terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Sobre a tristeza e o pai



Desde bem pequena fui apegada à tristeza. Meu pai tinha o hábito de comprar livros dos vendedores ambulantes que batiam na nossa porta e eu vivia escondida dentro deles, tentando entender o mundo. Aluísio Azevedo, José de Alencar, Lima Barreto eram meus companheiros. Com eles eu aprendia sobre a luta dos trabalhadores, sobre o poder do dinheiro, a pobreza. Depois, nas coleções sobre América Latina, fui sabendo da destruição e da barbárie que destruíram nossas famílias ancestrais e mais tarde os Cadernos do Terceiro Mundo abriram meus olhos para a África e o Oriente Médio. Tanta dor nesse planetinha. Era impossível não se tapar de tristeza. Por vezes me parecia difícil até dormir. Como era possível que houvesse tanta miséria e sofrimento?  

Mas, apesar de todo esse caminhar com a tristeza acho que não estava preparada para o que tenho vivido com o pai. Não é coisa fácil observar cotidianamente uma pessoa ir se extinguindo de uma forma tão cruel. Minha mãe morreu cedo, vítima de doença do pulmão. Eu morava longe, não vivi sua dor. Isso coube aos meus irmãos que acompanharam seus últimos respiros agônicos. Agora, com o pai, tocou a mim. E é devastador. Durante o dia as coisas até que ficam sob certo controle e com cuidado e carinho a gente vai contornando as pequenas “loucurinhas”. Mas, quando chega a noite parece que entramos num universo paralelo no qual nenhum gesto ou palavra cabe.  

No geral o sono demora demais a chegar. E quando vem é entrecortado. Ele acorda muitas vezes durante a madrugada. Não creio que consiga entrar em alfa. E isso cobra no dia seguinte porque quando não dorme direito fica muito mais desequilibrado e fora do ar. Praticamente todos os remédios já foram tentados, mas causam sofrimento demais. A coisa fica pior. Ele não dorme e acaba ficando mais agitado ainda. Todos os chás também são tentados. Não surtem efeito. Só os seres da noite sabem o que acontece naquele quartinho nas madrugadas. 

Com muito custo consegui fazer com que use fralde de noite, o que, pensei, iria diminuir a necessidade de levantar. Ledo engano. Mudou de  problema. Agora, quando ele quer fazer xixi, não levanta, mas senta na cama e não há cristo que o faça deitar outra vez. Fica sentado na beirinha do colchão, dormitando sentado, enquanto o corpo cai para um lado e para o outro conforme o peso. Se eu puxo, forçando para que se deite, vira no Jiraya, pateando e soqueando com uma força extraordinária. Fica duro feito um pau. Há noites que fica assim, sentando, bambeando por mais de quatro horas. E no dia seguinte acaba ficando fraco e tonto, creio eu que por falta do sono e do descanso corporal. Já tentei de tudo. Nada funciona. E é profundamente triste vê-lo assim. Não desejo pra ninguém nesse mundo essa imagem de desequilíbrio e sofrimento. É avassaladora. Porque a gente tem de ficar parada diante dela, impotente, sem absolutamente saída alguma. Não há o que fazer nem a quem clamar. Há que segurar as lágrimas, empinar o corpo e ficar ali, sentada ao seu lado, em silêncio, esperando que a exaustão o derrube. Aí há que ser rápida para erguer as pernas e esticar o corpinho para que descanse. Nem sempre consigo. 

Hoje, acossada por esse governo de merda, de morte e de dor, sigo me entristecendo por conta das injustiças do mundo. Contra essas dores eu me insurjo, luto, batalho, saio às ruas, me rebelo. Há uma sensação de que pelo menos algo estamos fazendo. Mas, essa tristeza que sinto ao ver o pai nesse sofrimento noturno não tem igual. Por que diante dela sou incapaz, inútil, sem potência. 

E assim, a tristeza vai obscurecendo tudo, ficando tão densa quanto a própria noite a qual temo. Por isso escrevo. Não espero piedade, compaixão ou comiseração. Não. Apenas compartilho para não sufocar. A demência é uma carga pesada. Ela nos ensina sobre nossa pequenez nesse universo. Mas, não precisava ser assim. Se há alguma sorte nisso é que quando o dia vem e o pai levanta, ele não se lembra do que aconteceu durante, na sua luta insana contra o descansar. E quando o vejo assomar à porta, batendo as mãos e dizendo: vamos! Volto a sorrir... E lá vamos nós para mais uma jornada.  



quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

Sobre a Bíblia e as novelas da Record


A Eva e o Adão da Record

Quem já leu esse imenso livro sabe muito bem que ele é formado por três grandes partes. O velho testamento, o novo testamento e o apocalipse. O velho testamento é a parte que define a religião judaica até a chegada do Cristo. É um livro estranho e complexo, recheado de violência e fundamentalismo. O novo testamento é formado pelos evangelhos e conta da vida de Jesus, o Cristo, aquele que vem para realizar com os homens uma nova aliança. E o último é um livro místico, cheio de profecias sobre um suposto fim do mundo.

Pois logo que a Record foi comprada pela Igreja Universal, a igreja iniciou sua pregação midiática de uma forma muito esperta. Em vez de investir nos cultos  - embora eles estejam ali – preferiu apostar nas novelas e séries. Afinal, como bem já definiu o sociólogo Gilberto Felisberto Vasconcellos, nosso país é movido à telenovela. Aqui, esse gênero de dramaturgia tem um alcance inacreditável. Quase toda a usina ideológica da classe dominante se expressa nesses folhetins, de maneira subliminar e com uma eficácia impressionante.

A Globo, que ainda é líder no gênero, é perita em fazer a nação brasileira amar empresários, fazendeiros, usineiros, mineradores, enfim, todas as frações da elite dominante.

Pois a Record também apostou na novela para trabalhar a questão da religião. Começou com a História de Esther, em 2010 e foi trazendo, a partir de novas produções, várias partes do primeiro livro em forma de folhetim. Amores, intrigas, assassinatos, violência e tudo o mais que recheia o velho testamento, mas sobretudo a ideia que existe um povo eleito: o de Israel. Ou seja, tudo visceralmente ligado ao universo simbólico do líder maior da igreja, Edir Macedo, que se acha a encarnação do Rei Salomão. É perfeito.

As novelas “Os Dez Mandamentos”, em 2016, e a "A terra Prometida", em 2017, alcançaram índices incríveis de audiência e chegou a ultrapassar a Globo. E elas nada mais foram do que a narrativa do povo de Israel fugindo do Egito. Nelas se pode ficar frente a frente com esse deus vingador, capaz de trazer inúmeras pragas ao povo do Egito apenas para ferir o Faraó, ou que deixou o povo minguar no deserto porque alguns decidiram adorar outro deus. E esse é o deus que a igreja de Macedo professa. Um deus que se vinga, um deus que mata, um deus intolerante, um deus insaciável, um deus que tem filhos prediletos e que odeia quem não lhe rende homenagens.

Quem conhece as escrituras sabe que o Cristo vem justamente para quebrar a ideia de um deus assim. Jesus propõe uma nova aliança, ele não tem povo eleito, ele se senta com os gentios, ele toma água da Samaria, ele ama os fracos, os lazarentos. Não traz a ideia de um deus vingador, mas de um deus de amor. E esse não é o deus que a Record incensa. Tanto que a novela que fala sobre Jesus não teve lá muito sucesso. Jesus é fraco, ele morre no final. Os grandes sucessos são os que estão colados ao deus de poder, ao deus da morte. Por isso não é de estranhar que tantos novos-evangélicos possam defender pautas tão estranhas ao universo de Jesus como a pena de morte, o acesso às armas, a morte aos petistas, comunistas, gaysistas, umbandistas e globalistas. É porque eles estão acostumados com as histórias de um deus que não poupa ninguém além dos seus seguidores fiéis. Também não é sem razão que toda essa gente, incluindo aí os católicos fundamentalistas, considera o Papa Francisco o anticristo, a besta encarnada. Porque Francisco professa um deus de amor, que é um desconhecido para eles.

Então, eis que nesse momento tão obscuro da vida brasileira lá vem a Record com mais uma novela bíblica. O Gênesis. O começo de tudo. O criacionismo. O homem feito do barro por um deus caprichoso que vai se expressar em momentos colossais da vida humana: a queda do paraíso, a disputa entre irmãos pelo poder, a busca pelo poder real, o afogamento de toda a humanidade porque não rendia graças a ele, a destruição de Babel para impedir que a criação se aproximasse do céu, e muito mais. O deus da vingança em todo seu poder. O deus que fundamentaliza a espiritualidade.

Tudo isso é para dizer que a indústria cultural não dá ponto sem nó. Ela expressa as ideias da classe dominante. E a classe dominante quer forjar uma nação vestida de medo para poder aplicar sobre ela o seu poder. Medo do deus vingador, medo do comunista, medo da mulher emancipada, medo do negro, medo do diferente, medo de tudo. Então, contra esse medo vem a mão dura da polícia, do pastor, do padre, do patrão.

Eu tive uma criação católica. Minha mãe era devota e no seu exemplo ia nos ensinando sobre a religião. Mas ela era jesuânica, agarrava-se a nova aliança, entendia que era chegada a hora de um deus dos de baixo. Já bastava de reis, rainhas, templos suntuosos, líderes de mão de ferro. Ela cria em um Jesus amoroso, vestido em sandálias, comendo com os pecadores, as putas, os esquecidos. E é nesse deusinho que eu creio também.

Mas, infelizmente, a voz que ecoa é a do Macedo. Ele tem uma televisão. E nessa usina do ódio vai gerando um povo sem compaixão.

Enquanto isso, o Cristo, o que veio para zerar o horror do velho testamento, segue sendo chicoteado, torturado e morto. Todos os dias nas ruas das nossas cidades.



Somos poeira


 

Esse ano que terminou foi dureza, pancada mesmo. Perdemos parentes, amigos, conhecidos, gente demais. A ceifadora passeou desinibida nos mostrando que basta um leve manear de cabeça e ela nos toca, irremediavelmente. O corpo se vai, ficam as palavras de pesar nas páginas das redes sociais ou os sussurros nas antessalas do velório. “Era tão bom”. E segue um rosário de lembranças boas, porque quando a morte vem só fica aquilo que foi essencial, aquilo que definitivamente tocou nosso coração. A bondade, o bem, a beleza. Aquilo que deveríamos ser e que não somos o tempo todo porque a vida nos carrega, na deriva, por caminhos tortuosos. A morte chega para nos dizer disso: das nossas belezas escondidas ou não vividas. Há que despertá-las. 

É por isso que gosto de dizer aos que amo que os amo, sempre que os vejo. Gosto de abraçar apertado a cada manhã, cada chegada, cada despedida. Principalmente os que estão no cotidiano. Porque tudo é tão fugaz. Descobri já faz algum tempo que viver é caminhar na beleza, como dizem os navajos. E é preciso reverenciá-la sempre, a toda hora. Dos que amo não espero homenagens à beira do caixão. Quero carinhos agora mesmo, quero olhares de ternura, apertos de mão, aconchego, beijos molhados, cafunés, abraços.  E é o que dou também. O tempo todo e sem parar, porque não sabemos o dia nem a hora.  

Nesses tempos de angústia, quando tudo se desfaz, só o que permanece é o amor concreto, real, esse que se pode tocar. Esse pequeno texto é um abraço afetuoso a toda gente que caminha comigo, presencial ou virtualmente. O que nos salva são os pequenos gestos poéticos. Sejam pródigos!  A revolução invém... nós vamos construir o mundo novo...



segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Onde é a saída?



As mudanças de percepção do pai são inesperadas. Ele pode estar bem tranquilo num momento e no outro segundo ficar agitado, querendo sair. Num minuto está consciente de tudo e noutro já nem sabe mais quem eu sou. Numa hora está sentadinho ouvindo música e de repente começa a mexer nos armários compulsivamente.

- A senhora teria um cigarro? ele pergunta. E aí já sei que saiu do ar, está noutra dimensão da sua mente. Então, tenho de embarcar nela. Coisas que já faço no automático, como se fosse assim, uma mudança de língua. Estou falando português e logo já começo a falar em espanhol. Igual.
Outro dia estávamos tomando café. De boa. Ele fazendo as traquinagens com o pão. De repente, do nada, ele se levantou agitado. Pegou a almofada, passou a mão no saco de pão e saiu porta afora, perguntando, nervoso: Onde é a saída? Onde é a saída?
Saí da mesa, peguei sua mão e sinalizei:
- É por aqui, seu Tavares, é por aqui. E já fui puxando para o caminho em volta da casa.
Completamos duas voltas de braços dados.
Na terceira ele olhou a almofada, o saquinho e me puxou casa adentro, voltando para o café.
- Quer um pão de queijo, pai?
- Sim, filha.
Pronto, voltou.

Investir na Ciência Nacional



O filósofo Álvaro Vieira Pinto, no seu livro "O conceito de Tecnologia" faz uma profunda discussão sobre esse tema e sobre os países ditos subdesenvolvidos que, segundo ele, precisam atuar no sentido de caminhar com as próprias pernas e desenvolver a sua ciência com os recursos que têm. Isso não significa ficar fechado para o conhecimento gerado fora, mas toda a tecnologia importada não pode vir em pacote cerrado, sem que os cientistas nacionais saibam ou possam intervir.

Diz ele sobre isso: "A tecnologia de origem externa serve de instrumento para a aceleração do desenvolvimento da nação retardada unicamente se for uma aquisição de livre escolha por parte de seu centro soberano de poder político, que objetiva os propósitos da autêntica consciência de si, a saber, a de suas massas trabalhadoras. O poder de decisão na escolha, manutenção e direção da tecnologia não só quanto à origem mas igualmente quanto à natureza dela constitui o traço mais significativo para comprovar  a posse da autoconsciência pelo país subdesenvolvido".

Isso é o faz Cuba, por exemplo, que está bloqueada pelos Estados Unidos, impedida de negociar com muitos países. Premida pela necessidade a ilha decidiu investir na ciência e na busca de saídas locais. Ainda assim manda seus cientistas para fora para estudar, aprender e depois, na volta, criar. Isso é soberania. Por isso Cuba tem a sua própria vacina hoje, quando as demais vacinas só existem nos países mais ricos e desenvolvidos. Todos os outros países terão de comprar a vacina desses centros.

No Brasil, a duras penas, temos o Instituto Butantan (instituição pública estadual), a Fiocruz (instituição pública federal) e outras pequenas ilhas nas universidades públicas onde a ciência pode se fazer. Mas, tudo sempre é muito sofrido. Os profissionais mal pagos, os recursos incertos, a precariedade. Cada dia uma batalha para se manter. E, agora, com esse comando genocida, tendo ainda de enfrentar o próprio governo. Não é fácil.

Ainda assim esses trabalhadores da ciência nacional conseguiram, a partir da tecnologia chinesa, desenvolver aqui a vacina contra o coronavírus. Um trabalho quase heroico, diante de tantos percalços, desafios e guerras políticas. Por isso, é para essa gente que devemos agradecer. Não fosse o fato de que permaneceram no Brasil, resistiram nas condições mais duras, e seguiram trabalhando nas instituições públicas provavelmente ainda não teríamos a vacina, visto que o governo tenta atrasar ao máximo a imunização.

Ainda vai demorar para que sejamos uma nação soberana, tal qual Cuba, e enquanto isso não é construído pelo povo em luta, há que se dizer obrigado aos homens e mulheres - desde os pesquisadores até os faxineiros - destas instituições públicas que conseguiram ontem oferecer a vacina aos brasileiros. Queria muita poder saber o nome de cada um , de cada uma, para registrar na memória. Trabalhadores públicos, cientistas comprometidos com a nação, trabalhadores privados cumprindo seu turno apesar dos riscos, todos e todas que tornaram isso possível.

Obrigada pessoal do Instituto Butantan, obrigada pessoal da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Por causa de vocês, nós, os que ainda sobrevivemos, temos uma chance.

Sabemos que agora inicia outra batalha para a distribuição das vacinas. Muitos obstáculos serão colocados. A nós, os de sempre, restará a luta para que as doses cheguem logo e sejam aplicadas. Cada dia uma luta nova. Seguimos, P´alante!



sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

Brasil: não é incompetência, é plano



Quem acompanha a carreira do homem que hoje está na presidência do Brasil sabe: ele é isso aí. Durante toda sua medíocre vida parlamentar ele esteve ancorado na ignorância, no ódio, na intolerância, na sede de sangue. Não é sem razão que seu ídolo maior é um dos mais nefastos torturadores da ditadura militar. Falando sobre a ditadura ele afirmava: “Matou só 30 mil, tinha que ter matado mais”, ou “Não devia ter só torturado, tinha que ter matado”. Tirando isso, tema que domina com maestria, sobre o demais é sempre uma ladainha de burrice e preconceito. Seu mundo é tão pequeno que suas ideias sobre ele caberiam em algumas linhas de papel. É o receptáculo perfeito para servir de gerente sem alma do capital. Por isso, quando sua presença foi ganhando corpo em uma camada igualmente ignorante da população, ele passou a ser notado pela elite dominante no país. 

Naqueles dias, os partidos políticos amargavam grande repúdio por parte dos brasileiros. A direita tradicional havia perdido força e o Partido dos Trabalhadores fraudava as esperanças dos que acreditavam ser possível um passo mais à esquerda. Cenário perfeito para o azarão. E foi assim que a criatura saiu da marca dos 3% para ganhar as eleições em 2018. Não foi um raio no céu azul. Foi a consequência dos equívocos políticos de quem deveria ter formado as gentes e mantido a população organizada para alavancar mudanças estruturais.  

Correndo por fora da mídia comercial, aproveitando-se das novas redes comunicacionais, a criatura foi crescendo. Expressava o sentimento de muita gente que havia se mantido no silêncio, mas que alimentava dentro de si horrores semelhantes. Assim, bastou criar um inimigo plausível: os comunistas (já bem conhecidos por serem comedores de criancinhas) e pronto. Fervia o caldo da desgraça. A lógica empregada pela campanha bolsonarista não era novidade. Já tinha sido empregada na chamada “Primavera Árabe” que destruiu parte do Oriente. Mentiras, simulações, ampliação do medo, reforço dos ódios raciais e preconceitos de todo o tipo, aliado ao fundamentalismo religioso construído durante décadas pelas chamadas igrejas neopentecostais.  

Assim, enquanto a criatura bradava contra a mídia, o sistema e “tudo isso que está aí”, a esquerda brasileira, já sem dentes para morder, trabalhava com propostas palatáveis para a classe média que havia crescido no país, mas que se faziam incompreensíveis para uma camada gigante da população. Acabou perdendo a classe média, que se aliou ao discurso ultraconservador com o intuito de manter privilégios e perdeu a massa de trabalhadores que queria mudanças, qualquer mudança. O crescimento de Bolsonaro nas pesquisas levou a mídia comercial a olhar com cuidado para ele, e os discursos televisivos foram mudando. Era uma boa oportunidade de se livrarem do PT que, apesar de ser muito mais liberal do que esquerda, trazia em si a simbologia da esquerda. Assim, o mesmo Bonner que hoje faz discursinho contra Bolsonaro é o mesmo que massacrou os candidatos da esquerda liberal, e pisou miudinho com Bolsonaro nas famosas entrevistas do Jornal Nacional.  

E assim, chegamos ao horror dos nossos dias. Eleito para ser o coveiro das aspirações mais à esquerda, Bolsonaro foi apoiado pela direita brasileira esfacelada, pela mídia comercial, pelas igrejas sedentas de grana, e pela camada da população que mantinha viva em si toda série de ilusões acerca da ordem, progresso e crescimento econômico do tempo dos militares. Ele seria o condutor da destruição da “bagunça” petista.  

Por isso não há surpresas na política implementada pelo grupo bolsonarista. Tudo que prometeu, está cumprindo. Militares no governo (mais de oito mil em cargos), mão dura contra a dita esquerda, destruição dos serviços públicos que, segundo eles, só servem para cabide empregos dos esquerdistas, mais poder para as forças de segurança (para garantir a ordem), entrega das riquezas nacionais aos estrangeiros (que são mais competentes e trarão o progresso) e muito circo, para manter a massa animada. Vejam que não passa um dia sem que esse governo faça alguma aglomeração. A mobilização do grupo de apoio é constante, tanto física quanto virtualmente. Os grupos de uatizapi são eficazes e velozes. Qualquer declaração contra o presidente é imediatamente solapada com centenas de postagens de contrainformação.  

Colar a figura do presidente à rede de “heróis mundiais” enviados por Deus é a estratégia perfeita. Junto com Donald Trump ele comanda um aguerrido grupo de lutadores que se uniu para enfrentar e destruir os pedófilos, abortistas, gayzistas e comunistas que querem destruir o mundo. Essas informações são repassadas nas igrejas aliadas, nas famílias, nas redes. É um universo paralelo que se multiplica dia a dia sem que se dê a devida atenção.  

A chegada da pandemia é vista como um “castigo divino” aplicado por conta de o país ter permitido um governo de comunistas (no caso, o PT, embora o partido não seja comunista). Agora, há que limpar esse mundo que foi violado pela mancha vermelha. Então, daí a necessidade dos cordeiros imolados. Os escolhidos, que tomarem ivermectina e cloroquina, serão salvos. Não importa que a vida real esteja mostrando que aqueles que fizeram o tal tratamento precoce estão morrendo também. Eles deviam ter algum pecado. Os justos não, esses serão salvos. A prova viva é o próprio presidente que pegou o vírus e está vivinho. Isso basta.  

E enquanto os “pecadores” caem como moscas nos hospitais públicos sem pessoal, sem equipamentos, sem insumos e até sem salários, os justos avançam. Hoje, quando a cidade de Manaus vive o horror de presenciar a morte por asfixia de pacientes por conta da falta de oxigênio, os grupos bolsonarista espalham a boa nova da vitória final que virá com os exércitos de Donald Trump no dia 20 próximo. A “Operação Tormenta” varrerá do mundo os comunistas e impedirá, inclusive, que sejam produzidas as vacinas feitas com fetos humanos, que eles tentam obrigar o mundo a tomar. Uma vacina que inoculará um chip capaz de tornar a pessoa comunista ou quem sabe, um jacaré.   

A batalha comunicacional neste momento dá vitória folgada aos bolsonaristas. Ela tem uma eficácia extraordinária a tal ponto de as pessoas não se emocionarem para nada com as mais de mil mortes por dia no país, e mesmo o caos em Manaus, quando as vidas se extinguem, sufocadas, sem ar, não provoca maiores emoções. Pelo contrário. A corrente informativa nos grupos espalha a seguinte informação: o governo federal mandou muito dinheiro para o Amazonas, mas os governantes de lá desviaram para tentar destruir o presidente. A culpa sempre é de outro. 

A contraofensiva deste tipo de informação parece não encontrar espaço. As palavras emocionadas de William Bonner no Jornal Nacional só provocam risos de mofa. O presidente disse que não é para acreditar na Globo. E ninguém acredita. Ponto final. E a esquerda tirou como estratégia bradar o “Fora Bolsonaro” como se a vontade expressa nas redes pudesse se tornar potência sem uma ação organizativa real. Não pode.  

No meio do caos, com as mortes se multiplicando e o país sendo assaltado à luz do dia, entidades gigantes como as Centrais Sindicais, os Partidos Políticos, que congregam milhares de pessoas, estão completamente paralisados. Nada além de “lives” na plataforma do grande irmão facebook.  

Hoje é Manaus, amanhã pode ser qualquer outra cidade, mas a responsabilidade parece não colar nas figuras do poder. O que voga é a máxima religiosa: “milhões cairão a tua esquerda, milhões à direita, mas tu, que crês, não será atingido”. O que fica vivo acredita que deu certo e o que morre não tem mais o que pensar. Então tá tudo certo.  

O fato é que a pandemia só potencializou o desmonte, o crime. E cada um que ajudou a colocar no poder os que hoje nadam no sangue é responsável. Nenhum esquecimento e nenhum perdão. Não é só o presidente – esse é só o gerente do processo. É a mídia, são as igrejas da prosperidade, são os deputados federais, os senadores, os juízes da Suprema Corte, os empresários, as gentes “de bem”. Todos os que sustentam essa lógica de destruição sem garantir parada são responsáveis e haverão de responder por isso.  Se não hoje, algum dia, porque como diz a música do Geraldo Vandré, “deus que se descuide deles, um jeito a gente ajeita dele se acabar. Fica mal com deus, quem não sabe dar, fica mal comigo quem não sabe amar”.  

Mas, para isso, há que organizar.  

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

Era uma vez o Brasil

 


Na foto, Matheus Nachtergaele encarnando Zé do Caixão. Extraordinário.

Assisti há pouco tempo a primeira temporada de uma série chamada “Hollywood”. É incrível ver como a indústria do cinema tem essa capacidade de se alimentar de si mesma, gerando produtos sem fim. A série é uma ode à arte do cinema, sob o ponto de vista estadunidense, é claro, uma vez que ali só aparecem referências ligadas àquele país. Artistas, diretores, produtores. É um passeio sobre o nascimento da indústria cinematográfica e toda a sorte de dramas que ensejou, desde as buscas pessoais dos aspirantes a astros e estrelas até os dramas coletivos como a questão da homossexualidade, o racismo, a libertação da mulher etc... A singularidade da série é que ela reescreve a história introduzindo momentos que poderiam ter mudado o curso das coisas. Nela, por exemplo, o jovem astro Rock Hudson, que era homossexual e sempre fez papel de galã escondendo sua opção, se revela publicamente. Uma atriz negra ganha sua chance de interpretar uma personagem entregue só as brancas e é premiada por isso. E uma mulher assume, com brilho, a condução de um estúdio cinematográfico. Coisas inimagináveis nos Estados Unidos dos a nos 30, 40 e 50.  Enfim, é interessante, mas é Hollywood, ou seja, mais do mesmo.  

Digo isso pensando numa fala do professor Nildo Ouriques, num dos programas Pensamento Crítico, quando ele diz que no Brasil sabemos mais do cinema estadunidense do que do nosso. E é verdade. Imaginei então algum cineasta fazendo um apanhado da vida cinematográfica do Brasil numa série assim, tipo essa de Hollywood, trazendo para as novas gerações todos os dramas que fizeram a beleza do nosso cinema, desde as famosas chanchadas, Mazzaropi, as pornochanchadas, o cinema de arte, Zé do Caixão, Glauber, Barreto, e até as bobajadas comerciais da Globo, mostrando os nossos artistas e os bastidores das produções. Seria um trabalho e tanto e nos daria um panorama singular do cinema nacional.  

Lembro do magnífico trabalho feito pelo ator Matheus Nachtergaele na série que contou a vida de Zé do Caixão, um dos nossos grandes. O trabalho foi realizado inspirado na biografia “Maldito – A Vida e o Cinema de José Mojica Marins”, escrita pelos jornalistas Ivan Finotti e André Barcinski. A direção foi de Vitor Mafra e o roteiro produzido por Barcinski, Mafra e pelo professor da Academia Internacional de Cinema (AIC), Ricardo Grynszpan. É uma lindeza de série e deveria ser vista por todo o país em canais abertos. Mas até agora só passou no cabo. É uma belezura de trabalho, com a atuação extraordinária de Matheus. 

Enfim, temos cinema, temos história, temos atores e atrizes geniais e temos roteiristas incríveis. É tempo de contarmos essa história e eternizar os grandes e os pequenos realizadores. Só o sistemático revolver da memória garante que a vida vivida não se perca. Viva o cinema nacional.