sábado, 14 de março de 2015

sexta-feira, 13 de março de 2015

A marcha dos trabalhadores
























Na conservadora cidade de Florianópolis, os trabalhadores se manifestaram nessa sexta-feira, 13. Desde o início da tarde já foram chegando à frente da catedral, espaço histórico de luta, na Praça XV. Não foram poucos os que lembraram a “novembrada”, quando, naquele mesmo lugar, os estudantes, em plena ditadura, colocaram o presidente João Figueiredo para correr. Vieram aqueles que, na verdade, sempre estiveram nas ruas, em atividades e protestos. Os sindicalistas, acostumados às lutas corporativas, os trabalhadores sem-terra, sempre na batalha por reforma agrária, os trabalhadores do transporte, que inclusive estão numa luta intensa de proteção da vida dos motoristas de ônibus estaduais e dos passageiros, denunciando as condições desumanas de trabalho. Vieram os funcionários públicos, igualmente acostumados a peleias contra a privatização, por melhores salários e condições de trabalho. Vieram operários, comerciários, trabalhadores informais. Cada grupo trazia sua pauta.

A manifestação deste dia 13 tinha reivindicações claras: a defesa da Petrobras pública, contra a retirada de direitos, contra a política de arrocho, por uma Constituinte soberana e também pela defesa do processo democrático. Vieram os que defendem o governo Dilma e denunciam o golpe, e vieram os que criticam o governo, mas não aceitam os argumentos da oposição para um impedimento. A pauta unificadora estava colada aos interesses dos trabalhadores. 

A marcha não apresentou maiores novidades na sua composição. Velhos militantes de lutas pretéritas, e uma juventude ligada ao PT e PC do B. Só não vieram os militantes do PSOL, PCB e PSTU – sempre uma força importante na luta dos trabalhadores - que declararam não apoiar qualquer das marchas, evitando assim se contaminar com o governismo e com o golpismo. 

Durante a caminhada, que percorreu o centro da cidade, também nenhuma novidade na reação de quem saiu para ver a rua avermelhada pelas camisetas dos manifestantes. Pessoas xingando o MST, mandando que fossem trabalhar, um que outro xingando a presidente Dilma e a maioria observando em silêncio. Muitos tirando fotos com seus celulares. 

A manifestação seguiu tranquila até a frente do terminal onde aconteceram falas, explicando para a população as pautas dos trabalhadores e terminou no Terminal Rita Maria, de ônibus interestaduais e intermunicipais, onde foi feito um protesto pelas más condições de trabalho dos motoristas. Só a empresa Reunidas já teve quatro ônibus tombados nesse ano, por conta do excesso de trabalho dos funcionários.

Participou da marcha um representante do sindicato dos trabalhadores da Petrobras, que contou para a população sobre a situação da empresa e afirmou que os trabalhadores sempre denunciaram a corrupção que havia na empresa desde os tempos passados, mas que as investigações nunca avançaram. “Agora, tudo é investigado e os ladrões estão sendo presos”. Lembrou que a Petrobras é uma empresa que investe mais de 300 milhões por dia no Brasil e gera mais de um milhão e 500 mil empregos diretos e indiretos, participando de 13% de toda a riqueza nacional. “Antes era só 3% a participação na riqueza, uma empresa que estava sendo sucateada, sendo entregue às multinacionais. Agora, é isso que está em jogo, a riqueza. E é isso que temos de defender.”

A mobilização terminou com os trabalhadores cientes das grandes lutas que precisam ser travadas, seja quem seja o governo. Sobre o dia 15 os trabalhadores sabem que é uma marcha chamada pelos empresários, pelos grandes meios de comunicação. Nessa não haverá policiais com cães, nem outros fotografando em cima dos prédios, nem xingamentos de “vão trabalhar”. Possivelmente devem participar também trabalhadores, defendendo a abstrata pauta de “contra a corrupção”, afinal, não há ninguém no mundo que seja favorável a isso. Será a marcha do “fora Dilma”, do “impedimento”, legítima também, dentro da luta dos interesses da pequena burguesia, de parte da classe média e da oligarquia dominante. 

É a luta de classe, se fazendo concreta.  


quinta-feira, 12 de março de 2015

Desmilitarizar a PM

Entrevista com o coordenador de imprensa da Associação de Praças de Santa Catarina, Everson Henning.


terça-feira, 10 de março de 2015

A luta de classes no Brasil



Tenho acompanhado a gritaria nas redes sociais sobre o panelaço durante a fala da presidente Dilma. Não consigo ver nada de "absurdo" nesse ato. Até gosto de ver que, finalmente, as classes sociais no Brasil estão se manifestando,  de um lado e de outro.

Quando a direita governou o Brasil, por centenas de anos, as manifestações eram da esquerda. Lutas de toda ordem, por direitos, por liberdade, por terra, por salário, enfim, tudo o que torna a vida dos empobrecidos, dos trabalhadores, dos explorados, melhor. Sempre houve manifestações, protestos, gritos de fora esse, fora aquele. Os ricos, os opressores, a classe dominante nunca precisou se manifestar por nada. Eles tinham o controle de tudo. A única coisa que precisavam fazer era ordenar as tropas da repressão para o combate aos lutadores. 

Nos últimos tempos, na vez que os ricos se sentiram realmente ameaçados - e eram apenas algumas reformas propostas pelo povo e aceitas pelo governo de João Goulart - o que eles fizeram? Aliaram-se ao exército e colocaram as tropas nas ruas. Prenderam, torturaram, mataram todos aqueles que ousavam gritar ou lutar contra o estado de exceção. Eles tinham a força e a usavam, sem pruridos.

Eis que o Lula chega ao poder em 2003. Nem era mais esquerda, dada as alianças que fez com a burguesia nacional representada pelo seu vice. Mas, ainda estava colada em Lula toda uma história de resistência ao regime militar, toda a construção - pela esquerda - feita pelo Partido dos Trabalhadores. Então, etiquetaram o governo dele de "esquerda", embora estivesse completamente integrado a lógica social democrata. Ceder em alguns pontos para os trabalhadores e empobrecidos, mas manter os privilégios da sempre classe dominante. A jogada funcionou. Em tempos de crescimento econômico, a claudicante classe média encantou-se com a possibilidade de comprar coisas, ter crédito e tudo mais. Ficou do lado de Lula. Os graúdos não tinham grandes perdas econômicas, os mais pobres conseguiram garantir políticas públicas. 

Ainda assim, o governo de Lula foi bastante generoso com a velha elite rapinante. Garantiu boas vantagens aos banqueiros, introduziu os transgênicos, ampliou a fronteira agrícola dentro da lógica do agronegócio, domesticou o movimento de trabalhadores. Fez dois mandatos em relativa paz, com a economia controlada.

Então veio a Dilma, sua herdeira política, seguindo a mesma cartilha e com a mesma coloração de esquerda, embora as bandeiras já estivessem rasgadas e o caminho cada vez mais liberal. Já no final do primeiro mandato, a curva do crescimento começou a cair e aí a classe dominante - que nunca saiu do poder  - começou a cobrar mais e mais. Já não era suficiente o que tinha, afinal, com o crescimento em baixa as vantagens não bastavam. Precisava retomar o controle do barco. Até então tinha sido razoavelmente cômodo aturar os chamados "esquerdinhas" com suas políticas para a pobreza. Mas, com o anúncio de tempos difíceis era melhor retomar o leme. Mesmo que os dois governos petistas estivessem sempre ajoelhados diante dos interesses dos graúdos, já não era mais possível deixar que seguissem no comando.

Veio a reação. Aécio Neves disputou com Dilma no mesmo campo. Poucas eram as diferenças programáticas, e as que existiam estavam colocada nas políticas públicas. O PT ainda conserva em alguns dos seus quadros um certo sentimento "cristão", fruto de suas origens, o que permitiu acreditar que se manteriam as políticas de combate à pobreza que, de fato, deram um certo respiro a milhões de pessoas no país. Nada muito revolucionário no campo político, mas significativo para quem nunca teve renda ou acesso à educação. 

E foi aí que começou a reação da classe dominante para retomar o comando do estado, já que das demais áreas nunca saíram. Não queriam mais os petistas a seus pés. Os queriam fora do caminho, definitivamente. Na queda de braços eleitoral, Dilma levou vantagem, mas, completamente dominada pela tal "governabilidade" decidiu abrir mais espaço para os velhos grupos de poder. Não mais escamoteando. Tudo bem às claras. Kátia Abreu na Agricultura, Joaquim Levy  , na Fazenda, Cid Gomes na Educação, e até Mangabeira Unger - que sempre orbitou o círculo tucano - na Secretaria de Assuntos Estratégicos. Nada poderia ser mais servil.  

Entre os eleitores ingênuos da presidenta, veio a perplexidade e um sentimento de traição. Não bastasse isso, a locomotiva dos BRICs começou a diminuir a marcha. Voltou o mantra do "apertar os cintos", como sempre apenas para a classe trabalhadora. A classe média, que aplaudiu a abertura do crédito sem limite nos dois governo Lula, começou a esganiçar, ainda que não compreendendo totalmente  a armadilha na qual estava colocada. Grita contra o governo porque vê o preço da coisas subir, no mais das vezes, seguindo o diapasão da mídia. O panelaço foi um pouco isso, motivado pelo aumento da gasolina e alavancado pela greve dos empresários do transporte.

Nesse cenários passamos a ver algo ao qual não estávamos acostumados: a ação de "luta" da classe dominante. No tabuleiro político, com o desejo de retomada do comando do Estado, as forças da direita começaram a tramar o seu roto tecido de apoios. E são esses apoios - concretizados na pequena burguesia, em parte da classe média e alguns integrantes da classe dos trabalhadores que seguem amarrados aos interesses da classe dominante - os que começam a se mexer em atos de protesto. Sim, porque a classe dominante mesmo, os ricos, os graúdos, esses não se dignam a sair de seu conforto para qualquer ação. Quem se manifesta é o grupo que a orbita. 

É por isso que o "panelaço" se fez ouvir nos prédios mais refinados e mesmo nos redutos da classe média. São esses que fazem o trabalho braçal enquanto os velhos coronéis pitam seus charutos e observam, entre largos sorrisos e barrigas forradas. Não que não estejam aí também os trabalhadores, que aproveitam para extravasar suas demandas, o que é óbvio. É que o clima de "protesto" tem esse dom de contaminar, ainda mais quando apoiado pelos tradicionais inimigos das mobilizações. Vejam como a mídia cobre a greve dos professores do Paraná, por exemplo, em comparação com a chamada greve dos caminhoneiros.  No Paraná são os "baderneiros", aos quais está destinada a força da repressão, nas estradas são os "heróis". 

Longe de mim fazer a defesa do PT. Creio firmemente que foi justamente sua política claudicante que jogou o Brasil nessa espécie de limbo político, no qual  as pessoas já não conseguem mais vislumbrar as fronteiras do que seja direita e esquerda, do que seja algo bom para as gentes, e do que seja interesses dos graúdos. Tudo está muito misturado, justamente pela incapacidade do governo em cumprir aquilo com o qual se comprometeu na campanha: guinar para a esquerda, avançar na democracia participativa, batalhar pelas bandeiras históricas da classe trabalhadora. 

Meu papel como pessoa que pensa a realidade é expor os elementos da conjuntura desde meu ponto de vista. E o que vejo é a luta de classe se explicitando de maneira clara. E classe no contexto do que dizia Lênin: “Chamam-se classes a grandes grupos de homens que se diferenciam pelo seu lugar no sistema historicamente determinado de produção social, pela sua relação (na maioria dos casos confirmada e precisada nas leis) com os meios de produção, pelo seu papel na organização social do trabalho e, por conseguinte, pelos meios de obtenção e pelo volume da parte da riqueza social de que dispõem. As classes são grupos de homens em que uns podem apropriar-se do trabalho dos outros graças à diferença do lugar que ocupam num sistema da economia social”. A luta que temos visto no Brasil é essa. O grupo que domina os meios de produção e que se apropria do trabalho das gentes quer retomar seu lugar à frente do comando do país. Não quer mais gerentes. E, para isso, está travando a sua batalha. Ela se dá nos meios de comunicação, nas ruas, e vai disputando corações e mentes. O mote é ser contra o PT, porque é esse partido que gerencia o barco. 

Nossa desgraça reside no fato de quem nem a classe dominante nos serve, nem o PT, justamente por servir aos interesses dos primeiros. Teríamos de ter uma opção que brotasse da luta mesma, dos trabalhadores, dos oprimidos. Só que esta opção ainda está em construção. Muito trabalho ainda temos pela frente, inclusive o de barrar o golpismo, manobra das velhas oligarquias que apesar de serem donas do campinho e de todos os jogadores, ainda querem a bola. É preciso muita frieza política, muito estudo e muita compreensão da realidade para não cair no golpe do golpe. Seguir o trabalho de articulação e organização da classe trabalhadora, construir uma alternativa de poder que garanta o bem viver e fazer acontecer a revolução brasileira. Trabalho lento, mas necessário. 

quinta-feira, 5 de março de 2015

De vitórias e derrotas ou sobre como a vida é mesmo um dia após o outro



O ano de 2014 terminou de maneira pesada para os trabalhadores técnico-administrativos em educação (TAEs) da UFSC. Depois de uma inédita greve interna, da qual saíram fragorosamente derrotados, foi preciso atravessar o deserto do recesso escolar para entrar o mês de março e, aí sim, compreender que aquilo que se configurou como uma derrota, foi, na verdade, uma vitória da categoria e da classe trabalhadora. Explico.

Terminada a greve coordenada pela Fasubra, na metade do ano de 2014, os trabalhadores da UFSC voltaram às atividades. Traziam como bônus do movimento uma importante mobilização pelas 30 horas, que é o atendimento ininterrupto da universidade, em turnos de seis horas.  Já tinham avançado no debate e nas negociações com a reitoria. Mas, para surpresa geral, tão logo acabou o movimento grevista, a reitora da UFSC, Roselane Neckel, decidiu, sem qualquer debate com a comunidade, exigir a jornada de oito horas para todos os trabalhadores. Sem considerar que, historicamente, muitos setores já praticavam as seis horas, configurando uma resistência importante nessa luta que é mundial, pela redução da jornada.  Foi uma decisão autoritária e anti-democrática que desconsiderou todo o processo de luta e mobilização dos TAEs.

Essa ação provocou grande descontentamento e a categoria, em assembleias massivas, decidiu pela greve interna. Mas, aquela seria uma greve diferente. Em vez de parar o trabalho, eles ampliariam o atendimento, abrindo ao meio-dia e à noite. A universidade funcionaria  em turnos de seis horas, de maneira ininterrupta. Foi uma decisão histórica.

A greve que se seguiu foi bonita e mobilizadora. A universidade adquiria outro frescor, oxigenada por uma nova geração que entrou disposta a não deixar morrer as bandeiras históricas. Mas a batalha que se seguiu mostrou também uma administração que - eleita com um discursos de transformação - se mostrava mais autoritária do que todas as que já haviam passado pela UFSC.

As teses da reitoria

A greve dos trabalhadores foi recebida com desdém. Imediatamente a administração disseminou a tese de que aquela greve era ilegítima, porque seria a sequência da greve da Fasubra, terminada por força da Justiça. Logo, dizia Roselane, a greve interna era ilegal. Durante todo o processo a reitora negou o movimento. Para ela, a greve não existia, ainda que as movimentações fossem intensas e visíveis.

Baseada nessa tese, corroborada pela Procuradoria da UFSC, a reitora também decidiu, de forma inédita, punir os trabalhadores com o corte de salários. Passado um mês do movimento, os salários vieram descontados, a partir de uma conta maluca que cada chefete de plantão fazia. Ninguém conseguiu saber os critérios de contagem das faltas. Assim, pela primeira vez na história, os trabalhadores tinham o salário descontado em greve, justamente na greve em que não houve paralisação dos serviços. Uma aberração de autoritarismo e falta de respeito com a autonomia do movimento.

Depois de três meses de luta e descontos, os trabalhadores se viram obrigados a encerrar a greve, após terem sido traídos pelo Sindicato que, numa assembleia, com o voto ilegítimo de aposentados, conseguiu maioria e encerrou o movimento, recusando-se a encaminhar qualquer ação para proteger os trabalhadores que estavam em processo de punição. Foi um momento de profunda dor para os trabalhadores. Massacrados pela reitoria e traídos por parte dos colegas. Não foi fácil.

Para fechar o processo, a reitoria ainda encaminhou para as fichas dos trabalhadores grevistas as anotações de "faltas injustificadas", o que, no jargão da administração é "sujar a ficha" da pessoa. Trabalhadores em estágio probatório, por exemplo, poderiam ser prejudicados na avaliação e mesmo os mais antigos poderiam ter suas progressões negadas. Era uma pá de cal no grupo de lutadores que, durante todo o tempo que durou a greve, teve de se  bater contra o autoritarismo da administração, a má vontade do sindicato e o silêncio cúmplice da comunidade universitária - principalmente dos professores.   

O tempo da justiça

A derrota do movimento tinha sido avassaladora. Sozinhos, os trabalhadores tiveram de muito batalhar para que o sindicato minimamente cumprisse sua função de defesa da categoria, até que, finalmente, fosse decidido entrar na Justiça para requerer a legalidade da greve e a limpeza das fichas, já que para os trabalhadores aquele tinha sido um movimento diferente do da Fasubra, uma greve interna, portanto legítima.

Os meses se passaram, foi feito um bazar de denúncia e arrecadação de dinheiro para os descontados, veio o natal, o ano novo, o carnaval. A universidade dormia em berço esplêndido nas férias escolares e ainda tripudiava sobre os derrotados, com um grupo de professores insistindo em defender a retomada das eleições para reitor no sistema de 70/30. Mais um golpe para cima dos TAEs, visando impedir que tivessem peso na decisão. Não bastava ter cortado os pescoços, era necessário esquartejar os corpos todos.  
Tudo parecia em paz. A administração seguia feliz, deitada nos louros da vitória sobre os trabalhadores.  Mas, no final do mês de fevereiro, passados os festejos de momo, a justiça se manifesta sobre o mandado de segurança dos trabalhadores, que discutia a legalidade dos descontos de salário.

Na sentença do juiz Diógenes Teixeira caiu por terra a tese da reitoria, sob a qual Roselane Neckel tentou alavancar sua batalha contra os TAEs. A greve era legítima e não estava vinculada à greve da Fasubra. O juiz, como já assinalavam os trabalhadores, considerou que a greve era um outro movimento, portanto, não estava sob o peso da ação judicial que encerrou a greve da Federação.  Perdeu, Roselane.

Vencida essa etapa e sendo a greve um direito dos trabalhadores, igualmente sem conexão com o movimento anterior, a reitora teria de amargar outra derrota política: as fichas dos trabalhadores teriam de ser "limpas" por força da lei. Se a greve era um movimento ilegal, as faltas que pudessem decorrer delas não era injustificadas. A lei garante ao trabalhador o direito de lutar. Logo, uma falta de greve é uma falta justificada. Roselane teria de voltar atrás na decisão de "sujar" a ficha dos grevistas. Perdeu!

O juiz ainda definiu que o corte de salário era facultado à administração - uma decisão política, portanto - mas que não poderia passar dos 10% . Como muitos trabalhadores tiveram descontos que passaram dos 50%, os valores teriam de ser devolvidos. Nova derrota para a administração.

Assim, os trabalhadores da UFSC, que saíram de 2014 derrotados, iniciam o mês de março com uma vigorosa vitória política. Todas as teses da reitoria foram derrubadas. Toda a luta vivida por quase três meses pelos trabalhadores adquiriu legalidade perante a administração e todos os atos de injustiça cometidos contra os trabalhadores tiveram de ser revistos.

Roselane e Lucia - reitora e vice - tentaram quebrar as pernas dos trabalhadores, principalmente dos novos, que foram a força vital do movimento. Não conseguiram. As esperadas 30 horas não vieram, mas todos sabem que aquela foi só uma das muitas batalhas que ainda precisam ser travadas nesse processo de redução de jornada. Essa não é uma luta isolada da gente da UFSC. É uma demanda mundial. As novas tecnologias já permitem um  processo de trabalho capaz de garantir a redução da jornada. Isso é uma questão de tempo.

A reitora Roselane Neckel, que se elegeu com o apoio dos TAEs e estudantes, perdeu o bonde da história. Poderia ter sido aquela que mudou a vida das universidades, a que teve coragem de começar um novo tempo na história dos trabalhadores. Não foi. Preferiu entrar para a história da UFSC como a primeira reitora a descontar salários em greve  e a primeira a decidir sobre o processo de trabalho dos TAEs sem qualquer diálogo com eles. Autoritária e surda aos anseios de seus colegas de instituição, teve de recuar por força da Justiça. Perdeu!

Agora, em 2015, os TAEs da UFSC já começam a se mobilizar para uma nova campanha salarial. Novas lutas, novas batalhas. Nos corredores, nas salas de trabalho, nos espaços da universidade já se pode perceber a movimentação, a conversa, a mobilização. O ano de 2014 foi duro, mas não derrubou ninguém. A vitória de Roselane foi de Pirro. A derrota dos trabalhadores fortaleceu o grupo e impulsiona nova lutas.


A vida é como a primavera. Sempre brota depois do inverno. Brotaremos!...


quarta-feira, 4 de março de 2015

O Brasil e as marchas de março


















Ouvi de um amigo agora pela manhã, falando sobre a marcha do dia 15, chamada pela direita brasileira: "Eu já não sei mais o que é esquerda, o que é direita". Eis aí um grande nó para a compreensão da realidade. Acreditar que não há mais diferenças na forma de pensar e agir sobre o mundo é cair numa armadilha de alienação. Sempre foram muito claros os conceitos de direita e esquerda. Ser de direita é apostar na conservação dos privilégios de poucos, é a postura da maioria dos mais ricos, por exemplo. Eles querem seguir controlando as riquezas do país, para delas tirarem proveito, querem dominar o espaço político, querem manter os mais pobres sob controle. Já ser de esquerda é lutar contra isso, garantindo participação para todos, direitos respeitados, o fim da opressão.

Pode parecer meio simplista explicar as coisas assim, mas de fato a coisa é mesmo simples. A sociedade está dividida em classes sociais. Uma, controla a produção e a outra vende seus serviços. Uma domina, outra é explorada. E é justamente sobre a exploração de uma classe que a outra garante seus lucros e sua vida boa. No meio desse processo as pessoas vivem uma sistemática batalha. Os que são explorados querem uma vida melhor, e os que exploram procuram não permitir que isso ocorra. Quando muito abrem mão de coisas pequenas, quando a luta se acirra, apenas para tentar acomodar as coisas. Mas, no fundo, segue apostando na manutenção dos privilégios.

A confusão sobre o que é ser esquerda e direita, em parte, foi provocada pelo próprio Partido dos Trabalhadores, hoje no poder político. Forjando toda a sua construção em pautas da esquerda, o partido chegou ao governo e passou a ceder passo aos velhos grupos da tradicional direita. Tudo isso dentro da chamada tentativa de governabilidade. Dilma, por exemplo, agora , nesse segundo mandato chegou ao cúmulo de entregar setores estratégicos como as finanças, a agricultura e a educação para figuras carimbadas da direita nacional. Difícil então não ficar confuso.

O fato é que esses malabarismo de governabilidade só alimentam o monstro. A elite brasileira é insaciável. Não lhe basta ter os setores estratégicos na mão. Ela quer tudo. Então, engordados pelo próprio governo, os velhos grupos de poder vão se fortalecendo, chegando ao ponto de pedirem o impedimento e a renúncia da presidente. As razões para isso - aparentemente - são as irregularidades na Petrobras. Argumentos bastante pueris e insustentáveis. Mas, apesar da fragilidade da consigna, esses grupos tem conseguido aglutinar pessoas que, mesmo no grupo dos explorados, por algum motivo "compram" a proposta da direita. Temos visto gente gritando pela volta do regime militar, argumentando que será só para tirar a Dilma, "depois eles entregam o país". Para quem? Ah, bom, isso não importa. Há uma completa falta de compreensão histórica. Os tenebrosos anos de regime militar, que tantos horrores causaram nos mais variados países latino-americanos parecem ter sido apagados da memória. Existe uma juventude que tampouco tem noção do que está dizendo quando chama a intervenção militar. É uma ingenuidade muito bem aproveitada pelos marqueteiros do golpe.

Agora, os movimentos sociais, cuja maioria estava adormecida e domesticada,começam, lentamente, a perceber que há uma grande batalha em curso. E procuram uma reação. Por isso estão chamando uma marcha para o dia 13, dois dias antes da marcha da direita. E, assim, o Brasil vai  realizar um exercício de manobras nas ruas, expressando claramente os interesses em jogo.

Na marcha do dia 13 estão os sindicatos de luta, os movimentos populares, as entidades de direitos humanos e civis. Estará a esquerda crítica e estarão também os que apoiam Dilma. Porque a pauta da marcha do dia 13 é uma pauta dos trabalhadores. As gentes marcharão em defesa da Petrobras, por reforma agrária, por demarcação de terras indígenas, pela democratização da mídia, pelo combate à corrupção. Será uma mobilização da esquerda, com propostas que visam a melhoria da vida de todos os brasileiros, especialmente dos empobrecidos e dos que têm apenas a sua força de trabalho para vender.

Já  a marcha do dia 15 é a marcha do golpe, da direita organizada e dos que, mesmo explorados, são seduzidos por um canto de sereia que promete mudanças. Mas, a mudança prometida é da manutenção dos privilégios e dos mesmos velhos grupos de poder. Sem matizes. Participar disso é apoiar o atraso.

Mas, para muitos, a marcha do dia 15 é unicamente o libelo contra a Dilma. Ora, eu também estou contra as políticas implementadas pelo governo Dilma. Mas isso não significa que, por conta disso, vou me aliar ao que há de mais nefasto nesse país. Como bem diz o professor Nildo Ouriques, o projeto petista esgotou. O que igualmente não significa que no seu lugar tenha que ser colocado o outro velho projeto - da direita - que também esgotou. Ou será que as pessoas não se lembram do que FHC causou ao país nos seus dois mandatos? Se hoje, o governo petista se assemelha àquele, qual é a saída? Constituir o novo! Rearticular as forças, combinar projetos de transformação, avançar, ir para frente.

Assim que não é necessário viver em confusão. Os clássicos elementos que diferenciam a direita e esquerda seguem vigentes. Pode-se dar outro nome para isso que alguns insistem em negar, mas o fato é que tudo é muito simples. Ou estamos caminhando junto com os trabalhadores, os explorados, os empobrecidos, ou estamos de mãos dadas com os poderosos, os exploradores, os que sangram a maioria em nome de seus interesses pessoais. Simples assim.

Por isso que nessas horas de acirramento da luta de classes não há espaço para vacilação. Temos de estar com os trabalhadores, ainda que alguns deles sigam tendo ilusões com o governo petista.   



segunda-feira, 2 de março de 2015

Os cossacos




Desde bem menina eu lia livros antigos sobre os bravos cavaleiros que defendiam a fronteira sudeste da “mãe” Rússia contra os tártaros. Era os cossacos, com seus gorros de pele, casacos pesados, botas longas e cavalos ligeiros, que saltavam das páginas de Gogol, Puskin, Tolstoi. Meu pai dizia que eles eram parecidos com os gaúchos, os que povoavam os campos que víamos da janela. Homens livres, centauros, cruzando as estepes geladas. Eu os amava e sonhava com eles. No toca-discos, ouvíamos as canções cossacas e o mundo se enchia do tropel de cavalos. Eles chegaram a ser o grupo militar mais temido do mundo, tanto que Napoleão lhes rendeu loas, dizendo que, tendo-os, conquistaria o mundo.

Durante a revolução russa os cossacos se dividiram, uma parte lutou com os bolcheviques, outra abominou a proposta comunista. Parte desse grupo, mais tarde chegou a aliar-se ao nazismo. Foi um tempo difícil. Por conta desse divisão, as gentes cossacas foram perseguidas, se dispersaram e muito do mito do grande guerreiro cossaco desapareceu. Não em mim. Vez em quando, as velhas músicas e os livros na estante da casa dos meus pais, me remetiam outra vez às estepes e eles viviam outra vez.

Agora, com os conflitos na Ucrânia eles me vêm, já que foram praticamente os responsáveis pela criação do que hoje é esse país. De que lado estarão? Lendo um texto aqui, outro ali, na imprensa europeia, vejo muitos jovens reivindicando o passado cossaco, mas, aquele, quando os cossacos se aliaram a Hitler. Tristeza profunda.

Por outro lado o governo de Putin tem feito um trabalho de recuperação da identidade cossaca, inclusive formando escolas militares cossacas, buscando trazer os velhos ensinamentos dos guerreiros míticos das estepes. Há até uma força policial especial formada só por cossacos que patrulha as ruas de Moscou e de outras cidades russas.

Eu não tenho muita informação sobre como isso está funcionando, nem sobre as intenções políticas dessa etnia que ressurge com força. Mais de 650 mil pessoas se autodeclararam cossacas na Rússia atual. Se serão os guerreiros livres do passado longínquo, ou a extrema direita nazi, só o tempo dirá. Talvez as duas coisas, como na revolução russa.

Mas, em mim, ainda reverbera a canção que evoca os tempos mais antigos, os cavalos ligeiros, a liberdade da estepe. E ela está aí, na voz do grande Ivan Rebroff, que nem era cossaco, mas os amava, como eu.