quinta-feira, 27 de junho de 2019

O remédio do pai


Há mais de mil dias vivemos a mesma cena. Quando o relógio bate as sete da noite eu apareço com o remédio e o copo de água.

- Oi querido. Tá na hora de tomar o remédio.

Ele me olha com os olhos arregalados, na maior surpresa:
- Reméeedio? Que remédio?

- Sim, broto, o remédio da pressão. Tem que tomar agorinha.
- Ah... Então, tá. 

Aí ele estende a mão, confiante, e bota o remédio na boca, engolindo logo em seguida com um pouquinho de água.  E, sem mais delongas, volta a fazer o que estava fazendo, esquecido de mim. Na noite seguinte, se surpreenderá outra vez. 

- Reméeedio? Que remédio?

terça-feira, 25 de junho de 2019

Nenhum ser humano é ilegal


Circula pela rede a triste foto de um homem e uma menina (pai e filha), segundo consta salvadorenhos, mortos, na beira do Rio Bravo, o rio que separa os Estados Unidos do México. Os dois são um número a mais na trágica contabilidade da migração. Todos os dias um corpo boia naquele rio. Mas, essa cena, em particular, é dolorosa porque envolve o corpinho de uma criança de dois ou três anos. Toda a tragicidade de um povo que sai de suas casas, suas cidades, seus países, porque não suporta mais a miséria, a fome, a violência e caminha em direção ao anunciado “eldorado” que são os Estados Unidos. 

Mas, lá, ninguém os quer. É um paradoxo. Porque nos seus países de origem essa gente também é vista como lixo, um atrapalho ao desenvolvimento. Como se sua pobreza não fosse consequência da exploração e da riqueza de uns poucos. 

A foto do pai e filha afogados inundou a rede. Todo mundo compartilha alucinadamente. Mas, ao que parece, fica tudo no reino da sensação. Um espetáculo que logo será substituído por outro espetáculo. A morte como espaço de “likes”. E enquanto isso, as mesmas pessoas que por um dia ou dois ficarão chocadas com a cena são as mesmas que apoiam políticos que odeiam migrantes. É um carrossel de horrores.

Exatamente agora milhões de pessoas se movem no mundo, fugindo da dor e da fome. E em cada canto desse planeta haverá uma criança morta, uma mulher violada, um homem despedaçado. São os fugitivos do capitalismo, as vítimas do capital. Pessoas que se transformam em números, estatísticas. Pessoas que alimentam a grande roda do sistema que come gente. Porque para que um viva bem, outro tem de morrer. 

Essas pessoas em eterna caminhada não são “sensações”. Elas carregam dentro delas um mundo, têm sonhos, histórias, esperanças. Não são números, são criaturas singulares, únicas, que significam algo par alguém. 

Suas mortes na montanha, no rio, no cárcere, não podem servir para alimentar o reino das sensações ou as curtidas no livro das caras. Elas devem servir como espelho para que enxerguemos nossa própria tragédia como humanidade, ainda incapaz de constituir um tempo de riquezas repartidas e de bem viver para todos. Um tempo que precisa chegar, antes que seja tarde para todos nós. 

Andar pelo mundo deveria ser uma escolha e não a única alternativa para seguir vivo. 

Que se acabem as fronteiras. Nenhum ser humano é ilegal!


terça-feira, 18 de junho de 2019

Brasil: mais uma sacudida no governo Bolsonaro



No ano passado, quando o Brasil viveu o processo eleitoral, não faltaram denúncias sobre as manobras realizadas pelo juiz Sérgio Moro, visando impedir a candidatura de Luís Inácio Lula da Silva, somando-se assim ao mosaico que estava se desenhando com o crescimento da candidatura de Jair Bolsonaro, até então um azarão. Durante todo o processo que culminou, finalmente, com a prisão de Lula, acusado de ter recebido propina e com ela comprado um apartamento pobrinho, a mídia não comercial apontou os equívocos, os erros, a irregularidades. Mas, nada foi levado em conta. Tudo seguiu seu rumo, dentro daquilo que o então senador Romero Jucá dizia que era o acordo “com o Supremo, com tudo”. Sem o Lula na parada, e com o discurso frouxo da esquerda, o caminho ficou aberto para a ascensão da direita ultraliberal que se apresentava como antissistema.

O jogo seguiu, as eleições aconteceram e Jair Bolsonaro venceu.  O projeto que recebeu o respaldo das urnas foi o de destruição total de tudo o que significasse ganho à maioria da população. E, tão logo iniciou o mandato, Bolsonaro chamou para Ministro da Justiça, justamente o juiz que levara Lula à prisão. Não bastasse isso, pouco depois já anunciou que ele era o nome a ser brevemente indicado ao Supremo Tribunal Federal. E, da mesma forma que no processo eleitoral, tudo isso foi visto pela mídia comercial como bastante normal.

As denúncias feitas durante o processo eleitoral ficaram sempre no vazio e, aparentemente ninguém se preocupou em investigar a fundo cada uma delas. Agora, nas últimas semanas, uma série de reportagens divulgadas pelo jornal Intecept traz as provas de tudo aquilo que, antes, parecia ser só a choradeira dos derrotados. A relação entre o juiz do caso Lula e o procurador, com conversas sistemáticas sobre o processo, inclusive com o juiz indicando caminhos até para a divulgação na imprensa, seria um escândalo brutal em qualquer lugar do mundo. Mas, no Brasil, não. 

Imediatamente à divulgação das conversas, que vazaram provavelmente a partir de alguém de dentro do esquema, tudo o que se viu na imprensa comercial foi a tentativa de criminalizar o jornalista e a fonte. Começou uma caça ao suposto “hacker” que conseguiu as gravações e até a Rússia entrou na conversa, visto que os diálogos vazados tinham sido praticados no Telegram, um sistema russo de mensagens. Ler os jornais brasileiros, desde então, é quase como estar metido dentro de uma série cômica dos tempos da “guerra fria”, como a do Agente 86, que via russos em todo o lugar. Seria realmente risível se não fosse trágico. 

Há uma tragicidade no campo do jornalismo, visto que as reportagens de TV e jornal são assustadoramente vazias, revestidas da absurda defesa de que se pode cometer um crime se for para combater um crime. Então, se Moro descumpriu a lei pra prender um corrupto, no caso, Lula, aí pode. Poucos se perguntam sobre qual a legitimidade que tem um juiz de decidir sobre quando pode ou não pode burlar a lei. Se for assim, para que existe a lei? Não. Não há qualquer resquício de inteligência ou de pensamento crítico no jornalismo tradicional nacional. 

E há também a tragicidade no campo da vida mesma. Porque justamente os meios de comunicação de massa respaldam firmemente a ideia de que o juiz Moro agiu mal para defender o bem. E pronto. Acabou. Entre os apoiadores do presidente, que seguem cegos diante de qualquer crítica, quem tem de ser preso é o jornalista que divulgou as conversas, porque, esse sim, quer o mal do Brasil. E nas redes sociais se formam as torcidas organizadas, do Bolsonaro, do Lula, do Intercept. 

Enquanto isso o presidente vai editando medidas provisórias, decretos e propondo leis que acabam com o país e colocam os trabalhadores numa fria sem tamanho. O Congresso Nacional faz o seu velho jogo, apertando o cerco para tirar benesses e punindo o governo quando não é atendido. Um jogo entre os poderosos, no qual a maioria só fica de assistente. 

Mas, lentamente os trabalhadores vão constituindo lutas, ora singulares, em greves pontuais, ora mais universalistas, como a greve geral do dia 14 de junho que mobilizou mais de 45 milhões de pessoas. E, timidamente, vão surgindo reações como a da Ordem dos Advogados do Brasil, que está exigindo a saída de Moro e do procurador Dallagnol dos seus cargos. Na última semana, os jornalões paulistas Folha e O Estado de São Paulo, em seus editoriais, apontam que a relação estabelecida por Moro com Dallagnol é mesmo uma ilegalidade. Para a direita tradicional, é fundamental que os tribunais possam ser reconhecidos como “legítimos”, sob pena de esfacelamento total das instituições, então, a única saída é fritar o juiz, que já serviu aos interesses. 

Resta saber quais as implicações de um possível desembarque de Sérgio Moro do governo. Terá força para empurrar outras denúncias contra o governo Bolsonaro ou servirá apenas para esquentar a campanha do Lula Livre? Ainda há muita água para correr sob a ponte. Mas as forças políticas se movimentam e tudo pode acontecer. 

domingo, 16 de junho de 2019

A Maria Fumaça

A Maria Fumaça

O minuano

A estação de São Borja

Corriam os anos 1960, finalzinho já. Meu pai ainda não tinha comprado seu primeiro carro, que foi um fusca branco, e só chegou em 1972. Então, a única maneira de viajar para Uruguaiana, onde íamos ver os avós, era de trem. Quando o pai avisava sobre a viagem, o mundo vibrava em mim. A viagem era alguma coisa mágica, indescritível e, hoje, penso que vem daí essa minha fome por horizontes. 

Chegar à estação era como descortinar outro mundo. Nos trilhos, fumegava a Maria Fumaça, negra como a noite, com suas bolas de fumaça ora brancas, ora pretas, e nos embalaria por horas a fio naquele tranquito familiar, troc, troc, troc, nos trilhos. Pela janela passavam os campos sem fim e, neles, as emas, com sua correria louca, tentando vencer o trem. E a gente passava de vagão em vagão, imitando as emas, no saltitar. Era uma festa. Lembro que meu coração parecia bater no mesmo compasso que a enorme Maria Fumaça e curiosa, me postava no caminho dos homens que enchiam sua boca enorme de carvão. Era uma aventura épica.

Quando vieram os anos 1970, a Maria Fumaça deu lugar ao Minuano, um trem moderno, construído lá na Alemanha. A enorme máquina vermelha já não comia carvão, era movida à diesel. A magia da viagem já não era a mesma. Lembro que toda a gente saudou a chegada do Minuano, pois a viagem ficaria mais rápida. Eu chorei. Desde pequena avessa ao progresso. E na primeira viagem que fizemos no novo trem o meu coração já batia no descompasso. Sem a fumaça, sem os homens do carvão, sem o troc, troc, troc, até as emas pareciam desencantadas. Eu também perdi o gosto. 

Pouco tempo depois o pai comprou o fusquinha e nossas viagens passaram a ser de carro. Outras miradas, outras paisagens se descortinavam. Mas, quando chegava à ponte do Rio Ibicuí, meu coração sangrava. Ali permanecia intacta a imagem da velha Maria Fumaça, fosse na enorme armação de ferro, ou nos trilhos que ainda riscavam toda a extensão da ponte. E da janela do fusca eu quase podia ver a velha máquina gigante e negra, fumegando desesperada enquanto sacudia a velha estrutura sobre o meu rio do coração. 

Hoje já não há mais nem mesmo o Minuano e nas quebradas da fronteira poucas são as pegadas da velha ferrovia. Mas, mesmo assim, a Maria Fumaça ainda assombra minhas noites, quando seu apito me desperta, chamando para o embarque. Viajar, descortinar paisagens, encontrar as gentes e as histórias. Ah, que incríveis universos paralelos naqueles trilhos que cruzavam a pradaria, os campos sem fim da pampa. Maria Fumaça, companheira rumorosa das aventuras que começaram dentro do seu corpo agigantado e nunca mais se perderam de mim. 

segunda-feira, 10 de junho de 2019

O mundo livre



Nos Estados Unidos um professor universitário está sendo processado pelo estado por ter oferecido água, comida, roupa limpa e uma cama a alguns migrantes na cidade de Ajo, estado do Arizona. Para o governo, Scott Warren cometeu crime ao ajudar as pessoas e pode pegar até 20 anos de prisão. Segundo a organização "No more Deaths" (Não mais mortes), que dá apoio aos migrantes na região, nos últimos 15 anos mais de três mil pessoas encontraram a morte no deserto do Arizona, tentando chegar aos Estados Unidos, atraídas pela promessa de "oportunidades". Warren, que é professor na Universidade do Arizona e ativista dos Direitos Humanos, foi preso em janeiro de 2017, quando a polícia fez um arrastão nos acampamentos das organizações humanitárias e o encontrou, ajudando a dois migrantes. Em todo o país, organizações de direitos humanos se movem para impedir a condenação de Scott, coisa que pode abrir um precedente gravíssimo no país. No chamado mundo livre, solidariedade humana é crime.

Jornalismo e parcialidade




O jornalista Mauro Santayana, no fantástico livro "Repórteres" organizado por Audálio Dantas conta que certa feita, fazia uma matéria sobre figuras importantes da cidade e, com medo de ser parcial, contra eles, consultou um colega de jornal, o José Calazans Filho, que o aconselhou: "Se você não conseguir ter uma visão muito clara da situação e não tiver tempo para investigar a fundo, fique com a parte mais débil. A injustiça contra o forte, mesmo que detestável, como toda a injustiça, é melhor do que a injustiça contra o fraco. O forte consegue restabelecer a verdade e recuperar a credibilidade. O pobre, ao perder a reputação, desgraça-se para sempre". Essa lição dada a Mauro tomei para mim. Sempre do lado do mais fraco. Sempre. Mesmo na dúvida, sempre com o mais fraco.

quinta-feira, 23 de maio de 2019

Por um sindicato de luta, outra vez!


Essa foto mostra um momento de grande alegria. Foi em 1997, na posse como diretora do Sintufsc. Nosso sindicato andava mal das pernas e o grupo do Movimento Alternativa Independente (MAI) se mobilizou para recuperá-lo. Foi um trabalho bonito de visitas nos setores, discussão e construção de propostas. Eu tinha chegado à UFSC em 1994, tinha apenas três anos de casa, mas logo já fui percebendo quem realmente queria lutar pelos trabalhadores, sem outros interesses por trás. E, já nas primeiras assembleias vi que o caminho era o MAI.

Fui acolhida com muito carinho pelo grupo que contava com figuras importantes no processo de construção do sindicato dos trabalhadores desde os anos 1980: Silva, Maneca, Helena, Ângela, Moisés, Valcionir, Parú, Silvana, Aldo, Sebastião, enfim, um grupo de gente guerreira, capaz de comandar as lutas que precisavam ser feitas naqueles tempos do privatista e neoliberal Fernando Henrique Cardoso. Tivemos uma eleição bem disputada, contra toda a máquina da reitoria, que sabe muito bem como “atrair” os eleitores. Vencemos.

Pegamos o sindicato com uma dívida de 500 mil reais e, em um ano, com muito trabalho e criatividade, zeramos a dívida, conduzindo o sindicato para o caminho da luta. Foram lindos anos. Lembro-me desses momentos sempre com muita ternura, porque ali, no Sintufsc, encontrei aqueles e aquelas que iriam tornar-se grandes amigos, amigos da vida, para sempre. E aprendi preciosas lições sobre solidariedade, humildade, justiça e capacidade de luta.

Depois de alguns anos, e já no governo petista, perdemos o sindicato. Foi um período muito turbulento, pois a esquerda dividiu-se entre os que apoiavam incondicionalmente o governo e os que acreditavam que precisavam seguir independentes e em luta. Nesse processo, nos dividimos. Foi ruim porque o grupo que assumiu o sindicato iria seguir o caminho da acomodação, como a maioria. E nesses anos todos, poucas lutas reais foram encaminhadas. Chegamos ao cúmulo de ver uma greve histórica, a greve interna das 30 horas, ser derrubada pelo próprio sindicato numa assembleia dramática, na qual os colegas aposentados foram recrutados e terminaram a greve por nós. Impossível esquecer isso.

Agora, estamos de novo com um bom grupo de trabalhadores querendo trabalhar e lutar. Gente nova misturada com gente mais experiente nas lutas. Todos querendo um sindicato de luta, outra vez. A sorte está lançada. Disputarão duas chapas: a Chapa 1, que é a nossa, chama-se TAEs Unidos – Juntos somos mais fortes. E a chapa 2, que é a que representa o continuísmo.

Os trabalhadores sabem muito bem que esse é um tempo de grandes batalhas. Tudo está ameaçado, inclusive a universidade. Por isso não é hora de vacilar. Peço a todos o voto na Chapa 1, a qual tenho a honra de integrar. Porque eu acredito nessa rapaziada, nessa gente cheia de vida e de vontade de construir um sindicato capaz de encaminhar as peleias que virão.

É hora de mudar. Chapa 1 – TAEs Unidos.