sábado, 19 de dezembro de 2020

Jornalicídio doloso - jornalista processada por interpretar a realidade



 A palavra jornalismo vem do grego diurnalis, que significa “do dia”. Quando passa a designar um fazer significa então “análise do dia”. Isso é o que está na etimologia e é o que deveria estar na cabeça de cada um de nós, os que praticamos o jornalismo todos os dias. Observar a vida, os fatos, e narrar, não como meros porta-vozes, mas como sujeitos capazes de analisar e interpretar os fatos para além da aparência. 

Pois foi exatamente isso que fez a jornalista Schirlei Alves ao cobrir o vexaminoso julgamento do caso André Aranha, acusado de estuprar uma garota numa casa noturna da capital catarinense. Na audiência, o advogado do dito estuprador coloca foco na vida da jovem estuprada, Mariana Ferrer, e a humilha em diversos momentos, tratando-a como se ela fosse culpada por ter sido estuprada. Na verdade, até aí nada de novo, pois sempre foi essa a estratégia das defesas de estupradores: virar o jogo para a vítima. “Estava bêbada, estava de vestido curto, estava com roupa transparente, provocou, que fazia ali àquela hora”, e tudo mais. Até aí, pão comido. Como também foi pão comido o resultado do julgamento. Depois de toda a pressão sobre a vítima, o resultado foi a absolvição do Aranha. 

Com todo o rebuscamento da linguagem do juridiquês, o processo aponta que existem situações em que “o erro exclui o dolo, mas permite a punição por crime culposo... quando há a vontade, mas não a plena consciência”. E foi – linhas gerais – em cima disso que o homem foi absolvido. Chegaram à conclusão de que não foi estupro, porque, mesmo que tenha havido o dolo (perda da virgindade) não houvera a intenção.

Como uma boa jornalista, Schirlei Alves, se debruçou sobre o processo, leu as letras pequenas e fez suas análises e interpretações. Uma delas lhe permitiu apontar a genial expressão “estupro culposo”, que acabou ganhando destaque e levando o país inteiro a discutir o caso. Ou seja, Shirlei percebeu que a lógica usada na sentença permitia uma analogia com o que conhecemos como homicídio culposo – quando uma pessoa mata outra sem intenção de matar (o caso de um acidente, por exemplo). Claro que o que a jornalista fez foi uma ironia - porque nem isso seria. Mas , foi uma ironia que não surgiu do nada. Ela está subentendida nos autos. 

Como as palavras são polissêmicas, cada um que leu o texto atribuiu um sentido e a expressão foi usada para criticar de maneira jocosa o judiciário e todos os operadores que atuaram no caso. Obviamente que a exposição nacional, e até internacional do acontecido, causou indignação aos envolvidos. Então, trataram de judicializar a jornalista. E agora, ela responde processo por ter analisado um fato e interpretado o mesmo com base nas informações dos autos. Ou seja, ela disse algo que eles não haviam dito mas que estava subentendido nas entrelinhas.

Seria até engraçado um processo por isso, mas é claro que não é. Porque estamos no Brasil, porque a Justiça tem classe e porque esse é um tempo em que o jornalismo tem de ser calado. Na verdade, todos os tempos são tempos que tentam calar o jornalismo, aquele, de verdade, que interpreta, que desaloja, que desequilibra, que analisa criticamente. Mas, momentos há em que ele tem mais espaço. Não é o caso dos nossos dias. Vale lembrar outro colega jornalista e professor, o Cristian Góes,  que foi processado por ter escrito um texto de ficção com o qual um desses “coronéis”  nordestinos se identificou. Cristian foi condenado por fazer ficção e ainda teve de pagar por isso. Loucura? Não! Realidade brasileira. 

O processo agora contra Schirlei segue essa lógica da tentativa do cala-boca. Diz para os jornalistas: não vejam para além das aparências, não tentem interpretar nada, não realizem a análise do dia, não façam mediações inteligentes com seus leitores, limitem-se a carregar vozes, fiquem nos seus lugares de capachos do sistema.

O caso Schirlei Alves então passa a ser o nosso caso, dos jornalistas, dos que fazem jornalismo, dos que tem apreço pelo jornalismo.  E é preciso contar essa história, para que a jornalista não venha a ser condenada por interpretar um fato, por criar uma manchete fora do padrão. Por que se isso acontece é um tiro no peito do jornalismo e aí, não é “jornalicídio culposo”, mas doloso mesmo, porque a intenção é obviamente a de matar qualquer possibilidade de um trabalho que fuja da normose disso que alguns chamam de jornalismo, mas que é apenas um pastiche, limitando-se a dizer que: segundo fulano isso, segundo fulano aquilo. 

O jornalismo de verdade vai além do porta-voz. Ele mexe no vespeiro. Ele expõe a ferida, sangrando. O que Schirlei fez foi isso: de maneira inteligente, expôs, numa expressão tão curtinha, toda a pantomina do julgamento e da ação do estuprador. 

Que se mexam o Sindicato, a Fenaj, as instituições internacionais. A Schirlei não pode ficar sozinha nessa batalha. Notas de repúdio não são suficientes. Há que ter movimento forte. 

Tô contigo, Schirlei Alves.

Homenagem aos vivos - Pedro Martínez Pírez



 Conheci o Pedro numa das Jornadas Bolivarianas no Iela, em 2006. Jornalista da velha cepa, daqueles que sabem farejar uma boa pauta, seja onde for que estiver. Lembro-me dele, numa das mesas, dando conferência bem compenetrado, mas quando o outro convidado começou a falar coisas sobre Cuba ele imediatamente sacou do bolso o gravador – extensão do seu corpo - e registrou a fala. Aquilo era notícia. Óbvio que me tomei de amores. Desde aí ele tem sido nossos olhos e nosso coração em Cuba.

Nascido num fevereiro de 1937, na bela Santa Clara, ele é filho de poeta, o mesmo que lhe apontou o amor pelo jornalismo, pelo rádio e por Cuba. De família pobre, começou a sua vida de trabalhador muito cedo. Aos 12 anos já tinha emprego, bem como os outros quatro irmãos, ajudando no sustento da casa. Com 16 anos já estava na escola do Comércio, seguia trabalhando, e ainda encontrava tempo para a militância anti-Batista editando jornais mimeografados contra o ditador. Não demorou muito e lá estava ele no Movimento 26 de Julho.

Quando a revolução se fez vitoriosa ele estava na Universidade e já no primeiro ano largou tudo para ajudar o novo governo, indo trabalhar no Ministério de Relações Exteriores como diplomata, exercendo funções no Equador e no Chile onde também continuou fazendo jornalismo, sua paixão. De volta à Cuba em 1964 ele funda a revista OCLAE, ligada a organização dos estudantes, atua nos órgãos da Juventude Rebelde e na Prensa Latina. Desde aí não larga mais a caneta nem o microfone. Seu destino seria o de narrar a vida.

Em 1973 chega à Rádio Havana, onde está até os dias de hoje, incansável, na sua missão de informar. Ali já cumpriu praticamente todas as funções, além das coberturas jornalísticas nacionais e internacionais. Não bastasse isso ainda seguiu para Angola nos anos 80, quando ajudou na luta sendo formador de jornalistas em Luanda. De volta a Cuba seguiu sua saga de formador, como professor titular da Universidade de Habana, mas sem nunca largar o microfone.

O Pedro é um desses seres gigantes que, na sua humildade de revolucionário cubano, atua silenciosamente e sem parada. Hoje, com mais de 80 anos, segue sua rotina de “reportero” e dirigente da Rádio Habana. Já recebeu todos os Prêmios possíveis, e segue com seu riso fácil e sua absurda capacidade de doação à revolução cubana e à revolução mundial.

Alto, magro, elegante, ele é uma mistura adorável de ternura, alegria e capacidade de trabalho. Ele é repórter com letras maiúsculas. Ele é jornalista, narrador. Mas, mais que tudo, ele é um cubano repleto de amor pela sua gente e pela sua revolução. A ele faço reverência e registro meu mais profundo amor. Ficará marcado para sempre na minha memória nossas alegres caminhadas no Centro de Florianópolis, com o equatoriano Fernando Sarango, nos encantando com as bugigangas do Mercado Público, do mesmo jeito que nos encantamos nos mercados de rua de Quito. Compartilhamos, cúmplices, desse mesmo amor pelas coisas simples, populares.

Amo-te Pedro Martínez e agradeço aos deuses por esse encontro. Viga longa, meu amigo querido, a ti e a Cuba revolucionária.

Conselho de Saúde do Campeche alerta



O Campeche é um bairro que tem tradição de luta e de organização. Por isso, na manhã desta quarta-feira o Conselho Comunitário de Saúde se reuniu para discutir a situação relacionada à pandemia. O relato é de que estamos vivendo agora, neste mês de dezembro, um dos momentos mais dramáticos do processo, bem mais grave do que no início, em março. Praticamente já não há mais sequer um leito nas UTIs da cidade e os Postos de Saúde estão sobrecarregados ao máximo, com os trabalhadores arriscando a vida todos os dias. Por isso mesmo não é hora de relaxar. Mesmo aqueles que não acreditam que haja uma pandemia, precisam saber que os serviços de saúde estão em colapso. O que significa que se tiverem um infarto, ou precisarem de cirurgia ou qualquer outro tratamento mais complexo – que não tenha nada a ver com a Covid – tampouco conseguirão espaço nos hospitais.

Agora, com a chegada da temporada de verão e a liberação de 100% das vagas de hotéis, a situação tende a piorar ainda mais. Por conta disso é preciso que a comunidade saiba como está a situação do Posto de Saúde, para evitar choro e ranger de dentes depois.

O novo Posto de Campeche foi inaugurado pelo prefeito Gean Loureiro com a promessa de colocação de quatro equipes, com médicos, enfermeiros e todos os profissionais necessários para o atendimento. Mas, isso não aconteceu. Apenas outra nova equipe foi alocada. Desses trabalhadores um número bastante expressivo está em trabalho remoto por conta de serem do grupo de risco. Isso significa que a equipe encolheu ainda mais. Apesar de ter quatro médicos atendendo, as equipes estão limitadas a duas. Nesses meses de pandemia o atendimento presencial ficou focado apenas nos casos de Covid. As demais demandas são resolvidas por telefone.

O Posto tem atualmente seis números de celular ativos para receber as chamadas. Cada um deles recebe mais de 450 mensagens por dia. É praticamente impossível dar vazão aos pedidos na velocidade necessária. Isso estressa os trabalhadores e também a comunidade, que se sente abandonada. Isso leva a cenas de agressão e gritaria no posto, o que deixa os profissionais ainda mais esgotados, pois ninguém quer saber dos problemas. Só querem atendimento.

Outro problema enfrentado pelos trabalhadores são as pessoas que omitem os sintomas da Covid e buscam atendimento no posto e só depois de terem esperado e sido atendidos é que vai se descobrir que podem estar infectados. Aí já podem ter espalhado o vírus para muito mais gente. “Quando sabemos de antemão que a pessoa tem sintomas todo o atendimento é diferenciado, inclusive os equipamentos de proteção da gente. Omitir os sintomas expõe todo mundo ao risco”.

O tempo todo em risco os trabalhadores do Posto também enfrentam a demora dos resultados dos exames para confirmação de Covid. “Se alguém apresenta sintoma, logo é afastado e faz-se o teste. Mas os resultados demoram demais e muitas vezes o trabalhador  retorna ao trabalho e ao convívio sem saber se teve ou não o vírus. O teste deveria ser rápido para que pudéssemos isolar imediatamente toda a rede de contato”. Essa é na verdade uma das formas mais acertadas de cuidar das pessoas. No Uruguai, por exemplo, onde um infectologista criou um teste rápido, nacional, e a testagem foi massiva, e as mortes não dispararam. Porque ao ser testado e comprovado a Covid, a pessoa pode ser isolada e toda a sua rede de contatos detectada. Aqui no Brasil nada disso acontece e a proliferação do vírus segue a todo vapor.

Agora, com a temporada e a circulação de milhares de turistas, a perspectiva é de caos. E é preciso relembrar: o posto de saúde não atende apenas Covid. São todas as doenças.

A reunião do CCS juntou além dos conselheiros, diversas lideranças comunitárias e entidades para discutir um plano conjunto. A intenção é massificar a informação sobre prevenção e vigiar para que as pessoas tomem o máximo de cuidado nos espaços públicos. Não há medicamento para prevenir a Covid. A melhor estratégia ainda é o isolamento social, a máscara e o lavar as mãos.

É certo que nosso verão é lindo, nossa praia também. Mas, é melhor que estejamos vivos para curtir. É muito importante que a comunidade entenda que o trabalho dos profissionais de saúde do posto local tem sido árduo e arriscado. Há que protegê-los também, pois quanto menos gente tiver no posto para fazer o atendimento, pior é a situação. Estamos vivendo um momento dramático e a linha entre a vida e a morte é ténue.

Os meios de comunicação estão sempre divulgando o número de pessoas recuperadas, como se isso fosse uma grande vitória contra o vírus. Não é. Todos aqueles que têm contato com o vírus e desenvolvem sintomas podem ter graves problemas de saúde. Há pessoas que perdem olfato, paladar, desenvolvem problemas cardíacos, respiratórios. O sofrimento é grande, mesmo depois de ser “curado” da Covid. Então, não dá para vacilar. Essa doença não é brincadeira.

Cuidado, cuidado e cuidado. Essa é a orientação. Não aglomerar, seguir realizando a limpeza de tudo o que tocar e apostar no isolamento no tanto que for possível. Não sendo, usar a máscara e o álcool gel.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

Brasil: o assalto ao estado


O Brasil segue em passos largos no processo de contaminação pelo coronavírus, vivendo um de seus piores momentos desde julho, ultrapassando a marca dos 300 mil contaminados em uma semana. Enquanto isso o presidente da nação desinforma sobre a vacinação, faz piadinhas, inaugura exposição de suas próprias roupas e vai pescar. Tudo isso diante uma população completamente apática. Os gritos só aparecem nas redes sociais e em um ou outro meio de comunicação como o jornalão Folha de São Paulo que escreveu no seu editorial que “a estupidez assassina do presidente passou de todos os limites”. Mas, o fato é que o presidente passa dos limites a cada semana e isso só faz aumentar o índice do seu limite porque, ao que parece, nunca é suficiente.

Só para falar da pandemia é preciso lembrar que o país foi deixado a sua própria sorte, sem um plano nacional de combate ao vírus, com os governadores e prefeitos tendo de agir cada um por conta própria. A única coisa articulada em nível nacional ao longo desses meses da peste tem sido a ação dos empresários para que nada feche e a roda do capital siga girando. Tem funcionado e é o que mantém o país com altas taxas de contaminação.

Agora, quando o mundo já inicia o processo de vacinação, com pelo menos quatro propostas de vacina, o Brasil, de novo, viverá a guerra da politicagem. O presidente diz que vai coordenar o processo de vacinação, mas não faz absolutamente nada. O Ministro da Saúde diz que vai ter um plano “caso houver demanda”. É o horror. Ao mesmo tempo, quando alguns governadores anunciam planos de compra de vacina e de vacinação, o governo federal ameaça com retaliações. Uma situação que em qualquer outro lugar do mundo colocaria a população nas ruas em protestos massivos. Aqui não. Os jornais divulgam números de aprovação ao governo que chegam aos 37% e uma taxa de 22% dos brasileiros que afirmam que não vão se vacinar em hipótese alguma, porque a vacina é um plano comunista para se apoderar do cérebro das pessoas.

E assim, apesar de termos laboratórios de extrema qualidade, como o Butantã, e um dos melhores processos de vacinação do mundo, a tendência é caminharmos para o desmonte do sistema de saúde e de tudo aquilo que se construiu com muita luta.

Mas, engana-se quem pensa que essa é uma nave desgovernada. Não é. O timoneiro sabe muito bem para onde está levando o país. Inclusive ele anunciou isso com todas as letras durante sua campanha eleitoral. Quem depositou o voto na urna sabia muito bem que a proposta era o desmanche e a destruição de “tudo isso que tá aí”. Logo, não há surpresas. O capitão do mato entrega o país para a mão privada estrangeira e nacional e, por conta disso, vai engordando sua conta bancária para - quando não for mais necessário - sair de cena, muito bem remunerado. Junto com ele atua um Congresso Nacional muito bem orquestrado e alinhado à essa política de destruição. É a nacionalização do conhecido bordão do velho comunicador Silvio Santos “tudo por dinheiro”.

Então, quando forem dizer que não há um plano de vacinação nem qualquer plano para o país, pensem bem. Há um plano sim. O plano é assaltar o estado no mais curto tempo. Pegar o que der.

Enquanto isso, as Centrais sindicais estão mortas, a maioria dos sindicatos também. Mesmo aqueles que representam os trabalhadores que jamais tiveram a opção de ficar em casa. Não há movimento entre os comerciários nem nos trabalhadores da indústria. Só há medo. Medo de perder o emprego. Medo de morrer. Medo. É o caldo perfeito para que o assalto ao estado aconteça sem maiores tremores.

O plano, portanto, segue, com competência, enquanto a morte nos espreita.

É tempo de ocupar as ruas. Ou isso, ou o matadouro.


sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

O cuidado sem remédios, ruim para o cuidador, bom para o velho



A vida da gente é feita de escolhas. Elas definem nosso caminho. Meu pai me chegou há cinco anos com diagnóstico de Alzheimer. Estava fraquinho, não conseguia andar muito menos pegar os talheres para comer. Foi como um furacão em casa, pois tudo teve que começar a ser ajeitado para suas necessidades. Eu nada sabia de Alzheimer ou cuidado com pessoas dementes. Haveria de aprender no corpo-a-corpo com a realidade. Nos primeiros meses foi difícil demais, mas, com o andar da carruagem a gente vai se adaptando.  

A primeira batalha foi com os remédios. Que fazer para segurar as crises de violência, os gritos na madrugada, as alucinações, o desespero da fuga, a insônia permanente? A única coisa que consegui pensar foi em médico e remédio. E fui à luta. Na parceria com o médico começamos a experimentar algumas medicações. Mas, cada remédio dado, pioravam as crises. Houve um dia em que ele quase arrancou o portão da casa, aos gritos de socorro, pela madrugada adentro. Desses remédios que se usam para o Alzheimer, usei todos, mas como piorava eu tirava.  

Até que decidi não transformar mais o meu pai num campo de testes. Escolhi cuidar sem remédio. Iria aguentar as crises apenas no osso do peito. Durante o dia, uma gota de canabidiol, que não é remédio, é vida. E quando a ansiedade ficava muita, um cigarro, dos mais fortes, pois a nicotina, me ensinou um médico, é forte calmante nessas situações. Assim temos caminhado nesses anos.  

Alucinações o pai não tem mais e tampouco crises de violência ou tentativas de fuga. Consegui estabelecer uma rotina durante a noite, com a qual consigo fazer com que ele durma algumas horas. Bom, e qual é preço disso? Cuidado 24 horas. Definitivamente o que substitui os remédios é a presença, a atenção, o cuidado, as coisas que fazemos juntos. O dia inteiro inventando coisas. Isso obviamente cobra um tempo danado da gente, e praticamente toda a vida que a gente tinha deixa de existir - só há um hiato para o trabalho, ainda necessário. De resto, os dias são passados em função dele, pois se a atenção não chega, o bicho pega.  

Entendi que esse caminho é bastante duro para o cuidador porque exige atenção integral, entrega total. É dureza. Não são todos os que podem fazer isso. Algumas pessoas até têm sucesso com a medicação. Mas eu preferi desistir. Como o pai tem saúde de ferro não há sequer outros medicamentos para atrapalhar. O único remédio que ele toma é o da pressão que o médico disse que não é bom parar. Como é só um, fica bem fácil administrar.  

O resultado dessa escolha é ver o pai bem de boa, fazendo suas pequenas loucurinhas como colocar coisas no vaso do banheiro, comer todas as bananas da fruteira, mexericar no armário de comida, espiar no portão conversando com algum amigo imaginário. Ele não fica irritado, não fica violento, não fica ansioso. Só perde a tramontana na hora de trocar de roupa. Não gosta que lhe baixem as calças. Mas, com paciência, tudo dá certo. Também não gosta de banho e o jeito é levar ele para o box, com roupa e tudo e ir molhando devagar. Conforme a roupa vai molhando, ele mesmo vai tirando. É bem engraçado. Lógico que é uma operação demorada, mas temos todo o tempo do mundo. 

Depois, é ficar com ele no alpendre vendo os passarinhos, os gatos, os cachorros, ouvindo música, tomando uma cervejinha. É pesado pra mim, mas essas cenas do cotidiano, valem toda a pena. Como hoje, depois do banho, ele dormitando à sombra, com o gatinho a lhe lamber a mão. Nenhuma rugosidade na sua adorável vida. Só o passar das horas. Por vezes conversamos, bastante tempo, numa língua estranha. Mas, nos entendemos.

Tudo o que eu queria era que as pessoas pudessem ter esse tempo para cuidar de seus velhos. Pois, com certeza, isso lhes dá um final de vida sereno, cheio de alegria e dignidade. Coisa que eles merecem depois de tanta vida de trabalho. Não é fácil, mas, vale a pena. 


quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

O tempo dos maus? Onde estás, felicidade...


A morte de um mendigo numa padaria em São Paulo - ao qual, antes, foi negada ajuda - e que, depois, teve seu corpo coberto por um plástico, enquanto a vida no entorno seguia sem atropelos provocou muitos comentários nas redes sociais sobre a falta de generosidade das pessoas. Há que falar sobre isso.  

Frequentemente ouvimos que estamos vivendo o pior dos mundos, que nunca houve gente tão ruim ou descabeçada. Não é verdade. Esse tipo de gente sempre existiu em todos os tempos. Cada tempo tem sua cota de maldade, de terror, de medo. Basta a gente pensar como seria, sendo pobre, trabalhador ou mulher, viver no século 16 ou 17, por exemplo, no Brasil? Ou na Idade Média, na Europa? Ou no Império Romano? Ou em Bagdá, no século III? Ou no Egito antigo? Ou na Mongólia? Ou na China imperial? 

Esse não é o pior dos tempos. É o nosso tempo. E nesse tempo, a tecnologia possível nos permite, inclusive, saber o que acontece em cada canto desse planeta. É o que torna os terrores ainda maiores, porque são mais visíveis. 

E assim como temos de analisar porque nos tempos passados foi possível tanta maldade humana, há que refletir porque hoje é assim. Maldade, indiferença, ódio. Não creio que haja uma explicação antropológica, mas sim uma explicação social. É o tipo de sociedade que existe que faz com essas pessoas possam se expressar e se manifestar. Quais as forças dominam a sociedade em cada época? Esse é o tema. 

Falando sobre o nosso tempo há que observar que o mundo capitalista alfabetiza os seres humanos, desde a tenra idade, para a competição, o individualismo, o egoísmo. Há que vencer o outro. Há que eliminar o outro. Há que disputar. Não se ensina solidariedade, cooperação, empatia. Isso é coisa de um grupo muito pequeno de pessoas que foge da caixa. A regra é olhar para o que está do nosso lado com absoluta indiferença sobre seu destino. Que se lasque. É por isso que a maioria não liga para um mendigo doente, um corpo no chão. Não há ali uma maldade intrínseca. Há um aprendizado social.   

Não sem razão que propostas sociais como o anarquismo e o comunismo são tão combatidas. Porque essas são formas de organizar a sociedade que escapam da lógica de dominação de uma minoria sobre a maioria. São propostas que, demarcadas suas diferenças, tem como elementos centrais a lógica da cooperação. Ou seja, não se compete, a proposta é atuar junto para que todos desfrutem da vida à larga. É justamente por isso que nesse tempo, de capitalismo tardio, a ideia de comunismo precisa ser demonizada. Imaginem as pessoas compreendendo o que seja isso? Imagina viver sem precisar destruir o outro? Viver sem ser explorado? Viver sem fome? Viver com acesso à terra, à moradia? Não. Isso impede a sociedade de avançar, dizem. É coisa do demônio.  

A ideologia obscurece a verdade. A mentira assume o status de verdade. E as pessoas, ensinadas desde o berço, acabam acreditando que se trabalharem muito poderão vencer na vida. E para isso, há que ir derrubando qualquer um que cruze o caminho. A sociedade do mérito, que é uma falácia.  

Então, antes de clamar aos céus sobre o tamanho da maldade no mundo, há que construir escolas de solidariedade, da prática do comum. Escolas não formais, é claro. Mas, escolas na vida, nos bairros, nas igrejas, nos partidos políticos, nos movimentos sociais. Há que alfabetizar para o bem-viver. Isso não brota do nada, muito menos da nossa vontade. É uma prática política. E que não pode ficar relegada a guetos, a ações pontuais. Precisa ser massiva e organizada. Precisa negar o capitalismo. Precisa ser uma força de destruição do que aí está. Não pode ser uma prática de convivência. É de destruição da forma social capitalista. Sem isso, seguiremos com nossas lágrimas. 

A felicidade é uma construção social e coletiva. A felicidade é o horizonte do comum. Não vai existir no capitalismo. Não vai. 


quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Réquiem para Diego


Hoje foi um dia que chorei um bocado. Cada vez que entrava na internet e via algum escrito sobre Diego Maradona. Uma sensação de perda, profunda e dolorida. O Maradona era um cara especial. Um tipo que tendo ficado famoso poderia ter simplesmente vivido sua fama, sua grana, tornando-se um babaca, como tantos que conhecemos. Não é fácil sair da pobreza, conquistar o mundo e não se perder. Diego perdeu-se em muitas coisas. Álcool, drogas, mulheres. Sabe-se lá que dores o atormentavam. Sabe-se lá se foi apenas deslumbramento. O pequenino de Lanus  aproveitou a vida à larga. Teve seus ataques, mostrou sua sombra, expôs os demônios. E ele poderia ter ficado nisso. Mas, não. 

Diego decidiu caminhar pelas estradas conflagradas. De repente, lá estava ele com Fidel, o demônio comunista. Declarava seu amor à Cuba e tatuava-se com a cara do Che, seu irmão geográfico. E amou Chávez, e amou o bolivarianismo, e se misturou com as gentes sofridas desse imenso continente. Diego latino-americano, Diego cubano, venezuelano. E ficou feliz com Mujica, com Lula, com os Kirchner, com Evo. Maradona caminhava pelas nossas estradas, sonhava os sonhos da gente, de uma Pátria Grande, de uma Abya Yala soberana. Diego era parça.

Diego Maradona já era um saco de pancadas pela forma como vivia. Não precisava achar mais motivos para ser demonizado. Mas não se achicou. Mostrou-se na sua inteireza, como um sujeito político, como um homem engajado, e levantou as bandeiras que acreditava serem necessárias para as gentes latino-americanas. Diego foi pura paixão. Pelo futebol, pela Argentina, por Nuestra América. Por isso essa tristeza. Encantou um irmão. Cheio de defeitos, de ambiguidades e contradições, mas absolutamente certo acerca do que deveria amar.

Não é sem razão que hoje choram os amantes do futebol, os argentinos, os cubanos, venezuelanos, bolivianos, uruguaios, equatorianos, colombianos, paraguaios, peruanos, brasileiros, salvadorenhos, guatemaltecos, nicaraguenses, enfim, todos os que aprenderam a amá-lo, em campo e fora dele.

Diego foi um deus do futebol, e poderia ter ficado ali, naquele pedestal inútil de conversinha mole. Mas não, ele desceu, fez-se irmão, parceiro, amigo. Fumava charuto cubano, usava boné com estrela, sapateava na cara dos que apenas o queriam como um macaquinho amestrado.

Diego viveu. Atormentado, sofrido, mas também alegre, pleno, cheio de amor por esse mundo ainda não-visto, ainda não-constituído, mas que caminha em cada um de nós que coloca seu tijolinho na luta pelo mundo novo. esse meio-dia que virá. 

Que as nossas lágrimas lavem todas as suas trapalhadas e que ele possa entrar no céu dos bons, abençoado pela Compadecida de Suassuna. E que lá de cima, com seus parceiros de vida que também já encantaram, sopre segredos para que possamos enfrentar melhor a caminhada.

Gracias, gordo, gracias... por ter escolhido nossa gente em vez de ficar na indiferença.