quarta-feira, 26 de outubro de 2022

Marcha pela Vida






Fotos: Rosane Talayer de Lima 

Canções, palavras de ordem, bandeiras e pessoas em luta rasgaram a manhã nublada da capital catarinense na manhã de segunda feira (24.10). Eram os representantes das mais de 600 famílias que hoje estão batalhando pelo seu direito de morar, lutando contra o despejo. A ameaça está sob a cabeça porque as comunidades nas quais moram são consideradas ilegais pelo poder público, ainda que algumas delas existam há mais de 20 anos. A verdade mesmo é que elas ocupam espaços que hoje estão sob a cobiça da especulação imobiliária que tudo o que quer é “tirar os pobres da sala”. Não bastasse isso, em Palhoça, por exemplo, a prefeitura define obras que atravessam comunidades sem a realização de audiências públicas, sem ouvir as famílias, sem diálogo e ainda ferindo a lei ambiental. 

A marcha pela Moradia contra o Despejo começou no estreito, bairro continental de Florianópolis e veio em direção à ilha, passando pela ponte Hercílio Luz, o cartão de visitas da capital. Desde 1986 que a “velha senhora” não via a marca de uma manifestação popular - no campo da moradia - sob suas vigas. Foi bonito de ver a mistura das cores das bandeiras com o céu azul e o cinza brilhante da ponte. O espaço, que desde sua re-inauguração tem servido de cenário para fotos e visitas turísticas, sentiu a vibração das famílias locais, as que vivem e sofrem a cidade real, trabalhadores e trabalhadoras que muitas vezes não tem sequer o dinheiro da passagem para uma visita aos domingos com a família. Por isso, em meio à luta, foi com alegria que as famílias cruzaram o caminho, com crianças, velhos e jovens vivendo esse momento pela primeira vez. 

A reivindicação principal da marcha é a manutenção da ADPF 828, uma normativa que proíbe despejos na pandemia e que tem seu prazo de validade até o dia 30 deste mês. Na semana passada os movimentos que estão na luta junto com as comunidades já realizaram uma visita à Assembleia Legislativa, onde arrancaram uma Audiência Pública sobre o tema, que vai acontecer no dia 8 de novembro. O foco mais urgente são as ações de despejo e o projeto da Avenida Beira-Rio em Palhoça, que deverá atingir imediatamente 300 famílias das comunidades Benjamin e Fé em Deus. Mas, outras comunidades também estão ameaçadas.

A intenção do movimento foi justamente ocupar o “cartão postal” da cidade para chamar a atenção das autoridades acerca da questão da moradia, visto que na capital, por exemplo, há anos que inexiste qualquer projeto de construção de moradias populares, tema que também é pouco discutido nos demais municípios da região metropolitana. E é justamente por isso que não resta alternativa às famílias que não conseguem pagar os altos aluguéis, a não ser ocupar terrenos vazios que não cumprem com sua função social.  

A caminhada atravessou o Estreito, cruzou a ponte e seguiu para o centro de Florianópolis. Além da movimentação na rua, para dar visibilidade ao momento de luta, foram entregues documentos referentes à Campanha Despejo Zero no Ministério Público Estadual e Federal, nas prefeituras dos municípios da região e da capital, no Tribunal de Justiça e também aos representantes da Diocese da Igreja Matriz, onde a marcha descansou. Na fala do padre Vilson Groh, ficou o compromisso de levar para as paróquias o debate sobre o tema da moradia. O mesmo documento deverá ser entregue aos candidatos a governador e presidência da República, já que o tema moradia não aparece nas campanhas. 

Estiveram presentes famílias das ocupações Vale das Palmeiras, Contestado, Anita Garibaldi, Marielle Franco, Vila Esperança, Benjamin, Fé em Deus, Beira Rio, Mestre Moa, Carlos Marighella, Fabiano de Cristo, Vila Aparecida e Elza Soares. Uma coluna com adultos, velhos e crianças, que sabem muito bem que só a luta garante direitos à classe trabalhadora e que, por isso mesmo, não se furta ao corajoso ato de reivindicar. Foi assim para encontrar um espaço onde erguer a casa, foi assim para construir as moradias sem apoio algum, e é assim que se unem para defender um direito que é de todos os brasileiros: morar com dignidade. 

O dia 30 de outubro, além de marcar as eleições, será um momento de tensão para as famílias que vivem a ameaça de despejo. E isso não é coisa só do nosso entorno, é em todo o país, pois com o fim do prazo para o despejo zero, muitas ações deverão acontecer no sentido de tirar as famílias de sua morada. Por isso esse movimento precisa estar de pé. 

A luta segue e se fará presente outra vez na Alesc, dia 08 de novembro. 

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quinta-feira, 20 de outubro de 2022

As lições das eleições


Observei que o inominado cresceu nas pesquisas depois das denúncias sobre ter assediado meninas. Não me surpreendi. Vivemos em Floripa uma situação parecida. O candidato a prefeito, filmado com a bunda de fora, transando com uma secretária dentro da prefeitura, também aumentou o número de votos depois da denúncia. Venceu em primeiro turno. Algo assim como se a pessoas respaldassem o "mau passo", "coisa de macho" que pareceu irrelevante diante das promessas concretas que ele fazia. Pode transar na prefeitura desde que calce a minha rua.

Estamos agora vivendo a campanha mais idiotizada de todos os tempos. Com acusações no campo moral e religioso que não levam a nada. Para os apoiadores do inominado, a desculpa dele, ao lado da mulher, com cara de santa, valeu demais. Tá tudo certo. Ele se arrependeu. Tá perdoado. Para os eleitores indecisos - que são os votos que interessam -  isso não tem importância. Eles querem saber se vão ter emprego e como vão ter. Eles querem saber se vão ter comida, se os filhos terão escola e posto de saúde. Eles querem propostas, concretas e viáveis. Pouco se lixam se o cara é evangélico ou católico ou discípulo de satanás. Querem respostas para seus problemas urgentes e materiais. 

Não é por acaso que nas cidades onde mais morreu gente na Covid, o inominado vence. A memória é curta e para quem perdeu parentes o erro foi do médico, ou do hospital, ou do vírus comunista chinês. Não associam a falta de política de enfrentamento ou de proteção. Nada cola no cara. 

Fosse eu a candidata à presidência me preocuparia com isso: ter um programa de fácil compreensão, de entendimento imediato, voltado aos problemas materiais e prosaicos. Farei isso e será assim. Não me preocuparia em rebater bobagens do oponente. Essa batalha moral já foi vencida pelo bolsonarismo e tanto que vamos ter de conviver com essas bizarrices por muito tempo ainda, mesmo que o Lula vença.  

Mas, enfim, sou apenas uma guria que quer destruir o sistema capitalista e que sabe - por conta da experiência histórica da humanidade - que não é com discursinho paz e amor e conciliação de classe que a gente muda o mundo. É quebrando os ovos, é dizendo a verdade sobre as coisas e é propondo coisas que realmente são possíveis de se fazer nesse momento da luta. 

Essa campanha me frustra. Por conta da incapacidade de uma ação mais radical contra o sistema - que hoje aparece mais na direita e a faz referência - podemos mergulhar em mais quatro anos de desastre para os trabalhadores e para a nação. Arre, égua, como diria Petruchio.

segunda-feira, 17 de outubro de 2022

São Borja na memória


Pracinha da Lagoa

Quando eu estudava  no colégio das freiras a caminhada para chegar até lá era grande. Morando quase no final da Rua dos Andradas, eu ia serpenteando pelas ruas, passando pelos lugares mais bonitos da cidade. Era longe, mas para a guriazinha daqueles dias, o trajeto era uma aventura. 

Acordava cedinho, sem que ninguém me chamasse, sempre gostei de estudar. Já deixava preparada a pasta no dia anterior. Levava os cadernos bem encapados com plástico colorido, o estojo de lápis, os lápis de cor e o plástico dobrado para colocar em cima da carteira. Sim, naquele tempo a gente protegia as coisas no colégio e todo mundo tinha de levar um plástico que cobria a carteira. Assim a sala ficava colorida, pois cada um levava da cor que mais gostava. 

A mãe preparava o café, eu comia e logo saia troteando, carregando a bolsa pesada. Ainda não havia mochilas e era preciso carregar na mão. Gostava ainda mais quando era inverno e o vento minuano assoprava no meu ouvido. Aquilo era música pra mim. O frio intenso e a cidade vazia. Pegava a rua do CTG e logo dobrava para passar em frente ao Hotel Charrua. Ali, atravessava a Pracinha da Lagoa, passando pelas pontezinhas, observando os bichos nos laguinhos, vez em quando balançando no balanço, pulando pelas alamedas. Depois seguia em direção a casa Nemetz, onde me deliciava vendo as lindas vitrines, sempre bem montadas. Dalí passava em frente ao Cinema Municipal, com uma paradinha para vez os cartazes dos filmes, e então seguia para a Praça XV e a atravessava de ponta a ponta, já que o colégio ficava numa de suas esquinas. Eram mais de dez quadras, cumpridas com indisfarçável alegria. Depois tinha a volta, o caminho todo de novo, feito com a mesma lentidão, observando cada pequeno detalhe do trajeto.

Hoje, pensando nisso, vejo que vem desde aí essa felicidade que eu sinto quando ando pela cidade onde moro. Desde pequenina trago comigo esse olhar deslumbrado pelas coisas sempre vistas, nas quais geralmente consigo encontrar novidades intermináveis. Um caminho nunca é igual. Ainda que o cenário pareça o mesmo, tudo sempre está em mudança. É tão lindo prestar atenção, maravilhar-se, surpreender-se.

Assim era aquele caminho até o colégio, feito todos os dias, mas sempre tão novo. Era diferente no verão, no outono, na primavera, no inverno. Todas as manhãs aquela cidade me presenteava com seus cenários encantadores e surpreendentes, fazendo com que eu me perdesse e me encontrasse todos os dias. Guardo nas retinas as imagens, as cores e os sons, que me chegam agora no outono da vida de maneira tão vívida. 

Essa minha adorável São Borja, pampa amiga que forjou meu espírito missioneiro, estradeiro e payador. Como foi bom percorrer essas ruas e vivenciar tanta beleza... 



terça-feira, 4 de outubro de 2022

Dois toques sobre a eleição


Foto: A Grande Família - seriado de televisão

Antes da eleição eu estava sentada lá no Elias, comendo um pastel. Sentou ao meu lado um homem e logo puxou conversa perguntando em quem eu iria votar. Não era um homem sem cultura formal, era um brasileiro médio, pequeno empresário e bem articulado. Respondi que não sabia ainda, para dar corda. Ele então começou a falar sobre as propostas da “esquerda”. Uma delas era que o Lula, se eleito, iria transformar os banheiros das escolas em banheiros conjuntos, meninos e meninas junto. E que aquilo era um absurdo. Também que nas escolas iriam ensinar como ser gay e puta, estragando a família brasileira. Disse ainda que as vacinas que as pessoas tinham tomado eram feitas de placenta humana e que causavam câncer em massa. Que o Bolsonaro estava certo em não querer que a população se vacinasse, que ele salvou vidas. Falou da ministra Damares e no quanto ela estava trabalhando para proteger as meninas de tanto pecado. Sobrou até para o Papa Francisco, que, segundo o cara, era um pedófilo convicto e que, unido com a esquerda, iria perverter todas as crianças. Disse ainda que o comunismo era a coisa mais horrível do mundo, embora não conseguisse me explicar em que exatamente consistia. O que ele sabia era que destruía a família. Por isso a necessidade de escolas militares. Além disso, falou do quanto o Lula era ladrão e do tanto que tinha roubado o país. Por isso era fundamental que a população estivesse armada, para se proteger da violência e dos ladrões. Também afirmou convicto, que as queimadas na Amazônia e no Pantanal tinham sido provocadas por esquerdistas aliados ao Leonardo DiCaprio, para manchar o nome de Bolsonaro. Por fim, para salvar a família, só mesmo o Bolsonaro. 

Estas são algumas das verdades que estão firmes na cabeça de um número expressivo de brasileiros. São ideias que cruzam o éter nos grupos de família, de amigos, na igreja, nas conversas de bar. O comunismo é do diabo, torna as pessoas marginais e por isso é preciso acabar com essa ideologia satânica. Se precisar, para dar fim no comunismo é preciso acabar fisicamente com os comunistas. Eles são a maçã podre que está enfraquecendo a nação e a família. Eles são monstros que realizam sacrifícios humanos para se manter no poder no mundo. Tudo o que dá errado no país é culpa deles. Eles causam os problemas para incriminar Bolsonaro. Por isso a cruzada do presidente e de sua religiosa esposa. Eliminar os comunistas é salvar a nação. E as pessoas falam isso sem qualquer pejo. Porque para elas, matar um comunista não é crime, é ajudar na missão de deus para criar um país seguro para seus filhos. Por isso acreditam na ideia de que os militares, quando deram o golpe em 1964, estavam corretíssimos em perseguir, torturar e matar os comunistas. Porque eles são a causa de todo o mal. 

Esse tipo de discursos não está apenas no âmbito das pessoas mais simples e religiosas. Ele circula velozmente mesmo entre os letrados. Tem se transformado numa espécie de monstro que carrega todo mal do mundo. E não adianta querer argumentar, trazer elementos da história. Não. É crença. Não está no campo da razão. Qualquer tentativa de debate é rechaçada com um olhar estranho de reconhecimento: ela é o diabo. Já ouvi isso até mesmo de pessoas da família, pessoas muito próximas. E esse reconhecimento implica em uma ação imediata de rechaço e de necessidade de eliminação. Assim que não adianta trazer números sobre o quanto a ditadura matou e torturou. Para essa gente, os milicos fizeram o que tinham de fazer e, se precisar, eles mesmos o fazem agora. Tudo para salvar a família. Não há argumento que penetre esse muro criado pela fé cega. 

É nesse mundo que estamos agora. E, de certa forma, perdidos. Porque o que se vê no campo da esquerda é uma incapacidade teórica e prática de atuar nesse universo. Primeiro que há uma negação sobre esse discurso e uma desqualificação das pessoas que o disseminam. Não sei se é o caminho. A política está atravessada pela moral, sempre esteve de algum modo quando definimos o que é bom ou o que é ruim. Mas, agora, nesses tempos, a moral se sobrepõe porque a política – tal como aparece - tem se mostrado incapaz de dar respostas aos problemas cotidianos. Geralmente quem tem feito isso – dar respostas e caminhos  - é a igreja. As neopentecostais estão em cada esquina, como as farmácias. E elas são espaços onde as pessoas se sentem seguras para sonhar com a resolução dos problemas. Então, entregar a vida nas mãos de deus parece ser o mais seguro. E quem é o homem de deus? Bolsonaro. Então, quem está com ele, está com deus. Por isso, um completo desconhecido, com uma arma na mão, pode virar o senador eleito de um estado, como aconteceu em Santa Catarina, porque ele é um soldado de deus para acabar com os bandidos e defender a família. Esse é o mantra. “Deus no controle”, e não um deus qualquer, mas um deus vingador, sedento de sangue. E os comunistas é que são os satânicos. Ah, mas claro. Eles estão a serviço do diabo. Por isso devem ser eliminados. Simples assim. 

Elementos da realidade do governo de Bolsonaro tais como a compra de imóveis de luxo com dinheiro vivo, corte de 92% da verba para Ciência e Tecnologia, aumento dos salários do presidente, do vice e dos generais em 69%, mais de trinta bilhões de orçamento secreto, cinco bilhões para o Fundão eleitoral, cinco milhões para os desfiles de moto, pior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), desvio de verbas de combate à Covid, retirada de recursos das Universidades, fim de direitos trabalhistas, invasão das terras indígenas, e outros tantos, não são considerados. Isso não é considerado problema pela maioria da população. 

E é nesse ritmo que a realidade perde força diante da fé. Se os preços dos alimentos estão nas alturas, não têm nada a ver com o governo. É coisa do demo e dos comunistas. Se a gasolina foi a sete reais, culpa dos esquerdistas. Se não há emprego, é porque os comunistas exigem direitos, ora só. Direitos! Se não há segurança é porque os esquerdistas estão mancomunados com os bandidos. Essa é a oração repetida e repetida. “Tudo está começando a melhorar”, insistia o candidato Bolsonaro nos seus comícios. “Agora vai”, porque já limpamos bastante o país de comunistas. Mas ainda há que limpar mais. E a fé cega acompanha e acredita. Nas suas falas ele toca no que interessa: a comida vai chegar à mesa, a família estará protegida. Quem não quer isso?

Bolsonaro cometeu todos os crimes eleitorais possíveis durante a campanha. Fez até do sete de setembro um ato eleitoral. E a justiça quieta, no miudinho. Porque os que a operam estão igualmente montados nesse cavalo moral. A classe dominante apoia porque o Bolsonaro é útil ao sistema, tem garantido todas as suas demandas. E a massa, hipnotizada pela fé, não questiona. Esse é o pântano onde estamos metidos. A realidade material é de arrocho, miséria – a fome já toca mais de 33 milhões de pessoas – insegurança, medo. Só que isso não mobiliza para a mudança, porque o presidente já prometeu melhorar. A ideologia vencedora é de que com armas na mão será possível defender a família e que, com deus no comando, a vitória virá. Quem não quer defender a família? 

A história nos conta de momentos assim, de prevalência da moral, tais como a inquisição, o nazismo, o fascismo. São tempos duros para os quais as respostas não são fáceis ou simples. A esquerda brasileira não conseguiu ainda se mover nesse campo. Ainda não têm respostas. Mas, como também nos mostra a história, fatalmente acabará encontrando. Por enquanto está tateando. As propostas bolsonaristas são concretas e dizem respeito às demandas concretas da população. “Vamos melhorar a vida, vamos limpar o país dos ladrões, vamos defender a família”. As propostas da esquerda não são claras e não tocam a realidade, prefere defender pautas particularistas que só tocam na classe média. Eis aí o nó. 

E para nosso desespero ainda há quem faça discurso de vitória por terem conseguido colocar algumas figuras representativas dos movimentos sociais no parlamento. Ora, a política não se decide ali. Haveria que se retomar um discurso classista, repleto de propostas claras para a classe trabalhadora. Propostas concretas, que dizem respeito aos dramas reais dos trabalhadores. Os trabalhadores querem emprego bom, defender os seus filhos das drogas, da violência, e querem viver em paz. O candidato da direita fala com eles, promete isso, ainda que não cumpra. Esse é o ponto. Em quatro anos a vida piorou, mas “agora vai melhorar”, aponta o messias. E o povo, desesperado por mudanças, acredita. 



terça-feira, 27 de setembro de 2022

A tecnologia e o tele trabalho


Trabalhadores querem outras regras para o tele trabalho - Foto: Rubens Lopes

Como já bem pontuou o filósofo Álvaro Vieira Pinto a tecnologia sempre vem para ajudar o ser humano na sua relação com o trabalho. Desde o começo dos tempos quando o humano inventa é para ter mais qualidade de vida. Assim, a descoberta do fogo, da roda, do alfabeto, as máquinas e por aí. Daí que o debate sobre o tele trabalho na UFSC deve levar isso em consideração. A internet, os novos instrumentos de trabalho e tudo mais chegaram para melhorar a nossa vida. Isso, em tese. 

E por que dizemos assim, em tese? Porque se a tecnologia sempre vem para melhorar a vida, quem a domina e impõe seu uso pode mudar a ótica da coisa. Um exemplo claro é a internet. Quando chegou anunciou a democracia, a possibilidade de cada pessoa poder produzir sua informação, dizer sua palavra. O reino da liberdade. Mas, na prática, como funciona? Para ter a internet é preciso pagar e as grandes corporações são as que decidem como e o quê tu vais dizer. Quem nunca foi bloqueado no facebook? Quem tem liberdade de escolha? Quem pode dizer o que quer? Não é bem assim, né? Quem domina as redes não é a pessoa. São umas poucas pessoas que concentram as informações e dados. Ou seja, ela tem dono, e não és tu. Logo, não há democracia nem liberdade. É tudo uma ilusão. Segue a ditadura do capital.

A proposta do governo para o tele trabalho segue a lógica do capital. O professor Vitor Filgueiras, da UFBA, escreveu um livro mostrando o quanto as chamadas “novidades” do mundo do trabalho são as mesmas velhas armadilhas que superexploram trabalhadores e atuam para sua desagregação enquanto classe. Trabalhar remotamente pode ser bom para algumas pessoas, mas é preciso estar atento às regras impostas pelo governo para que isso aconteça. Pela norma aprovada ontem no Senado, a IN65, é o trabalhador quem deve ficar responsável pela sua estrutura de trabalho, ou seja, caminho seguro para o gasto e a precarização, assim como já funciona no Uber e com entregadores de comida. Há que cuidar do carro e da bicicleta e há que seguir as regras da empresa, mantendo-as como a empresa quer. O cara se acha empreendedor ou autônomo, mas, na verdade está atrelado às normas da empresa. Ela define e ele gasta.

No caso do tele trabalho proposto pelo governo a coisa vai por aí. E tem mais. O trabalhador terá de ser responsável pela segurança dos dados públicos. Ora, como dar segurança para os dados senão investindo em bons antivírus e coisa e tal? E esse investimento quem terá de fazer é o trabalhador e se os dados forem roubados, ele será responsabilizado. Pesado isso, heim? Sem contar o tanto de direitos que somem da relação e trabalho. Haverá metas a cumprir e índices de produtividade e quem vai definir isso é o chefe imediato. Ou seja, o cara não precisará bater ponto, mas deverá seguir uma proposta de produção. E o que é mesmo que os trabalhadores técnico-administrativos produzem? Temos uma longa luta contra essa lógica da fábrica de salsicha. Não é assim que banda toca. O trabalho na universidade e no serviço público não pode ser medido pelo número de e-mails respondidos ou atendimentos realizados. Isso não diz do trabalho feito pelo trabalhador da educação. Aceitar isso é dar tiro no pé.

O governo que aí está não pretende fazer com que a tecnologia facilite a vida do trabalhador. Pelo contrário. Quer preparar a cama e a mesa para os empresários da educação na medida em que o sonho dessa turma é privatizar a universidade precarizando o trabalho. Aceitar essa regra tal qual o governo criou é colocar tijolo nessa obra. 

Por isso que o sindicato dos trabalhadores da UFSC está discutindo uma outra legislação, que não penalize os trabalhadores, que de fato use a tecnologia a nosso favor, que não signifique perda de direitos, que não ajeite o campo para a privatização. Mas, há quem seja contra isso e peça a implantação já da IN65. Nada mais equivocado. Na sanha de resolver questões pessoais e urgentes, colega há que estão atropelando o debate. A regra do governo é ruim. Nós podemos melhorar isso. Mas, é preciso que estejamos juntos nessa luta. Dividir os trabalhadores é trabalho dos quinta coluna, dos que não se importam com os destinos da universidade e do serviço público. Olho vivo com isso pessoal. O tele trabalho pode ser bom, mas tem de ser dentro das nossas regras. 


quinta-feira, 22 de setembro de 2022

Perdemos o bonde da história


Quando no começo dos anos 2000 surgiu o Fórum Social Mundial em contraponto ao Fórum de Davos já nas primeiras edições uma coisa ficou bem clara: estavam em disputa ali duas concepções de luta. Uma, que apontava a possibilidade da convivência pacífica com o sistema capitalista (o capitalismo humanizado) e outra que negava veementemente isso, mostrando que é impossível um mundo melhor dentro do capitalismo. 

Com o andar da história, o que se viu foi a vitória da primeira visão. A recusa ao poder, o democratismo, as lutas segmentadas e particularistas, a proposta de inclusão, o ecologismo sem dentes. Isso foi se impregnando nos movimentos sociais e acabou sendo o mote para a ascensão dos  chamados “governos progressistas” que se seguiram. Novos nomes para uma velha receita: o liberalismo. E no campo político a socialdemocracia. Essa falácia de mais isso e mais aquilo, como se fosse possível vencer o sistema apenas com uma pitada de “mais”. Ora, um sistema tem de ser rompido, destruído, demolido, para que surja o novo. 

As pautas radicais sumiram do mapa. Apenas a Venezuela de Chávez ousou um pouco mais, aproximando-se da proposta cubana de autonomia e socialismo. Mas, o Chávez morreu e o que se seguiu foi a mesma velha tentativa de caminhar na corda-bamba acendendo vela para deus e para o diabo ao mesmo tempo. Romper com o sistema não está nos planos. Cuba segue solitária, capengando. 

Aqui no Brasil tivemos a experiência dos 14 anos de PT no governo federal. E por ali tampouco tivemos propostas de mudança das estruturas. Apenas a ideia liberal de mais isso e mais aquilo para os pobres. Mais isso e mais aquilo para os grupos particulares. O sistema incólume. Banqueiros lucrando, fazendeiros ganhando, aposta na inovação, reformas contra os trabalhadores, recusa da auditoria da dívida, frouxidão com as igrejas caça-níqueis. Nada de novo no front.  

Aí veio o bode na sala. A experiência bolsonara, fruto do cansaço dos trabalhadores, do avanço das pautas morais e da desinibição da direita. A política dominada por temas tangenciais enquanto que as grandes questões nacionais ficaram de lado. E, enquanto os bandos se digladiavam nas redes sociais, o governo ultraliberal foi passando tudo o que era de interesse da classe dominante local e internacional, com o apoio seguro do legislativo federal. As centrais sindicais se apagaram e restou a uns poucos sindicatos combativos a luta pontual e singular. Os trabalhadores foram se adequando à ideologia dos “novos tempos” e das “novas formas de emprego”, sem organização e sem luta. As perdas foram grandes e continuam anestesiando a maioria. 

Agora vêm aí as eleições outra vez. E na população vai crescendo a ideia de que é preciso tirar o bode da sala, o que é óbvio. Sacar do governo aquele que personifica o mal. A proposta é singela: sair do ultraliberalismo e voltar para o liberalismo. Apenas isso. Nada mais profundo ou radical a ponto de não importar que se façam alianças de conciliação de classe. Chegamos ao absurdo de ver lideranças populares irem aos Estados Unidos pedir ajuda a Biden para garantir a democracia tupiniquim. Essa mesmo foi de cair os butiás do bolso. Nada de falar em recuperação do Banco Central ou de auditoria da dívida, ou de revogação das reformas que aniquilaram com os trabalhadores e os velhos. Não importa que haja acordos com banqueiros, fazendeiros e até com o embaixador dos Estados Unidos. Tudo vale para tirar o bode da sala. “Depois a gente vê”. Bom, já vimos esse filme.

Assim que o dia dois de outubro não reserva surpresas. Pelo menos não para os trabalhadores. Ao que parece os brasileiros simplesmente tirarão o bode da sala, entregando um cheque em branco para os liberais. 

Há uma longa estrada de reconstrução das lutas para os trabalhadores e o primeiro passo talvez seja reconhecer que a ideia do “capitalismo humanizado” venceu, e que ela não é boa. Mas não é mesmo. Ideologias como a do empreendedorismo e a do faça-se a ti mesmo pelo mérito estão aí mostrando suas chagas, suas rachaduras. Não há saídas dentro do capitalismo. É da natureza do sistema se expandir e ir destruindo tudo ao seu redor. Não há como humanizá-lo. Não há. 

Essa compreensão é fundamental para que as lutas voltem a se fazer por propostas definitivamente radicais, que mudam a vida, para melhor. A vida de todos e não só de alguns. A eleição poderá tirar o bode, mas, será suficiente? 


quarta-feira, 14 de setembro de 2022

A aranha


Na minha casa mora uma aranha. E já vai pra mais de dois anos. Ela fica num canto da parede, dentro de uma espécie de casulo. É bonita, grande e com uma cor delicada. Durante o dia tu olha pra lá e ela está lá, quietinha, como morta... No final da tarde ela desce, devagar e começa a tecer uma teia. Imagino eu que é onde ela prende os bichinhos voadores que lhe servem de alimento. Aquilo me encanta.

Nunca tive coragem de limpar o lugar. Olho para a teia e imagino que aquilo ali deve ser um universo para a aranha. Seu pequeno mundo é aquele espaço entre o casulo e a teia. Não deixo ninguém mexer. A aranha me faz pensar na vida da gente. E sempre que me aperta a angústia dos dias que passam quase sem propósito, na rotina do prosaico, eu vou ali bater um papo com ela. Aconteça o que acontecer ela tece sua teia. Todos os dias ela vai ali e remenda. Por vezes a teia está maior, outras menor, mas está ali, o seu universo. 

Então eu penso que com a gente pode ser assim também. Mesmo quando nada parece fazer sentido, é preciso percorrer os caminhos da nossa teia, remendar, costurar, agrandar. Talvez esse seja o sentido mesmo: simplesmente viver. Sei que não sou uma aranha, mas dias há em que me consola pensar que sou como ela, apenas tecendo, tecendo e tecendo...