. Já a gestão atual – empossada no início de julho/22, portanto há oito meses – ainda não foi capaz de tomar iniciativas robustas voltadas a atacar os problemas anteriormente mencionados, particularmente em termos da elaboração de um diagnóstico preciso sobre os impactos da Covid-19 na esfera da graduação, apesar de ter sido eleita com o discurso de que sua prioridade seria o ensino de graduação.

Em meados de janeiro/23 mantive uma reunião reservada com o atual Reitor, momento em que explicitei todos os problemas acadêmicos que observei a partir do retorno do ensino presencial após dois anos de ensino remoto, ao mesmo tempo em que fiz uma sugestão geral que se desdobrava em duas dimensões para se pensar o início das atividades do ano letivo de 2023: a primeira dizia respeito à organização de uma força tarefa por parte dos integrantes da gestão atual para, no período entre 15.01 a 28.02.23, fazer um diagnóstico mínimo sobre a situação de cada curso de todas as unidades acadêmicas segundo os principais indicadores (índice de aproveitamentos, índice de reprovação, índice de represamento, abandonos, desistências, etc.) que ajudam a compreender a realidade atual; a segunda, partindo desse primeiro passo, seria organizar nas primeiras três semanas do calendário de atividades (mês de março) ações conjuntas em cada curso envolvendo todos os segmentos com o objetivo de discutir minimamente a realidade e os desafios a serem enfrentados visando melhorar a qualidade dos cursos de graduação em cada área de conhecimento.

Minha surpresa for ver no dia 03.03.23 a página principal da UFSC divulgar a programação de retorno às atividades acadêmicas para praticamente todo o mês de março/23, da qual faz parte um conjunto de atividades que vão desde oficinas diversas, cursos de cálculo e estatística, recepção aos calouros de alguns cursos, além de diversas atividades específicas correlacionadas aos assuntos identitários e de gênero. Diante disso, minha reação foi enviar, as 11:15h do mesmo dia, uma mensagem ao Reitor, cujo teor segue: “estou aqui vendo a programação de início das aulas do ano de 2023. De fato, a programação é extensa e variada. Todavia, passa longe de enfrentar os reais problemas da graduação conforme comentei contigo em nossa conversa no início de janeiro/23”.

Minha segunda surpresa veio no mesmo dia: ao acessar novamente a mesma página da UFSC percebi que tal programação não estava mais disponível. Continuo crendo que a atual administração tem feito poucos esforços para enfrentar as questões centrais da graduação, apesar de reconhecer a importância de outras pautas também relevantes que serão desenvolvidas.


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

Bolachas



Do Rio Grande guardo saudades atávicas. Memórias que se encravam na alma e que galopam nas noites frias dos invernos e nos abafados verões. O rio Uruguai, os balseiros, a gurizada banhando agarrada às boias de pneu de caminhão, as tormentas, o minuano, o túmulo da Maria do Carmo, o caminho para o Passo, o estádio do Internacional, o túmulo do Getúlio, a terra vermelha, o trigo, as ovelhas, as taipas dos arrozais. Memórias que pastoreiam meu cérebro sempre que a noite vem. 

Mas, há uma que me toma todos os sentidos: a bolacha. Suspeito que esse pão só seja feito ali nos pagos de São Borja e Uruguaiana, pois nunca vi em outro lugar no sul. A bolacha não é pão de sal, nem sovado, nem cabrito. É bolacha. Algo intraduzível e insuperável. Para mim bolacha é simplesmente sinônimo de infância. Não há uma única lembrança da minha meninice na qual não esteja, indefectível, a bolacha. Com manteiga, com salame, com queijo, com chimia. É parecida com um biscoito comum, só que grande, e imagino eu que deva ter uma maneira diferente de sova ou preparo. Não sei e nem quero saber. Porque, para mim, bolacha é também magia. 

Lembro que quando ia passar as férias de verão com os meus avós que moravam em Japejú, Uruguaiana, a gente andava quilômetros no meio das vacas e das caixas de abelha, da casa da vó até a “faixa”, que era como chamavam a estrada geral asfaltada, para comprar as bolachas do mês. Vínhamos carregando as bichinhas dentro de um saco desses de farinha, grande. Chegando a casa, a vó colocava todas elas dentro de uma lata de azeite, daquelas de 10 litros, e ali elas ficavam até que viesse o próximo mês, sempre molinhas e gostosas. Bolachas. 

Depois que saí da fronteira, há décadas, nunca mais vi uma bolacha. Até que ontem, elas me chegaram pelas mãos da minha querida amiga Cassiana, que veio de São Borja passar uns dias na ilha. Um saco imenso de bolachas as quais eu espio com os olhos mareados, percebendo nas suas curvas as belezuras da infância. Vejo a gurizada da rua brincando no engenho de arroz, as correrias na rua de chão vermelho, as conversas das famílias nas calçadas, o chimarrão na tardinha, vejo amigos que já se foram e outros que nunca mais encontrei, mas que ainda moram em mim. Vejo meu pai saindo pra rádio Fronteira do Sul, a mãe fazendo café com farinha, as gurias do seu Jesus e da dona Cira, a Cassiana passando pra gente ir pra aula, a Regina, a Luiza, a turma toda do CESB.

E, quando não, vejo assomando à porta a guriazinha de cabelos armados e patitas chuecas que eu era, com os olhos cheios de eternidade, estendendo a mão para o pão sagrado, mágico. Senta-se à mesa comigo, mulher de 60, e sorri. Somos uma só na alegria, na partilha da bolacha. É uma epifania. 

Obrigada Cassiana, por esse presente. E gracias por termos preservado, por quase meio século, essa amizade que não esmorece.