segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Três anos do Circo da Dona Bilica









Fotos: Rubens Lopes

Quem vive no sul da ilha celebrou nesse final de semana os três anos da presença do Circo da Dona Bilica, uma proposta cultural que vem se constituindo, dia após dia, no esforço gigantesco da atriz Vanderléia Will e de Dom Pepe. Juntos, eles sonharam com a montagem de um circo, que pudesse abrigar o teatro, a música, a arte da palhaçaria e a gastronomia. Não é coisa fácil fazer acontecer um teatro, com programação diária, numa cidade que historicamente não investe na cultura. Ainda assim, o circo caminha, vitorioso, e num bairro afastado do centro.

Nesse domingo, dia dos pais, toda a equipe vibrou na comemoração dos três anos. Data para festejar mesmo, já que o teatro segue firme, com programação variada e de qualidade. No espetáculo da tarde, “Dona Bilica e o boi-de-mamão”, foi impossível não se emocionar. Primeiro, com a personagem, essa mulher encantadora que conjuga toda a beleza da típica ilhoa, com seu falar aligeirado, suas roupas delicadas, seu cabelo besuntado de banha, seu chinelinho de crochê e sua bolsinha de mão. Dona Bilica é a alma feiticeira do povo dessa linda Meiembipe.

Não bastasse ela, que por si só é um show, Vanderléia também introduz no espetáculo outros aspectos da cultura da ilha. A arte da olaria, mostrada ao vivo, com peças de cerâmica sendo produzidas no palco pela oleira Tânia, as histórias de bruxa, as benzeduras, as cantigas de Ratoeira, os bichos e cantorias do boi de mamão. O tempo passa e a gente nem vê, mergulhado na delicadeza dos tempos que vão longe e que não voltam mais. Como é bom ver as coisas dessa nossa terra celebradas, lembradas e cultivadas.  

Quem ama Florianópolis automaticamente ama Vanderléia e seus personagens. Porque eles são a representação dos elementos mais genuínos desse lugar de encantos. E nós, que moramos no sul da ilha, somos privilegiados por podermos, em qualquer dia, compartilhar dessas belezas.

Nesse domingo depois de muitas risadas e cantorias de boi, o Circo da Dona Bilica dividiu com a plateia o bolo de aniversário. Toda gente cantou os parabéns e festejou esse feito de resistência cultural. Nós, que amamos esse sul e essa ilha, saímos do circo embargados de emoção. Sempre é uma aventura amorosa ver a Dona Bilica. Sempre é uma alegria ver Vanderléia atuando.

Parabéns ao circo, parabéns a todos os artistas que mantêm acesa essa chama da cultura da ilha. E obrigada Vanderléia, por tudo que fazes por essa nossa velha e amada cidade!

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

SINTUFSC – segue o coronelismo



A chapa 2, que representa a situação, venceu as eleições no Sindicato dos Trabalhadores da UFSC:  592 a 441. Serão mais três anos de conservadorismo e esvaziamento das lutas. Muitas festas, prêmios, brindes e viagens com diárias gordas. A velha prática coronelista.

Mas, apesar do resultado que determina a vitória do continuísmo, a campanha eleitoral apresentou uma novidade. A juventude da UFSC despertou e está de pé. Essa nova geração de trabalhadores que chegou nos últimos cinco anos compreendeu que a vida de todos passa pela ação coletiva e colocou o pé na realidade da UFSC.

Durante a campanha, quando percorreram cada cantinho da universidade, puderam perceber o quanto os trabalhadores estão desmotivados, descontentes e sem esperanças na luta sindical. Tanto que a maioria dos novos colegas não está filiada e tampouco quer estar filiada num sindicato que não os representa.

Ou seja, a UFSC não está descolada da realidade brasileira. De fato, nos últimos 15 anos, o sindicalismo passou por fases bem demarcadas:  domesticação, cooptação e guinada para a direita.

Como já ensinou o velho Marx, qualquer análise dos fatos precisa ser precedida com uma mirada firme na vida concreta, na realidade. E o que nos diz a realidade na UFSC?

A categoria dos técnico-administrativos configura a chamada classe-média, este estamento da classe trabalhadora que sempre funciona como um fiel de balança, ora pendendo para a esquerda,   ora para a direita, sempre levando em conta seus interesses particulares.

A universidade passou muito tempo sem concurso público, então a categoria envelheceu sem vivenciar a oxigenação necessária do trabalho conjunto com uma nova geração.

Os concursos só voltaram na era Lula e num contexto de crescimento econômico. A maioria dos novos concursados entraram na UFSC apenas como um degrau para novos concursos, em categorias mais rentáveis. Então, boa parte dos trabalhadores não se identificava com a universidade ou as lutas coletivas corporativas. Estavam de olho em outros mundos. Sindicalizar-se não fazia parte dos planos porque a qualquer momento o trabalhador ou a trabalhadora estaria saindo para novos lugares.

No segundo governo Dilma, o espetáculo do crescimento acabou. A crise econômica mundial alcançou o Brasil e, com ela, também a possibilidade dos voos para novas funções. Os concursos públicos escassearam e, com o novo governo golpista, a tendência é acabar com tudo isso.

Então, quem conseguiu seu emprego público terá que se conformar com ele. Haverá pouca margem de manobra para migrar para outras categorias, mais bem remuneradas. Logo, a nova geração que agora vive sua vida laboral na UFSC terá de assentar a cabeça e vivenciar a dor e a delícia de ser um trabalhador da universidade. Não haverá saída.

Talvez por isso mesmo a oposição tenha avançado tanto. Nas últimas eleições para o SINTUFSC, quando o grupo de oposição ainda era formado pela velha geração - na maioria – a disputa foi menos acirrada. Os trabalhadores técnico-administrativos da UFSC eram os mesmos de sempre e não houve engajamento da nova geração, que preferiu trilhar o caminho da ação administrativa no conhecido Grupo Reorganiza, esperançosos de que a nova reitora – recém eleita e do campo da esquerda – haveria de encaminhar as resoluções que visavam a implantação das 30 horas.

A história mostrou que os avanços dos trabalhadores nunca aconteceram na paz. Sempre foi preciso muita luta e sacrifício para que as demandas fossem atendidas e as vitórias só são garantidas com batalhas duras, por vezes cruéis.

Os novos tempos da política e o mergulho na realidade mostrou a essa nova geração que o caminho coletivo tinha de se dar pelo sindicato, ainda um instrumento importante na luta dos trabalhadores.

Mas, como vencer as eleições do sindicato se a maioria dos novos trabalhadores não está sindicalizada? Ou seja, os votos potenciais não poderiam ser dados. Então, começou o trabalho de organização interna. Um trabalho de formiguinha, que precisa de tempo. Recuperar  o sentido do sindicato não é coisa fácil num tempo em que as pessoas estão tão distraídas caçando pokemons e postando no facebook.

Só que, como diz Marx, a realidade é o único elemento que suleia a ação humana. E essa realidade vem e pega todo mundo pelo pé. Ainda que sejam caçados milhares de pokemons, hora virá que os trabalhadores terão de enfrentar o achatamento salarial, a perda de direitos históricos, a superexploração, a dificuldade para encerrar o mês. Então, não haverá outra coisa a fazer senão lutar.

O caminho trilhado por essa nova geração de lutadores da base do Sintufsc é um caminho sem volta. 

Quem acompanhou a energia e a força de pessoas como a Brenda, o Luiz Artur, a Marina, a Dalânea, o Hélio, o Bruno, o Rodrigo, a Carla, a Selma, a Camila, o Jorge, o João Henrique, o Renato, a Simone, o Luciano, a Marilene, a Marina, o Fernando, a Cristina e o Eduardo, sabe: essa é uma gente que não vai mais ficar quieta, com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar. Não! Esse é um pessoal que vai seguir lutando, construindo a base para um novo sindicalismo.

A chapa vencedora – que representa o conservadorismo, o autoritarismo, o coronelismo, as práticas nefastas da direita –  recebeu 592 votos dos mais de três mil trabalhadores. Há um universo imenso de colegas para ser navegado, para além dos 441 que já confiaram e acreditaram nesse grupo novo, de TAEs LIVRES. Há sim o bonde dos descontentes que ficarão ainda mais descontentes com o passar do tempo. Porque a realidade virá cobrar pedágio e será essa mesma realidade a que empurrará esse povo todo na direção da luta, porque não haverá outra saída. Então, a ação coletiva será diferente.

Claro, há que ter paciência histórica. Como teve Marx, indo para a biblioteca de Londres. Nossos companheiros e companheiras que tão lindamente percorreram as veredas da UFSC para anunciar seus desejos de luta sabem que é o trabalho cotidiano que muda o mundo. E não ficarão parados.

Todos nós, velhos e novos, que temos consciência de classe sabemos que é a luta renhida que faz avançar os direitos e as conquistas dos trabalhadores. E estaremos de pé. Juntos, unidos. Com risos, com estudo, com debates, com lágrimas, com esperanças, fazendo o bom combate.

Nesse dia 10 de agosto nós oferecemos aos trabalhadores da UFSC uma alternativa: guerreira, alegre, consciente. E seguiremos, porque somos assim, forjados na certeza de que a luta coletiva é o único caminho para a emancipação dos trabalhadores.

Agradecemos a todos os que confiram na Chapa 1 e reafirmamos o compromisso de não esmorecer. Porque a luta não se esgota numa eleição.




quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Senado brasileiro ratifica o golpe



Enquanto a nação brasileira assistia aos jogos das Olimpíadas, o Senado nacional aprovava, por 59 votos a 21, na madrugada desta quarta-feira (10), o prosseguimento do processo de impedimento da presidenta Dilma Rousseff. Com essa decisão ela se torna ré no processo e passará por julgamento. 

A sessão que definiu a continuidade do impedimento durou 17 horas e foi comandada pelo presidente do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski. Segundo a maioria dos senadores existem provas suficientes contra Dilma em pelo menos quatro atos que eles consideram crimes: a publicação de três decretos que ampliaram a previsão de gastos no Orçamento sem autorização do Congresso Nacional e as chamadas pedaladas fiscais no Plano Safra, programa de empréstimos rurais executado pelo Banco do Brasil.

Com a terceira etapa do processo deverão ser marcadas as sessões de julgamento, a começar depois do dia 23 de agosto. 

Na última sessão serão necessários 54 votos para afastar Dilma definitivamente. A considerar a votação dessa terça-feira, pouca coisa deverá mudar. Mesmo com manifestações acontecendo em todo o Brasil, a câmara alta brasileira fez ouvidos moucos. 

O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), digno representante do murismo, não apresentou seu voto.

domingo, 7 de agosto de 2016

Palavras sobre a liberdade


Foto: G1 - exército simula exercício contra o terrorismo

Nós já vivemos um tempo em que liberdade era só uma palavra escrita num muro, sempre às escondidas, porque dizê-la era perder-se.  Hoje, em meio a um governo interino, garantido a partir de um golpe parlamentar/judiciário/midiático voltamos aos tempos duros. Expressar-se virou caso de polícia e até partidos políticos estão ameaçados de cassação. Não um partido qualquer, é claro. A guerra da classe dominante contra o PT parece que vai até as últimas consequências.

O pedido de cassação de registro do PT, feito pelo ministro Gilmar Mendes, presidente do STF, é o exemplo mais acabado do processo de cerceamento das liberdades que estamos vivenciando no Brasil.

E no dia 28 de julho, a PM do Rio de Janeiro cercou a sede do Partido Comunista Brasileiro, sob a alegação de que estava “monitorando” as atividades que ali eram realizadas, a saber, um debate sobre segurança pública. Que palavras para descrever isso?

Assim que o ataque contra os partidos de esquerda vem sendo sistemático desde o golpe. E ainda há quem diga que não houve o malfadado. Tudo isso já foi vivido antes, na década de 60 do século passado, quando os Atos Institucionais dos governos militares foram cortando a voz e a vida de milhares de brasileiros.

Nesses dias de mega festa olímpica também se repetem os atos de censura e cerceamento de liberdade, quando pessoas são impedidas de expressarem seu descontentamento.

Uma olhada rápida no que aconteceu durante a Copa do Mundo, quando a então presidente Dilma foi xingada das formas mais violentas, e já se pode ver a diferença. Naqueles dias, as pessoas - vestidas de verde e amarelo – expressaram todo o seu ódio sem qualquer constrangimento. Por que motivo, os descontentes de agora não poderiam expressar?

A única explicação possível é essa: a liberdade está sendo “monitorada” e só vale para alguns, de preferência os amigos do rei.  

É fato que mesmo na democracia liberal burguesa a liberdade também anda enclausurada e é seletiva. Basta ver como o poder age contra os empobrecidos, os negros, as mulheres que lutam, os índios, os trabalhadores que reivindicam. É fato que mesmo durante o governo petista vivenciamos toda a dureza que é ser “de baixo”. Foi assim nos preparativos para a Copa, com comunidades inteiras sendo destruídas, famílias desalojadas, manifestantes reprimidos.

Mas, nos dias que correm o jogo de poder entre os de cima esparrama a violência para outras camadas da sociedade, e assim vai fortalecendo o medo, fechando bocas, eliminando os diferentes. Vai ficando pior.

Não bastasse isso, os que agora assaltam o poder inculcam a violência e o ressentimento permitindo que seus partidários – e apenas eles  - expressem livremente atitudes violentas e fascistas. Pessoas são agredidas por serem deste ou daquele partido de esquerda, casas religiosas são destruídas por não se enquadrarem na lógica cristã. Vive-se um jogo de vale-tudo, mas só para os amigos. Aos inimigos, a lei.

A democracia nunca foi o sistema perfeito, ainda que a democracia participativa tenha avançado muito na construção de outro tipo de sociedade. Mas, enquanto não se vivencia outro sistema - no qual todos tenham voz e vez  - não temos o direito de retroceder. Já vai longe o tempo em que um homem ou uma mulher vivenciava as mais terríveis torturas por reivindicar um mundo melhor para viver, por dizer uma palavra crítica, por expor as mazelas do poder. Vai longe e não pode voltar.

Essa coisa de democracia e liberdade é sonho, é utopia, mas é também uma construção histórica dos povos em luta. Não vem só pelo desejo ou pela vontade. Tem de ser pavimentada pelo povo em luta. E tem de ser também pensada como comunidade, como nós. Não é só o sentimento individual, é a realidade de um povo inteiro, junto.

É doloroso ver tanta gente que conhecemos e temos no nosso seio de amizade ou família, vibrar com a violência que se abate sobre pessoas que tem outra forma de pensar. Dói, mas não deve nos imobilizar. Há que resistir e lutar. O processo de participação da vida da cidade, do estado e do país só vai vingar se a gente compreender o que se esconde por trás dos cenários montados pela mídia e pelos donos do poder. Desvelar a realidade, conhecer a essência dos fenômenos, compreender como se dão as relações no sistema capitalista, isso ajuda.

Não se trata de relações entre pessoas, mas sim da relação entre o trabalhador e o patrão, o camponês e o distribuidor, entre políticos e povo. Tirar o véu que encobre essa relações, entender os mecanismos de poder que elas contêm é fundamental  para que possamos definir os rumos que queremos seguir.

É certo que muita gente que conhecemos vai querer seguir o viés do autoritarismo,  do ódio ao diferente, do medo da mudança. Mas, nosso papel é seguir.

Hoje, vimos a polícia abordar, prender e cercear o direito de se expressar nos estádios. Amanhã será dentro dos partidos, dentro das universidades, dentro de casa, nas redes.  É isso que faz um governo totalitário. É essa serpente que estamos vendo crescer e se fortalecer. Já foi assim em Honduras e no Paraguai. 

Temos escolhas. Ou alimentamos o monstro, ou alimentamos a proposta de uma vida de liberdade. Que vai ser?



sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Do jornalismo







Parte do grupo do Coletivo de Jornalistas Sindicais Vitto Gianotti.





Enquanto alguns caçam pokemons e outros se entregam à confortante mediocridade, pessoas há que se inquietam, pensam e resistem. Foi o que vimos nessa quinta-feira, no lançamento do Coletivo de Jornalistas Sindicais Vitto Gianotti, em Florianópolis. Confrontados com as dificuldades de praticar o jornalismo no cotidiano sindical, com as sempre apocalípticas ideias de fim do jornalismo, com a completa ausência de discussão e debate sobre o tema na categoria, um grupo de jornalistas que atua nas entidades sindicais começou a se organizar por conta própria.

Já se vão quatro anos da criação de um Fórum de Comunicação da Classe Trabalhadora, quando então foi dado o ponta pé inicial no debate das angústias dos jornalistas que trabalham em sindicatos.  O auge vivido pelo movimento sindical nos anos 80 e 90 do século passado já tinham se extinguido, e o que restava era a domesticação das entidades, dirigentes acomodados ou cooptados. Como então fazer jornalismo nas entidades que viviam esse marasmo? Como enfrentar a demanda gerada pelas novas tecnologias? Como operar nessa zona nebulosa entre a propaganda, a agitação e o jornalismo? Como alargar a margem de manobra entre o que quer a direção conservadora e a prática de um jornalismo libertador?

Tudo isso foi sendo expresso e debatido nos seminários que se seguiram ao lançamento do Fórum. Jornalistas de todo o Brasil vieram para Florianópolis por três anos seguidos para discutir essas temáticas e conhecer experiências brasileiras e latino-americanas de resistência e avanços comunicacionais.

Esse acúmulo de reflexão foi gerando seus frutos. Solitários nas salas de imprensa dos sindicatos, os e as jornalistas fortaleceram a ideia de que as angústias do seu fazer só poderiam ser dissipadas se atuassem em comunhão. No sindicato da categoria não encontraram essa possibilidade, então, passaram a articular a criação do coletivo de maneira autônoma. Os encontros anuais serviram como gás a inflar o balão dos desejos de estudar e enfrentar os desafios. Então, nasceu o coletivo.

Na noite fresca do inverno do sul, entre barulhos de um bar, sob a inspiração de um velho companheiro - Vitto – um grupo de jornalistas assumiu o compromisso de manter acesa a chama do jornalismo. O jornalismo como forma de conhecimento, o jornalismo libertador, o jornalismo que caminha do singular para o universal, desalienando a classe trabalhadora.

Como bem já apontou Adelmo Genro Filho, tanto a direita como a esquerda pode fazer um jornalismo manipulador. Mas, há formas de se praticar o jornalismo de maneira que o leitor/ouvinte/espectador possa ele mesmo formar opinião e compreender a totalidade do fenômeno. Isso se faz escrevendo de tal forma que um fato singular (o plano de carreira, por exemplo) ultrapasse a particularidade (a categoria específica) e alcance a universalidade (a classe trabalhadora como um todo). É certo que fazer jornalismo assim, expresso como forma de conhecimento, não é coisa fácil. Exige estudo, leituras, comprometimento. Esse é então o desafio.

Como furar a barreira da comunicação de propaganda que muitas direções sindicais insistem em manter?

O primeiro segredo é entender que o jornalismo por si só não faz a revolução. Quem faz as mudanças é o povo em luta. Assim, sem uma direção revolucionária, não há como narrar a revolução. Simón Bolívar, quando iniciou sua saga libertadora na América Latina, a primeira coisa que fez foi comprar uma prensa que levava amarrada no lombo do seu cavalo. Ele travava as batalhas e escrevia sobre elas, fomentando – também com a palavra  - a rebeldia contra os espanhóis. Ou seja: primeiro as lutas, depois a narrativa.  Logo, se o jornalista está mergulhado numa realidade conservadora, o que ele pode fazer é ir, devagarinho, alargando a margem de manobra entre a produção de uma comunicação “chapa-branca” – como querem os dirigentes - e um jornalismo como forma de conhecimento, como tem de ser. É um trabalho que exige paciência histórica.

Em segundo lugar é necessário compreender que o sindicato também é um espaço onde se deve praticar a agitação e a propaganda, como muito bem já ensinou Lênin. Esse é um trabalho fundamental nos momentos cruciais da luta dos trabalhadores. Então, há aí uma especificidade da comunicação dentro dos sindicatos que precisa ser assimilada, sem que se tenha de abrir mão do jornalismo. As coisas podem ser feitas simultaneamente. Não há razão, então, para angústias.  Só há espaço para um trabalho bem feito na construção da consciência de classe.

O jornalista que trabalha em sindicato está caminhando no fio da navalha. Precisa atender á direção, mas também precisa atender a base. Uma base que é heterogênea, plural e que está acostumada com uma comunicação singularizada ao extremo, sem universalidade. Por isso muitas vezes não entende porque o jornalista está escrevendo sobre a guerra na Síria. “O que isso tem a ver com a minha vida? Quero saber é se vai sair a minha ação”. Conseguir criar esse hábito, de compreender as ligações entre a realidade mundial e o cotidiano é o grande desafio do jornalista.

Outras tantas angústias e dores cotidianas, como o assédio moral, o medo de perder o emprego e a violência no ambiente de trabalho estão na pauta dos jornalistas sindicais, que agora se reunirão todos os meses em sessões de estudo e debate. Isso amplia suas salas solitárias para um universo e expansão.

Agora é seguir em frente, amparados uns nos outros, narrando a vida e permitindo a compreensão profunda do mundo capitalista no qual estamos todos mergulhados. Desvelar as contradições, jogar luz sobre a essência dos fenômenos, gerar conhecimento: esse é o compromisso.

Sob a batuta de Marcela Cornelli, Luciano Faria e Silvia Medeiros, o Coletivo se ergue e caminha. Com eles caminha o jornalismo, vivo, vibrante, ousado e radical.

Longa vida ao Coletivo de Jornalistas Sindicais Vitto Gianotti. O “italianinho” certamente está sorrindo em algum lugar do cosmos.


quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Comissão do impedimento decide destino de Dilma



A última sessão da comissão do impedimento da presidenta Dilma fechou com grandes polêmicas. Uma delas é a proposta de antecipação do julgamento para o dia 25 de agosto, que foi duramente rechaçada pelos deputados contrários ao impedimento. Eles chegaram a ir, depois da reunião, até o STF, para solicitar ao presidente da casa que não aceite essa proposta. 

Agora de manhã, a comissão realiza sua reunião final, na qual votará o parecer do relator que orienta pelo prosseguimento do processo. 

O senador Humberto Costa (PT-PE) foi enfático na sua fala final: “Aqui há dois tipos de senadores. Os que sabem que não houve crime de responsabilidade e que vão votar contra o impeachment, e os que sabem que não há crime de responsabilidade e, mesmo assim, vão votar a favor do impeachment por outras razões, por razões políticas”,.

O próprio Michel Temer, segundo o jornalista Jânio Freitas, teria confirmado que o julgamento é político e que não tem nada a ver com Justiça. 

Isso mostra bem o caráter de golpe que o impedimento tem. Não há argumentos jurídicos, mas apenas o intuito de suprimir o governo petista do mapa. 

Ainda assim, é bem provável que a votação que acontece agora de manhã seja pelo prosseguimento do processo. São 21 votos e 16 já se declararam favorável a isso. 


quarta-feira, 3 de agosto de 2016

E aí vêm as eleições!


























Chegou o tempo, apesar de toda a apatia. E por todos os canais de comunicação já começamos a receber mensagens dos candidatos. Será a hora de mudar o prefeito e a Câmara de Vereadores. Em tese, deveriam ser mudanças para melhor.

No caso de Florianópolis é o momento de fazermos uma análise do que foi o governo de César Souza Junior e João Amin, dois jovens representantes da direita tradicional que se elegeram justamente com o discursos da mudança e da juventude. Mudança, não houve nenhuma, já que eles eram apenas a cara mais nova de uma oligarquia que comanda os destinos da cidade desde décadas. Foi só um jogo de cena alavancado na ideia de que a juventude, por si só, seria o motor de transformações.

Na verdade o que vimos na nossa cidade foi mais do mesmo. César Souza Junior governou para o grupo que o financiou. Empurrou o Plano Diretor goela abaixo à uma Câmara também comprometida com os grupos de poder que a financia. Passou por cima das comunidades e dos desejos da maioria da população. Só mesmo por conta da Justiça acabou voltando atrás e realizando novas audiências, ouvindo o povo. E assim, passados quatro anos, ainda estamos nessa pendenga, sem que o Plano que orienta a vida da cidade tenha sido votado. Todo o tempo tendo de viver essa queda de braço.

O Plano Diretor de Florianópolis é, em última instância, a expressão da luta de classes, porque determina o tipo de cidade que as pessoas querem para viver. No plano da prefeitura, do César, e da maioria dos vereadores, a cidade é espaço de especulação, lugar onde devem viver os ricos. Aos trabalhadores e aos empobrecidos que fique a periferia, com seu transporte ruim, sua estrutura capenga e sua desesperança. O espaço das praias também é lugar de exclusão da maioria. Ali vicejam os condomínios de luxo, os beach clubes (clubes de praia), as mansões. Pescadores e trabalhadores que busquem outros lugares para se divertir, de preferencia bem longe dos turistas.

Já no Plano Diretor discutido e definido pelas comunidades a cidade é lugar de todos, com mobilidade de qualidade, espaços de lazer, compartilhamento e comunhão. Os bairros próximos da praia querem prédios mais baixos, estrutura para os moradores, jardins, parques, ciclovias. Outros, mais urbanos, como o estreito, por exemplo, querem humanização, já que o concreto parece devorar cada rua e cada vida. O plano da prefeitura prevê 18 andares nos prédios. Assim, fica ruim de viver. Por isso a luta incessante, as reuniões, as audiências. A população organizada, que pensa e vive a cidade quer ter na mão o poder que é dela.

Mas, para quem governa, o poder não emana do povo. Vem dos grupos financeiros e empresas que financiam as campanhas em troca de favores futuros. Não foi sem razão que o atual prefeito tirou até o Mercado Público das gentes. Hoje, quem passa por lá só o que vê são jovens engravatados, senhoritas glamorosas ou turistas cheios de dinheiro. O mercado se perdeu da cidade, virou espaço da burguesia, a que pode pagar 14 reais por um pastel gourmetizado, sentada em cadeiras forradas com peles de animais. Ali já não se veem os negros com o samba de roda de todo o sábado, nem os capoeiras, nem os trabalhadores. Embranqueceu o mercado, elitizou, fechou, desapareceu sob um teto estranho que esconde também sua bela arquitetura.

Os vereadores

No campo do legislativo igualmente foi um tempo ruim. Dos 22 vereadores, mais da metade esteve envolvida com denúncias de corrupção ativa. Operações policiais colocaram luz sobre os acordos que acontecem nos gabinetes, enquanto a população dorme pensando que os nobres edis estão cuidando da cidade. Nada disso. Cuidam dos interesses de seus “donos” e dos seus próprios. Exceções há, é claro: Lino, Afrânio, Pedrão. Mas, são isso. Exceções. Pensam nas demandas da população, brigam pelos interesses da maioria que os elegeu - não com seus recursos financeiro, mas com seu voto esperançoso - e não decepcionam.

Já os demais votam contra a cidade, a favor dos interesses de poucos. E, é claro, por conta de seus discursos floreados e mentirosos, fazem parecer que é de interesse de todos o que só alguns vão ganhar. Contam com a ajuda preciosa de uma mídia comercial, que também é braço armado da classe dominante. E aí está feito o cenário. No episódio da votação irregular do plano diretor isso ficou bem claro. A maioria votou no plano da prefeitura, com mais de 600 emendas, sem sequer conhecê-las. E por quê?  Porque não estavam ali para zelar pela cidade, mas para servir aos seus financiadores ou corruptores.

O enrosco com a corrupção não fez sequer que a maioria corasse, tanto que nos processo de tentativa de cassação dos vereadores corruptos, essa maioria se omitiu ou votou contra, permitindo que tudo ficasse como sempre foi. E lá seguem os mesmos vereadores que votam contra a cidade, esperando pela nova legislatura.

Agora, começa de novo o processo de caça ao voto. E os candidatos dos partidos que defendem os interesses dos ricos, dos empresários, da classe dominante, estão por aí, fazendo linguições, churrascos, feijoadas, tainhadas, tentando enredar os eleitores. Muitos – amigos – votam nesses corruptos achando que estão fazendo um bem para a cidade. Sequer sabem o que eles defenderão no futuro, e nem se importam. Faz parte da lógica dessa nossa democracia fraca, que permite unicamente o doce momento do voto, sem participação na construção da proposta, e sem acompanhamento posterior.

Por isso é sempre difícil uma alternativa de esquerda, porque essas exigem comprometimento, participação, acompanhamento sistemático. Votar num candidato de um partido comprometido com a maioria é sempre muito mais do que colocar o voto na urna. Não envolve participação em churrascadas, nem busca qualquer ganho pessoal. É a aposta num projeto de cidade, para além da rua, do bairro. É embarcar numa proposta que busca garantir o direito de viver e vivenciar a cidade, qualquer espaço dela. É um compromisso coletivo. Coisa difícil de se ter num mundo que investe todas as fichas no individual, na sensação pessoal, no interesse.

Também é certo que o panorama político atual não é dos melhores. Os partidos de esquerda capengam em alianças mal havidas, buscando galgar alguns degraus de governabilidade, entregando a alma ao diabo. E os que mantêm firmes seus princípios de esquerda acabam ficando perdidos, entre o voto nulo e o voto útil. Está bem difícil agir como antes, quando se votava num projeto global partidário. Agora, escolhe-se alguém no universo dos companheiros e companheiras do campo da esquerda, e fica-se esperando que ele ou ela não sucumba às alianças espúrias cometidas pelas cúpulas dos partidos. É sempre uma aposta no escuro. Porque, claro, o partido sempre prevalecerá.

Em Florianópolis tudo leva a crer que a melhor opção é o Elson Pereira, do PSOL, justamente porque ele vem discutindo – desde há tempos  - o projeto de cidade com o qual estamos afinados. Não que o PSOL seja o melhor partido, mas o Elson acaba sendo a melhor escolha, justamente pelo acúmulo de debate que ele e o seu grupo têm sobre essa cidade que queremos e pela qual lutamos. Foi assim na eleição passada, quando suas propostas visceralmente ligadas aos desejos construídos nesses anos de debate sobre o Plano Diretor, surpreenderam as forças políticas conservadoras e conseguiram furar bloqueios em mentes variadas e suprapartidárias. Agora, mesmo tendo estado afastado por um tempo, na Europa, certamente ele canalizará na campanha, o projeto de cidade com o qual vimos sonhando.

No espaço da Câmara de Vereadores também as mudanças urgem. Não basta termos um prefeito com um projeto bom. Precisa que ele tenha maioria no legislativo, senão os melhores sonhos e propostas ficam pelo caminho. Então, é tempo de pensar. Não se pode votar em alguém só porque é nosso amigo ou nos fez um favor. Tem que saber se esse alguém defende um projeto coletivo de cidade. Não basta votar em negro porque é negro, nem em mulher porque é mulher, nem em homossexual porque é homossexual. Há que ver se esse negro, essa mulher, esse ou essa homossexual está vinculado ou vinculada a uma proposta que ultrapasse os particularismo. Um vereador ou uma vereadora não vai legislar só por uma causa, ainda que a priorize. Ele ou ela precisa votar e definir coisas que dizem respeito a toda a cidade.  

No universo de nomes que hora se apresentam encontro muitos companheiros e companheiras que têm esse perfil. São pessoas que defendem causas específicas, mas que também estão mergulhadas nas lutas gerais da cidade, plano diretor, saneamento, mobilidade, segurança, educação, saúde. Esses são os que merecem nosso voto. No campo da esquerda e com compromisso universalizante.

Com profundo respeito aos compas que estão nessa peleia, eu já defini meu voto: será no Lino Peres, do PT. Apesar do partido (quase saído do campo da esquerda), o trabalho realizado pelo Lino na Câmara de Vereadores é o que está mais próximo daquilo que eu acredito que deva ser o compromisso de um vereador. Tem foco e é totalizante. O Lino pensa a cidade, vive a cidade, organiza, convoca à participação sistemática, diária e cotidiana. Nesses quatro anos passados, de fato ele representou, em cada voto que deu, em cada ação que promoveu, aquilo que, para mim, define os desejos da maioria das gentes que amam Florianópolis. Penso que será importante que ele continue o trabalho que vem fazendo, e que outros companheiros, dos demais partidos do campo da esquerda, possam também furar esse bloqueio oligárquico que sobrevive na capital.

Querendo ou não, a vida da cidade ainda se define nesses espaços – como a Câmara e a Prefeitura - então não podemos vacilar. Avançar na organização, nos movimentos e nas mobilizações, mas não deixar esses espaços de poder ocupados por quem nos oprime. A batalha legislativa não é a mãe de todas as batalhas, mas, enquanto não tivermos um partido revolucionário  ( como insiste nosso querido Danilo Carneiro), há que fazer como o caracol: “lentamente, ir subindo o Monte Fuji”.