sexta-feira, 15 de outubro de 2021

Devagar, lá se vai a cidade



Passo pela via expressa sul todos os dias em direção ao trabalho. Não gosto daquela via rápida, que nos impede de ver. Sempre preferi a Costeira, com seu velho cais, com a visão das moradas e as figuras dos personagens diários que assomam: o velhinho limpando a calçada, o papai-noel, a senhora à janela, os cachorros. A cidade descortinada no seu existir humano. Mas, o busão vai na Expressa e tudo o que posso fazer é olhar o vazio que se forma em volta. Não é de hoje que eu digo ao meu companheiro: “não vai demorar e estão vendendo tudo isso aqui, como fizeram na beira-mar”. Digo isso com profunda tristeza porque o que pode se erguer ali são prédios de alto padrão. A vista para o mar outra vez retirada das gentes comuns. 

Pois a semana passada li o veredito que me assombrava: o vazio artificial criado pelo aterro da expressa sul vai ser vendido. O prefeito Gean fala em “revitalização”, palavra bonita que significa entrega do que é público para a iniciativa privada. E a proposta é incluir o vazio do aterro num tal de programa pioneiro do governo federal – provavelmente um desastre - que busca vender as terras da União que consideram “subutilizadas”. A venda será feita por intermédio de um fundo imobiliário, coisa que cheira mal. A proposta vem da Secretaria Especial de Desestatização, Desinvestimento e Mercados do Ministério da Economia e, considerando que o governo federal está aí para destruir tudo, já se pode prever a desgraça.

As bocas-alugadas da imprensa já começaram a campanha em favor da proposta, alegando que a Expressa Sul precisa ser melhorada. Os vereadores – na sua maioria  - já se preparam para as mudanças no zoneamento e tudo o que isso traz, como o esfacelamento do Plano Diretor. Em março desse ano a mesma Câmara aprovou um total de 100 milhões de reais para a prefeitura usar em obras de infraestrutura na via, claramente ajeitando o espaço para entregar ele mais bonitinho para os empresários. A cidade ficará encalacrada com o empréstimo. E quando se diz cidade, diz-se nós, os moradores. Ficaremos com o ônus e ainda perderemos o patrimônio público. Obviamente que ninguém fala em parques ou espaços de lazer para as comunidades do entorno – a maioria suspensa nas encostas onde quase nada existe para a brincadeira e a fruição. Não. As vendas certamente serão para grandes empreendimentos imobiliários ou de eventos, afinal, para essa gente que governa, os empobrecidos tem mais é que trabalhar e dormir. Lazer é pra quem pode e afinal, tem a praia. 

O que me espanta é que tudo isso vai acontecendo sem reação. Nas redes sociais criam-se grupos que lembram uma Florianópolis de ontem, mas poucos se preocupam com a de hoje, que segue se transformando sob nossos olhos atônitos. Sei que as mudanças são inexoráveis, mas elas não precisam ser para pior. Há milhares de exemplos de cidades que conseguem mudar sem perder sua essência. 

E aqui? Que faremos? Só nos restarão as lágrimas?

***

Deixo aqui a imagem que plasmei na retina quando as dragas começaram a estender a costeira. Um profundo momento de dor: 

Assisti ontem uma triste cerimônia de adeus. Parei em frente a grande obra da Via Expressa Sul com os olhos perdidos na areia branca, que aos poucos vai nos roubando o mar. Tinha dentro do peito uma certa angústia, destas que batem, inexoráveis. Não sou engenheira ambiental, ainda não sei detalhes sobre a obra, mas uma coisa eu sei. É como se estivessem assassinando a beleza. Algo soa mal ali, principalmente no pôr-do-sol.

Refletia sobre isso e mastigava minhas mágoas quando meus olhos bateram num homem, distante de mim alguns metros. Ele também olhava a obra. Tinha o rosto vincado de sol e de mar, destes rostos que não se pode adivinhar a idade, só a profissão. Era um homem do mar, um pescador. Ficou parado por uns minutos eternos, petrificado diante da areia branca. Depois, lentamente, caminhou em direção da lama preta, velha conhecida, que fica próxima aos ranchos de pesca já em demolição.

Então começou a cerimônia. Arremangou até os joelhos as velhas calças de um tergal gris, bem desbotado. Tirou os chinelos de borracha e foi entrando na lama, pisando devagar, quase em reverência. Com os pés enterrados na sujeira do mar ele foi caminhando pra lá e pra cá. Os olhos baixos, olhando o chão, se despediam. Depois, o pescador caminhou em direção à água, já distante. 

Quando seus pés encontraram o salgado do mar ele parou e volveu os olhos para a grande draga que continuava seu trabalho, jogando areia branca, engolindo a água que por muito tempo, com certeza, embalara o seu barco. Ficou ali parado, olhando fixo, parecendo fazer força para acreditar que aquilo tudo não era um sonho. Então voltou pelo mesmo caminho, os pés enterrados na lama, os olhos de novo no chão. Chegou ao meio fio e sentou sem pressa. Foi quando eu vi. Lágrimas corriam fininhas pelo meio das rugas de sol e mar.

Era um homem dizendo adeus a um mar que foi seu abrigo por décadas. Um pescador chorando esses choros sem barulho, por isso mais dolorosos. Olhei de novo para a obra da Expressa Sul e já comungando da mesma dor com aquele homem, pensei: Qual é o preço do progresso? Do conforto? Se forem as lágrimas daquele homem, não sei se vale a pena. Não tive coragem de lhe falar e fui embora com um indelével sentimento de culpa. Quando o ônibus no qual eu ia passou pelo homem, ele continuava ali, sentado no meio fio, os pés sujos de lama e o rosto crispado de dor.

20.09.96

quarta-feira, 29 de setembro de 2021

Mil noites no Brasil


Faça o que fizer nada vai impedir que o país sangre até o final deste mandato. Negacionismo, descaso, perversidade. O governo em tela passou por uma pandemia dizendo que era uma gripezinha. Não preparou o combate. Milhares morreram por isso. Não havia leitos, nem oxigênio, nem remédios, nem respiradores. Na Amazônia e no pantanal, a vida ardia em labaredas criminosas, abrindo caminho para o latifúndio jagunço. E quando a vacina chegou, o mandatário foi à televisão e às redes sociais dizer que não era para tomar, porque as pessoas iriam virar jacaré. Para os que queriam a vacina restou a espera e a confusão. Sem um sistema eficiente de compra e distribuição, cada estado teve de se virar como pode. 

A produção de remédios, que sempre foi ponta de lança no país, vai minguando. O governo federal retirou a verba. Danem-se os doentes de doenças graves que dependem do público. Não há mais produção de remédio para o câncer, por exemplo. Milhares de pessoas foram entregues à própria sorte. Que paguem aos laboratórios privados, na farmácia, se puderem. Se não puderem, bem, morrer faz parte. Testes de Covid, vacinas e remédios de toda ordem mofam nos depósitos, trazendo prejuízo de milhões aos cofres públicos. Responsabilidade de quem? De ninguém. Ou quem sabe de algum funcionário de décimo escalão. 

Ministro da Saúde vai à televisão dizer que não é pra vacinar adolescentes, que “estudos” dizem que não é seguro. Todas as entidades de saúde do país desmentem o ministro e os governadores decidem seguir com a vacinação. Dias depois o mesmo ministro viaja com a comitiva presidencial para a ONU e infecta deus e o mundo, com Covid. Fica de quarentena em Nova Iorque, enquanto o interino aqui volta atrás e diz que pode vacinar os adolescentes, sim. É um deus nos acuda, um caos sem fim. As pessoas ficam perdidas sem saber em quem acreditar. O presidente segue dizendo que não é pra vacinar, mas a primeira-dama se vacina em Nova Iorque. De certo acredita que a vacina nos EUA é mais vacina que aqui. Aqui, o Instituto Butantã continua sendo atacado e vilipendiado. É brasileiro, é público. 

Os preços do gás, da gasolina e da comida dispararam. A culpa de tudo foi repassada aos governadores, os vilões da hora. Tudo de ruim é coisa do governador e o que pode haver de bom, se é que há, o governo federal é o responsável. 

A fome volta a assombrar o país e as mortes seguem em disparada. Já vamos chegar aos 600 mil óbitos, só de Covid, sem contabilizar as demais mortes que sobram com o descaso. Muita gente não quer se vacinar, seguindo o mito, impedindo assim a imunidade coletiva.

Na CPI da Covid, levada pela Câmara dos Deputados, os horrores se acumulam. Provas e mais provas da sistemática política de morte não provocam qualquer efeito. Os depoentes falam, contam os crimes e saem lépidos e soltos. Há os que nada dizem, mas as provas falam. E, ontem, o depoimento da advogada dos médicos do plano de saúde (?)  Prevent Senior escancara mais um trem dos horrores. Velhos sendo usados como cobaias do tratamento precoce, com remédios inúteis, sendo privados do oxigênio, para não gastar. E sem consentimento. 

Nas comunidades empobrecidas a força policial segue matando gente negra. Os indígenas são assassinados à luz do sol, não há emprego, as universidades amargam cortes de orçamento e o presidente diz que “há professores demais”. Ainda assim, tudo parece seguir normal na Gottam City. Batman morreu de Covid. 

Toda essa montanha russa de terror deveria levar as gentes ao protesto, à luta. Mas, não. As movimentações populares ainda são poucas e esporádicas. Os apoiadores da morte saíram às ruas no dia sete de setembro saudando o mito. Os trabalhadores estão prometendo um ato bem grande agora, no dia 02 de outubro. Mas, ainda assim, ao que parece, seguiremos sangrando até 2023, quando finalmente terminar esse governo. Os partidos políticos, liberais de esquerda, apostam nas eleições de 2022, e esperam por elas, ainda que ao redor se queimem as vidas das gentes, clamando por socorro. 

Enquanto isso, o ministro da Economia, intocável, segue fazendo suas trapalhadas de morte, elevando as taxas de juros, com o dólar a quase seis reais e passando as pautas meninas dos olhos da classe dominante, como a reforma tributária e o fim do serviço público. Tudo com o apoio da maioria do Congresso Nacional, cujos legisladores, saltitantes, aprovam sem pejo as propostas. 

É inacreditável que tenham se passado mil dias, mil noites... Inacreditável que tenhamos tolerado isso. 

No mundo das histórias de fada, quando se fala em mil e uma noites está se querendo dizer para sempre. No Brasil, passaram-se mil noites, passarão mil e uma? 


terça-feira, 28 de setembro de 2021

As aprontações do pai



Nos últimos tempos o pai tem dormido bem pela manhã. Dá uma acordada lá pelas seis, quando eu levanto, mas logo volta a dormir. Só quando tenho algo importante pra fazer é que ele resolve acordar cedo, comigo. Parece que ele adivinha. Eu não digo nada, mas é só pintar algo que exija minha mais profunda atenção e lá está ele. Hoje foi assim. Tinha o compromisso de fechar um texto e deixei para a manhã, que é quando estou mais focada. Pois nem deu seis horas e ele já estava de pé, mexendo em tudo pelo quarto. Tentei fazê-lo voltar a dormir, mas não deu resultado. Vencida, tratei de deixar pra lá o trabalho e começar as tratativas do levantar. Conversinha, banho, conversinha, colocar a fralda, conversinha, vestir, conversinha, levar para o café. Depois, o café. Uma boa novela. 

Lá pelas oito e meia as coisas estavam acalmadas. Dei um cigarro e comecei a ajeitar o cenário para começar a trabalhar. Ele, como sempre, inquieto, andando pra lá e pra cá, numa briga com o cachorro. Ele levanta da poltrona, o cachorro sobe. Aí ele quer voltar e o cachorro não deixa.  Um roteiro repetido milhares de vezes. 

Por fim, começou com o vai e vem até o portão. Eu na mesa da cozinha, escrevendo, mas com um olho vigiando a caminhada através da janela. Ficou assim um tempo, então parou do lado do varal de roupas que eu havia colocado ao sol. Segui escrevendo, observando pelo rabo do olho que ele estava ali, bem em frente à janela, mexendo nos grampos de roupa. Segui entretida até que notei que ele estava muito paradinho, quieto demais, parecia nem estar mais mexendo com os grampos, mas seguia ali, ao lado do varal. Continuei meu texto.

Então, deu aquele estalo. Quietinho demais. Eu continuava vendo ele da janela, mas estava muito parado. Levantei correndo e fui lá fora ver o que passava. Pois ele estava ali mesmo, paradinho, com a mão segurando firme no varal, mas completamente adormecido, quase ressonava. O danado dormia em pé. Levei um baita susto, porque poderia ter caído. Acordei o querido e ainda levei um baita esporro. Brabo, não queria soltar o varal. Mais uma novela para sair dali. 

- Tu tá dormindo, pai.

- Tô dormindo nada.

Toca pra dentro para ver se senta na poltrona e sossega. Já são 10 horas. Então ele senta e imediatamente volta a dormir. O cachorro senta aos seus pés e também dorme. Assim vão os dois, parceiros no mundo dos sonhos, enquanto eu finalmente consigo escrever alguma coisinha.



sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Reféns do global ou vítimas da bolha assassina



As notícias pululam fragmentadas e a imprensa olha de um jeito vesgo. Dezenas de artistas da Rede Globo estão sendo demitidos ou se demitindo. Alguns analistas de televisão falam em crise na emissora, outros falam de falta de coração, afinal, está se desfazendo de gente que deu sua vida ali na telinha. Nessa semana Lázaro Ramos deu adeus a 18 anos de Globo e Ingrid Guimaraes sai da emissora depois de 30 anos. Saem fazendo discursos emocionados enquanto abraçam as novas gigantes mundiais da comunicação. Pois o que se configura por trás de tudo isso é justamente a acomodação das forças comunicacionais mundiais. As novas tecnologias anunciam outras formas de se comunicar e as empresas locais terão dois caminhos: ou começam a se adequar ou morrem. 

No Brasil a televisão aberta ainda tem um grande espaço na vida das pessoas. Os números dizem que a Rede Globo segue liderando o mercado, apesar de ter perdido audiência. A média de audiência é de 15 pontos enquanto a segunda rede, a Record, tem 5 pontos, a diferença é grande. Não bastasse isso, a Globo é a empresa de comunicação de massa brasileira que está mais à frente no âmbito da tendência mundial, tanto que já tem um canal de streaming (transmissão direta por internet), a Globoplay, e tem produzido exclusivamente para esse nicho. 

Há quem diga que estamos vivendo o fim da era da TV aberta. A tendência agora é a transmissão por demanda. E, como temos visto, essa é uma área completamente dominada por empresas internacionais gigantes como a Amazon, a Netflix, a Disney, etc... A Globo quer surfar nessa onda e está testando se vai nessa sozinha ou se precisará se aliar a algumas dessas gigantes. 

Essa nova configuração das contratações também faz parte dos novos tempos. Foi-se a era da fidelidade dos atores a determinados canais. Agora eles também trabalharão por demanda. Podem fazer produções para a Netflix, para a Amazon ou para a Globoplay, sem um lugar realmente fixo, um emprego seguro. Terão de amargar a eterna busca de espaço num mundo sem regras. Até agora ser ator ou atriz é uma profissão regulamentada, a pessoa precisa fazer curso, ter registro. Mas, pode ser que isso também se esboroe. Quem acompanha o mundo televisivo está por dentro da tentativa da Globo em levar a celebridade instantânea do BBB, Juliette (32 milhões de seguidores no Instagram), para a novela Pantanal. Por enquanto, o sindicato dos atores está segurando, visto que ela não é atriz, mas até quando? Emprego, registro profissional, estabilidade, são palavras que vão perdendo o sentido no mundo do trabalho. Inclusive no serviço público, vide a PEC 32 que quer a volta do “quem indica”. 

Os tempos são sombrios para os trabalhadores e também para as empresas nacionais porque as gigantes estrangeiras estão abocanhando tudo. Muito em breve estaremos completamente reféns dessas empresas, vítimas das informações falsas, do pensamento único e da estética única. O Facebook está planejando até permitir a realização de transações bancárias dentro da plataforma, ou seja, a pessoa entra ali e não precisa mais sair para quase nada. 

O mundo distópico do grande irmão está cada dia mais presente.  O capitalismo aprofunda seu processo de dominação. 

Enquanto isso, a TV aberta – esta que chega a 97% dos lares – segue sendo a única opção de quem não têm condições de comprar os pacotes das diversas empresas de transmissão direta por demanda. Por isso, seguramente que ela não vai se acabar. Pode encolher, mas seguirá existindo. A Record, com seu nicho evangélico e suas novelas bíblicas, tentando levar o rebanho para os tempos fundamentalistas do velho testamento, e a Globo emburrecendo as gentes cada dia mais, com a profusão de programas idiotizados, como os de danças dos famosos, famosos mascarados, programas de calouros cheios de sadismo e de gente autocentrada, joguinhos entre artistas e dramas de humilhação dos pobres. Um show de horrores que segue o modelo dos shows europeus e estadunidenses com apresentadores engraçadinhos e sem cabeça. 

Um desafio imenso para quem quer um mundo onde o pensamento crítico seja soberano. Cada dia que passa vamos assistindo ao crescimento da “bolha assassina” das grandes empresas de transmissão por demanda, tal qual a gosma vermelha do filme de terror protagonizado e dirigido por  Steve McQueen, em 1958. No filme, a gosma não é destruída, é congelada e levada para o Ártico. E a fala final do “mocinho” prenuncia o nosso tempo. “Até que o ártico também siga congelado”. Pois parece que o Ártico descongelou e bolha está aí outra vez. 



quarta-feira, 15 de setembro de 2021

As manhãs



Todas as manhãs são tumultuadas ao extremo. Acordo seis horas para ter um tempinho com meu amor e depois começar a trabalhar, antes do pai acordar. É quando eu posso me concentrar. Depois que ele acorda a coisa fica difícil. Tem todo o ritual do despertar que demoooooora. Depois, o café. Quando ele está bem, toma sozinho, mas se acorda meio virado aí eu tenho de dar pouco a pouco. Vai um eito. Quando tudo se acalma de novo, volto ao trabalho.

Mas, aí, vem a confusão com os cachorros. O Steve Biko, que já é velhinho, é cismado com uma poltrona. Ele gosta de deitar naquela e ponto final. Se o pai está nela, ou algum outro bicho, ele inicia um circuito de latidos sistemáticos e insuportáveis até que eu levante e vá resolver o assunto. Não tem como ignorá-lo. A menos que eu queira enlouquecer. Se quem está na cadeira é a Mel, tenho de convencê-la a ficar em cima da cama, para que não fique também incomodando o pai, tentando subir nele. É um parto. Já o Dourado é tranquilo. Se ele vê o Steve enchendo o saco, por sua própria vontade sai da cadeira e vai deitar no tapete. Não sem antes me olhar como a dizer: que chato!

Lá pelas onze horas é a vez de chegar o Pezinho. Ele dorme em outra casa e só vem aqui pra comer. Quando ele chega, já sabemos. Antes mesmo de pular o muro ele já começa a miar alto, como se estivesse em grande perigo. Na verdade é seu miado de dizer: ei, estou chegando, arruma o rango aí. Lá vou eu arrumar a ração. Depois de comer ele vem pra cozinha, onde estamos todos  e exige o leitinho. É seu ritual. Já deixo pronto em cima da mesa. Ele vem, sobe, come e se manda de novo. A Ramona é de boa, se aboleta no espaldar da poltrona do pai e fica ali, dormindo junto com ele. A Juanita nem se toca, gosta de ficar distante e não incomoda ninguém. 

Quando chega a hora de começar o almoço tá todo mundo ajeitado no seu lugar. Já eu, tive de passar por pelo menos 500 situações de estresse. Valamideuzi. Quando então tudo parece se acalmar, o pai acorda do cochilo e começa o mexe-mexe. Ontem achou os óculos escuros do Renato e o colocou sobre o seu. 

- Tás enxergando, pai?

- Tô vendo tudo.

- Mas não tá escuro?

- Tá muito bom. 

Então tá!

quarta-feira, 8 de setembro de 2021

Segue o "bonde" da destruição


Foto: 
@marcelanicolass

Em meio a grave crise econômica e social, pirotecnia governamental busca ofuscar realidade

O presidente do país segue governando na lógica do factoide, imitando seu ídolo Donald Trump. Parece não ter se dado conta do que aconteceu lá na matriz que tanto ama. A tática do factoide não deu certo. Trump foi derrotado fragorosamente. Por aqui, os marqueteiros do presidente continuam incentivando a mesma toada que, ao que parece, só serve mesmo para animar a sua plateia cativa. Foi o que se viu.

As chamadas “lideranças” dos atos que visavam invadir o STF e cortar a cabeça do ministro Alexandre Moraes foram presas, responderão na justiça e provavelmente serão abandonadas para que se virem como possam. Milhares foram para Brasília armados da esperança de que os comunistas finalmente seriam eliminados – física e politicamente. Era de impressionar os áudios e vídeos que circulavam pela rede bolsonarista sobre estocar comida, remédio, água e trancar as janelas porque a coisa seria estrondosa. Não foi. O que se viu foi um discurso pífio, tentando reanimar a claque para outro “amanhã”. O golpe seria adiado e fora só um susto no ministro, o qual não será mais obedecido “sob hipótese alguma”.

Os seguidores mais renitentes voltaram para casa ainda sob o efeito da catarse, prontos para a nova investida que virá quando o presidente chamar. Outros voltaram desiludidos. Esperavam o apocalipse, ainda que no momento em que a polícia atuou, muito gentilmente, aliás, gravassem vídeos desesperados em meio à correria, gritando que era um absurdo a polícia tentar impedi-los de chegar ao STF. Estranha gente que pede ditadura e sequer entende o que isso possa significar.  

O Brasil esperou o desenrolar dos fatos. Uns com medo, outros comendo pipoca em frente à televisão e uma grande parte em luta, nos atos de protesto contra a carestia da vida e a falta de um governo para enfrentar os grandes dramas nacionais como a fome e as crises hídrica e energética. As redes de televisão deram visibilidade para as manifestações dos dois lados e foi possível avaliar com bastante informação as duas frentes de batalha. Os atos pró-governo foram grandes em São Paulo e Brasília, mas também deixaram claro sobre quem são esses aliados, na sua maioria uma classe média alta que sequer consegue enxergar os efeitos desse governo sobre si mesma. Por outro lado, nas colunas dos protestos estavam os trabalhadores organizados, a juventude, os estudantes, os sem-terra, os sem-teto, enfim, os que sempre estiveram na luta. A luta de classes bem demarcada nas ruas.

O chefe de governo, que tem mais de 100 pedidos de impedimento no Congresso, fez o que sabe fazer. Esticou a corda mais um pouco. Até agora tem nadado de braçada, sem que nada ou ninguém o obstaculize. As chamadas instituições democráticas fazem ouvidos moucos aos seus ataques à Constituição e permitem que a roda da economia siga girando em favor da classe dominante. Os trabalhadores vão sendo acossados, as privatizações seguem, o agro comanda e tudo parece bem. O judiciário fisga peixinhos enquanto o líder do cardume segue tranquilo. Nada lhe toca. A fascisitização do governo é pop nas altas rodas. 

O sete de setembro foi uma patacoada. Mostrou que o governo perdeu apoio e apenas mantém seu reduto inicial formado por ultraconservadores e reacionários de carteirinha, bem como outros que ingenuamente acreditam nas mentiras disseminadas à exaustão sobre o comunismo e blá, blá, blá. Mas, ainda assim é uma parcela barulhenta e em sistemático estado de agitação. As forças de esquerda, as institucionalizadas, agiram com timidez. Como sempre, são os trabalhadores os que se movem para além dos líderes. Esses sabem que muito pouco têm a perder indo para a luta nas ruas. E, por isso, vão. 

A aprovação do presidente despenca. Mas, ele tem cartas na manga, não nos enganemos. Enquanto a burguesia nacional não se descolar dele, ele seguirá esticando a corda para garantir mais um mandato. A turma do andar de cima ainda está ganhando muita grana e vê passar muitas de suas pautas anti-trabalhadores no Congresso Nacional. Para eles, tá suave. 

A batalha real será mesmo nas ruas. E os trabalhadores organizados devem dar o tom. 


quarta-feira, 1 de setembro de 2021

O pai e as surpresas


Uma das coisas mais seguras nessa doença de Alzheimer é o mexe-mexe nas coisas. Uma ansiedade por abrir portas, gavetas e mexericar em tudo. Aqui é assim. O pai almoça e dá uma descansadinha no sofá. Fica ali vendo TV ou olhando para a janela. De repente, do nada, ele se levanta e sai. Caminha ligeirinho em direção ao portão. Pode fazer o tempo que for, inclusive chuva. Ele se manda. Depois de mexer no cadeado do portão, sem sucesso para abrir, ele volta. Ai começa o abre fecha de tudo que há. Gavetas, armários, fogão, geladeira. E ai de quem diga alguma coisa ou o impeça. Tem que deixar fuçar. Eu fico de longe só observando se ele não vai pegar alguma coisa de vidro ou derrubar algum pacote aberto. 

Nisso ele fica um tempo. Pega as panelas em cima do fogão e bota na mesa. Tira da mesa, bota de novo no fogão. Fuça no lixinho da pia. Geralmente deixo uns saquinhos pendurados nos pegadores das portas dos armários com coisa que ele pode comer como pão, frutas, biscoitos. Ele pega os saquinhos e sai de fininho, achando que está me enganando. E eu fico bem quietinha. É um joguinho de gato e rato que pode durar horas. Ele até dá uma paradinha para o café, mas logo retorna ao mexe-mexe  e esconde-esconde. 

Quando chega a hora de dormir é hora de finalmente recolher as surpresas. Dentro dos bolsos encontro cada coisa. É controle da televisão, cartas, pedacinhos de dominó, bolinhas, banana, pinhão, cascas, pedaços de pão, colheres, pedacinhos de papel, garrafinhas de molho, panos de prato, canetas, lápis de cor, prendedores de roupa, latinhas,  caixinhas de remédio e até cabeças de alho. Também já achei uma caixinha de Maisena. Tudo isso ele vai amealhando ao longo do dia. Eu vou trocando a roupa dele e encontrando os “mimos”. E tenho de esconder debaixo da cama senão ele quer pegar de volta. Tem alguns aos quais ele se aferra e aí não tem jeito. Há que esperar adormecer para tirar da mão. Geralmente são panos de prato ou saquinhos plásticos.

A vida dele gira em torno dessas insólitas e prosaicas atividades. Pode parecer que ele está fechado em mundinho pequeno. Mas, não. Nessas colheitas de pequenos objetos, no vai-e-vem no quintal, nas espiadas por cima do muro, nas conversas com o Rolando Boldrin e no diálogo com os cachorrinhos existem universos inteiros que podem ser incompreensíveis para nós, mas que o enchem de alegria e serenidade. E é assim que seus dias passam, na paz.