sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

O cuidado sem remédios, ruim para o cuidador, bom para o velho



A vida da gente é feita de escolhas. Elas definem nosso caminho. Meu pai me chegou há cinco anos com diagnóstico de Alzheimer. Estava fraquinho, não conseguia andar muito menos pegar os talheres para comer. Foi como um furacão em casa, pois tudo teve que começar a ser ajeitado para suas necessidades. Eu nada sabia de Alzheimer ou cuidado com pessoas dementes. Haveria de aprender no corpo-a-corpo com a realidade. Nos primeiros meses foi difícil demais, mas, com o andar da carruagem a gente vai se adaptando.  

A primeira batalha foi com os remédios. Que fazer para segurar as crises de violência, os gritos na madrugada, as alucinações, o desespero da fuga, a insônia permanente? A única coisa que consegui pensar foi em médico e remédio. E fui à luta. Na parceria com o médico começamos a experimentar algumas medicações. Mas, cada remédio dado, pioravam as crises. Houve um dia em que ele quase arrancou o portão da casa, aos gritos de socorro, pela madrugada adentro. Desses remédios que se usam para o Alzheimer, usei todos, mas como piorava eu tirava.  

Até que decidi não transformar mais o meu pai num campo de testes. Escolhi cuidar sem remédio. Iria aguentar as crises apenas no osso do peito. Durante o dia, uma gota de canabidiol, que não é remédio, é vida. E quando a ansiedade ficava muita, um cigarro, dos mais fortes, pois a nicotina, me ensinou um médico, é forte calmante nessas situações. Assim temos caminhado nesses anos.  

Alucinações o pai não tem mais e tampouco crises de violência ou tentativas de fuga. Consegui estabelecer uma rotina durante a noite, com a qual consigo fazer com que ele durma algumas horas. Bom, e qual é preço disso? Cuidado 24 horas. Definitivamente o que substitui os remédios é a presença, a atenção, o cuidado, as coisas que fazemos juntos. O dia inteiro inventando coisas. Isso obviamente cobra um tempo danado da gente, e praticamente toda a vida que a gente tinha deixa de existir - só há um hiato para o trabalho, ainda necessário. De resto, os dias são passados em função dele, pois se a atenção não chega, o bicho pega.  

Entendi que esse caminho é bastante duro para o cuidador porque exige atenção integral, entrega total. É dureza. Não são todos os que podem fazer isso. Algumas pessoas até têm sucesso com a medicação. Mas eu preferi desistir. Como o pai tem saúde de ferro não há sequer outros medicamentos para atrapalhar. O único remédio que ele toma é o da pressão que o médico disse que não é bom parar. Como é só um, fica bem fácil administrar.  

O resultado dessa escolha é ver o pai bem de boa, fazendo suas pequenas loucurinhas como colocar coisas no vaso do banheiro, comer todas as bananas da fruteira, mexericar no armário de comida, espiar no portão conversando com algum amigo imaginário. Ele não fica irritado, não fica violento, não fica ansioso. Só perde a tramontana na hora de trocar de roupa. Não gosta que lhe baixem as calças. Mas, com paciência, tudo dá certo. Também não gosta de banho e o jeito é levar ele para o box, com roupa e tudo e ir molhando devagar. Conforme a roupa vai molhando, ele mesmo vai tirando. É bem engraçado. Lógico que é uma operação demorada, mas temos todo o tempo do mundo. 

Depois, é ficar com ele no alpendre vendo os passarinhos, os gatos, os cachorros, ouvindo música, tomando uma cervejinha. É pesado pra mim, mas essas cenas do cotidiano, valem toda a pena. Como hoje, depois do banho, ele dormitando à sombra, com o gatinho a lhe lamber a mão. Nenhuma rugosidade na sua adorável vida. Só o passar das horas. Por vezes conversamos, bastante tempo, numa língua estranha. Mas, nos entendemos.

Tudo o que eu queria era que as pessoas pudessem ter esse tempo para cuidar de seus velhos. Pois, com certeza, isso lhes dá um final de vida sereno, cheio de alegria e dignidade. Coisa que eles merecem depois de tanta vida de trabalho. Não é fácil, mas, vale a pena. 


quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

O tempo dos maus? Onde estás, felicidade...


A morte de um mendigo numa padaria em São Paulo - ao qual, antes, foi negada ajuda - e que, depois, teve seu corpo coberto por um plástico, enquanto a vida no entorno seguia sem atropelos provocou muitos comentários nas redes sociais sobre a falta de generosidade das pessoas. Há que falar sobre isso.  

Frequentemente ouvimos que estamos vivendo o pior dos mundos, que nunca houve gente tão ruim ou descabeçada. Não é verdade. Esse tipo de gente sempre existiu em todos os tempos. Cada tempo tem sua cota de maldade, de terror, de medo. Basta a gente pensar como seria, sendo pobre, trabalhador ou mulher, viver no século 16 ou 17, por exemplo, no Brasil? Ou na Idade Média, na Europa? Ou no Império Romano? Ou em Bagdá, no século III? Ou no Egito antigo? Ou na Mongólia? Ou na China imperial? 

Esse não é o pior dos tempos. É o nosso tempo. E nesse tempo, a tecnologia possível nos permite, inclusive, saber o que acontece em cada canto desse planeta. É o que torna os terrores ainda maiores, porque são mais visíveis. 

E assim como temos de analisar porque nos tempos passados foi possível tanta maldade humana, há que refletir porque hoje é assim. Maldade, indiferença, ódio. Não creio que haja uma explicação antropológica, mas sim uma explicação social. É o tipo de sociedade que existe que faz com essas pessoas possam se expressar e se manifestar. Quais as forças dominam a sociedade em cada época? Esse é o tema. 

Falando sobre o nosso tempo há que observar que o mundo capitalista alfabetiza os seres humanos, desde a tenra idade, para a competição, o individualismo, o egoísmo. Há que vencer o outro. Há que eliminar o outro. Há que disputar. Não se ensina solidariedade, cooperação, empatia. Isso é coisa de um grupo muito pequeno de pessoas que foge da caixa. A regra é olhar para o que está do nosso lado com absoluta indiferença sobre seu destino. Que se lasque. É por isso que a maioria não liga para um mendigo doente, um corpo no chão. Não há ali uma maldade intrínseca. Há um aprendizado social.   

Não sem razão que propostas sociais como o anarquismo e o comunismo são tão combatidas. Porque essas são formas de organizar a sociedade que escapam da lógica de dominação de uma minoria sobre a maioria. São propostas que, demarcadas suas diferenças, tem como elementos centrais a lógica da cooperação. Ou seja, não se compete, a proposta é atuar junto para que todos desfrutem da vida à larga. É justamente por isso que nesse tempo, de capitalismo tardio, a ideia de comunismo precisa ser demonizada. Imaginem as pessoas compreendendo o que seja isso? Imagina viver sem precisar destruir o outro? Viver sem ser explorado? Viver sem fome? Viver com acesso à terra, à moradia? Não. Isso impede a sociedade de avançar, dizem. É coisa do demônio.  

A ideologia obscurece a verdade. A mentira assume o status de verdade. E as pessoas, ensinadas desde o berço, acabam acreditando que se trabalharem muito poderão vencer na vida. E para isso, há que ir derrubando qualquer um que cruze o caminho. A sociedade do mérito, que é uma falácia.  

Então, antes de clamar aos céus sobre o tamanho da maldade no mundo, há que construir escolas de solidariedade, da prática do comum. Escolas não formais, é claro. Mas, escolas na vida, nos bairros, nas igrejas, nos partidos políticos, nos movimentos sociais. Há que alfabetizar para o bem-viver. Isso não brota do nada, muito menos da nossa vontade. É uma prática política. E que não pode ficar relegada a guetos, a ações pontuais. Precisa ser massiva e organizada. Precisa negar o capitalismo. Precisa ser uma força de destruição do que aí está. Não pode ser uma prática de convivência. É de destruição da forma social capitalista. Sem isso, seguiremos com nossas lágrimas. 

A felicidade é uma construção social e coletiva. A felicidade é o horizonte do comum. Não vai existir no capitalismo. Não vai. 


quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Réquiem para Diego


Hoje foi um dia que chorei um bocado. Cada vez que entrava na internet e via algum escrito sobre Diego Maradona. Uma sensação de perda, profunda e dolorida. O Maradona era um cara especial. Um tipo que tendo ficado famoso poderia ter simplesmente vivido sua fama, sua grana, tornando-se um babaca, como tantos que conhecemos. Não é fácil sair da pobreza, conquistar o mundo e não se perder. Diego perdeu-se em muitas coisas. Álcool, drogas, mulheres. Sabe-se lá que dores o atormentavam. Sabe-se lá se foi apenas deslumbramento. O pequenino de Lanus  aproveitou a vida à larga. Teve seus ataques, mostrou sua sombra, expôs os demônios. E ele poderia ter ficado nisso. Mas, não. 

Diego decidiu caminhar pelas estradas conflagradas. De repente, lá estava ele com Fidel, o demônio comunista. Declarava seu amor à Cuba e tatuava-se com a cara do Che, seu irmão geográfico. E amou Chávez, e amou o bolivarianismo, e se misturou com as gentes sofridas desse imenso continente. Diego latino-americano, Diego cubano, venezuelano. E ficou feliz com Mujica, com Lula, com os Kirchner, com Evo. Maradona caminhava pelas nossas estradas, sonhava os sonhos da gente, de uma Pátria Grande, de uma Abya Yala soberana. Diego era parça.

Diego Maradona já era um saco de pancadas pela forma como vivia. Não precisava achar mais motivos para ser demonizado. Mas não se achicou. Mostrou-se na sua inteireza, como um sujeito político, como um homem engajado, e levantou as bandeiras que acreditava serem necessárias para as gentes latino-americanas. Diego foi pura paixão. Pelo futebol, pela Argentina, por Nuestra América. Por isso essa tristeza. Encantou um irmão. Cheio de defeitos, de ambiguidades e contradições, mas absolutamente certo acerca do que deveria amar.

Não é sem razão que hoje choram os amantes do futebol, os argentinos, os cubanos, venezuelanos, bolivianos, uruguaios, equatorianos, colombianos, paraguaios, peruanos, brasileiros, salvadorenhos, guatemaltecos, nicaraguenses, enfim, todos os que aprenderam a amá-lo, em campo e fora dele.

Diego foi um deus do futebol, e poderia ter ficado ali, naquele pedestal inútil de conversinha mole. Mas não, ele desceu, fez-se irmão, parceiro, amigo. Fumava charuto cubano, usava boné com estrela, sapateava na cara dos que apenas o queriam como um macaquinho amestrado.

Diego viveu. Atormentado, sofrido, mas também alegre, pleno, cheio de amor por esse mundo ainda não-visto, ainda não-constituído, mas que caminha em cada um de nós que coloca seu tijolinho na luta pelo mundo novo. esse meio-dia que virá. 

Que as nossas lágrimas lavem todas as suas trapalhadas e que ele possa entrar no céu dos bons, abençoado pela Compadecida de Suassuna. E que lá de cima, com seus parceiros de vida que também já encantaram, sopre segredos para que possamos enfrentar melhor a caminhada.

Gracias, gordo, gracias... por ter escolhido nossa gente em vez de ficar na indiferença.

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

Os negros e a chibata



Não, não vi o vídeo. Apenas a imagem se repete na minha linha da vida o tempo todo. O homem negro sendo espancado por dois seguranças, enquanto aparentemente uma mulher incentiva. Hoje é o Dia da Consciência Negra e a situação se reveste de especial perversão. É assim aqui, nos Estados Unidos, na Europa, em qualquer lugar. Ser negro é ser alvo. Aqui em Joinville uma mulher, eleita vereadora, também teve a vida ameaçada, porque cometeu a ousadia de ser petista e negra.  

Negro não pode falar alto em nenhum lugar. Porque matam. Negro não pode andar na rua de noite. Porque matam. Negro não pode ter carro bom. Porque matam. Negro não pode olhar feio pra ninguém. Porque matam. Negro não pode se arvorar a ser político. Porque matam. Negro tem que ficar no seu lugar. E que lugar é esse? O da sombra. Negro tem de olhar baixo, tem de ser silencioso, servil. Negro não pode ostentar, nem dar risada alto. Tampouco pode estar na rua depois da meia-noite, nem andar de boné ou de capuz. Negra tem de se comportar, não pode circular em loja chique. Negra tem de se contentar com emprego ruim e aceitar. Essa é nossa sociedade, que é nascida da violência, do estupro e do tráfico negreiro. Hoje, temos na presidência uma criatura abjeta que cristaliza essas práticas, que incita a violência, o estupro, o racismo. Então, os desgraçados acreditam que não tem a menor importância matar, socar, violentar. Fazem tudo à luz do dia, diante das câmeras e postam nos seus perfis. Está tudo permitido. Fazem isso com os negros pobres em maior medida, mas, não se enganem, ninguém está salvo, nem o otário que hoje dirige a Fundação Palmares. Nem ele. Porque ser negro é ser alvo. Essa é uma verdade que ninguém pode negar. Como ultrapassar essa cerca, de ser uma sociedade que mata negros? Como superar essa chaga aberta? Reforma e Revolução. Atuar agora, na luta pela redução de danos, mas também pavimentar o caminho da revolução. Porque é preciso viver agora. É preciso existir sem medo agora. É preciso poder brincar na rua agora, ser vereadora agora, circular nos lugares agora.  

Mas, ainda também é hora de fazer os desgraçados largarem a chibata, como um dia os marinheiros liderados por João Cândido fizeram ao ocuparem o encouraçado Minas Gerais, no Rio de Janeiro. "Nós, marinheiros, cidadãos brasileiros e republicanos, não podemos mais suportar a escravidão na Marinha brasileira... Vossa Excelência tem o prazo de 12 horas para mandar-nos uma resposta satisfatória..." Assim falava já como almirante, o marinheiro comandante da revolta acontecida em 1910, João Cândido, com os canhões apontados para o palácio, no que ficou conhecido como a Revolta da Chibata. Vários navios aderiram. Os negros em luta enquanto na praia, o povo acompanhava, maravilhado, o balé dos navios amotinados. Os negros, armados, definindo sua história e a dos que viriam depois. João, que era um homem viajado, sabia da história do Encouraçado Potenkin, quando os marinheiros russos deram início ao que depois virou a revolução. Ele sabia que era preciso atacar e atacou. Foi vitorioso.  

É fato que depois da revolta o governo matou muitos dos amotinados, prendeu, demitiu, todo o kit básico da resposta do poder. Mas, a chibata nunca mais voltou. É assim que se avança.  

No Brasil, segue sendo necessária a revolta da chibata. Outra vez, outra vez e outra vez. Até que um negro e uma negra possam simplesmente ser em qualquer lugar do país.  

Viva o Dia da Consciência Negra. Uma consciência de revolução! Viva Zumbi, Dandara, Tereza de Benguela, João Cândido, João Gama, Maria Firmina, Carolina de Jesus, e tantos outros.  

Estamos juntos, agora e amanhã.


A vaca emburrada


Tenho a mania de juntar coisinhas, pequenas e singelas lembranças dos lugares por onde andei. Com isso vou enfeitando o que chamo de “altar dos meus afetos”. Pedrinhas, pedaços de pau, bonequinhos, enfim, mimos. Com a doença do pai, eles foram sendo sistematicamente eliminados. Faz parte da agitação do fim de tarde, um desesperado mexe-mexe. Aí, as mãozinhas vão pegando os meus recuerdos e arrancando cabeça,  tirando pedaços. Um a um eles foram desaparecendo. As lembranças vivem apenas na minha cabeça agora. Uma das poucas coisas que ainda conservo à vista é um pequeno altar com meu São Francisco, o quilin (antiga divindade chinesa), e um presépio que fica montado o ano todo porque eu definitivamente amo essa hora do nascimento do meu jesusinho. Nesse presépio, que é bem estranho – com os personagens meio desproporcionais - tem uma vaca, que, por supuesto, devia estar na manjedoura. Ela é gozada, grande demais diante das outras peças - como o camelo que é minúsculo - e tem uma singularidade: a cara da vaca parece emburrada. Virou então uma referência para todos nós na casa. Assim, quando temos de clamar por algum milagre a gente chama: “santa vaca emburrada, rogai por nós”. E ela ajuda. É nossa santinha.  

Pois hoje o pai danou de mexer no presépio e eu meio desesperada porque também não dá pra falar pra não pegar, que aí mesmo é que ele pega. E puxa o são José, e puxa Maria, e pega as ovelhas, e olha o camelo, e muda os reis magos de lugar. E eu só rezando pra ele não pegar a vaca emburrada. Mas, não deu outra. Pegou. E vira pra cá, e vira pra lá. Até que... pimba. Lá se foi a vaca emburrada para o chão. Ai jesuzinho... Já era a minha santinha. Fiquei estaqueada. Esperando. Quando ele finalmente se acalmou e deixou meu presepinho fui ver o que havia restado da vaca, caída embaixo da poltrona. Pois para minha surpresa lá estava ela, intacta. Milagre.  

Essa minha santa vaca emburrada é forte mesmo. Aleluia.



terça-feira, 17 de novembro de 2020

Eleição x Revolução



Como sempre, depois das eleições, a gente acorda meio atordoada. É de lei. A gente entra no processo sem esperança, a gente sabe que as eleições são definidas pelo poder econômico, que há pouca consciência crítica e tal, mas, no andar da carruagem dá aquela animadinha. Quem sabe, dessa vez? Quem sabe, um milagre? Então, a derrota das pautas da esquerda nos traz de volta ao mundo real. 

No campo institucional praticamente não há espaço para as propostas de mudança estrutural. É uma completa ilusão. O conservadorismo é a regra, o sistema se mantém intacto. Algumas pequenas vitórias aqui e ali levantam a moral, mas é só uma musculação da esperança, porque, de fato, mudam muito pouco o estado das coisas. Ser um vereador de esquerda, por exemplo, numa Câmara qualquer, ajuda a denunciar, a inspirar a consciência de classe, a alfabetizar politicamente, mas tem pouca interferência na vida das cidades. Os projetos da direita, que definem as cidades, passam, e ponto final. Há, óbvio, avanços, na medida em que colocam temas que não seriam colocados, mas é tudo. No que é estrutural, os inimigos vencem.

Isso nos leva ao ponto: só uma revolução pode efetivamente colocar o mundo “patas arriba”. Não há outra escapatória. As tentativas institucionais, como na Bolívia, na Venezuela, mostram que as conquistas são poucas e que as reformas estruturais caminham com exasperante lentidão, além de serem sistematicamente atacadas. Já Cuba, que botou a elite reinante pra correr, avançou muito e só não avançou mais porque está bloqueada e isolada no mar do capitalismo. Só que lá houve mudanças na estrutura. E como disse um otário aí, lá eles “só” têm educação, saúde e segurança de qualidade e universal.  Isso não é bolinho. Foi conquistado no braço, revolucionário.

Assim que a ressaca da eleição, esse véu de maya, só aponta um caminho. Esse caminho pode parecer inexistente, nebuloso, inalcançável. Mas, uma olhadinha na história e a gente já percebe que ele pode aparecer assim, do nada, no meio da bruma, nos mostrando que ainda que não tivéssemos percebido, ele estava lá. Daí a necessidade de formar as colunas de combatentes. Preparar e preparar, pois quando o vento dissipar a cortina, temos de estar prontos para caminhar, combater e vencer.

Acordei triste, mas já me animei e tal qual Morgana, a bruxa celta, já estou de pé, na beira do lago, esperando a barca.



domingo, 15 de novembro de 2020

O sistema é bruto



No mundo capitalista o espaço reservado ao pobre é o da servidão. Quem aceita isso vai arrastando a miséria. Quem não aceita, toma porrada. Não há concessões. Passeatas, protestos, manifestações, tudo o que envolver reivindicação, trabalhador, gente pobre, é enfrentado na bala. A polícia não arrega. E nós, no Brasil, tivemos provas bem concretas nos últimos anos, quando as passeatas dos apoiadores do atraso – os riquinhos e a classe média - eram protegidas pela força bruta, e até fotos eram sacadas com os soldados, “amigos da paz”.  

Quando a noite cai, tudo o que acontece nas comunidades de periferia, nas favelas, nos bairros empobrecidos é bandidagem. E a polícia se compraz em entrar atirando. Aqui em Florianópolis, dia desses, mataram um menino de 12 anos. “O que um guri desses estava fazendo na rua a essa hora?”. Meia noite de uma noite quente. Deveria estar no teatro?  Ah, mas era uma comunidade pobre e nela, para a força, tudo que se move, de noite ou de dia, é bandido. E há que combater o tráfico. E quando a comunidade em luto se rebela em protesto, mais balas, mais porrada. Para que o medo siga grande e imobilize. 

Nos beach clubes de Jurerê, praia da elite, a droga rola solta. Mas, lá, não chega a força matando tudo que se move. Não. Lá estão os jovens brancos, sarados, criados a toddy, embriagando-se com champanhe, dando lucro aos bares da moda. Ali tudo é permitido: cocaína, heroína, boa-noite cinderela, estupro, o que for. Nada está fora da lei. Não há pé na porta, não há tiroteio, não há combate ao tráfico. Não. Traficante? Bandido? Esse tem cor e tem endereço certo. Não vou nem falar nos donos reais das drogas, né? Que certamente não são os gurizinhos da favela. Esses não têm aviões, nem salvo condutos presidenciais. Eles são apenas vendedores, um elo fraco da corrente.  

O sistema é bruto e existe para foder com a maioria. Uma pequena parcela dessa gente, luta. Outra parcela, bem grande, aceita a servidão, seja por medo, por desconhecimento, por puro cansaço. Parece que se mantiver a cabeça baixa e aceitar a migalha, poderá viver em paz. Mas, não. Isso é ilusão. Mesmo o que se ajoelha vai ser pego, mais hoje, mais amanhã. Pode estar na rua numa “hora imprópria”, pode ser confundido com alguém, pode ter a cor errada, no lugar errado. Pode estar com a roupa errada ou segurando um guarda-chuva. O sistema não poupa ninguém, se for da classe trabalhadora.  

Então, a única saída é enfrentar o bicho. Na porrada mesmo. No protesto, na manifestação, na batalha nas ruas. Porque quando muitos se juntam contra a minoria, acontecem coisas fabulosas, como a revolução russa ou a revolução cubana. O sistema tem um poderoso braço de propaganda, que engana, que mente, que esconde. Então, a parada é dura, dura mesmo. Mas, há que quebrar esse espelho de mentiras. E mudar as coisas. O sistema é bruto, mas podemos ser mais. O que ocorre é que não há escolhas. Quem luta pode morrer, mas quem não luta também. Então, qual vai ser? Que sejamos capazes do grito dos zapatistas. Já basta!  

Que viva o povo em luta! 

Que nossas noites tragam a primavera.